terça-feira, 30 de novembro de 2010

# 171 - 26/11/2010

O programa de rock da última sexta-feira foi ao ar no clima da “Zombie walk”, flash mob inspirado na criação imortal de George Romero que aconteceu no sábado, dia 27, na praia de Atalaia (é isso aí, zumbis praieiros !!!). Por isso tocamos “exército de zumbis”, faixa do mais novo lançamento do Ratos de Porão, um split com a banda Looking for an answer, “Zombies”, música da excelente banda de skacore sergipana Friendship, uma faixa de “Fome de tudo”, último disco da Nação Zumbi, e outra de “aqui começa o inferno”, dos zumbis do Espaço. No último bloco, praticamente na íntegra, a trilha sonora de “Return of the living dead”, clássico trash dos anos 80 e uma das mais célebres paródias aos filmes de zumbi, com nomes como The Cramps, The Damned, 45 Grave (pioneiros do “horror punk”) e TSOL (True Sounds Of Liberty).

Tivemos ainda Os Reis da Cocada Preta, banda paraibana que se apresentou em mais uma Noite Fora do Eixo junto com os sergipanos The Baggios e Urublues, um bloco psychobilly, cortesia de nosso camarada Igor, the perigor, sergipano atualmente radicado no Paraná, e algumas bandas brasileiras eletrônicas “low fi” underground dos anos 90, incluindo três projetos sergipanos capitaneados pelo artista plástico e multiinstrumentista autodidata Jamson Madureira: Camboja, Misery High Tech e uma faixa de um disco solo que ele lançou já nos anos 2000.

O Camboja foi uma das mais interessantes formações rock do cenário sergipano. Começou como mais uma das muitas bandas de grindcore que surgiram na época, mas já com uma pegada diferente. A primeira formação, no entanto, não demorou muito – o tempo apenas de gravar uma demo-tape e fazer 2 ou 3 shows. Com a saída de Fúria e Sergio (este ultimo para fundar uma outra banda, a METÁFORA, mais direcionada ao metal propriamente dito, especificamente o thrash metal), Jamson Madureira, baterista na primeira demo, dedicou-se a tocar guitarra e continuou o projeto como uma “one man band”. Para acompanhá-lo na empreitada passou a experimentar percussões eletrônicas rudimentares que produziram alguns resultados bastante interessantes, porém de péssima qualidade sonora. Com o tempo foi convencido a recrutar um baterista, o que se concretizou na figura de Lelinho, sobrinho de Sylvio e então balconista da Lokaos, uma loja especializada em rock que ficava na Rua de Santo Amaro, no centro de Aracaju. Não abandonou por completo, no entanto, as experimentações eletrônicas, passando apenas a encaixá-las como vinhetas ou mesmo usando-as como percussão com baterias eletrônicas em algumas musicas. O resultado foi bastante inusitado e eu diria até que revolucionário para o cenário local da época, muito preso a fórmulas já um tanto desgastadas e repetitivas. Gravaram uma nova demo, intitulada “Lies about freedom”, e passaram a fazer shows, àquela altura (1992/93) já bastante influenciada pela ascenção de uma cena forte de rock industrial pelo mundo, capitaneada pelo Ministry e pelo Nine Inch Nails. Mas seguiu seu caminho meio que solitária, nadando contra a maré. Tornou-se uma banda “cult” entre os que compreenderam melhor sua proposta inovadora, mas não fazia grande sucesso entre os punks e headbangers, que eram a esmagadora maioria entre os que freqüentavam shows alternativos na época. Isso porque a banda tinha realmente um som bastante original. As musicas eram, invariavelmente, extremamente minimalistas – um riff (sempre muito bom, diga-se de passagem) e uma frase em inglês repetidos à exaustão até o fim – que não demorava muito, as faixas não costumavam durar mais que 2 minutos. Nos shows, muito improviso, regados a ruídos de microfonia, distorção e dissonâncias, e nas demos muitas colagens de sons, sempre muito bem sacadas e bem encaixadas. Isso tudo com o mínimo de recursos. É de se imaginar o que Madureira conseguiria fazer, na época, se tivesse à sua disposição a tecnologia de que um Al Jourgenson ou um Trent Reznor (seus ídolos confessos) dispunham. Mesmo assim houve uma tentativa de se dar um “upgrade” à banda. Numa terceira fase, o incansável Sylvio (karne krua) incorporou-se à dupla como segundo guitarrista, num resultado bastante satisfatório em que ele se empenhava em experimentar efeitos sonoros e criar climas com as guitarras para servir como contraponto aos riffs poderosos de Madureira. Com essa formação, e com a participação de Marlio, também karne Krua, no baixo, gravaram uma terceira demo, desta vez em estúdio. Uma outra característica inusitada da banda, por sinal, era nunca contar com um baixo em sua formação - gravaram com baixo apenas depois de muita insistência da parte de Marlio. O resultado, no entanto, não foi dos mais satisfatórios – o timbre da guitarra, em especial, ficou péssimo, raquítico, um verdadeiro crime em se tratando do Camboja, cujo som era quase que inteiramente baseado nos riffs de Madureira. Por conta de todos estes contratempos, especialmente a falta de recursos e a falta de um produtor que compreendesse o espírito da banda, o Camboja acabou sem deixar nenhum registro decente de suas brilhantes composições que atendiam por títulos (quase sempre depressivos e/ou atormentados) como “don’t close your eyes to my misery”, “what do you know about my pain?”, “machine man”e ‘italian sexy movie”. A banda acabou em algum ponto no meio dos anos 90 – na verdade não houve um fim oficial, apenas Madureira foi perdendo o tesão de tocar, segundo ele mesmo. O ultimo show (que não estava previsto para ser o ultimo show) foi especialmente memorável. Foi no Mahalo da Atalaia, abrindo para o Kafila, do Piauí, e contou com Cícero Mago, irmão de Madureira, na bateria, substituindo Lelinho, que havia se desligado da banda e se afastado do mundo do rock underground algum tempo antes. O show foi matador, Madureira estava especialmente inspirado, e foi inclusive registrado para ser distribuido em K7 pelo fanzine CABRUNCO, o que, infelizmente, acabou não acontecendo.

O Camboja acabou no “auge” criativo, mas deixou como legado, além de suas 3 demo-tapes (4, se contarmos a gravação Ao vivo não lançada do ultimo show), uma interessantíssima concepção gráfica, um projeto paralelo e uma banda derivada. A concepção gráfica era um fator de destaque e era sempre produzida com muito esmero e competência por Madureira, exímio desenhista e, posteriomente, artista plástico. As capas de suas demos, cartazes de shows e desenhos produzidos para releases e flyers eram de uma qualidade muito acima da média e chamavam a atenção Brasil afora. Mesmo depois do fim da banda Jamson prosseguiu desenvolvendo seus dons para as artes plásticas, tanto em telas como em Historias em quadrinhos, notadamente com a série “Automazzo”. O “projeto paralelo” foi o Misery High Tech. Era composto por apenas duas pessoas, Jamson Madureira e Sergio “Metáfora” – outro Sergio, não o mesmo que havia fundado o Camboja – se revezando nas guitarras e colagens sonoras acompanhados por uma bateria eletrônica. Fizeram um trabalho interessantíssimo, fruto do encontro entre suas principais influências, o rock industrial e eletrônico, no caso de Jamson, e o thrash, mas com um background também influenciado pelo industrial (o também projeto paralelo Nailbomb, de Max Cavalera e Alex newport, foi a principal influencia confessa da dupla) e deixaram como registro duas demo-tapes. Apresentaram-se ao vivo apenas uma vez, no dia 29 de abril de 1995, no Espaço Cultural Engenho e Arte, que pertencia ao cantor e compositor Paulo Lobo e ficava localizado no bairro Grageru, num Festival promovido pela loja Lokaos (sob nova direção) ao lado das bandas Plasma, Snooze, Agony Season e o próprio Camboja. Já a banda derivada foi a Metáfora, citada no parágrafo anterior.

Jamson Madureira ainda se aventurou em mais alguns projetos musicais no fim dos anos 90 e início do século XXI, com a “She Don´t like jazz” e “Madame Tubarão”. Lançou ainda um único disco solo, do qual tocamos a faixa “Um dia na vida”, uma reinterpretação minimalista da célebre canção "A Day in the life", dos Beatles.

Para conhecer melhor o trabalho de Jamson Madureira, clique aqui.

Adelvan k.

* * *

Looking for an answer – Seven cunts into God´s throat
Ratos de Porão – Exército de zumbis

Concreteness – Tum Tum
GDE – Grupo de Extermínio
Jamson Madureira – Um dia na vida
Camboja – Goodbye my flesh
Misery High Tech – walk

DZK – por um mundo melhor
Bild – pode ficar com tudo isso
(Drop Loaded)

(Bloco produzido por Igor, “The Perigor”):
Batmobile – Love disease
Demented are go! – I Wanna kill
Sick Sick Sinners – Miss Joana
Os Catalépticos:
# Death train
# Catalepsia

Friendship – Zombies
Zumbis do Espaço – Ruas de sangue (streets of Laredo)
Nação Zumbi – No Olimpo

Os Reis da Cocada Preta – Sr. Wheeler
The Baggios – Não perca tempo
Urublues – Howlin´Wolf

The Cramps – surfin´dead
45 Grave – Partytime (zombie version)
TSOL – Nothing for you
The Flesheaters – Eyes without a face
The Damned – Dead Beat Dance
Tall Boys – Take a walk
The Black Berries – Love under Will
SSQ:
# Tonight (we´ll make Love untill we die)
# Trash´s theme

2 comentários:

  1. que timing!
    eu tô justamente prestes a escrever sobre o jamson, este post vai ajudar...
    valeu rocker @

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