segunda-feira, 31 de agosto de 2009

"Caras dessa idade já não lêem manuais"



Leonardo Panço em entrevista ao Mistura Cultural

Segunda, 24 de Agosto de 2009
Texto: Michael Meneses

O músico e escritor Leonardo Panço é uma das personalidades mais bacanas da cena independente nacional e concedeu uma entrevista ao Mistura Cultural onde fala dos seus projetos e sobre a tour promocional que fará por conta do seu mais recente livro e vai percorrer o nordeste em setembro!

Já se vão quase 20 anos desde que minutos antes de um show da Dorsal Atlântica em Ipanema/RJ conheci o entrevistado abaixo. O mesmo atende por Leonardo Fernandes Cardoso, ou simplesmente Leonardo Panço. Na época Panço estava com o músico Mutley (hoje no Gangrena Gasosa) na busca por baixista e vocalista para uma então nova banda, o Soutien Xiita, que junto com uma boa safra de bandas ajudou a fortalecer o rock carioca. Nos anos 90, época em que o escritor esteve à frente de saudosos fanzines como Gnomo da Tanzânia e o Bodega, com este chegando a disputar o prêmio de melhor publicação promovido pela Revista Dynamite.

Ainda nos anos 90 Panço apresentava dois novos projetos. O primeiro foi o selo Tamborete Entertainment, que lançou várias bandas que fizeram a trilha sonora dos anos 90, como Sex Noise, Gangrena Gasosa, Cabeça, Poindexter, Zumbi do Mato, entre tantas outras. O outro projeto foi uma então nova e revolucionaria banda chamada Jason, revolucionaria por ser um dos maiores exemplos neste nosso país do estilo “Do It Your Self” rock de ser, pois num espaço relativamente curto de tempo lançou discos e várias coletâneas pelo mundo. A banda também excursionou pelo Brasil e Europa, coisa que muita banda com muito mais tempo de estrada nunca fez. Aliás, a primeira tour européia do Jason virou seu primeiro livro.

A seriedade com a qual Panço se dedica aos seus trabalhos faz dele uma das pessoas mais respeitadas na cena rock brasileira. É reconhecido por gente que um dia esteve no underground e hoje está no Mainstream, como a baiana Pitty, que teve o disco de sua ex-banda o Inkoma lançado pela Tamborete.

No momento Panço está prestes a fazer uma tour promocional do seu segundo livro ‘Caras Dessa Idade Não Já Não Lêem Manuais’ em solo nordestino, com eventos que serão uma verdadeira fusão cultural tendo música e literatura independente saindo pelo ladrão.

Por fim, a melhor definição para qualificar essa figura rara da cena alternativa me foi apresentada pelo não menos inquieto Adelvan Kenobi durante uma das minhas participações em seu programa de rádio em Aracaju/SE “Leornardo Panço é gente que faz”.

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Você vive o underground há anos, tem um dos selos independentes mais respeitados do Brasil, teve bandas, trabalha como jornalista... Conta um pouco dessa sua experiência?

Leonardo Panço - Um resumão, né. Toco em bandas desde 1988, fiz alguns zines a partir de 91, escrevi aqui e ali, me formei como jornalista em 98, mas só vim a ter emprego fixo na profissão mesmo em 2001 e sigo até agora. Lancei uns 40 discos e dois livros pela Tamborete, fiz uns 400 shows mais ou menos durante esses 20 anos, tenho quatro discos lançados com o Jason no Brasil, três na Europa e mais um com o Soutien Xiita, aqui também. Gravei poucas participações, sendo que a que teve maior repercussão foi no primeiro DVD da Pitty. Tem tantas outras coisas, mas no geral é por aí.

‘Caras dessa idade não já não lêem manuais’ é seu segundo livro, o que lhe motivou a escrever esse livro?

Leonardo Panço - Já queria há algum tempo fazer uma reunião de textos escritos nos últimos, sei lá, 15 anos, uma espécie de caras dessa idade mesmo, mas no final das contas achava que a maior parte dos textos não tinha nível para virar um livro. Daí em 2007 pintou de ir para a Europa, em uma longa história em que ia de tour manager de duas bandas, me demiti do emprego, e as duas bandas desistiram, uma delas faltando 13 dias para a viagem, me vi com a passagem dada por uma das bandas, sem emprego e 500 euros, dinheiro que sem os amigos que tenho lá, daria para viver uma semana em albergue, mas no punk rock, fiquei três meses. Aí achei que era a hora de tentar viver e escrever coisas diferentes, já que era a primeira vez que estava indo sozinho para lá. Daí foi o que fiz, juntei com alguns textos recentes e com pouquíssimos da leva antiga e lá se foi.

Literatura sempre foi algo de envergonhar esse país, por conta do baixo numero de vendas de livros, contudo boa parte dos leitores dos seus livros são ligados em rock e cultura, alternativas até mesmo por muitos serem fãs do Jason... Você percebe alguma diferença nesse público em relação ao mercado literário?

Leonardo Panço - Diria para começar que sei nada sobre o mercado literário, o que é um problema de certo modo, tenho poucos contatos, distribuição, etc. Sigo da maneira que conheço, que sei fazer e que leva 10 vezes mais para vender mil livros, mas é assim que funciona para mim. Meus poucos leitores em sua maioria são do rock, mas o que mais acontece é a mãe ou as esposas das pessoas que compraram lerem e gostarem, então talvez com um maior alcance, quem sabe meu público fosse maior. Realmente não sei.

Seu primeiro livro conta as histórias vividas por você e sua banda o Jason na Europa e nas turnês nacionais. Fale um pouco sobre esse livro e qual conselho você daria a uma banda que queria fazer uma tour seja pelo Brasil ou fora?

Leonardo Panço - Daria nenhum conselho, venderia barato. Primeira coisa que precisa acontecer é saber se os membros todos da banda estão em sintonia, já fiz várias tours em que não estavam e isso é determinante para as coisas darem certas ou erradas. Será que estão todos mesmo dispostos a ficar 80 dias dormindo no chão e tocando 62 shows como a gente fez nesse primeiro livro aí? Será que são todos os caras que querem conhecer o mundo, fazer amigos, ficar longe da namorada, comer mal, beber muito, viajar 20, 30.000 km? Não é todo mundo que tem esse espírito. Se o espírito existir, parte daí, da sintonia. O restante aparece. O livro é isso. Foi escrito e vivido em 80 dias, como eu disse. Tá tudo lá, as coisas boas, as roubadas, muito pouca coisa eu não coloquei, né. Uma briga ali, um detalhe acolá. Mas 99,9% das nossas vidas morando em uma van e em prédios invadidos estão lá.

O que o seu selo musical, o Tamborete, está preparando no momento?

Leonardo Panço - Então, a Tamborete sempre foi para mim mais uma gravadora, porque na verdade nunca entendi muito bem essas nomenclaturas de selo, etiqueta, etc. E quando comecei, coloquei o Entertainment, que significa entretenimento, porque sempre quis lançar livros, principalmente, não só CDs, que é o que consegui fazer nos últimos tempos com meus dois trabalhos. Então por ora creio que os próximos lançamentos são: o disco virtual e depois físico do Pastel de Miolos de Salvador, o segundo disco do Zefirina Bomba (meio 1/3 do Recife, meio 1/3 de João Pessoa, mais 1/3 de João Pessoa, escondido com 1/3 que é meio de SP e meio do Rio) e o primeiro DVD da gravadora, que vai ser o do Verbase (veja o trailer em www.youtube.com/tamboreteent). Fiz uma proposta para lançar o ao vivo do Zumbi do Mato, mas até agora não sei se isso vai acontecer. Daí para frente, espero lançar meu terceiro livro no ano que vem. Tem muitas outras vontades, principalmente agora que a Deck comprou a única fábrica de vinil da América do Sul, mas isso deve levar bastante tempo, já que a prioridade é juntar $$ para o livro novo, que deve sair muitíssimo caro.

Como você vê essa molecada que baixar CD seja de uma banda independente ou não ao invés de comprar o CD e ajudar a essa banda, ou que acha que clicando no Myspace de uma banda, vai estar de fato “dando uma força” a banda e a cena rock como um todo?

Leonardo Panço - Faço tudo isso aí que você disse. Então não me sinto à vontade para criticar ninguém. São os novos tempos, as bandas que dêem seu jeito de melhorar de vida.

E o Panço músico, o que está aprontando? Como anda o Jason?

Leonardo Panço - Não ando aprontando muito não, explico isso um pouco mais abaixo. O Jason segue parado há um ano já e diria que a chance de não voltar é maior a cada dia. A única coisa que me parece viável é uma tourzinha pequena de três ou quatro dias no nordeste, já que o Vital (cantor) disse que iria, o que ele não faz há 9 anos. Vamos ver. No geral, todos perderam um pouco da vontade de algumas coisas, eu enchi o saco de nunca saber quem iria cantar no próximo show e realmente não tenho vontade de voltar para viver as mesmas coisas que já vivi desde os 15 anos. É um pouco tempo demais. Tenho outras prioridades, assim como os outros também, então não sei, os humanos sempre mudam de idéia, mas a princípio é isso. Jason ist tot.

Voltando a Literatura. Quais seus próximos projetos literários? Sei que você trabalha em um livro sobre bandas cariocas dos anos 90...

Leonardo Panço - Esse foi o primeiro livro que eu escrevi, deve ter uns 10 anos já, tanto que o Flock, que está diagramando e em alguns momentos lendo, acha que eu devo dar uma bela olhada, já que não condiz com o que escrevo hoje em dia. Então creio que preciso atualizar algumas coisas, mas é meu próximo lançamento a princípio. Sairia um sobre a tour gringa dos Replicantes, mas creio que para não passar em branco, vai ser lançado apenas em pdf, também já está sendo diagramado. No mais tenho uns 7, 8 textos que podem vir a virar um livro novo um dia, mas um dia muito longe ainda. Na edição do ‘Caras’ cortei quase 50 textos, que eu não gostava mais e algumas pessoas que conheciam alguns que tinham saído em alguns zines, no Globo, sei lá mais onde, reclamaram que alguns deveriam entrar, então de repente jogo no blog, ou algo assim, mas creio que foi o certo mesmo não entrarem no livro.

Você está preste a fazer uma tour de divulgação do seu livro pelo nordeste. Como vai ser?

Leonardo Panço - Vai ser meu grande acontecimento do ano pelo livro, já que viajei o mês de novembro de 2008 inteiro por sete estados e depois fiz apenas coisas em cidades mais próximas. Já falei n vezes como gosto de ir para o nordeste, como sou bem recebido, como as pessoas gostam do Jason, as coisas mais divertidas que fizemos foi por lá, então vai ser bom demais, não tenho qualquer dúvida. E lá vou fazer algumas coisas que nunca fiz antes (uau) e espero que elas me abram algumas portas, principalmente mentalmente, de que é possível fazer isso e aquilo. Então, vou fazer três ou quatro shows com uma banda de João Pessoa chamada Elmo, tocando só Jason, creio que por volta de 20 a 25 músicas. Vou participar do show da Pastel tocando duas do Jason e duas deles e vou me apresentar sozinho pela primeira vez em toda a minha vida fazendo umas quatro ou cinco músicas, cantando e tocando guitarra como Pansonic. Se isso funcionar bem, faço em outras cidades mais tarde com um repertório maior, senão, não. E tem lançamento também mais formal, na Saraiva, tem em Maceió uma jam tocando Jason com amigos locais em um estúdio, tem o que aparece. Sempre na pista.

“Venda o seu manual...”

Leonardo Panço -Ah, se me pagarem 20 lascas, eu vendo. E ainda dou dois CDs 0800.

AGENDA:

Salvador/BA - Livraria Saraiva - 4 Set às 18h
Salvador/BA - Lançamento do livro, jam com banda Pastel de Miolos, e com os artistas do grupo Verbo 21 - 5 Set às 20h
Natal/RN - Centro Cultural Do Sol - Lançamento do livro e tocando Jason com a banda ELMO - 7 Set às 18h
Campina Grande/PB - A confirmar - Lançamento do livro - 9 Set às 20h
João Pessoa/PB - Espaço Mundo - Lançamento do livro e tocando Jason com a banda ELMO - 10 Set 20h
Recife/PE - A confirmar - Lançamento do livro - 11 Set às 20h
Maceió/AL - A confirmar - Lançamento do livro - 12 Set às 20h
Aracaju/SE - Lançamento do livro - 13 Set às 20h

CONTATOS:

MySpace: www.myspace.com/leonardopanco
Fotolog: www.fotolog.com/leonardopanco
You Tube: www.youtube.com/tamboreteent
Twitter: www.twitter.com/leonardopanco
E-mail: leonardoster@gmail.com

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

SESSÃO NOTÍVAGOS 06/09



RECIFE BEAT + NAURÊA

No próximo dia 06/09 a partir das 23h59 a Sessão Notívagos na sua 4ª Edição exibirá no Cinemark do Shopping Jardins o Documentário Recife Beat, dirigido por Pedro Paulo Carneiro, que durante 6 anos registrou a cena musical mais interessante dos últimos 20 anos que Recife deu ao Brasil: o manguebeat. Com o festival Rec Beat como pano de fundo, os protagonistas desse movimento, encabeçado por Chico Science, contam em primeira pessoa todos os detalhes que levaram a cultura pernambucana a conectar-se com as últimas tendências da música, do teatro, da dança, da distribuição de informação, do cinema e da cultura popular. Um documento completo para entender os caminhos da nova música brasileira.

Após a exibição do filme que tem 85 minutos, haverá a apresentação do NAURÊA. Formada em novembro de 2001, em Aracaju, a naurÊa toca basicamente o que chama de Sambaião. Como o nome já sugere uma mistura de samba e baião. Mas não pára por aí. A banda recebe informação musical de várias partes do Brasil e do mundo: das batidas populares do universo negro de Laranjeiras ao costarriquenho Reggaeton; da música pouco convencional de Tom Zé às melodias de Cuba e do Leste Europeu; das guitarras "caribenhas" do Pará ao apelo do R&B e do Hip Hop. A idéia, muito mais do que fazer mistura, é mostrar as potencialidades do forró, é ter uma sonoridade própria com um sotaque local.

Os ingressos para a Sessão Notívagos são limitados e estarão a venda antecipadamente ao preço de R$ 15,00 e R$ 7,50 a meia.

Segundo Roberto Nunes, Coordenador do projeto, no primeiro final de semana de outubro haverá outra edição da Sessão Notívagos com a exibição do filme sobre Os Ratos de Porão e Show com o Karne Krua.





sexta-feira, 14 de agosto de 2009

# 118 - 14/08/2009

BHRIF 15 ANOS (por Adelvan Kenobi): Há exatos 15 anos, em 1994, aconteceu em Belo Horizonte, MG, um Festival que marcou época no cenário independente brasileiro. Foi o BHRIF – BH Rock Independente Fest, totalmente dedicado à musica independente e/ou alternativa. Para que se tenha uma idéia da proposta inovadora do evento, apenas veículos de comunicação totalmente alternativos, notadamente fanzines ou revistas independentes, sem nenhum tipo de relação com a chamada “grande midia”, foram credenciados para a cobertura. As bandas também, para que pudessem tocar, não poderiam ter absolutamente nenhum vínculo com as “majors” da indústria fonográfica. Os Raimundos, por exemplo, que estavam despontando no cenário da época, não se apresentaram porque gravaram por um selo que era distribuído pela Warner Music, o Banguela Records, dos Titãs e de Carlos Eduardo Miranda. Nenhuma emissora de TV, aberta ou fechada, recebeu credencial para fazer a cobertura dos shows, palestras e seminários, tudo promovido pela Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, então administrada por Patrus Ananias, hoje “Ministro do Fome Zero” do Governo Lula. Nem mesmo a MTV, cuja marca constava da publicidade como apoio cultural, teve regalias, cobriu mas com imagens feitas à distancia. Essa premissa radical talvez tenha contribuído para o fato de que pouca gente, hoje, saiba que um Festival deste porte e com uma proposta tão ousada aconteceu, e no Brasil. Eu fui convidado a participar como único representante do nordeste no segmento “fanzine” ou “imprensa alternativa”. Costumo dizer que foram, provavelmente, os melhores dias de minha vida – viajar com tudo pago pela produção, ficar hospedado no mesmo hotel que alguns dos maiores ídolos e ícones da musica alternativa, como o Fugazi, e de quebra conhecer algumas das pessoas com as quais eu já tinha uma longa amizade via carta, foi algo realmente inesquecível. Clicando AQUI você lê o relato que eu fiz sobre estes dias. A matéria foi publicada originalmente num fanzine chamado DELIRIUM, uma edição especial do meu fanzine Escarro Napalm, lançado em 1995 com uma tiragem reduzidíssima.

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Electric Light Orchestra – Roll over Beethoven
Faith No More – From out of nowhere

The Beatles – Something
Johnny Cash – In my life
Laibach – Across the universe
Violeta de Outono – Within you, without you
Echo & The Bunnymen – All you need is Love

Bloco produzido por Rick Maia:

Thin Lizzy – got to give it up
Ted Nugent – Cat scratch fever
Deep Purple – Getting tighter
Alice Cooper – Billion Dollar Babies

Drop Loaded:

Pin Ups – Bright
Holly Bitch – numb

Especial BHRIF 15 ANOS

Anathema – Jai Fait une promesse
Fugazi – Exit only
Holocausto – Aderost
Dorsal Atlântica – Straitgate

Jorge Cabeleira e o dia em que seremos todos inúteis – os segredos de Sumé
Os Cabeloduro – Mãozinha
Os Baratas Tontas – Borzeguins ao leito
Concreteness – The giant with forgiven not

Oz – Dinosaur´s night
Linguachula – língua

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Terceira Sessão Notívagos



Matéria publicada no Jornal do Dia Número 1.375, em 13 de agosto de 2009

Cinemark do Shopping Jardins
31/07/2009

por Adelvan Kenobi

O Cine Cult é um projeto que visa trazer para as telas dos cinemas de Aracaju filmes alternativos, que fujam do lugar comum. Começou há cerca de dois anos e, devido a seu sucesso, foi adotado pela rede Ciemark e hoje existe como Sessão Fixa em várias cidades do Brasil. Além de uma sessão regular e diária, á tarde, alguns eventos especiais acontecem periodicamente. É o caso da Virada Cinematográfica e da Sessão Notívagos. Na Notívagos é sempre exibido um filme seguido da apresentação de uma banda musical. Já participaram The Baggios ( com REPULSA AO SEXO, de Roman Polanski ) e Daysleepers ( com o filme brasileiro “O Fim da picada” ). Em sua terceira edição, propõe-se a iniciar a exibição de uma série de documentários musicais que, de outra forma, permaneceriam inéditos por aqui. Na tela, o documentário LOKI, aclamada cinebiografia do ex-líder e fundador dos Mutantes, Arnaldo Baptista. No hall do cinema, uma apresentação da Plástico Lunar.

Para a exibição de LOKI o Cinemark reservou sua maior sala, com capacidade para 400 lugares, e foi com grande satisfação que a vi lotada, e por uma platéia respeitosa e que foi ali para realmente assistir ao filme, ao contrário do que aconteceu na primeira Sessão Notívagos, onde um público barulhento e inconveniente quase põe por terra a experiência de ver um clássico do horror psicológico dirigido pelo Mestre Polanski e estrelado por uma belíssima Catherine Deneuve em tela grande. A expectativa era grande, mas mesmo assim foi superada. As quase duas horas de exibição fluem sem que o expectador sinta, em momento algum, o tempo passar. Isso se deve, em parte, à competência técnica da fita em si, impecavelmente montada e dirigida com maestria, e em parte pela magia do personagem retratado, uma figura fascinante e enigmática. O filme se preocupa em ressaltar a todo instante, através de depoimentos de diversas personalidades do mundo da musica, a importância de Arnaldo Baptista para tudo o que foi feito no Brasil a partir do advento da tropicália. E começa por abordar sua infância, passando pela descoberta do rock and roll, a formação de sua primeira banda, O Six Sided Rocks, cujo nome foi abreviado para O´Seis, e o advento dos Mutantes, seguindo adiante em direção à confusa carreira solo (intercalada por participações esporádicas em outros grupos e projetos de terceiros, dentre os quais se destaca a banda de hard rock setentista PATRULHA DO ESPAÇO) e ao ostracismo, culminando no retorno triunfante com a turnê revivalista dos Mutantes em pleno Século XXI. A história, evidentemente, continua sendo contada – Arnaldo deixou novamente os Mutantes e voltou a seu retiro voluntário em Juiz de Fora, fato que não consta do corte final (quem sabe numa futura “versão estendida”?). Todo o mais está lá – tudo aquilo que os fãs já sabiam, mas contado de forma absolutamente respeitosa e sincera, sem subterfúgios, com uma narrativa fluente e enriquecida por imagens raras, depoimentos emocionados e entrevistas antológicas. Difícil não cair na gargalhada com as sacadas inteligentes e sempre bem-humoradas da época da primeira fase dos Mutantes, assim como difícil não se comover com sua descida rumo ao fundo do poço da depressão, magnificamente retratada no álbum que dá nome ao filme, “LOKI?”. Perfeito. Torna-se praticamente obrigatório ter em casa esta verdadeira obra-prima, por isso espero ansiosamente por um lançamento em grande estilo em DVD ou Blu-Ray para que possamos revê-lo quantas vezes quisermos e com a qualidade que ele merece.

Na sequencia, dirigimo-nos todos ao Hall para o show do Plástico Lunar. A escolha não poderia ter sido mais acertada, já que a Plástico ( como é carinhosamente tratada pelos fãs ) navega pelos mesmos mares desbravados pela banda dos Baptista, aliando psicodelia a pitadas de hard rock e experimentalismo, com direito a flertes com o rock progressivo. E a banda estava numa noite inspirada. O Baterista/vocalista Marcos “Odara” em especial, "tirando uma onda" e mandando recadinhos para os amigos entre uma musica e outra e arriscando, inclusive, os vocais numa improvisada e, por isso mesmo, emocionante homenagem ao dono da noite, mestre e principal influência e fonte de inspiração, Arnaldo Baptista, com um cover de “Será que eu vou virar bolor?”. Fora isso, desfilaram suas já clássicas composições autorais, com os vocais se revezando entre 4 dos integrantes ( taí uma banda com bons vocalistas de sobra ), e conseguiram manter um bom publico até o final da apresentação, apesar do avançado da hora e das falhas logísticas no quesito “fornecimento de aditivos” (leia-se cerveja) por parte da produção do evento, falhas estas que, espero, sejam sanadas em edições futuras, para o bem de todos e felicidade geral da nação. Uma outra falha, a meu ver, foi o descaso da própria banda com relação à sua auto-promoção. Acredito (melhor, tenho certeza) que muitos ali estava vendo a Plástico pela primeira vez, e ficariam felizes em saber que eles têm um disco e camisetas disponíveis para venda, “segredo” este que só foi revelado devido à empolgação de uma senhora interessada em adquirir o material. Outra coisa desagradável é a insistência das pessoas em fumar, mesmo com os constantes alertas quanto à disparada do alarme contra incêndios que faria cair sobre nós uma enxurrada inconveniente que, evidentemente, decretaria o fim da festa.

No mais, foi uma grande noite (ou melhor, madrugada, já que a sessão começa extamente à Zero hora) – cheguei inclusive a pensar que Odara iria arriscar uma versão de “Moby Dick” do Led Zeppelin ao final da apresentação, tamanha sua empolgação, assim como ficava esperando por uma canja inesperada da parte do Roberto (produtor do Cine Cult) a cada vez que ele se dirigia ao microfone para dar orientações e agradecer pela presença de todos.

Que venham os Ratos e a Karne Krua !

30 Anos de Cólera



CÓLERA EM ARACAJU (por Adelvan): O Cólera tocou três vezes em Aracaju. A primeira foi numa ocasião pra lá de especial: Segundo “Rock in Bica”, São Cristóvão, início da década de 90. Tratava-se de um evento que fazia parte da programação do FESTIVAL DE ARTE DE SÃO CRISTÓVÃO, que acontecia anualmente na cidade histórica vizinha a Aracaju e era promovido pela Universidade Federal de Sergipe. Inicialmente era chamado de “Mostra de rock”, mas com a repercussão da realização do rock in Rio 2 na época e a transferência do palco para a Bica de São Cristóvão, um balneário público local, resolveu-se trocar o nome. O Cólera tocou de madrugada, com o sol nascendo – ainda me lembro bem de Redson deslumbrado e falando que era a primeira vez que eles tocavam assim, ao ar livre e vendo o sol nascer, que estava feliz e se sentindo em Woodstock. O show, como esperado, foi excelente, muito energético, e levantou o público, que parecia “pinto no lixo”, feliz por estar participando de um momento tão único. E quase foi, realmente, um momento único, já que a banda só voltaria a se apresentar em palcos sergipanos mais de uma década depois – e novamente em São Cristóvão ! Na ocasião Redson deve ter pensado que lá era onde as coisas aconteciam em termos de rock por aqui. Este show, evidentemente, está mais fresco em minha memória, porque mais recente. Fiquei muito impressionado com o pique da banda ao vivo, parecia que estavam em início de carreira, a despeito dos cabelos grisalhos de todos os integrantes. Tocaram “com gosto de gás”, como se diz por aqui, para um público ensandecido e em parte, infelizmente, violento. Muita briga – era até hilário ver o Redson gritando “pela paz em todo o mundo” a plenos pulmões e “o pau comendo” na frente dele. As coisas só se acalmaram um pouco quando ele deu uma “pagação” geral nos brigões e ameaçou encerrar a apresentação caso a violência não acabasse. Mostraram também que são, definitivamente, do “underground”, já que o evento foi meio que improvisado e muito mal divulgado, conheço muita gente que perdeu porque não ficou sabendo e ficou desesperado por isso (felizmente os desinformados tiveram uma nova oportunidade, como veremos adiante). Tocaram no chão, sem palco, num mercado público semi-abandonado - na verdade um “elefante branco”, mais uma daquelas obras megalomaníacas superdimensionadas (e, geralmente, também superfaturadas) do governo que depois ficam lá apodrecendo sem serventia. É um galpão enorme e o evento, um festival dividido em duas noites e com várias bandas se apresentando, teve um bom público. A terceira e última apresentação dos pioneiros do punk brasileiro em terras de Sergipe Del Rey foi na ATPN, na orla de Atalaia, em Aracaju. Aconteceu, desta vez, pouco tempo depois, cerca de um ano. Repetiram praticamente o mesmo show, ou seja, a mesma energia, a mesma empolgação, os mesmos clássicos eternos de 20, 30 anos atrás. Foi antológico – mas provavelmente vai demorar para acontecer novamente, já que os produtores informaram que tiveram um prejuízo considerável. Fazer show de rock em Sergipe é realmente complicado - deve ser a tal maldição do Cacique Serigy.

Clique AQUI e confira uma das maiores e mais completas entrevistas já publicadas com Redson, conduzida por Marcio Sno.


C Ó L E R A - 30 ANOS SEM PARAR


O início pioneiro:


A banda surgiu em outubro de 1979, na estação São Bento do Metrô, em São Paulo. Redson no baixo e vocal; Helinho na guitarra e Pierre, na bateria.

Desde o início, a banda Cólera conta com os irmãos Redson e Pierre.

São 30 anos sem parar.

Em maio de 1980, com a participação do backing vocal Kino como “frontman”, a banda gravou uma apresentação no programa OLIMPOP (Olimpíada da Música Popular), gravação que hoje faz parte do arcewvo da TV Cultura e consta no documentário Botinada, produzido por Gastão Moreira para a ST2 em 2006.

Hoje, a banda tem sua formação clássica reativada, com a volta de Val, no baixo.

Esta formação gravou em 1982, o primeiro álbum de punkrock nacional, Grito Suburbano (Punkrock discos/1982); ao lado de Inocentes e Olho Seco.

Ainda em 1982, a banda participou do festival “O Começo do Fim do Mundo” no Sesc Pompéia (SP) ao lado de outras 19 bandas do gênero como Restos de Nada, Ratos de Porão, Olho Seco, etc.

Em 1983, lançou o LP SUB, uma coletânea ao lado de RDP, Psykoze e Fogo Cruzado. O show de lançamento aconteceu no Circo Voador, RJ, tendo como abertura Os Paralamas do Sucesso, Inocentes, Coquetel Molotov e mais 13 bandas.

Em 1984, o álbum “Tente Mudar o Amanhã”, foi o primeiro lançamento do recém fundado selo “Ataque Frontal”, onde Redson era um dos sócios. Foram 7 anos de produção independente em vinyl, que teve outras bandas,Grinders, Varsóvia, Kães Vadius, a coletânea Ataque Sonoro com Ratos de Porão, Lobotomia e mais 8 bandas de São Paulo, ABC e Rio de Janeiro.

Em 1985, a banda começa uma turnê pelo Brasil passando por Salvador, Curitiba, Rio de Janeiro, BH e mais 40 cidades. São Paulo teve como evento, o show de lançamento do LP Tente Mudar o Amanhã, no Teatro Lira Paulistana, onde foi registrado o álbum CÓLERA E RATOS DE PORÃO AO VIVO, álbum hoje raríssimo.

Em 1986, o segundo álbum do Cólera, “Pela Paz em Todo Mundo” foi consagrado como um dos mais importante álbum do estilo. Com mais de 30 mil cópias vendidas no Brasil, EUA e Europa, o álbum rendeu 2 turnês pelo Brasil e uma turnê européia (a seguir).

Em 1987, o Cólera “quebrou o muro”, sendo a primeira banda do gênero rock nacional a realizar uma tour fora do país. “Saímos do Brasil para a Europa em fevereiro de 1987, com 18 show marcados, para uma tour de 3 meses, mas o interesse lá foi tanto, que fechamos a tour com 56 shows em 10 países, durante 5 meses.” A tour passou pelos seguintes países: Alemanha, França, Bélgica, Espanha, Áustria, Dinamarca, Noruega, Países Bascos, Suíça e Holanda.

Esta quebra de barreira, permitiu a outras bandas brasileiras como Sepultura, Viper, RDP, Torture Squad, Ação Direta, Replicantes, Dead Fish...e muitas outras bandas, seguirem o mapa do circuito underground europeu.

Com a influência da tour de 1987 na Europa, a banda volta ao Brasil e lança, em 1989, pela Devil Discos o álbum ativista “Verde, Não Devaste!”, outro disco temático, abrindo um assunto ainda não popular no Brasil; A ECOLOGIA!

O álbum apresenta na capa uma expressão realista da devastação, e ainda com um fanzine tamanho ofício, com os principais poluentes, formas de contaminação e de prevenção. Premiado pelos leitores de revistas de rock nos anos 90, como a melhor capa de disco independente da década.

A discografia completa da banda está no site: www.colera.org

Durante os anos 90, foram 4 turnes pelo Brasil. A quarta e mais importante, foi a tour de 20 Anos. O aniversário teve data especial em São Paulo, com show de 3 horas (3 entradas de 1 hora cada), num concerto/festa, onde foram gravados ao vivo; CD com 21 faixas, video VHS com 29 musicas, livro ilustrado e pôster. Estes itens, com uma embalagem especial (uma caixa parecida com o jogo WAR), material lançado pela Devil Discos em 2001.

Mas uma grande façanha ainda estaria por ser realizada. Em 2004, a banda realiza outra tour na Europa, com 26 shows em 7 países, em 1 mês. A tour, lançamento do álbum “Deixe a Terra em Paz!”, (Devil Discos) teve um outro lançamento, “The Best of Grito Suburbano”, pela Dirty Faces Records”. Capa de papel grosso e reciclado, encarte com a história política do Brasil durante a existência da banda e as letras, tudo traduzido em inglês. Dentro 2 vinis; 1 LP verde e 1 EP de 7” com 4 musicas ao vivo.

Ainda em 2004, pelo Brasil, o álbum “Deixe a Terra em Paz!” gerou 2 turnês nacionais, 2 clipes, palestras e muito barulho em rádios e programas de TV.

Em 2006, um registro de importância histórica em CD; “Primeiros Sintomas” resgata as 20 primeiras músicas da banda, compostas entre outubro de 1979 (mês de inicio) e abril de 1980.

13 delas, até então totalmente inéditas.

Em seguida, outro lançamento comemorativo: o CD, “1.9.9.2. Mundo Mecânico, Mundo Eletrônico” split com o ep “É Natal!?”, lançado juntos num só CD, completando os lançamento em comemoração aos 25 anos da banda, tudo com muitos shows pelo Brasil.

2008, Oct, 3 – “Hamburg in Concert with CÓLERA from Brazil”, mais uma tour na Europa; 27 shows em 6 países, França, Bélgica, Alemanha, República Tcheca, Áustria e Finlândia.

2009 – A banda está terminando de compor 16 músicas novas que farão parte do próximo álbum; ACORDE! ACORDE! ACORDE!

O álbum é temático, com a proposta de acordar com 3 acordes! No duplo sentido mesmo.

Dentre várias sonoridades e ritmos, a banda apresentará uma sequencia de 5 faixas que, juntas, formarão a “Ópera do Chaos”. Uma ópera punk.

O material está previsto para 2009 e deve sair pela Deck Disc.

”30 ANOS SEM PARAR”

Este é o título da tour que a banda começou desde janeiro de 2009, por Jundiaí (SP), e já passou por Campinas, Manaus, Curitiba e São Paulo, Rio de Janeiro, Cabo Frio, Nova Friburgo, Jaraguá do Sul, Balneário Camburiu, Porto Alegre, Caxias do Sul, Piracicaba e, ainda tem mais 7 estados para percorrer no segundo semestre.

Na tour, a banda apresenta um pouco da sonoridade de cada época, um apanhado de músicas desde os primeiros álbuns até o mais recente, Deixe a Terra em Paz!, e ainda incluindo uma ou duas inéditas que estarão no próximo álbum,

“ACORDE ACORDE ACORDE”

Formação:

Redson – vocal e guitarra

Pierre – bateria

Val – baixo



Contatos:

colera@colera.org (MSN e email)

redsoncolera@terra.com.br (só email)

11 9251 4465

11 5081 6463



Na web:

www.colera.org

http://www.myspace.com/coleraoficial

http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=28030



Clipe Youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=jVckn78SIpg

“Deixe a Terra em Paz!” – Direção: Márcio Pulga / Luz: Lula Maluf)

http://www.youtube.com/watch?v=O3JK70DetLw

“Viaduto” (Direção: Marcos Vicente)

http://www.youtube.com/watch?v=3ri7yL4slW4

“Deixe a Terra em Paz!” ao vivo no Kazebre em 2008.

http://coleraeuropeantour2008.wordpress.com/videos/

Alguns vídeos da turnê na Europa em outubro/2008 (Finlandia, Alemanha, Àustria, Republica Tcheca).

http://video.google.com/videoplay?docid=8410263449371817356

DVD “Botinada” a história do punkrock no Brasil.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

guidable - Entrevista com Jão, do ratos de porão



Do site Void

por gabriel Kverna

Kverna - Vamos começar falando do Guidable. Qual o impacto em ver anos da banda, anos da história da tua vida resumida em poucas horas?
Jão - Putz, é complicado, porque realmente a maior parte da minha vida passa no filme e resumir tudo isso em duas horas é complicado. Mas como a história do Ratos é grande e com muitas mudanças, acho que foi legal. O moleque que conhece o Ratos de Porão a partir da mídia, do João Gordo ou da MTV, passa a conhecer mais a história da banda mesmo. E o legal é que não é um bagulho muito didático, a história é contada de uma forma meio retardada, o que ficou a cara da banda.
Kverna – Há uns poucos anos foi lançado o Botinada, que é mais ou menos um resumo do que é o punk no Brasil. Você acha que o Guidable é um complemento, ou algo assim?
Jão - Eu acho que é um bagulho meio paralelo. O Botinada lida com o punk e depois pega uma geração posterior, mas tem uma lacuna no filme. No Guidable, a coisa é mais contínua, até porque o Ratos conseguiu sobreviver a muita coisa, muita crise, sempre de forma intensa. A gente sempre esteve tocando, lançando disco… Então não tem como desvincular. Eu acho que se você pegar o começo do Guidable e do Botinada, tem coisas que se cruzam.
Kverna - Uma das coisas que me chamou atenção que tu falou no documentário foi que quanto vocês eram moleques vocês nem tinham a idéia do que era hardcore, a intenção era tocar mais rápido. Hoje a intenção ainda é essa?
Jão - O Ratos sempre quis tocar rápido, ter um som consistente e porrada, nervoso. Mas na época o que a gente tinha de mais rápído era o Olho Seco. Quando a gente montou o Ratos, estava vindo muita coisa simultânea, de fora, tipo o princípio do hardcore americano, o inglês com o Discharge. Então, pelo fato de a gente ter pêgo essa época e ter uma conexão com coisas de outros países, começou a surgir muita coisa nova. Foi aí que o Ratos foi criado. Mas na verdade, a primeira vez que o Ratos saiu num fanzine, os caras escreveram que o RDP era hardcore. A gente ficou meio cabreiro, o hardcore que a gente conhecia era umas revistinhas pornográficas que existiam nos anos 70, aquelas meio sueca (Risos).
Kverna - Teve essa história de o clipe de Covardia de Plantão ser censurado pela MTV, por que diziam que mostrava muitas cenas de violência gratuita. Tu acha que depois de quase trinta anos de banda essa merda de censura ainda tem força pra encher o saco?
Jão - Eu acho que a sociedade brasileira continua hipócrita. Porra, a violência tá presente em qualquer grande metrópole do país, faz parte do cotidiano. Não sei se é por falha da lei ou sei lá o que, mas a gente sempre vê o cara matar alguém e dali a três anos o cara tá na rua, cumprindo pena em liberdade. Aí você tem uma banda e faz um clipe que mostra a violência e as pessoas se chocam. Pô meu, pega uma novela pra ver. É só putaria, traição…
Kverna - Vão rolar mais clipes desse disco, o Homem Inimigo do Homem?
Jão - Cara, acho que não…O bagulho é caro… Quando sai clipe do Ratos é na camaradagem. Algum amigo que curte a banda, que trabalha com cinema ou coisas afins que chega e faz no suor mesmo.
Kverna - Mesmo sendo uma banda que tem nome no hardcore e fora dele, grana ainda é complicado?
Jão - Sim, é complicado. O Homem Inimigo do Homem foi lançado pela Deck, que lançou Dead Fish, Pitty, Mukeka di Rato e óbvio que eles não iam dar grana pra nós fazermos um videoclipe igual deram pra Pitty, né? E mesmo dando uma merreca, os caras ainda reclamaram, vieram dizer “Que porra de videoclipe é esse?”. Foi uma chiadeira geral, eles vieram perguntar onde iam conseguir passar aquilo. Sei lá mano, passa no Jornal Nacional, no Globo Repórter, no Ratinho (risos). Foi pro Youtube, aí quem quiser ver, tá lá.
Kverna - E o Ratos da Periferia, quando surgiu, muita gente dizia que o Ratos de Porão ia acabar, que tu tinha entrado em conflito com o Gordo…
Jão - Quando eu montei o projeto do Ratos da Periferia, a intenção era tocar em vários lugares, como a gente fez em São Paulo. Era eu o Jabá e o Betinho, que foram os caras que criaram o RDP. A idéia era tocar as músicas antigas, do começo da banda. Foi quando o gordo fez a operação de redução do estômago e o RDP ficou um ano parado. Daí o Gordo sarou. A história do RDP é maior do que os própios integrantes. Por mais que o Betinho e o Jabá tenham montado a banda comigo, o Gordo tá há 26 anos na banda, o Boka tá há 18 anos…Aí eu falei pros caras, olha não dá pra ter dois Ratos de Porão coexistindo, é muito rato pra pouco queijo. Por isso lançamos o cd Periferia S/A, tiramos o Ratos do nome. O som do Periferia é mais oldschool. Foi legal porque fazia tempo que eu não pagava de vocalista, falei merda pra caralho, xinguei um monte (risos). Mas os outros caras, o Betinho e o Jabá, tem uns trampos normais, aquela coisa de segunda a sexta-feira, das 08h às 17h, aí não teve como dar continuidade no lance, que começou como projeto, virou banda e acabou (risos).
Kverna - Vocês lançaram dois CDs ao vivo, disco de cover, revista, lançaram documentário…E DVD ao vivo? Quando sai?
Jão - Cara, já era pra ter saído o DVD com um show no Circo Voador, no Rio de Janeiro. Mas aí deu maior rolo, virou um bagulho que encheu o saco, em vez de ser legal. O pessoal que ia fazer o lançamento não queria mais lançar, a gente ficou meio puto. Mas sei lá, esse lance do documentário é legal porque conta a história da banda, não é um caça-níquel.
Kverna - Mas quando o Guidable sair em DVD vai ter um monte de extra, várias outras histórias pra contar, né?
Jão - Quando sair em DVD vai ter um monte de extras de tours, de viagens, de bebedeiras no meio da estrada. Vai ter muita coisa legal.
Kverna - Tu sabe quantas tours fez na vida?
Jão - Eu não sei, desde 1989 vou todo ano pra Europa, não dá pra saber.
Kverna – O Boka foi tocar no Japão com o Vitamin -X. O Ratos nunca foi pra lá?
Jão - Putz, não. É uma lacuna. Deve ser foda, se o RDP fosse pra lá ia causar geral. A Costa Oeste dos Estados Unidos é outro lugar que a gente já deveria ter ido, tocar na Califórnia, por exemplo. Mas é aquela história, você vai onde consegue sincronizar a vontade com o lance de a tour se pagar. Porque é complicado sair pagando pra tocar. Nego tem família, é complicado.
Kverna - Cara e eu tenho uma história meio foda. Nessa semana o namorado de uma amiga minha saiu da sessão do Guidable e foi direto pra uma boca de fumo buscar droga. Detalhe: o cara tinha saído de uma clínica de reabilitação…
Jão - Putz, que merda. Mas se o cara foi pegar só fumo, beleza, mas se for pegar pó é meio foda. É aquela história, se pó levasse alguém pra algum lugar eu já teria chegado lá num pé só (risos).
Kverna - E vocês, com o documentário, não devem se preocupar em causar uma boa ou má intenção. É a história de vocês, né?
Jão - E também não dá pra ser hipócrita. A real é que a banda existe há 28 anos porque a gente gosta de fumar maconha e ficar muito louco junto, a música é só uma conseqüência (risos).
Kverna - Esse lance de falar de política e o caralho. Vocês às vezes ainda escrevem sobre política e tal…
Jão - Não tem muito como fugir disso né, mano? Até pelo lugar de onde a gente veio, não pra falar muito de outra coisa. Vai falar do que? Brasil é maior país de filho da puta, político safado, o Senado cheio de hipócritas evangélicos querendo crucificar caras como eu e você. Alguém tem que fazer o trabalho sujo de pelo menos mandar esses caras tomar no cu, já que não dá pra mandar pessoalmente, pelo menos mandamos o recado.
Kverna - Já rolou de algum político processar vocês?
Jão - Não, se nego fizesse isso pra nós seria interessante. É a maior promoção gratuita que uma banda pode conseguir. Uma vez o Gordo tava numa livraria e deu de cara com o José Genoíno, bem na época do mensalão. O Gordo falou: “Fiz nada não mano, mó véio grandão, que você queria que eu fizesse?”. Pô, podia pelo menos chegar pro cara e dizer (imitando a voz do Lula): Companheiro José Genuíno, você pisou na bola. É complicado, não sei se um dia eu visse o Maluf na minha frente eu conseguiria me segurar e não dar um tapão na orelha dele. Mas se eu fizesse isso eu ia me foder muito e não ia conseguir mudar muita coisa.
Kverna - Hoje 90% da banda é vegan ou vegetariana. Foi graças ao Juninho?
Jão - Eu lembro quando o Boka virou vegetariano. O Gordo pegou a perninha de um coelho e ficou balançando na frente dele. Mas o Gordo foi legal de ter virado vegetariano. O cara comia galinha de cabidela, aqueles rango tosco…Mas também eu fui alcóolatra, viciado em drogas…Não comer carne pra mim é o de menos, preciso resolver muita coisa ainda na minha vida (risos).
Kverna - E rola o mesmo pique pra tour até hoje?
Jão - Ah, sei lá. Eu meio que empurro com a barriga. Tem que ir vivendo. Não dá pra ficar reclamando. Outro dia fui jogar bola, mó negócio legal e saudável, fui matar uma bola e ela bateu bem no dedão de segurar a palheta. Esporte mata, meu!(risos).
Kverna - E o que mantém o RDP junto tanto tempo?
Jão - Tem uma porção grande de teimosia. Um é apresentador de TV, outro é vagabundo, um é vegan, outro é surfista… A gente nunca espera muita coisa, isso que mantém a banda viva. A gente grava um disco e sabe que não vai vender, que não vai ganhar porra nenhuma, tá ligado? Eu nasci na Vila Piauí, pelado, banguela, que expectativa eu teria? Pra mim a banda foi a salvação. Hoje eu tô aqui comendo o rango vegan. Se não tivesse aqui provavelmente eu estaria lá na minha vila bebendo uma pinga, bem gordo, inchado…Para cada um de nós tem uma parada diferente. Pro Gordo é foda, ele não consegue sair na rua que nego começa a gritar o nome dele, tá ligado? Eu não sei se gostaria de ser o cara, ele não pode ir a lugar nenhum, não pode sair do portão.
Kverna - E na real o pessoal acha que ele é irritado, mas a galera enche o saco também.
Gordo: É um preço que o cara paga por estar sempre super exposto na tv e tal. Mas, porra, eu acho que o RDP vive porque a gente sempre curtiu o que faz.
Kverna - O futuro então é continuar tocando no Ratos, continuar vagabundão…
Jão - Vagabundão eu falei mas é meio pejorativo comigo mesmo. A gente tenta manter a banda numa certa rotina, tocar, ir pra vários lugares. Isso mantém a parada viva, entende? Estar sempre em movimento. Se a gente tem que fazer tour agora é igual a 20 anos, vou dormir bêbado no meu saco de dormir. Não o Juninho nem o Boka, mas eu vou estar bêbado com certeza (risos). Nunca parei pra pensar muito no futuro. Na época da minha adolescência tinha a Guerra Fria. Então porque eu ia me cuidar se um filho da puta podia apertar um botão e explodir tudo?
Kverna - E tu acha que o mundo continua assim? Pode acabar a qualquer momento?
Jão - Não, tem muita gente ganhando dinheiro no mundo capitalista, então a idéia é outra, é explorar (risos).

perdeu a língua

A história do grupo instrumental Perdeu a língua é recente. A banda surgiu em meados de 2006 da idéia do baterista Tiago Babalu e dos guitarristas Luiz Oliva e Alex Prado durante a turnê do extinto grupo Triste Fim de Rosilene pelo nordeste brasileiro. Após o fim da turnê o trio convidou o baixista Maneu, passando a ser um quarteto com uma primeira “Jam” marcada. Dando assim início aos trabalhos em paralelo as suas outras bandas como o Snooze, Karne Krua e Debate-SP. Com sua estrutura calcada no formato clássico do rock (Guitarra/Baixo/Bateria), O Perdeu a Língua agrega em sua sonoridade um espectro musical abrangente, tendo como resultante uma estrutura livre e sem amarras, que permeia desde o fraseado nordestino revisitado até o rock mais clássico.

Baixe AQUI o disco na íntegra.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

# 117 - 07/08/2009



no alto, Marcelo Birck

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Mutantes – teclar

Mestre Ambrósio – Cacimba Nova
Nação Zumbi – o fole roncou
Mundo Livre S/A – Dezessete e setecentos
Eddie – retrato de um forró

Drop Loaded:

Entrevista com Anderson “Foca”
The Sinks – Positive Mentally Armed
Bugs – Edgar

New Order – Krafty
Electronic – Forbidden city
Monaco – shine
The other two – selfish

20 Minutes de Chaos – guerre dês interests
Napalm Death* - don´t bother
No Rest – Isolado
Extreme Noise Terror – Screaming fucking mayhen
Disrupt – Domestic prison
Nieu Dieu Nieu Maitre – presente de Bush
Varukers – protest to survive
Chicken´s Call – Notre histoire

Alla prima – dor de cotovelo song
Ludov – reprise
Lestics – velho
Publica – como num filme sem fim

Capim Maluco – endoidar
Marcelo Birck – ouça esta canção
Baoba Stereo – Santaolalla
Labirinto – silêncio póstumo

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* Há controvérsias quanto à autoria da demo da qual foi extraída esta música, intitulada “punk is a rotting corpse”. Ela circula pela net como sendo uma das primeiras gravações do Napalm Death, fato que foi desmentido por um dos fundadores da banda, Nic Bullen, no Fórum oficial do Napalm Death. Detalhe: a confusão é tanta que a referida demo constava da discografia no site oficial da banda e na Wikipédia. De qualquer forma, é bem interessante, e a duvida só aguça a curiosidade em saber, afinal, que banda é esta, caso não seja, realmente, o Napalm Death.

Abaixo, o post creditado a Nic Bullen:

Official Napalm Death Forum
Posted: Wed Dec 05, 2007 7:58 pm
Post subject: 'Punk is a Rotting Corpse' Demo
Hello - can someone please tell me how I can contact the Webmaster/mistress of the Napalm Death site?
(The 'Contact' link on the main site doesn't seem to work)
The reason I ask is that I want to get the entry for a 'Punk is a Rotting Corpse' demo in the Discography removed.
There is NO such demo recording by Napalm Death, there NEVER HAS BEEN, and I sincerely doubt there ever will.
This erroneous, misinformed and inaccurate 'demo recording' is the subject of an entry in Wikipedia and is retained there on the basis that it is mentioned in the 'official' Discography on the Napalm Death website: as a result, I would like it removed.
If someone can advise, I would be grateful.
Thanks,
Nic Bullen*
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Sobre Lestics: Em 2007 o Lestics era um duo formado por Olavo Rocha e Umberto Serpieri. Naquele ano foram lançados os discos "9 sonhos" e "les tics". Em 2008, com a entrada do baixista Marcelo Patu, do baterista Felipe Duarte e do guitarrista Lirinha, a banda se concentrou em fazer shows. Em 2009 foi lançado o álbum "Hoje" (os três discos estão disponíveis para download em www.lestics.com.br).

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Baobä Stereo Club é som de gente grande. Gente que passou por bandas, por subgêneros do rock e suas ramificações com o jazz e o erudito, e subitamente desembocou em uma clareira livre e criativa, onde as coisas já não têm rótulos (e as obrigações que eles trazem), mas apenas o prazer das infinitas possibilidades a serem exploradas.
Baobä Stereo Club é a guitarra semi-acústica (mais violão, bandolim e piano) de Henrique Diaz, a bateria (e percussão) de Paulo Soares e foi, a princípio, montado como um trio, com a presença da DJ Luci Hidaka nas texturas eletrônicas. O formato os deixava próximos da cena pós-rock paulistana, de Hurtmold, Labirinto e outras bandas. Hoje Henrique e Paulo trazem mais um diferencial para o projeto: as músicas do BSC, mesmo quando parecem espontâneas ou desconstruídas, tem zero de improviso, ao contrário da cena de rock instrumental. Assim, nessa busca pelo rigor e pela justeza de expressão, o duo fugiu de mais um rótulo.
No álbum de estréia, ficaram duas músicas gravadas em ensaio com Luci (“Carnaval em Cabreúva” e “Trump'n'Bop”) e um remix de M.Takara para “Sem Querer”. A única outra participação do disco é a de Silvia Paes, que toca castanholas em “Para Cachaito”.
O interessante é que essa idiossincrasia do BSC não se converte em incomunicabilidade. Pelo contrário, suas músicas têm encontrado rapidamente canais alternativos de divulgação. O interesse da dupla pelo trabalho de compositores de trilhas parece ter dado uma senha para o destino: uma faixa do duo foi escolhida para a minissérie de “realidade alternativa” da MTV, Teoria das Cordas. Depois, em uma conversa ocasional de mesa de bar em Buenos Aires, Henrique conheceu o cineasta argentino Luis Diaz, que resolveu usar uma outra faixa do grupo no longa-metragem Hoy, la Pelicula. E mais duas músicas estão também na trilha do documentário Reboard, rodado por Alexandre Sesper.
Essa adequação a trilhas diz muito da capacidade do Baobä em criar climas envolventes. Henrique lembra que sua formação em violão clássico fala mais alto. Paulo, filho de jazzista, abusa dos contratempos e alterna o uso das peças de seu instrumento em seqüências muitas vezes improváveis para ouvidos amaciados pelo senso comum.
Baobä Stereo Club, o álbum, foi mixado online, trocando arquivos gravados na casa de Henrique com o produtor Clive Mund, do estúdio Deluxe de Florianópolis. O som de estúdio procura ser fiel às apresentações, algo entre o post-rock, jazz, experimentalismo, música clássica, ritmos latinos e trip-hop. Tudo nos termos do minimalismo, nem tanto porque se trata de um duo, mas porque o instrumental pode ser melhor captado em suas sutilezas. Então, procure um ambiente tranquilo, baixe a luz e se entregue às nove viagens que são as faixas deste disco.
www.myspace.com/baobastereoclub
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Capim Maluco

Um dos shows mais viscerais de São Paulo, o Capim Maluco foi formado em meados de 2000, no interior do Estado (cidade de Paraguaçú Paulista). Com uma sonoridade vigorosa e empolgante, o grupo é um projeto do guitarrista, vocalista e compositor Rafael Laguna, que o foi aprimorando ao longo de várias mudanças de cidade e de formação.

O álbum Flamingo é o salto esperado nessa carreira: repertório pinçado de todas as fases, arredondado pelo power trio (com Rodrigo Bernardes no baixo e Gustavo Santos na bateria), que é a formação atual. “O Capim vem evoluindo, dos três acordes para influências até de jazz”, diz Rafael. Mas o resultado do disco é coeso. A mesma pegada garageira, tanto em composições antigas como a porrada de abertura, “Endoidar”, até as mais recentes “Wasted’n’Old”, ou “Fííí”. Essa última é parceria com o baixista Rodrigo, que também é guitarrista em bandas mais jazzy e experimentais, como Freetools e Zappanois, ao lado de Gustavo. Aliás, a nóia sonora de “Fííí” ganhou em estúdio o reforço do sax tenor de Márcio Negri, que toca, entre outros, com o saxofonista Bocato. Destaques também são “Fool”, outra composição recente, que tem uma sonoridade mais moderna e dançante, quase um disco-punk, e a climática instrumental “Momento”, que fecha o álbum. Serginho Serra, do Ultraje a Rigor, é o outro convidado do CD, em “Revolta do Vizinho”.

“O conceito deste álbum foi fazer uma coisa mais distinta, sem perder o ataque da banda”, diz Rafael. De fato, a capa sóbria e classuda de Flamingo está a anos-luz de distância da capa da primeira demo, Real Mundo Imaginário, que trazia uma foto (verdadeira) de Rafael de porre, vomitando. Mas também é verdade que a banda não perdeu uma gota de sua contundência original. Tanto que algumas das faixas dessa demo foram regravadas com cuidado especial e permanecem atuais. Diz o produtor Carlos “Blinque” Milhomem (boss do selo e estúdio Objeto Sonoro, junto com Alê Manso) que o trabalho em estúdio foi exatamente burilar os detalhes – inclusive microfonias que parecem estar lá por acaso, ou solos trabalhados –, mas sem abrir mão da intensidade do grupo, que foi exatamente o que conquistou o pessoal do Objeto Sonoro.

Rafael ouviu o rock dos anos 90 – Nirvana, Sonic Youth, Mudhoney, Pavement, Dinosaur Jr., Superchunk, Smashing Pumpkins, Foo Fighters, Yo La Tengo, Queens of the Stone Age – como porta para pesquisar a psicodelia e a contracultura dos anos 60 e 70, particularmente em sua vertente mais pesada e experimental – Hendrix, Led Zeppelin, Doors, Zappa, Humble Pie, Stooges, MC5, King Crimson. O resultado é o que o guitarrista chama de “grassrock” ou de “rockelétricodistorsion”. Tem a ver com stoner-rock? “Tem”, diz Rafael, “mas o QOTSA, por exemplo, tem cinco malucos – nós somos só três malucos, o que determina mais simplicidade” (risos). Rafael também não se incomoda em filtrar essa mistura aos poucos, sem prazos nem pressão para gravar entre a agenda de shows da banda, “tipo Pati Smith” (risos), conquistando aos poucos boa repercussão entre a mídia especializada e o público.

www.myspace.com/capimaluco

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O nome “Alla Prima” vem de um termo comum da pintura e significa “pintura direta” ou "de primeira". A banda abrange um background bem relacionado com a expressão, já que dela participam artistas plásticos e designers. Além disso, a ela nasceu de três primos que se uniram.

O que chama atenção da Alla Prima é o mix de analógico com digital. O elemento eletrônico foi agregado por motivo de necessidade: não tinham baterista. Eles criaram um software que tocasse bateria em tempo real e, já que o notebook estava ali mesmo, não custava nada usar pra outras coisas. Inclusive, até a guitarra funciona como sintetizador em alguns momentos e isso sem falar no teclado.

Os instrumentos acústicos que fazem parte da banda são apenas a representação do gosto pessoal de seus integrantes. Além dos tradicionais guitarra, baixo e bateria, eles têm também violão de corda de aço, nylon, escaleta e o que mais lhes dá na telha.

A Alla Prima tem muitos backgrounds, idades e referências diferentes, então mesmo sem a pretensão, acaba reunindo um pouco de cada coisa. Misturando o familiar com o inusitado, o pop com o experimental, indo do rock ao samba, passando pelo jazz e a música eletrônica, tudo pode ser ouvido lá.

O disco Complete Anthology vol. 1 faz uma ironia no próprio título, pela quantidade de informação musical que contempla na sua construção. Segundo a banda, a primeira parte do disco serve para amaciar os ouvidos, em contrapartida no “lado b” estão as músicas mais eletrônicas, herméticas, alopradas.

A Objeto Sonoro foi o único selo que passou pela cabeça deles quando resolveram gravar pelo fato de darem preferência às bandas inusitadas e serem antenados com as novas questões do mercado fonográfico. Sem contar que todos os CDs lançados pelo selo são liberados para download gratuito.

www.myspace.com/allaprimasp

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LABIRINTO: Sexteto paulistano formado em meados de 2003, a partir dos anseios e experiências de amigos que buscavam materializar suas diversas influências musicais e pessoais através da composição instrumental, cujas sonoridades e timbres se mesclassem evitando a predominância de uma fonte sonora unívoca. As construções harmônicas priorizam as exaltações emotivas variadas que a música percorre ao longo do labirinto estético, ideal e interpretativo. Pluralidade instrumental e sonora, diversidade imagética,unidade conceitual, seja bem vindo ao labirinto; Guitarras + baixo + violoncelo + bateria + computador + silêncio! (música para cinema)

www.myspace.com/labirinto

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Pública

Criada em 2001, a Pública surgiu desde seu começo como uma banda autoral. Incentivados pelas bandas britânicas dos anos 90, como Oasis, Supergrass e The Verve, que atualizaram a sonoridade de bandas clássicas como Beatles e Rolling Stones, a Pública vem mostrando através de seus álbuns que é possível conciliar referências clássicas e atuais e criar sua própria música.

Embora tenha nascido no começo do novo século, somente em 2006 a banda lançou seu primeiro disco: Polaris. Através dele a banda começou realmente a ser destaque no cenário nacional, inclusive com a revista Rolling Stone Brasil fazendo uma crítica absolutamente positiva e sugerindo que “Pública é a ‘the next big thing’ do rock gaúcho* e brasileiro” e destacando que a banda era uma mistura entre Beatles, rock britânico e psicodelia.

Com o prestígio em alta devido as diversas matérias que saíram na imprensa elogiando o primeiro álbum, a banda partiu para uma seqüência de shows em festivais por todo país. Enquanto divulgava sua “salvem os Lp’s Tour” pelas capitais brasileiras, a banda se preocupava com a gravação de videoclipes: foram 3 extraídos do álbum de estréia, sendo eles Polaris, Lugar Qualquer (clipe que faz uma bonita homenagem para Porto Alegre, cidade dos cinco integrantes), e Long Plays, vídeo clipe que trouxe à banda uma indicação ao VMB – prêmio realizado anualmente pela MTV brasileira.

Em 2008 a banda se fechou em um estúdio no interior do seu estado para gravar Como num Filme sem um Fim, seu segundo álbum. Com a pretensão de lançar um grande disco, que ao mesmo tempo soasse pop incluísse uma parte bastante ousada e sombria, a Pública passa meses terminando este segundo trabalho.

Em janeiro de 2009 o disco é lançado e a repercussão é imediata. O jornal local mais importante, Zero Hora, destaca que “com o lançamento de Como num Filme sem um Fim, a Pública se firma como uma das mais importantes bandas do novo rock brasileiro” e continua: “bandas com a metade de qualidade de arranjos, originalidade, densidade e inspiração da Pública tem recebido este selo. As canções do novo disco têm um incrível apelo pop, com uma sonoridade que não encontra paralelo em nenhuma outra banda brasileira.”

A Rolling Stone Brasil novamente mostra seu apreço pela música do grupo com uma crítica positiva que lembra que “a banda tem tudo para se destacar no cenário pop nacional”, chamando o disco de “maduro, bem acabado e ambicioso”.

www.mypace.com/publicarock

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Memória do rock Brasileiro dos anos noventa



O site paraibano ladonorte está com um projeto bastante interessante de resgate da memoria do rock independente brasileiro dos anos noventa. Para saber mais, clique aqui. Para contato, envio de sugestões, dicas e materiais, enviar mensagem para memoriarockbr90@gmail.com . Abaixo, alguns dos depoimentos colhidos para o projeto, que está em pleno andamento.

“Difícil resumir uma década assim, mas sem dúvida foi uma década de transição Vinil sumindo, CD ganhando força e o mundo digital começando a ganhar envergadura. Ao mesmo tempo o universo independente mundial explodiu, rompendo varias barreiras e deixando de lado boa parte da diferenças. Uma banda uma semana estava num pub, na outra estava num estádio pra 50 mil pessoas, isso sem internet” (…) Luciano Matos, jornalista e produtor baiano.

“O começo de tudo… as fitas, os primeiros cds, os primeiros instrumentos importados mais baratos (cortesia de Fernando Collor), os estúdios um pouco mais instruídos para gravar…”, Alexandre Alves, músico e produtor potiguar, ex-Chronic Missing.

“(…) falando sobre a minha realidade no ES, posso dizer que no quesito produção e tecnologia nós engatinhávamos até depois do meio dos anos 90, me lembro que gravamos nossa primeira demo num estúdio de jingles em Vitória, muito tempo depois fomos entender que era uma parada tosca, pra tentar situar a gente também nesta realidade. (…)”, Rodrigo Lima, vocalista do grupo capixaba Dead Fish.

“Penso que foi importante como “ponte”. Experimentou-se bastante. Acertou-se e errou. Foi uma época em que a tecnologia também estava se aperfeiçoando e o Brasil começou a sacar mais como os caras trabalhavam lá fora, em termos de produção editorial, musical e tudo mais com a vinda de grande show e festivais. Vimos que estávamos aquém dos gringos. (…)” Carlos Zechner, baterista das bandas curitibanas Swamps e Toby One.

“Acho que foi algo parecido com o que ocorreu nos anos 50, quando o jovem passou a ser “notado”. Só que dessa vez as pessoas foram menos passivas, passaram de meros consumidores para criadores. Outra coisa e que o “feio”, o “mal feito”, o “sujo” e o de “mau gosto” deixaram de ser vistos assim. Nada mais de padrões de “qualidade” duvidosos. Veja o caso do Grunge, uma espécie de reciclagem do punk que tomou de assalto o mundo. Hoje a estética “alternativa” é usada até para vender margarina”, Bruno Privatti, editor do zine carioca Brujeria.

“Foi onde eu realmente comecei a produzir musica e aprender tudo que sei até hoje. Musicalmente, eu posso te dizer que eu adorava cada demo que recebia, as bandas eram muito legais e sempre pintavam como uma novidade na área, diferentemente de hoje onde se joga no lixo quase toda demo tape q você recebe, porque é sempre repetitivo, mal feito ou imitação barata. socialmente posso te dizer que através do hardcore mudei vários aspectos da minha vida, que refletem em mim até hoje”, Mozine, da banda capixaba Mukeka Di Rato e dono da Läja Records.

“Foi um start na cena indie nacional, que só começou a se estruturar de verdade na metade da década de 90. A imprensa e divulgação nessa época pré-internet eram os fanzines, a tecnologia era a demo-tape gravada em estúdio sem know-how rock. Banda legal tinha de rodo, mas analisando hoje, mais criticamente, eu achava massa um monte de coisa que hoje não daria a mínima”, Rafael Jr, fundador e baterista da banda sergipana Snooze, editou o zine Cabrunco.

“Acho que foi o período de produção mais importante na história do rock independente brasileiro. Primeiro pela qualidade das bandas. Vemos hoje bandas que são hype na imprensa especializada, mas são muito ‘fuleiras’ perto das bandas dos 90’s… havia uma maior variedade de bandas e, principalmente, bandas que faziam a diferença no meio. Hoje há bandas muito iguais. E o segundo aspecto que vale ressaltar nos 90’s é que naquele época era tudo mais difícil e limitado comparando com hoje que tem o fenômeno da internet.”, Andye Iore, jornalista e produtor paranaense, dono da loja de discos O Porão.

“Estando na faixa dos 20 anos de idade na década de 90, e fazendo parte de uma banda em Fortaleza (Velouria), vejo que passamos pelo começo de muita coisa que hoje se consolidou. Pelo menos em termos de produção, tudo era bem mais incipiente, mas feito com mais garra, talvez. Havia fanzines impressos em papel, o que era bem legal. Havia talvez menos influência imediata dos artistas estrangeiros sobre todos nós. Para conhecer novos artistas, havia de se comprar fitas K7, de alguém que trazia de fora, o que era um processo lento. Isso até cerca de 1997, quando a Internet mudou tudo isso”, Régis Damasceno, músico e produtor cearense, ex-vocalista e guitarrista do grupo Velouria.

“(…) A produção cultural começou a encontrar novos e mais eficientes meios para se expandir e se comunicar com o publico. Por outro lado, foi quando as coisas começaram a ficar um tanto quanto “confusas”, fragmentadas, sem foco, especialmente com a popularização da internet – um fenômeno que começou a se esboçar no fim da década de 90 mas cujos efeitos estamos experimentando de forma bem mais acentuada agora.(…)”, Adelvan “Kenobi” Barbosa, fanzineiro e jornalista sergipano.

“A década de 90 foi quando foram montadas as bases do que está acontecendo hoje no cenário independente. Começou como uma década polarizada, na qual ainda existia mainstream e underground, mas aos poucos, especialmente com a introdução dos meios digitais, foram se criando inúmeras camadas entre esses dois extremos que hoje são habitadas por uma diversidade grande de intenções. Quando chegamos aos anos 00, já havia uma série de sementes plantadas por bandas e produtores culturais que começaram a germinar. A década de 90 foi uma década em que se produziu e distribuiu cultura na raça e na pura vontade de fazer, porque era o que se tinha que fazer simplesmente. (…)”, Gustavo Mini, vocalista e guitarrista dos gaúchos Walverdes.


“Foi o início da Cultura Rock no Brasil. Poder gostar de Rock e usufruir de tudo, ir a shows, ouvir os discos, sem que o Rock precise ser o primeiro lugar nas paradas. O Rock como opção, não como imposição.”, Gabriel Thomaz, vocalista e guitarrista do Autoramas.

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Abaixo, minhas respostas, na íntegra, para o questionário que me foi enviado pela produção deste projeto.

por Adelvan Kenobi

Questionário sobre a cena musical independente/underground brasileira nos anos 90

1) Para você o que significou, musical e socialmente, os anos 90? (considerar os aspectos de produção, talento artístico, divulgação, imprensa, tecnologia, etc)

Em termos de tecnologia – e suas conseqüências culturais e sociais – foi um momento de virada, com a expansão e popularização no Brasil da TV por assinatura e, no final da década, da internet. Isso se refletiu no fenômeno da segmentação – formação de nichos de programação na TV, por exemplo, dirigidos a um publico bem especifico. A produção cultural começou a encontrar novos e mais eficientes meios para se expandir e se comunicar com o publico. Por outro lado, foi quando as coisas começaram a ficar um tanto quanto “confusas”, fragmentadas, sem foco, especialmente com a popularização da internet – um fenômeno que começou a se esboçar no fim da década de 90 mas cujos efeitos estamos experimentando de forma bem mais acentuada agora. Quanto a “talento artistico”, a primeira metade da década, capitaneada pelo estouro do Nirvana, a meu ver foi riquíssima, com a produção “underground” e “alternativa” invadindo o mainstrean. Já na segunda metade tudo ficou meio que diluído com os fenômenos do “poppy punk” e do “nu metal”. Mas mesmo assim houve movimentos interessantes, como o “British pop” e a fusão do rock com a musica eletrônica. Já socialmente, foi trágico – avanço do Neoliberalismo, destruição do Estado de proteção social, desregulamentação da economia, especulação desenfreada, agravamento da desigualdade em todo o mundo. Lamentável em todos os aspectos.

2) Na sua avaliação, quais - e porque – foram os destaques da música independente/underground da época? (bandas, selos, zines, revistas, eventos, festivais, programa de radio e TV, colunas de jornais, etc).

NIRVANA – que nasceu independente/alternativa/underground e “chutou o pau da barraca
SUB POP – o selo onde tudo aquilo começou
MIDSUMMER MADNESS – sempre batalhando no cenário independente
PANACEIA – zine que virou revista, muito bom, super profissional, quadrinho e musica
BIZZ – grande fonte de informação sobre musica dos 80 ao inicio dos 2000. Teve grandes fases nos anos 90, especialmente na época do estouro do grunge, quando pôde dar o devido destaque a quem merecia.
PAPAKAPIKA – grande zine de cultura pop/trash de Curitiba
CABRUNCO – Melhor fanzine sergipano e um dos melhores do Brasil. Bem na linha do Papakapika
BHRIF – Um megafestival radicalmente voltado para a musica independente que aconteceu em Belo Horizonte, bancado pela prefeitura, em 1994. Foi maravilhoso, eu estava lá. Entre outros feitos, trouxe o Fugazi pela primeira vez ao Brasil
JUNTATRIBO – o grande festival REALMENTE independente do Brasil (porque o BHRIF não foi independente, foi bancado pelo estado. Sem demérito nenhum nisso, pelo contrário, com MUITO mérito, afinal foi o estado bancando, pelo menos por alguns dias, a produção independente). No final das contas ninguém é totalmente independente, o juntatribo mesmo aconteceu nas dependências da UNICAMP, ou seja, utilizou-se da infra-estrutura da Universidade para acontecer, certamente com algum tipo de apoio da instituição.
GANGRENA GASOSA – porque santo de casa também faz milagre
OS CABELODURO – melhor HC tosco adolescente da época
DFC – segundo melhor HC tosco adolescente da época
SECOND COME – A melhor banda “indie” brasileira da época
PIN UPS – pioneirismo e qualidade até o fim
SNOOZE – porque é bom pra caralho
CAMBOJA – Banda mais original já surgida em Sergipe
LIVING IN THE SHIT – eram muito bons no que faziam – embora seu som, se ouvido hoje em dia, soe meio datado
EDDIE – rock Brasileiro. Genuinamente brasileiro, sem forçação de barra
CONCRETENESS – Melhor banda de rock eletrônico do Brasil. Os shows eram sensacionais.

3) Cada década com sua peculiaridade, seja no âmbito artístico e ou tecnológico. Na sua opinião o que de mais importante aconteceu nos anos 90 em comparação às décadas anterior e posterior?

O estouro do Nirvana e o rock alternativo chegando ao “mainstrean”.

4) A história é realizada por pessoas, é óbvio. Nos anos 90 e no meio independente/underground, quem você destacaria e por qual motivo?

Uma pessoa só ? Caramba, dificil ... Vou citar Rodrigo Lariu, principalmente pela persistência. Tá aí até hoje, batalhando pelas mesmas coisas.

5) Os anos 90 foram de mudanças e transições. Nesse cenário a comunicação, divulgação, distribuição e marketing de informações e produtos eram feitos essencialmente por via postal, expandida através dos fanzines e demais publicações alternativas. Como você analisa esse momento? Poderia citar exemplos de zines e de outras publicações de destaque?

Os já citados. E mais uma turma do Ceará que fazia o zine MASTURBAÇÃO, IOGURTE E ROCK AND ROLL, especialmente o Weaver. A turma dos quadrinhos do GRUPO DE RISCO do Maranhão - Jamys, Ronilson, Ricardo Borges. Silvio da karne Krua aqui, no cenário punk. Oscar F. em Goiânia, Fellipe CDC em Brasília, Marcio Sno em SP, Leonardo panço no Rio, e muitos outros. Era uma época de muito idealismo e vontade de ver as coisas acontecerem. Só assim pra explicar o prazer e a boa vontade com que a gente tinha aquela trabalheira toda de datilografar, recortar, colar, xerocar, dobrar, grampear e mandar pelo correio.

6) Especificamente sobre a cena independente/underground de sua cidade e do seu estado o que mais marcou, mais destacou de importante por meio? Poderia citar nomes de bandas/artistas, festivais, eventos, espaços para shows, programas de radio ou teve, etc.

Bandas: Camboja, Snooze, karne Krua, Anal Putrefaction, Deuteronômio, Lacertae
Festival: Rock-se em 1998, um divisor de águas na cena local
Espaço para shows: Mahalo Disco Club, uma espécie de pub, até charmosinho, no centro da cidade, que no meio da semana servia aos universitários da maior Faculdade particular da cidade, e nos fins de semana abria pro rock geral, totalmente sem preconceitos. As bandas mais underground e “podres” da cidade tocaram lá. Os gigs foram históricos. Melhor época do rock underground aqui, na minha opinião – apesar das imensas dificuldades para se fazer um show, mas acho que por isso mesmo a galera tinha mais garra e era mais unida.
Programa de radio não teve nenhum nos anos 90. Mas teve uma Radio inteira dedicada ao rock por um tempo, A JOVEM ARACAJU – um dos muitos reflexos positivos do estouro do Nirvana.
Pessoas: Sylvio da karne Krua – pela persistência principalmente, Rafael da Snooze, um cara que sempre primou pela qualidade e independência, e Adolfo Sá, pelo talento.

7) Particularmente o que mais lhe marcou nessa época?

Os shows no Mahalo foram bem marcantes. E o estouro do Nirvana levando de roboque as bandas independentes para o mainstrean, sem sombra de dúvidas.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

gigante animal




http://www.misturacultural.com.br/


Banda Gigante Animal faz shows no Rio próximo fim de semana e bate um papo com o Mistura Cultural

Segunda, 3 de Agosto de 2009 às 12:48
Texto: Michael Meneses

Prontos para realizar seus primeiros shows em solo carioca a banda paulista Gigante Animal bate um papo com o Site Mistura Cultural e fala da sua história, do novo EP intitulado “Obrigado, Ténn”, dos shows que estão por vir, das apresentações no Grito Rock e da participação no documentário “Re:board - Brazil Skate Art and Deck Research”. A banda é formada por Lucas Wirz (piano elétrico, guitarra e voz), Henrique Zarate (baixo e voz), Renato (guitarra) e Babalu (bateria), e como esse que vos escreve é o carioca mais sergipano da cena rock carioca e o batera Babalu é um sergipano vivendo em Sampa, aproveitamos para falamos sobre um pouco do rock nas terras de Sergipe del-Rei! Leia a entrevista e se preparem para os shows da Gigante Animal no Rio. As apresentações começam no próximo final de semana e tendo em vista que as influencias da banda são bem variadas não se resumindo apenas a música, mas também ao cinema, skate... Podemos dizer que tais shows serão uma verdadeira Mistura Cultural!

1 – Faça uma apresentação sobre o Gigante Animal. Influencia, história, discografia...
Lucas - O Gigante surgiu da união entre eu, Henrique, Guilherme, remanescentes do College, (myspace.com/bandacollege), e Thiago Behrndt (myspace.com/todaessaagua). Essa formação durou pouco menos de um ano com a saída de Guilherme e Thiago. Seguimos, eu e Henrique, fazendo músicas até, felizmente, encontrarmos Babalu (Karne Krua, Perdeu a Língua, Triste Fim de Rosilene) e Renato Ribeiro (Bandits e, atualmente, Porto, projeto do baterista myspace.com/richardribeiro). Lançamos, três EP´s(Xâera, Tchiqei, Lalão) cada qual com três músicas, processo esse desenvolvido com a intenção de "estudarmos" nossa sonoridade como banda e em estúdio. Tem sido muito proveitoso, pois além desse estudo, conseguimos manter material novo com certa freqüência, algo bom, acredito, para uma banda nova. A influência, como de praxe, é tudo aquilo que se vive somado ao que se escuta. De som, sempre difícil falar só isso ou aquilo, escutamos música de todos os gêneros. Cola num show pra gente trocar idéia de som!

2 – Percebe-se que a banda tem músicos oriundos de bandas de estilos diferentes ao som do Gigante Animal. Até que ponto isso ajuda ou não nas composições e no contato com o público? Afinal sempre tem aqueles fãs e amigos que imaginam que um músico vai tocar o mesmo estilo sempre.
Lucas - Verdade, quanto a origem de cada um influindo nas composições, acho demais, pois, naturalmente, acontece um diálogo ainda mais rico entre nós. No contato com o público, o fato de termos vindos de bandas diferentes, ajuda também, pois são diferentes públicos se encontrando, dando aquela temperada firmeza. Aproveito pra dizer que, quanto a seguir um estilo, o som do Gigante é uma evolução do que pudesse vir a ser a sonoridade futura do College, mas agora com uma meta maior, viver disso fazendo o rolê, sempre, dá forma mais sincera.

3 – Vocês estão com datas marcadas no Rio de Janeiro e no Sul do Brasil, como serão esses shows?
Lucas - Estamos ansiosos pra que cheguem os shows, pois com o Gigante, nunca tocamos no Rio e no Sul, além de que temos tido uma boa expectativa por meio do myspace, orkut, fotolog, twitter, enfim, é colar pra tocar e dar o recado.

4 – Como foram os shows no Grito Rock e a tour pelo Nordeste?
Lucas - O Grito foi algo bem legal de se participar, um grande evento interligando pessoas de inúmeros estados brasileiros e países da América Latina. A turnê pelo nordeste foi demais da conta de bom! Sem falar da beleza do litoral nordestino que de quebra já deixam os humores chei d´sol. Isso é a prova que há pessoas querendo fazer o rolê acontecer de forma bem feita. Mas, claro, a banda tem que querer isso, tem que querer fazer o rolê, sem frescura, tem que ralar muito. É aquela velha história, serve pra tudo, quem quer faz e quem não quer reclama. E as pessoas tão fazendo e a coisa tá andando e pra exemplificar seguem alguns coletivos com quem já tivemos contato: Anti-herói, Cidadão do Mundo, Fórceps, Espaço Cubo, Goma, Lumo, Massa Coletiva, Mundo, entre tantos outros que estão aí agilizando o processo. Pra sacar mais: foradoeixo.org.br - abrafin.com.br

5 – A banda se prepara para um novo EP. Como será esse disco, o quarto EP da banda, e não seria melhor lançar um único CD?
Lucas - Estamos em fase de gravação do EP “Obrigado, Ténn” sob os comandos de Rafael Crespo (myspace.com/rafaelcrespo). Esperamos muito conseguir levá-lo ao Rio de Janeiro. Quanto a lançar um único CD, isso irá acontecer, acreditamos, no primeiro semestre do ano que vem, provavelmente, só com músicas inéditas. Esse quarto EP fecha esse ciclo de conhecimento do nosso som, de aprimoramento em estúdio, do início da banda. Diria que está sendo uma pequena escola pra chegarmos a um "discão".
Henrique – Esse EP serviu para chegar mais perto do que a gente quer com a gravação das músicas em relação a timbre, textura e gosto, para que no disco cheio a gente venha com tudo ao vivo! Sem medo de ser feliz!

6 – Como foi participar do documentário “Re:board - Brazil Skate Art and Deck Research”, idealizado e realizado por Farofa, A.K.A Sesper, vocalista do Garage Fuzz?
Lucas - O Re:board (reboard.blogspot.com/) é um projeto voltado para a arte feita sobre os shapes brasileiros. O rolê foi idealizado pelo Sesper (sesper.blogspot.com/) que além de grande artista é vocal do Garage Fuzz. O cara já tá nessa praia do skate, há uma cara que fez com que o trabalho tenha uma força incrível. Vale a pena conferir o DOC e além dele há uma exposição bem legal de 200 shapes da coleção de Sesper. Pra nós é uma honra participar dessa idéia agora já materializada. Pra quem tiver em São Paulo, www.matilhacultural.com.br/, cola lá!
Henrique - Pra mim,em especial, foi muito bom relembrar um pouco minha infância, já que peguei o final dos anos 80 e começo dos anos 90 do skate no Brasil. Embora não pareça (hehe) o tio tem 30 anos e ver todos aqueles shapes e nomes, alguns até que eu não conhecia, por serem mais antigos e outros marcantes pra mim na época como Leo Kakinho, Thronn, urgh!, entre outros, significou bastante pra mim. Conhecer artistas que eu não conhecia fazendo trabalhos bacanas foi demais. E ainda tem meu filho, hoje com 12 anos de idade, andando de skate que me faz ficar ainda mais orgulhoso de ter participado tocando nesse arquivo tão importante pra história do skate, que vai ficar pra sempre.O nosso som ser ouvido por todas as pessoas que assistirem o documentário é muito massa!

7 – Babalu você saiu do menor estado do Brasil (Sergipe) para viver no maior estado do Brasil. Como foi essa mudança e o que você percebe de diferente?
Babalu - A saída de “AraraCaju” somente aconteceu porque eu tive a oportunidade de estudar música em São Paulo com os professores que sempre admirei, foi por esta causa que decidi ficar longe de família, acabar e abandonar todas as bandas que tinha. A mudança tem sido extremamente positiva musicalmente e diferente/conturbada culturalmente até hoje. Honestamente, depois de quase 3 anos aqui, eu vejo que a maior diferença entre os dois estados é que em São Paulo consigo viver com mais realidade as coisas que acredito e tenho como dar continuidade aos meus estudos com uma perspectiva muito maior de trabalho. Em contra partida, é osso ficar longe de praia, amigos, calmaria e todas as coisas que só em Aracaju encontro. No fim das contas, acho que tenho a mesma percepção de 9 a cada 10 pessoas que saem da Aracaju e vai morar em São Paulo. (Risos)

8 – Babalu em Sergipe você tocou em bandas que fazem ou fizeram história por lá. Karne Krua, Perdeu a Língua, Triste Fim de Rosilene... Como você vê a cena rock sergipana e fale um pouco de sua passagem por essas bandas e outros trabalhos musicais seus?
Babalu - Poxa velho, eu sou sempre otimista em relação à cena de Aracaju, acho que lá tem bandas muito boas e o nível da galera tocando é sempre muito bom. Tenho amigos de vários estados que vêem Aracaju como um celeiro de boas bandas e de bons bateristas (esse último, em grande parte, devido ao meu ídolo e guru de grande parte dos bateristas de Aracaju, Rafael Jr da banda Snooze). Só acho que a cena não esta melhor porque ainda faltam pessoas buscando o profissionalismo da coisa e o público é muito instável, uma época lota e outra não. Sobre tocar na Karne Krua, foi inacreditável, entrei com 16 anos, e, pra mim significa muito até hoje. A Karne e Silvio (vocal e fundador da Karne Krua) me ensinaram muito. A Triste Fim já existia antes de eu entrar, era um aluno meu que tocava, quando ele saiu eu fiquei na pilha de entrar, acho massa essa coisa que Ivo e Dani tem de fazer músicas rápidas e com boas melodias. Até hoje tem uma galera que gosta e fala da Triste Fim comigo. Sobre meus outros trabalhos, eles começaram depois que conheci Silvio e comecei a estudar com Rafael, minha cabeça pra música abriu muito a ponto de montar 10 bandas de diferences estilos. Era massa demais tocar HC extremo com a Da Boca ao Reto, depois brega com a Please No!, depois indie com a The Band of a Friend, pop rock com a Kannibal... Eu estava me divertindo e sem saber, estava adquirindo uma linguagem massa na bateria.

9 – Babalu agora uma pergunta de fã aqui ao músico ai. Qual o fim que levou a banda Perdeu a Língua? Eu simplesmente adorei, e acho que ela merecia um disco e não pode ficar no esquecimento...
Babalu - Rapaz, a Perdeu a Língua surgiu porque eu, Luíz, Alex (ambos da Triste fim) e Maneu estávamos ouvindo muito jazz e samba, a gente queria montar uma banda de rock calcada na concepção do jazz e samba com essa coisa de improviso e tal. Assim que a coisa começou a tomar rumo, eu fui chamado pra estudar fora, a gente sempre estava tocando e fazendo shows, fizemos até mais duas músicas enquanto eu estava de férias em Aracaju. Mas chegou uma hora que (como Luíz mesmo fala) estávamos fazendo cover de nós mesmos, num tinha mais sentido se não for manter a banda. No esquecimento ela num vai ficar porque gravamos antes de me mudar. O disco está disponível pra download com capinha e tudo no www.sinewave.com.br é só ir lá e baixar!

10 – Deixe uma mensagem final aos leitores do Mistura Cultural!
Lucas - Obrigado a todos que leram até o fim e que estas letras os levem a algo de útil. Tudibão e valeu, Michael!
Henrique - Agradeço o interesse de todos por fazerem parte dessa mistura toda. É noise!
Babalu - Muito obrigado, Michael e a todos que representaram aqui!

Conheça o Som da Gigante Animal em:
www.myspace.com/giganteanimal
http://tramavirtual.uol.com.br/artista.jsp?id=81962

Agenda – Gigante Animal 2009

No Rio de Janeiro
06/08 às 17h - Apresentação ao vivo para todo o Brasil no Programa Atitude.com, na TV Brasil - www.tvbrasil.org.br/atitude/
6/08 às 20h - Audio Rebel RJ/RJ
8/08 às 19h - Lona Cultural de Guadalupe RJ/RJ
9/08 às 20h - Barra Mansa/RJ

No Sul do Brasil
13/08 às 20h - Curitiba/PR
15/08 às 20h - Santa Maria Santa Maria/RS
16//08 às 20h - Porto Alegre/RS

# 116 - 31/07/2009 - Sergipanidade



AQUI Download do programa

Drop Loaded:

Entrevista com Bruno Mattos
Bicicletas de Atalaia – Alcoholic Dream

Karne Krua – Mensões do futuro
Kerosenes – Killed again
Cessar Fogo – Autorizados
Gee-O-Die – Floresta

Pocket show + Entrevista com a banda Plástico Lunar
Entrevista com os produtores da Sessão Notívagos

Musica das Cinzas x Napalm Death – Multinational Corporations
Misery HT – Doomsday

“Mesa redonda” com fanzineiros e blogueiros.
Participaram:

Adolfo Sá (Cabrunco + www.vivalabrasa.blogspot.com )
Aquino Neto – (Zine Guerrilha)
Cícero “Mago” – (Zoada/Humanismo)
Nininho “logorreia” – (Humanismo/O Velho zine)
Fabio “urubluesbass” – (Rosebud/Vitrola de papel)
Adelvan (Escarro Napalm)

Nucleador - Zombeers Infest Tour



DIÁRIO DE BORDO ZOMBEERS INFEST TOUR
(NUCLEADOR)

por Murillo Viana (guitarrista da Nucleador)

De mochila nas costas e uma graninha no bolso a Nucleador zarpou em direção ao sudeste. Depois de alguns meses fazendo contato com o pessoal que iria organizar nossos shows e planejando a logística incrível que é uma turnê, finalmente chega a hora de encará-la.

Muitas tralhas de bateria pra levar, malas, instrumentos e hard-cases pesados, inúmeros CDS pra vender e caminhada, muita caminhada a percorrer. Sorte a nossa que contamos com dois roadies, Rafael Findans e Biel. Dois amigos, na verdade, que resolveram nos acompanhar nessa aventura thrash.
Ao chegarmos a São Paulo, sexta feira, dia 17 de julho, fomos em direção ao bairro Consolação onde iria rolar os dois shows que iríamos fazer na cidade: o primeiro no Espaço Impróprio e o segundo no Inferno Club. Nesse dia, sexta-feira, tocaríamos no Impróprio. Antes de chegarmos lá, pegamos o metrô, que por sinal é um excelente meio de transporte, rápido e eficaz. Ao andarmos pela Rua Augusta encontramos por acaso com Thiago Babalu, Aracajuano, estudante de bateria que mora em São Paulo e que ficou de organizar o show no Impróprio, onde mora, inclusive. Chegamos ao Impróprio e fomos recepcionados pelo Renato que, junto com o Thiago, administra o espaço. Deixamos nossas tralhas por lá e fomos dar o primeiro de muitos rolês por São Paulo.

Voltando ao Impróprio pela noite, na Rua Dona Antônia de Queiroz, já dava pra ver os primeiros roqueiros chegando a casa, um squat apertado e úmido, porém, onde rola os shows é num porão mais apertado e úmido ainda, perfeito (pra mim, pelo menos)! O show de abertura foi da banda M.A.C.E. Infelizmente não acompanhei os shows das bandas, pois estava na nossa banquinha de CDS no andar não subterrâneo, mas vi uma parte do show da Bomb Threat, muito bom! Banda do ABC paulista de thrash crossover que tem uma presença de palco e riffs muito fudidos. Tocou ainda a Braindeath, banda paulista também de thrash crossover. Aliás, todas as bandas eram de thrash crossover, inclusive a Nucleador, o que não foi problema algum, pelo contrário. Todos que estavam ali amam e comem esse estilo de som todos os dias, do café da manhã ao lanchinho da madrugada. São envolvidos com a cena e super simpáticos, receptivos. Eis o ponto forte desse dia, a receptividade paulista. Conversei praticamente com todos os integrantes das três bandas que tocaram nesse dia e mais outras pessoas que simplesmente paravam na banquinha pra comprar nosso EP e acabava trocando uma idéia massa. Perguntavam como estávamos, se a viagem foi boa, se a cena do nordeste é bacana, onde iríamos dormir, se estávamos precisando de algo... Pra mim isso é mais que gratificante. Ainda conheci neste dia o Chris do Bandanos que iria organizar o show do dia seguinte e o Reinaldo do Hate Your Fate, de Cascavel, ambos gente finíssimas. Quando chegou a vez da Nucleador estrear nos palcos sudestinos estávamos cansados e famintos. Nosso show “não foi lá essas coisas”, mas deu pra animar legal. Faltou entrosamento. Qualidade esta que encontramos e muito nos shows seguintes. Ao acabar o evento ficamos lá no bar do Impróprio tomando cervejas e conversando com o pessoal que ainda restava por lá. Fomos pro apartamento de João Victor, irmão do baixista da Nucleador, o Luís Solon, onde íamos residir até irmos pro estado do Rio de Janeiro.

No dia seguinte, sábado, dia 18 de julho, o show seria no Inferno Club na famosa Rua Augusta. Demos mais rolês pelo bairro e umas cinco e meia da tarde fomos para casa de show. O local se encontrava cheio quando adentremos. Fomos recepcionados pelo Chris e pela galera da Cospe Fogo Produções. O Inferno lotou de almas nos minutos seguintes, calculo em média umas 400 e tantas pessoas. Dá-lhe crossover! Deixamos nossas coisas no camarim e já fui, como de costume, pro bar. Fiquei abismado com o preço da latinha, cinco reais. Roubo! Mas enfim, estava em São Paulo de curtição e lá a cerveja é cara mesmo, infelizmente. Enchi a cara do mesmo jeito e fiquei dezenas de reais mais pobre, mas não me arrependo, jamais. A primeira banda a tocar foi a FSD (Fidel Slam Dancer), banda paulista de thrash com uma pegada bem hardcore onde seu vocalista é uma mulher, a Sara. Apenas ouvi o show deles, pois estava no camarim nesta hora aquecendo-me pra ir tocar, seriamos a segunda banda da noite. O palco era grande, mas não o bastante pra ser monótono, estava de bom tamanho pra uma casa de show grande como é o Inferno. O equipamento de som sem sombra de dúvidas foi o melhor que já toquei com a Nucleador, impecável. Amps potentes e valvulados! Quando a vinheta da Nucleador terminou de dizer (sim, rolaram três vinhetas ao longo de nossos shows): “Ladies and gentlemen, boys and girls, dying is time here” (primeira vinheta esta tirada dos filmes Mad Max 3 - Beyond Thunderdome 1985 e da trilha sonora de Monster Squad 1987, trilha esta feita por Bruce Broughton) e nosso batera, Bruno Petoh, deu as quatro marcações no chimbal, começamos a tocar nossa introdução chamada Inthrash. Depois disso o Inferno borbulhou. A galera foi ao delírio: circle pits e moshs no show inteiro. Os que estavam encostados ao palco simulavam que eram zumbis e puxavam minha calça clamando por “brains, brains”, uma encenação linda de se ver, a galera de São Paulo representa! Quando tocamos nosso único cover, Troops of Doom do Sepultura, parece que Satanás estava em pessoa e entidade lá no Inferno, insanidade de moshs! Um dos melhores shows da turnê, com certeza, no quesito instigação do público. Tinha até quem cantasse nossas músicas levantando a mão e fazendo o sinal do capeta ou subindo ao palco pra cantar com a gente. Muito foda, inesquecível. Fui ao camarim na volta com um sorriso no rosto e fomos recebidos por quem estava lá com muito entusiasmo e vários parabéns, apagando completamente aquele sentimento de show “mais ou menos” do dia anterior. Com os instrumentos devidamente guardados fomos montar a banquinha de CDS e lá conheci várias pessoas bacanas como o Xitus do Ataque Nuclear lá de Campo Grande e o Rodrigo do Decimator de Porto Alegre, que ainda iria tocar nesta noite. Além do Gabriel do D.K.R., do Pícaro de DF que faz junto com o Poney do Violator o programa web rádio Underground Ways e o Lucca da Low Life do DF que também iria tocar no Night of Living Thrashers IV, todos pessoas maravilhosas. Vi o show do Low Life, eles tem uma pegada crossover a lá DxRxI e Cryptic Slaughter, bem rápida. Um bom show, barulhento e nervoso. Depois foi a vez da Decimator que faz um som death thrash com riffs matadores, muito bom também. Em seguida foi a vez da Bandanos de São Paulo, o melhor show da noite em minha opinião. O vocalista, Chris, comanda a banda com muito entusiasmo e pulos olímpicos, sem contar que a banda é muito coesa e faz um crossover retrô como era feito no início dos anos oitenta, maravilhoso. Finalmente a “atração” do evento, Dr. Living Dead da Suécia. A impressão que tive deles no camarim foi de pessoas frias, o que não se refletiu no palco. Foi um show bastante animado e engraçado, pois os caras usam vinhetas irônicas entre as músicas, possuem um mascote - um cara vestido de roupa amarela anti-radiação com uma pistola a laser e uma máscara verde, hilário. Sem contar que o roadie deles fica ao lado da banda fazendo papel de animador de palco com peruca e roupa colada, bem “farofa”. A galera estava se matando em moshs e circles pits. Um fato bacana a se comentar foi que o único cover que eles tocaram foi da banda Hate Your Fate do Paraná, em que seu vocalista Reinaldo, que estava no show, foi surpreendido com esta homenagem e foi convidado a cantar com os “doutores mortos vivos de máscaras de caveira que usam bandanas na testa”. Muito bacana mesmo. Depois do show fomos dar um rolê na night paulista ali pela Rua Augusta mesmo, que estava entupida de gente passando de lá pra cá, em sua maioria bêbadas e de casaco. Estava muito frio, uns treze graus. Fomos encher nossa honorável cara e comemorar o sucesso desse show memorável.

No dia seguinte, domingo, dia 19 de julho, partimos para Jaguariúna no interior de São Paulo, vizinho a Campinas. Não sei precisar ao certo quantos quilômetros da capital fica Jaguariúna, mas de ônibus levou pouco menos de uma hora e meia, perto. Chegamos lá e fomos recebidos pelo Eduardo, organizador do evento chamado RE-THRASH, produzido pela HC 80 Produções. O evento começou cedo, lá pras quatro horas da tarde e contou com a participação das bandas Artilharia, Retaliador, Metalizer e Madhouser. A cidade também é bem fria, mas o dia estava ensolarado, o que não dispensou o uso de casacos. Quando chegamos ao Local, o Bunker Moto Station, fiquei surpreendido como oitenta por cento da galera era de metaleiros coroas, quarentões e cinquentões. O que me deixou ainda mais orgulhoso. Desejo chegar a essa idade permanecendo envolvido com o underground. Batemos um rango, comecei a beber, só que menos (a noitada anterior tinha sido pesada) e ficamos na nossa banquinha apreciando o thrash metal comer solto. Não irei fazer a resenha de todas as bandas que tocaram nesse evento, mas todas elas foram muito boas. Com destaque pra banda Madhouser que já ando ouvindo há bastante tempo pelo myspace. Banda paulista de thrash metal que faz seu som com muita personalidade e executou um show impecável e instigante, o qual não me deixou ficar parada e terminei me entregando aos pulos e batidas de cabeça. Bom é assim! Tive a chance de conversar com os guitarristas do Madhouser, Marron e Beto Oliveira, dois cabras gente finas. Quando chegou a hora da Nucleador tocar estava um frio de lenhar, mesmo assim tirei meu casaco sabendo que o crossover iria me aquecer. Colocamos nossa bandeira ao fundo da parede de vidro do palco, embaixo de uma cabeça de touro chifrada que habitava no teto do mesmo e começamos com nossa desgraceira sonora. Foi o show da turnê que eu mais me instiguei. O som não estava potente, mas dava pra ouvir tudo perfeitamente. Não havia muitas pessoas, mas todas estavam pulando, fazendo caretas e batendo cabeça. Contagiei-me com esse espírito e ainda mais quando me caiu a ficha: “Estamos a mais de dois mil quilômetros de casa tocando nossas músicas próprias e as pessoas pagaram pra nos ver e cantar nossas músicas. Caralho!”. Essa epifania me encheu de alegria e insanidade e fiz minha melhor presença de palco até hoje. A banda estava muito entrosada neste dia, tocamos numa velocidade quase dobrada e quando nosso set list terminou a galera pediu bis e nós tocamos outra vez nossa música chamada Municipal Wasted - que não tem nenhuma relação com a banda americana Municipal Waste, apesar gostarmos dessa banda. A letra fala sobre um município desperdiçado pelo ciclo do lixo urbano, mas enfim, tocamos esta música outra vez e tivemos que parar por aí, pois ainda iríamos voltar pra capital paulista e ficar lá até quarta-feira de manhã. Ao terminar o show arrumamos rápido nossas coisas, fizemos os últimos contatos com a galera, últimas vendas e trocas de material e corremos pro ponto de ônibus pra pegar o metrô de São Paulo ainda aberto, o qual fecha meia-noite. Acabou que deu tudo certo e chegamos à casa são e salvos, felizes da vida. Fomos comer, beber e descansar... Merecíamos!

Ao longo da semana só fizemos dar mais rolês por São Paulo e nos divertir à noite. Fui com Findans e Biel para a Rua Teodoro Sampaio onde tem várias lojas de instrumentos musicais e acessórios do gênero. Fizemos dezenas de outras coisas por lá, mas enfim, São Paulo do caralho. Na quarta de manha fomos em direção ao próximo estado da Zombeer Infest Tour, Rio de Janeiro. Pegamos um ônibus e enfrentamos umas cinco horas de estrada. Ao chegarmos à rodoviária do Rio de Janeiro Heron e Eric, ambos integrantes da banda Uzomi, vocalista e baterista, respectivamente, estavam lá nos esperando. Fiquei muito feliz ao vê-los, os dois são figuras impares o qual ficamos muito amigos quando eles tocaram em Aracaju em dezembro de 2008. Abraços e sorrisos à parte, fomos em direção a Marica, cidade interiorana do estado onde iríamos ficar até quinta à noite. A cidade é bem de interior mesmo e onde ficamos tinha um rio muito bonito. Fomos recebidos na casa onde ficamos por Dona Gracinha, mãe do Heron. Uma senhora muito engraçada e de bem com vida, fiquei “amigo do peito” dela em poucas horas. Saímos de madrugada pra conhecer a cidade e tomamos umas cervejas no centro dela. No dia seguinte fizemos um churrasco pra descontrair. Pena que Biel ficou febril e todos estavam cansados e morgados da viagem e acabaram não bebendo a grade de cerveja (Cydra) que compramos. Menos eu, é claro. Bebi a grade toda com Dona Gracinha e ficamos ainda mais “amigos de copo”. À noite fomos embora em direção à capital e nos despedimos com dor no coração daquela casa tão maternal e de sua anfitriã. Chegando no Rio, deixamos nossas coisas na casa do Heron e fomos pra night carioca. Começamos num bar e nos encontramos com Bruno da banda Uzomi que, junto com Heron, estava organizando nosso show pelo Rio e que, por sinal, é meu camarada mais chegado da banda. Conversamos muito e vagamos pela LAPA até eu perder a consciência, minha memória apagou a partir daí. Mas lembro de um fato bem interessante: Estávamos na frente dum bar conversando sobre a galera de Aracaju e quando falamos o nome de uma garota que mora aqui, poucos minutos depois ela surgiu em nossa frente. Fiquei abismado com tamanha coincidência e pensei: se Deus não existe, Satanás, definitivamente, existe.

Quando acordei no dia seguinte, sexta feira, dia 24 de julho, dia do show, fui pra sala da casa do Heron e ficamos assistindo filmes de terror até de tardezinha quando saímos para dar um rolê pela capital. Estava uma chuva desgraçada e não aproveitamos o quanto queríamos. De noite fomos ao local do show, O Bar do Bigode lá na Rua Ceará e fiquei feliz ao encontrar figuras clássicas do underground carioca como Michael Menezes, o Stressor da banda D.A.D (Death after Death) e o Rodrigo da banda Lástima. Além é claro do Vinícius, baixista da banda Uzomi, camarada também. Conhecemos também o outro vocalista da Uzomi, Sales, cara legal da peste! Por volta de nove horas o show começou com a banda que rotulo de gore death splatter, Anopsy. Avassalador! Um power trio coeso onde o baterista, conhecido meu, Thiago Splatter, faz um vocal de porco brutalíssimo, assustador de se ver e escutar. O baixista assume o vocal gutural e o guitarrista o vocal rasgado. Puta guitarrista por sinal. Lembrou-me Erik Lindmark da banda de brutal death metal americana, Deeds of Flesh. Um show foda, o qual bati cabeça como um headbanger. Depois foi a vez das bandas Nuestro Sangue e P.R.O.I., não as vi, pois fui dar um role pela Villa Mimosa, que ficava ao lado do show, uma rua simplesmente infernal, quem já foi lá sabe o que rola. Voltei ao bar do show com a banda Cervical já tocando, banda dos caras de Macaé que iriam organizar nosso show por lá no dia seguinte. Eles fazem um hardcore meio metal core muito instigante. Depois foi a vez da Nucleador tocar, desfalcados de nosso vocalista Caio, pois ele estava em Petrópolis e no dia por lá estava uma neblina absurda, segundo ele, e os ônibus não estavam saindo. Tudo bem, isso já havia acontecido antes e não foi problema algum pra mim e Solon cantarmos. Claro que não ficou a mesma coisa, a voz de Caio bate de mil a zero na nossa, mas enfim, o show rolou insanamente. Quando foi a hora de tocar Troops of Doom do Sepultura o Rodrigo da Lástima assumiu o microfone e eu pude fazer o que mais gosto quando estou tocando, bater cabeça e fazer careta. Foi um show bastante frenético e galera reconheceu nosso esforço nos ovacionando ao fim de cada música, quase me emociono. Depois foi a vez da Uzomi tocar. Puts, o crossover mais bem tocado e instigante do Brasil, sem a menor dúvida! Com riffs enigmáticos que o Bruno, guitarrista, executa, o show dos caras acaba tendo uma atmosfera nebulosa e nervosa, por conta também da presença de palco do Heron, que é simplesmente insano ao quadrado. Esbaldei-me neste show e pra comemorar tomei mais cerveja. A última banda da noite foi a Ematoma, banda veterana de crust crossover. Muito bom o show dos caras que estavam desfalcados de seu segundo guitarrista Caio Barba, o qual também mantenho contato. Um fato marcante neste show foi o dono do bar, o Seu Lopez. Certa altura do show ele se encontrava bêbado e feliz e nos presenteou com cervejas, batatas fritas e dinheiro. Sim, o cara deu uma graninha legal pra gente. Por essa eu não esperava. Alegou que gostou muito de nosso show e se identificou conosco por sermos do nordeste, ele nascera no Ceará. Bem legal isso. Quando o show terminou pegamos um táxi e fomos dormir, pois no dia seguinte já rolaria outro show em outra cidade.

No sábado, dia 25 de julho, nos despedimos de nossos amigos cariocas e fomos pra rodoviária pegar um ônibus pra Macaé. Ao chegarmos lá fomos recebidos pelo Junior, baterista da banda Cervical. Um cara super gente boa que nos levou de carro pra conhecer alguns lugares de Macaé, que é uma cidade bem pequena que se mantém com base quase que completamente no petróleo. Ele nos levou pra casa de show onde iríamos tocar, chamada Espaço Aéreo, pra deixar logo nossos instrumentos, um pub bem bacana onde conheci o Pascal, organizador do show. Em seguida o Junior nos conduziu até a pousada (uma novidade) onde iríamos dormir aquela noite. Demos uma descansada por lá e fomos pro show que ficava a poucos metros da pousada. Por lá fizemos nossa banquinha e ficamos apreensivos com a não chegada de Caio, nosso vocalista. Ele só foi chegar dez minutos antes de tocarmos. Antes disso rolaram as bandas Nuestro Sangue, Unatural, RD, Sanhaço e Trapos. Sinceramente só gostei da Nuestro Sangue, o perfil das bandas que tocaram lá era de metal core, estilo que não sou muito fã. Quando subimos ao palco o crossover comeu solto. Foi um show bem frenético e não sessamos a madeira sonora por nenhum instante, foi muito bacana. Apesar de ser o show que deu menos gente, os que estavam lá bateram cabeça e pularam com a gente e isso já me satisfaz. Depois da Nucleador foi a vez da banda da única banda de thrash metal, tirando a gente, se apresentar, a Dark Side. Dessa sim eu gostei, muito bacana. Fazem um thrash mais cadenciado e com riffs redondos, muito bom. Terminando o show fomos pra pousada descansar, pois o cansaço e a saudade de casa já estavam “batendo na porteira”. Comemos um miojo nojento e fomos dormir pra no dia seguinte pegar mais estrada e fazermos nosso último show da turnê.

Acordando no domingo, dia 26 de julho, comemos pouco, pois tínhamos sido informados que havia uma churrascada esperando a gente em Campos dos Goytacazes, por isso acordamos bem cedo. Pegamos o ônibus e quando chegamos em Campos fomos recebidos pelo Vanildo da banda AxOxB e pelo organizador do evento chamado People Flex, o Gustavo. Grande cara, um dos organizadores que mais troquei idéia. Fomos de carro em direção ao churrasco e lá soube que o evento ia começar às três horas da tarde. Acabou que na realidade começou seis. Ainda lá no churrasco, que foi na casa do Bob, baixista da banda AxOxB, figurassa, conhecemos outros roqueiros por lá e enchemos a pança pra logo em seguida irmos pra casa de show, o Jayminho´s Bar. Estamos muito cansados, especialmente nosso batera, o Bruno Petoh, que ficou doente neste dia, mas foi guerreiro e tocou com a mesma empolgação de sempre. Fiquei de rolê pelo show o tempo todo e deixei Bruno lá na banquinha descansando, troquei idéia com várias figuras pra passar o tempo. Quando foi nossa vez de tocar reuni todas minhas forças restantes pra fazer um show bacana e não deu outra. A galera estava muito insana, circle pits e moshs que só tinha visto anteriormente em São Paulo no show do Inferno. A galera cantava nossas letras e batiam cabeça, davam mosh em cima de uma prancha de body board, jogavam nosso vocalista pro mosh e por conta disso foi um dos shows mais animados da turnê, fechando assim com chave de ouro essa aventura thrash. Nesse evento tocaram as bandas Antes da Guerra, Lefthand, AxOxB, Resíduos e Evil Invaders. Depois do show fomos comer numa lanchonete e em seguida pra casa do George, vocalista da banda Resíduos, onde iríamos dormir. O Gustavo ficou conosco o tempo inteiro nos dando suporte e só foi embora quando subimos para o ônibus no dia seguinte em direção à rodoviária do Rio de Janeiro. Chegando lá, pegamos um táxi pro Aeroporto do Galeão em direção a casa.

Bem, fiz esse diário de bordo com intenção de informar os fatos que aconteceram na tour da Nucleador com base no meu ponto de vista e na ordem cronológica dos acontecimentos. Só queria dizer que foi uma honra passar todos os momentos com o pessoal de minha banda e com todas as pessoas envolvidas nos shows de todas as cidades. Pra mim foi uma realização pessoal tocar no sudeste e espero que cada vez mais e mais bandas do nordeste e de meu estado querido, Sergipe, tenham condições de ir tocar sempre mais além, pois criatividade nós temos de sobra, basta comprometimento. A quem leu todo esse diário, obrigado.

Stay Intoxicated!


Vinhetas que a Nucleador usa nos shows:

- 1ª vinheta: http://rs537.rapidshare.com/files/262261536/1__vinheta_show.mp3
- 2ª vinheta: http://rs696.rapidshare.com/files/262267501/2__vinheta_show.wav
- 3ª vinheta: http://rs735.rapidshare.com/files/262269551/3__vinheta_show.mp3

Myspace de algumas bandas que tocaram conosco na tour:

- Bandanos (são paulo): http://www.myspace.com/bandanos
- Low Life (dist. federal): http://www.myspace.com/lowlifecrossover
- Dr. Living Dead (suécia): http://www.myspace.com/doctorlivingdead
- Bomb Threat (abc sp): http://www.myspace.com/bombthrasher
- Braindeath (são paulo): http://www.myspace.com/brainthrash
- M.A.C.E (são paulo): http://www.myspace.com/macecrossover
- Madhouser (são paulo): http://www.myspace.com/madhouser
- Uzomi (rio de janeiro): http://www.myspace.com/uzomicrossover
- Cervical (macaé): http://www.myspace.com/cervical
- Decimator (porto alegre): http://www.myspace.com/decimatorthrash
- Anopsy (duque de caxias): http://www.myspace.com/anopsy