domingo, 18 de novembro de 2012

CNHC

"Câmbio Negro H.C nasceu em 1983, tempos de dureza para os roqueiros no Recife - uma época em que os caranguejos com cérebro sequer cogitavam fincar a parabólica na lama e revigorar o manguezal pernambucano. A primeira formação é, no mínimo, curiosa: Além de Nino (o único integrante original), faziam parte da banda o baixista Vinícius, mais Fred 04, na guitarra e, acreditem, Renato L, o Ministro da Informação do Movimento Mangue, nos vocais. Os futuros mangueboys saíram logo para formar sua própria banda, a Serviço Sujo, que acabaria como Mundo Livre s/a.

O ano de 1984 é considerado por Nino como o marco inicial do Câmbio Negro H.C porque, a partir daí, a banda passou a fazer shows e manter integrantes mais ou menos definidos. Nem ele nem Pesado, vocalista que mais tempo ocupou o posto, consegue contabilizar com precisão todos os músicos que saíram e entraram na banda ao longo destes mais de 28 anos. Alguns são bem conhecidos da cena, como por exemplo os guitarristas Cláudio Munheca e Ony, do Faces do Subúrbio.

Não eram tempos fáceis. Ao contrário da efervescente cena atual, em meados dos anos 80, contavam-se nos dedos bandas de rock na ativa no Recife: Herdeiros de Lúcifer, Kristal, Napalm. "A gente tocava onde desse, não havia uma mídia como atualmente, abrindo espaço para o rock. Para conseguir a Mansão do Fera, onde aconteceu o II Encontro Anti-Nuclear, foi preciso dizer ao dono que o grupo fazia um som estilo Ultraje a Rigor", lembra Nino. Os punks eram pacifistas e pregavam diatribes atrás de diatribes contra o que os mortais comuns consideravam uma ameaça remota: a guerra nuclear. Os encontros antinucleares chegaram a três. O mais importante foi o segundo, que contou com participação do grupo de Oi! Vírus 27, do ABC paulista, que nem chegou a tocar. A polícia, convocada pelo dono do estabelecimento, antecipou o final do festival.

Além de trocar de guitarristas como trocava de acordes, o Câmbio Negro H.C experimentou vários vocalistas até chegar a Pesado, cuja figura confunde-se hoje com a história do Hard Core no Recife: "Entrei em 85, mas vivia nos ensaios e shows da banda. Minha entrada foi portanto uma coisa natural", conta ele. Comparado muitas vezes com João Gordo, do Ratos de Porão, pelo tamanho e vozeirão, Pesado confessa que sofreu mais influências de Fábio, vocal do Olho Seco, de São Paulo.

PAULEIRA NA MOLEIRA - Quando tudo parecia ir a mil para a banda, roubaram-lhes a aparelhagem, amplificadores, baterias: O grupo ensaiava num casarão na Rua da Guia e o Mundo Livre S/A no andar de cima. Depois desta, houve uma parada de quase um ano, conta Nino. No final da década de 80, a cena punk, rock, hard core do Recife tornara-se uma das mais movimentadas do País. Os shows que se produziam por aqui, atraíam caravanas de outros Estados. O Sepultura, por exemplo, ainda viajava de ônibus quando tocou no Recife e em Caruaru. Bandas já consagradas, como Headhunters, faziam escalas, na Sucata, uma discoteque falida no Pina, que se tornou um espaço para os roqueiros. O Câmbio Negro H.C, de volta aos palcos, destacou-se na cena e passou a ser a banda preferida para abrir shows dos grupos de fora.

"Em 1990, abrimos para a Morbid Angel. O pessoal que cuidava da turnê deles convidou a gente para tocar em São Paulo", conta Pesado. O Câmbio Negro H.C foi o primeiro grupo local de rock dos anos 90 a chamar atenção no Sul Maravilha. Nesta época eles já haviam até gravado o primeiro LP, Espelho dos Deuses, de 1989 - certamente o primeiro LP de Hard Core saído no Nordeste.

Até 1992, tendo o Beco da Fome como epicentro, o movimento punk/hard core do Recife expandiu-se. Já se podiam ver garotos nas ruas com T-shirts do Câmbio Negro H.C, deslocando-se para os periféricos Centro Sociais Urbanos ou clubes populares, feito o dos Rodoviários, na Imbiribeira, para curtir The Ax, Arame Farpado, Euthanasia, Realidade Encoberta (uma das grandes bandas desta fase), e os sergipanos do Karne Krua, cujo baixista Márlio posteriormente tocaria no Câmbio Negro H.C.

Surpreendentemente depois de lançar mais um LP, Terror nas Ruas, a banda saiu de cena outra vez: "Quando Chico Science apareceu a banda estava parada há dois anos", lembra Pesado. Estivessem na ativa, assim como Os Devotos do Ódio, eles poderiam ter sido agregados ao manguebeat, pelo qual nutrem declarada simpatia: "Quando só havia bandas de hard core a gente tinha um certo destaque. Agora a cena está muito diversificada. Hoje aparecem mais as bandas que fazem mistura de ritmos. Porém a gente não pode contestar que o Nação Zumbi é uma excelente banda. Mas, sem citar nomes, tem muito neguinho oportunista, que outro dia fazia hard core e de repente começa dizer que curtia maracatu, misturas. Nós caminhamos paralelos à cena", dispara Nino.

Por esta época passaram a atuar de forma mais esporádica, fazendo shows com menos freqüência. Só topavam paradas com infra-estrutura profissional, como o Abril Pro Rock, do qual participaram em 1997: "Passou a época em que a gente ensaiava em cubículos, tocava em qualquer espaço, hoje não dá mais", confessa Nino. Depois pararam, e por um bom tempo. Chegaram a ser dados como extintos, mas o Câmbio Negro H.C, o mais jurássico de todos os grupos de rock do Recife, é feito o lendário monstro do Lago Ness, na Escócia: Quando todos pensam que está desaparecido para sempre, de repente, surge do nada para realimentar o próprio mito.

Apesar de nenhum dos integrantes ter faturado com sua música, o Câmbio Negro H.C não dá pinta de que vai acabar tão cedo. Seus integrantes lembram o personagem de Rock and Roll Fantasy, um clássico do Kinks, um dos grandes grupos ingleses dos 60. Caras para quem o rock transcende a um gênero musical, é o combustível que os faz ir em frente.

NOTA: O texto acima foi encontrado, sem assinatura do autor, aqui. Reproduzo-o como encontrei, apenas editando-o para excluir ou atualizar dados defasados. A banda voltou recentemente à ativa. Para resgistrar esta nova fase, reproduzo abaixo uma entrevista concedida pelo baterista Nino ao Blog Aborto Verbal:

A.V: Voltando  um pouco no tempo. O  CNHC  foi uma  das principais bandas  do nordeste brasileiro  dentro da cena  hardcore. Como se deu a origem da banda  até o ano que cessou as atividades  ?

Luiz(Nino) - A origem do CNHC  ocorreu naturalmente, acho que como todas as bandas, alguns caras que estavam a fim de tocar, as letras sempre seguiram uma mensagem de conotação de protesto. O decorrer dos anos que a banda esteve mais presente na cena, vamos dizer assim, foi tempos sacrificantes, mas recompensadores. Alcançamos grandes momentos em palco, objetivos foram alcançados, enfim, valeu muito a pena. Tão natural como o início foi a parada que demos.. Na última apresentação, ganhei um calo na mão durante o show e que me rendeu uma infecção, uma cirurgia e algum tempo de fisioterapia, até poder voltar e quando fui liberado, cada um tava cuidando da sua vida e perdemos o contato. Mas, estamos de volta agora..

A.V: Esta, quem manda é  meu brother,  Hudson que editava o  zine  grind noise. O ESPELHO DOS DEUSES nasceu de uma demo tape ou as músicas foram compostas pensando no vinil mesmo? Sendo que fora do eixo rio SP, era uma época mais difícil  para  gravar .

Luiz(Nino) - "O ESPELHO DOS DEUSES" foi apenas o resultado de shows e uma época do CÂMBIO NEGRO HC. Não fez parte integralmente de alguma demo-tape, nem tão pouco suas músicas foram compostas para o disco, mas sim, fez parte de um grande momento que a banda atravessou.

 A.V: Como anda a cena underground  no nordeste, é bem unida e houve uma evolução  grande ? ou ainda  existe um  certo “monopólio”  Rio- SP  como no passado ? 

Luiz(Nino) - Na minha opinião, de forma geral a cena teve uma grande evolução e não só no NE.  Hoje vemos muito mais bandas atuando e com melhores estruturas próprias, etc.. Isto é muito bom. Por outro lado, no tocante a união não tenho bem certeza disto. Este discurso de união sempre teve, mas em Recife, na prática não vejo uma união tão significativa, vamos dizer assim. Desculpe, eu não entendi muito bem quanto ao "monopólio" que se referiu, mas eu acredito que quanto se fecha num mundo só, acaba-se escolhendo pra si uma parcela menor do conhecimento e assim, ficando de fora das oportunidades de conhecer coisas boas de um "mundo vizinho"...rrsss. Assim como os pesquisadores europeus que achavam que somente a sua cultura era o termômetro pra conceituar as outras sociedades eu acredito que preconceituar o outro por baixo é um grande equívoco.

A.V: O CNHC  vem de uma época onde a informação  na cena underground  circulava  em sua  maioria  nos fanzines  ou escassas publicações  oficiais de rock   , mesmo com estas dificuldades alcançou uma projeção dentro do underground  nacional  .  Atualmente  é possível produzir em casa e disparar em segundos utilizando a tecnologia  e a  internet  , Como vocês vêem isso , acham  que o excesso de produções  acabou  desvirtuando  o  hardcore com o surgimento de “bandas artificiais(que aproveitaram um embalo modista )” ou  fortaleceu  mais a cena  ?

Luiz(Nino) - Boa pergunta.. Eu acho que uma coisa deve complementar a outra, mas sabemos que não é isso que ocorre. A internet é uma excelente ferramenta, de fato, mas é fato também que hoje em dia tem muitos que acham que fazer barulho é fazer Hardcore. Claro que não é assim, não é verdade? Acho que de forma geral a galera daquela época compreendia mais de Hardcore do que hoje em dia. Talvêz isso possa estar associado a internet, ou melhor, a velocidade com que as pessoas esperam em ter uma informação, mas, além da informação, é fundamental ter mentalidade. Hardcore é muito além de tocar, é preciso compreender e só compreendendo que se faz algo melhor.

A.V: Os anos 80/90  particularmente eu considero uma das melhores safras das bandas  do hardcore  nacional,  o CNHC  sempre adotou nas  letras  basicamente “temas  de  protestos". Como vocês vêem a função das  letras  criticas  dentro da cena musical .

Luiz(Nino) - Para nós as letras críticas é uma coisa inevitável. É o reflexo de nossa visão em relação as coisas que nos rodeiam. É uma forma da gente expressar o nosso conceito e o nosso descontentamento do que é para nós nocivo a humanidade. Como falar de flores se estamos rodeados de espinhos?

A.V: Fale um pouco  sobre a decisão de voltar a cena após um período  afastado e sobre a atual formação da banda ?

Luiz(Nino) - Tocar sempre esteve no sangue. Vivemos um momento que marcou e depois achamos que poderíamos reviver aqueles momentos numa época diferente. É certo que muitos caras nos incentivaram muito pra voltarmos e isto foi determinante, então reunimos alguns ex-integrantes da banda que estavam a fim de tocar, como foi o caso de Pedrito (Pedro Riker - guitarra) que gravou os dois discos do CNHC e Jairo (baixo). Eis a formação para voltar junto comigo (batera) e com Pesado (vocalista), embora por pouco tempo, pois Pesado não estava disposto em continuar por mais do que um show. Nesse momento de reunião, Léo, um amigo de longas datas, estava sem banda e me pediu pra compor a formação com mais um guitarrista. Fizemos um teste e gostamos muito do resultado..o som ficou muito pesado e agressivo! Bom, fizemos alguns ensaios, mas, como Pesado não continuaria, chamamos um outro vocalista, o Ajax - que é um fã incondicional do CNHC e se interessou em ocupar o vocal, e assim está sendo. Estamos num período de entrosamento com Ajax e esta é a formação que dará continuidade.. Ajax Lins (vocal); Pedro Riker (guitarra); Léo Lins (guitarra); Luiz "Nino" (bateria) e Jairo Neto (baixo).

A.V: Como está o processo de criação,  músicas novas, mudanças de sonoridade em  comparação aos trabalhos  anteriores (o espelho dos deuses 90 e terror nas ruas 92) ?

Luiz(Nino) - No momento estamos mais empenhados em ensaiar um set de show que escolhemos com músicas que marcaram os 2 discos e algumas outras que acabaram entrando numa compilação em CD que fizemos, alguns bônus que entraram no cd. Paralelamente, tenho feito algumas músicas e letras. Pedrito também fez uma música, excelente por sinal e a gente acabou mostrando a todos algumas coisas que fizemos..a receptividade foi a melhor possível!

Há uma mudança de sonoridade no que diz respeito ao volume, peso e nas músicas mais rápidas, estas também ficaram bem mais rápidas. Os elementos característicos do Hardcore permaneceram. Queremos continuar fazendo Hardcore, mas hoje em dia temos condições de deixar o som melhor, bem mais pesado do que antes e estamos fazendo isto.

A.V: Quais o projetos  para o futuro do CNHC ? Já pensam na  possibilidade de lançar  um material ? serão músicas inéditas ou vão regravar algumas faixas dos álbuns anteriores ? Caso regravem ,para vocês qual não poderia ficar de fora?

Luiz(Nino) - Estamos empenhados em preparar um set de show e subir ao palco oficializando a volta do CNHC em shows. Além disso, preparar e gravar um material novo (estamos anciosos pra isso). Ainda não tenho certeza se regravaremos alguma música antiga, mas provavelmente, "MARIONETES" e "ANGÚSTIA" entrem no novo material. Já me passou pela cabeça regravar todo o "O ESPELHO DOS DEUSES" ou os clássicos dos dois discos, mas a prioridade é gravar um material inédito mesmo.  Isso pode ser projeto para o futuro, já que só tenho de recordação 4 cópias do 1º e um pouco mais do 2º disco.

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