segunda-feira, 31 de maio de 2010

BANANADA 2010 - Como foi ...

Bananada: diversão e boa música no centro-oeste

Por Cristiano Bastos, de Goiânia
Fonte: Rolling Stone

"Outro destaque do Bananada foi a sergipana Plástico Lunar, que evoca mod, blues e psicodelia em sua fórmula. Vale a pena prestar atenção neles."

Festival goiano chegou à sua 12ª edição com shows de Nevilton e Black Drawing Chalks, mostrando que permanece como um dos eventos independentes mais importantes do país.

O festival goiano Bananada realizou, no último final de semana, sua 12ª edição, solidificando-se como uma espécie de "centro da resistência rocker juvenil". Memória é preciso: o dito "rock independente" fincou raízes nas alaranjadas terras do centro-oeste brasileiro por meio da maratona musical (depois, claro, do recifense Abril Pro Rock, revelador de Mundo Livre S/A e do revolucionário Chico Science & Nação Zumbi). Os festivais independentes ainda são a grande alternativa para quem quer ouvir uma concentração de bandas de qualidade, fugindo do eixo Rio-São Paulo. E, a 200 km dali, em Brasília, a pseudo-sofisticação da cena fica milhas e milhas distante da "marcha fuzz" levantada como bandeira pelos goianos.

Há 12 carnavais, o Bananada detém a expertise de como se fazer um festival: funcional, logístico, organizado e - mais importante - com séria e honesta devoção. Razão pela qual bandas de todos os 26 estados brasileiros, mais o Distrito Federal, têm o certame roqueiro como vitrine. Caso dos paranaenses do Nevilton, por exemplo, que viajaram à Goiânia para mostrar a animada mistura de jovem guarda com rock britânico, e da Black Drawing Chalks, que teve a faixa "My Favorite Way" eleita pela Rolling Stone Brasil como a melhor música de 2009.

A festa começou no sábado, 22, em frente ao Centro Cultural Martim Cererê, no qual o festival ocorre tradicionalmente. São dois palcos sobre os quais as bandas se revezam, para que não haja atrasos na hora da troca de equipamentos entre um show e outro. O sistema funciona bem. Lá dentro, a florescente juventude que congraça emos com clubbers, metaleiros como stoner-rockers, brasileiros com chilenos, gaúchos com catarinenses, paulistas com cariocas.

Nessa edição, cujo fechamento foi da Black Drawing Chalks - que segurou o público na mão no domingo, 23 -, a cena foi roubada pelo quinteto Procura-se Quem Fez Isso, do Rio Grande do Sul. O grupo possui dois organistas que pilotam com maestria seus Arbons alaranjados. Eles jamais mostram suas identidades: se apresentam com o rosto coberto por uma meia-calça, adornando a cabeça com cartolas com lanternas de minerador. O traje seria ridículo se a música soasse ruim. Mas o som é realmente genuíno: uma mistura bem amarrada de Frank Zappa com Mutantes, de Beach Boys com The Residents. No palco, a comunicação é feita por meio de um gravador de fita K7, que transmite mensagens dos integrantes ao público. A voz é vocoderizada: "A próxima música chama-se 'A Marcha dos Bonecos'". Para minha "entrevista" gravaram a seguinte declaração: "Aparências costumam levar a associações, rótulos e estereótipos que atrasam o desenvolvimento de uma linguagem musical livre".

Outro destaque do Bananada foi a sergipana Plástico Lunar, que evoca mod, blues e psicodelia em sua fórmula. Vale a pena prestar atenção neles. Assim como na Trivoltz, de Goiás, que masterizou seu LP (vinil mesmo) em Nova Iorque e o prensou na República Tcheca. Também goiana, a banda Johnny Suxxx And The Fuckin' Boys soltou a melhor frase de todas: "Se o rock está mesmo morrendo, estamos matando-o aos pouquinhos". Para Sarah, da banda folk goiana Oye!, tocar no Bananada foi ótimo: "É uma grande vitrine para quem está começando". Agora a Oye!, cuja banda tem um EP gravado, se apresentará em Córdoba, na Argentina.

Mechanics, prata da casa, exortou a turba para sua festa de microfonias, e a vibração noise foi às alturas. A maior surpresa, porém, foi a banda gaúcha Comunidade Nin-Jitsu. Não parecem ter mudado nada na última década, não perderam o "mojo". Fica no ar o questionamento: porque não estouraram nacionalmente com sua junção de miami bass com funk rock e metal com hip-hop?

Nos últimos anos, o Bananada passou por um reposicionamento que valoriza a produção musical local, mas artistas internacionais também têm vez, como os grupos norte-americanos Trans Am, Man or Astroman?, Watts e o cantor nipo-germânico Damo Suzuki.
Embora a maioria do público do festival seja de apóstolos fervorosos do hard rock (o Grand Funk Railroad já foi canonizado por aqui), nenhum show deixa de ser prestigiado. Do samba ao folk, do metal ao stoner, do tradicional ao moderno. Com ardor, os jovens sobem no palco, cantam com os artistas, dão malfadados moshs e se quebram no chão. Estes, a propósito, são capítulo à parte na história do festival. Sua presença maciça, a cada edição, perpetua uma das missões do Bananada: ser uma alternativa barulhenta ao Festival Agropecuário, que anualmente diverte agrogirls e cowboys com atrações da música sertaneja. Para Fabrício Nobre, presidente da Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes), ninguém duvida que o rock tem levado mais longe o nome da "terra de Cora Coralina e do sertanejo". "A premissa dylanesca continua mais válida que nunca: 'pedra que rola não cria limo'", acredita.

O nome Bananada foi sugestão do guitarrista Gustavo "Mini" Bittencourt, dos Walverdes. Na opinião de Mini, o rock brasileiro vive interessantíssima fase - a tecnologia facilitando a produção e a divulgação e, o mais importante, a comunicação entre as pessoas e as bandas: "Experimente entrar numa máquina do tempo, voltar anos atrás, juntar um monte de indie numa sala e dizer: 'Daqui a 15 anos vocês vão poder fazer turnês pelo nordeste, centro-oeste e haverá festivais enormes só de bandas independentes'. Iam rir de você. Mas aconteceu". Também por isso, o Bananada é de fundamental importância. Arranjar recursos para erguer um festival de forma organizada, não é tarefa fácil. Afinal, estão ali a força da música produzida em Goiás e também um verdadeiro intercâmbio cultural entre artistas locais e de fora. E é essa equação que faz com que o evento continue como um dos mais importantes da cena independente do país.

Os que não foram ...



Eles saltaram fora um passo antes de tocar para multidões. Conheça a história de três músicos que quase fizeram parte de grandes bandas nacionais e deixaram de viver o sonho do sexo, drogas e rock ’n’ roll. Mas não se arrependeram.

“Velho... Eu vou sair da banda.” Foi com essa frase, em uma tarde do fim de 1988, que Jairo Guedez revelou o motivo da convocação da trupe com a qual tocava para uma reunião em seu quarto, em Belo Horizonte. Não teve bate-boca, não teve gritaria. Mas os cabeludos não seguraram as lágrimas. “Eu chorei, o Paulo chorou, o Max dizia que eu tinha que pensar mais”, conta. Nunca voltou atrás. Jairo era guitarrista da formação inicial do Sepultura. Na época, a banda finalizava seu terceiro CD, Schizophrenia. “Eu era um pouquinho mais velho que os caras. Casei com 16 anos, e eles eram mais moleques. Queria mais tempo para minha vida, e eles precisavam de alguém focado na banda. O timing estava errado, mas nossa relação sempre foi tranquila”, conta. “Não tínhamos um puto no bolso, o Igor me pedia moeda pra comprar pirulito. Uma vez, tocamos em Americana, e o produtor sumiu com a grana. Voltamos escondidos entre vagões do trem. Era divertido, mas não era fácil.”

Jairo não estava lá quando o Sepultura tocou com Ozzy, Kiss, AC/DC, Metallica. Não recebeu atrizes pornôs em seu camarim, não vendeu 100 milhões de discos, mas seguiu em frente. Montou uma banda de covers com o irmão, depois participou das bandas The Mist, Eminence e Overdose. “A grande dor não é ter perdido grana, festas, mulheres, fama. Sinto saudade dos caras, de viajar com eles, de jogar conversa fora no camarim, de cruzar o João Gordo contando piada em um festival”, lamenta.

Caranguejo com cérebro - Ele deixou o mangue, mas continuou sendo um caranguejo. Aos 44 anos, longe de sua Recife, o atual especialista em sites de busca trabalha com tecnologia em São Paulo. Quem olha Carlos Freitas sentado diariamente em frente ao computador do escritório não imagina que ele esteve enlameado até o pescoço em um samba esquema noise que agitou a música brasileira. O crustáceo geek foi guitarrista nos primórdios da banda pernambucana Mundo Livre S/A. “Eu tocava numa banda chamada Câmbio Negro, era época pré-manguebeat. E foi veraneando em Candeias, onde o Fred Zero Quatro morava, que começamos a fazer um som juntos. Entrei pra banda em 1987, mas a cena era fraca. As mudanças começaram quando eu, Fred e Ricardo L montamos um programa de rádio underground. Conhecemos bandas novas, e isso serviu de catalizador para um novo cenário”, recorda. Eles gravaram duas demos, mas nunca um CD.

Dois anos depois, o programa parou, a cena perdeu força, e a banda resolveu dar um tempo. Fred foi para São Paulo, Carlos passou na faculdade de jornalismo, casou, teve filho e abriu uma loja de discos, a Discossauro. Foi então que Fred voltou, tentou juntar a banda de novo, mas Carlos não embarcou. “Tive medo de assumir shows. Eu tinha negócio e família. Foi depois do manifesto Caranguejos com Cérebro, do Chico Science, em 1992, que tudo começou a acontecer. O meu sentimento em relação ao sucesso deles era muito mais de satisfação que de frustração. Ver aquilo tudo acontecer na nossa música era maravilhoso.”

Mesmo resolvido com o fato de não ter estourado com banda, Carlos assume que teve recaídas: “Durante o Abril Pro Rock, quando Raimundos, Skank, Nação Zumbi, Mundo Livre e Pato Fu subiram ao palco juntos, eu estava na plateia. Olhava tudo de fora e pensava que poderia estar ali”. O músico, que ainda toca todos os dias, é amigo dos velhos companheiros de banda e chegou a acompanhar a turma em uma viagem de ônibus até Santos. “No meu tempo de Mundo Livre não havia esse universo de farra, de camarim. Era dureza. No show de volta do Nação Zumbi depois da morte de Science, eles me chamaram para ir junto, mas o clima não era de festa. Quando voltei para o hotel, e o Marcelo D2 ficava falando pelos cotovelos enquanto eu tentava dormir, vi que essa não era vida pra mim.”

Revoluções por minuto - Claudio Julio Tognolli , 46 anos, não vendeu mais de 3 milhões de discos em sua carreira. Não fez parte da banda mais popular do país nos anos 80, não tocou em todos os programas de televisão, não foi objeto de descabelamento de milhares de mulheres nem inveja de milhares de homens no Brasil. Ele escreveu sete livros, trabalha hoje na biografia do músico Lobão e é professor, além de um dos maiores jornalistas investigativos do país.

Mas, antes de tudo isso, o Tognolli estudante do curso de Comunicações e Artes da USP fez parte de um grupo candidato ao diretório acadêmico da faculdade, no ano em que o Brasil passava pela primeira eleição direta pós-ditadura. A chapa anarquista, chamada Os Picaretas, reuniu gente como o cantor Paulo Ricardo, o jornalista William Bonner, o escritor Marcelo Rubens Paiva e o fotógrafo Rui Mendes. Eleições ganhas, o grupo passou a organizar festas, como a emblemática Festa do Gato Morto com apresentações ao vivo. “Eu já tocava guitarra, estudava muito, todos os dias. O Paulo me chamou para tocar com ele e montamos uma banda chamada Pif Paf. Nesse evento tocavam também As Mercenárias, o João Gordo... Começamos a chamar atenção”, observa o jornalista.

No mesmo período o líder da banda, Paulo Ricardo, foi morar em Londres por seis meses como correspondente internacional da revista Som 3, e Tognolli passou a trabalhar como estagiário de diagramação na revista Veja. “Quando ele voltou, carregado pelas influências punk inglesas, resolveu montar o RPM, e eu fiquei com meu emprego de pesquisador no arquivo da editora Abril. Logo eles estouraram”, lembra. O sucesso do RPM não foi fácil de esquecer. O guitarrista conta que toda vez que a música tocava na rádio ou em alguma festa, os amigos não perdoavam. “Fui muito cobrado até pela família. Me chamavam de Pete Best brasileiro (em referência ao baterista dos Beatles que dançou antes do sucesso da banda). Uma vez um tio chamou o meu pai e disse: ‘Meu filho é engenheiro, e o seu perdeu a grande chance da vida e vai ter que tocar na noite para se sustentar’.”, lamenta o jornalista que tem 37 guitarras em casa.

Depois que o sucesso da banda passou, tudo ficou mais fácil. Hoje, Tognolli se diz certo de que teria trilhado um caminho errado. “Não sinto falta do sexo, drogas e rock’ n’ roll porque sou nerd. Gosto de ficar sozinho. Não gostaria de ter tido essa vida de palco, de atenção em cima de mim. Meu único lamento é não ter tido mais tempo para me dedicar ao estudo da guitarra”, encerra o quase RPM.

Texto por Katia Lessa

Fonte: Trip

Edy Star

Ele foi o primeiro artista glam e homossexual assumido do Brasil, estourou em um cabaré e fez o melhor show da última Virada Cultural em São Paulo. Com vocês, todo o brilho de Edy Star, que se prepara para voltar ao Brasil após 20 anos.

Cantor, ator, compositor, dançarino, produtor, figurinista e pintor, Edy Star era artista multimídia antes de o termo nascer. Foi roqueiro glam quando David Bowie ainda nem sonhava em comprar seu primeiro kit de maquiagem. De sapato plataforma, chutou longe a porta do armário, sendo o primeiro artista brasileiro a declarar-se gay publicamente, em 1973. Companheiro de Raul Seixas, gravou com ele o tão cultuado quanto maldito Sociedade da Grã-ordem Kavernista apresenta sessão das 10, disco que hoje vale pequenas fortunas sebos afora. Como artista plástico, fez mais de 30 exposições nos Estados Unidos e na Europa, incluindo quatro Bienais.

Apesar disso tudo, porém, a estrela de Edy andava meio apagada por aqui – até a Virada Cultural do ano passado em São Paulo. Edy tocou na íntegra o disco que fez com Raul, trocando de figurino a cada música e esbanjando uma vitalidade surpreendente para os seus 72 anos. O sucesso foi tanto que a organização do evento decidiu repetir a dose este ano, e Edy, animado, voltará a morar no Brasil, depois de 18 anos em Madri, onde trabalhava até mês passado como mestre de cerimônias em um cabaré. “Quero aproveitar esse momento que os ‘raulseixistas’ estão me proporcionando e tentar fazer mais shows por aí. Amo a segurança da Espanha, o flamenco, mas não tenho amigos aqui. Passo dias sem falar com ninguém”. Sozinho, teve também que vencer um câncer na próstata, diagnosticado há quatro anos e hoje sob controle.

O pai levou o filho, ávido ouvinte da Rádio Nacional e leitor dos gibis do Capitão Marvel, para cantar em um programa de rádio. Edy sempre soube que seria artista, mas bem que chegou a tentar ser alguém “normal”. Com 20 anos, fez um curso na Petrobras e virou especialista em petróleo. “Odiava aquilo tudo. Eram 1.500 homens no campo e uns quatro ou cinco gays, todos enrustidos. A gente soltava a franga, mas chegava alguém e a gente tinha que mudar a voz, falar de mulher. Sempre escutava umas piadinhas e, ainda por cima, ficava todo sujo de petróleo. Um horror.” Um ano depois, Edy pediu as contas e foi trabalhar no circo. O pai revoltou-se: “Na minha família nunca teve artista!”. “Estava na hora de ter um então”, rebateu o jovem. Foi nessa época que fez um grande amigo, de um jeito que só poderia acontecer na Bahia daqueles tempos. Edy passava em frente a uma casa com um janelão aberto quando escutou a melodia de “Volare” tocada ao piano. Resolveu dar uma espiada, no que o jovem músico chamou-o para entrar. O jovem de 17 anos, no caso, era Caetano Veloso. Edy acabou ficando para o café, conheceu dona Canô e também Maria Bethânia, única artista que considera “uma deusa, acima do bem e do mal”. “Eu e Caê começamos a frequentar umas festas em Santo Amaro. Trocávamos as meias, um pé azul e outro vermelho, só para fazer graça. Éramos os reis dos bailes, porque só puxávamos as mulheres mais velhas para dançar. As meninas ficavam malucas atrás da gente”, ele rememora.

Sexo, cuba-libre e rock´n´roll - Edy fez parte de alguns grupos de teatro e depois virou produtor artístico da TV Itapoan. Em seu programa, viu surgir talentos como Moraes Moreira e Pepeu Gomes, anos antes de os Novos Baianos pensarem em existir. “Nessa época não havia axé, graças aos bons deuses. A Bahia era sinônimo de João Gilberto, Glauber Rocha, Quarteto em Cy... uma efervescência cultural incrível. Depois todo mundo foi para o Rio ou para São Paulo, e a Bahia ficou essa merda que é hoje, sem vida própria.” Paralelamente, Edy cantava nas rádios da cidade, fazendo sucesso com uma versão afetada de “La Bamba”. Raul Seixas, atração principal da emissora, ficou enciumado e a relação dos dois no início não era muito boa. Mas Edy, ao seu modo, foi pouco a pouco dobrando o maluco beleza: “Eu passei um mês ligando para Raul fingindo ser uma fã apaixonada, ficava falando mal de mim mesmo. Um dia, ele gravou a conversa e foi mostrá-la todo bobo para Waldir Serrão, diretor da rádio, que disse: ‘Ô, Raul, tu é besta mesmo. Não tá vendo que é Edy?’. Ele ficou puto, mas depois viu que tínhamos mais coisas em comum do que diferenças. E, como viadagem não é contagiosa, viramos grandes amigos”.

Com tantos artistas reunidos em um mesmo local assim, natural que houvesse muitas festas. Edy organizava luaus na praia, frequentados pela nata da MPB, e “que até hoje são comentados na Bahia”. E o esquema era sexo, drogas e rock’n’roll? “Da minha parte, mais ou menos. Eu nunca bebi bem. Faço o possível para ficar bêbado, mas não consigo, meu organismo me corta quando estou começando a ficar alto. É uma merda. Queria tanto trepar bêbado, mas nunca consegui. Mas era só bebida mesmo, no máximo um fuminho. Não existia cocaína. Tinha muita cuba-libre, isso sim. E eu sempre fui monógamo. Fazia-me de promíscuo, mas era só personagem. Transar mesmo, só com o meu caso.” Edy teve alguns, inclusive com gente do meio artístico, mas não revela nomes: “Vou comprometer muita gente, porque sempre fui ativo”. E confessa que seu sonho de consumo mesmo era Mick Jagger, que conheceu uma vez em Salvador: “Ele é um atleta, tem um beiço lindo. Aquela boca chupando deve ser o máximo!”.

Edy ainda cruzou com outras estrelas em sua vida, como Michael Jackson, Ravi Shankar e Janis Joplin. A roqueira hippie ele conheceu durante um carnaval em Salvador, sentada na rua, conversando com as prostitutas e dando belos tragos de cachaça e do tal “fuminho”. Suas histórias pela capital baiana incluem um barraco no hotel em que estava hospedada, quando quebrou tudo porque não a deixaram entrar. “Também, feiosa, suja e com um monte de cabelo no sovaco daquele jeito...”. Janis foi para a Bahia na garupa da moto do fotógrafo Mick, seu namorado carioca. Reza a lenda que ela não parava de reclamar da chuva, que a impedia de transar na praia. E que, brigada com o affair, voltou para o Rio trocando favores sexuais por caronas de caminhoneiros.

Edy vira Star - Depois de quatro meses sem receber na televisão, Edy resolveu cobrar os salários atrasados no ar. Foi demitido no ato. Indo para um bar próximo para refrescar a cabeça com um chope, reencontrou Raul, que já morava no Rio, onde era produtor da CBS. “Bofélia [era como Raul o chamava], era você mesmo que eu estava procurando!”, ele disse, e convidou o amigo para fazer parte do quadro de artistas da gravadora. Depois de cantar em alguns compactos, surgiu a ideia do Sociedade da Grã-ordem Kavernista apresenta sessão das 10, gravado pelos dois, por Sérgio Sampaio e Miriam Batucada. Muitas lendas rondam a gravação do disco. A maioria delas, diz Edy, foi inventada pelo próprio Raul, “um mestre da autopromoção”. Dizia-se que o disco havia custado R$ 24 milhões, que tinham usado uma harpa egípcia raríssima, que as gravações tinham sido feitas às escondidas durante a madrugada... tudo estratégia de marketing. Mesmo assim, o disco foi ignorado por público e crítica. Uma semana depois do lançamento, a sede internacional da CBS enviou um bilhete escrito apenas “What is this?”, e ordenou que o recolhessem das prateleiras. O status de obra de arte – alguns o chamam de o “Sgt. Pepper’s brasileiro” – só veio décadas depois.

Edy então começou a se apresentar em boates de Copacabana, perto do Beco das Garrafas, o berço da bossa nova. “Mas eu não cantava no Beco, meu amor. Ali era só gente de altíssimo nível. Eu frequentava, era amigo do porteiro, do músico. Do pessoal da bossa mesmo eu não conhecia ninguém. Não se misturavam com gente normal, da rua, como eu. Eram artistas maravilhosos, sabe?!”, ele ironiza. De lá, foi para os cabarés da praça Mauá, no centro, onde explodiu para a fama com um show inspirado no filme Cabaret, com Liza Minelli. O Star do nome surgiu nessa época. O Pasquim e a mídia em geral adotaram Edy, que, em uma entrevista para a Fatos e Fotos, soltou a bomba: “Tive coragem de assumir quem eu sou”, dizia a manchete. “Eu tinha uma mulher na época, que leu a reportagem na ponte aérea. Eu nunca escondi nada dela, namorava um paraquedista ao mesmo tempo. Houve polêmica, mas eu nem liguei. Eu sou independente, querido. Quando choro, ninguém chora por mim. Quando pago o apartamento, ninguém paga por mim. Quem me quer, quer. E agora é pior, que eu estou barrigudo. Ou me aceita com a barriga, ou então, meu amor...”

Texto por Millos Kaiser

Fonte: Trip

Carbono 14



Entre 1982 e 1987, a casa noturna Carbono 14 abrigou praticamente tudo que acontecia de novo e interessante em São Paulo. Juntou tribos diversas em clima familiar. Inspirou bandas, movimentos, parcerias. E ficou gravada a ferro na memória afetiva de uma geração

OS CARBONÁRIOS - Nas matinês de heavy metal do Carbono 14, Castilhão deixava num canto da pista uma pilha de ripas de madeira. As ripas vinham da inacreditável marcenaria que o número 164 da rua 13 de Maio abrigava. Não, uma marcenaria em si não tem nada exatamente de inacreditável, mas é que o Carbono era, no início dos anos 80, o lugar mais moderno para dançar em São Paulo. E ver show. E assistir a vídeo. E ouvir ópera. E ver dança. E jogar fliperama. E conhecer gente.

A marcenaria, no segundo dos quatro andares do prédio na Bela Vista, ficava trancada de noite. Motivo mais do que suficiente para provocar todo tipo de especulação por parte dos frequentadores. O que de tão secreto poderia rolar ali naquela sala fechada? Porque, digamos, as cenas mais ou menos normais de sexo e drogas eram liberadas nas diversas salas e muitas escadas escuras do Carbono.

Talvez a marcenaria fosse simplesmente para aquilo mesmo, cortar as ripas de madeira que viravam guitarras imaginárias nas mãos de garotos de 12, 13 anos enquanto viam vídeos de bandas como Motorhead e Iron Maiden.

Ver música, aliás, era uma das coisas que mais se faziam naquele centro cultural pop e libertário. Isso mesmo: no início dos anos 80, era uma absoluta novidade poder assistir a shows e documentários em vídeo ou 16 mm sobre música. Ou ver cinema alternativo, underground. Ou ver animação adulta, de vanguarda. Ou filmes de surf.

“A sacada foi o vídeo. Àquela época, no Brasil, quem não tinha viajado para fora do país não tinha visto quase nada.” O nada a que Andrez Castilho F ilho se refere é tudo: de shows dos Rolling Stones a filmes de Andy Warhol. De videoclipes do pós-punk – Siouxsie, Bauhaus, Cure – a Bob Marley. Alguns clipes de bandas do mainstream rolavam na TV. Cinema tinha mais: o circuito de cineclubes era intenso e já havia a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, mas não chegavam os filmes mais pop, mais radicais.

SUPERMERCADO DE CULTURA - Como tudo na história do Carbono 14, as memórias vêm numa espécie de névoa, iluminada aqui e ali por algum tipo de revelação. No “supermercado de cultura” da família Castilho muita gente teve sua primeira vez. Metaforicamente falando ou não.

Nas salas de vídeo ou na de 16 mm, o então radialista e vocalista de uma banda chamada Verminose descobriu Sebastiane, a versão explicitamente gay da vida de São Sebastião feita pelo cineasta inglês Derek Jarman. (À frente de uma nova banda, o Magazine, esse mesmo radialista fincaria o primeiro p é paulistano na porta da new wave brasileira com o hit “Eu sou boy”). “O Castilhão e os filhos viajavam e traziam filmes desse lado mais maldito.”

Ali, no Carbono, um garoto de 14 anos assistiu a Urgh! A Musical War!, espécie de quem é quem do pós-punk inglês. (Depois, inventou um moicano daqueles sustentados por sabão e, como se dizia, à época, passou a “andar no visual” punk 24 horas por dia). “Eu assisti ao filme e pensei: ‘É isso que eu quero ser’.”

Um outro punk, então quase um veterano ali por 1983, 1984 (vinha da pioneira Restos de Nada e já estava à frente de sua segunda banda, Inocentes; além disso, era autor de “Pânico em SP”, faixa essencial da coletânea Grito suburbano), passava reto pelas salas de “filme de arte alemão chato pacas” e subia para os shows. Como os dois do Agentss, banda de new wave séria e efêmera, que levava uma montanha de sintetizadores para o palco. Ou os da Gang 90 & Absurdettes, Júlio Barroso à frente e as lindas e moderníssimas Alice Pink Pank e Mae East de backing vocals.

Foi num show, o punk veterano não se lembra qual deles, que Marcelo Nova teve sua sobrevivência garantida por mais alguns anos: “Um daqueles punks treteiros pediu um gole de cerveja para a mulher do Marcelo. Ela deu, mas o punk não quis devolver o copo. O Marcelo resolveu engrossar; daí juntaram uns dez punks para bater nele. Sem pensar, eu disse que ele era meu amigo, mesmo sem nunca ter visto o cara antes. Os caras recuaram e a gente começou a trocar ideia”.

Apesar da atração estética pela transgressão e pelos lados mais escuros da existência, o Carbono era um lugar tranquilo. “Era o único lugar onde podia tudo, sem ninguém para perturbar. Não tinha um segurança e não me lembro de brigas ou encrencas”, lembra Miguel Barella, guitarrista do mesmo Agentss e, depois, dos Voluntários da Pátria (que também tocou lá).

MEDO DO NOVO - Andrez Castilho, o Castilhão, não deixava a polícia entrar, quase como uma declaração de princípios de alguém que foi presidente do grêmio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP nos anos 50 e chegou a ajudar organizações clandestinas de esquerda no imediato pós-68. Eram tempos ainda de confronto, apesar da distensão iniciada pelo processo de abertura política do regime militar. Havia resquícios de censura (Je vous salue, Marie ainda teria sua exibição proibida em 1985, por exemplo) e os comportamentos mais transgressores, os cabelos mais curtos e espetados, as roupas escuras eram olhados com desconfiança.

Mas ali, no Carbono, valia tudo, desde que fosse interessante e tivesse qualquer indício de conter informação nova. Era, na verdade, um empreendimento familiar. Foi concebido durante a temporada europeia da família – Andrez e Maria Helena Varoli, jornalista de moda, mudaram-se para a França em 1 976 com os filhos Andrez Filho, Renata e Theo. No fim dos anos 70, morando em Paris, desencantado com as possibilidades de transformação pela via política e convivendo com a intensidade e a diversidade da vida cultural na Europa, Andrez imagina fazer um centro cultural privado. No início, Rudá de Andrade, filho de Oswald de Andrade e Pagu, também participa das discussões. “Mas o Rudá queria fazer um outro MIS [Museu da Imagem e do Som] e meu pai tinha sacado que a história era fazer uma coisa mais jovem, mais pop”, lembra Andrez Filho.

Os filhos de Castilho, então com 20 e poucos anos (à época da inauguração, Andrezinho tinha 23, Renata, 22 e Theo, 20), depois de uma adolescência passada na Europa entre viagens meio aventureiras, cinematecas, museus e muita música pop, tinham acesso a essa informação nova e uma rede de amigos. Alguns também com passagens pela Europa, como os críticos Pepe Escobar e Fernando Naporano, que integravam a equipe renovada do caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo e faziam barulho a cada evento do Carbono. Outros, ligados ao que estava acontecendo aqui no Brasil em todas as áreas da cultura, desde que contivessem algum tipo de reação ao clima dominante de hippismo tardio, nacionalismo populista de esquerda ou da lixaiada mais comercial.

“Eu cheguei ao Brasil com cabelo supercurto, roupas de brechó e vi aquele bando de bicho-grilo, com camisa xadrez e cabelo comprido. Foi um choque.” Renata, a filha do meio e única mulher, tinha vindo cuidar da programação visual dos folhetos, dos cartazes e da revista mensal que o Carbono editava. Por algum tempo, também cuidou de uma loja no térreo que vendia acessórios e onde as pessoas entravam para perguntar como fazer para, elas também, ficarem modernas. “As pessoas tinham um pouco de medo, mas muita curiosidade.”

Para muita gente, a curiosidade vencia o medo e, nos cinco anos que durou, o Carbono acabou t ornando-se a força centrípeta para a qual convergiu quase tudo o que foi interessante e novo em São Paulo. Ou quase todos que, daquilo que viram e aprenderam por lá, sairiam fazendo coisas interessantes e novas nas décadas seguintes. O punkinho que andava no visual é Alex Atala. O radialista, Kid Vinil. O punk veterano, Clemente, dos Inocentes (a banda existe e continua tocando por aí). Grupos como Ira!, Mercenárias, Smack, Nau, Cabine C e Violeta de Outono passaram por lá. Alguns volta e meia se reúnem e são redescobertos todo dia pela molecada.

“Arte é datação, arte é datação.” Theo, o filho mais novo da família, insiste nessa ideia. Tem razão. Quase três décadas depois de sua inauguração, alguns anos após as mortes de Castilhão e Maria Helena, o Carbono 14 (nome do elemento químico cujo ritmo de dispersão serve para calcular a idade de qualquer material orgânico) ainda emana suas partículas no ambiente.

Texto por Bia Abramo

Fonte: Trip

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Arthur Veríssimo conta do dia em que levou uma botinada na testa e continuou discotecando.

A pista de dança bombava com neopunks, darks, carecas do subúrbio, modernosos, bichos-grilos, new romantics, skatistas, rastas, surfistas e drogadictos em geral. Observava o espetáculo dantesco das evoluções e coreografias no alto da cabine de som. A trilha sonora misturava o suprassumo do rock e seus derivados. Naquela época eu vivia no eixo São Paulo-Londres e viajava de três a quatro vezes ao ano, trazendo nas malas e cases as antiguidades e novidades do pós-punk. Meu parceiro nos turntables naquela balada era o master DJ Alois (Eddie The Monster) Lacerda. A noitada era conhecida como Incubus Sucubus, e o nosso acervo era o mais eclético e turbinado na terra do pau-brasil.

Percebo um bafafá na pista. Um surfista rola pelo chão com um punk da morte. Treta forte. Como num passe de mágica os dois são neutralizados e colocados para fora. Nossa cabine é invadida por duas be ldades estonteantes. Uma delas, com a camiseta do Xmal Deustschland, carrega uma garrafa de Veuve Clicquot, outra com os olhos saltados como um pequinês retira da bolsa uma caixinha de música recheada de cocaína, canudo de prata e espelhinho. Se sentem as donas do pedaço e dos DJs. Na primeira snifada da dondoca, uma bota voa e bate entre o seu rosto e o canudo. Minha namorada na época lança o outro par da bota, que acerta minha testa e cai em cima do pickup. Confusão generalizada. Gritaria. O disco salta e a música para. Um urro tribal coletivo emerge da pista. Alois salta como um Baryshnikov e lança nos toca-discos o clássico “Love will tear us apart”, do Joy Division. A pista delira e o transe transborda.

TRIP EMBRIONÁRIA - Para vocês se situarem, essa história aconteceu no segundo semestre de 1984. O local era o Carbono 14, a catedral cultural de todas as tribos alternativas e roqueiras de São Paulo. No prédio de quatro andares acon tecia de tudo. Shows de punk, de metal, reggae, espetáculos de dança, vernissages de artes plásticas, teatro, performances, apresentações de filmes e vídeos inéditos. Foi naquela época que conheci o Paulo Lima e o Califa, pouco tempo antes de criarem a Trip. O sumo-sacerdote do Carbono 14, mestre Castilhão, apresentou-me ao Paulo, que precisava de um sonoplasta para fazer a trilha de uns vídeos de surf. Estava dado o start da nossa parceria. O resultado vocês conhecem ao longo dos 25 anos de história da revista Trip.

Meu primeiro contato com o clã do Carbono 14 ocorreria nas areias escaldantes de Trancoso, na Bahia, no início dos anos 80. Andres Castilho, um dos mentores do Carbono, convidou-me para conhecer e fazer parte da mandala dos carbonários. Minha vida era um mar de rosas. Discípulo de Rajneesh, vivia circulando pelas comunidades alternativas espalhadas pelo Brasil. Naquele tempo já mixava sonoridades nos grupos de terapia onde a luz do di a predominava. O convite era o que faltava para infernizar e me arrastar para a noite. Em São Paulo, conheci o restante da família Castilho (a matriarca, Maria Helena, seu marido, Castilhão, os filhos, Renata e Theo). Deixei de lado as roupas vermelhas de sannyassin, a meditação, o tantra, o incenso e mergulhei sem escafandro no paraíso nebuloso do sexo, drogas e rock’n’roll. Não me arrependo de nada. Nem mesmo da botada na cabeça.

"A" Mãe

Talvez você não conheça esta senhorita na foto ao lado em pose do tempo em que ainda era modelo, mas já deve ter ouvido falar de seus filhos Iggor e Max, criadores do Sepultura. Depois de superar a morte do marido, o alcoolismo e a briga dos filhos, Vânia Cavalera soltou a voz para a Revista Trip deste mês.

A trilha sonora da vida de Vânia Cavalera não podia ser outra que não o rock. A bossa nova – que ela sempre achou chata – ou o balanço da MPB de Elis e Chico não combinam com a série de eventos que ela teve que encarar. Roberto Carlos ela até chegou a escutar, mas “jamais compraria um disco”. Mãe de Max e Iggor Cavalera, é ela a maior incentivadora e o pulso feminino por trás da mais famosa banda de metal do Brasil, o Sepultura.

Em setembro de 1979, Vânia, o marido e os três filhos, incluindo Kira, de 2 anos, preparavam-se para uma festa infantil na casa da sogra dela, em São Paulo, onde moravam. O evento seria o último antes da mudança da família para Roma, para onde o pai dos meninos, um italiano que trabalhava no consulado, seria transferido. Mas eles nunca embarcariam. Horas antes da festa, a caminho da represa de Guarapiranga, Graziano Cavalera infartou aos 40 anos de idade e morreu no carro onde estavam os garotos de 9 e 10 anos e um sobrinho. “Olhei as crianças pequenas e virei um robô, congelei o cérebro. Não dava tempo de sofrer. Fui trabalhar no consulado como telefonista, mas em 1981 resolvi voltar para Minas, primeiro para a casa dos meus pais, de onde eu havia saído fugida para ser modelo no Rio e em São Paulo. E depois em uma casa alugada, que mais tarde viraria o QG do Sepultura.”

A ampla casa da rua Dores do Indaiá, em Belo Horizonte, vivia cheia dos – apelidados por ela – camisas pretas. “Depois da morte do meu marido, a vida passou a ser os meninos e os amigos deles. Não era apenas uma relação de mãe e filhos, nós nos protegíamos, sempre fomos muito cúmplices.” Na época, Vânia sofreu preconceito das mulheres da cidade e quase não tinha amigas. “Era difícil até arrumar emprego, as mulheres viravam a cara para mim, tinham medo de uma ex-modelo viúva na cidade. Vivia com o dinheiro da pensão, porque não tinha reservas. Vendi joias, perfumes, faqueiros; meu marido não pensava no futuro. Dizia que só precisava deixar cultura e amor para os meninos. Aos 12 anos, eles iam para a escola caminhando para economizar no transporte e nunca me pediram nada”, lembra.

Incentivado pelo pai, que adorava música (de ópera a Led Zeppelin), Iggor começou a tocar bateria aos 6 anos. Depois da tragédia, encostou as baquetas até os 13, quando voltou para tocar com os amigos e o irmão. “Eles criavam as músicas na minha sala e ensaiavam na casa do [baixista] Paulo Xisto. Mandavam fitas para tudo o que era rádio e gravadora. Cheguei a acompanhar os meninos em shows para cinco, dez pessoas.” Aos poucos, a banda passou a se apresentar para plateias mais gordas, e os convites para tocar fora de Belo Horizonte ficaram mais frequentes. “O diretor da escola deles gostava tanto da banda que fazia vistas grossas para as faltas”, conta orgulhosa. Mas quando o número de shows em São Paulo cresceu não deu mais para segurar. “O Jairo Guedes, baixista da formação original, já havia sido substituído pelo Andreas Kisser, que veio de São Paulo para morar na minha casa, como um filho, estudar na mesma escola dos meninos, tudo igual. Um dia, sentei com eles na sala e disse: ‘Temos que conversar’.”

Lição de casa ou heavy metal - Vânia mandou sem rodeios: “Ou vocês param de tocar ou largam a escola e levam a banda muito a sério”. Os meninos fizeram lição de casa pela última vez na oitava série, e a mãe passou a ser chamada de louca pelo bairro. “Nunca achei que o plano ia dar errado. Depois daquele dia eles ficaram ainda mais comprometidos. Eu cortava o cabelo deles, pregava tachas nas jaquetas de couro, ajudava a rasgar o jeans e quando a turma de São Paulo ia para lá ficavam dezenas de ‘camisas pretas’ em casa”, lembra. “Todo mundo achava que era uma molecada doida, que rolava droga, sexo, bagunça. Mas na verdade o que a gente mais gostava era de jogar War, tomar tubaína e comer pastel de banana. Droga era absolutamente proibido, eu dava geral nas mochilas, e na única vez que achei maconha joguei fora na frente de todos”, continua a senhora de 67 anos. “Uma vez uma camisa preta bebeu no show e vomitou no meu tapete. Levei-a para o quintal, mostrei a mangueira e o sabão e a fiz lavar.”

Apesar de ser rígida em relação a bebedeiras e drogas, Vânia escondia um problema. Antes de perder o marido, a ex-modelo da TV Excelsior tinha uma vida de classe média alta. Frequentava e oferecia jantares a embaixadores, usava joias, roupas de grife e, secretamente, bebia além da conta. “Eu tinha o hábito de tomar cerveja em canecas, ninguém notava. Nunca fui bêbada de dar escândalo, passar mal. Os jantares na minha casa eram chiques, homens de terno, mulheres de longo. Quando percebia que estava passando da conta e queria beber mais, ia para o quarto e sumia da festa”, revela. A matriarca dos Cavalera frequentou reuniões do AA por quatro anos, conseguiu parar por longos períodos, teve recaídas, procurou ajuda em centros kardecistas e hoje está limpa. “Tenho o maior orgulho da minha mãe por ela ter vencido o álcool, ela é a pessoa que mais acreditou na nossa carreira, lutou contra tudo e todos. Foi um dos fatores mais importantes para a nossa formação como músicos e fora da banda”, comenta Iggor.

Quando o Sepultura estourou em São Paulo, Vânia teve que tomar outra decisão. Em segredo, foi até a capital paulista durante um fim de semana e alugou um apartamento dúplex no bairro de Santa Cecília. De volta a Belo Horizonte, contou a novidade aos cabeludos, vendeu o carro, uma Caravan, ao dono da mercearia para quitar a dívida de três meses acumulada e se mandou com a banda e a filha mais nova. “Depois que eles assinaram contrato com a gravadora, lançaram CD e começaram a fazer turnês, vi que tinha feito a aposta certa. Lembro que no primeiro Rock in Rio não tive dinheiro para mandar os meninos para o festival. E, no ano seguinte, os garotos no palco. Parei de me preocupar com a carreira deles, mas, como mãe é mãe, perdi o sono por causa das brigas de gangues, tinha medo dos carecas do ABC”, conta a matriarca, que nunca mais teve namorado “porque os filhos eram muito ciumentos”. “Uma vez comecei um caso com um produtor deles, e para nos separar Max inventou que o homem era drogado.”

O calvário Cavalera - No dia do famoso show gratuito da banda na praça Charles Muller, em frente ao estádio do Pacaembu, no ano de 1991 (quando um adolescente foi assassinado), Vânia mal conseguia acreditar no sucesso dos filhos. Horas antes da apresentação, olhava milhares e milhares de “camisas pretas” e se emocionava. “É difícil compreender hoje, mas o rock no Brasil era uma cultura nova. E mesmo trabalhando na produção daquele show não podia imaginar que seria algo tão grandioso. Fui então até a polícia solicitar mais segurança e mostrei ao delegado uma fita com um show de metal gringo. Queria mostrar a ele que as rodas que os fãs faziam não eram briga, eram um jeito de dançar, de soltar energia”, explica, antes de lamentar o incidente.

Com o início da turnê internacional do Sepultura, Vânia, que até os 40 anos não tinha nenhuma tatuagem, mudou com a tropa para os EUA, virou avó, acompanhou as gravações de álbuns e clipes, se descabelou com músicos gringos que misturavam feijão com estrogonofe nos almoços de fim de semana e conviveu com a nata do rock. “Era uma delícia, eu conversava com o Ozzy, um lesado muito educado, e brincava com os filhos dele. Aliás, como aqueles meninos ficaram feios, não?”

Os bons tempos duraram até 1997, quando devido a um desentendimento entre a banda e a então empresária e mulher de Max, Glória Brujnowski, os irmãos deixaram de se falar. Max defendeu a mulher, deixou o Sepultura, entrou para o Soulfly, e Vânia enfrentou dez anos de silêncio entre os filhos. “Foi terrível ver os meninos separados depois de tanta dedicação. Eles já voltaram a se falar, até levaram flores para o Iggor no aeroporto quando ele foi até os EUA para rever o Max, mas nunca mais almoçamos na mesma mesa. Esse ainda é o meu sonho”, desabafa. “Um dia o Mike Patton [Faith No More], que vivia lá em casa, foi me visitar e disse que chorou ao saber da separação. No fundo os meninos brigaram sem nunca discutir. Cada um ficou do lado da sua mulher, mas não existiu uma briga direta entre os dois. Eu digo que se eles ficassem viúvos voltariam a se falar rapidinho”, brinca.

Mesmo depois das pazes entre os filhos, Vânia enfrentou outra pedreira: em 2008, a caçula Kira foi diagnosticada com lúpus, e para colaborar com o tratamento ela se viu obrigada a revelar aos médicos que a garota é adotada. “Minha terceira filha morreu no parto. Quando voltei para casa sem o bebê fiquei maluca. Pouco depois, um médico me ligou do mesmo hospital, o Santa Joana, em São Paulo, e disse que uma criança nascida ali havia perdido os pais e ia para adoção. Senti que ela deveria ser minha, e meu marido me fez jurar que jamais revelaríamos o segredo. Foi muito doloroso para a Kira, mas agora estamos bem. Fiz o que podia pelos meus filhos, e por isso tatuei esse punho forte no meu peito e os dizeres ‘Missão Cumprida’. Na perna tenho um S, de Sepultura”, conta enquanto arruma os dreads. “Para garantir um final feliz não quero ser sepultada. Quero minhas cinzas jogadas na avenida Paulista, no dia da Parada Gay.”

Agradecimento: Rotisserie di Napoli – O melhor frango assado de São Paulo

Texto por Kátia Lessa

Fonte: Trip

sábado, 29 de maio de 2010

# 148 - 28/05/2010 - Sergipanidade

O programa de rock desta sexta-feira fez parte do projeto "Sergipanidade", da Aperipe FM, cujo tema foi "PRODUÇAO MUSICAL EM SERGIPE". O projeto "Sergipanidade" acontece na última sexta-feira de cada mês. Durante o dia inteiro TODA a programação da rádio é dedicada à música e à cultura sergipana de um modo geral.

Lacertae – Caneco DAgua
Plástico Lunar – Cínico Arrependido
Snooze – Um resfriado
Daysleepers – na sua janela
Elisa – o quarto dos fantasmas

Urublues – Dois drinks e um otário
Máquina Blues ( Ao Vivo ) – A dor da perda

Afecção – Lamúria
Rótulo – à luta
The Jezebels – Amigas
The Renegades of punk – qual a diferença
Friendship – get out of my wave

Finitude – Inside Humans head

Mesa Redonda – Produção Alternativa em Aracaju
Com os produtores:
Daniela Rodrigues (The Renegades of punk)
Lindemberg Monteiro (Rua da Cultura)
Roberto Nunes (Sessão Notivagos)
Miguel Bruno (Nautilus/Virote)
Rick Maia (Mamutes/Virote)

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Aconteceu lá no sertão



“O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão!”, profetizava Antônio Conselheiro ao seu povo. De fato, Canudos, depois de destruída pelas tropas federais, foi inundada e virou um açude na Bahia. No interior de Sergipe, o sertão vira rock todo ano.

Nas Fotos: Vendo 147, Mopho e Lacertae Ao Vivo no Rock Sertão

Texto: Adolfo Sá *

Viva la Brasa

Sexta-feira, 20h30. Acompanhado de minha querida Gil, encarei os 135 km que separam Nossa Senhora da Glória da capital p/ conferir pela 1ª vez o Rock Sertão, em sua oitava edição. Fomos de carona no Peugeot do meu amigo Adelvan ‘Kenobi’, apresentador do Programa de Rock [104.9 FM] que iria estrear na TV, convocado de última hora p/ ancorar a transmissão ao vivo. Completavam a barca um moleque que eu não conhecia mas mó gente fina – usava uma camisa do DFC – e Roberto Nunes, produtor da Sessão Notívagos, que há 2 semanas trouxe p/ Aracaju o Cidadão Instigado.

NOSSA SENHORA DO ROCK - O festival começou na quinta c/ Alex Sant’Anna e Banda dos Corações Partidos. Durante o dia estavam rolando oficinas, como a dos artistas do Campo do Crioulo, capitaneados pela banda Lacertae e os alunos da Casa de Cultura Zabumbambus; e palestras e mesas redondas c/ convidados ilustres, como o pernambucano Paulo André, organizador do Abril Pro Rock. Eu, que não fui convidado pra nada, fiquei no estúdio móvel dando uma força no início da exibição. Mas logo deixei Adelvan c/ os leões, e fui dar atenção à minha mulher e assistir alguns shows.

Abrindo a noite, Villa Carmen, som novo c/ levada caribenha. “Parece lambada!”, sentenciou minha garota. Em seguida, a banda dos donos da festa, Fator RH, do instigado vocalista Kleberson Santos. “Tocamos em Itabaiana, até em Aracaju e queríamos tocar na cidade, mas não conseguíamos.” Com os amigos Daniel de Matos [baixista da RH] e Jeferson Andrade, organizou um festival em 2001. “O primeiro foi bem pequeno, num palco tão estreito que mal cabiam 5 pessoas e as caixas de som.”

Em seguida, o hard rock da Mamutes, uma espécie de ‘Matanza’ menos hardcore e mais anos 70. Além de tocar suas composições c/ alto teor de testosterona, fizeram uma homenagem a Ronnie James Dio, ex-vocal do Sabbath falecido recentemente. “O rock que fazemos é literalmente valvulado”, diz o vocalista Karl de Lyon: “À proporção que vai esquentando, vai ficando mais encorpado, e é aí que o pau quebra.” E foi c/ os amplificadores aquecidos que a Vendo 147 surgiu no palco alternativo p/ quebrar tudo c/ seu rock instrumental nervoso e indefinível.

Adelvan já tinha me avisado que o quinteto baiano fizera o melhor show do Abril Pro Rock, e em Glória não deu outra. Mix de surf music e heavy metal, c/ um baixista tão ‘virtuose’ que chega a ser firuleiro, e 2 bateristas que tocam sincronizados, de frente um pro outro, usando o mesmo bumbo. Influência do grupo suíço Monsters. O nome veio das páginas de classificados – o Fiat 147 é um dos carros mais vendidos nos jornais. Com dissidentes da Vinil 69 e The Honkers, a Vendo tem até um ex-Snooze na formação – o guitarrista Duardo Costa.

Mopho fechou a noite – pelo menos pra mim. A banda de Maceió faz rock psicodélico, tem um tecladista que usa timbres antigos e conta c/ fãs na platéia que sabem cantar suas músicas; mas tudo isso a gente já tem aqui c/ a Plástico Lunar, que só não tocou em Glória este ano porque estava no Bananada, em Goiânia [GO]. A Plástico é mais acelerada, chapada e lírica que seus vizinhos alagoanos, e na inevitável comparação a Mopho sai perdendo. Hora de pegar a estrada de volta pra casa.

WOODGLÓRIA - Em 1969, o empreendedorismo de um jovem que organizava um festivalzinho de música levou p/ sua cidade no interior dos EUA um festivalzão: Woodstock, que atraiu 500.000 pessoas p/ Bethel, no estado de Nova York. A história de Eliott Tiber está no filme recente do cineasta Ang Lee, Aconteceu em Woodstock. O evento, proibido de ser realizado na cidade original, foi viabilizado graças a Eliott, que alojou toda a produção no hotel da sua família e intermediou o aluguel da fazenda. Foram vendidos 186.000 ingressos, mas a multidão que invadiu o lugar derrubou todas as barreiras.

O Rock Sertão, apesar de gratuito, não atraiu nem 3.000 pessoas a cada noite em 2010. Glória tem apenas 30.000 habitantes, mas isso não serve de desculpa. Woodstock aconteceu numa fazenda de 600 acres de terra na zona rural. Uma das hipóteses levantadas p/ o pouco público seria a ausência de uma grande atração nacional, como Zeca Baleiro há 2 anos, mas Luís Oliva, que tocou lá c/ a Renegades of Punk em 2009, não crê nisso: “Ano passado não rolou apoio do governo e só teve banda daqui do estado, mesmo assim o público foi mais homogêneo.”

“Praticamente todas as grandes bandas de Aracaju já tocaram no festival, mas ainda estamos aprendendo bastante”, disse Kleberson da RH à repórter Aline Braga, do jornal Cinform: “Não temos a visão de ser um grande festival. Temos uma visão de contato com bandas amigas. Sempre tivemos essa idéia.”

Rick Maia, guitarrista da Mamutes, também agita as coisas em Aracaju c/ seu coletivo Virote Cultural. “Hoje em dia, infelizmente, não dá pra ter uma banda e se preocupar somente com a música em si”, falou a Rian Santos, do Jornal do Dia: “Atualmente as gravadoras só trabalham com bandas já prontas pro mercado, com disco lançado, DVD e alguns anos de estrada. Acredito que quem irá se destacar será aquele que tiver um bom disco, uma boa apresentação ao vivo, conhecer melhor o seu nicho e o que melhor trabalhar nos bastidores, enfim, quem conseguir achar um meio termo entre a organização de uma empresa e a anarquia do rock’n’roll.”

BLACK SÁBADO - Vi os shows da última noite no conforto do meu lar. Não é todo dia que um festival de rock é transmitido num canal aberto de televisão, ainda mais no que eu trabalho. Quando o programa começou, às 22h, o trio Urublues, de Itabaiana [SE], já destilava sua malandragem em sons como ‘Migalhas’ e ‘Minha Sede’, boas letras e bons riffs de Ferdinando, vocal e guitarra: “Deveria ter um Rock Sertão em cada cidade! É importante pro músico, porque as chances de tocar no interior aumentam.” Maior município do interior, Itabaiana tem uma cena underground fervilhante, c/ bandas como Karranca e The Swamp Beat Brothers.

Lacertae vem da cidade vizinha. “Já tocamos em festivais em Salvador, Rio de Janeiro, ou mesmo no Abril Pro Rock, em Recife, mas a sensação de tocar na nossa terra é outra”, diz Deon Costa, que se apresentou acompanhado do irmão Costaeira, da Unicampestre, no baixo, e os primos Diel na bateria e Marcelo, da Zanimais, na percussão e instrumentos de sopro. “Somos Lacertae, somos mutantes, somos de Lagarto. E esse vento da brisa do sertão é maravilhoso.”

Rosie And Me foram os únicos ‘gringos’ dessa noite. O grupo paranaense faz folk melódico cantado em inglês. “Acho que a gente apareceu pra quebrar essa tradição de rock mais pesado no evento”, falou a vocalista Rosie: “Trouxemos uma levada mais country, um som gostoso de ouvir e dançar.” Pra quem curte Belle & Sebastian, Malu Magalhães e Los Hermanos...

Ainda teve Naurêa e mais duas bandinhas escolhidas na internet, mas os poucos & bravos que resistiram na madrugada de sábado garantem que a Karne Krua fez o melhor show do dia 22. “Quando cheguei e vi dois palcos, eu me assustei”, zoa Sílvio ‘Sartana’, vocalista da banda pioneira no punk rock sergipano. “Me lembro de um show em que anunciaram que nosso guitarrista ia tocar com uma Fender. Foi a grande sensação do evento. A guitarra apareceu mais do que a maioria das bandas. Talvez por isso a Karne Krua tenha se destacado.”

Há 25 anos na ativa, Sílvio ainda mantém 2 projetos paralelos – Máquina Blues e Words Guerrilla – e uma loja de discos – Freedom – no centro de Aracaju. Após milhares de formações, Sartana mantém-se punk e anarquista, como deixa claro em ‘Terrorismo Séc.XXI’, novo hit da KxKx. “A persistência e o prazer de fazer música é o que mantém a Karne Krua tocando por tantos anos. E os novos músicos trazem novas energias para a banda.”

IN ROCK WE TRUST - O interior de Sergipe já revelou grandes bandas, como as citadas Lacertae, Urublues e Fator RH; em São Cristóvão tem The Baggios, em Propriá tem a Anjos Inocentes, Simão Dias tinha a SD Punk... “A efervescência do Rock Sertão provocou o surgimento de três bandas em Glória: Barrones, Identidade C e Distúrbio Mental”, escreveu Aline Braga no Cinform, “todas já pisaram no palco Véio Artesão, personagem emblemático da cidade. Portanto, além de estimular a criação de bandas, o Rock Sertão possibilita que elas aprendam a lição de casa tocando para um público bem eclético.”

Este ano rolou cachê p/ as bandas, divulgação na imprensa, e transmissão simultânea no rádio e na TV. Além disso, os shows ocorreram numa praça central da cidade. De graça! Achei que encontraria um monte de adolescentes vestindo camisetas pretas, c/ sede de rock... Mas parece que a juventude sertaneja está mais interessada em assistir Calcinha Preta e Aviões do Forró nas vaquejadas. Questão de identificação ou cultura de massa? “O sertão é impregnado dessa música, a prefeitura disponibiliza não-sei-quantos mil reais para forró eletrônico”, protesta o Padre Márcio, entusiasta do festival.

“Digamos que alguém dentro da máquina do estado tenha sensibilidade e reconheça a legitimidade do trabalho dessa galera e resolva investir – eu acho ótimo”, blogou Adelvan: “Ano passado o governo saiu fora, mas o festival, veja só, aconteceu. Este ano o estado voltou a dar suporte, mas eu não tenho dúvidas de que ele iria acontecer de novo, de qualquer jeito – sem a menor visibilidade, mas aconteceria.”

Na matéria ‘Dá-lhe Rock no Sertão’, Aline aponta alguns fatos que confirmam a relevância de uma festa dessa p/ a economia local. “Em maio, durante o festival, algumas lojas de roupa preenchem suas vitrines de preto e, nas viagens de compra à São Paulo, garantem o All Star do pessoal do rock. Passaram a falar a mesma língua e apoiar o evento – tanto o ambulante que vende cachorro-quente quanto o vendedor de bebidas na Praça Antônio Alves de Oliveira, ou o proprietário de estabelecimentos comerciais.”

Roberto Chagas, dono da Livraria Nordeste, resume em poucas palavras o que o Rock Sertão representa p/ o cidadão comum gloriense: “Independente de gosto, acho importante porque culturalmente diversifica os conceitos do pessoal que só gosta de forró. Não gosto de rock, go$to do$ efeito$.”

* Adolfo Sá publicou o fanzine "Cabrunco" e participou da produção, em 1998, do "Rock-se", o primeiro grande Festival de rock independente de Sergipe.

Cristina Scabbia

Este post existe por dois motivos: Um, para avisar que tem uma entrevista fresquinha com Cristina Scabbia do Lacuna coil esperando para ser lida no Portal Rock Press. O outro, não menos nobre, é para enfeitar nosso blog com algumas fotos dessa deliciosa criatura.

Bom deleite.

A.















Wry anuncia encerramento das atividades.



A banda Wry, uma das mais importantes do cenário alternativo brasileiro "forever and ever amen", acaba de anunciar o fim de suas atividades. O último show acontecerá no próximo sábado, no bar "Asteroid", em sua terra natal, Sorocaba.

O Wry se apresentou 2 vezes em Aracaju - a primeira ainda nos anos 90, no extinto Tequila Café, e a segunda ano passado no Capitão Cook, num evento que, por sinal, foi resenhado por mim aqui no Blog do programa de rock.

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Uma das principais bandas independentes da história do rock alternativo e shoegaze brasileiro chega ao fim. Os integrantes do Wry anunciaram para esse sábado, dia 29 de maio de 2010, o último show do grupo. A apresentação acontece no Asteroid Bar, em Sorocaba. Para a despedida, irá acontecer uma reunião da formação original.

Segundo o líder Mário Bross, o motivo da banda estar encerrando as atividades é o fato de possuir uma estrutura de palco — som e iluminação — muito grande, o que dificulta a realização de shows ou mesmo turnês longas, por lugares distantes. Aliado a isso, há o sucesso do bar Asteroid — criado e mantido por integrantes do Wry —, que rapidamente se tornou um local importante para a cena independente (em pouco tempo, muitas bandas brasileiras e internacionais passaram por lá), tendo conquistado um grande público, mesmo não estando situado numa capital.

Lenda da cena indie brasileira, com quase 16 anos de história, o Wry lançou 7 títulos, entre álbuns e EPs. A banda passou uma longa temporada em Londres (7 anos). Tocou por lá com diversas banda, entre elas Ash, The Rakes e The Subways (cujo baterista chegou a integrar temporariamente o Wry). O álbum Flames in the Head (2006), talvez o melhor trabalho da banda, teve faixas produzidas por Gordon Raphael (produtor dos primeiros trabalhos dos Strokes).

No dia 24 de junho, data que marca os 16 anos do primeiro show da banda, os álbuns inéditos The Long-term Memory of an Experience e o disco-tributo National Indie Hits, além de bootlegs ao vivo e remixes, serão lançados para download na internet.

Fonte: Os Armênios

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(Wikipedia): Wry é uma banda brasileira de rock alternativo que debutou na cena independente em 1994 tocando no Festival Juntatribo II, em Campinas/SP, e sofre a influencia de bandas como The Jesus and Mary Chain, My Bloody Valentine, Legião Urbana e U2. Gravaram em fevereiro de 1995 sua primeira demo-tape, intitulada Morangoland, e desde então vêm fazendo shows pelo Brasil e Inglaterra e lançando álbuns, eps e vinis pelas gravadoras Monstro Discos do Brasil e ClubAC30 Records do Reino Unido.

O início - Em 1993, em Sorocaba/SP, a primeira fagulha para o surgimento do Wry é acesa quando os cinco amigos Mario C. T. Silva (Mario Bross), Luciano Marcello, Flavio Medeiros, Luís O. Costa (Chokito) e Renato Bizar lêem no jornal O Estado de São Paulo uma matéria sobre o Festival Juntatribo, onde figuravam várias bandas com nomes em inglês, língua na qual Mário se sentia mais inspirado para compor na época.

Envolvidos pelo modo de vida e pela sonoridade, microfonia e distorção de bandas como The Jesus and Mary Chain e Sonic Youth,[1] em setembro de 1993 resolvem formar uma banda, o Piso Sonoro, mas somente no ano seguinte e com a saída de Flávio é que o projeto se concretiza da forma sonhada pelos quatro amigos e assim surge o Wry.

Em 1994, com várias músicas compostas e ensaios ainda no começo, recebem a notícia de que Sérgio Vanalli, um dos organizadores do festival Juntatribo (aquele da reportagem do Estado de São Paulo) estava de mudança para Sorocaba, e o melhor, estava selecionando as bandas para a segunda edição do festival. Movidos por aquela chama inicial, fazem amizade com Sérgio e ensaiam incansavelmente durante seis meses com o objetivo de ser uma das bandas selecionadas para a edição de 1994 daquele festival tão inspirador. E o melhor, eles conseguem. Mas antes do grande debut, em julho de 1994, fazem seu primeiro show da carreira em Santos/SP, indicados ao promotor do evento pelo próprio Sérgio Vanalli. O primeiro passo estava dado.

Juntatribo - Ao lado das bandas Garage Fuzz, Killing Chainsaw, Pelvs, brincando de deus, Loop B, Lucrezia Borgia, Relespública, Little Quail, Virna Lisi, Língua Chula, Câmbio Negro e Planet Hemp, o Wry faz a sua estreia em um grande festival e tem seu nome repercutido por todo o Brasil por meio da cobertura da MTV Brasil, pelos maiores jornais do país e por veículos especializados. Nesse momento o nome Wry começa a fazer parte da cena independente nacional.

Direct e Morangoland - A primeira gravação do Wry foi lançada em fita-cassete. Intitulada Morangoland, conta com 11 músicas (Somersault, Hawkmoon, Irônica, Wry, Under the Sky, Distortion in My Mirror, Kill me Again, You Kill me Baby, Do You Dance With Me? - ao vivo, Nocturnal e My Bloody Marble). O Jornal O Estado de São Paulo publica a primeira resenha sobre um trabalho da banda. Mas é no palco que a banda se destaca, recebendo inúmeros elogios pelas performances cheias de energia. Seu nome vai se tornando cada vez mais conhecido, afinal, desde os primeiros lançamentos, são poucas as fases em que não estiveram fazendo shows ou com o pé na estrada.

Em 1998 lançam o álbum Direct, estréia da banda em CD. Produzido por Alejandro Marjanov (responsável pelos hits da banda Os Ostras) conta com 10 músicas: Sleeper, Redshoes, Under the Sky, She Gets Souls, Do You Dance With Me? Give Your Sex, Rocks Like a Little Stones, Distortion, Plumas & Paetês e Nightclub. Duas faixas são regravações da primeira fita-cassete. O trabalho é recebido de forma positiva pela crítica especializada em revistas e jornais de todo o Brasil, mas a mais célebre foi publicada no jornal O Estado de São Paulo com o seguinte título: "Wry não esta nem ai para o Caetano", se referindo a escolha do Wry em cantar em inglês, contrariando a nova cena nacional de rock que surgia na época, onde as bandas misturavam sons tradicionais brasileiros com guitarras distorcidas.

Redshoes foi eleita a música de trabalho desse álbum, tendo um videoclipe dirigido por Cleiner Micceno (conhecido produtor de "filmes B") e veiculado diversas vezes pela MTV Brasil e por outros programas de música alternativa da TV brasileira. Redshoes é até hoje pedida pelos fâs nos shows pelo Brasil. Outras faixas desse CD tiveram grande repercussão, principalmente no interior do estado de São Paulo e na região de abrangência da Rádio Rock 89 FM, onde as músicas "Under the Sky" e "Do you dance with me?" foram tocadas diariamente em sua programação normal.

As apresentações que se seguiram ao lançamento do álbum de estréia foram importantes para a carreira da banda. Dividiram palco com figuras conhecidas do rock brasileiro como Pin Ups, Hateen, Garage Fuzz, Jota Quest, Ira, entre outras, e tocaram com bandas internacionais em turnês pelo Brasil como Man or Astroman?, Make Up e Superchunk.

O álbum conceitual Heart-experience e o Circadélica - Com o álbum Heart-experience em processo de pós-produção, iniciam em outubro de 2000 seu pré-lançamento com cinco shows pelo nordeste brasileiro. Foram 17 dias dentro de um automóvel Corsa tocando em Salvador, Aracaju, João Pessoa, Fortaleza e Teresina. Animados com a repercussão, resolvem se aventurar ainda mais, viajando por estradas conhecidas e desconhecidas do Brasil com a turnê denominada Goo Goo Meginee Tour.

Lançado oficialmente em 2001 pela gravadora Tamborete Entertainment, a convite de Rafael Ramos (um dos sócios do selo, atualmente na DeckDisk), Heart-experience foi recebido novamente muito bem pela crítica especializada, rendendo ao Wry diversos convites para inúmeros programas da MTV Brasil, TV Cultura, TV Aliança Paulista (Atualmente TV TEM / Globo) e da 89FM Radio Rock. Definitivamente, a partir desse momento, o Wry se torna um dos expoentes do rock alternativo brasileiro seguindo em frente com uma agenda de shows sempre lotada.

No meio de toda essa agitação, ainda em 2001, apoiados pela LINC (Lei de Incentivo a Cultura), realizam em junho no centro da cidade de Sorocaba um festival chamado Circadélica, onde foi montada uma lona de circo, além de toda infra-estrutura de banheiros e pequenas barracas de comércio e alimentação. Foram dois dias de rock com 27 bandas divididas em dois palcos, um deles sob a lona e outro numa casa noturna (na época chamada Voyage) localizada a poucas quadras do evento. A entrada era franca e compareceram mais de 4.000 pessoas, sendo arrecadadas 4 toneladas de alimentos destinados aos mais necessitados. Entre as bandas estavam, além do Wry, Garage Fuzz, Thee Butcher’s Orchestra, Pelvs, Astromato, Maybees (agora Ludov), Holly Tree, Grenade, Walverdes, MQN, Biggs, Prole e Snooze, dentre outras.

2001 era ano em que os quatro amigos do Wry iriam realizar seu segundo sonho, que individualmente vinha sendo nutrido muito antes da banda se juntar: viver em Londres

As turnês brasileiras, Ellus, o álbum Flames in the Head e a saída de Renato Bizar - No final de 2001 a banda viaja para Londres acompanhada de vários amigos (a Goo Goo Gang) com a intenção de viver por lá por alguns anos, estudar e recomeçar o Wry na cidade que foi uma de suas inspirações desde o início. Fazem 9 shows nos primeiros 9 meses que permanecem na Inglaterra, antes de voltar ao Brasil para a turnê I Love and Hate You Tour em agosto de 2002. No mesmo ano de 2002, o CD Heart-experience é relançado, agora pela Monstro Discos e Fitas Magnéticas, com uma música inédita, Deep into the shadows of our mind, mais Waiting room: Have a sit, Distancity, 77:00, The new radio station no. 1, Jesus Beggar, That's me on the corner, You know why, Her substance, …in the breeze (here's the guilty, here's the beauty), Beautiful sickness, Begging you - get zonked, Sliced loving night, Man in black, Ultra-Sense - Take a ride on my little bike, That's me on the corner (acoustic version) e The new radio station no. 1 (short version).

Depois do sucesso da turnê brasileira tocando em casas lotadas por todo o Brasil, voltam a Londres e descobrem que as coisas estavam apenas começando a acontecer. Logo após seu retorno, recebem um convite de Tom O'Connor, empresário americano que vivia na cidade e havia visto o último show da banda antes de embarcarem para o Brasil. Aceitam o convite e a parceria dura três anos, influenciando a banda de forma positiva, na composição e em suas metas para a carreira e a vida.

Entre 2002 e 2006, o Wry já se sente em casa na cena londrina, tocando com bandas importantes como The Cribs, The Subways, The Rakes e The Parkinsons, além de um memorável show no Museu de Arte Moderna de Liverpool, o Tate Liverpool, onde participaram tocando ao vivo a trilha sonora da obra "Assume Vivid Astro Focus" - que também é o pseudônimo de um artista brasileiro mundialmente conhecido.

Lançaram alguns singles independentes, receberam criticas positivas de revistas como Disorder, Artrocker, Playlouder, Rockfeedback, Time Out, Drowned in Sound e do jornal Metro. Nesse mesmo período, Stuart Nicholls, fotógrafo muito respeitado em na capital britânica, se torna o fotografo oficial da banda.

Após lançar na Inglaterra o EP Come and Fall (no Brasil em vinil pela Monstro Discos), curiosamente a banda recebe outros dois convites em um mesmo dia: Tim Wheeler, vocalista da banda irlandesa Ash, que havia escutado o EP, e Gordon Raphael, produtor dos dois primeiros álbuns dos Strokes, que havia "descolado" alguns MP3 da banda na internet, queriam trabalhar com o Wry.

Das colaborações de Tim Wheeler e Gordon Raphael mais a produção da própria banda o Wry lança, em dezembro de 2005, Flames in the Head, fazendo uma pequena turnê pelo Reino Unido e uma turnê extensa pelo Brasil batizada de Wry em Chamas no Brasil, culminando com o show no Auditório do Parque do Ibirapuera em São Paulo, tocando ao vivo sob a direção de Bia Lessa, no desfile da grife Ellus, o principal daquela noite no São Paulo Fashion Week.

Um Wry mais maduro é notado nesse álbum de 10 faixas: In the hell of my Head, Come and fall, Don't you ever call on my name again, Airport girl, Cancer, Pictures of you, Powerless, Bad bad bad, Softly slow e Sabrina. Três músicas de trabalho foram definidas: In the hell of my Head, Come and fall e Cancer. E se tornam grandes hits.

O vídeoclipe de In the hell of my head, dirigido por Rodrigo Rigoni em Londres, é veiculado diversas vezes na MTV Brasil, trazendo para a banda novos fãs que nunca tiveram a oportunidade de ver o Wry em sua faceta mais inspiradora: o palco.

Baleias e Tubarões: o Futuro - Novamente, em 2006, o Wry estava de volta a Londres. Em julho desse mesmo ano, por motivos particulares, é anunciada a saída de Renato Bizar, que por 12 anos esteve à frente da bateria do grupo. Temporariamente a bateria foi assumida por Josh Morgan dos The Subways. Em outubro, André Barbosa (ex-baterista da banda gaúcha Good Morning Kiss), fâ e amigo do Wry, assume as baquetas. Com André, uma nova química se forma e rapidamente quatro novas músicas são compostas e postadas em 2007 no site da banda no Myspace, com a produção de Jon Hassuike, Mario Bross e Luciano Marcello. Em pouco tempo recebem três propostas de selos ingleses e em agosto desse mesmo ano lançam seu primeiro CD oficial nas lojas da Inglaterra: Whales and Sharks, pela gravadora ClubAC30, com distribuição no Japão, EUA e outros Países do mundo.

O debut inglês do Wry recebe ótimas criticas da mídia britânica, sendo as execuções de Different from me, por Steve Lamacq e de Sister, por Tom Robinson, na BBC[4] as de maior destaque.

Fazem vários shows e notam o crescimento do número de fãs ingleses, principalmente depois do lançamento do EP Whales and Sharks. Dentre os vários shows de lançamento os de maior repercussão foram quando dividiram as noites com The Subways, Los Hermanos e Ash.

Entre apresentações ao vivo e lançamentos, entram em estúdio para compor novas músicas. Em 2008 iniciam a gravação de vinte novas faixas que farão parte de dois novos álbuns intitulados She Science e The long-term memory of an experience, produzidos por Jon Hassuike, Mario Bross e Luciano Marcello e com lançamento para 2009 e distribuição no Brasil, Inglaterra e outros países. Entre essas músicas, pela primeira vez, algumas letras são em português.

Discografia:

* Morangoland (1995)
* Direct (1998)
* Heart-Experience (2002)
* Come and Fall EP & 7′ (2004)
* Flames in the Head (2006)
* Different from me 7′(300 copias) (2007)
* Whales and Sharks -- EP (2007)
* She Science (2009)

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Tudo ao mesmo tempo agora

No Mundo do Rock - Eles acreditam no vinil… e na internet também - Seis novas bandas inauguram o selo Vigilante para lançar compactos em vinil de sete polegadas e músicas em formato digital.

por Marcos Bragatto
Rock Em Geral

Passado e futuro fazem parte da crença de novas bandas do rock nacional que, depois de trilhar cada qual o seu caminho, acabam de assinar contrato para lançar (e vender) suas músicas em formato digital e em bem acabados compactos de 7” no bom e velho vinil. Bom e velho em termos, já que o formato é a aposta do Vigilante, subselo da Deckdisc criado após a reativação da fábrica Polysom. Os grupos apostam num revival do formato, e também na capacidade do selo de comercializar as músicas digitalmente, já que, até agora, ele disponibilizavam tudo gratuitamente na web.

A mais antiga delas é o The Name, de São Paulo, que tem extenso currículo de shows e já se apresentou até no exterior. “Estivemos nos Estados Unidos em março, passamos por lojas de discos e tudo é lançado em vinil também. Tinha coisas muito recentes em 75 rotações sendo vendidas lá”, diz o guitarrista e vocalista Andy, que acredita no som “muito mais lindo de ouvir” das bolachas. O baixista Caio, da Colombia Coffee, também acredita no revival: “é uma mídia que está sendo resgatada aqui no Brasil e que lá fora já esta bem valorizada novamente”. O grupo carioca é um dos mais novos do elenco recém montado pelo produtor Rafael Ramos, idealizador do selo. Para Arthur Teixeira, do Volantes, “a Polysom reapareceu porque há uma demanda à vista”. Ele se diz “apreciador do formato álbum”, mas prevê adaptação às mídias. “Meu compromisso é com as canções, a plataforma a gente vai adequando”, afirma.

O Volantes é de Porto Alegre, e além de circular pelo forte cenário do interior gaúcho, já tocou em festivais de renome como o Maquinaria, em São Paulo, no ano passado. Seus integrantes já tocaram antes em bandas como Spleen, Stratopumas e até Bidê ou Balde, que teve certo reconhecimento no cenário nacional. O grupo, formado por Arthur Teixeira (voz e guitarra), João Augusto (guitarra e sintetizador), Otávio Mastroberti (sintetizadores), Bernard Simon (baixo) e Rodrigo Mello (bateria), tem os dois pés fincados no pós punk oitentista, e compõe em português. Foi o EP “Sobre Gostar e Esperar”, lançado por conta própria no ano passado, que chamou a atenção do Vigilante, ainda no embrião. “Quarenta e oito horas depois de lançarmos já tinha um e-mail do Rafa e de outras pessoas de gravadoras. Quando estive no Rio para conversar vi o quanto era real”, conta Arthur. Para o compacto “Maça”, além da faixa-título, o grupo gravou “No Corredor, Ali”, ambas conhecidas dos shows, mas inéditas em disco.

Com o The Name o contato aconteceu mais o menos do mesmo jeito. “Um dia o Rafael nos ligou, conversamos e depois de alguns meses tava tudo certo. Estamos muito animados com tudo”, diz Andy. O grupo vai lançar uma nova mixagem para a música “Can You Dance Boy?”, que dá título ao compacto e a inédita “Let The Things Go”. A formação de trio, completada por Molinari (baixo) e Alves (bateria), se adapta muito bem à linha das bandas do rock anos 00 que mergulham todo dia nos 80. “Gostamos da banda, mas preferimos a fonte que eles também beberam”, diz Andy, para despistar a incrível semelhança com o Franz Ferdinand, espécie de banda referência para o The Name.

Do Rio de Janeiro, o trio Colombia Coffe pegou o nome emprestado de uma cafeteria que não deixa o baixista Caio esquecer o romance que teve com uma bogotana. O grupo, completado por Deborah (guitarra e voz) e Dennis (bateria e voz), existe há quase dois anos, e acredita em algo além dos compactos e das faixas virtuais. “Ainda existe muito material a ser explorado e acredito que em breve terão coisas novas além das que vão sair no novo selo”, conta Caio. Eles também apostam no rock contemporâneo, mas o resultado ainda soa bastante ingênuo, coisa que Rafael Ramos deve ter ajeitado. No compacto deles, tem a conhecida “As Coisas Que Ela Diz”, e a inédita “Bons garotos”.

Também estão no elenco de estréia do Vigilante MIM, Boss in Drama e Vivendo do Ócio, remanescente da Deckdisc, por onde lançou o disco “Nem sempre Tão normal”, no ano passado. Todos os compactos serão lançados entre junho e julho e a venda digital, nos melhores sites do ramo, também começa no mês que vem. Confira abaixo todos os títulos:

Volantes - www.myspace.com/volantesvolantes
Maçã
Lado A: Maçã
Lado B: No Corredor, Ali

The Name - www.myspace.com/thenamemusik
Can You Dance, Boy?
Lado A: Can You Dance, Boy?
Lado B: Let The Things Go

Colombia Coffee - www.myspace.com/colombiacoffee
As Coisas Que Ela Diz
Lado A: As Coisas Que Ela Diz
Lado B: Bons Garotos

Vivendo do Ócio - www.myspace.com/vivendodoocio
Dilema
Lado A: 1- Dilema / 2- Rock Pub Baby
Lado B: 1- Hey! Hey! / 2- Amor Em Fúria

Boss In Drama - www.myspace.com/bossindrama
Favorite Song
Lado A: Favorite Song
Lado B: I’ve Got Tonight

MIM - www.myspace.com/madame.mim
Rockstar (só digital)
1- Rockstar
2- Vaccine
3- Vaccine (Sexistalk Remix)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Viagem no tempo



Com álbum de gravações raras e inéditas de Jimi Hendrix, produtor e pesquisador revela período pouco conhecido da história do maior guitarrista em todos os tempos. Íntegra da matéria publicada na Billboard Brasil número 7, de abril de 2010.

por Marcos Bragatto
Rock em geral

O tempo passa, o tempo voa, e mais um álbum de raridades de Jimi Hendrix vem à tona. Nem a coletânea “First Rays of the New Rising Sun”, de 1997, considerada o “último álbum de Jimi Hendrix”, ou a caixa “The Jimi Hendrix Experience” (2000), esgotaram as gravações do obcecado guitarrista. Dessa vez foram restauradas 12 faixas gravadas em 1969, cerca de um ano antes de sua morte, para o álbum “Valleys Of Neptune”, ajuntadas pelo produtor John McDermott. É dele o duro trabalho de se embrenhar em tudo que foi do guitarrista para encontrar raridades comercialmente viáveis que mantenham os lucros da “Experience Hendrix”, empresa da irmã de criação de Jimi, Janie Hendrix, que ganhou na justiça o direito de administrar o legado do guitarrista.

E o que fazia Jimi Hendrix em 1969? Corria de um lado a outro para tocar e seguir suas incessantes gravações em busca da perfeição, enquanto empresários de todo o tipo procuravam colocar a mão bolso dele. No refúgio das gravações Hendrix ensaiava números para os shows (“Sunshine Of Your Love”, do Cream) e desenvolvia músicas já editadas (“Stone Free”, “Fire”), mas não trabalhadas o bastante nas versões originais. Exemplos de uma coletânea onde predomina a inventividade de Hendrix ao mexer nos botõezinhos e que John McDermott levou tempo para trazer à tona.

Mesmo porque só no ano passado a “Experience Hendrix” fechou contrato com a Sony Music, que prevê, além de “Valleys Of Neptune”, o lançamento do acervo fonográfico do guitarrista. Este ano voltaram às lojas os três primeiros álbuns: “Are You Experienced”, “Axis: Bold As Love” e “Electric Ladyland”, turbinados com DVDs com imagens de shows e documentários de Bob Smeaton (“Beatles Anthology”). Nos Estados Unidos, todos os cinco discos, incluindo “First Rays of the New Rising Sun”, entraram direto no top 200, liderados pelo 4º lugar de “Valleys Of Neptune”.

Veja abaixo a entrevista que fizemos com John McDermott, por telefone, direto de seu escritório, em Nova York. Autor de quatro livros sobre Hendrix, o produtor fala não somente do material musical encontrado no CD “Valleys Of Neptune”, mas de toda a confusão que era a vida do guitarrista da época em que essas músicas foram registradas, e de seu legado para a música contemporânea, entre outros detalhes. Confira:

Rock em Geral: Como você descobriu o material que está gravado no disco “Valleys of Neptune”?

John McDermott: É o resultado do trabalho de alguns anos. O que nós queríamos com esse álbum era ter material inédito, ainda não lançado, que veio do período entre a gravação do “Electric Ladyland” e o “First Rays of the New Rising Sun”, gravações de 1970. Porque era uma fase importante para o Jimi, o fim do Experience original e as suas primeiras gravações com Billy Cox e Mitch Mitchell. E parece encaixar muito bem para os fãs, para se ver a evolução de Jimi como artista, particularmente ao gravar em estúdio.

REG: Você acha que parte dessas músicas poderiam se transformar em um novo álbum?

McDermott: Não há como dizer o que iria acontecer, por causa da morte dele, tipo que trecho viraria o que. Eu acho que músicas como “Valleys of Neptune”, por exemplo, estariam num novo álbum, mas nunca saberemos. Muitas delas, creio que, sim, ele consideraria prontas para serem lançadas.

REG: Você acha que essas músicas já estavam perto das versões finais ou ele poderia desenvolvê-las ou modificá-las um pouco mais?

McDermott: Acho que o Jimi, como bom perfeccionista que foi – ele achava que poderia ter feito o “Electric Ladyland” melhor – modificaria qualquer gravação. Ele certamente colocaria o seu selo de qualidade final em qualquer uma dessas músicas. Mas o que nós temos é o que ele realmente tinha, em estado bruto, na época de sua morte.

REG: No disco há músicas bem do comecinho da carreira dele, como “Red House” e “Fire”, que já haviam sido lançadas. Por que você acha que ele começou a trabalhar nelas de novo?

McDermott: É preciso olhar para a época. Imagine como exemplo “Stone Free”. Essa música saiu como lado B do compacto de “Hey Joe”, que só foi lançado na Europa na época, não nos Estados Unidos, o seu próprio país. Foi por causa de o produtor dele, Chas Chandler, o ter levado para a Inglaterra. Ele não tinha dinheiro para passar muito tempo em estúdio, então foi tudo gravado muito rápido, e é uma grande música. Então em 1969 ele deve ter pensado: “Quer saber? Posso fazer isso melhor”. Era típico do jeito de ele pensar. E acho que isso foi o modo como que ele começou a revisitar essas músicas já famosas. No caso de “Fire” e “Red House”, temos sorte de ter acesso aos tapes que o Jimi fez, ensaiando com a banda para tocar essas músicas ao vivo. Aqui, é menos sobre gravar num estúdio para um disco do que trabalhar para chegar a um bom arranjo para se tocar ao vivo. E nós temos sorte de ter uma boa qualidade de estúdio para mostrar como ele continuava a expandir as duas músicas.

REG: Você acha que ele realmente ensaiava versões diferentes no estúdio, para tocar certinho ao vivo?

McDermott: Acho que sim, porque ele sempre viu - e isso se prova nas entrevistas - performances ao vivo e gravar discos como coisas bem diferentes. Para ele tocar ao vivo sempre foi uma experiência singular, baseada no feeling dos três músicos, na reação do público, numa combinação de todas essas coisas. E gravar sempre foi um longo processo de overdubs e mixagens que podem ser criados sob uma perspectiva diferente.

REG: Mas os shows deles são sempre como grandes jams, não como uma coisa planejada…

McDermott: Hoje você vai num show de rock e até o bis é planejado. Nos tempos do Hendrix, ele tocava o que sentia, ele não ia com um set list para o palco, tocava o que queria na hora, dependendo de como ele estava sentindo o clima ou da reação da platéia.

REG: O que acontecia na vida pessoal de Hendrix no período em que ele gravou essas músicas?

McDermott: Era uma fase difícil, mas ao mesmo tempo uma época sensacional para ele. A fama veio muito depressa e ele estava muito pressionado. Eu não acredito que ele fizesse música com o objetivo de ela se desenvolver a ponto de ficar tão grande quanto ficou. Mas havia um senso de que era preciso tocar em todos os shows em todas as datas que fossem possíveis, porque você poderia não estar ali no dia seguinte, então corria-se para os shows e voltava-se depressa para o estúdio. E esse tipo de ritmo é muito difícil de manter. Era um trabalho muito duro, eu acho que a relação entre ele e Noel Redding tinha chegado ao fim, e não havia banda no final de junho de 69. Juntando isso com o fato de que o disco dele era o número um no mundo, ele vivia em turnês naquele período. Para um cara que passava fome no Greenwich Village três anos antes, é mesmo assustador.

REG: O Hendrix costumava tocar a música “Sunshine Of Your Love”, do Cream, nos shows, sempre em versão instrumental. Algumas biografias dizem que ele não gostava de cantar, de ouvir a própria voz. Você acha que ele chegou a pensar em colocar um vocalista na banda?

McDermott: Não mesmo. Uma vez o Chass Chandler disse que a voz de Hendrix era um componente importante para ele. A afinidade entre o ritmo da voz de Hendrix e o conteúdo de seu discurso é total. Seja “Stone Free” ou qualquer outra das grandes músicas dele, há um pouco da personalidade de Jimi que pega o ouvinte. É óbvio que o som é muito bem concebido e o jeito de tocar guitarra é o principal, mas eu acho que a voz e a personalidade dele é um grande atrativo para as pessoas, e se percebe isso. Mas ele sempre foi muito crítico com ele mesmo, ele sempre dizia que queria ser uma melhor pessoa, um melhor guitarrista, um melhor cantor…

REG: Há várias faixas instrumentais nesse disco, você acha que esse material, de certa forma, aproxima Hendrix de guitarristas dos nossos tempos, como Joe Satriani e Steve Vai?

McDermott: Eu acho que certamente tanto Vai quanto Satriani sempre dirão que para eles Hendrix é uma grande fonte de inspiração. Seja nas músicas puramente instrumentais ou em músicas de longa duração como “Machine Gun”, por exemplo, ele estava apto para usar a guitarra em formas que hoje é uma coisa comum. Mas quando você pensa olhando para trás, quem estaria fazendo esse tipo de coisa? Quem estaria tocando “Voodoo Chile” com 15 minutos de duração? Eu acho que ele abriu a porta para outros guitarristas como Jeff Beck e John McLaughlin, nos anos 70, e agora Satriani e Vai, entre muitos outros. Ele abriu as portas para que se criasse música baseada nas guitarras, e que havia público para gostar disso.

REG: Você acha que a entrada do Billy Cox contribuiu para o desenvolvimento da música do Jimi nesse período, ou ele teria feito a mesma coisa, independente de quem entrasse no lugar Noel Redding?

McDermott: Se você olhar para trás, naquela época o Jimi poderia ter escolhido quem ele quisesse para tocar com ele. Ele tinha a banda mais popular do mundo, mais famosa que os Beatles. Ele poderia colocar qualquer um, mas o que ele precisava era um velho amigo que o entendesse, que tivesse paciência e que o ajudasse a desenvolver as músicas novas. E foi isso que Billy foi, um amigo de confiança. Ele também se encaixou bem tocando ao vivo, e por trás das cenas, junto com Jimi, a amizade dele foi fundamental para que Jimi pudesse focar somente da música dele e dar o próximo passo. Mas, um ano depois, eles fizeram músicas como “Freedom”, “Dolly Dagger”, “Night Bird Flying”, todas com a marca do Billy, que era um cara muito talentoso.

REG: Por que você decidiu batizar o disco como “Valleys Of Neptune”?

McDermott: Era a música que nós achamos que melhor simbolizaria esse apanhado, nela Jimi investiu bastante tempo em 1969, tentando criar. Acho que ela fala pelo todo nesse disco.

REG: Ainda há o que ser descoberto no legado de Jimi Hendrix?

McDermott: Agora o que temos é esse “Valleys of Neptune”, que oferece uma profunda apreciação e compreensão do que foi Jimi Hendrix. Não substitui “Electric Ladyland” ou “Band Of Gypsys”, nenhum dos álbuns, mas fornece mais informação e mais música para apreciarmos o que Jimi estava fazendo. No fim das contas, é tudo o que temos. Se você parar e pensar, é uma pequena coleção de músicas, não é como Bob Dylan ou Eric Clapton, que lançaram 40 discos. Estamos falando de uma quantidade de música bem pequena, que ainda tem um grande apelo para as pessoas em todo o mundo.

REG: O que você acha que há na música do Hendrix que continua a seduzir as pessoas?

McDermott: Eu sinto que a linguagem comum é a música, não importa onde você está, qual a sua idade. É a qualidade da música que continua a inspirar as pessoas. Qualquer um que grave uma música de Jimi, poderia ser John Mayall, Prince, Stevie Ray Vaughan - não importa - as pessoas vão procurar a fonte original. Quando descobrem Jimi é uma revelação. Foi como tudo começou. E eu realmente acho que não há guitarrista melhor que Jimi, mas o apelo das músicas, por elas mesmas, é o que faz a conexão com todas essas gerações.

REG: Imagino que um você passe o dia inteiro buscando coisas novas no legado de Jimi…

McDermott: É, mas é divertido. Não importa que tipo de música você goste, se descobrir uma gravação de Robert Johnson ou dos Beatles… Há certos artistas que, quando você acha algo, é uma demonstração do que eles estavam tentando desenvolver, e poder dividir isso… No “Valleys of Neptune” é interessante porque você pode mostrar mais exemplos das habilidades de Jimi. É excitante poder dizer, por mais que você goste de tudo o que já conhece, que ainda há mais.

REG: Se Hendrix fosse vivo, que tipo de música você acha que ele estaria fazendo?

McDermott: É difícil de dizer, mas uma coisa que você pode ter como certa. Se prestar atenção, Jimi era criativo e livre. Livre para fazer cover de Howlin’ Wolf ou de Bob Dylan. Ou fazer uma música de 18 minutos e outra só com de dois. “Electric Ladyland” é o melhor exemplo de sua liberdade de fazer só que ele realmente queria criar. Se você olhar com atenção para este disco, ele continua a te introduzir a novas coisas. Há blues, rock, funk, baladas, toda a gama de coisa, e eu acho que ele poderia trabalhar com qualquer um que ele escolhesse. Ele poderia hoje ser só um produtor, o futuro era todo dele, poderia fazer o que quisesse. O triste é que ele não conseguiu viver o bastante, nem se colocar num lugar onde ele pudesse descansar e focar num mundo além do próximo show ou da próxima sessão de gravação.