quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

paradise lost 3: purgatory

Quem gosta de música pesada só tem a lamentar o resultado do Oscar 2012 na categoria documentário. Quem gosta de direito ou sociologia e os que são aficionados por direitos humanos também. “Paradise Lost 3: Purgatory”, dos diretores Joe Berlinger e Bruce Sinofsky, perdeu para “Undefeated”, que narra a rotina de um time ruim e derrotado de futebol americano.

A terceira parte da saga “Paradise Lost” mostra com mais ênfase aquele que é um dos maiores casos de erro judicial dos Estados Unidos. Dezenove anos depois, revisita os condenados pelos assassinatos de três garotos no Estado de Arkansas em maio de 1993, aparentemente em um ritual satânico.

Com quase nenhuma prova e muita especulação, os acusados tiveram contra si o fato de serem reservados, de gostar de ficar isolados e de ter um “um comportamento estranho na sociedade”. E, como não poderia deixar de ser, gostavam de heavy metal.

O documentário desta vez é conclusivo: faz uma investigação sobre a prisão e todo o processo judicial, levantando novas evidências de que os acusados eram inocentes. Finalmente, após passarem quase 20 anos na cadeia, eles foram libertados quando novas evidências a partir de testes de DNA indicaram que eles nada tinham a ver com o caso.

Conhecido como West Memphis 3 Case, foi o mais bem-sucedido – e talvez o único – ataque judicial do conservadorismo asqueroso norte-americano contra a música pop – em particular contra o heavy metal.

Antes, em 1988, Ozzy Osbourne teve de se defender contra a acusação de incitar o suicídio de um garoto que supostamente ouvia a música “Suicide Solution” em um rincão da Califórnia.

Três anos depois, o Judas Priest foi levado aos tribunais do Estado de Nevada de forma ridícula sob a mesma acusação – dois garotos se suicidaram em um paruqe na cidade de Reno supostamente influenciados pelas letras das músicas do álbum “Stained Class”. As duas ações foram arquivadas, mas colocaram o heavy metal sob a mira dos fanáticos religiosos e dos oportunitas de plantão.

Assim como as duas primeiras partes, lançadas em 1994 e 2000, o documentário atual é uma obra-prima de investigação jornalística e de observação arguta da cultura conservadora norte-americana do interior do país, principalmente no chamado Meio-Oeste.

Com perspicácia e inteligência, traça um retrato triste de um povo cercado de clichês culturais ianques e fervoroso defensor dos “valores norte-americanos puros”, mas incapaz de aceitar o diferente em qualquer sentido e em qualquer circunstância. Pior: mostra um povo que não hesita em condenar e banir qualquer tipo de “ameaça” ao seu modo de vida.

Quase 20 anos após o julgamento e o lançamento do primeiro capítulo de “Paradise Lost”, o cenário pouco mudou nos cafundós de Arkansas: ainda existe pouca tolerância para as diferenças, e há menos ainda em relação a questões culturais.

Segundo o bom livro “Heavy Metal – A História Completa”, de Ian Christe, editado no Brasil pela Editora ARX, os corpos dos garotos de mens de dez anos de idade foram encontrados em um pântano estripados e mutilados.

A polícia até tinha algumas pistas para trabalhar, mas as atenções logo recaíram sobre os três garotos esquisitões de West Memphis que se vestian de preto: Jesse Misskelley, Jason Baldwin e Damien Echols, que gostavam de literatura ocultista e heavy metal. A sociedade local não perdeu tempo em pressionar pela prisão e “culpa” dos três “criminosos”.

Apesar de não haver nenhuma prova concreta ou testemunha que os conectasse ao crime ou às vitimas, durante o julgamento o promotor público responsável que acusação formal apresentou “livros de ocultismo” que Echols pegara na biblioteca local.

Mesmo diante de argumentos frágeis como esse, e de depoimentos estapafúrdios de psicológos oportunistas de viés conservador, os três foram condenados por um júri impaciente e com o veredicto estabelecido antes do início do julgamento.

“Damien Echols era inteligente. Refletia muito e experimentou algumas religiões, algo comum quando se tem 15 ou 16 anos de idade. Acho que o fato de ele ser recluso e diferente assustava as pessoas. Ele e os outros não eram os rapagõesbonitos da escola que jogam futebol americano. Em rincões como aquele no interior do Arkansas, vestir uma camisa preta do Metallica ou do Megadeth é um ‘crime’, assustava a comuidade. Era como se Godzilla estivesse invadindo o Japão”, disse o diretor do coumentário Bruce Sinofsky em depoimento a Ian Christe.

A trilogia “Paradise Lost” é uma aula de jornalismo, ainda que panfletário e engajado, sem os excessos típicos de Michael Moore, o documentarista mais conhecido e polêmico dos Estados Unidos, crítico ferrenho da sociedade de seu país, mas que não se preocupa muito com a ética e a veracidade de alguns fatos quando se trata de reforçar suas opiniões.

Moore é o autor de “Roger and Me”, sobre a crise da indpustria automobilística em Michigan, “Stupid White Man”, uma crítica feroz à sociedade americana, e “George W. Bush: The Man”, um retrato cáustico do ex-presidente dos Estados Unidos.

Foram poucos cineastas até hoje que conseguiram captar com extrema objetividade e sensibilidade o preconceito em sua forma mais enraizada – e abjeta. Joe Berlinger e Bruce Sinofsky deram uma contribuição inestimável à sociedade.

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por Marcelo Moreira

Combate rock

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

The Baggios em destaque ...

Bandas formadas por duos conquistam lugar no Brasil

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RIO - A situação é comum. A van do festival de rock vai buscar a banda The Baggios. Entram Júlio Andrade e Gabriel Carvalho. Eles se acomodam em seus lugares, vários minutos se passam e nada de o motorista dar a partida. Hora de prestar explicações: sim, o grupo é só de dois mesmo. O que faz com que a van enfim siga seu caminho. Mas que não dissipa as desconfianças do condutor.

— A gente percebe que ele fica pensando: "Será que os bichos vão dar conta do recado mesmo?" — diverte-se Júlio, guitarrista e vocalista de um tipo de banda que começa a conquistar espaço no cenário brasileiro do rock: os duos de guitarra e bateria.

Além dos sergipanos Baggios, que misturam blues e rock de garagem, destacam-se os paulistanos do Test (cultores do heavy metal de extremos, na linha do death e do grindcore) e os gaúchos do Canja Rave, ex-integrantes do Leela e do DeFalla, que correm a Europa mostrando seu rock aditivado com raízes da música americana.

O precedente desse modelo de formação instrumental é dado, basicamente, por bandas americanas. Em primeiro plano, estão The Black Keys (que enfim chegou ao primeiro time do rock mundial com o disco "El camino", e que em abril será grande atração do festival californiano Coachella) e o finado The White Stripes (que acabou de ter reeditados no Brasil, pela Lab 344, seus $primeiros álbuns). Precedentes, não modelos, como alerta Paula Nozzari, baterista e vocalista do Canja Rave, duo que tem com o guitarrista e vocalista Chris Kochenborger. Este ano, eles lançam seu terceiro álbum, "Dirty shoes, balls and old songs".

— Nós adoramos The White Stripes, claro, já fomos comparados a eles muitas vezes. Mas essa comparação é mais visual, por ser uma mulher tocando bateria, do que sonora, pois as influências são diferentes — argumenta ela.

Fã dos WS e Black Keys, Júlio, dos Baggios (que ano passado lançaram seu primeiro e homônimo CD) cita uma referência do seu próprio estado: o Lacertae, duo indie que nos anos 1990 se apresentava só com guitarra e bateria. Já João Kombi, guitarrista e vocalista do Test (que lançou no ano passado o EP "M’boi mirim") não vê precedentes no metal para seu duo. Suas razões são pragmáticas do que estéticas.

— O que aconteceu é que eu fiquei com trauma de organizar ensaio, show e viagem para a minha antiga banda, que era de quatro. Começamos a tocar em dois só pra fazer um som, sem pretensão. E deu certo. Mas tivemos sorte, porque o nosso estilo musical favorece esse tipo de formação. A bateria é rápida, o vocal é gritado, e a guitarra, distorcida. Ele é cheio por natureza — explica.

Motorista de Kombi por profissão, João fez o Test ficar conhecido pelos shows que o duo realiza, de graça, na rua mesmo, em frente a casas de shows em São Paulo onde se apresentam bandas internacionais de heavy metal.

— Esses shows concentram muita gente. E dá menos trabalho do que tocar nas casas do underground — alega ele, que leva o equipamento ("e alguns amigos") para os shows na Kombi mesmo.

A formação enxuta tem outras vantagens, aponta Júlio Andrade, que testou várias combinações de pedais e amplificadores até achar o som ideal de palco.

— Com dois, não tem o lance do palpite, não tem muitas cabeças geniais para complicar a música. Ou a coisa é, ou não é.

Mas sobram desvantagens, conta Paula Nozzari, que já se apresentou com o Canja Rave nos festivais Rec-Beat (Recife), South by Southwest (Austin, nos EUA), Liverpool Sound City (Inglaterra) e Fête de La Musique 2011 (em Berlim, onde estão radicados).

— Nos Estados Unidos, por exemplo, o Chris e eu dirigimos 23 mil quilômetros de costa a costa e fizemos 20 shows por mês durante três meses. Mais um integrante na banda significaria algumas horas a mais de sono.

— E às vezes a coisa fica meio enjoada, eu gosto de viajar com $gente — admite Júlio, do Baggios, que em agosto foi citado em playlist do blog do jornal inglês "The Guardian" e em abril começa a pré-produção do segundo disco, programado para 2013.

— Temos mais de 20 músicas, está difícil escolher. Vai ser um disco com um pouco mais de peso, mais para Black Sabbath e Led Zeppelin — antecipa o baggio.

Conhecido no YouTube pelo videoclipe da música "Ele morreu sem saber o porquê" (gravado na frente da fila do show do grupo americano D.R.I. em São Paulo), o Test pretende seguir fazendo seus shows de graça (e alguns com cachê, no palco, como o de abertura da banda italiana Cripple Bastards, daqui a dois meses, também em São Paulo). Quem sabe, em 2012, eles ainda partam para mais uma turnê por squats (comunidades alternativas montadas em prédios abandonados) da Europa — ano passado, eles passaram por Alemanha, França, Holanda, Áustria e República Tcheca nesse esquema.

— Onde chamam, a gente vai — avisa João, que conta ter impressionado o público europeu com o Test menos por ele ser um duo.

— É que a gente não tem um visual carregado. Lá, os caras chegam no palco com pregos da cabeça aos pés — diz o guitarrista, que aproveitou a pouca bagagem da banda para trazer os 500 vinis do Test que mandou prensar na Alemanha, "onde é mais barato".

Ser do rock minimalista, apesar dos perrengues, é uma boa.

— Na nova MPB, as bandas são gigantescas! — observa Júlio Andrade. — É mais fácil para os festivais chamar a gente!

por Silvio Essinger

para O Globo



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

# 217 - 25/02/2012

Napalm Death nunca decepciona: "Utilitarian", o décimo quinto álbum da banda de Birminghan, Inglaterra, que inventou o grindcore, é uma pancada no ouvido e mais um capítulo de sua volta às origens "hardcore" depois de um longo flerte com o Death Metal. Foi com uma faixa extraída deste disco que abrimos o programa de rock do último sábado. Para completar a desgraça sonora, emendamos com um clássico do Carcass: "Heartwork", faixa título do disco homônimo lançado em 1993. No restante do bloco, 3 bandas confirmadas para a que promete ser a noite mais barulhenta de toda a história do tradicional festival Abril pro rock, no Recife: Brujeria, Cripple Bastards e Ratos de Porão. Na sequencia, rock independente brasileiro capturado Ao Vivo: Lacertae numa rara gravação dos anos 90 no célebre Mahalo Disco Club, ainda com Paulo “cinemerne” nos vocais, mais Gangrena Gasosa Ao Vivo na Alemanha, Dead Billies e Mopho.

Seguimos em frente com a psicodelia “lesada” de Syd Barret (faixa de “Barret”, de 1970) e Arnaldo Baptista e a Patrulha do Espaço, numa faixa do disco “Elo perdido”, uma pérola do rock nacional. A cereja do bolo ficou por conta dos paulistanos do Violeta de Outono com um cover do Pink Floyd.

Depois de mais um já tradicional bloco de punk rock/hardcore, outro já também tradicional bloco dedicado ao rock gaúcho (gostamos desses gauleses irredutíveis). Fechando tudo, mais um disco da nossa série “Discoteca Básica”, inspirada na célebre última página da extinta revista Bizz. A bolacha da vez foi “your arsenal”, que Morrissey lançou em 1992 e é uma espécie de recomeço de sua carreira solo, desta vez com uma pegada mais pesada e rockabilly comandada pelas guitarras de Alain Whyte e Boz Boorer (este último está com ele até hoje). Vale lembrar que o disco foi produzindo por ninguém menos que Mick Ronson, guitarrista que acompanhou David Bowie entre 1970 e 1973 e gravou os álbuns “The Man Who Sold the World”, “Hunky Dory”, “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and Spiders from Mars”, “Aladdin Sane” e “Pin Ups”. Segue sendo até hoje, na minha humilde opinião, o melhor disco do bardo de Manchester – e olha que ele só lançou grandes álbuns depois deste, dentre eles outro marco, “You Are The Quarry”, de 2004, que chegou à 11ª posição na parada da revista Billboard e vendeu 1 milhão de cópias!

A.

# # #

Napalm Death - Errors in the signals
Carcass - Heartwork

Cripple Bastards - I Hate her
Brujeria - Matando Gueros 97
Ratos de porão - Asas da vingança

Lacertae (Ao Vivo) - Inês morta
Gangrena Gasosa (Ao Vivo) - Troops of Olodum/surf Iemanjá
The Dead Billies (Ao Vivo) - Monster potion number 9
Mopho (Ao vivo) - A carta

Syd Barret - Baby lemonade
Arnaldo e Patrulha do Espaço - Sunshine
Violeta de Outono - Astronomy Domine

Plasmatics - Tight black pants
The Rezillos - Somebody´s gonna get their head kicked in tonight
Boomtown rats - Lookin´after number one
Rhino 39 - Take your medicine
Toy Dolls - Stay mellow

Cacavelletes - A última virgem
Hipnóticos - Caçador de Bunus tracks
Aristóteles de Ananias jr. - Pagode acebolado
Plato Divorak & os Exciters - A mulher brasileira é a mais linda

Perdeu a Língua - Sem sair do lugar

Discoteca Básica: Morrissey - "your arsenal"

# You´re gonna need someone on your side
# Certain people I know
# The National Front Disco
# We hate it when our friends become successful
# You´re the one for me, Fatty
# Seasick, yet still docked
# I know it´s gonna happen someday

Bigmouth strikes again, and again, and again ...

Numa entrevista concedida por e-mail ao jornal O Estado de Minas, Morrissey impôs uma condição: não responderia nada que fizesse referência aos Smiths. Pelo menos no palco a questão é diferente. Em Viña del Mar, das 18 canções do repertório, cinco foram da antiga parceria com Johnny Marr: How soon is now?, Meat is murder, I want the one I can′t have, I know it`s over e There is a light that never goes out. Sempre crítico e afiado, Morrissey fala de música, internet, imprensa, vegetarianismo e, é claro, de política: “Todos os líderes mundiais, em exceção, são ditadores”, dispara.


Você já afirmou, várias vezes, que não espera viver o bastante para voltar a gravar por uma gravadora. É um grande paradoxo não ter contrato, já que tem uma base de fãs fortíssima. Como compositor, não sente vontade de gravar novamente, já que existem opções que independem de uma gravadora?

Compus dois álbuns que não serão lançados por nenhuma gravadora. Não tenho 17 anos. Ninguém sabe o que fazer comigo. Sim, tenho uma imensa base de fãs em
muitos, muitos países. Mas isso parece não fazer diferença para as gravadoras. Evidentemente, sou um grande desafio. Talvez tenha sido sempre assim, não? Sim, fico triste por não conseguir lançar novas canções. Porém, não quero
entrar para um obscuro selo independente que não tenha uma forte estrutura de divulgação, porque isso vai dar aos meios de comunicação outro motivo para me
ignorar. Eu quero estar no lugar principal, junto com todo mundo.

Você sempre foi um crítico feroz da política em suas músicas. Vivemos numa era de crise econômica e política. Como você vê o mundo hoje?

Não acho que hoje em dia alguém tenha ilusão sobre políticos, primeiros-ministros e presidentes. Todos eles têm ideias ultrapassadas e, uma vez eleitos, não fazem absolutamente nada pelas pessoas que os elegeram. Democracia é uma ilusão e isso ficou evidente nos Estados Unidos com os protestos Occupy, que a polícia logo reprimiu com violência. Na Inglaterra, a família real é uma ditadura e você não pode ir contra, a não ser que esteja fora do campo de visão dela. Acredito fortemente no poder das pessoas, e tudo o que ocorreu no Oriente Médio é um grande estímulo. Todos os líderes mundiais, sem exceção, são ditadores, e eles nunca vão desistir do poder sem
ferir seu próprio povo. Políticos são puro ego e poder, e absolutamente nada além. E é por isso que as pessoas, no mundo todo, perderam sua fé neles. Se você olhar para os candidatos republicanos para a próxima eleição presidencial dos EUA vai ser simplesmente impossível não gargalhar. São eles o melhor que a América consegue produzir? Obama não merece um segundo mandato, mas vai conseguir porque os republicanos parecem moradores de um hospício. Essa não é a maneira que o mundo deveria ser tratado. Pessoas genuinamente boas não entram para a política.

Durante um tempo, acreditou-se que você era o autor do blog Morrissey`s World (http://morrisseysworld.blogspot.com), o que você negou. O que acha de todo mundo ter uma opinião sobre tudo nos dias de hoje e postar nas redes sociais?

Não sou o autor de Morrissey’s World, que é perigoso e me causou problemas. A
internet faz com que qualquer um se torne um crítico e, de uma maneira geral, o impulso de certas pessoas é machucar e destruir porque elas podem fazê-lo na segurança de seus quartos de Guerra nas estrelas numa simpática e pequena
Iowa. Por outro lado, internet é o poder das pessoas, e isso é bom, porque torna os críticos musicais inúteis. As pessoas estão pensando por si próprias, o que significa a morte da inocência. Os jornais tentam te contar o que está acontecendo, mas veja como agora as pessoas do Oriente Médio podem fazer seus próprios relatos em seus telefones e laptops. O governo sírio, por exemplo, não pode mais sair escondendo a verdade. Isso faz você pensar sobre todas as injustiças do passado e como sempre estivemos à mercê da imprensa controlada.

Você é um grande ativista do vegetarianismo e dos direitos dos animais. Acha que evoluímos nesse quesito nos últimos 30 anos?

O abuso de animais é hoje discutido em todos os lugares. Os restaurantes têm opções vegetarianas só porque os donos concluíram que boa parte dos clientes iria embora se os vegans não pudessem se alimentar. Curiosamente, a indústria da morte – da carne – está lutando de maneira muito forte. Isso acontece porque sabem que estão perdendo. Minha crença é simples: não deverás matar. Também acho que você pode avaliar uma pessoa pela maneira que ela trata animais. Geralmente, pessoas que são cruéis com animais também o são com seres humanos e com o próprio planeta. A questão mais importante é que as pessoas estão, agora, pensando seriamente sobre a comida. Como consequência, há uma compreensão geral de que redes como KFC e McDonald’s não são apenas ruins para os animais, como também para as pessoas e o meio ambiente. A chamada indústria da carne é um desastre para o meio ambiente, mas os líderes mundiais ainda não fizeram restrições por causa da quantidade de dinheiro que o ato de matar animais gera.

Rio de Janeiro - Aos 52 anos, Stephen Patrick Morrissey, conhecido apenas pelo último nome, bem poderia ser um personagem de Charles Dickens: a cara de inglês antigo (de sangue irlandês, como atestam o nome Patrick e a música "Irish blood, English heart", um de seus sucessos), hoje com rugas e as têmporas grisalhas; a destreza com as palavras; o humor amargo e o sofrimento inerente à sua poesia o colocariam como uma luva em um romance do venerável autor de "David Copperfield", "Grandes esperanças" e "Oliver Twist".

Um dos grandes letristas do rock inglês, primeiro à frente dos Smiths, nos anos 1980 — a banda durou apenas cinco anos e terminou, reza a lenda, em uma conversa em um pub, regada a cerveja e ervilhas —, e em carreira solo desde 1988, talvez o único esporte que Morrissey pratica melhor do que a música seja a opinião.

"Na Inglaterra, obviamente, a minha vida se resume principalmente a batalhas jurídicas, acusações de racismo e críticas assassinas", afirma ele, que já deixou seu país natal para viver na Itália e nos EUA, e atualmente se diz apaixonado por Santiago, no Chile, onde foi uma das atrações do Festival de Viña Del Mar, na semana passada.

Nesta segunda, ele se apresenta na capital chilena e segue pela América do Sul, com shows na Argentina, no Peru e na Colômbia. No Brasil, canta músicas como "First of the gang to die", "Everyday is like Sunday" e talvez até "I know it’s over", dos Smiths, no dia 9 de março, na Fundição Progresso, além de passar por Belo Horizonte (dia 7, no Chevrolet Hall) e São Paulo (dia 11, no Espaço das Américas.

Na conversa por e-mail, Mr. Morrissey atesta que a música moderna não tem salvação, embora se orgulhe muito de sua obra.

Como você se sente quando é chamado de lenda? Você ouve muito sua própria música? O que acha dela?

MORRISSEY: Acho que a palavra lenda significa algo que pode ou não ser verdade. Não significa o que as pessoas geralmente acham que significa! Historicamente, sempre estive em uma posição de credibilidade, e, depois de 30 anos, ninguém pode me acusar de ser uma puta ou um escravo. Isso certamente quer dizer alguma coisa. O orgulho que tenho da minha música certamente incomoda muita gente, mas eu acho que ele é cheio de verdade, além de continuar significativo até hoje. Por favor, não me jogue no mesmo lugar em que está o resto das piranhas do pop.

Você enxerga alguma influência sua na música de hoje em dia? De que artistas novos você gosta?

Eu acabo ouvindo tudo, mas as pessoas, na maioria, são atrozes. A imprensa musical — o que sobrou dela! — fala bem dos amigos, só escreve sobre os amigos e inventa prêmios para entregar aos amigos mês sim, mês não. Mas não tem ninguém no planeta que ache que a música moderna tem salvação.

É verdade que você completou sua autobiografia? O que se pode esperar dela?

Sim, acabei de escrever a minha autobiografia, e estou muito orgulhoso. Os elefantes invejam a minha memória. É uma história fascinante. Na Inglaterra, obviamente, a minha vida se resume principalmente a batalhas jurídicas, acusações de racismo e críticas assassinas, mas nos outros países é muito diferente, ela é vista de forma muito positiva. Tudo isso está documentado. Os nomes dos inocentes serão publicados, e os culpados, protegidos. (Ele já disse à revista "Billboard" que o livro é "tão longo quanto ‘Moby Dick’" e que sua data de publicação, em dezembro deste ano, permitirá que ele "desapareça no Brasil central".)

Você critica muito as letras da música pop, dizendo que elas não têm significado. É difícil escrever uma boa letra? Você se envergonha de alguma que compôs?

Algumas não envelheceram tão bem. Mas, depois de 30 anos, isso é de se esperar. De modo geral, tenho muito orgulho. É incrivelmente raro ouvir uma boa letra pop em 2012, e a ideia de esperar impacientemente para ouvir uma música nova de um artista porque você quer saber o que ele tem a dizer é absolutamente antiquada.

Você já emitiu opiniões radicais sobre música, ao falar de gêneros como o reggae e o rap. Você ainda os acha tão ruins?

Sempre adorei reggae. Em 1984, eu disse, brincando, a um jornal musical britânico que "o reggae é nojento". Eles me levaram a sério, e essa afirmação está por aí até hoje. (Ele inclusive tem reggaes no repertório, como "Redondo Beach".) Não gosto de rap porque nele não há melodia vocal, e porque eu me sinto como se estivesse sendo golpeado na cabeça, em vez de me permitirem simplesmente ouvir uma obra musical. Além disso, o rap geralmente é ouvido por pessoas que querem mais o barulho do que a substância. O rap hoje em dia é tocado por toda parte, em situações que não têm o menor significado, porque as pessoas parecem não estar ouvindo. Ele simplesmente está lá, enchendo o saco.

Como ativista do meio ambiente, você acompanha as notícias a respeito da política brasileira em relação à Floresta Amazônica? O que acha dela?

A Amazônia brasileira e o meio ambiente em geral estão sendo, em sua maior parte, destruídos para que se abra espaço para a indústria da carne. Se as pessoas continuarem a comer animais, o mundo vai para a merda. Se os líderes mundiais se importassem com o meio ambiente, eles fechariam os abatedouros. Mas eles não farão isso. E nada disso tem a ver com o fornecimento de comida. A única preocupação é o lucro.

Você morou na Itália e em Los Angeles. São lugares melhores para se viver do que a Inglaterra? De que outros países você gosta?

No momento, estou apaixonado por Santiago. É uma cidade tão bonita, calma e feliz... A minha cabeça é muito inconstante, então, na próxima semana, provavelmente vou querer morar na Islândia, embaixo da terra. Meu ideal, na verdade, seria morar em uma igreja enorme. Mas elas raramente aparecem no mercado, e devem ser muito caras para se aquecer. Já estou me vendo, pendurado nos sinos às 18h, todas as tardes, vestindo uma longa batina e cantando "The world is full of crashing bores". (Música dele cujo título significa "O mundo está cheio de grandes chatices".)

Morrissey, 4 perguntas

Na primeira e única ocasião em que esteve no Brasil para shows, em 2000, o cantor britânico Morrissey concedeu entrevista à Folha em um hotel em Curitiba. Embora repórter e artista estivessem no mesmo lugar, Morrissey não quis descer do quarto, e a entrevista foi por telefone. Ele na cama, eu no saguão, numa conversa via ramal interno. "Desculpe-me. Acordei agora e não estou com uma aparência digna de oferecer às pessoas. Vou poupá-lo", disse ele, numa justificativa à la Morrissey.

Doze anos depois, o cantor volta ao país para três novas apresentações, desta vez em Belo Horizonte, Rio e São Paulo, respectivamente nos dias 7, 9 e 11 de março. E aceitou dar nova entrevista. "Mas tem que ser por e-mail, no máximo quatro perguntas e nada de falar sobre os Smiths", veio o aviso.

Morrissey --poeta pop e vocalista singular que um dia liderou o fundamental The Smiths, nos anos 80, e montou uma sólida carreira solo na virada para os anos 90, levando, para onde quer que vá, um verdadeiro séquito de adoradores que se mantém até hoje-- continua o mesmo. O que mudou foi a música em torno dele. Com um disco pronto desde o ano passado, Morrissey não tem gravadora disposta a lançá-lo, mesmo lotando shows em qualquer parte do planeta.

Sobre isso, sobre a indústria musical em geral e sobre o Brasil, o senhor Morrissey, quase 53 anos, tem quatro respostas a dar.

Folha - Existe algo especial em voltar ao Brasil neste momento de sua carreira? Lembra-se dos shows de 2000?

Morrissey - Fiquei surpreso em saber que vendi tantos ingressos para esta turnê no Brasil. E fiquei completamente perplexo com a repercussão da última vez em que estive no país. Você sabe o quanto os EUA e a Inglaterra acham que são o centro do mundo. Então, é difícil saber como as coisas são no Brasil.

Eu me dou bem nos EUA e na Europa, mas meu alcance na mídia lá é quase sempre invisível. Então, fica implícito que todo grande sucesso vem das pessoas de quem você ouve falar... O que não é o meu caso! Acho que sou confuso demais ou muito provocador para a mídia lidar comigo, porque eu não sou uma pessoa"¦ simples. Então, é sempre uma surpresa.

Baseado na grande repercussão que foi o anúncio de seus shows, a impressão que temos é que, no Brasil, você ainda mantém um intocável status de artista cult, mesmo entre o público mais jovem. Acredita que isso é fruto da internet?

Não sei ao certo o que significa ser cult. Sempre achei que significasse que poucas pessoas se interessam por você. Há muito tempo me chamam de "artista cult" e "indie", mas nenhum desses termos é verdadeiro. Eu simplesmente não sou uma puta da mídia, que faz qualquer coisa para aparecer. Acho que todo mundo está deprimido com essa nova era da música porque parece que ela só se interessa por músicas sem sentido.

Em todo o lugar que você vá, ouvirá músicas inexpressivas --tocam techno-dance em todas as lojas de departamentos, lojas de sapatos e elevadores, porque ninguém está realmente ouvindo aquilo. Você nunca vai ouvir uma canção com conteúdo social num salão de beleza ou na TV.

Se você perguntar a uma vendedora de loja como ela consegue ouvir aquela música alta o dia todo, ela vai sempre responder: "Ah, eu me desligo". É assim a música moderna. Você não tem a permissão de escolher a canção que quer escutar. Você é bombardeado na cabeça com música que outros escolhem para você ouvir. E assim ela se torna insignificante.

Como faz para manter a sua carreira viva sem um contrato com um selo para lançar um CD e vivendo na era do download gratuito? Ainda se sente relevante para a música?

Eu me sinto triste porque nenhuma gravadora quer assinar comigo. Isso diz muito sobre a indústria da música nos dias de hoje. Ela está efetivamente morta agora.

Não é que ela esteja morrendo: já morreu! As gravadoras a mataram ao bagunçar as paradas de sucesso e por assinarem contratos com moleques de 15 anos que ficariam emocionados em fazer tudo isso sem um contrato.

Sigo porque gosto de cantar e, até o momento, tenho um público que quer minhas músicas. Mas minhas razões para continuar não significam nada para as gravadoras.

Você ouve música nova, bandas novas?

Acabo ouvindo de tudo, mas a maioria dos novos artistas matam a música. E a imprensa musical --o que sobrou dela!-- vai sempre "hypar" seus amigos, escrever sobre os amigos e inventar premiações para os amigos, mês sim, mês não. Mas, no fundo, acho que não existe uma só pessoa neste planeta que ache que haja esperança para a música moderna.

por Lucio Ribeiro

Ilustrada

Set list do primeiro show no Chile:

1- I Want The One I Can’t Have
2- First Of The Gang To Die
3- You’re The One For Me, Fatty
4- When Last I Spoke To Carol
5- Black Cloud
6- Speedway
7- There Is A Light That Never Goes Out
8- Everyday Is Like Sunday
9- I Know It’s Over
10- Let Me Kiss You
11- People Are The Same Everywhere
12- I’m Throwing My Arms Around Paris
13- Meat Is Murder
14- Ouija Board, Ouija Board
15- I Will See You In Far Off Places
16- Scandinavia
17- You Have Killed Me
18- How Soon Is Now?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

ROCK !!!!!!

Que fique registrado: O carnaval deste ano foi o mais rock and roll da história de Aracaju. Aliás, todo o ano de 2012 está sendo muito rock, o que é estranho, se levarmos em consideração que 2011 foi fraquíssimo neste quesito. Isto só confirma o que eu sempre digo: o publico “alternativo” aracajuano é muito volúvel! Quem quiser que tente entender o comportamento deste povo, eu já desisti faz tempo.

A “folia” roqueira começou no sábado, com dois eventos simultâneos em Aracaju e Itabaiana. Aqui, a primeira noite do Grito Rock que, me disseram, foi fraca, provavelmente por conta da chuva torrencial que desabava sobre o estado. Já em Itabaiana foi bem legal – um bom publico compareceu, o som estava decente e a cerveja, gelada. Foi uma noite do mais puro METAL. Molecada louca, camisas pretas, patches costurados, cabeças batendo e cabelos esvoaçando, aquela coisa bonita de se ver.

Cheguei com Nucleador no palco e o slam dancing rolando solto na pista, sob o comando do novo e excelente frontman Levi Marques, uma criatura magricela, cabeluda e ensandecida. Foi bom. Na sequencia a Suffocation of Soul, que veio de Poções, interior da Bahia, perto de Vitória da Conquista, a cerca de 600 km de distância – longe pra caralho! – para tocar no evento e, acredito, não se decepcionou. Nem decepcionou. O publico, ainda mais ensandecido, interagiu muito com a banda, que respondeu mandando um thrashão energético e executado com energia e entrega. Foi bom também.

Fechando a noite, SenandiomA, e tome mais porrada no pé do ouvido. Com direito, inclusive, a um momento “discurso”: Plínio Elkson pegou o microfone para enaltecer a cena interiorana que, convenhamos, está melhor do que a da capital, totalmente estagnada. Era pra ficar nisso, mas eis que Bilal, completamente bêbado, sobe ao palco e insiste em balbuciar sentenças um tanto quanto ininteligíveis. Do que eu consegui entender, ele disse que a Mystical Fire tem não sei quantos anos na cena (???!!) e mandou se foder os pau no cu que ficam fazendo fofoca na internet, no que foi prontamente apoiado pelos caras da banda que, pelo visto, também são “vítimas” das tais conversas fiadas virtuais.

Na noite seguinte, dei uma pausa na morgação característica do reinado de momo para dar uma passadinha na Casa Rua da Cultura, onde acontecia a segunda noite do Grito Rock Aracaju. Fiquei surpreendido com a quantidade de gente espalhada pela praça e dentro do local do evento – que, por sinal, é muito bem estruturado, com direito inclusive a uma pequena Biblioteca. Perdi uma banda de Maceió que todos diziam que foi foda, surpreendeu, mas cheguei a tempo de ver os Mamutes tocando o terror, como pode ser conferido nas fotos abaixo. Quem fechou a noite foi a Nucleador, e o terror continuou e se intensificou. Bem legal.

Ainda haveria um tal “Palco Olho da rua” no Bloco Rasgadinho nos dias seguintes, mas preferi ficar em casa aproveitando para colocar a leitura em dia.

See you later, alligators.

por Adelvan

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Crédito das fotos: As três primeiras, tiradas no III Headbangers reunion de Itabaiana, são de autoria desconhecida. Caso o autor se manifeste, será devidamente creditado. As seguintes, do Grito Rock, são de Janaina Amarante.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

# 216 - 18/02/2012

Em Donnie Darko, filme "cult" dirigito por Richard Kelly e lançado em 2001, um adolescente um tanto quanto problemático, entupido de psicotrópicos e ajudado por uma psicóloga freudiana de araque, recebe ordens de um coelho gigante para que mate, queime, destrua e traga o pânico à pequena cidade do interior onde mora. Frank, o coelho gigante, revela também a data do fim do mundo: será dentro de 28 dias, seis horas, 42 minutos e 12 segundos, ou seja, na noite de Halloween, em 30 de outubro de 1988.

O carnaval é uma festa "pagã" cuja origem remonta aos cultos gregos de agradecimento aos deuses pela fertilidade do solo. A Wikipedia diz que "A palavra "carnaval" está relacionada com a ideia de deleite dos prazeres da carne marcado pela expressão "carnis valles", que acabou por formar a palavra "carnaval", sendo que "carnis" em latim significa carne e "valles" significa prazeres. O carnaval da Antiguidade era marcado por grandes festas, onde se comia, bebia e participava de alegres celebrações e busca incessante dos prazeres. Prolongava-se por sete dias na ruas, praças e casas da Antiga Roma, de 17 a 23 de dezembro. Todas as atividades e negócios eram suspensos neste período, os escravos ganhavam liberdade temporária para fazer o que em quisessem e as restrições morais eram relaxadas. As pessoas trocavam presentes, um rei era eleito por brincadeira e comandava o cortejo pelas ruas (Saturnalicius princeps) e as tradicionais fitas de lã que amarravam aos pés da estátua do deus Saturno eram retiradas, como se a cidade o convidasse para participar da folia."

# # #

SenandiomA – Democrashit

Atari Teenage Riot – Blod in my eyes
Kasabian - Velociraptor
CSS - Hits me like a rock
The Rapture - How deep is your love

Portishead - Machine gun
Kraftwerk - Das Model
U2 - Lemon

Soviet American Republic - The Swamp thing
Little Quail & The Mad Birds - Stock car
Drakula - trash can
The 5,6,7,8 - Rockin´Rochester
The Trashmen - Miserlou

The Smiths - Shoplifters of the world unite (instrumental demo)
Therapy - Vicar in a Tutu
Weezer - Please let me get what I want
The Divine Comedy - There´s a light that never goes out
The Thrills - Last night I dreamt that somebody loved me
Emily Browning - Asleep

Steve Baker and Carmem Dave - For whon the bell tolls
Echo and the Bunnymen - The Killing moon
Tears For Fears - Head over hills
Joy Division - Love will tear us apart
Giulio Gaccini & Paul Pritchard - Ave maria
(vinheta) Duran Duran - Notorious
Oingo Boingo - stay
The Church - Under the milky way

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Clandestinos & legais

A “cena” independente de Aracaju vem passando por uma fase curiosa: por um lado, nunca esteve tão bem artística e conceitualmente, com ótimas bandas dos mais variados estilos em plena atividade e, bem ou mal, produzindo. Por outro, enfrenta um impressionante recrudescimento na quantidade (e qualidade) do público que comparece aos eventos mais alternativos. Às vezes não dá ninguém, outras vezes vai uma galera apenas pra curtir a “night” “na porta do bar”, deixando os produtores no perrengue de ter que cobrir os custos, mesmo que pequenos, com a ajuda de minguados pagantes. Falta de grana não parece ser o problema, já que tem se formado um verdadeiro comercio informal na frente do Capitão Cook para abastecer os adeptos das “baladas de porta de show”. Falta novidade? Talvez. Mas para que os produtores se arrisquem a trazer bandas de fora para tocar por aqui e arejem o cenário (por que por melhores que sejam as bandas locais, realmente, ninguém agüenta ver todo final de semana o mesma show) é preciso que haja uma certa segurança de que o publico vá comparecer, algo que, ao que parece, não está acontecendo. Então chegamos a um impasse: Mais bandas não vêm tocar em Aracaju porque não há público ou não há público porque as bandas não vêm tocar em Aracaju? Qual será o segredo de Tostines?

O que falta então? Apoio do poder público? Talvez. Acho saudável que as políticas públicas contemplem a diversidade cultural, dando ao povo a oportunidade de vislumbrar, mesmo que por uma noite apenas, que há algo além do feijão com arroz que nos é servido dia e noite pela grande mídia regida pela “mão invisível” do mercado. Foi assim no início da gestão do atual grupo político no poder: tivemos algumas edições memoráveis de eventos como o projeto verão, contemplando o gosto popular mas ao mesmo tempo não negligenciando a existência de grupos e artistas pouco conhecidos mas que têm um trabalho sólido e de qualidade a apresentar. Foi lindo ver, por exemplo, uma multidão de garotos aclamando a Karne Krua, banda de punk rock há mais tempo em atividade ininterrupta no nordeste do Brasil, na única vez em que eles se apresentaram no palco principal do Projeto Verão da praia de Atalaia, calando a boca dos que acharam que seriam ignorados pela molecada que, supostamente, teria ido à orla apenas para ver Pitty. O mesmo aconteceu com Rockassetes, Plástico Lunar e The Baggios, dentre outros dignos representantes do nosso cenário musical alternativo, quando por lá passaram.

De uns tempos pra cá, no entanto, os responsáveis pela curadoria dos grandes eventos culturais do Estado e da prefeitura parecem ter se rendido ou a uma preguiça mental generalizada, a acordos nebulosos ou a um populismo burro e emburrecedor, porque é sempre mais do mesmo. Ano após ano, nenhuma sombra de novidade ou de ousadia. Aos “artistas da terra”, depois de muita reclamação, restou um espaço alternativo que no caso do Verão Sergipe, do Governo do Estado, até que é interessante, já que a arena é bem localizada e fica praticamente ao lado do palco principal. Mas no Projeto Verão, da Funcaju, é ridículo: as atrações locais tocam numa tendinha improvisada a uma enorme distancia de onde a ação realmente acontece, o que faz com que muita gente, com certeza, nem saiba da existência de tal alternativa.

Que fazer? Ficar de braços cruzados esperando as oportunidades caírem do céu, “xingar muito no twitter” e no Facebook ou arragaçar as mangas e colocar mais uma vez em prática o bom e velho Do It Yourself? Um grupo de jovens preferiu a terceira opção e recriou o movimento “Clandestino”, que organiza shows relâmpago nas ruas da cidade sem autorização, sem edital e sem balada de porta – porque não há porta! Usei o termo “recriou” porque a idéia não é nova: no final dos anos 80 e início dos 90 os punks e alternativos fizeram alguns eventos com esta mesma denominação. Trata-se, portante, de um “remake”, com uma nova geração de atores e alguns convidados especiais veteranos da primeira "série".

O último episódio foi “ao ar” na região dos lagos da orla, numa quinta-feira, dia 09/02/2012. Tocaram Mahatma Gangue, do Rio Grande do Norte, e The Renegades of punk, daqui mesmo. A Toddys Trouble Band também iria tocar, mas não tocou, por motivos de força maior - atraso. Cheguei na hora (o bagulho é pontual, é chegar, arrumar tudo, ligar o gerador, sentar o pau nas baquetas e palhetas, desarrumar tudo e dar no pé antes que a polícia apareça) e Renegades já estava no palco (quer dizer, no gramado), em ação. Desta vez o barulho do gerador nem tava atrapalhando tanto, já que o som, como um todo, ficava disperso pela ação poderosa da brisa que vinha do mar logo atrás. Tecnicamente falando, como dá pra deduzir, é precário, mas o que importa aqui é a atitude de fazer com que as coisas aconteçam assim mesmo, do jeito que dá. Sem pretensões. Se você encarar por este prisma, só não se diverte se não quiser. Eu me diverti, especialmente, com as “presepadas” de Pedro, do Mahatma, que parecia disposto a fazer Daniela (guitarrista e vocalista da Renegades) cair na gargalhada em plena apresentação. O que ele talvez não saiba (deve saber) é que ela é perfeitamente capaz de cantar e sorrir ao mesmo tempo, estão está imune a este tipo de provocação.

O show do Mahatma foi aquela insanidade já vista por aqui há alguns anos, só que agora numa versão completa. Pedro, que estava com um figurino totalmente praieiro, de sunguinha de praia e canga colorida, comandou a anarquia sonora regada a surf music garageira tosca que começou a chamar a atenção dos transeuntes, dentre eles um garoto de rua que se apresentou como Fabrício "Malucão" e se entrosou completamente no espírito da coisa: cantou, dançou, “agitou”, plantou bananeira, tomou aulas de bateria e ainda ajudou a carregar os instrumentos até o carro, sem pedir nenhuma moeda em troca. Ao lado do impressionante salto sobre baterista de Alex, devidamente registrado pelas lentes espertas de Dillner “Banksy”, foi o destaque da noite.

Este foi o segundo. O primeiro “Clandestino” aconteceu num dos coretos da praça Fausto Cardoso, numa tarde de domingo, 29 de janeiro de 2012. Neste cheguei atrasado, mas ainda a tempo de ver Trimorfia executar um de seus melhores “hits”, “running in circles”. Foi também a segunda apresentação em terras sergipanas do Robot Wars, duo “neocrust” formado por Ivo Delmondes e Silvio Gomes, e foi bem bacana, apesar do enorme barulho de fundo provocado pelo gerador que os caras alugaram para a ocasião. Neste, em especial, uma curiosidade: um grupo de roqueiros ainda conseguiu improvisar uma “ficada na porta”, permanecendo a alguns metros do evento “biritando” e vendo tudo à distancia. Como se vê, é uma cultura enraizada, difícil de largar ...

Tudo isto aconteceu em dias (e noites) quentes e agitados na cidade, por conta dos projetos culturais (mais para turísticos) patrocinados pelo poder público. Da prefeitura, tivemos o Projeto Verão. Compareci à última noite, tradicionalmente mais alternativa, quando a movimentação se desloca para o centro da cidade, mais precisamente para o Mercado Central, na chamada “Rua da Cultura”. Se apresentariam os locais A Banda dos Corações partidos, Plástico Lunar e Mamutes. Como convidado “de fora”, Nasi, ex-Ira. Cheguei tarde, como de praxe, por volta das 22:00H. Pensei que veria os Mamutes, como programado, mas o show seria de Nasi que, segundo me contaram, exigiu tocar antes. Uma atitude justificável caso esteja prevista em contrato assinado. Caso contrário, é sacanagem, pura e simples.

Nasi fez um show totalmente “xoxo” e apelativo, cheio de covers óbvios, do Legião Urbana, de Cazuza e, claro, Raul Seixas – não uma, nem duas, mas três composições de Raulzito, que ele usou descaradamente como chamariz para o publico, aquém do que compareceu a edições anteriores do evento. Parecia Coverama. Compreensível, já que as musicas do repertorio solo nem de longe lembram os melhores momentos do Ira!

De sua banda anterior, tocou várias. Em “envelheço na cidade”, no entanto, ficou clara a falta que Edgard Scandurra faz! O guitarrista Nivaldo Campopiano, ex-Muzak, é competente, mas está a anos luz do brilhantismo do criador daqueles riffs absolutamente clássicos. Uma pena ver um grande performer como Nasi se perdendo assim numa carreira sem rumo definido. Falta um bom parceiro de composição, basicamente. Se ele não encontrar nenhum, vai ter que continuar vindo aqui defender alguns trocados tocando pra “essa gente feia e ignorante”, como ele dizia em alto e bom som nos versos de “pobre paulista”.

Mas enfim, essa é uma polêmica antiga que já deu o que tinha que dar (veja aqui uma explicação de Scandurra para a letra). A nova foi o atropelo dos Mamutes, que subiram ao palco com sangue nos olhos disparando farpas contra o “pobre paulista”. Kal Di Lion chegou mesmo a incorporar o Away de Petrópoles e falou que ele deveria era “fechar o cu” quando viesse tocar na cidade dos outros. Não sei quem estava certo, já que não tenho pormenores dos bastidores. Só estou narrando o que vi e ouvi. Sei que a apresentação dos Mamutes foi boa, como sempre, e um bom publico ficou até o final para prestigiá-los.

Outros bons shows aconteceram na programação do Verão Sergipe e do Projeto Verão. No domingo, vi snooze na pista de skate da orla, num show que remeteu aos primórdios da banda, quando eles se apresentavam muito neste tipo de evento. Na noite anterior, durante o mesmo campeonato, tocaram Mahatma Gangue e Renegades of punk, mas eu perdi porque estava colocando no ar o programa de rock.

Teria ido também para Baggios e Mano Chao, mas uma gripe me impediu. Não sei se perdi grande coisa, já que, pelo que me contaram, o show foi exatamente igual ao que vi ali mesmo, alguns anos atrás.

Fui pra Abertura do Verão Sergipe na Barra dos Coqueiros e vi Karranca fazer um show animado, abrindo para os Baggios, que se apresentaram no palco principal, e para o Snooze, que tocou na chamada “Arena Multicultural” – um palco menor, mas pra lá de decente e bem localizado. Vi um pouco do paralamas e achei legal também. Fim de carreira total, mas ainda sabem divertir a platéia – bons hits pra isso não faltam.

Não vi Rita Lee. Se soubesse do bafafá que iria dar, teria ido. Acho que ela exagerou na dose e jogou pra platéia, mas acredito piamente que tenha visto, realmente, truculência por parte da polícia, ao contrário do governador Marcelo Deda, que não viu nada demais – eles nunca vêem, a não ser quando estão na oposição. Porque é fato: a policia de Sergipe ainda é truculenta, apesar de estar, supostamente, sob o comando de um governo “socialista” oriundo da classe trabalhadora. Sei disso de ouvir falar pois, ao contrário de Fernando Pessoa, já conheci, assim como Rian Santos, quem tivesse levado porrada. E também por experiência própria: já levei alguns baculejos e devo dizer que a maioria não foi uma experiência muito agradável. Nada demais caso os caras agissem como deveriam agir e não como cavalos selvagens dando coices - e isto é perfeitamente possível: tive o carro revistado certa feita pela polícia de Alagoas e tudo transcorreu de forma absolutamente tranquila e civilizada, com os agentes da lei avisando com antecedencia o que iriam fazer e, inclusive, nos pedindo para que acompanhássemos a revista de nossas malas e sacolas para comprovar que não haveria nenhuma irregularidade. Aqui foi bem diferente: 7 horas da noite, na praça Olimpio Campos, um grupo de PMs nos aborda e ordena, da maneira menos educada possivel, que nos encostássemos na parede. Não nos pediram para que nos posicionássemos de forma a facilitar a revista, já chegaram chutando nossas pernas para afastá-las. Depois de não encontrarem nada, vão embora do jeito que vieram, sem ao menos informar que estávamos liberados. Reclamar? Nem pensar – todo mundo sabe o que acontece com quem se atreve! Portanto, foda-se essa polícia truculenta que não tem a mínima noção do que seja cidadania.

Valeu, Rita. Boa aposentadoria. Tá até desculpada pela esnobada que deu na gente lá no Circo Voador ...

Todas as fotos foram tiradas no segundo e no primeiro "Clandestino"

As 3 primeiras são de Dillner Bansky

As demais, de Nina Oliveira.

por Adelvan

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sick Sick Sinners, uma entrevista

O Sick Sick Sinners é a banda brasileira que os gringos querem ver. Os shows do trio curitibano costumam reunir muitas pessoas espremidas na frente do palco como também botam fogo no wrecking no meio do salão. E eles vêm com novidades este ano para o Psycho Carnival, maior evento dedicado à cultura psychobilly do Brasil. A banda tocará uma música nova e o set será baseado no disco “Hospital hell”, lançado no ano passado. É esse show que a banda apresentará na tour que fará em março na Europa.

O blog Zombilly, do nosso camarada Andye Iore, de Maringá, Paraná, bateu um papo com o guitarrista e vocalista Vlad Urban, principal cabeça por trás tanto da banda quanto do festival, que comentou sobre o set no festival, a tour européia e revelou detalhes interessantes sobre a organização do Psycho Carnival:

ZOMBILLY - No Pyscho Carnival do ano passado o SSS mostrou músicas que seriam lançadas depois no “Hospital Hell”. O que tem de novidade dessa vez no set?
Vlad Urban - Esse ano vamos tocar todas as músicas do Hospital Hell e talvez algumas coisas novas, acabamos de fazer uma musica nova chamada "Nasty Girl", vamos fechar definitivamente o set essa semana, e provavelmente vai ser o show da tour que vamos fazer na Europa.

Logo depois do Psycho Carnival o SSS parte em mais uma tour gringa. Como será essa tour?

Mais uma tour insana...são 14 shows em 17 dias. Vai ser paulera! É a tour do "Hospital Hell" na Europa. Vamos lançar em vinil o disco na Europa nesta tour e é um show que não fizemos lá ainda. Vamos passar por seis países e tocar em alguns festivais legais também.

Vocês vão tocar em locais que já tocaram ou será em lugares novos?
Grande parte dos shows são em algumas cidades que já tocamos, mas em lugares novos. Este ano vamos tocar na Espanha, coisa que não fizemos na tour em 2009.

Quais são as lembranças boas da tour passada? E as ruins, as “roubadas”?
A tour passada foi maior que essa que essa que vamos fazer. Mas foi excelente! Muito shows legais, tocamos em dois "squaters", na França, bem bacanas. Tocamos com muitas bandas legais, novas, como Lunatics, Green Moon Sparks, Dirty Horrible Bastards entre outras. Fizemos uma tour bem corrida. Acho que a maior roubada foi tocar no último dia, sair do show e ir direto para o avião, sendo que tínhamos tocado na noite anterior. E eu, pelo menos, não tinha conseguido tomar banho direito, por causa do frio. E também por que não tinha aquecimento no chuveiro, ou mesmo no prédio... foi punk.

Quais são as diferenças entre tocar no exterior e fazer tour no Brasil?
Cada lugar que você vai é diferente, mesmo quando vamos tocar por aqui. O que o que tem de legal, tanto na Europa como nos EUA, é esse tipo de circuito com vários shows em um pequeno período de tempo. Em relação ao público acho que o público brasileiro é mais quente. Mas mesmo isso não é tão diferente como em países como França e Espanha. Mas mesmo na Alemanha e Inglaterra sempre somos muito bem recebidos.

Como está o trabalho para lançar o segundo álbum do SSS?
Vamos nos preocupar com isso só no segundo semestre deste ano. Temos muitos riffs e músicas inacabadas na manga. Mas temos que ter tempo para realmente nos dedicar a isso. É legal quando você consegue fazer uma pré produção e pensar no disco. Estamos há muito tempo tocando. Tem muita banda que tem que fazer discos às pressas, por causa de contrato e acaba não conseguindo chegar aonde quer. O Sick Sick Sinners não tem contrato, então pode ter todo o tempo do mundo para fazer os próximos discos. Claro que também não queremos demorar muito para lançar um novo trabalho.

Tocar no palco do Psycho Carnival é um relaxamento no meio da correria de organizar o festival? Como é pra vocês esses dois lados?
Não acho que seja um momento de relaxamento porque, afinal de contas, estamos ali descendo a lenha, concentrados pra fazer um show legal. Mas com certeza alivia o stress a medida que você faz um outro tipo de trabalho. Mas depois que acaba o show o trabalho com o festival continua, volta a outra paulera. [risos]

Qual é a história desse Psycho Carnival... como foi pra escolher o Batmobile e o Coffin Nails?
Esse ano foi muito legal por que tivemos o apoio de um vereador de Curitiba, o Jonny Stica, que percebeu a importância do Psycho Carnival. Não só para o turismo mas também para a cena cultural da cidade. Com o apoio dele foi possível diminuir os custos do evento deste ano. Sempre é muito difícil conseguir apoio para um evento em Curitiba no carnaval, pois a maioria da população vai para a praia e o marketing promocional das empresas segue esse fluxo. Muitas vezes planejamos fazer um grande festival com apoios "certos" que não se confirmam e temos que cancelar uma ou outra banda no meio do caminho. Infelizmente. A escolha do Batmobile foi uma demanda do público. O que sempre norteia as nossas escolhas. E o Coffin Nails veio fechar com chave de ouro line up do festival. É muito bacana porque são duas bandas que tocaram no Klub Foot, meca da cena psychobilly mundial! É muito bacana reunir duas bandas deste quilates em um festival no brasil quase 30 anos depois.

Mais uma vez o festival será em um lugar diferente. Quais as dificuldades de se ter um lugar permanente prum festival que tem tanta visibilidade?
Na verdade fizemos essa opção justamente para facilitar para o público de fora de Curitiba. Cerca de 50% do público do Psycho Carnival não é de Curitiba. Quando você consegue encontrar um local central, perto de aonde a maioria do pessoal fica hospedado, é perfeito. Sempre temos bastante ofertas de local. Mas buscamos sempre o que vá atender melhor o público do festival.

LINKS
• MySpace do Sick Sick Sinners
• Facebook do Sick Sick Sinners

Foto: Bruno Sarraf

Fonte: Zombilly

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Burn, Simon Days ...

Atitude! É a única palavra que eu encontro pra definir o que presenciei sábado passado em Simão Dias, cidade do interior sergipano distante 103 km da capital, Aracaju. Atitude da parte do organizador do II Hammer Metal Festival, Plinio Elkson, um batalhador do underground, do público e das bandas que se deslocaram para lá, especialmente a Luxúria de Lillith, que veio de Goiânia (isso mesmo, Goiânia! Região centro-oeste, quase 2.000km de distancia) para se apresentar exclusivamente neste evento. Não estavam em turnê, não deram uma "esticadinha": vieram apenas para tocar para o público sergipano. Impressionante!

Não era nenhuma horda ensandecida a tomar de assalto a cidade, mas o publico compareceu. Se não em grande número, em número suficiente para lotar o local, caso fosse menor - era relativamente grande, o estacionamento do único ginásio de esportes da cidade. Aportei por lá na hora marcada, 21:00H, mas nada de rock: acontecia uma partida de futebol de salão entre os times de uma construtora e uma Livraria (!!!!) e fui informado de que o show só começaria quando o titânico embate esportivo terminasse. Ok, fazer o que? Nada. Demos um rolê, voltamos e fomos assitir à tal partida ...

Assim que soou o apito final, as guitarras guincharam nos amplificadores. Legal, o atraso, ao que parecia, não seria tão grande. Ledo engano: Demorou mais cerca de 2 horas até que tudo estivesse pronto e a primeira banda subisse ao palco, já por volta da meia noite. Era a Human, de Feira de Santana. Bom Heavy Metal tradicional, mas precisava de uma melhor postura de palco do vocalista: muito paradão, sem carisma. No final, apelaram (ou não): Tocaram "Holy Diver", do Dio. É sempre bom ouvir Dio, e os camisas pretas foram à loucura, evidentemente. O vocal, importante numa hora dessas, se não foi arrebatador, também não passou vergonha. Ponto pros caras.

Na sequencia, SenandiomA, combo thrash sergipano que já está há algum tempo na estrada mas só agora parece estar levando mais a sério seu trabalho. Estão em turnê divulgado uma ótima demo tape, "order and progress lies and death". Thrash metal crossover na veia. A banda tem uma boa pegada e se saiu bem no palco, apesar dos problemas com o som da guitarra. Legal também ver de volta aos palcos o bom e velho visual "oitentista" dos tênis de cano longo e das jaquetas cheias de "patch".

A terceira a se apresentar foi a Warfield. Death metal brutal com batida reta, riffs pesadíssimos e vocais guturais e cavernosos. Àquela altura da madrugada, fiquei pensando o que seria da pacata Simão Dias caso Plinio tivesse colocado o palco virado para a cidade ao invés de de frente para o nada - ou melhor, para a Serra do Cruzeiro, onde não mora (quase) ninguém ...

E eis que é chegada a hora das hordas satânicas darem o ar de sua graça. Dali pra frente teríamos apenas o mais negro e obscuro Black metal, diretamente do colo do capeta para os já castigados tímpanos dos sobreviventes. E foram muitos, os sobreviventes: quem foi, não arredou pé (até porque a maioria era de fora e não tinha mesmo pra onde voltar), então um bom publico assistiu à volta triunfal da "Horda" Mystical Fire aos palcos sergipanos (nesta nova fase eles haviam tocado apenas uma vez, mas em Recife, Pernambuco). Já começaram "causando" com um "figurino" impressionante: Elias parecia um guerreiro bárbaro, o guitarrista um carrasco medieval e o baterista, Gabbirin Nagall Giborin AKA Villas Parakas, também conhecido como Bilal, o rei do Metal - A Base de tudo aqui nessa porra - uma espécie de Demonio-serpente tosco e careca. Foi um grande show, com a banda muito bem entrosada entoando seus já clássicos hinos pagãos. Destaque para o novo guitarrista (o mesmo da Warfield), que manda muito bem. Sem baixista. Sem frescura. Um show dedicado à irmã de Elias (me escapou o nome dela agora, mas acho que era Graciele) e a Jaiminho, dois verdadeiros "guerreiros do underground" já falecidos. Homenagem mais do que justa. Foi legal também ouvir a pagação de Elias em cima de quem não compareceu por causa das já manjadas e cansativas fofoquinhas do undergound que empresteiam e contaminam a cena. "Quem veio aqui mostra que sabe andar com suas próprias pernas, ver com os proprios olhos, pensar com o próprio cérebro", ele disse. E eu aplaudi.

A principal "fofoca", ao que parece, era a de que Drakkar, da Luxúria de Lillith, havia declarado em algum lugar, não sei onde (procurei e não vi nenhuma referência a isso na net) que achava legal o uso do "corpse painting" nos desfiles de moda, mais especificamente na São Paulo Fashion Week, pois isso ajudava a espalhar a mensagem do metal negro. Verdade ou não, concordando ou não com o dito ou não dito, o que sei é que a Luxuria subiu ao palco com o dia prestes a nascer e nos conduziu até a alvorada com uma apresentação precisa e matadora. Fazem um som, digamos, "de raiz": Black metal como era feito nos primordios, nos anos 80, brutal porém cadenciado e ritmado, para além daquela massaroca sonora chata e sem sentido que costuma dominar o estilo hoje em dia. Duas garotas na frente, tocando baixo e guitarra, e o baterista Drakkar se incumbindo dos vocais, cuspidos em português alto e claro entre caras e bocas numa perfomance que, confesso, beira o cômico, mas não num sentido depreciativo. Parecia uma espécie de demônio irônico e satírico.

Quem mais me impressionou, no entanto, foi a guitarrista. Toda miudinha, caladinha, vendendo o merchandising da banda antes do show, parecia tímida, porém no palco se transforma: com cara de poucos amigos, despeja uma saraivada de riffs precisos que é o verdadeiro fio condutor do som da banda. Grande perfomance.

Não cheguei a ficar até o final, já que as luzes do astro-rei já despontavam no horizonte e me lembravam que havia um longo caminho de volta a ser percorrido. Saí, no entanto, satisfeito, ao som da musica que leva o nome da banda e ainda a tempo de ouvir Drakkar anunciar mais uma, "o Sarau dos Vampiros".

A caminho de casa, cruzo com caminhões do exército em sentido contrário, provavelmente com destino a Salvador, onde o caos estava instalado por conta de uma greve da polícia ...

por Adelvan

# 215 - 11/02/2012

Mistura de selo independente e organização não-governamental, composto de bandas multirraciais, o 2 Tone foi a arma encontrada pelos adolescentes ingleses para torpedear a onda de racismo - leia-se skinheads - e o governo mão-de-ferro de Margaret Thatcher. "Este é basicamente um lugar em que o preto e o branco brincam juntos", define Pauline Black, vocalista do Selecter. A história do movimento está em A Checkered Past - The 2 Tone Collection, CD que reúne todos os singles lançados pelo selo, de 1979 a 1986.

Musicalmente, a receita do 2 Tone fundia a energia primal gerada pelos punks ingleses com o balanço do ska - ritmo que ferveu a Jamaica nas décadas de 50 e 60 e que se mudou de mala e cuia para a Inglaterra. Com a posse dos ingredientes, faltava um mestre-cuca para a receita não desandar. E ele apareceu sob a forma do tecladista Jemy Dammers.

Dammers montou os Automatics - definido como heavy reggae - ao lado do guitarrista Lynval Golding e do baixista Horace Ander. Dois anos depois o grupo mudou para Special A.K.A. e recrutou os vocalistas Terry Hall e Neville Staples e o guitarrista Roddy Radiation, para lançar o single "Gangsters". Era julho de 79. Começava o 2 Tone.

"Gangsters" foi o cartão de visitas para conhecer a ideologia do movimento. A melodia citava o proto-reggae "Al Capone", do veterano Prince Buster, e a letra denunciava aqueles que queriam "se dar bem" no mundo musical. Mas havia outros grupos com o mesmo ideal de Dammers. Tinha o som pop de Madness; o ska com influências de soul music do Beat (English Beat, para os americanos) e o Selecter. O selo ainda engrossou suas fileiras com o trombonista jamaicano Rico Rodriguez. Em 1979, já rebatizada como Specials, a turma de Dammers lança "A Message To You Rudy", reggae paleolítico de Daddy Livingstone. O Madness solta "The Prince" e vira superstar. The Beat entra nas paradas com a versão de "Tears Of A Clown", de Smokey Robinson. Em 1980, o 2 Tone capitalizava 250 mil singles vendidos e sete músicas na parada inglesa.
A boa fase se estenderia até o ano seguinte, quando Specials e The Selecter encerraram suas atividades. Dammers reformou o Special A.K.A., que perpetuou o clássico "Nelson Mandela". O Beat deu origem a General Public e Fine Young Cannibals. O Madness só se deu por vencido em 1986. Mas aí o estrago já havia sido feito.

The 2 Tone Collection: A Checkered Past (1993) [Compilation]

(Revista Bizz, Edição 134,Setembro de 1996)

Discoteca Básica

Sérgio Martins

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O ornitorrinco, este exótico animal, parece ser mais uma boa piada da natureza vivendo sob as águas da Austrália. É algo como uma ariranha com bico e pés de pato, garras venenosas e rabo de castor que bota ovos. Mas o que poderia ser só uma má idéia de um roteirista do Jaspion é uma espécie muito bem adaptado ao seu ambiente e não corre nenhum risco de extinção, provando ao mundo que até mesmo as mais bizarras idéias podem dar certo, tendo em conta que garras venenosas sempre ajudam.

Em nossa sociedade pós-tudo (ou pós nada) a mistura de referências culturais distintas é provavelmente um dos maiores clichês em quase todos os campos das artes. Nada mais normal que juntar, por exemplo, vídeo games, samba, ska, rock e ficção científica num computador, como centenas de outros artistas fazem por aí, lotando computadores alheios com piadinhas e/ou revoluções a cada dia, hora e minuto.

Este disco que você pode baixar nos links abaixo poderia ser só mais uma mistureba, mas é diferente. Por uma razão bem simples. Nem todo ornitorrinco voa.

Meu nome é Raul, ou Retrigger, sou um artista belo horizontino que produz música estranha, feia e dançante desde 2001. Lancei música em todos os formatos possíveis e em diversos continentes, já bebi cerveja como cachê em vários países e lancei, via Cock Rock, mais um disco de graça para alegrar toda a sua família. Espero que aproveitem.

Ornitorrinco Voador – Retrigger

Cock Rock Disco – 2009

Assista ao vídeo da música EZ money!
http://vimeo.com/6034495

LINKS:
http://www.retrigger.net/
http://www.cockrockdisco.com/
http://www.myspace.com/retrigger

# # #

Morrissey - Tomorrow
The Fall - 50 year old man

Dinosaur jr. - I´m insane
Sebadoh - Ocean
J. Mascis and the fog - outside
J. Mascis - Get me

[maua] - The awake at the beginning of the end

Luxúria de Lillith - Perpétua escuridão
Delinquentes - Formigueiro febril

Joy Division - Shadowplay
Bauhaus - Spirit
The Horrors - Still life

The Baggios - Não estou aqui
Mamutes - Os olhos da cobra
Plástico Lunar - próxima parada (acústico)

Retrigger - Comancho!
Air - Tropical disease
God is an astronaut - All is violent, all is bright

Série Discoteca Básica:
"The two tone collection: a checkered past"

# The Swinging cats - Mantovani
# The Special aka - Gangsters
# The Beat - Ranking Full stop
# The Bodysnatchers - Let´s do rocksteady
# The Selecter - the selecter
# Rico - Sea cruise

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O dia em que Lampião se apoderou de Rita Lee

O artista e cordelista J. Borges, premiado pela Unesco, fez esta xilogravura especialmente para ilustrar os versos abaixo, de autoria de Christian Carvalho Cruz e publicados no site do jornal O Estado de São Paulo. Borges tem 76 anos e vive em Bezerros (PE).

Veje homi seu menino
Sente que vou lhe contar
Do dia que baixou Virgulino
Em um palco feito altar
Na Rita que não é a santa
Mas moça boa no falar

Antes contudo todavia
Um bocado acabrunhado
Peço a bença dos poetas
Que nessa arte têm mestrado
Não riam aqui deste mané
Um patavina do Assaré

Pois aquele um, o Virgulino
É o próprio Lampião
Falecido no Sergipe
Sítio deste dramalhão
E Rita é a Lee a negra ovelha
Nossa mais digna pentelha

Foi na Barra dos Coqueiros
Sua cantoria derradeira
Armou-se grande festa
Pro adeus de uma roqueira
Agora não venham os dotô
Com essa chata choradeira

Vocês conhecem essa cara
Essa fala, esse cheiro
Portanto se desespantem
Com os modos de carroceiro
Ela ficou só pouco mais fula
Com o espírito do cangaceiro

Quando a dita assombração
Empreendeu sua manobra
Ocupando aquele corpo
De cabelo cor de abobra
Ela sentindo a ditadura
De cabrita virou cobra

Era noite alta e fresca
Quando surgiu a soldadesca
Bulindo o povo, acintosa
Atrás da tal erva venenosa
Lá de cima Rita viu
Parou o show, o céu caiu

E quando súbito se viu
A lua desaparecer
Na praça antes pacata
Foi um tal de se benzer
“Vixe cr’em Deus pai
O regabofe vai feder”

Possuída pelo fantasma
Do bandoleiro nordestino
Rita fez da voz o bacamarte
E da bala o seu hino
Chamou major de cachorro
O tenente de equino

A roqueira do cangaço
Disse tudo sem volteio
Oiô de frente a guarda
Exibiu dedo do meio
C’atitude obscena
Só cresceu o rebosteio

Nem o beiço quis molhar
Com água, suco ou fruta
Se dirigiu aos capacetes
“Seus filhos duma puta
Venham me pegar
Sou avó mas tô enxuta”

A razão e o motivo
De tamanho aporrinho
A Lampiona deixou claro:
A força bruta, o desalinho
No lombo da meninada
Causa dum baseadinho

Indo pra lá mais adiante
Não precisa de adivinho
Pra notar naquele grito
Também disparo de espinho
Contra os cabra que arrocha
Aluno, nóia e Pinheirinho

Por isso e mais um tanto
Que a mutante encrenqueira
Em seu verbo assoberbado
Pôs nos dente a peixeira
Dando devido sacolejo
Na triste vida brasileira

Quem ficou aperreado
Foi Déda governador
Disse e não é chiste
Que Rita está em seu playlist
Mas xingar homem da lei
É demais pra quem assiste

Não por outra o mandatário
Pensou ir ao tribunal
Cortar a paga do cachê
Mas evitou posar de mau
Se Rita lamentasse o auê
“Causdequê?! Do fumacê?!”

Entremente o rebuliço
Muito apoio lhe foi dito
O filho Beto veio aqui
E confessou estar aflito
O titã Sérgio Britto:
“Fuck the police, viva Rita Lee!”

Ainda chefe de Corisco
64 anos e avó
Gulosa, escandalosa
Foi levada ao xilindró
E nas venta do delegado
Passou novo forrobodó

Causo tão misterioso
Os pelo sobe de alembrar
Mas juro ao senhor
Pela emoção não me guiar
Tava assim de cabra da peste
Que pode tudo confirmar

Do seio da luz brilhante
Veio o divino chanceler
Em pessoa o Padim Ciço
Com sua mágica colher
Futucou-lhe as entranhas
Rancou o capeta da mulher

A cantante estrebuchava
Se arrastando pelo chão
Pro marido ela explicava:
“Foi o calor da emoção”
E Roberto amparava:
“Cospe, Rita, cospe fora o dragão”

Exorcizado o coisa ruim
Ordenou o padroeiro
“Rita, mia fia
Não atuo de bombeiro
Pois volte já pra rede
Escandalize os tuiteiro”

Ela beijou a mão do santo
Agradecida e juvenil
Pensou que bem podia
Ser presidenta do Brasil
Pra dar Panis Et Circenses
A essa gente tão gentil

Má ideia não seria
Pois artista não sobrou
Chico só quer bola
E Caetano caducou
Então vote em Rita Lee
Prum país mais rock and roll!

Vou parando por aqui
De sua paciência abusei
Minha lira se gastou
Das fantasias que cantei
Mas garanto meu amigo
Se aumentei não inventei.