sábado, 18 de junho de 2016

# 400 - 18/06/2016

Hoje vai(não foi) ao ar a edição # 400 do programa de rock. Para comemorar o feito, resolvi fazer um set list especial: só clássicos. Hits lado a lado com musicas menos conhecidas de nomes consagrados, mas nada que tenha menos de 20 anos de lançado – o contrário da última vez em que chegamos a um numero redondo, a edição # 300, quando, aproveitando a coincidência de ter sido exatamente o primeiro programa de um novo ano, fiz uma retrospectiva dos melhores lançamentos do ano anterior.

O tom já é dado na abertura, com um “não-hit” dOs Mutantes ao lado de um Megahit de Raul Seixas. Os dois são, em minha opinião, as duas melhores coisas que já existiram no rock “brazuca”. Mutantes conheceu alguma popularidade – não muita – mas Raul Seixas é uma espécie de unanimidade nacional: do “roqueiro” mais radical de jaqueta de couro às empregadas domésticas e classes mais populares, todos conhecem e, no mínimo, respeitam o “maluco beleza”.

Na seqüência um daqueles hits que eu me pego espantado de nunca ter tocado em nenhuma das 399 edições anteriores: “Start me up” dos Stones. É o caso, também, de “Have you ever seen the rain”, do Creedence, “Knocking on Heaven´s door”, de Bob Dylan e “Purple Haze”, de Jimi Hendrix. “Shapes of things” dos Yardbirds interpretada por David Bowie é a oportunidade de matar dois coelhos numa cajadada só – idem para “Substitute” do The Who com os Ramones e “Louie Louie”, um "standard" do rythm´n´blues celebrizada pelos "garageiros" do Kingsmen, aqui na versão do Motorhead . Depois de “Communication Breakdown” do Led Zeppelin temos um take alternativo de “Highway star”, do Depp Purple – uma opção para fugir do óbvio, tocar versões demo ou “outtakes”. Uso também para o caso de já ter tocado a musica em edições anteriores, mas querer repeti-la. A estratégia, aqui, é aplicada na Legião Urbana, no Motorhead, Nirvana, Pixies, Pink Floyd e Chuck Berry.

Aí temos um bloco de “clássicos” do rock sergipano, com a música que abre o primeiro disco do Snooze, mais “Hienas na carcaça” da Karne krua – tirei da coletânea “Cartão postal”, produzida por Luiz Humberto da Purgatorius records – e Camboja, que EU considero um clássico e foda-se você se achar que não. É um clássico “cult”, digamos assim ...

The Smiths não ia entrar, vejam só! Já seria uma forma de fugir do óbvio – pessoas (René, principalmente) iam estranhar eu fazer uma edição especial sem Smiths. Adoro quebrar expectativas. Mas eis que “The Queen is dead” fez aniversário de trinta anos justamente nesta semana, então não deu pra evitar. 1986, mesmo ano em que o Queen lançou “A kind of magic”, provavelmente seu último álbum de sucesso – “One Vision” é dele. “Lips like sugar” é também, provavelmente, o ultimo single de sucesso da primeira fase do Echo And The Bunnymen.

“Candy”, baladaça do álbum “Brick By Brick”, de Iggy Pop, me fez prestar atenção à voz maravilhosa de Kate Pierson e, por tabela, à sua maravilhosa banda, B-52´s, que até então eu não curtia por puro preconceito contra a “new wave” – coisas de roqueiro jovem e “xiita”, relevem. “Dias de luta”, do Ira!, é do tempo em que eu estava começando a conhecer o rock, a princípio pelo que tocava no radio – sim, tocava musica boa no radio naquela época. Mercenárias é outro clássico “cult” e foda-se. “David Watts”, do kinks, eu conheci primeiro na versão do Jam e nem sabia que era do kinks, então fica como referência à grande banda mod de Paul Weller, também. Mais new wave – ou pós-punk, como queiram – com The Police; um bloquinho de pioneiros, claro, não podia faltar; “All you need is love”, dos Beatles, que eu incluí depois do massacre na boate gay de Orlando e então, pra fechar, a única musica que eu já toquei antes presente no set, “The End”, do The Doors. Apropriada também porque periga ser, realmente, o fim: ando bem irritado com o descaso da Fundação Aperipê para com o nosso programa, relegado a segundo plano sempre que tem alguma porra de jogo "peba" - como diz Bela Raposo - de futebol que eles querem transmitir. Talvez o programa de rock não chegue ao número 500. A conferir ...

É isso. Espero que curtam! Obrigado pela audiência - pequena, eu sei, mas valiosa ...

ATENÇÃO: ATUALIZAÇÃO: Logo que fiz essa postagem recebi uma mensagem da direção da radio avisando que o programa de hoje teria que ser mais uma vez adiado - era pra ter rolado semana passada, não foi por causa de um jogo. Tem sido assim nos últimos tempos: inúmeros cancelamentos, pelos motivos mais esdrúxulos. Pra mim já deu, desisti de vez. Obrigado a todos que acompanharam pelo menos parte das 399 edições do programa de rock. Até qualquer dia ...

Se tivesse ido ao ar, o programa teria sido este:

Os Mutantes - Posso Perder Minha Mulher, Minha Mãe, Desde Que Eu Tenha O Rock And Roll
Raul Seixas - Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás

The Rolling Stones - Start Me Up
David Bowie - Shapes Of Things
Led Zeppelin - Communication Breakdown
Deep Purple - Highway Star (remix)

Snooze - The sun doesn´t need you to rise
Karne Krua - Hienas na Carcaça
Camboja – Digital junkie

Ramones - Substitute
Motörhead - Louie Louie (Alternate Version)
Nirvana - In Bloon (The Smart Studio Sessions)
The Smiths – Frankly, Mr. Shankly
Queen - One Vision
Echo And The Bunnymen - Lips Like Sugar
Iggy Pop and Kate Pierson - Candy

Ira! - Dias de Luta
Mercenárias - Imagem
Legião Urbana - Ainda é cedo

The Kinks - David Watts
The Police - Spirits In The Material World
Creedence Clearwater Revival - Have You Ever Seen the Rain?
Pixies - Here Comes Your Man (demo)
Pink Floyd - Another Brick In The Wall (pt 2) (work in progress)
Bob Dylan - Knockin On Heavens Door

Little Richard - Lucille
Chuck Berry - No Particular Place To Go (Single Version)
Buddy Holly And The Crickets - That'll Be The Day

Jimi Hendrix Experience - Purple Haze
The Beatles – All you need is love
The Doors - The End

#

Estas foram as últimas edições QUE FORAM AO AR:

# 399

AC/DC - For Those About to Rock (We Salute You)
The Runaways - I Love Playin' With Fire
Grand Funk Railroad - We´re an american band
Lynyrd Skynyrd - Sweet Home Alabama
Rush - Working man

[maua] - resist
Aliquid - One Try

Impaled Nazarene - Vitutuksen Multihuipennus
Metallica - Fight Fire With Fire
Vulcano - Witche's Sabbath (Demo)
Orgia Nuclear - União Hellthrasher
Holocausto - Forças Terroristas
Headhunter D.C. - ... And The Sky Turns To Black ...

Tiger Army - Prisoner of the Night

Drákula - Sofá
Kleiderman - Dracula's Tea Bag
As Diabatz - Psychomad Mary
Graforréia Xilarmônica - Empregada
Pato Fu - Twiggy Twiggy
Ira! - Tolices

- por Daniela Rodrigues
Hysterics - Leave Me Alone
7 Year Bitch - Dead Men Don't Rape
X-Ray Spex - Oh Bondage, Up Yours
---------------------
G.L.O.S.S. - G.L.O.S.S. (We're From The Future)
Infect - Cansadas De ódio
Infect - Puta
Sleater-Kinney - Male Model
Bulimia - Nosso corpo não nos pertence
Oldscratch - Machos Escrotos
Biggs - Common sense
Dominatrix - Rapist's Fault
Bikini Kill - White Boy
Le Tigre - On Guard

#

# 398 - 21/05/2016 

Siouxsie and the Banshees - The Staircase (Mystery)
The Fall - Paranoia Man In Cheap Shxt Room
The Cure - Primary
Cocteau Twins - Wolf in the Breast
Joy Division - Passover

Sakhet - Boudica 

Pixies - Rock Music
Dinosaur Jr. - Stick AToe In
Teenage Fanclub - Ain't That Enough
The Jesus And Mary Chain - Almost gold
AIR - Le Voyage De Penelope
Thurston Moore - Grace Lake 


Bob Dylan - Rainy Day Women #12 & 35 

- 50 Anos de Pet Sounds
- Versão mono
The Beach Boys - Would´n´t it be nice
The Beach Boys - You still believe in me
The Beach Boys - That´s not me
The Beach Boys - Don´t talk(put your head on my sholder)
The Beach Boys - I´m waiting for the day
The Beach Boys - Let´s go away for a while
The Beach Boys - Sloop John B 


The Beach Boys - God only knows
The Beach Boys - I know there´s an answer
The Beach Boys - Here today
The Beach Boys - I just wasn´t made for these times
The Beach Boys - Pet sounds
The Beach Boys - Caroline no


# 

# 397 - 14/05/2016

Faith No More - Malpractice
The Exploited - The Massacre
Slayer - Ghosts of War
John 5 - Death Valley
Serj Tankian - Butterfly 


Karne Krua - Bem Vindos Ao Fim Do Mundo
Sakhet - Na Cerveja Eu Acredito
Suicídio Coletivo - Nazismo, não!
Diatribe - Simonia
+ Entrevista com Lucas e Mayanna

Wander Wildner - WANCLUB - Mantra das Possibilidades

The Baggios - Descalço
Casa Das Máquinas - Pra Cabeça (Jogue Tudo Pra Cabeça)
Momento 68 - Jazzy-Man-Metropole
Alessandro Aru - Origens - Parte II

- por Mayanna e Lucas
Motorhead - Shoot you in the back
Coven - Wicked woman
Shocking Blue - Hello Darkness
---------------
Anthares - Fúria
Epithanatios Roghos - Aoratos polemos
Hirax – Barrage of Noise
Sodom - Burst command ´till war
Accept - Balls to the wall
Saxon - Rock the nations
-------------
A Bolha - Sem nada
Bacamarte - Smog alado
Belchior - A palo seco


# 

# 396 - 07/05/2016

The Sonics - It's All Right
The Jam - Running On The Spot
The Rolling Stones - Mixed Emotions
Creedence Clearwater Revival - Porterville
The Who - Squeeze Box
T. Rex - Hot Love 


Napalm Death - Morbid Deceiver
Intestinal Disgorge - Watcher
Naked City - Igneous Ejaculation
A.C. - You Fucking Freak
Disrupt - No One Seems To Give A Fuck
Cripple Bastards - Pete the Ripper
Da Boca ao reto – Martírio solitário
Decaído - Algum algoz


Fugazi - Two Beats Off
At The Drive-In - Arcarsenal
Ramones - We Want The Airwaves
T.S.O.L. - Its Gray
45 Grave – Slice o´life


Pedrinho Salvador - Decepción Blus

AC/DC - Emission Control
Danzig - Ju Ju Bone
Faith No More - Cuckoo for caca
Iggy Pop - Funtime
Body Count - C Note
Messias Elétrico - Minerva


WANCLUB - Surfista Calhorda

- XXX Anos – Demos, outtakes e raridades
Legião Urbana - Renato Apresenta
Legião Urbana - Teorema
Legião Urbana - Geração Coca-cola
Legião Urbana - Ainda é cedo
Legião Urbana - Profecia de Renato
Legião Urbana - Por enquanto
Legião Urbana - A Dança
Legião Urbana - Química
Legião Urbana - Perdidos no espaço
Legião Urbana - O Reggae 

#
 

 

quarta-feira, 6 de abril de 2016

A Tribo do rock

I know ...
O rock já morreu milhares de vezes, com direito a choro e também a alívio, e, no entanto, o rock sobrevive como um prazer incômodo e uma fantasia de imortalidade (“sempre tive uma necessidade repulsiva de ser mais do que humano; um dia disse foda-se, a questão é tentar ser imortal”, afirmou David Bowie... antes de morrer).

Ao contrário do que propõem dois outros grandes edifícios da cultura de massa erigida pelo século XX – o cinema e a televisão, lazeres de pipoca e de evasão –, o rock é uma voragem de desassossego, ondas de encrespações selvagens, é movimento de som e fúria, tem a mesma natureza incontrolável das convulsões tectônicas.

Também é ativismo político, ou foi, nasceu assim, em época de malaise difusa, fim dos 50 e início dos 60, movido a irmandade florida e a substâncias ilícitas, incendiado pelo pavor à guerra e pacificado pelo êxtase lisérgico. Com sacolejos de quadril, libido atiçada, juventude amotinada, o rock desafia o establishment há mais de meio século, jamais pretendeu, como alguns brasilossauros da guitarra, se prevalecer das benesses mercantis do status quo.

E nunca caiu nas graças da “alta cultura”, embora tenha produzido os seus próprios clássicos e eruditos do porte de um David Bowie, de um Lou Reed, The Who, The Doors, Pink Floyd, Nirvana, o múltiplo Bob Dylan, os Beatles, é claro, e o pioneiro Elvis Presley, entre outros. “Ainda precisa ganhar o respeito que merece como autêntica voz de nosso tempo”, reclama a ensaísta Camille Paglia. “Aonde o rock vai, a democracia vai atrás.”

Mas, contra o bom gosto dos esnobes, vem arrastando ao longo das décadas hordas de romeiros fervorosos pelas trilhas de seu culto iniciático, subgrupos, subculturas, tribos que nem sempre se misturam (perguntem para os fãs metaleiros do Black Sabbath se há rock além do Black Sabbath). Bem, show de rock é o último lugar que deve frequentar quem só quer ouvir uma boa musiquinha – é catarse coletiva, missa profana, barulheira tribal.

Para assistir, hoje, a um espetáculo do U2 ou do Pearl Jam, a gente tem de se acotovelar em arenas cujos cenários megatérios transformam os protagonistas em anões – mesmo quando eles buscam, aos pulos e aos berros, a cumplicidade eletrônica dos telões. Na plateia, os adeptos da fé satânica rezam a ilusão de um constante estado de delinquência juvenil, mesmo quando os peregrinos já têm os cabelos esmaecidos no cinza e mesmo quando, passado o transe pueril na área vip, o máximo que eles consigam imaginar como transgressão é o som reacionário das panelas Le Creuset.

Os quatro shows dos duradouros Rolling Stones no Brasil – um no Rio, dois em São Paulo, um em Porto Alegre – ressuscitaram aquele cenário típico de filas madrugadoras e de fãs acampados à mercê dos temporais e do risco de inundações. Mas o desconforto está incluído no line up dos hits. Por que tanta gente está disposta ao sacrifício de encenar uma rebeldia que faz tempo virou business? “O rock morreu, mas a atitude está bem viva – e ainda informa outros tipos de música”, disse David Byrne à revista Rolling Stone em 2007). Atitude que Axl Rose exprimiu, bem rock’n’roll: “A vida é uma merda, mas de um jeito bonito”.

Turnês como este Olé Tour, dos Stones, em 13 escalas latino-americanas além de um show gratuito – e politicamente significativo – em Havana, com estádios cheios e multidões estoicas, exumam a nostalgia histórica dos pioneiros festivais dos anos 60, aqueles que tiraram o rock dos auditórios para expô-lo ao ar livre, levá-lo literalmente para a estrada. Os Stones, em temporada de hits clássicos, continuam extravasando no palco sua aeróbica vitalidade. O serelepe Mick Jagger tem 72 anos, Keith Richards, também, Ron Wood, 68, e Charlie Watts, que, aos 74, preside a bateria com a serenidade de um bonzo taoista.

Elvis e sua geração já eram capazes de gerar frenesi nos salões, fossem recintos de high school, espaços tradicionais como o Madison Square Garden ou shows de tevê coast to coast, como o de Eddie Sullivan. Os Beatles formataram a histeria descabelada (embora o empresário Brian Epstein tenha pago carpideiras profissionais para a cena do aeroporto na “docuficção” A Hard Day’s Night). O rock ainda não havia extrapolado para os descampados da natureza, na simbiose promíscua de lama, sexo, bebida, marijuana, protesto, delírio, orgia, chuva e banheiro químico. Ali, nos festivais ao vivo, a geração dos anos 60 encontrou sua particular ideia de felicidade.

Nas manifestações coletivas do que se passou a chamar paz e amor,  uma contracultura florescente e psicodélica adotou o rock como sua língua franca. O poeta beat Gary Snyder flagrou o parto de “uma nova ética e novos estados mentais”. Ou como dizia Jerry Garcia, emblemático band leader do emblemático Greatful Dead, “somos os primitivos de uma cultura desconhecida”.

Tão carismáticos se tornaram Jerry Garcia e o Greatful Dead, nativos daquele santuário hippie de Haight-Ashbury, em São Francisco, que, por onde quer que andassem, um rastro de zumbis chapados os seguia, os deadheads, ou, mais adequadamente, os deadies. Não há banda, metal, grunge, punk, o que for, que dispense seus groupies, seus roadies – companheiros de estrada. Mas, na história do rock, ninguém foi tão mortalmente fiel como os deadies, não tendo despertado nem mesmo depois que Jerry Garcia morreu.

O festival de Monterey, em 1967, no litoral da Califórnia (“apareça com a roupa mais louca que tiver”, convidavam os outdoors), e a avalanche humana de Woodstock, no verão de 1969, onde Dionísio dançou com Malcolm X e Timothy Leary desencaretou Karl Marx, coreografaram uma faceta da revolução que já trepidava nas ruas das metrópoles, Paris, Berlim, Chicago, Rio, com a ferocidade legítima de quem buscava “a imaginação no poder”. Altamont, porém, no norte da Califórnia, ao fechar o ano de Woodstock, acionou o alarme para os passageiros da utopia, subitamente assombrados, em sua redoma de fantasia, pela eclosão de uma violência bem real e sem sentido. Enquanto os Stones tocavam, os Hell’s Angels se atracavam com um ou outro zureta da plateia. A morte de um espectador em Altamont foi como o derradeiro rito sacrificial numa religião de descrentes. Nessa virada para os 70, o rock estava se convertendo em indústria global multimilionária. Por ironia, o dinheiro é que lhe assegura o sonho de ser imortal. Como vem cantando Mick Jagger, é só rock’n’roll – mas a gente gosta.

por Nirlando Beirão

Carta Capital

#


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

BOWIE

É difícil imaginar um mundo sem David Bowie – ainda mais agora, à luz da notícia de sua morte. Mas o fato é que o mundo seria um lugar bem pior se David Bowie não tivesse existido.

Bowie transformou a sensação de estranhamento que todos nós sentimos – em maior ou menos escala – em grande arte. Estranhamento em relação ao mundo, à sociedade, à vida, a si mesmo. Contemporâneo da geração de ouro da história do rock (era cinco anos mais novo que Paul McCartney, dois anos mais novo que Pete Townshend e Eric Clapton), ele chegou tarde nos anos 60 para garantir presença no panteão que mudou a história da cultura ocidental. Mas não sem motivo. Ao lançar a própria carreira no final da década do rock clássico, ele a sincronizou com um momento único na história da humanidade e fez-se notar pela primeira vez lançando uma música sobre a solidão no espaço sideral e o olhar frio e distante sobre o planeta, a Terra, o mundo, nós mesmos.

“Space Oddity'' não era apenas o hit que a BBC escolheu como trilha sonora para a chegada do homem à Lua em 1969. Ela lançava questionamentos num tom solene para uma geração que ainda iria acordar do sonho hippie. O festival de Woodstock aconteceria um mês após aquele momento e em menos de seis meses os Rolling Stones trariam – no fatídico festival de Altamont – para a realidade o temor pressentido por Dennis Hopper em seu filme Easy Rider – Sem Destino. A era da paz e do amor terminaria com nervos à flor da pele e ao lançar sua carreira naquele exato momento Bowie se desprendia da geração que achava que deveria pertencer – a dos Beatles e dos Rolling Stones – para criar a sua própria era.

E sempre à sombra do estranhamento. Usar o espaço sideral como trampolim para sua carreira foi providencial para seu segundo ato, quando criou o alienígena Ziggy Stardust, no início dos anos 70. Aquele personagem era tudo que a década de 70 precisava antes de virar uma enorme caricatura de si mesma: andrógino, de cabelos vermelhos, tapa-olho e guitarra em punho, o conto de fadas glam rock contado em um de suas obras-primas (o mítico The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, de 1972) era uma celebração e uma crítica ao status atingido pelo rock, em que Bowie se vendia como um híbrido de deus inatingível e item de consumo, na melhor definição do que é um popstar.

Ziggy também foi uma fórmula para as diferentes personas que Bowie assumiu desde então – o exilado em Berlim, o outsider, o líder do Tin Machine, o pierrô new romantic, o Thin White Duke -, bem como para outros personagens que viveu graças à moda, ao comportamento e ao cinema (como o senhor cool, o Rei Goblin, o marido da supermodelo, Nikolai Tesla, o gay chique, o pacificador em Zoolander). Gravou com John Lennon e Mick Jagger, apresentou ao mundo Lou Reed (e, de brinde, o Velvet Underground), Iggy Pop (e, de brinde, os Stooges), o Kraftwerk (e, de brinde, a música eletrônica) e chancelou Brian Eno como produtor. Culpe-o também pela popularização do saxofone, instrumento que tocava – e o que pode ser mais cool do que David Bowie tocando sax?

Apesar de ícone do rock e autor de riffs e refrões memoráveis, ele era um artista clássico e classudo que usou o rock como veículo para voos mais audazes e foi um dos popstars que melhor souberam lidar com o jetset, sempre em voga. Transitou entre a ficção científica e a música eletrônica, entre a atuação e a moda, entre discussões sobre sexualidade e drogas. E que compositor – suas maiores canções são baladas tristes e contemplativas que o alinham a compositores como Cole Porter, Noël Coward, Scott Walker, Leonard Cohen.

Nestas canções sempre cantou sobre as transformações que viveu e quase sempre contemplava a morte – até em seu último disco, Blackstar, repleto de referências ao seu capítulo final. Ela não parecia tão próxima porque já pareceu estar mais próxima – na virada da década passada, auge do período de reclusão do artista, os boatos sobre sua morte vinham e voltavam com frequência (a ponto até dos Flaming Lips terem composto uma canção que perguntava se ele estava morrendo). Por isso sua persona mais recente (começada com o disco The Next Day, no início de 2013) parecia anunciar uma nova vida – e confesso que escrevi sobre a reinvenção de seu envelhecimento à luz de seu novo disco com uma ponta de felicidade, ao perceber, como todos nós, que ele ainda tinha muito o que dar.

Hoje, como todos, engulo em seco ao lembrar que uma possibilidade que temia há cinco anos, finalmente se materializou. Vivemos agora em um mundo sem David Bowie – mais careta, menos cool, menos sexy, mais chato. As imagens e sons voltam pela memória (e a minha melhor lembrança é tê-lo visto de pertinho no show que ele fez em São Paulo em 1997 – assisti ao show inteiro do fosso dos fotógrafos), mas fica o legado de uma carreira em constante movimento, uma prova de que é possível envelhecer sem se conformar e uma lição contida no refrão de uma das minhas canções favoritas, “Changes'': “Vire-se e encare o estranho''.

Hora de encarar um mundo sem David Bowie. Boa sorte para nós.

por Alexandre Matias

AQUI

#

70 Anos de Syd Barret

Poucas pessoas mudaram sozinhas o curso de uma época a partir de suas ideias e conceitos – e a maioria destes revolucionários solitários são artistas. São raros músicos, artistas plásticos, cineastas e escritores que com uma forma de tocar um instrumento, um tipo de narrativa contagiante ou trazendo visões pessoais cativam toda sua contemporaneidade. Nomes como Stanley Kubrick, Miles Davis, Picasso e João Gilberto trouxeram versões personalíssimas de mundo que se espalharam para toda sua época e transformaram a cultura de seu tempo sem participar de um movimento artístico, correntes ideológica, política ou estética, quase sempre inaugurando novas linguagens. E um destes nomes completou 70 anos no último dia 06 – ou melhor, teria completado, caso não tivesse sucumbido às mesmas drogas que o transformaram em um ícone dos anos 60. Há sete décadas nascia na Inglaterra o menino Roger Keith Barrett, que ficou mais conhecido por seu apelido Syd e por ser o progenitor daquilo que nos referimos como música psicodélica.

Syd Barrett já teria seu lugar na história do século passado apenas pelo fato de ser o fundador do Pink Floyd. Mesmo não tendo participado dos discos mais populares do grupo inglês, sua influência é sentida em toda a carreira da banda e dois de seus principais discos – Dark Side of the Moon e Wish You Were Here – são homenagens ao legado do músico ao grupo e à amizade que fez o Pink Floyd existir.

Mas a força torta que fez o Pink Floyd extrapolar o padrão das bandas de rock inglês da época – tirando-o do meio das dezenas de bandas de blues ou rhythm'n'blues que tentavam transformar Londres em uma Chicago branca – foi a mesma que começou a retomar a autoestima da cultura inglesa num mundo em que esta havia sido ultrapassada pela norte-americana. O contato de Syd Barrett com as drogas lisérgicas – especificamente com o LSD, ainda permitido à época – fez com que ele vislumbrasse um futuro bem diferente para seu grupo, que à medida em que se distanciava da cultura hooligan chique dos mods e dos milhares de filhotes dos Rolling Stones começava a tornar a paisagem inglesa mais colorida e menos cafona. O país já tinha saído dos dias pesados depois da Segunda Guerra Mundial mas ainda pintava-se com os tons cinzentos de uma austeridade que não tinha mais eco frente à máquina de marketing que era a cultura dos Estados Unidos.

Syd começou a apontar outra direção. Pegou a Inglaterra pela mão e a levou para o final do século 19, quando contos de fada e um início de surrealismo coloriam o antigo império em que o sol nunca se punha com uma audácia e ousadia que pareciam nunca terem existido no século 20. Buscou o surrealismo inglês, o humor absurdo de escritores, pintores e dramaturgos esquecidos após duas guerras mundiais para começar a colorir a Londres dos anos 60. E aquele colorido começou a se espalhar pelo resto do planeta.

A Swinging London já estava acontecendo quando a banda de Syd Barrett apareceu. Era uma manifestação cultural que modernizava a velha capital europeia, trazendo-a para os dias de consumo frívolo e transgressões sociais da nova década. Uma série de transformações que misturava artes plásticas, rock'n'roll, drogas, a cultura mod, programas de rádio e de TV, moda e cinema e tornava a capital inglesa um ponto focal para o resto do mundo, farol de tendências e referência mundial de comportamento. Mas quando Syd Barrett e seu Pink Floyd sintonizaram-se àquelas transformações, as coisas começaram a mudar drasticamente.

Barrett apresentou a psicodelia para as massas, liderando uma banda que fugia de estereótipos rock'n'roll e experimentava jam sessions intermináveis alternando-as com canções dóceis e épicos audazes que descreviam cenas especiais, viagens no tempo, gnomos e viagens de ácido. Projetados sobre a banda, jogos de luzes gelatinosos criavam cenas multicoloridas que aumentavam ainda mais o grau das viagens sonoras do grupo. Os shows aconteciam em festivais que duravam a noite toda, precursores das futuras raves, e a banda vestia-se com roupas coloridas, cheias de franjas e babados, enquanto Syd dominava o público com sua presença magnética.

O carisma de Syd Barrett pode ser percebido nos poucos registros em vídeo que sobreviveram à sua fase na banda, quando começou a espalhar ondas tecnicolor que foram se espalhando pelo mundo, criando cenas psicodélicas em cidades como São Francisco, Los Angeles, Berlim, Paris e Nova York, além de dar origens a novos grupos e artistas no mundo todo. Essa distorção colorida da realidade influenciou até mesmo os Beatles e até hoje discute-se quem influenciou quem quando o Pink Floyd gravou seu primeiro disco no estúdio ao lado que os Beatles gravaram seu clássico Sgt. Pepper's. Graças à psicodelia difundida por Syd Barrett a música pop começou a buscar outros rumos e criar novos gêneros musicais, como o próprio heavy metal e o rock progressivo.

Mas o impacto foi muito maior que musical: a psicodelia tornou possível as transformações culturais propostas por David Bowie e Marc Bolan, programas de TV que hoje são ícones ingleses como a série O Prisioneiro e o Flying Circus do grupo Monty Python. Os quadrinhos ingleses foram influenciados diretamente por ela (e, assim, nomes como Alan Moore, Neil Gaiman e Grant Morrison puderam reinventar os super-heróis nos anos 80), o culto ao Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien ganhou mais força, como a influência da obra de Lewis Carroll no imaginário inglês. Até subprodutos distantes como a acid house, a cena de Manchester dos Stone Roses e Happy Mondays, a obra do cineasta Danny Boyle, a cultura clubber e a moda inglesa foram são marcas fortes da influência de Syd Barrett na cultura inglesa e mundial. Isso sem contar a própria carreira do Pink Floyd.

Mas as mesmas drogas que abriram a cabeça de Barrett a fundiram de vez. Logo após o lançamento do primeiro disco da banda – o clássico The Piper at the Gates of Dawn, de 1967 – Barrett começou a criar problemas no palco, às vezes tocando um único acorde, às vezes sem se mexer ou não responder aos entrevistadores em programas de TV. Sua socialização foi se tornando cada vez mais comprometida e logo ele não poderia continuar na banda, sendo substituído pelo velho amigo guitarrista David Gilmour. A saída de Barrett não encerrou a relação da banda com o amigo, que continuou lançando discos (dois discos solo) com a ajuda dos integrantes do Pink Floyd mas, pouco a pouco, foi se fechando em casa e se tornando incomunicável. Largou a vida pública ainda nos anos 70, quando cortou o cabelo e começou a pintar. Morreu na Cambridge que o viu nascer, há dez anos, no dia 7 de julho de 2006. De lá para cá a família vem organizando o material do ícone psicodélico e, no aniversário deste ano, apresentou um novo site, repleto de informações inéditas (e muitas, muitas fotos, inclusive de suas telas e dos móveis que construía), que foi tão visitado em sua estreia que ficou fora do ar. É um bom fio da meada para quem não conhece o trabalho e a vida deste pioneiro psicodélico, um Ícaro moderno que queimou suas asas ao voar perto demais do Sol.

por Alexandre Matias

AQUI

#



terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Enfim, aconteceu. Lemmy se foi.

Relatos de amigos muito próximos dizem que um dia depois do Natal ele recebeu a notícia de que tinha um câncer muito agressivo. Tenho certeza absoluta que ele disse a si mesmo: “ah, foda-se! Agora chega! Não vou aguentar mais esta merda. Para mim, deu…” e, durante três dias, ele deu a ordem ao seu corpo: pare de funcionar! E Lemmy era tão poderoso que seu próprio corpo não teve coragem de contrariá-lo.

Lemmy se foi e ficamos privados de ouvir novamente a voz de Deus caso Ele fosse chegado em um litro de uísque e dois maços de cigarro todo santo dia. Quero acreditar que ele agora está aqui ao meu lado, com um copo de Jack Daniels e Coca-Cola em uma mão, um cigarro na outra, com as indefectíveis botas brancas e jaqueta de couro surrada, dizendo em meu ouvido “Viu como vale a pena ser genuíno, cagar e andar para o que as pessoas pensam ou esperam de você e viver do jeito que se deve?”

Sempre foi divertido pensar que Lemmy, Keith Richards, Ozzy Osbourne e Iggy Pop seriam os únicos a pisar nas baratas sobreviventes a uma hecatombe nuclear que mataria a todos nós, menos a eles. Hoje isto não é mais engraçado. Nenhum deles é imortal. Um dia, estaremos aqui lamentando a partida de cada um. Que pena…

Um dos últimos baluartes da trindade de artistas que pareciam indestrutíveis mesmo depois de décadas e décadas de todos os excessos que você possa imaginar em termos de drogas e bebidas, ao lado de Keith Richards e Iggy Pop, Lemmy vinha mostrando acelerado estado de deterioração física nos últimos meses mesmo para um cara de 70 anos de idade. O que começou com o surgimento de uma alergia a uma determinada fruta semelhante à framboesa – sim, é isto mesmo o que você acabou de ler! – se transformou em reações alérgicas cada vez mais graves e que acabaram afetando seu coração. Depois de uma cirurgia cardíaca e da imposição de uma mudança total no seu hábito etílico – ele tinha que parar de beber, cheirar e fumar de maneira radical e rápida -, Lemmy ameaçou deixar seus vícios de lado, mas não resistiu. Relatos dão conta que ele substituiu as doses cavalares de Jack Daniels com Coca-Cola que tomava diariamente por vodka com suco de laranja e que, digamos assim, ele não parou totalmente com tudo o que devia. Foi por isto que ele acabou desidratado e com distúrbios gástricos sérios no dia da apresentação do Motorhead na última edição do Festival Monsters of rock brasileiro, o que o levou a uma internação em um hospital de São Paulo.

É inexplicável. Bem, pensando com um pouco mais de racionalidade, talvez não seja tão inexplicável assim o verdadeiro fascínio que a figura de Ian “Lemmy” Kilmister exerce em qualquer pessoa que ame o rock and roll. E quando escrevo “qualquer pessoa”, não estou sendo bondosamente genérico, mas afirmando categoricamente que não há um ser humano roqueiro sequer que: a) não tenha o devido respeito e paixão pelo Motörhead; b) que não considere “Lemmy” como uma espécie de divindade.

No fundo, é fácil e difícil – e desconcertante – ao mesmo tempo entender porque a figura de Lemmy suscita reverência. Para isto, é preciso deixar de lado os pudores politicamente corretos e encarar a verdade: no fundo, bem lá no fundo, todos nós queremos ser como Lemmy.

Buscamos obter o mesmo grau de respeito que a sua figura e suas palavras causam nas pessoas. Buscamos causar a mesma sensação que Lemmy propicia quando entrava em qualquer ambiente: um silêncio que chegava a ser ensurdecedor. Buscamos envelhecer como Lemmy, dono de seu próprio nariz e sem a menor intenção de agradar a quem quer que seja.

Com seu inseparável chapéu preto, roupas de coloração idem e as inacreditáveis botas brancas, Lemmy era uma versão roqueira e real do cowboy sem nome eternizado por Clint Eastwood no cinema. Para os adolescentes, ele é um personagem de histórias em quadrinhos – ou videogame, se preferir – que ganhou vida. E se o Motörhead existiu até hoje é porque Lemmy comandou as coisas da maneira que levava a sua vida: integridade em relação a tudo aquilo em que acredita. Quer uma prova disto? Assista ao espetacular documentário “Lemmy (49% Motherfucker, 51% Son of a Bitch)”.

Nos shows, noventa minutos transcorriam com uma rapidez supersônica. A famosa saudação de abertura de cada uma das apresentações que a banda fazia – “Nós somos o Motörhead e  tocamos rock ‘n’ roll” – já faz parte do panteão das grandes frases da história da música, recebida com o mesmo entusiasmo dedicado a qualquer um dos 438 clássicos do repertório do trio. E quando você é testemunha de uma apresentação que começa com uma dobradinha do naipe de “Iron Fist” e “Stay Clean”, é inevitável sentir certa vergonha ao ver a palavra “rock” associada a grupelhos formados por gente sem talento e sem um pingo de carisma.

Ao lado de Lemmy estavam, nos últimos anos, o comedimento e exuberância sônica do guitarrista Phil Campbell – nos shows, havia um “momento solo” em que ele desfilava uma sucessão de notas surpreendentemente sublimes para o conceito ensurdecedor do trio. E atrás de ambos havia a energia aparentemente inesgotável do baterista Mikkey Dee, cuja fúria ao tocar seu instrumento fazia uma locomotiva desgovernada parecer um carrinho de supermercado com as rodinhas enferrujadas. Os dois formavam os adereços perfeitos para a mitológica presença de palco de Lemmy, tocando seu baixo como se fosse um violão de acampamento e extraindo timbres que qualquer baixista daria o braço esquerdo para conseguir. É impossível ouvir canções como “Going to Brazil”, “Ace of Spades” e “Overkill” e não chacoalhar o esqueleto como se estivéssemos tomando um banho gelado sentado em uma cadeira elétrica.

Certa vez, quando era editor das revistas Cover Guitarra e Cover Baixo, fiz minha única entrevista com Lemmy, uma das melhores em toda a minha carreira como profissional da música. Quando terminamos as questões a respeito de equipamentos e de todos os assuntos a respeito do Motörhead, ficamos ainda um bom tempo conversando sobre outros assuntos, incluindo os motivos que nos levaram a gostar de Beatles, psicodelia dos anos 60 e 70, livros e… ABBA! Foi inacreditável: passamos uns bons minutos discutindo a respeito de qual foi o melhor disco do quarteto sueco. Suas observações eram tão impagáveis quanto difíceis de entender – Lemmy tem um dos sotaques mais indecifráveis do planeta.

Em outra ocasião, ao entrevistar Dave Grohl na época em que estava lançando o disco de seu projeto Probot, ouvi a frase que resume perfeitamente o que Lemmy realmente representa no imaginário de cada um de nós. Quando perguntei a ele sobre a participação do baixista no projeto, Grohl explicou como aquilo havia acontecido e encerrou com a seguinte exclamação: “Pau no c… do Elvis Presley! O rei do rock é o Lemmy!!!”

por Regis Tadeu

#

sábado, 26 de dezembro de 2015

Júpiter Maçã

O rock não é feito somente de ídolos, de grandes músicas e de discos maravilhosos. O rock é feito de heróis, de exageros, de falta de limites. É feito de alma, subconsciente, vísceras, transcendência. O rock é o virtuosismo da própria atitude, é sobre ultrapassar as convenções e demarcar sua trajetória atravessando o que se determina como regra.

Flávio Basso se chamava assim quando introduziu cabeça, corpo, alma e sacanagem dos Cascavelletes no cenário musical brasileiro na segunda metade dos anos 1980. Entre Jéssicas Roses, menstruadas, mortes por tesão e punhetinhas de verão, o escracho, o politicamente incorreto - duvido que a banda faria sucesso no mundo de vigilantes do comportamento alheio de hoje em dia -, um misto entre pornochanchada da Boca do Lixo, cachaça no Bar João, cara de pau e atitude punk tomou conta das rádios mais antenadas, chegando à trilha de novela da Globo e a programa infantil da Angélica. Sem pudores, Flávio tinha a mais pretensiosa banda sem pretensão do Brasil, que falava sobre o que realmente importava para seu público: sacanagem.

Fã de Syd Barrett, dos Beatles, do rock inglês e do rock psicodélico, o homem Flávio virou o mito Júpiter. Em 1996, lançou o maior álbum do rock gaúcho moderno. Sintonizado com Londres, letras absolutamente incríveis e uma inspiração única fizeram de "A Sétima Efervescência" um marco de inspiração na indústria do rock dos anos 1990. Diferente de tudo, lisérgico, arrebatador, o disco fez de Júpiter aquilo que Flávio sempre quis ser. A partir dali, o garoto adolescente que cantava sob um céu de blues passou a cantar na 7ª Efervescência Intergalática. O céu não era o limite, não havia mais limites criativos para o talento de Júpiter, que depois virou Apple, voltou a ser Maçã, cantou em inglês, português, chegou a ser Flávio por um dia, Júpiter para sempre.

O homem Flávio não suportou os excessos do mito Júpiter. Não suportou os excessos do rock, a angústia de querer viver rompendo a zona de conforto da caretice, vivendo como um incompreendido, um outsider, fora de seu tempo, dentro de seu mundo. Júpiter já era refém dos próprios excessos. Cambaleante, corpo frágil, visivelmente alterado em suas aparições públicas, o corpo por trás da alma nos deixou. Não é fácil viver nesse mundo chato. Mitos têm seu próprio mundo. O de Júpiter começava quando batia a sétima efervescência, num barato permanente que só parou quando Flávio caiu.

A alma Júpiter deve estar por aí, com gente legal, que curta Syd Barrett e os Beatles, onde as pessoas sejam mesmo afudê. Um lugar onde as pessoas sejam loucas e super chapadas, como ele, Júpiter. Que ele esteja num lugar do caralho! - por Carlos Guimarães_

Minha timeline no facebook se enche de posts de pesar sobre a morte de Júpiter Maçã, do quão genial ele era etc. Sem entrar na discussão do abuso do termo “gênio”, digamos que o gaúcho Flavio Basso, o Júpiter Maçã era um músico muito talentoso e inspirado sim. - por Alex Antunes

De minha parte, sou fã do álbum Hisscivilization, de 2002, que tem uns achados neopsicodélicos, como a longa e belíssima faixa eletrônica de abertura, “The Homeless and the Jet Boots Boy”. Também gosto de Uma Tarde na Fruteira (2007), este cantado em português, e que traz a canção definitiva da pós-tropicália, “A Marchinha Psicótica De Dr. Soup”, além de outra de suas melhores músicas, a delicada “Mademoiselle Marchand”, cujo clipe foi dirigido por meu amigo Cisco Vasques. (Na foto, Júpiter e Sonia Braga em outro filme de Cisco e Beto Brant, Kreuko – Mundo Invisível).

Posto isso, estranhei o flood jupiteriano nas redes por algumas razões. Primeiro, porque uma boa parte do tempo ele era uma figura mais chapada e folclórica do que propriamente genial.  Essa entrevista no programa de Rogério Skylab é um exemplo do quão sexualmente bobo e constrangedor ele podia ser (evidentemente Skylab, que é um falso maluco com uma perfeita noção de timing desconfortável e nonsense, faz a coisa funcionar – e chega a fazer uma pergunta jornalística, se uma queda de Júpiter do segundo andar de um prédio em 2012 foi acidente ou tentativa de suicídio. Júpiter finge que está dormindo).

Segundo, porque não se sabe bem onde estavam esses fãs exaltados todos antes dele morrer. Tudo bem, há um elemento que é o “fator gainsbourg”, ou “fator bukowski”: há artistas com quem fica bem mais fácil de se lidar depois de mortos. Vivos, não se sabe como usarão seus trunfos (provavelmente sendo inconvenientes ao extremo). Nos círculos feministas, e não só, a personalidade abusiva de Júpiter foi posta em questão. Recentemente ele teve que ser retirado de uma ocupação artística em São Paulo, a Ouvidor 63, para não conviver com mulheres com quem tinha um histórico de agressão. Essa discussão foi feita abertamente no coletivo. Mas não quero me focar no aspecto feminista (ou seja, criminalmente imputável) da questão, mas no “comportamento abusivo do gênio incompreendido” como um todo.

Creio que essa fantasia brianjonesiana/ sydbarretiana, que Júpiter abraçou, e que conduzia forçosamente à incapacitação e à morte precoce, tem uma conivência perversa dos fãs. Por um lado, ele foi realmente importante para uma geração que descobriu a psicodelia com seu primeiro disco solo, A Sétima Efervescência (1997). Acho o frisson em torno desse disco meio exagerado, mas certamente é um salto considerável em relação às bobagens repulsivas da sua banda anterior, os Cascavelettes.

A importância dessa transição para o público de Porto Alegre, no entanto, demonstra apenas como o Rio Grande do Sul é apegado aos mitos datadões do rock. Eu acho que fazia todo o sentido, na época, a vida no fio da navalha de Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, ou de Brian Wilson (que não morreu, só lesou – assim como nosso representante nacional, Arnaldo Baptista). Porque eles estavam realmente captando uma enorme energia social de transformação, no momento em que ia colapsar. Eles simplesmente colapsaram junto.

Também fazia sentido a descoberta pela indústria fonográfica de como “empacotar” e vender melhor a rebeldia, na época em que o Led Zeppelin, por assim dizer, era pago para quebrar quartos de hotel. Mas esse embate não faz sentido hoje – a não ser como reprodução romântica (ou mesmo trágica) de clichês. Júpiter Maçã não estava se embatendo com nada real. Poderia estar juntando e trocando seus trunfos na produção independente em novos discos e shows como fazem, digamos, bandas tão inquietantes quanto o Cidadão Instigado. Eu não disse que é fácil – mas que essa é a real aventura, não o recurso mais óbvio ao autocolapso, à autocondescendência. Claro, ele pode ser considerado vítima de uma doença, a da adicção a substâncias.

Mas a celebração um pouco descabida da sua “genialidade” me leva a crer que um contrato mórbido com seu público foi cumprido. Se a escolha desse destino de “bode sacrificial” já era meio besta para Kurt Cobain (que ao mesmo tempo repudiava e acreditava em seu estrelato), o que dizer dessa mesma encenação em escala ínfima e tropical? Reproduzo um relato de um amigo meu, então distribuidor de discos, que me parece colocar a questão na perspectiva correta, com todas as tags no lugar (automitificação, relação ambivalente com mulher, mico no gerenciamento de carreira).

Aí vai: “Eu o conheci uma única vez… e posso dizer que foi a reunião mais constrangedora que ja fiz. Ele estava muito doido e acompanhado de sua mulher na época tentando me ‘vender’ seu novo álbum. Os dois ficaram a reunião inteira discutindo na minha frente, e o Júpiter quase foi as vias de fato no momento em que a sua mulher discordou de uma de suas afirmações (a de que ele era melhor que o Caetano Veloso)… Ele ficou muito nervoso com ela, levantou da mesa agressivo e foi em sua direção… eu tive que intervir… Depois de meia hora de desculpas e já sem a mulher (que foi embora) continuamos… Gostava muito de sua música, mas confesso que não tinha muito saco para esse tipo de personalidade. RIP.”

Ao contrário dos nossos  hábitos santificadores cristãos, não vejo grandes problemas nas críticas pós-morte. Se esses são momentos de balanço, não vejo porque não meter alguns elementos mais sórdidos/ realistas – não para cotejar moralisticamente a obra com a vida, mas para entender como uma alimenta a outra, no que é o processo criativo. Idealizar alguém é mais desleal do que lembrar os erros, que são a única fonte real de aprendizado na vida.

Expandindo o que disse o meu amigo distribuidor, eu não só não tenho muito saco para esse tipo de personalidade, como acho que esse grau de autocondescendência “maldita” deixou de fazer qualquer sentido neste século. Simplesmente não interessa o quanto a figura em questão seja talentosa – ela tem mais é que segurar a barra, porque não existe mais um mainstream cultural sufocante, apenas o caos (que deveria ser seu elemento). E ninguém tem direito a designar a si mesmo como lixeira vibracional da sociedade.

Quem surfa nessa vaibe é porque está pendurado nos mitos culturais do século passado – ou na sua reprodução (cada vez mais) patética. Abaixo o salvo-conduto para o abuso dos “gênios” supostos e incompreendidos. É o crepúsculo do Zé Louquinho.

#

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Dias difíceis no Suriname ...

Plástico Lunar é uma banda sergipana, de Aracaju. E é uma das melhores bandas de rock em atividade no Brasil. Ponto.

Digo isso de forma absolutamente lúcida, pensada e repensada, e sem nenhum resquício de “bairrismo”. Pois bem: estabelecida esta verdade irrefutável, de fácil comprovação por qualquer um que se disponha a conhecer a música deles, devo dizer que acabaram de lançar o melhor disco já produzido por aqui. Ponto, de novo.

“Dias difícil no Suriname” teve uma longa gestação: começou a ser gravado em maio de 2012 e só foi finalizado dois anos depois. No processo, a banda perdeu um de seus principais componentes, o guitarrista Julio Andrade, que saiu para se dedicar a seu projeto principal, o duo The Baggios. Como fã, fiquei preocupado, pois era notória, nas apresentações que se seguiram, a dificuldade dos caras em se adaptar à uma nova formação, mais enxuta – normal, não deve ser fácil substituir um guitarrista como Julico. Mas sempre botei fé que iriam se ajustar. Só não sabia se a tempo de não prejudicar o novo álbum em gestação ...

Pois bem: o disco foi lançado há alguns meses, de forma virtual, e foi uma agradável surpresa. É magnífico! Já começa escancarando uma de suas principais influências, na “stoneana” “Todo pecado do mundo”, que abre com um excelente riff de guitarra. Julico toca nela e em mais quatro faixas. Em outras três, o auxílio vem de Rafael Costello, membro fundador, hoje morando em São Paulo. Little Mel, da Máquina Blues, aparece em “Labirinto”, e Fabrício Rossini em “A esperança”.

Foi assim, com uma ajuda providencial de amigos e ex-integrantes pra lá de talentosos, que a Plástico lapidou esta verdadeira obra-prima da música independente local. Que prossegue com uma velha conhecida, já lançada como single, a belíssima “Mar de leite azedo”. “Sentado no Arco-iris”, a terceira faixa, comprova, de certa forma, o talento dos caras, pois é uma composição de dois ícones do rock brazuca, Raul Seixas e Gileno Azevedo (da dupla “jovemguardista” Leno e Lillian), mas parece deles – e não sou só eu que tenho essa impressão: até hoje vejo gente se surpreender ao saber que se trata de um cover.  É, também, uma faixa bônus para quem comprar o disco físico, em CD, já que não havia feito parte do lançamento virtual por conta de imbróglios com a liberação dos direitos autorais.

O disco prossegue com “Cancioneiro”, uma robusta composição de Julico cantada por Marcos Odara, o baterista, que bate um bolão também como vocalista. É uma banda, aliás, que tem bons vocalistas de sobra – além de Daniel e Odara, Plástico Jr. também costuma entoar suas próprias composições.

“Quem diria”, que vem na sequencia, é uma emocionante ode ao aconchego do lar, com uma letra singela que Daniel compôs pensando em sua mãe. Emocionante. Daniel é um  compositor de mão cheia e excelente vocalista. Em parceria com Nara Loupe e Verlane Aragão, é o responsável por sete dos doze petardos que compõem o disco. O lado A – o disco foi pensado como um vinil – se encerra com outra dele – e dela, Nara – “Labirinto”, com uma letra psicodélica e surreal embalada por um ritmo cadenciado. Plástico Jr., baixo e voz, abre o que seria o lado B com a também psicodélica “Amanheceremos”, que tem uma perfomance marcante de Leo Airplane nos teclados. Leo Airplane que é, também, o produtor do disco, é bom que se diga...

“Algo forte” dá prosseguimento à viagem sonora de volta ao rock mais “hard”, com sensacionais riffs e solos de guitarra – quem? Ele, de novo. Julico. Mas a disputa é boa e Rafael Costello dá mais uma vez o ar de sua graça com mais uma levada tipicamente “stoneana” em “Persona non grata”. O solo é absolutamente sensacional, totalmente na tradição do melhor do rock “setentista”.

E então temos a mais pesada, “Quase desisto”, outra excelente composição de Julico, e “Nem aí”, mais uma de Junior – com uma letra totalmente “foda-se”, rock and roll! Encerrando tudo, a belíssima “A esperança”, levada no violão. Sintomático que o disco acabe com uma música com este nome. Temos esperança de que os dias passem a ser mais tranqüilos no Suriname e a banda siga em frente, apesar das dificuldades ...

Por fim, é preciso que se fale com um carinho especial sobre a concepção visual do projeto gráfico, com belíssimas artes conceituais produzidas por Thiago Neumann que valorizam muito o produto final. Salta aos olhos, também, a qualidade do material em que o digipack foi impresso. Impecável! Com direito, inclusive, a impressão na parte interna do envelope onde fica guardado o encarte. Um luxo! Bola dentro total da Rock Company, a gravadora paulistana que bancou o projeto.

“Dias Difíceis no Suriname”, o disco – físico, em CD - foi lançado em grande estilo no dia primeiro de novembro com uma apresentação concorrida no Teatro Atheneu. A gravadora promete para o início do ano que vem uma edição em vinil. Merece muito, tanta pela música, que soa sempre melhor quando ouvida através de uma agulha, quanto pela espetacular arte de “Cachorrão”.

Já tenho o CD, mas vou querer o LP! E se sair em k7, quero também ...

http://plasticolunar.com.br/

A.

#

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

30 Anos de “Psychocandy”

Nunca vou esquecer a primeira vez que ouvi “Psychocandy”, o primeiro disco do Jesus And Mary Chain. Foi mais ou menos na época do lançamento, ainda na década de 80 do século passado – acho que 1986. Eu tinha meus 15, 16 anos no máximo, e estava começando a mergulhar nesse universo vasto e, para mim, desconhecido, do rock and roll, pelo qual eu me interessei vendo o primeiro rock in rio na TV. A revista Bizz chegava lá na minha cidade – Itabaiana, 50 km de Aracaju, Sergipe – e serviu como guia. Foi em suas páginas que li sobre aquele grupo de escoceses malucos que só se vestiam de preto e estavam sempre com os cabelos desgrenhados. Estavam causando furor com shows ensurdecedores de 15 minutos nos quais tocavam de costas para o público...

Um amigo tinha o tal disco e eu fui lá na casa dele ouvir. Primeiro foi o estranhamento com a faixa de abertura, “Just like honey”: etérea, sussurrada, com uma gravação abafada e guitarras cortantes, mas nada demais, em termos de agressão sonora. A partir do momento em que a agulha chegou aos sulcos da musica seguinte, no entanto, foi um choque! Aquilo era algo realmente novo, mesmo para meus ouvidos já acostumados com Metallica, Slayer e Megadeth. Era muito, muito barulhento, mas ao mesmo tempo era doce, melódico. Pop, num certo sentido. Um doce psicótico – poucas vezes o título traduziu tão bem a sonoridade de um disco.

Não tinha, na época, bagagem musical suficiente para enquadrar mentalmente o que me entrava pelos ouvidos, mas hoje sei que se tratava de uma espécie de continuação do que vinha sido feito naquela década por bandas como The Cure e Echo And The Bunnymen, com seu pop "esquisitão", temperado com influências do radicalismo undeground do Velvet - especialmente do segundo álbum, "White Light/White Heat" - e do punk rock safra 77, de Sex Pistols e afins. “Psychocandy” é, na verdade, uma daquelas obras que inauguram um novo estilo, para o qual os críticos têm que se desdobrar para criar um rótulo – “shoegaze”, no caso. Um rótulo que, na verdade, só foi criado algum tempo depois, quando a atitude e a atmosfera sonora daquele álbum seminal foi lapidada por bandas como My Bloody Valentine, Ride e Slowdive.

Eu virei fã de grindcore, mas “psychocandy” segue sendo o disco mais barulhento que eu conheço – sim, mais que “From slavement to obliteration” ou as “peel sessions” do Napalm Death! É o único que eu não consigo ouvir inteiro no volume ao qual estou acostumado: chega um momento em que os ouvidos começam a doer ... 

É tipo uma serra elétrica lubrificada com mel. 

E é lindo!

A

#

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

DoSol 2015

Soubesse eu que meu ídolo e amado Adelvan Kenobi me concederia a honra de ocupar este nobre espaço com minhas impressões sobre o que vi no Festival DoSol no último fim de semana em Natal/RN, certamente eu teria ativado meu botão ‘repórter’ e teria pelo menos levado um bloquinho com caneta para facilitar essa tarefa hercúlea que tenho agora.

Porque é uma coisa de louco aquilo. Uma maratona inacreditável uma média de 30 bandas por dia se revezando, às vezes ao mesmo tempo, entre 4 palcos, espalhados por galpões em uma rua fechada na área portuária de Natal. O rock começa cedo, às 16h, e segue até a madrugada. No sábado, 07/11, terminou mais de 4h da manhã, com o show lotadaço do novo fenômeno “indie universitário” Figueiroas. Eu não sei de onde a galera tirou energia pra dançar lambada àquela hora naquele calor. Eu estava em frangalhos.

Skabong
Mas comecemos do começo...

Sábado – 07/11/2015 - Resolvi ir pro DoSol porque tive a chance de viajar junto com a galera da Skabong, aqui de Aracaju, que foi escalada pra tocar. Saímos na sexta à noite e chegamos no sábado. Portanto, perdemos a primeira noite do festival. Uma pena. Perdi o show do Cigarettes que eu posso dizer que há décadas que queria muito ver. Mas tudo bem.

No sábado, a maratona começava cedo e o Skabong(SE) era logo a segunda banda da programação. Tocaram ainda de tarde, pra uma plateia não muito numerosa, mas atenta, e fizeram o melhor show que puderam. Coeso, redondo e cheio de energia. A galera reagiu bem. Sou suspeita, mas gostei muito.

Moloko Drive
Depois disso, o que se segue é uma avalanche de shows que são um teste pra memória estética e pra dignidade física de uma roqueira desleixada e com problemas de saúde, como eu. Uma das primeiras bandas que eu lembro de ter chamado minha atenção foi o Moloko Drive(RN). Show bacana, maduro, composições instigantes. Impossível não relacionar o som deles ao estilo stoner do QOTSA, mas isso não chega a ser um problema. Gosto muito desse tipo de som. Me pegou de cheio. Acabaram de lançar disco pelo selo Mudernage.

Não vou listar os shows de um em um porque simplesmente não consigo me lembrar e/ou não prestei atenção. Então, faço a seguir uma seleção baseada na minha memória afetiva. Se lembro é porque curti. Ou quase isso.

Carne Doce
Próxima da lista que me capturou os sentidos foi uma banda de Goiânia chamada Carne Doce. Daquelas que você passa pra dar “um saque” e se pega dizendo “UAU”. Impossível não me conquistar a mistura de vocal feminino com um toque Elizabeth Frasier cantando em bom português e levadas viajantes a la Tortoise ou Hurtmold, pra ficar nas referências nacionais. Tudo muito bom, gostoso de ouvir, sem afetação, sincero. Certamente está no meu top 5.

Em seguida um show que eu há muito espero pra ver ao vivo. Acho que conheço o The Automatics(RN) há tanto tempo quanto conheço o Snooze (guitar band aqui de Aracaju que fez parte da minha vida por longos 13 anos), ou seja o tempo que devo ter nessa vida de indie rock. Como eu imaginava, não me decepcionaram. Guitar noise arrastado da melhor qualidade, fazendo jus a seus 14 anos de estrada. Showzaço.

The Automatics
Lembro de, ao menos, duas pessoas cantando no meu ouvido: ‘não perca o show da Marrero(SP)’. Fui lá conferir. Rock de macho, até nas caras e bocas do vocalista. Como diz na descrição do soundcloud deles: “Uma banda com raiva.” Hehehehe, deu pra perceber. Mais daquela pegada stoner, que apareceu muito pelo festival. Não estou reclamando. Gostei, só não entendi porque eles tocaram de novo no domingo.

Aláfia foi realmente um diferencial em meio a tanto rock raivoso. Outro daqueles momentos ‘UAU’. Fazem um groove sensacional, flertando com sonoridades da black music setentista, funk, rythm’n’blues, soul e por aí vai... A vocalista maravilhosa tem uma baita voz e ótima presença de palco. Me ganhou muito. Estão lançando o segundo CD, Corpura. Fodástico. Recomendo muito.

Thiago Petit
Do show do Thiago Pethit eu me lembro de ter tentando entrar pra dar aquele saque. Estava lotadaço e o público estava ensandecido. Bem na hora que eu chego, sobe um(a) fã no palco e tasca um beijo de língua na boca do cara. Nossa! Que susto. Já gostei. Nunca tinha sacado o som dele, mea culpa. Vou chover no molhado aqui se disser que o som do maluco é bacana. E o show? É insano. Prefiro me guardar pra outra vez que eu tiver visto só ele em outra oportunidade.

A essa altura eu já nem enxergava as pessoas direito e já tinha falado com umas três pessoas estranhas achando que eram gente conhecida. Estava perdida, tentando entender como eu tinha me perdido da minha carona quando me deparei com o show do novo “mito universitário”.

Figueroas "Lambada quente"
“Fofinha, fofinha, fofinha...” (Gosto de pensar que essa música é pra mim, hahaha). Figueiroas Lambada Quente! Mais de 3h da madrugada e aqueles roqueiros ainda tinha energia pra dançar lambada quente... não, infernal (calor da porra, hein, Natal?!).

O que eu entendo que rola ali é o seguinte: Dinho Zampier, meu brother alagoano de outros carnavais, é o talento musical que garante a precisão daquela estética que sai redonda, gorda, cheia de improvisos legais, enquanto isso o “Figueiroas” arrasa no personagem, dança mesmo, canta mesmo, se entrega. E a galera se entrega junto. Funciona demais. Fica constrangedor estar perto do palco e não se balançar ao menos. É sincero aquilo que rola ali. Não é apenas humor. Aquela música e aquela energia estão rolando ali de verdade. O público entende isso. Acho válido. Mas eu não sei dançar lambada.

Boys Bad News
Domingo – 08/11 - No domingo, uma outra banda tipo stoner sexy guitar rock fez um dos primeiros shows que eu consigo lembrar: Boys Bad News , do Maranhão. Nada muito inovador, mas foram bem no palco, pegada instigante, conquistaram o público, eu inclusa.

Provavelmente a que mais impressionou nesse dia, e não foi só a mim, foi a AK-47 (RN). O vocalista, Juão Nin, que também é ator, abriu o show com uma performance do lado de fora do galpão saindo de dentro de uma daquelas máquinas de fazer cimento em construção civil, gritando “índio viado, índio tóxico, índio trans”!

Dava pra entender uma sugestão de ativismo gay e ambiental aí, que logo se confirmou nas letras das músicas. Da betoneira ao palco, aquele homenzarrão imenso (e lindo!) soltou uma voz poderosíssima acompanhado por uma banda não menos de peso que deixou a mim e aos presentes de queixo no chão.

AK-47
O som da AK-47 é pesado, rasgado, gritado, ou “visceral”, como eles se descrevem na biografia do facebook. Aqui e acolá, há um flerte com batidas tribais. Bateria e percussão são bem pronunciadas, e as guitarras, óbvio, bem altas e com muita distorção. Difícil não associar ao que ficou conhecido como Nu Metal, mas o rótulo é pouco (como são todos) pra enquadrá-los. O disco novo, Anêmola, está disponível pra download na página da banda. Tem que conferir.

Seguem-se mais dois shows de rock de responsa altamente recomendáveis. Monster Coyote é uma banda nervosíssima de Mossoró, interior desértico do RN. Fazem uma mistura de metal stoner pesadíssimo. Cacete, porrada, pauleira. Basicamente isso. Gostei muito.

Water Rats
Os curitibanos do Water Rats mandam um punk de primeiríssima, meio setentão, ótimos vocais, ótimos riffs, impossível ficar parado. A galera tem bastante estrada e interage super bem com o público. Fizeram um show muito instigante.

Os gringos da DOT LEGACY parecem ter agradado geral. Eu devo ter escutado meio atravessada. Achei som de gringo fazendo gringuice. Franceses com cabelo crespo, pulando alto e fazendo careta devem fazer um sucesso por lá. Pra mim, de cara já é um ponto a menos. Ainda mais quando eu ouço, nem que seja um indício de tentativa, da famigerada experimentação, ou “mistura de ritmos”. Ah não! De novo isso? Quantos a gente num já viu desses por aqui né? Desculpaí. Curti não. Altamente esquecível.

Mad Monkees
Em um dado momento do domingo, Levi Marques (vocalista da Skabong) me chama pra ver o que tá rolando no palco “estúdio Petrobrás” – na verdade um container, do lado de fora dos galpões. Ele diz, meio chocado: “Você tem que ver isso!”

Era a banda Mad Monkees , do Ceará. E o que chamava a atenção era o baterista super mega feeling virtuose dando um show à parte. Comentei: “Lembrei do Babalu”. Entendedores entenderão. Banda foda e baterista mais ainda. Vale dar um saque no trabalho dos caras.

O show do DEAD FISH OFICIAL conseguiu provocar um fenômeno: esvaziou completamente todos os outros ambientes do festival. Estava TODO MUNDO lá. Hardcore nunca foi totalmente minha praia e eu nunca tinha animado pra ver um show desses caras, mas já que tava no bolo e pelo precinho fui lá conferir. Sim, um ótimo show, como eu imaginei. Público pirando, festival de mosh, bonito de ver e tal. Mas continua não sendo o tipo de som que me instiga. E em um festival como esse, eu, sinceramente, prefiro dar atenção às bandas que eu sei que não vou ter outra chance de ver. Me parece meio lógico.

Girlie Hell
Quase terminando a noite, sobem ao palco as roqueiras, super roqueiras, com muita pose de roqueiras, da Girlie Hell (GO). Não gosto da afetação que vejo em algumas bandas da safra goiana recente. Parecem, quase todas, muito preocupadas em ter a famosa “atitude roquenrol”. Torço um pouco o nariz quando vejo esse excesso (não são as primeiras), mas curti o som das meninas mesmo assim. Rockão clássico, composições legais, bom vocal. Se investirem mais na música e menos na pose tem futuro.

O ultimíssimo show que eu vi, esse eu lembro bem, foi dos cariocas da Confronto. Banda de metal hardcore respeitada, com 14 anos nas costas, suas letras de resistência dos oprimidos vieram bem a calhar pra encerrar essa imersão roquística nos lembrando bem de onde nós, roqueiros velhos e resistentes, viemos e porque continuamos fiéis a essa merda toda, mesmo sem ganhar nenhum tostão.

Texto: Maíra Ezequiel

Fotos: Rafael Passos

Juão Nin, vocalista do Ak-47, mitando no domingo


terça-feira, 10 de novembro de 2015

Morrissey, uma entrevista ...

Há uma espécie de penumbra de azar que parece perseguir Steven Patrick Morrissey nos últimos anos. Internações às pressas, tratamento contra um câncer, um disco de inéditas deixado de lado pela gravadora. Aos 56 anos, o ex-vocalista do Smiths luta para se manter na música, embora já não saiba mais por quanto tempo permanecerá nos palcos. A turnê que chegará ao Brasil a partir de 17 de novembro, e terá ainda mais três datas (outra em São Paulo, dia 21; no Rio de Janeiro, dia 24; e Brasília, dia 29), pode muito bem ser a última em um bom período de tempo. Em entrevista ao Estado, por e-mail (forma como ele há tempos costuma preferir se comunicar com jornalistas), Moz diz não ver razão para permanecer na estrada se não há novas músicas para apresentar.

World Peace Is None of Your Business, o mais recente disco de inéditas, lançado em julho de 2014, saiu após cinco anos desde Years of Refusal e uma briga intensa de Moz por um contrato com uma gravadora. Ele, ícone de qualquer adolescente que tenha tido o coração partido e encontrado alívio ao mergulhar nos versos dele com o Smiths durante os anos 1980, encontrou dificuldade em chegar a um contrato vantajoso — e se recusava a lançar o álbum de maneira independente.

Encontrou o que desejava com a Harvest, selo indie que integra a major Universal Music, mas a relação com a empresa foi conturbada. Morrissey reclamou que foi deixado de lado. "Abandonaram o álbum depois de uma semana de lançamento", escreveu ele na entrevista. E foi direto em críticas ao presidente da companhia, Steve Barnett, do melhor jeito Morrissey de ser. "Espero que ele engasgue ao comer uma bisteca", disse o vegetariano. "Sem novas músicas, não há mais sentido para turnês. Meus shows sempre foram um grande sucesso, mas os grandes selos somente estão interessados em vencedores de reality shows musicais e cantores que não desafiam ninguém."

Nos últimos dois anos, Morrissey desmarcou outras apresentações por razões diversas. A última turnê pelo Brasil, marcada para 2013, foi cancelada por "motivos pessoais". O inglês havia sido internado por intoxicação alimentar no Peru. Uma gripe obrigou-o a desistir de shows pela Europa em 2014 e, mais recentemente, ele revelou, em entrevista ao jornal espanhol El Mundo, que passou por várias intervenções cirúrgicas para retirada de tecidos cancerígenos. "Se eu morrer, morri", brincou, na época.

Morrissey está ferido — e com a cabeleira rala, segundo ele revelou, por causa da medicação contra o câncer -, mas ainda é afiado como sempre: "(Me reunir ao Smiths para o Hall da Fama do Rock) é algo tão inimaginável quanto assumir que eu me juntaria ao Led Zeppelin". O que, cá entre nós, é um alívio dos grandes.

Você passou por alguns problemas de saúde nos dois últimos anos, ocasionando alguns cancelamentos de turnê. Os fãs ficaram bastante preocupados. Como você está se sentindo agora?
Morrissey — Estou extremamente bem, mas sob o efeito de vários medicamentos. O que, obviamente, causa mais dano do que a própria doença! Mas não é algo que seja preocupante. Perdi muito cabelo por causa da medicação, mas o qual é o problema disso, certo?

Em sua apresentação mais recente antes dessa entrevista, em Cesena, na Itália, no dia 8 de outubro, você escolheu executar seis músicas do disco mais novo, do ano passado. Como essas músicas estão funcionando ao lado das clássicas?
Morrissey — As novas canções são mais populares do que as antigas. Nós tivemos garotos de 14, 15 e 16 anos na plateia. Eles estavam ali por causa de World Peace Is None Of Your Business. E isso é gratificante.

Há um ano, entrevistei Joe Perry, guitarrista do Aerosmith, e, no papo, ele questionava a importância de se lançar um novo disco, com novas canções, para um artista com tanto tempo na indústria e tantos hits, como ele e sua banda. Disse que os fãs só querem os clássicos. Isso foi algo que mantive na cabeça. Para um artista com tempo de estrada e músicas que são sucessos já garantidos, qual é a importância real ainda de compor canções e mostrá-las ao vivo?
Morrissey — Acho que é importante pelo senso de progresso, entende? Porque, de outra forma, se você permanecer com o mesmo material, pode parecer que sua fonte secou. Você vai parecer um esqueleto em uma cadeira de balanço.

Então, para você, até que ponto um artista deve seguir o desejo dos fãs pelas músicas mais clássicas, ou antigas? Há um limite?
Morrissey — Sim, existe um limite! Se você se deixar ser levado pelo público, você não passa de um fantoche de pano. Existe um equilíbrio muito sensível aí.

Vamos falar sobre o processo criativo de World Peace Is None of Your Business? Cinco anos depois de Years of Refusal, qual foi o ponto de partida, o primeiro conceito para esse disco?
Morrissey — Acredito ter sido o que se tornou conhecido como a Primavera Árabe. A palavra ‘primavera’ foi usada para determinar um novo começo, e a revolta do povo egípcio deu início a uma fascinante ebulição de eventos muito positivos ao redor do globo. As pessoas não precisam mais de um governo hostil para falar por elas. Continua ocorrendo na Síria, onde as pessoas buscam ver além do governo corrupto. A maior parte das coisas que sentimos não se reflete nos governantes que, supostamente, deveriam representar nossas vontades. Eles foram eleitos com a promessa de nos ajudar.

Pelo o que eu me lembro, você não ficou satisfeito com a forma que a gravadora Harvest trabalhou no seu disco. Li que você estava desapontado com a maneira como eles promoveram o álbum inédito. Como o marketing na indústria fonográfica mudou com o passar desses anos? Acha que cantores pop atuais seriam capazes de atingirem o mesmo sucesso nos anos 1980?
Morrissey — A gravadora simplesmente abandonou o disco depois da primeira semana de vendas! Eles não o promoveram e, mesmo assim, o álbum chegou ao segundo lugar das paradas no Reino Unido e no 14.º nos Estados Unidos. Ainda assim, eles não ajudaram. O selo tinha medo porque o disco era muito forte, muito combativo. E é uma grande tragédia, porque o álbum é muito poderoso. Mesmo que o chefe do selo, Seve Barnett, tenha dito que o disco era uma obra-prima, foi evidente que ele não sabia o que fazer com ele. O selo só sabe lidar e trabalhar com músicas que são sem graça. Hoje, o marketing é que dita as regras na música. Sucesso é comprado e, consequentemente, a música mundial está nesse estado moribundo graças a pessoas como Steve Barnett.

World Peace Is None of Your Business é um álbum poderoso nesse caráter combativo. Acredita que ele conseguiria ir mais longe se a gravadora tivesse trabalhado nele? O quão longe estamos falando?
Morrissey — Acho que não há dúvidas de que o disco explodiria em todas as partes do mundo, porque ele dialoga com absolutamente tudo o que ocorreu entre 2014 e 2015. E o faz de uma forma que ninguém mais fez. Estou surpreso pelo fato de Steve Barnett não ter sido demitido. Ele sempre será lembrado por ter enterrado World Peace is None of Your Business. E espero que ele engasgue ao comer uma bisteca.

Li no site True To You, que é uma espécie de site oficial seu, que não haverá mais shows no Reino Unido, já que não há planos para novos lançamentos musicais. Essa ideia ainda está de pé? E ela se estende para o resto do mundo? Seria essa a última turnê até o próximo acordo com uma gravadora e o lançamento de um novo disco?
Morrissey — Nós já fizemos muitos shows, especialmente no Reino Unido, mas sem novas músicas, não há mais sentido para isso. As turnês sempre foram um grande sucesso, mas os grandes selos somente estão interessados em vencedores de reality shows musicais e cantores que não desafiam a mente de ninguém.

Seus dois livros, uma autobiografia e o recente List of the Lost, tiveram bons números de venda. Você se considera um escritor?
Morrissey — Eu sou quem eu sou por causa da música. E isso se mantém dessa maneira mesmo que eu apenas cante no banho, e não mais para milhares de pessoas. Cantar é a realização mais pessoal que já experimentei.

No começo deste mês, o Smiths foi novamente indicado como um dos nomes possíveis para entrar no Hall da Fama do Rock and Roll Você já pensou sobre o que vai acontecer se a banda foi indicada?
Morrissey — Eu enfim tenho uma boa vida. Digo, hoje eu tenho uma vida melhor e mais bem-sucedida do que dos tempos que estive com o Smiths. Então, eu não entendo porque poderia haver alguma razão para eu ser sugado de volta para aquilo. É algo tão inimaginável quanto assumir que eu me juntaria ao Led Zeppelin.

NOTA: Sábado tem Morrissey no programa de rock - "me conte uma novidade", você deve estar pensando ...

19H, 104,9 FM em Aracaju e região
www.aperipe.com.br

Fonte: BEM PARANÁ
Sem crédito de autoria

#