quinta-feira, 31 de maio de 2012

pisa macio ...


Amplificadores no talo. A devoção ao volume, fetiche no sangue de tudo quanto é guitarrista, já arrebentou as cordas de muita Stratocaster por aí. O barulho é imperativo. Firmeza na munheca, também. Quando os hormônios sossegam, contudo, a maturidade precisa dar o ar da graça. Espinhas e testosterona não garantem o futuro de ninguém.

Cáustico – Seria exagero afirmar que o Acústico Aperipê da banda The Baggios desenterra a serenidade das composições consagradas pelas patadas certeiras de Julio Andrade (vocal e guitarras) e Gabriel Perninha (bateria). A gana com que eles atacam o repertório reina soberana nas sete faixas do EP. O nervosismo cheio de vontade dos meninos cria, aqui, no entanto, uma espécie de caos calmo. O ímpeto contido dos andamentos e a moderação nos efeitos afiançam a segurança do duo, própria de músicos conscientes de si.

Despidas, as canções respiram com uma naturalidade primitiva. Se nas gravações originais (o EP possui apenas duas músicas inéditas) a distorção assume a responsabilidade de nos manter aquecidos, o lamento ancestral dos negros americanos ecoa em todos os riffs desse Acústico. Longe dos campos de trabalho onde a ladainha nasceu, Julico transpira a seu modo, desafiando os limites acanhados do próprio berço.

Entre as inéditas, nas quais o piano esperto de Leo Airplane evoca ambientes escuros, impregnados de fumaça, o registro afetivo de uma composição assinada pelo maluco que inspirou os primeiros passos da banda. Um gesto carinhoso de gratidão encerrado em si mesmo. Ponto. “Meu relógio”, por sua vez, passa a régua no disco. Todas as cadeiras do boteco descansam sobre as mesas e o rosto mal humorado atrás do balcão nos convida a ir embora. “Hard times, when i play the blues...”.

The Baggios - Cáusticos e acústicos

por Rian Santos



quarta-feira, 30 de maio de 2012

Blues/rock/surf music


O rock "morga" mas não para, em Aracaju: semana passada os Baggios fizeram um show acústico no Shopping Jardins, no lançamento da exposição da Snapic. Amanhã, às 20:00H, no encerramento, rola outro acústico, desta vez com Melcíades e Silvio, da Máquina Blues.

Já a The Baggios  lançará, na sexta, um novo EP com uma música inédita, uma composição do inspirador do nome da banda, José sinval, conhecido em São Cristóvão como Baggio, e algumas faixas gravadas para um especial acústico veiculado pela TV e FM Aperipê. Abrindo a noite, Sex On the Beach, de Campina Grande, Paraíba, tocando pela primeira vez em Aracaju. O show está previsto para começar às 21h e vai contar com a participações do músico Leo Airplane, que é membro das bandas Plástico Lunar e Naurêa. A apresentação terá o repertório divido entre uma parte acústica, onde a banda se apresentará com violão e bateria, com uma pegada mais leve tocando as sete faixas do EP, e a outra elétrica, onde o duo apresentará músicas com mais peso.

Em 2011, após lançar seu primeiro disco, a banda sergipana alcançou reconhecimento nacional e até internacional. Foram citados em jornais como ‘O Globo’ e o inglês ‘The Guardian’, além da revista ‘Rolling Stone’. Completaram recentemente oito anos de estrada e acumulam no seu histórico cinco turnês entre o Nordeste e Sudeste do país, apresentações em dezenas de festivais e prêmios como o Festival Nacional da ARPUB e o Prêmio Aperipê de Música.

No dia 01 de Junho o disco estará disponível para download no site oficial da banda, que ganhará um novo layout.

SERVIÇO:

ENCERRAMENTO DA EXPOSIÇÃO SNAPIC - MÚSICA PRA VER
Quem: Melcíades e Silvio Campos, da Maquina Bues
O que: Show Acústico
Quando: 31/05/2012, quinta-feira
Onde: Shopping jardins, em grente à Cacau Show
Quanto: R$ 0,00 (FREE)

THE BAGGIOS LANÇANDO EP ACÚSTICO APERIPÊ
Quem: The Baggios e Sex On the Beach, da Paraíba
O que: Blues e rock, tocados em alto e bom som
Quando: 01/06/2012, sexta-feira
Onde: Praça Camerino, 210
Quanto: R$ 15,00 (+EP)

segunda-feira, 28 de maio de 2012

# 227 - 26/05/2012

 
O programa de rock vai ao ar logo após o Lado C, que é produzido e apresentado por Marcelo Larrosa, ex-baixista do Hojerizah. Neste final de semana meu amigo Chorão 3, ex-vocalista da Gangrena Gasosa, esteve me visitando e foi comigo à radio, o que acabou gerando o encontro inusitado entre membros dessas duas bandas lendárias do rock carioca registrado na foto ao lado.

Aproveitei a presença de Chorão e entreguei a segunda parte do programa aos seus cuidados. Ele fez a seleção lá, na hora, escolhendo as músicas de seu HD externo. Tivemos preguiça de anotar o que ele tocou, portanto relacionei na tradicional lista que faço, abaixo, apenas o que me lembro de cabeça.

Já na parte que me coube comecei com The Damned, clássica formação punk rock safra 77 que somente muito recentemente tocou pela primeira vez no Brasil, apenas em São Paulo e num dia de semana! Continuei com The Clash (A Aperipê FM segue sendo a rádio que mais toca The Clash em Sergipe, graças ao programa de rock) e Ramones, que fez minha amiga Desirée Proudhon continuar acreditando em milagres.

No segundo bloco, metal brasileiro: Autopse, banda alagoana que tem duas garotas na formação, a vocalista e a baterista, os paulistanos do Korzus e do Andralls, a sergipana Berzerkers e a paraibana Nephastus – esta foi uma das pioneiras do estilo por estas bandas e está, infelizmente, fora de atividade já há algum tempo.

The Baggios comparece com uma versão acústica gravada nos estúdios da Aperipê e a Crove, banda pos-punk sergipana fundada ainda nos anos 80, na mesma época da Karne Krua, com uma gravação recente de um aguardadíssimo primeiro disco que, reza a lenda, será lançado ainda este ano.

Depois do rock and roll classudo do Eagles of Death metal, na qual Josh Homme do Queens of Stone Age toca bateria, do canadense Danko Jones e do pernambucano Diablo Motor, um clássico de Raul Seixas para lembrar que o excelente documentário “O início, o fim e o meio” segue em cartas no cinema em Aracaju.

Foi isso. Semana que vem tem mais.

Sempre.

A.

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"Hoje em dia, o punk rock é mais negócio do que algo feito com o coração", diz Dave Vanian, vocalista do The Damned

Músico fala sobre a perda do sentido ideológico do movimento e o show que a banda realiza em São Paulo na próxima quinta, 12

por Bruno Raphael, para a Rolling Stone Brasil

12 de Abril de 2012 às 10:02
 
Considerada como uma das bandas precursoras do punk rock, o The Damned vem ao Brasil pela primeira vez para um show único no Clash Club, em São Paulo, na próxima quinta, 12. Em entrevista à Rolling Stone Brasil, o vocalista Dave Vanian falou bastante sobre suas expectativas para o futuro com a banda, surgida em meados dos anos 70 e contemporânea de nomes como Sex Pistols, Television e Richard Hell & The Voidoids, entre outros. O primeiro disco da banda, Damned Damned Damned, contém canções como "New Rose" e "Neat Neat Neat", clássicos da época.

"Eu nunca sei o que iremos tocar", conta Vanian sobre o possível setlist da banda em São Paulo. "Varia de noite pra noite, mas tem sido divertido porque já faz 35 anos que a banda foi formada e na última turnê nós tocamos nosso primeiro disco na íntegra, por exemplo. É difícil saber o que vocês querem, mas acho que será melhor tocar coisas antigas. O único contato que tivemos [com brasileiros] recentemente foi no natal do ano passado, quando duas pessoas vieram e me disseram: 'como vocês ainda não vieram pra cá?' [risos].”

Fugindo à regra do estereótipo dado a músicos de punk rock, Vanian se revela um aficionado por gêneros diferentes de música, como tango e bossa nova, além de ser um fã de filmes antigos, especificamente os das décadas de 40 e 50. "Eu adoro tango! Meu sonho é ir para a Argentina e ver como é. Obviamente, minha visão sobre lá deve ser totalmente errada, como algo antes da Guerra [das Malvinas], sabe? [risos]", brinca o músico. "Eu costumava ouvir coisas do começo do século 20. Sempre tive uma grande coleção de música instrumental, trilhas sonoras de filmes antigos...o que soa estranho, se você considerar que eu sou o vocalista."

O estilo "estranho" de Vanian inspirou gerações e fez história, deve-se levar em conta. Do visual de Johnny Depp em Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, com a clássica mecha branca dos cabelos esvoaçados do Vanian dos anos 80, aos grupos góticos como Bauhaus e The Cure, que viriam posteriormente, o Damned é considerado pioneiro em investir no aspecto visual e musical mais obscuro de sua arte. Uma inspiração que, segundo ele, sempre soou natural para alguém que queria ser um ator, antes de ser um cantor. "É natural, sim. Apesar de eu mudar, é apenas um personagem que eu sou na turnê. O Damned sempre foi uma banda excêntrica quando junta, mas sempre fomos muito diferentes uns dos outros. As influências que tivemos ao longo dos anos ficaram muito distintas. Acho que é por isso que cada álbum era tão diferente e íamos em tantas direções."

Vanian é muito crítico quando fala do punk rock atual, se é que se pode considerar o punk um gênero. "Quando você diz punk, é estranho", reflete. "Quando começamos, antes do termo surgir, as bandas eram muito diferentes umas das outras. Quilômetros de distância na época de Richard hell, Tom Verlaine...mesmo nós e os Sex Pistols éramos muito diferentes. As bandas foram marginalizadas ao longo dos anos. Não sei, para mim 'isso' de hoje em dia é pop. Sinto falta de uma experimentação. Parece que é tudo dentro de uma caixa e nunca sai fora daquilo. Parece uma desculpa pra você se vestir de um jeito quando ouve aquelas músicas. Eu acho que o punk era uma liberdade de expressão e a única coisa que unia as bandas antigas era a energia que as envolvia, e hoje em dia é negócio, mais do que algo feito com o coração. Sei lá, Green Day? Boa banda, boas músicas...mas é muito diferente do que eu considerava punk rock."

"Eu sentia que, nos primórdios, as bandas originais de punk rock foram os Shadows e os Sonics, coisas de garagem mesmo", prossegue. "Eles certamente foram para algo que mudaria a história. Mas eu acho que as bandas de hoje em dia são muito seguras e produzidas demais. Não me empolga, prefiro ouvir as coisas antigas mesmo."

Falando com nostalgia, pergunto se ele sente falta dos anos 70, época que surgiram a maioria dos grandes nomes do gênero. "Eu gostaria de ter aproveitado mais, porque foi tão rápido", desabafa. "Tudo que fizemos foi ir para o estúdio e já tínhamos feito um disco. Era uma época diferente, mas não sei se sinto falta. Eu acho que sinto falta dos anos 60, na verdade! [risos] O Damned seria uma banda melhor nessa época. Nos adequávamos melhor naquela época de tantas formas."

Já sobre seu futuro, Vanian se diz incerto. A bem da verdade, fazer canções novas no momento é a última coisa que lhe interessa. "Fazer a música que queremos, mesmo que as pessoas gostem ou não", diz. "Acho que sempre tivemos noção de algumas arestas, mas nunca deixamos o cachorro correr por ai como poderíamos. Acho que é hora de variar um pouco e ver onde isso vai nos levar! [risos]"

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The Damned - Feel the pain
The Clash - White Riot (US version)
Ramones - I Believe in miracles

Autopse - rancor
Korzus - Respect
Andralls - Fear is my ally
Berzerkers - Berzerkers
Nephastus - The sun ... (doesn´t shine to everyone)

The Baggios - (...) (Acústico aperipê )
Crove - A dança do forró

Eagles of Death Metal - Cherry cola
Danko Jones - Way to my heart
Diablo Motor - Cafa Song

Raul Seixas - Ouro de tolo (carrão 73)

por Chorão 3:

The Chemical Brothers
The Crystal Method
Bjork & Carcass
Gangrena Gasosa
Periferia S/A
Facção Central
Galinha preta
Napalm Death
Matanza
DFC
RDP
DRI

segunda-feira, 21 de maio de 2012

rock Sinfônico

Um Teatro Tobias Barreto lotado recebeu na última quarta-feira, dia 16 de maio de 2012, o CORUFS – Coral da Universidade Federal de Sergipe, a OSUFS – Orquestra Sinfônica da Universidade Federal de Sergipe, e a OSVC – Orquestra Sinfônica Vale do Cotinguiba, para uma noite de comemoração alusiva aos 44 anos da UFS. Era o Grande Concerto Sinfônico, também chamado de “Rock Sinfônico”, parte do projeto UFS Cultura. Já tinha lido a respeito do evento no Facebook, mas me instiguei mesmo para ver depois de ouvir uma excelente entrevista com o maestro Ion Bressan no programa Mural, de Ricardo Gama e Isabela Raposo.

Seriam cerca de 300 músicos reunidos para a noite, o que provocou um verdadeiro congestionamento no palco. Nada muito grave: no final todo mundo se acomodou, o maestro se postou em seu tablado e a grande noite começou com a abertura da opereta “A Cavalaria ligeira”, de F. Suppé. Bela melodia, uma daquelas músicas clássicas que todo mundo reconhece aos primeiros acordes. Por ali já deu pra notar a competência dos músicos envolvidos na empreitada ...

O segundo número foi um muito bem arranjado “pout-pourrit” de Aberturas clássicas que começou, como não poderia deixar de ser, com o pra lá de famoso som do destino batendo à nossa porta, o “tchan-tchan-tchan-tchan” da 5ª. Sinfonia de Ludwig Van Beethoven – na minha modestíssima opinião, o maior compositor que já pisou sobre a face da terra. Ok, pau a pau com Mozart, digamos assim, mas por uma questão de gosto pessoal, eu prefiro Beethoven. Não consigo lembrar quais foram as outras obras cujos trechos foram executados, mas lembro bem que os acordes da 5ª. pontuavam todo o número, “amarrando” a execução. Excelente.

A terceira peça foi, compreensivelmente, a mais ovacionada da noite: “A Marcha imperial”, de John Willians, nada menos que a música-tema do maior vilão da História da sétima arte: Darth Vader!. Bressan falou na entrevista para o radio que chegou-se a cogitar que ele a executasse devidamente paramentado como o Lorde Sith, mas não encontraram uma fantasia adequada. Uma pena, teria sido ótimo! Perdão, teria sido ainda melhor, porque ótimo, foi.

Para o quarto número do programa o maestro pede um pouco de paciência da platéia para que um novo instrumento seja posicionado no palco. Tratava-se de uma máquina de escrever, objeto de museu, observou ele, provavelmente desconhecido de boa parte das pessoas presentes no recinto. Rodrigo Santos “tocou” a máquina (devidamente “afinado” ali na hora, sob o riso de todos), auxiliado por mais dois músicos que reproduziam o sino e o som que a dita cuja faz quando é preciso passar para uma nova linha. Era “The Typewritter”, de L. Anderson, escrita para ser executada por orquestra e máquina de escrever. Excelente composição, “redondinha” e divertida. Não conhecia ...

Já para “Floresta do Amazonas”, de Heitor Villa Lobos, o número seguinte, faz-se necessária a presença do Coral da UFS, que adentra o palco sob efusivos aplausos. O maestro, sempre bastante comunicativo e didático, nos explica que não há uma letra propriamente dita no canto daquele coral, apenas uma reprodução honomatopéica do que o compositor entendia ser alguns cantos indígenas. Muito bonito.

Numa determinada altura do espetáculo, que prosseguiu com o Coro dos Soldados da ópera “Fausto”, de Gounod, e a belíssima “Dies Irae” da “Missa Requien” de Mozart, o maestro foge ao protocolo para saudar o “magnífico” (acho este título meio ridículo, mas ok, quem sou eu para questionar este tipo de formalidade) reitor da UFS, Josué Modesto, e o empresário proprietário da empresa de Pisos e revestimentos Escurial, patrocinadora do evento e, principalmente, da Orquestra do Vale do Cotinguiba – segundo ele, dois verdadeiros visionários, sem os quais nada daquilo seria possível. Para ilustrar o que estava dizendo, solicitou que viessem à frente do palco os dois mais jovens músicos da orquestra, dois gurizinhos que não deveriam ter mais que 4, 5 anos de idade, ressaltando que a maior dificuldade, no caso, não era ensiná-los a tocar violino, mas achar ternos que coubessem em seus diminutos corpos. Foram todos merecidamente ovacionados.

O oitavo número era um dos mais aguardados por mim: “O Bom, o mau e o feio”, que o genial Enio Morricone, um dos maiores compositores de trilhas sonoras para o cinema de todos os tempos, compôs para o filme homônimo do igualmente genial diretor Sergio Leone. Sou fã incondicional de ambos e adorei a versão, com detalhes muito bem sacados no arranjo para adaptar a melodia à formatação das orquestras e do coro.

Depois do Coro dos Ferreiros da ópera “Il Trovatore”, de Verdi, chegou a hora do momento “rock” propriamente dito, com a subida ao palco do guitarrista César Ribeiro, velho conhecido dos que freqüentavam shows do estilo na década de 90 do século passado, quando atuava com sua banda Samantha, para acompanhar a orquestra na execução de 4 momentos do musical “Jesus Christ Superstar”, de Andrew Lloyd Weber: “João 19:41”, “Overture” (Abertura), “Hosana” e “The last Super”. Os arranjos, também excelentes, eram mais uma vez do maestro Ion Bressan, que ressaltou que César estava tocando uma guitarra fabricada pelo conhecido luthier local Elifas Santana e que a mesma seria leiloada em prol do GACC – Grupo de Apoio à Criança com Câncer. O ganhador receberia o prêmio das mãos do músico Armandinho, cliente fiel de Elifas. Para contribuir e participar do sorteio, entre em contato com Danilo Barreto através do telefone (79) 3042-9171.

Fechando a noite, “Smoke on the water”, do Deep Purple, tocada por César e pela orquestra e cantada pelo coro e pela solista Vanessa Lockhart. Não foi ruim, evidentemente, mas acabou sendo o momento mais fraco da noite: a guitarra estava muito baixa e ficou apagada e a pronuncia em inglês da solista deixou um pouco a desejar ...

Foi tão boa a noite que achei até curta demais – deu tempo, inclusive, de pegar a última sessão de “Os Vingadores” no cinema. Para mim, ignorante que sou do que acontece no mundo da música erudita, especialmente em nosso pequeno estado, foi extremamente gratificante conhecer o talento de pessoas tão dedicadas e competentes. Estão todos de parabéns, especialmente o maestro Ion Bressan, de quem já sou, assumidamente, um fã.

Que venha mais! Muito mais!

por Adelvan “Kenobi”

Tony Iommi: Ele está no meio de nós ...

Black Sabbath faz show histórico em Birmingham

Os pioneiros do heavy metal retornaram à sua cidade natal para o primeiro show desde 2005

por Mark Sutherland, para a Rolling Stone Brasil

A maior questão sobre a esperada reunião do Black Sabbath foi respondida neste fim de semana, assim que Ozzy Osbourne subiu ao palco do O2 Academy Birmingham no último sábado, 19, gritando "Come on, you fuckers!" e parecendo tão feliz quanto uma criança em uma manhã de Natal. A figura tatuada por trás da bateria não foi apresentada formalmente pela banda, que não tem o baterista Bill Ward participando dos shows. O baterista Tommy Clufetos, que toca com Ozzy em sua banda na carreira solo, foi, no entanto, reconhecido por muita gente na plateia.

Depois de sanada a dúvida de quem assumiria o posto de Ward, o foco do retorno do Sabbath foi quem estava presente ali, e não quem não estava. Boa parte da atenção do público estava voltada ao guitarrista Tony Iommi, ainda em tratamento contra um linfoma (o primeiro coro de “Tony, Tony!” veio logo após a primeira música, “Into the Void”). Depois, Osbourne o apresentou como o “Iron Man”, antes de cantar a música de mesmo nome, enquanto um Iommi claramente emocionado e sorridente destilava os riffs mais famosos da história do heavy metal com uma vitalidade que alegrou tanto os fãs veteranos na plateia de três mil pessoas, quanto aqueles que nasceram décadas depois de eles terem lançado o primeiro disco.

Aqueles riffs nasceram em locais próximos a onde estava acontecendo o show, em Birmingham, e Osbourne, em particular, estava muito feliz em tocar em sua cidade natal. “As pessoas dizem que eu sôo como um norte-americano agora”, ele disse antes de “War Pigs”, causando o primeiro de muitos coros. Ele completou: “Mas eu sou da Inglaterra e sou orgulhoso para caralho disso”.

E havia muito mais do que se orgulhar na apresentação que serviu como uma lembrança do legado da banda antes do lançamento de um novo álbum e de apresentações bem maiores no Download Festival e no Lollapalooza. Apesar de Ward ter confirmado definitivamente sua ausência apenas três dias antes do show, não houve sinais de negatividade contra Clufetos, que manteve uma boa presença desde o início do evento. Houve uma música inesperada no set list – “Dirty Women”, de Technical Ecstasy, de 1976, e até Osbourne pareceu não ter certeza se eles já tinham tocado "Wheels of Confusion" ao vivo antes –, mas, no geral, o set foi baseado nos quatro primeiros clássicos discos da banda.

A versão estendida do baixo de Geezer Butler em "Behind the Wall of Sleep" e os riffs tempestuosos de Iommi em uma versão instrumental de "Symptom of the Universe" foram recebidos com entusiasmo gigantesco, enquanto o solo de bateria de Clufetos também foi bem recebido, embora os aplausos tenham sido um pouco mais contidos. Osbourne manteve o papel de líder, conduzindo os gritos de “Tony! Tony!” e pedindo que o público ficasse "extra fucking crazy" na última antes do bis, “Children of the Grave”. A plateia foi recompensada com o retorno da banda ao palco, com o riff introdutório de "Sabbath Bloody Sabbath", seguido de um final frenético com “Paranoid”.

“Cheguem em casa com segurança”, disse Ozzy, enquanto os quatro integrantes se curvaram à beira do palco em agradecimento, “antes que eu volte e chute suas bundas novamente.”

Veja aqui.

Abaixo o set list da apresentação:

"Into the Void"
"Under the Sun"
"Snowblind"
"War Pigs"
"Wheels of Confusion"
"Electric Funeral"
"Black Sabbath"
"The Wizzard"
"Behind the Wall of Sleep"
"N.I.B."
"Fairies Wear Boots"
"Tomorrow’s Dream"
"Sweet Leaf"
"Symptom of the Universe"
"Iron Man"
"Dirty Women"
"Children of the Grave"
Bis:
"Sabbath Bloody Sabbath" (Introdução)
"Paranoid"


sábado, 19 de maio de 2012

# 226 - 19/05/2012

Abrindo o programa de hoje, Tchandala, uma das mais antigas bandas de Heavy metal ainda em atividade em Sergipe, com seu novo single. Na sequencia, Joey Ramone em uma faixa de seu recém-lançado disco póstumo.

No primeiro bloco propriamente dito do programa, voltamos à virada do milênio, uma época em que o flerte do rock com a música eletrônica quase vira casamento. Depois do intervalo, o Bloco do ouvinte, produzido por Lucas Fellipe com algumas curiosidades como bandas homônimas de outras de maior sucesso - caso do Possessed, que aqui é um grupo britânico que tinha em sua formação integrantes do que viria a ser a Band of Joy (da qual surgiu Robert plant) e o Judas Priest; e o Death, que não é a banda de Chuck Schuldiner, é um trio protopunk formado por negros em Detroit, Estados Unidos, nos anos 70.

Toquei também "smoke on the water" do Deep Purple em versão ao vivo gravada no festival "California Jam", de 1974, com a formação que tinha David Coverdale no vocal e Glen Hughes no baixo, e "planeta dos macacos", dos Delinquentes, que vão fazer um show amanhã em Belém do Pará que será lançado em DVD com este nome.

Finalizando, mais rock gaúcho, The Cramps e, no quadro "Discoteca Básica", "Mopho", o disco de estréia da banda alagoana, lançado em 2000.

Bonus track: Rita Lee - Esse tal de rock enrow - a pedidos, via telefone.

Cheers,

A.

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Tchandala - One Billion lights
Joey Ramone - What did I do to deserve you

The Chemical Brothers - Setting sun
Prodigy - Breath
Apollo Four Forty - Ain´t talkin´ ´bout dub
Daft punk - Aerodynamic

Coven - Jailhouse rock
Human Instinct - Pinzinet
Possessed - The love that you gave
Death - Rock and roll victim
Titanic - Macumba

- por Lucas

Deep Purple - Smoke on the Water (live at California Jamming)

Delinquentes - planeta dos macacos


Laranja Freak - Após o bip (secretária eletrônica)
Doiseu Mindoisema - Epiléptico
Império de Lã - Cheio de dentes
Julio Reny & Expresso Oriente - Lola (não chores Lola) (Ao vivo no Porto de Elis, 1987)
Defalla - Sobre amanhã (Ao vivo em "nem Deus sabe onde")


The Cramps - Bikini girls with machine guns

Mopho:
# Nada vai mudar
# Eu quero tudo
# Tudo vai mudar
# Não mande flores
# A carta


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Jayme "Catarro", senhoras e senhores ...

Não dá para falar da trajetória dos Delinquentes sem falar de Jayme "Catarro". São histórias indissociáveis, traçadas ainda no final dos anos 70, em meio ao clima de desbunde da época. Entre fitas demo, cartazes e fanzines, Jayme recorda as primeiras memórias musicais: "A música sempre esteve presente na minha família. Lembro que meu pai tinha um gravador com entrada pra duas fitas, que a gente escutava os sons. Sempre tivemos essa veia musical, eu era o caçula, então os meus irmãos já curtiam na época Pink Floyd, Janis, tinham vinis e me inseriram neste meio".

O contato com o punk veio um pouco depois, nos anos 80, quando Jayme e alguns amigos foram ao show do Insolência Pública, primeira banda punk de Belém. "Quando eu descobri o punk foi paixão imediata. Me meti lá pro Una com mais dois amigos pra assistir ao show do Insolência Pública. Chegando lá eu vi aquela galera toda uniformizada, aqueles três carecas cantando músicas porradas, e foi um choque. Eu pensei 'O que é isso?' ", recorda.

Em seguida houve o contato com o movimento punk inglês. "Peguei a fita dos Ramones e achei o som diferente do rock que rolava por aqui. Tinha dezesseis anos na época, aí eu desbundei de vez", brinca.

Embrião - Em 1985, Jayme fez amizade com Regis, da Insolência Pública e começaram a surgir ideias de montar uma banda. "Comecei a andar com o Regis e ele me chamou pra fazer parte uma banda paralela dele, e eu entrei como vocalista. E o que foi a banda paralela dele acabou virando a minha banda até hoje", conta. Nascia o Delinquentes.

Com um som de pegada hardcore e letras autorais escancaradas, que mostravam a visão contestatória da juventude punk, o Delinquentes começou a fazer suas primeiras apresentações. "A gente fazia 'auto shows', fazíamos uma vaquinha, alugávamos o som e metíamos ficha!", ri. Os palcos variavam entre a Praça da República, Praça do Operário e Bar Celeste. "E não era só o show, tinha todo um contexto, falatório, panfletagem, performance...", lembra. Era o reflexo do Movimento Punk, do qual a banda passou a fazer parte: "Entramos no movimento mesmo. Íamos em reuniões toda semana, rolava grupo de estudos, era coisa séria! Essas reuniões sempre rolavam na casa de componentes e agremiações de bairro".

E foi nesse clima que a banda começou a fazer as primeiras gravações experimentais. "As gravações eram no gravador mesmo. Fizemos várias assim. A gente ligava o gravador, apertava no rec e metia ficha, bem no estilo faça você mesmo", conta. Um dos trabalhos remanescentes dessa época é o K7 "Fúria e Ódio", gravada em Aracajú (SE) e organizada pelo vocalista da Karne Krua, lendária banda sergipana. O k7 conta com músicas como "Gueto" e "Viciados", que foram regravadas no cd "Pequenos Delitos", em 2000.

O primeiro k7 oficial foi o "Infecto Humano", de 1988, contendo gravações de estúdio e um show ao vivo. Já em 1993 saiu uma coletânea com as bandas Contraste Social, Anomalia, Gestapo e Delinquentes. Das quatro, o Delinquentes é a única que resiste- e se renova- com o passar dos anos. 

Maturidade - São 27 anos de estrada, dezenas de gravações independentes, três discos de estúdio -Pequenos Delitos (2000), Índiocidio (2009) e Formigueiro Febril (2011)- e cerca de 40 formações diferentes. Ao longo dos anos o punk genuíno da banda foi dando espaço para uma pegada mais heavy metal e consolidando um som que hoje é característico do Delinquentes. "Não vou dizer que foi aprimoramento, mas sim as mudanças de formação. Conforme a galera ia entrando, ia acrescentando mais. No começo eu tive resistência, mas depois comecei a curtir e querer. Hoje a gente faz um Crossover, a mistura de punk com metal, e levantamos essa bandeira", afirma.

Entre as formações clássicas, Jayme destaca a "Infecto humano", com Gilson, Sandrão e Gerson (da Babylóides), a do "Pequenos Delitos", com Wilque e Marcílio, a primeira formação com Pedrinho- hoje guitarrista da banda outra vez, Ranieri e Sandro, e é claro, a formação atual: "Nesta formação atual estamos conquistando muita coisa. Foi um salto muito grande, a gente é bem coeso no que a gente quer. Me orgulho dessa formação tanto pela musicalidade quanto pelo lance de um aceitar o gosto do outro", avalia.

Além de Pedrinho na guitarra, a nova formação conta com Rafael na bateria e Pablo no contrabaixo. Ambos fãs de Delinquentes muito antes de fazerem parte da banda. Rafael destaca a emoção de hoje fazer parte dessa história: "Eu conhecia o Jayme da cena, porque eu tocava em uma banda de hardcore (Renegados), mas era apenas um simples fã. É uma história que quando você olha pra trás, tudo pareceu passar tão rápido e apesar de eu estar a pouco tempo na banda, apenas seis anos, quando a ficha cai, eu vejo que já estou dentro da história de uma banda que é exemplo pra muitas bandas da cena independente de Belém".

Dia D - E é em comemoração aos 27 anos de estrada e todas as pessoas e ritmos que fizeram e fazem parte da banda que o Delinquentes vai gravar neste domingo, 20, na Praça da República, o DVD "Planeta dos Macacos". Segundo Jayme, a ideia de documentar um show da banda já vinha de longa data. "Já tínhamos essa ideia há muito tempo, mas ficou engavetado. Ano passado metemos a cara na Lei Semear e no Conexão Vivo e conseguimos viabilizar o projeto", conta.

A pré-produção do DVD durou cerca de seis meses e contou com a ajuda de amigos como Mauro Seabra (DNA), Zé Lucas ( A red Nightmare), João Lemos (Molho Negro), Beto Fares (Funtelpa) e da produtora Greenvision, que segundo Jayme encarou a ideia da gravação e a concebeu de maneira bem original.

A produtora apostou em um show anti convencional, bem no estilo das rodas punks da Praça da República. Para Brunno Regis, produtor e fotógrafo da Greenvision, a praça como cenário, reafirma o conceito anarquico da banda. "A ideia de gravar na praça era tanto pra resgatar a história da banda- que no dia que não existir mais, merecia um placa na praça- quanto pelo contraste do punk com o cenário do século XIX do lougradouro, que é muito louco. A gente aqui na Greenvision concorda com o fato de que é meio chato e antiquado colocar a banda num palco certinho, bonitinho, com iluminação padrão e coisa e tal, por isso escolhemos usar o anfiteatro com o mínimo de interferência possível. o palco vai ser o chão do anfiteatro e a coxia a parte de trás, tudo pra gente tentar levantar e explorar ao máximo o cenário original", conta.

Serviço: Dia D- Gravação do DVD Planeta dos Macacos- Delinquentes. Dia: Domingo, 20. Hora: 16h. Local: Praça da República. Participação: Sammliz (Madame Saatan), Leandro Porko (Baixo Calão) e Djair (Antcorpus- Paraupebas). Entrada franca.

Fonte: Diário do Pará

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Black Sabbath, passado maculado ...

Uma das atitudes mais bizarras que já presenciei na história do rock: o site oficial do Black Sabbath retocou fotos históricas para APAGAR A PRESENÇA DO BATERISTA BILL WARD !!! Chega a ser inacreditável, de tão absurdo. Clique aqui e veja você mesmo, com seus próprios olhos. A princípio, eu (e a torcida do flamengo) pensei que teria sido uma atitude infantil e irresponsável de algum produtor (leia-se Sharon Osbourne) ou de alguém que administra a página, mas a banda lançou um comunicado informando que os retoques foram feitos a pedido dos representantes legais do próprio Ward! Como o velho baterista não desmentiu a afirmação, tiraram o deles da reta, mas a situação continua lamentável. Uma grande decepção para mim, como fã - quanto mais o tempo passa mais tendo a considerar o Black Sabbath minha banda de rock favorita de todos os tempos.

Somente esta semana Ward anunciou que não participaria dos três shows de reunião do grupo. Ele explicou suas razões em uma carta incrivelmente detalhada, com 1.504 palavras. O resto do grupo respondeu com apenas 54. Leia o comunicado abaixo, na íntegra.

“Decidimos não comentar em detalhes o último comunicado de Bill. Há dois lados para todas as histórias. Estamos dando duro nos ensaios e fazendo um progresso excelente depois dos tratamentos de Tony e já contratamos um baterista substituto para os shows vindouros. Vemos vocês no [festival] Download.”

O Black Sabbath (ou pelo menos 75% dele) vai fazer sua primeira apresentação desde 2005 neste sábado, 19, na O2 Academy, em sua cidade natal, Birmingham, na Inglaterra. Em 10 de junho, eles tocam no Download Festival em Derby, também Inglaterra, e então fazem uma terceira performance no Lollapalooza, em Chicago. As datas restantes de sua turnê de verão (do hemisfério norte) foram canceladas para que Tony Iommi pudesse continuar a receber tratamento para um linfoma.

por Adelvan





American Hardcore

É interessante notar como certos movimentos culturais  parecem intrinsecamente ligados ao momento histórico e ao contexto sócio-político-econômico em que ocorrem. O documentário American Hardcore - A História do Punk Rock Americano 1980-1986 (EUA, 2006), que acaba de ser lançado em DVD no Brasil, deixa bem claro como o ciclo punk ianque inicial foi uma reação ao primeiro mandato do Ronald Reagan (1911-2004), presidente Republicano branco, conservador, intervencionista.

Não a toa, as primeiras imagens do filme dirigido por Paul Rachman - uma espécie de Botinada dos gringos - são justamente as de Ronnie jurando solenemente sobre a Bíblia, durante sua posse em 1980. “No início dos anos 80 havia essa tendência de restabelecimento da ordem. Sabe como é, Ronald Reagan, a ordem do homem branco”, conta Vic Bondi, da banda Articles of Faith, entrevistado no filme. “Por que antes tinha aquele cara, Jimmy Carter (presidente Democrata 1976-80, considerado fraco), falando de paz, direitos humanos e toda aquela ‘merda’. E havia as feministas, os negros, todos passando ‘por cima de nós’. E aí o país entrou nessa fantasia pueril anos 1950, enquanto nós éramos somente mentiras”, relata.

Dizer tudo em 32 segundos

Com dezenas de entrevistados, o documentário mapeia (literalmente), de modo bastante eficiente, um movimento que, hoje, é difícil de entender como se espalhou Estados Unidos adentro numa época em que ainda não existiam as facilidades da Internet e as rádios não tocavam nenhuma daquelas bandas. Também, pudera: as pedradas produzidas por bandas como Black Flag, Bad Brains, Minor Threat, SS Decontrol e Millions of Dead Cops, entre outras, ainda hoje soam extremamente agressivas e pesadas.

A primeira geração do punk inglês, como Sex Pistols e The Clash são como canções de ninar perto delas. E a ideia era justamente essa: despir a música de qualquer “gordura” e deixar apenas o centro, o “caroço duro” (hardcore, em inglês).  “Vou dizer exatamente o que está na minha cabeça, e vou fazer isso em 32 segundos”, definiu, de forma definitiva, Ian MacKaye, do Minor Threat.

Com linguagem ágil, American Hardcore recupera dezenas de imagens de arquivos de shows das bandas e explora os diversos aspectos do movimento: as personalidades (HR, do Bad Brains, Henry Rollins, do Black Flag), as garotas, as tretas, as turnês, as diferenças entre as facções e muito mais.

E tudo fluiu, até chegar 1984. “Quando Reagan ganhou da primeira vez, a gente quase não acreditou. Como isso pôde acontecer? Mas da segunda vez que ele ganhou, foi devastador pra mim”, relata Dave Dictor, do Millions of Dead Cops.

“Aqueles primeiros quatro anos de punk rock, de 1980 até 84, era tudo esperança. Depois daquilo ficamos cínicos, o punk rock se fragmentou em muitas cenas diferentes”, conclui.

American Hardcore - A História do Punk Rock Americano 1980 - 1986 / Ideal Shop / R$ 29,50 / Vendas: www.idealrecords.com.br

NOTA (Adelvan): Uma historinha pessoal: Eu vi o show do Bad Brains no Abril pro rock a cerca de 4, 5 anos e achei bem legal. Mas,. logo depois, eu fui assitir a este documentário e vi o Bad Brains nos anos 80 com HR no vocal e puta que pariu, o show que tinha acabado de ver não era NADA comparado àquilo. Impressionante. Outra historinha: Há vários anos atrás a revista Dynamite fez uma entrevista com alguém do MDC (Millions of DeadCops) e numa certa altura perguntou o que ele conhecia e mais curtia do Hardcore brasileiro. Para a surpresa do entrevistador, ele não citou Cólera nem Ratos de Porão, mas duas bandas nordestinas das quais ele (o entrevistador) nunca tinha ouvido falar: Discarga Violenta e Karne Krua.


por Franchico

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Em Aracaju, finalmente ...

“Raul – O Início, O Fim e o Meio”, documentário de Walter Carvalho sobre a vida de Raul Seixas, estréia na próxima sexta-feira, finalmente, em Aracaju. As sessões serão exibidas no Cinemark do Shopping Jardins nos seguintes horários: 12h40 - 15h35 - 18h40 - 21h30 - 00h20 (neste último horário SOMENTE no Sábado, 19/05).

Abaixo, um texto de André Barcinski sobre o filme, publicado originalmente em seu blog


Poucas vezes me emocionei tanto com um filme sobre música. Talvez porque ele resgate uma figura que, para mim, carrega uma fama injusta. Raul é um daqueles artistas obscurecidos pela idolatria de seus próprios fãs. O célebre “Toca Raul!”, que acompanha toda rodinha de violão desde os anos 70, fez um mal danado à apreciação de sua música.

Tente esquecer os cabeludos tocando Raul em barzinhos e os sósias dando abraços coletivos e cantando sobre a sociedade alternativa. Isso é engraçado, mas não faz justiça ao sujeito. Se você conseguir enxergar por trás do folclore, vai perceber que até as canções mais batidas de Raul – “Metamorfose Ambulante”, “Maluco Beleza” e “Tente outra Vez”- são obras-primas.

Sempre adorei Raul Seixas. Acho o cara um gênio. “Ouro de Tolo” está em qualquer lista das músicas mais bonitas gravadas no Brasil. Ninguém escreveu uma letra como aquela. “S.O.S”, em que Raul se diz “macaco, em domingos glaciais” (e apesar do encarte do disco dizer “glaciais”, aposto que ele canta “domingos classe As”), é um dos momentos mais lindos e melancólicos do rock, em qualquer língua.

Raul fez a fusão da música brasileira e do rock’n’roll como ninguém. Foi a ponte entre Luiz Gonzaga e Elvis, com pedágios em Bob Dylan e Jackson do Pandeiro. Mas nunca soou folclórico ou falso. Raul fez música autenticamente brasileira, incorporando a guitarra elétrica de uma forma original e sofisticada. E sempre com a preocupação de ser popular.

Não consigo pensar em um artista brasileiro que tenha feitos discos tão variados. Pegue um LP qualquer de Raul – “Gita” (1974), por exemplo: tem rock (“Super-Heróis”), balada caipira (“Medo da Chuva”), repente (“As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor”), folk pastoral (“Água Viva”), um jazz-bossa-lounge (“Moleque Maravilhoso”) e um bolero (“Sessão das dez”). E isso é só o lado A!

Adoro a fase mística de Raul. A sequência de “Krig-ha Bandolo!” (1973), “Gita” (1974), “Novo Aeon” (1975) e “Há 10 Mil Anos Atrás” (1976) é insuperável. Mas ele fez grandes músicas em quase todos seus discos.

O filme de Walter Carvalho merece ser visto. É um grande registro histórico, com muita música boa e ótimas imagens de arquivo. A entrevista com Paulo Coelho é antológica. O mago fala de sua colaboração com Raul, da ligação de ambos com Aleister Crowley e o ocultismo (“um período negro na minha vida”) e confessa ter apresentado Raul às drogas. Já o papo com Marcelo Nova sobre seus últimos dias da vida também é revelador. Marcelo conta que chegou a pagar a feira do amigo e ídolo. Aliás, Marcelo fez um texto muito bonito sobre Raul para o UOL, que você pode ler aqui.

Outra qualidade do filme é sua independência. Não é um documentário “chapa branca”, desses que escondem os defeitos e conflitos do personagem. Mostra as relações traumáticas de Raul com suas mulheres e filhas e seus problemas com álcool e drogas. Sylvio Passos, amigo e presidente do fã-clube de Raul, conta que o maluco beleza andava com um galão de cinco litros de éter debaixo do braço, cheirando constantemente.

Espero que o documentário ajude uma nova geração a descobrir a música de Raul Seixas, sem aquela velha opinião formada sobre tudo.

Ele merece.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Dia D

Protestos aos conflitos urbanos, diferenças sociais e as relações humanas. Estes são os pontos que compõem as letras que irão agitar os amantes do rock paraense na gravação do DVD “Planeta dos Macacos”. O som começa a rolar a partir de 16h, na praça da República. “Esse será o nosso dia D, o 3º ponto mais importante da banda. Sendo o 1º e o 2º, respectivamente, o nosso surgimento e o lançamento do nosso 1º CD - Pequenos Delitos. A realização desse show-gravação é uma conquista de muito esforço e garra”, ressalta o vocalista Jayme Katarro.

Este será o primeiro registro de alta qualidade com a pretensão de mostrar a trajetória musical do Delinquentes ao longo de 27 anos de trabalho. O show ainda contará com participações de Sammliz Samm, da banda Madame Saatan; o percussionista Nazaco, da Banda Trio Manari;  Leandro Pörkö, da Banda Baixo Calão; e Djair, da Antcorpus (Parauapebas).

“Recebi com muita alegria e honra o convite para participar desse momento tão especial deles. A gravação desse dvd será muito especial para todos nós, que fazemos e apreciamos o rock feito em nossa cidade.  Finalmente um registro a altura, para essa que é a grande banda paraense de rock e uma das referências da diversidade e riqueza cultural em nosso Estado. Máximo respeito ao Delinquentes", diz Sammliz Samm do Madame Saatan.

A banda pretende atingir o máximo de energia. “Nosso show é motivado pela adrenalina, queremos um público fervoroso para que as imagens possam mostrar como é o nosso show de fato, sem a frieza de um estúdio fechado. Vamos mostrar nosso estilo marcante que vem desde os anos 80”, enfatiza Katarro.

Atualmente a banda possui o estilo crossover, que é um híbrido do hardcore agressivo com a técnica do trash metal oitentista e moderno. Outras influências que a compõem são o rock industrial, o alternativo, o punk rock e a inusitada e irreverente mistura com o estilo regional, a exemplo da música Pescador de Mestre Lucindo com o Carimbó.

Para o jornalista Ismael Machado, autor do livro Decibés sob Magueiras, os Delinquentes sempre mantiveram o estilo desde a época em que começaram a ensaiar nos anos 80. “Se há uma banda de rock que merece respeito em Belém, essa banda atende por Delinquentes, mesmo com algumas variações na sonoridade produzida por eles. Mas isso é reflexo das idas e vindas de integrantes. Quase balzaquiana, a banda ainda é um farol certo para novas gerações que fazem o rock pesado, seja ele punk, metal, crossover ou qualquer rótulo que se queira pôr.”

Dia D, gravação do DVD “Planeta dos Macacos” tem a chancela da carta de Lei de Incentivo do Estado do Pará – SEMEAR, é patrocinado pelo Programa Conexão Vivo, conta com o Co-patrocínio da Funtelpa. A realização é da Greenvision. O projeto conta com o apoio da Doceria Abelhuda, Circus Hamburgueria, Pizzu´p, Curso Exemplo, Central Rock, Fábrika Studio, Secult, Ná Figueredo, Instituto de Ciências e Artes da UFPA, Prefeitura Municipal de Belém, Governo do Estado do Pará, Comando Geral da Policia Militar, Ctbel e Dudú Sardo Mendes.

Saiba mais sobre os Delinquentes clicando aqui.

Serviço:

Dia D – Gravação do DVD “Planeta dos Macacos” Delinquentes

Local: Praça da República - Belém do Pará
Data: 20 de maio
Hora: 16h






75%

Infelizmente, as imagens ao lado e abaixo (na primeira, com o produtor Rick Rubin), feitas no dia do anúncio da volta do Black Sabbath com a formação original, não vão se repetir nos palcos: Bill Ward, o baterista (nas fotos, o primeiro à esquerda), acaba de anunciar que dessitiu definitivamente da empreitada. Uma pena. 75% da banda voltará, portanto. Porque Tony Iommi vai sobreviver. Ele é Deus!

Abaixo, a íntegra da declaração postada por Ward em seu facebook, traduzida por Samuel Coutinho para o site Whiplash  :

"Queridos fãs do Sabbath, músicos e companheiros, eu sinceramente lamento informá-los de que, após um último esforço para participar dos próximos shows do Sabbath, o fracasso de um acordo se manteve. Neste momento eu tenho que informar que eu não poderei tocar com o Black Sabbath  no show em Birmingham datado no dia 19 de maio de 2012, nem no Download festival no Reino Unido em 10 de junho de 2012. Além dessas, eu não vou estar no Lollapalooza em 03 de agosto de 2012. É com o coração muito triste que vos trago esta notícia. Estava sinceramente com muita vontade de tocar com a banda, e eu estou muito, muito triste que isso não seja possível. Esta afirmação é ainda mais difícil de escreve porque eu estava particularmente animado em poder tocar ao lado de Tony Iommi após os tratamentos recentes a que ele foi submetido. Eu queria que isso se tornasse realidade.

Para expressar como me sinto sobre vocês, fãs do Sabbath, vou usar uma experiência que meu irmão, James, teve recentemente. Jimmy vive no Reino Unido. Alguns dias atrás ele me disse que alguém o parou na rua e lhe perguntou: "Seu irmão vai tocar em Birmingham? O que está acontecendo? Eu fique na fila com meu filho e paguei uma grana pelos ingressos". O filho do cara é um jovem baterista. Ele quer ver o Sabbath, e ele quer ver Bill Ward na bateria.

Ao ouvir isso, me senti horrível. Eu não podia deixar de sentir algum ressentimento para com a impossibilidade de chegar a um acordo. As lembranças de onde viemos falharam, assim como a nossa união como irmãos que um dia já fomos. Para ser claro, eu não estou culpando os outros caras ou tentando encontrar falhas neles. Eu acho que não está sendo fácil para eles também, mas esta situação é realmente muito triste. É triste que isso tenha que acontecer. 'Isso' certamente deixará uma marca bem desagradável na memória. Esperemos que 'isso' seja curado com o passar do tempo.

Meu coração afundou quando Jimmy me falou sobre esse menino. Eu sei que este rapaz vai ficar desapontado, e eu não sei como mudar isso, a não ser colocando meus braços ao redor do dele e dizer-lhe que eu o amo. Os fãs do Sabbath têm uma voz e um rosto. Para mim vocês são humanos, vocês tem famílias e desesperos. Vocês tem raiva e emoções, e neste momento, tanto quanto eu estou preocupado, assim como vocês, aquele garoto na Inglaterra também está. Eu não sei como mudar minha parte nisso a não ser colocar meus braços em volta de cada um de vocês e dizer eu os amo e que vocês saibam que eu estou muito, muito triste.

Durante todo este processo, que começou mais de um ano atrás, eu tive que me encarar novamente. Tive que me encarar e perceber que minhas ações, indiretamente, ainda que involuntariamente, estão perturbando e prejudicando muitos de vocês. Eu acredito em meu coração. Eu não deveria ter feito esses shows aceitando os termos sugeridos. Eu fiz um juramento solene após os últimas apresentações na Europa e no Ozzfest que eu nunca voltaria a participar daquilo que, na minha opinião, era um contrato totalmente insatisfatório. Eu tenho de fazer alguma coisa, e por mais doloroso que seja, estou fazendo.

Eu descobri sobre o show em Birmingham na segunda-feira dia 30 de abril através do anúncio na internet. Fiquei bastante surpreso com a data e com o fato de que era em Birmingham. Sabendo que os contratos estavam ainda sendo costurados, eu fiquei chateado com idéia de que a banda iria tocar Birmingham assumidamente sem mim. Eu não tinha conhecimento prévio sobre data e local, e me senti totalmente excluído. Entramos em contato com o representante do Black Sabbath para ver se algo poderia ser trabalhado. Nesse meio tempo, minha equipe e eu, juntamente com nossos endorsers dos EUA, terminamos todo o planejamento necessário para uma partida rápida para o Reino Unido, já que não havia muita coisa para completar e todos estávamos aguardando mais ou menos desde meados de janeiro de 2012. O trabalho restante no Reino Unido foi confirmado pelos nossos endorsers da Europa e Reino Unido e nós estávamos prontos para ir até na sexta-feira, dia 4 de maio.

Havia dois pontos de tensão: primeiro lugar, obter um acordo assinável, e em segundo lugar, chegar na Inglaterra com tempo suficiente. Além da descompensação horária [jetlag] tinham que ser levados em conta os ensaios, encontrar um lugar para os ensaios de bateria bem no coração de Birmingham, acomodações e organizações de viagens, mas tudo estava no lugar para o caso de um ensaio da banda ocorrer antes do show em Birmingham. Até agora tudo o que tinha sido combinado estava por minha conta, mas nós não avançamos sem uma confirmação concreta.
As comunicações entre o representante e meu advogado continuaram até o fim de semana, no dia 5 de maio, finalizando na quarta-feira, 9 de maio. A oferta que recebemos em 9 de maio era: 'Venham para o Reino Unido tocar de graça e ver como será o primeiro show'.

Fiquei tentado. Tocar de graça não teria sido um problema para mim, mas 'ver o que vai dar no primeiro show' deixou um elemento de risco que poderia ter afetado o Download Festival. Minha idéia era fazer um show completo em Birmingham, na íntegra. E fazer o Download e o Lollapalooza. Eu tinha notificado o representante de que o dia 10 de maio era o meu limite, a fim de ser levado dentro do prazo para a Inglaterra. Na noite de 9 de maio, eu pedi para que enviassem uma carta ao representante pedindo para descobrir se não havia mais solução. Na manhã de quinta-feira, 10 de maio, recebi uma resposta. Após consulta com os meus assessores e equipe, foi tomada a decisão de deixar de presseguir e parar.

Eu não posso priorizar os fãs do Sabbath fazendo um show mais importante do que o outro. Eu não posso fazer isso. Todos vocês são importantes. Em todos os shows ou mesmo em nenhum. Eu não poderei chegar a Birmingham e 'ver o que acontecerá' sabendo que há um risco de não tocar no Download ou no Lollapalooza. Novamente, para mim, é tudo ou nada. Eu tinha que dizer 'não' para Birmingham, com a intenção de tocar em todos os shows.

Dizer não a Birmingham é muito difícil para mim. Minha família cresceu em Birmingham. O Black Sabbath cresceu em Birmingham. Ainda é minha cidade natal e tenho ressentimentos em ter que chegar a uma escolha tão difícil. Embora com a declaração feita de que 'a porta estará sempre aberta' para mim, como explicado acima, caminhar até aquela porta nem sempre é tão fácil como parece. Há muitas questões complicadas e problemas invisíveis e não claros. Posso garantir a vocês que meus critérios para um contrato 'assinável' são baseado nos princípios conscientes, em respeito e reconhecimento à minha história dentro da banda.

Eu não guardo nenhuma raiva ou ressentimento para com os outros membros da banda. Eu os amo, e sou tolerante com eles. Estou frustrado com eles, pois eles poderiam estar comigo. Minha luta nunca foi com eles. Eu vou amá-los para sempre. Na minha opinião, ninguém ganha desta vez: a banda não ganha, e os fãs que queriam a formação original não irão ganhar. Ninguém ganha, ninguém. Mesmo os que pensavam que seriam capazes.

Eu não queria tomar essa decisão, mas tenho que ser honesto e transparente. Esta é a declaração que eu não queria escrever. É a última coisa que eu queria fazer. Mas, eu escrevi isso, e agora torno isso público. Desde a primavera de 2011, esperei pacientemente por um contrato assinável. Vocês sabem do resto. Eu defendo o menino no Reino Unido, os alunos de bateria, os bateristas que fazem o seu papel. Estou com os fãs do Sabbath que pedem Bill Ward e perguntam 'porquê?' E estou com o Tony, Geezer e Ozzy.

Em uma nota final, mesmo que eu esteja fora dos próximos shows anunciados, vou permanecer com a mente aberta e uma posição de disponibilidade para negociar com os representantes do Sabbath no futuro. Fiquem firmes. Fiquem seguros.

Com todo o meu coração e força, eu amo vocês.

Bill Ward






terça-feira, 15 de maio de 2012

Jello Biafra über alles



Jello Biafra esteve no Brasil pela primeira vez durante a Eco 92. O período daquela conferência mundial sobre meio ambiente coincidiu com o do lançamento do livro “Barulho”, do jornalista André Barcinski. Foi por obra daquele escriba que o vocalista dos Dead Kennedys desembarcou, finalmente, em solo carioca – onde participou de eventos de lançamento do livro e, sorte da cariocada, acabou subindo em palcos aqui e ali. Cerca de dois anos atrás, quando o legendário DK já representava um passado beeem distante, Biafra deu de novo o ar da graça. Foi para apresentar-se com a Guantanamo School Of Medicine, sua banda atual. A brincadeira funcionou tão bem que o cara voltou uma terceira vez. Foi agorinha, há pouco, no fim de março, quando o “Sambapunk” o cercou para uma entrevista. Depois de uma refeição no miolo de Ipanema, antes de uma cerveja no calçadão, Biafra topou falar. E como falou. Na lista de condenações, políticos, claro. Entre eles, Hillary, Obama…

O que mudou ao longo dessas décadas? “Aos 54 anos”, observa, “você precisa exercitar-se bem mais. Quando começamos, era eu quem tinha a melhor forma física entre todos do grupo. Mas, agora, sou o que está pior. Todo mundo começou a nadar, correr ou algo do tipo. O que espero sempre poder fazer é um show em que eu, como fã, gostaria de estar. Não gosto de ver velhas músicas punks sendo mal tocadas. Você tem que se apresentar direito! Não engulo cantores sem presença de palco, que não fazem um pouco de teatro. E ainda vou a muitos shows.”

 Jello revela que o padrão a ser seguido é o de uma velha banda punk australiana, a Radio Birdman, que ele define como “estilo-Detroit-rock-garage”: “Vieram a São Francisco 30 anos depois de terem começado a tocar e explodiram o teto da casa de espetáculos. O baixista parecia ter 18 anos e era como se estivesse num grupo de hardcore. Não perdeu uma nota. É assim que quero trabalhar!”

 Não perder o horário do avião também é um padrão a ser seguido. E é um sujeito alemão, uma espécie de tour-manager, quem lembra desse detalhe. Todos concordam: aquela conversa deverá ser rápida. Um smart-phone como gravador, para garantir que detalhes importantes da entrevista não sejam perdidos, e, de repente, Jello Biafra, vestido como muitos dos gringos que passeiam pela Zona Sul da cidade (isto é, destoando da média), vira uma verdadeira atração naquela calçada de gente meio fresca. Foi onde começou a entrevista, ali em frente ao Delírio Tropical.

 Hillary Clinton, Barack Obama, Arnold Schwarzenegger, Jeb Bush… Foram esses os nomes ouvidos pelo pessoal que fazia fila para comer frango grelhado, saladas e coisas do tipo. Para o entrevistado, aquela era a lista dos atuais vilões da História; papel que ele já atribuiu certa vez  a Jerry Brown, então governador da California. Mas será que daqui a pouco Jello não vai pedir desculpas também a Obama e cia, como fez com Brown – pintado de nazi na clássica “California über alles”?

A pergunta não parece incomodá-lo. “Não acho que vou pedir desculpas aos Clinton e a Obama. Vamos deixar Arnold Schwarzenegger fora dessa conversa”, sugere o cara, dando pouca importância ao poder de destruição do eterno exterminador do futuro. “Talvez eu naquela época estivesse um pouco irritado com Jerry Brown, que é agora por acaso de novo governador da Califórnia! Esse homem estava na faixa dos 40. Agora, está nos 70 e está de volta”, comenta, fazendo um ar teatral de surpresa-e-medo! “As coisas por lá estão caindo aos pedaços. E Brown acha que pode consertar a Califórnia. Mas… Os republicanos decidiram não aumentar impostos, porque querem que o poder público fique sem dinheiro e, assim, todas as coisas passem a ser feitas por corporações. Isso inclui escolas, hospitais, guerras, manutenção de ruas. Tudo! Essa é a visão deles. Um país completamente controlado pelas corporações. É o que tentam nos impor. É assim que eles fazem. Não perguntaram o que queriam os iraquianos. Apenas foram lá e…”

E créu. O atual presidente estadunidense é definido por Jello Biafra como “uma criação das corporações e de Wall Street”. O cantor diz que acompanhou a atuação de Obama no Senado e que ficou preocupado ao ver o político apoiando questões como “prisões secretas” e assuntos parecidos. Para JB, Obama basicamente seguiu a política Bush. “As pessoas estavam perdendo suas casas, com dívidas feitas em cima de dinheiro que não existia. E os bancos começaram a receber verba para cobrir um buraco imaginário, feito em cima de dinheiro que na verdade era um amontoado de certificados. E Obama foi parte disso. Eles não deram recursos para quem morava nas casas, para que pagassem as dívidas e ficassem com os imóveis. Ele deu aos bancos. E estas instituições continuaram donas de tudo”, martela Jello, dizendo crer que por trás dos panos o sorridente ocupante da Casa Branca está trabalhando por leis ainda piores. “Isso é algo que a gente espera de um regime como o do general Geisel”, compara.

Após citar o militar, parece “natural” que viesse mesmo em seguida um papo que tivesse a ver com “revolução”. O velho punk-showman faz uma alusão a quem viveu os anos 60 e 70, quando se falava de “revolução”. Assim, prepara o terreno para pregar a “evolução”. Jello é um pregador.

“Hoje, temos mais direitos humanos, mais conhecimento. Não tanto quanto precisamos, mas mais do que antigamente. Gosto da evolução. Digo sempre às pessoas que estejam atentas ao que consomem, aos produtos que compram das multinacionais. Sugiro que reduzam ao máximo a compra de artigos com essa origem. E se você tem que dar sua energia, seu tempo e sua inteligência trabalhando para estas companhias, lembre-se de que há hoje em dia na era digital uma imensa possibilidade de sabotagem no emprego”, provoca-prega mais. E mais: “Barack Obama, John Kerry ou até mesmo Bill Clinton… Talvez tenham pensado em coisas boas, em algum momento do passado. Mas hoje em dia algo diferente está acontecendo. Algo que acontece com muita gente que envelhece, tem filhos e uma casa. De repente, essas pessoas querem proteger alguma coisa, a qualquer preço. ‘Ah, precisamos de mais polícia nas ruas…’ ‘Ah, não queremos por perto essas pessoas pobres…’ Não queremos que nossos filhos façam as merdas que fizemos quando éramos jovens…”

Se a internet pode ajudar em alguma coisa? A resposta que vem dele parece meio boba, pra não dizer “descrente”: “Sim, desde que as pessoas usem a internet da maneira certa… A era digital criou essa coisa estúpida de que tudo é verdade. Já morri algumas vezes. A grande coisa a fazer com a internet hoje é saber o que pegar. As pessoas não investigam as coisas porque estão ocupadas demais recebendo mais e mais informações. E agora temos esse comportamento, esse novo problema: pensamentos do tamanho de um tweet.”

Jello finge espantar um mosquito para mostrar o que acredita ser o modo como as pessoas em geral lidam hoje com a informação. Abanam, espalham, sem na verdade dar muita atenção. “Acho que parte disso acontece porque as pessoas estão recebendo tanto lixo por e-mail que a única maneira de lidar com tudo é como que espantando um mosquito. Há estudos que dizem que as pessoas, nos seus trabalhos, quando interrompem alguma tarefa para ver e-mails, levam até 25 minutos para conseguir se concentrar de novo naquilo que estavam fazendo. Questione a mim, questione aos blogueiros. Faça o mesmo que você faz com a informação que vem das corporações. Questione! Desenvolva suas antenas detetoras de bosta…”

“Aquela mulher que pula para falar sobre o detergente não está tão excitada… Sabão não é algo excitante. Ela é uma atriz contratada para te vender aquilo. Usei as antenas para detectar bosta também com os meus pais, e na escola, e… Quando aconteceu o 11 de Setembro, as pessoas se perguntaram quando deveriam falar sobre aquilo com seus filhos. A resposta só pode ser uma: imediatamente. Quando eles ouvirem sobre sexo, conte a eles… Se você ajuda seus filhos a detetar bosta, você ajuda a formar adultos mais conscientes.”

Quando finalmente o assunto passa mais para o universo da música, Britney Spears é esculachada por uns cinco minutos. Horas antes, Jello gravara umas cenas para um documentário sobre a Gangrena Gasosa, banda que ele lembra ter conhecido em 92. Alguém naquela época me deu uma fita cassete. Foi no lugar em que estavam os caras do Mano Negra. Diziam que misturava Metal com Macumba. Só agora fiquei sabendo que nos shows há uma parte teatral. E fiquei com muita vontade de tocar com a Gangrena Gasosa, na próxima vez em que eu estiver aqui. Isso seria cool. Eu nem sabia que eles ainda estavam juntos. Uma banda de metal que não faz a mesma coisa que outras dez mil bandas de metal.”

 Falar do que aconteceu em sua primeira passagem pela cidade fez Jello lembrar de Renato Russo, na casa de quem ficou alguns dias hospedado. “Eu tinha sido enfiado numa sessão de autógrafos e estava meio chateato. E aí chegou alguém dizendo que eu deveria tratar bem os fãs. Depois… Ele ficou louco, num restaurante, com Shirley MacLaine. Porque ela se recusou a dar um autógrafo para a mãe dele. ‘É pra minha mãe! Como você pode fazer isso com a minha mãe?’ Um jornalista americano, na época, havia me falado que aquela noite seria como num filme de Fellini… Quando voltei, dois anos atrás, foi um choque perceber que Renato não estava mais aqui. Seu passado punk deve ter lhe dado força para que se posicionasse como um openly-gay-artist”.

Jello conta que tenta “ser legal” com os fãs. Lembra de como foi importante pra ele, mais jovem, ganhar um autógrafo de Joey Ramone: “Significa muito para mim ouvir de um cara como o Angelo, da Gangrena Gasosa, que servi de inspiração pra ele. Não é revolução, pode nem ser evolução, mas é espalhar algo positivo. E você nunca sabe como as pessoas serão tocadas por isso.”

P.S.: Esta entrevista foi possível graças a Monica Pan (produtora do escritório A Grande Roubada) e Angelo Arede (vocalista da Gangrena Gasosa). Todos os agradecimentos a esses dois.

por Adilson Pereira

Samba punk