terça-feira, 30 de novembro de 2010

# 171 - 26/11/2010

O programa de rock da última sexta-feira foi ao ar no clima da “Zombie walk”, flash mob inspirado na criação imortal de George Romero que aconteceu no sábado, dia 27, na praia de Atalaia (é isso aí, zumbis praieiros !!!). Por isso tocamos “exército de zumbis”, faixa do mais novo lançamento do Ratos de Porão, um split com a banda Looking for an answer, “Zombies”, música da excelente banda de skacore sergipana Friendship, uma faixa de “Fome de tudo”, último disco da Nação Zumbi, e outra de “aqui começa o inferno”, dos zumbis do Espaço. No último bloco, praticamente na íntegra, a trilha sonora de “Return of the living dead”, clássico trash dos anos 80 e uma das mais célebres paródias aos filmes de zumbi, com nomes como The Cramps, The Damned, 45 Grave (pioneiros do “horror punk”) e TSOL (True Sounds Of Liberty).

Tivemos ainda Os Reis da Cocada Preta, banda paraibana que se apresentou em mais uma Noite Fora do Eixo junto com os sergipanos The Baggios e Urublues, um bloco psychobilly, cortesia de nosso camarada Igor, the perigor, sergipano atualmente radicado no Paraná, e algumas bandas brasileiras eletrônicas “low fi” underground dos anos 90, incluindo três projetos sergipanos capitaneados pelo artista plástico e multiinstrumentista autodidata Jamson Madureira: Camboja, Misery High Tech e uma faixa de um disco solo que ele lançou já nos anos 2000.

O Camboja foi uma das mais interessantes formações rock do cenário sergipano. Começou como mais uma das muitas bandas de grindcore que surgiram na época, mas já com uma pegada diferente. A primeira formação, no entanto, não demorou muito – o tempo apenas de gravar uma demo-tape e fazer 2 ou 3 shows. Com a saída de Fúria e Sergio (este ultimo para fundar uma outra banda, a METÁFORA, mais direcionada ao metal propriamente dito, especificamente o thrash metal), Jamson Madureira, baterista na primeira demo, dedicou-se a tocar guitarra e continuou o projeto como uma “one man band”. Para acompanhá-lo na empreitada passou a experimentar percussões eletrônicas rudimentares que produziram alguns resultados bastante interessantes, porém de péssima qualidade sonora. Com o tempo foi convencido a recrutar um baterista, o que se concretizou na figura de Lelinho, sobrinho de Sylvio e então balconista da Lokaos, uma loja especializada em rock que ficava na Rua de Santo Amaro, no centro de Aracaju. Não abandonou por completo, no entanto, as experimentações eletrônicas, passando apenas a encaixá-las como vinhetas ou mesmo usando-as como percussão com baterias eletrônicas em algumas musicas. O resultado foi bastante inusitado e eu diria até que revolucionário para o cenário local da época, muito preso a fórmulas já um tanto desgastadas e repetitivas. Gravaram uma nova demo, intitulada “Lies about freedom”, e passaram a fazer shows, àquela altura (1992/93) já bastante influenciada pela ascenção de uma cena forte de rock industrial pelo mundo, capitaneada pelo Ministry e pelo Nine Inch Nails. Mas seguiu seu caminho meio que solitária, nadando contra a maré. Tornou-se uma banda “cult” entre os que compreenderam melhor sua proposta inovadora, mas não fazia grande sucesso entre os punks e headbangers, que eram a esmagadora maioria entre os que freqüentavam shows alternativos na época. Isso porque a banda tinha realmente um som bastante original. As musicas eram, invariavelmente, extremamente minimalistas – um riff (sempre muito bom, diga-se de passagem) e uma frase em inglês repetidos à exaustão até o fim – que não demorava muito, as faixas não costumavam durar mais que 2 minutos. Nos shows, muito improviso, regados a ruídos de microfonia, distorção e dissonâncias, e nas demos muitas colagens de sons, sempre muito bem sacadas e bem encaixadas. Isso tudo com o mínimo de recursos. É de se imaginar o que Madureira conseguiria fazer, na época, se tivesse à sua disposição a tecnologia de que um Al Jourgenson ou um Trent Reznor (seus ídolos confessos) dispunham. Mesmo assim houve uma tentativa de se dar um “upgrade” à banda. Numa terceira fase, o incansável Sylvio (karne krua) incorporou-se à dupla como segundo guitarrista, num resultado bastante satisfatório em que ele se empenhava em experimentar efeitos sonoros e criar climas com as guitarras para servir como contraponto aos riffs poderosos de Madureira. Com essa formação, e com a participação de Marlio, também karne Krua, no baixo, gravaram uma terceira demo, desta vez em estúdio. Uma outra característica inusitada da banda, por sinal, era nunca contar com um baixo em sua formação - gravaram com baixo apenas depois de muita insistência da parte de Marlio. O resultado, no entanto, não foi dos mais satisfatórios – o timbre da guitarra, em especial, ficou péssimo, raquítico, um verdadeiro crime em se tratando do Camboja, cujo som era quase que inteiramente baseado nos riffs de Madureira. Por conta de todos estes contratempos, especialmente a falta de recursos e a falta de um produtor que compreendesse o espírito da banda, o Camboja acabou sem deixar nenhum registro decente de suas brilhantes composições que atendiam por títulos (quase sempre depressivos e/ou atormentados) como “don’t close your eyes to my misery”, “what do you know about my pain?”, “machine man”e ‘italian sexy movie”. A banda acabou em algum ponto no meio dos anos 90 – na verdade não houve um fim oficial, apenas Madureira foi perdendo o tesão de tocar, segundo ele mesmo. O ultimo show (que não estava previsto para ser o ultimo show) foi especialmente memorável. Foi no Mahalo da Atalaia, abrindo para o Kafila, do Piauí, e contou com Cícero Mago, irmão de Madureira, na bateria, substituindo Lelinho, que havia se desligado da banda e se afastado do mundo do rock underground algum tempo antes. O show foi matador, Madureira estava especialmente inspirado, e foi inclusive registrado para ser distribuido em K7 pelo fanzine CABRUNCO, o que, infelizmente, acabou não acontecendo.

O Camboja acabou no “auge” criativo, mas deixou como legado, além de suas 3 demo-tapes (4, se contarmos a gravação Ao vivo não lançada do ultimo show), uma interessantíssima concepção gráfica, um projeto paralelo e uma banda derivada. A concepção gráfica era um fator de destaque e era sempre produzida com muito esmero e competência por Madureira, exímio desenhista e, posteriomente, artista plástico. As capas de suas demos, cartazes de shows e desenhos produzidos para releases e flyers eram de uma qualidade muito acima da média e chamavam a atenção Brasil afora. Mesmo depois do fim da banda Jamson prosseguiu desenvolvendo seus dons para as artes plásticas, tanto em telas como em Historias em quadrinhos, notadamente com a série “Automazzo”. O “projeto paralelo” foi o Misery High Tech. Era composto por apenas duas pessoas, Jamson Madureira e Sergio “Metáfora” – outro Sergio, não o mesmo que havia fundado o Camboja – se revezando nas guitarras e colagens sonoras acompanhados por uma bateria eletrônica. Fizeram um trabalho interessantíssimo, fruto do encontro entre suas principais influências, o rock industrial e eletrônico, no caso de Jamson, e o thrash, mas com um background também influenciado pelo industrial (o também projeto paralelo Nailbomb, de Max Cavalera e Alex newport, foi a principal influencia confessa da dupla) e deixaram como registro duas demo-tapes. Apresentaram-se ao vivo apenas uma vez, no dia 29 de abril de 1995, no Espaço Cultural Engenho e Arte, que pertencia ao cantor e compositor Paulo Lobo e ficava localizado no bairro Grageru, num Festival promovido pela loja Lokaos (sob nova direção) ao lado das bandas Plasma, Snooze, Agony Season e o próprio Camboja. Já a banda derivada foi a Metáfora, citada no parágrafo anterior.

Jamson Madureira ainda se aventurou em mais alguns projetos musicais no fim dos anos 90 e início do século XXI, com a “She Don´t like jazz” e “Madame Tubarão”. Lançou ainda um único disco solo, do qual tocamos a faixa “Um dia na vida”, uma reinterpretação minimalista da célebre canção "A Day in the life", dos Beatles.

Para conhecer melhor o trabalho de Jamson Madureira, clique aqui.

Adelvan k.

* * *

Looking for an answer – Seven cunts into God´s throat
Ratos de Porão – Exército de zumbis

Concreteness – Tum Tum
GDE – Grupo de Extermínio
Jamson Madureira – Um dia na vida
Camboja – Goodbye my flesh
Misery High Tech – walk

DZK – por um mundo melhor
Bild – pode ficar com tudo isso
(Drop Loaded)

(Bloco produzido por Igor, “The Perigor”):
Batmobile – Love disease
Demented are go! – I Wanna kill
Sick Sick Sinners – Miss Joana
Os Catalépticos:
# Death train
# Catalepsia

Friendship – Zombies
Zumbis do Espaço – Ruas de sangue (streets of Laredo)
Nação Zumbi – No Olimpo

Os Reis da Cocada Preta – Sr. Wheeler
The Baggios – Não perca tempo
Urublues – Howlin´Wolf

The Cramps – surfin´dead
45 Grave – Partytime (zombie version)
TSOL – Nothing for you
The Flesheaters – Eyes without a face
The Damned – Dead Beat Dance
Tall Boys – Take a walk
The Black Berries – Love under Will
SSQ:
# Tonight (we´ll make Love untill we die)
# Trash´s theme

UM AGRADECIMENTO

Antes tarde do que nunca, quero fazer um agradecimento público à dupla presente nesta foto, Isabela Raposo e Ricardo Gama, que produzem e apresentam o programa "Mural", na Aperipê FM, todo dia ao meio dia (e alguma coisa). Eles abriram um espaço para o programa de rock toda sexta-feira, num quadro chamado "Eu acho que vai dar rock". Como o programa é voluntário e não tem verba para publicidade, esse tipo de apoio é MUITO importante e serei eternamente grato a eles pelo espaço concedido.

UHUUUUUUUUUUU !!!!!!

Adelvan

10 Anos de Big Bross Records


Rogério Big Bross já é uma entidade no rock baiano. Ele já foi músico, tocou em banda, mas foi como produtor que se notabilizou no meio independente. Ativo há muitos anos no cenário de Salvador, tendo produzido diversos shows e festivais, entre eles o Festival Big Bands, ele está comemorando dez anos de seu selo, o Big Bross. Responsável pelos primeiros lançamentos de artistas do calibre de Ronei Jorge e Retrofoguetes, o selo é o principal abrigo para bandas de rock na Bahia. O melhor, continua em alta produtividade, com vários novos recentes e para os próximos meses. Com tanta experiência, Big se tornou um profundo conhecedor da cena independente nacional e baiana e de como ela pode ainda dar certo. Veja o papo que batemos com ele via e-mail.

- Você está comemorando dez anos do Big Bross. Os selos tiveram papel fundamental na música independenente durante muito tempo. Ainda são importantes? Qual o papel deles hoje?

Rogério Big Brother - Eu ainda vejo com a mesma importância distribuir e divulgar o trabalho do artista independente. A maioria dos artista acha que gravar o CD é o ponto alto da sua carreira. Mas muitos esquecem, por exemplo, de guardar um pouco da grana que gastaram no CD para poder viajar tocando e divulgando o CD ou não sabem para onde enviar esse CD, como vender, como fazer que chegue nas pessoas certas. O selo ainda faz esse papel mesmo com todo avanço da internet.

- Vejo que continua montando banquinha de CDs. Ainda é importante lançar CDs? Ainda tem retorno e é bom pras bandas?

RBB - Eu gosto do contato com o público, gosto de saber que o público viu o show e quis comprar o CD, por exemplo. Pessoas que estão a frente de festivais mais antigos de música com Abril Pro Rock, Porão do Rock, Palco do Rock etc, ainda pedem que envien material, são pessoas com mais de 30 anos que gostam de pegar no CD na mão. Eu recebo em média, por semana, 40 mails do tipo “ouça meu myspace”. Nisso sou antigo. Não consigo ouvir música no computador, ainda tenho em casa um som 3 em 1 com pickup, cd player, tape deck e ouço musica assim com freqüências de verdade. E sim, a banquinha ainda sustenta o selo, por incrível que pareça. Quando a banda é boa e o show é bom, o CD vende.

- O Big Brosss foi responsável por alguns dos principais lançamentos da música indepenente baiana. Quais destes discos você destacaria e quais não lançou que gostaria de ter lançado? E porque?

RBB - Dos que lancei que me deu orgulho de fazer foram, Dever de Classe, Pastel de Miolos, o EP numerado da brincando de deus, Ronei Jorge e o Ladrões de Bicicleta, The Honkers, Os Irmãos da Bailarina foi um novo gás no selo, Theatro de Séraphin… todos eu curti bastante e sempre fui muito honesto com o selo, nunca foi um selo de bandas de meus amigos e sim de bandas que trabalhavam e fiquei amigo depois. Eu nunca precisei gostar da banda para lançar o CD e sim ver que ela trabalharia junto com o selo. E os que não lancei e gostaria de ter lançado estão The Dead Billies (os dois), brincando de deus (último album), Dr.Cascadura #1, Headhunter d.c (”Born Suffer Die”) e Úteros em Fúria (”Wombs in Rage”).

- Você é atuante nesse cenário independente há muitos anos, já viu a cena se transformar várias vezes, como vê esse período atual? O que mudou, o que está melhor, o que está pior?

RBB - Eu ainda acho que as bandas deveriam ser mais unidas. Por exemplo, eu não conheço um grupo de bandas que se uniu e montou um estúdio de ensaio para baratear custos. Não conheço uma banda que subiu no palco cantou música de outra banda local que ele gostasse. Ainda há uma dificuldade muito grande em fazer com que as pessoas paguem um show autoral. As dificuldades são as mesmas, mas para quem tá encarando hoje música como empresa e não só como artista eu vejo um grande futuro pela frente. O artista autoral que esperar o produtor, empresário ou gravadora cair do céu tá sem futuro.

- Você está atualmente trabalhando com o pessoal do Fora do Eixo, como vê a importância do trabalho deles?

RBB - O que mais gosto no Fora do eixo é o que senti falta em todos esses anos de produção cultural, a criação de um circuito de shows além das capitais. Em 20 anos de produção nunca pude trazer um artista do norte pela distância e custos altos, com a viabilização da tours Fora do Eixo só no começo do ano vieram Caldo de Piaba (AC) e Mini Box lunar (AP). Trouxemos o Falsos Cornejos, banda instrumental da Argentina junto com a pernabucana Banda do Joseph Tourton para tocar de graça no (Conjunto Guilherme) Marback, e agora a tour do novíssimos baianos com Maglore (SSA) e os barcos (VIT. DA CONQUISTA) por todo nordeste, esse mapeamento e essa construção vai ter muito futuro.

- O que sente mais falta nas bandas baianas?

RBB - Cara, sempre fui amigo de Marcio Mello (artista local). Apesar de não ser fã da sua obra, numa conversa com ele falei que quando decidi viver de música não reservei segunda opção, e ele me confessou a mesma coisa, que, quando quis ser músico, largou colégio, largou tudo e foi tocar. Acho que falta comprometimento nas bandas. Por exemplo, tive bandas que lancei pela Bigbross que acabaram no mês que o CD saiu, por que o cara decidiu que ia ser sei lá o que… Falta meter as caras, se fuder um pouco em são Paulo. Em quase 20 anos entre The Dead Billies e Retrofoguetes, finalmente eles vão fazer uma primeira mini tour internacional… enquanto Autoramas, Wander wildner, Eddie, Mukeka di Rato já foram umas oito vezes para E.U.A, Europa, Japão…

- Quais os próximos projetos seus e do Big Brosss? O que você lançou esse ano e vai lançar mais pra frente?

RBB - Continuar lançando os CDs, colocar um site em dia finalmente, distribuir os últimos lançamentos, Opus Incertum, Vendo 147, Pastel de Miolos, Reverendo T e Os Discípulos Descrentes, que acabaram de sair. E vem ai o novo da Pessoas Invisíveis, o primeiro CD da Fridha e uma coletânea para download com 15 bandas da capitasl e 15 do interior da Bahia.

por Luciano Matos lubmatos@gmail.com

Jornalista, blogueiro e DJ. Nascido em Salvador em 1974, há mais de dez anos atua na cobertura do cenário musical baiano e brasileiro, especialmente o chamado mercado independente.

© 2010 :: el Cabong

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

The Baggios, de volta a Salvador


Deu no jornal "A Tarde", de Salvador. Por Franchico, do Rock Loko:

A aprazível Aracaju, capital vizinha cuja qualidade de vida é de dar inveja (ou vergonha) aos soteropolitanos, guarda uma cena roqueira que, se não impressiona pela quantidade, prima pelo que é mais importante: a qualidade (olha aí de novo).

Da veterana Snooze, velha conhecida do público roqueiro local desde os anos 1990, até bandas mais recentes, como Plástico Lunar e Rockassetes (recentemente extinta), a rapeize sergipana manda muito bem quando o quesito é rock ‘n’ roll.

Mais recente ainda é o The Baggios, duo de guitarra e bateria que já se apresentou algumas vezes por aqui e volta no dia 3, para a festa de aniversário do Big Bross Records, com Theatro de Séraphin, Reverendo T & Os Discípulos Descrentes e Pastel de Miolos.

Mas por que The Baggios? Basta ouvir o single gratuito O Azar Me Consome, recentemente distribuído pela dupla. Pau na orelha é pouco para definir o belíssimo esporro que é a canção-título.

Com um riff demoníaco que deve ter sido conjurado das profundas do Hades, uma levada dançante irresistível e uma letra em português impagável, a faixa não sai do play list do colunista há vários meses.

“O Azar Me Consome traduz de forma perfeita nosso som”, admite Julio Andrade, a metade responsável pela voz e a guitarra no The Baggios. A bateria fica a cargo de Gabriel Carvalho.

“Ela dá uma boa noção do que vai ser o nosso disco. Nós exploramos muito essa pegada rock anos ‘70 – inclusive o rock brasileiro da época, como Mutantes, Casa das Máquinas, Made in Brazil, Raul”, conta Júlio.

“Eu tinha dificuldade de escrever letras em português, mas depois que ouvi essa galera, eu saquei que dava para fazer uma coisa massa, bem expressiva”, observa o músico.

Ele conta que, inicialmente, ele e Gabriel tocavam sem baixista por falta de opção, mas depois, “criamos uma identidade nesse formato”.

Sem o baixo, as composições tiveram de, necessariamente, ir de encontro a uma linguagem específica, mais hard. “Outras bandas nos mostraram que era possível fazer disso um diferencial. Principalmente na composição. As músicas devem cobrir essa ausência do baixo. É uma coisa mais direta, crua, mesmo”, diz. Recomendadíssimo.

10 anos Bigbross Records / Theatro de Séraphin, The Baggios (SE), Reverendo T & Os Discípulos Descrentes e Pastel de Miolos / Dia 3 de dezembro, 20 horas / Pça. Pedro Archanjo, Pelourinho / Gratuito

Ouça: www.myspace.com/baggios

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Urublues em "Noite fora do eixo"

Quando Mateus Santana – o magrelo cheio de força nos pulmões que gravou as gaitas nos primeiros EPs da Baggios – contou que estava tocando com os caras da Urublues, a negligência dispensada a um dos nomes mais importantes do cenário musical sergipano se materializou como uma irresponsabilidade imperdoável. A banda acumula quase vinte anos de calos nos dedos e dedicação ao bom e velho blues. Apesar disso (e aqui é preciso considerar a fragilidade de uma memória perturbada pela fumaça), nunca ganhou duas míseras linhas nos periódicos locais.

Oportunidade não faltou. As serras de Itabaiana, onde o núcleo da banda está sediado, nunca representaram obstáculo para os caras, que se apresentam em Aracaju com bastante regularidade e dialogam com seus pares de maneira muita tranqüila. A participação em eventos diversos, a exemplo das recentes Noites Fora do Eixo, é prova disso. As diversas formações da banda e os dois demos lançados também.

Na balada de um trem – O timbre seco da caixa atacada pelo baterista no início do disco Andarilho (lançado em fevereiro) alerta os incautos. Melhor sair da frente, que o trem já vem!

Aqui, todas as premissas do blues são respeitadas, com uma devoção quase religiosa. Da estrutura simples e encorpada, embalada por uma caralhada de riffs, às letras inteligentes, os caras da Urublues fazem justiça aos ambientes escuros, impregnados de cerveja e cigarro, que suas canções evocam. Sabe aquele quarto de hotel fodido, construído para abrigar os romances que acabam na ponta da faca? Aumente o volume e puxe uma cadeira. A Urublues já amolou a lâmina pra você.

Impossível não mencionar a importância do gaitista Igor Cortes no disco. Figurinha carimbada, solicitada por meio mundo de gente, o músico enche o disco com escalas rasgadas que, se não chegam a ameaçar as guitarras de Ferdinando, emprestam um colorido especial às harmonias construídas pelo baixo preciso de Fábio Santana. Blues no talo, com todos os venenos que derrubaram nossos heróis.

O melhor da história é que esta semana os caras voltam a se apresentar na Casa Cultiva, em noite que ainda conta com a pegada da banda The Baggios e a visita dos Reis da Cocada Preta (PB). Quem quiser provar um trago da beberagem, portanto, não pode reclamar ausência de oportunidade.

Vale lembrar ainda que as Noites Fora do Eixo são promovidas pelo Virote Coletivo, um grupo formado por músicos e produtores que se reuniram no intuito de promover a cena musical independente de Sergipe e integra o Circuito Fora do Eixo.

riansantos@jornaldodiase.com.br

+ Paul McCartney


Beatlemania no Brasil é muito mais do que gritinhos histéricos e arrancar de cabelos. O fã brasileiro deve provar, por cima de pau, de pedra, do Bradesco e dos cambistas a que veio.

A batalha começou muito antes, na emocionante saga por ingressos. O fã se viu obrigado a percorrer sua agenda telefônica de A a Z para descobrir qual dos seus contatos teria o acesso privilegiado aos ingressos de Paul, por meio dos cartões de crédito Bradesco. Neste processo, começou a se perguntar como sobrevive um banco de clientes aparentemente fantasmas. Onde estão, ó tão preciosos proprietários de cartão de crédito Bradesco?

Após conseguir o objeto almejado, através do tio do avô do pai do melhor amigo do vizinho ou como eu, que tinha dados de um cartão cuja dona nunca saberá a que propósitos e a quem serviu àquela noite, era hora de pôr-se a postos. Enquanto esperavam ansiosamente, os amigos punham-se a dividir suas angústias no MSN. Naquela noite, todos os insones usuários do MSN tinham uma única missão. “Já começou a vender?”; “Já começou!!!”; “Você conseguiu?”; “Não, e você?”; “Compra pra mim?”; “O site está travando”; “Não aceita mais o mesmo cartão”. É assim, fã de Beatles é solidário e somente vai dormir depois de ajudar ou acompanhar na dor o último dos possíveis compradores de ingressos. Em poucos minutos, via-se esgotarem os ingressos dos melhores lugares. Não teve pra quem quis. A saga continuou, quando colocaram novos ingressos para o público não usuário do Bradesco; quando se abriram as pré-vendas para o segundo dia de show; quando se abriram as vendas para o segundo dia. Foi muita ansiedade e angústia materializada em noites de sono perdidas, faltas e atrasos no trabalho, cujo chefe, obviamente, compreendia. Tudo na vida é questão de prioridades e Paul McCartney é prioridade. Mesmo um chefe é capaz de discernir esta absoluta verdade.

Conseguido o ingresso, era a hora da luta por passagens e diárias. Para todas essas coisas da vida existe Mastercard.

Antes mesmo de chegar em Sampa, nos aviões e aeroportos, o clima já antecipava o que seria encontrado lá. Eram pessoas vestindo suas blusas de malha e estampas com imagens e dizeres sobre os Beatles, mochilas e seus bottons, Ipods com os grandes hits. Apenas para ilustrar: desde os meninos de quinze anos que vinham do Acre até as senhoras argentinas, passando por todas as gerações, gêneros e territorialidades, a euforia-carnaval contagiava a todos e criava uma grande irmandade unida pelo amor ao ídolo, como Freud, com quase oitenta anos de antecipação, já havia descrito em “Psicologia das massas e análise do eu”, a respeito do fascínio causado pelos... pianistas! O que viria depois todos sabiam e queriam: era a história para contar. Não se trata da NECESSIDADE de ficar dois dias em uma fila do lado de fora do estádio, mas sim do prazer orgulhoso de dizer que se esteve lá. Ir ao show de um beatle é ter feito parte da História. As filas quilométricas são apenas o laurear.

Depois das horas em pé debaixo de sol (e no caso dos que foram ao show no dia seguinte, debaixo de chuva), depois de mais algumas horas dentro do estádio espremido feito sardinha em lata, é chegado o grande momento. Terá valido a pena? O que se viu?

Viu-se o que já se sabia que se ia ver. A Folha de São Paulo, escrotamente, a meu ver, já tinha descrito na quinta-feira anterior em minúcias o que veríamos no domingo. A set list, esta já se sabia com muita antecedência. A antecedência necessária para que as músicas desconhecidas fossem baixadas na Internet, insistentemente ouvidas e devidamente decoradas para o bom fã não fazer feio no grande momento. Mas o que a Folha antecipou foi mais: as brincadeiras, as falas, a hora que o show amorna, a hora que o show eletrifica, os efeitos especiais, o português do Paul. Não, a Folha de São Paulo não tem em seu quadro jornalistas com poderes mediúnicos. É difícil para um fã assumir, dói, é dar a cara a tapa e a mão à palmatória: mas show do Paul é tudo igual.

E eu, que nunca tinha ido a um show do Paul, já tinha visto aquele mesmo correr pelo palco com uma grande bandeira, promiscuamente levantada, não importa qual país fosse; já tinha visto o mesmo ensaiar de vozes ao som de “Na Na Na” no tão esperado momento de Hey Jude; já tinha visto o jogo de luzes que o público fazia junto às palavras de Let It Be. É necessário confessar que todos os fãs de primeira viagem, por uma vida inteira, ansiaram estar naquele show metódica e universalmente ensaiado, fosse por parte dos artistas, fosse por parte do público. Talvez assim deva ser lido um show de Paul: não mais como algo enérgico, sidérico e disruptivo como é característico do verdadeiro rock; como foram os Beatles quando ousaram fazer um inusitado show no topo de um prédio. Mas como uma ótima peça de teatro, tantas vezes encenada da mesma forma para públicos distintos.

Depois, com as parcelas a vencer no cartão e a dor nas pernas por dias resultante das horas passadas em pé, eis que a consciência pergunta: valeu a pena?

Eu diria que o show do Morumbi foi como um show no DVD de casa, embora com menos conforto. Ter estado lá ocasionou prazeres secundários, como encontrar os amigos espalhados pelo Brasil e que não se via há anos, unidos todos por uma grande causa. Além disso, regozija ter visto o que media nenhuma noticiou: quando a horda primeva, nos minutos iniciais do show, destruiu o balão do Bradesco, máximo culpado por nossas dificuldades na aquisição dos ingressos. Mas não importa o que acontecesse àquela noite: o beatlemaníaco sabe que nunca se perdoaria se não estivesse ali, cumprindo o seu ritual religioso.

Ir foi necessário para aplacar a ansiedade quanto à possibilidade de não estar presente na talvez última passagem de um beatle pelo Brasil. Eu acrescentaria à Fernando Pessoa: tudo vale a pena, se a alma não é pequena e se a Mastercard divide em 10x.

Por Tais Bleicher | Em 24/11/10

Fonte: Whiplash

Há 5 Anos, "direto do túnel do tempo"

Em 2005 eu planejava minha terceira ida à Cidade maravilhosa (por algum inexplicável capricho do destino eu só consigo ir ao Rio de 7 em 7 anos: a primeira foi em 1991, para o Rock In Rio 2, e a segunda em 1998, para a primeira apresentação do U2 no Brasil) quando soube que haveria um show do Nine Inch Nails, uma de minhas bandas favoritas, no Festival Claro que é rock. De cara já decidi que iria. Mal sabia eu que a banda de Reznor era apenas a cereja do bolo daquele que foi, na minha modesta opinião, o melhor festival de música que esse país já viu, com uma escalação digna de eventos de primeiro mundo do tipo Coachella ou Lollapalooza. Quando as demais atrações foram sendo anunciadas, eu mal conseguia acreditar: Flaming Lips, Sonic Youth, Iggy & The Stooges (gente, IGGY AND THE STOOGES !!!) e suicidal Tendencies – que foi substituido de ultima hora, pasmem, pelo Fantômas, de Mike Patton, Dave Lombardo e Buzz Osbourne, do Melvins, ninguém menos do que o cara que ensinou Kurt Cobain a tocar guitarra! Desnecessário dizer que a expectativa foi a mil.

No grande dia eu amanheci longe, muito longe. Estava em Campo Grande, um dos bairros mais afastados do Rio (não por acaso parece mais uma cidade à parte), na casa do meu amigo de longa data Chorão 3, ex-gangrena gasosa. Precisava ir até Ipanema encontrar outro brother dos tempos dos fanzines, Danubio Aguiar, do “Mensageiro”, que nos serviria como guia, para de lá partir para a igualmente distante “Cidade do rock”, em Jacarepaguá, o mitológico descampado onde aconteceram os Rock In Rio 1 e 3 e onde acontecerá a futura edição de 2011. Foi uma volta completa pela “cidade maravilhosa”.

Chegamos ainda com o sol a pino. Consegui entrar com uma meia-entrada falsificada (50 contos) achando que estava arrasando na “esperteza”, quando me deparo com cambistas vendendo 3 ingressos por inacreditáveis 10 reais !!! Isso aconteceu, pelo que soube, porque a Claro havia dado de presente um ingresso a quem tivesse comprado um aparelho nos dias que antecederam o evento, o que deve ter provocado um derrame de bilhetes descartados por quem não tinha interesse em ir. Normal, ganha-se umas, perde-se outras, e assim caminha a humanidade (aos trancos e barrancos).

Lá dentro, fui encontrando amigos cariocas que não via há tempos, como os Jasons Vital e Flock, e outros que via regularmente mas que sempre tinha prazer em reencontrar, como o gordinho carrancudo porém sempre gente boa Leonardo Panço, também do Jason. Conheci também Michael Meneses, carioca/sergipano com quem mantinha contato via net. O tempo ia passando e alguma coisa estava, claramente (sic), errada: um dos palcos ainda estava sendo montado e os shows simplesmente não começavam! Só depois fiquei sabendo que houve um acidente com o equipamento no caminho de São Paulo para o Rio, o que causou um desastroso atraso de mais de 3 horas ...

Desastroso porque causou um megacorte no set list de duas das principais bandas escaladas, Sonic Youth e Flaming Lips – especialmente lamentável para mim, já que esta seria, provavelmente, minha única chance na vida de ver ao vivo os reis da psicodelia “indie” e da distorção. Mas ok, nada de desanimar, já que o estupro era inevitável, era relaxar e gozar.

Cachorro Grande tocou ainda pelo dia – bom show, mas nada comparável ao que viria a seguir, portanto dispensável. Não exatamente o que veio na sequencia deles, uma tal de Good Charlotte que havia sido chamada apenas para satisfazer o público adolescente e na qual eu não prestei a mínima atenção. A partir daí foi uma cansativa maratona de apresentações memoráveis (uma nem tanto, como logo veremos) que me deixou exausto porém sorrindo de satisfação.

Tudo começou com o maravilhoso mundo da Disneyworld, quero dizer, dos Flaming Lips. Eu só os conhecia, e meio mal, de disco, e não estava preparado para o que estava por vir: foi um dos eventos mais “alto astral” que meus olhos e ouvidos tiveram o deleite de presenciar. Para começar, eles recrutaram alguns fãs para se fantasiarem como bichinhos de pelúcia e ficarem dançando nas laterais do palco, enquanto a banda executava suas canções de forma um tanto quanto desleixada porém absolutamente apaixonada, como já é característica deles. E tome clássicos da psicodelia moderna, como “race for the prize”, “Do you realize” e “She don´t use jelly”, além de excelentes covers de “War Pigs”, do Black Sabbath, apropriadamente dedicada à Besta-fera do apocalipse então em plena atividade, o presidente norte-americano George Bush, e “Bohemian Rapsody”, do Queen, com direito a um gigantesco karaokê com todos acompanhando a letra (muito louca, por sinal, não conhecia, é uma espécie de delírio aparentemente provocado por sentimento de culpa “pós-homicídio”) pelo telão – que mostrava, também, um bizarro close da garganta do vocalista, imagem captada por uma microcâmera instalada ao lado do microfone. Memorável. A lamentar apenas a duração, reduzida devido aos atrasos, o que nos privou do já célebre passeio na bolha de Wayne Coyne.

Já o show do Sonic Youth foi uma das maiores decepções de minha vida. A banda estava visivelmente mal-humorada (quero crer que devido ao atraso) e tocou apenas músicas que eu não conhecia, além daquelas intermináveis e chatíssimas improvisações em cima de microfonias inaudíveis. Foda que eu já estava cansado e resolvi sentar, mas um peso na consciência começou a martelar na minha cabeça -porra, era provavelmente minha única oportunidade de ver o Sonic Youth ao vivo e eu lá, sentado, morgado. Quando resolvi finalmente levantar para continuar VENDO, e não apenas OUVINDO, acabou! Desesperadoramente frustrante. Minha namorada na época, que estava comigo, resumiu bem a situação: “esses aí só fizeram “desdobrar””.

Mas o que veio a seguir compensou tudo. Depois de um longo tempo de espera, com apenas um roadie, bem “coroa”, por sinal, fazendo intermináveis inspeções no palco sob os berros da platéia impaciente, surge a catarse em forma de banda, Iggy & The Stooges, com formação “quase” original, ainda com Ron Asheton, que viria a falecer alguns anos depois, na guitarra. Desnecessário dizer que foi catártico, emocionante, visceral e inesquecível – e olha que eu vi tudo “de cara”, sem uma gota de álcool ou qualquer outra substancia entorpecente no sangue, para a incredulidade dos meus amigos de Aracaju para quem relatei o fato posteriormente. Eu poderia inclusive morrer naquele exato momento e morreria feliz, mas haviam ainda mais duas apresentações potencialmente bombásticas pela frente ...

Fantômas, o show mais improvável de minha vida. Não foi dessa vez que eu tive a honra de ver um dos meus ídolos do Slayer em ação ao vivo, já que Dave Lombardo não pôde vir e foi substituído, à altura, por Terry Bozzio, conhecido por seu trabalho com Frank Zappa. Foi surreal: uma gigantesca cacofonia de ruídos aparentemente desconexos comandada com maestria pelo maluco-mor Mike Patton. Musicalmente é meio chato, mas valeu demais pela ousadia da produção em chamar algo tão anti-comercial para um evento deste porte – dava pra ver claramente (sick again) o público “feijão com arroz“ se dispersando em sinal de reprovação, o que, convenhamos, é sempre lindo.

Fechando a noite, Nine Inch Nails. Lindo, poderoso, pulsante, chapante. Jogos de luzes ofuscantes, batidas poderosas chacoalhando nosso coração, belas melodias (“Hurt” é muito emocionante ao vivo) invadindo nossos ouvidos. Um desfile de músicas memoráveis de todas as fases da banda, de “Head like a Hole”, do “pretty hate machine”, a faixas do então novo disco deles, “with teeth”. Trent Reznor é poser pra caralho, sempre jogando os microfones para o lado com um ar blasé, mas ele pode, porque ele é foda. Tava cansado mas resisti bravamente até o final.

No final, o caos. Aquela porra de cidade do rock fica no fim do mundo e no meio do nada, é impressionante. As poucas vans que apareciam eram disputadas a Tapas, e eu já começava a ficar preocupado pois íamos ficando para trás e o descampado estava cada vez mais vazio. Depois de uma longa espera conseguimos, finalmente, embarcar numa van pra lá de superlotada, no que foi, sem sombra de dúvidas, a viagem mais desconfortável de minha vida, em pé e me contorcendo, até Ipanema – a mesma Ipanema na qual eu vi de rolê tranquilamente, na noite seguinte, dois de meus maiores ídolos, Mike Patton e Buzz Osbourne.

Foi lindo.

A.

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Claro Que é Rock 2005

Fantomas * Flaming Lips * Iggy & The Stooges * Sonic Youth * NIN

por Marcelo Costa

Screem & Yell

30/11/2005

Várias verdades puderam ser conferidas após a edição do badalado festival Claro Que é Rock, no último fim de semana, em São Paulo e no Rio de Janeiro: 1) O público brasileiro é definitivamente difícil de agradar 2) Os cariocas não prestigiam o rock 3) Mike Patton é um mala 4) Festivais de grande porte são ótimos para ferrar cambistas 5) Os técnicos de som brasileiros não conseguem equalizar o som de dois palcos da mesma forma: o som do Palco A estava beeem melhor que o do palco B 6) Iggy Pop e Trent Reznor são fodas 7) Uma pergunta: Onde se compra um daqueles arremessadores de confetes que o Wayne Coyne estava usando?

Na verdade, tudo que deu certo em São Paulo não deu certo no Rio de Janeiro. Enquanto a capital paulista viu 25 mil pessoas circularem pela Chácara do Jóquei, em horários distintos (é importante frisar), os cariocas colocaram apenas 12 mil pessoas na imensa Cidade do Rock, sofreram com longos atrasos (que não aconteceram em SP) que, por fim, causaram o cancelamento do show da Nação Zumbi e cortes nos 'set lists' de Flaming Lips e Sonic Youth. E enquanto era possível comprar de cambistas por R$ 30 um ingresso para a área VIP em São Paulo, no Rio de Janeiro teve ofertão: três ingressos por R$ 10.

No entanto, fora os contratempos do Rio de Janeiro, a edição paulistana do evento foi praticamente perfeita. Começou às 15h com o Ronei Jorge dando partida na finalíssima do concurso do festival (que foi vencido pelos gaúchos do Cartolas) para pouco mais de cinco mil pessoas. Quando o festival começou mesmo, às 19h, com o Good Charlotte, cerca de mais de dez mil pessoas (umas cinco mil com menos de 18 anos) já caminhavam pelo local. Ao final, 25 mil pessoas pisaram na lama de um quase autêntico Woodstook brasileiro (ainda bem que não choveu!!!). Tirando as imensas filas para se comprar comida e os estacionamentos distantes, o Claro Que é Rock se mostrou um bom grande festival.

Algumas pessoas reclamaram do som (ótimo), outras do local do festival (quem sabe preferiam a "limpeza" de um Credicard Hall). Porém, vamos ao que interessa: música. "Nós somos o Suicidal Tendencies", disse Mike Patton ao tomar o microfone com sua banda, Fantomas. A rigor, como diz um amigo, o Fantomas deve ser muuuito bom, ou então muuuito ruim. Eu fico com a segunda hipótese. Um crossover inaudível dos piores clichês de punk e metal aliados a barulhinhos eletrônicos. Uma brincadeira sem graça. Funciona como desconstrução e até tem seu valor estético em um festival de massa, um local em que a maioria do público refém de MTV vai ver bandas certinhas como o Good Charlotte, e dá de cara com uma apresentação totalmente surreal, mas é o tipo de coisa que enche o saco após dez minutos. Mesmo.

Já o Flaming Lips prometeu mundos e fundos ao público. "Vocês vão ver o show mais foda de suas vidas", disse Wayne Coyne. Não foi, mas com certeza foi o mais divertido e um dos melhores de todo o festival com os Lips levando seu mundo de Disneylândia para o palco. Uma dezena de bichinhos estilo Parmalat, confetes, bolha de plástico, guitarrista vestido de Papai Noel, baixista vestido de Caveira, uma loucura. Visualmente era impossível não ser conquistado pelo mundo fantasioso de Coyne, que ainda brindou o público com seus ótimos vídeos feitos de próprio punho no telão (e que acabam de ganhar edição nacional via DVD: Void 1992-2005 Video Overview In Decelebration). Se um show de rock é diversão e entretenimento, a apresentação do Flaming Lips foi perfeita, apesar do quesito música ficar em segundo plano, e o vocalista ter um fiozinho de voz que sumia a todo o momento. Mesmo assim, clássicos como She Don't Use Jelly, Race For Prize, Fight Test, Do You Realize? e a sensacional Yoshimi Battles The Pink Robbots fizeram a festa do público, que ainda pode participar de um imenso karaokê na boa cover de Bohemian Rhapsody, do Queen, e ainda viu Coyne sacanear George W. Bush numa cover da poderosa War Pigs, do Black Sabbath, que encerrou a festa provando que mesmo no mundo da fantasia é possível ser político e oportuno. Simplesmente sensacional.

Iggy & The Stooges subiram no palco A do evento dispostos a sacanear o público. O som, altíssimo, impediu que o coro de 20 mil pessoas cantando "Now I wanna be your dog" sobrepusesse a excelência de barulho que saia das caixas de som. No repertório, quase todas as pérolas dos dois primeiros álbuns clássicos dos Stooges (The Stooges, de 1969, e Fun House, de 1970) se alternavam para a alegria e loucura dos fãs. No palco, os irmãos Ron (guitarra) e Scott Asheton (bateria) contavam com a presença histórica do baixista Mike Watt, lenda do rock norte-americano. E à frente de tudo isso o insano, demônio, maluco e carismático Iggy Pop, que aos 58 anos se entregou de corpo e alma para o público brasileiro. Vestindo uma calça nacional modelo feminino de menos de 10 dólares, Iggy passou todo o show se contorcendo, simulando sexo com caixas de som, e incentivando o público a invadir o palco. Cantou No Fun entre mais de quinze pessoas, que ora tomavam o microfone de sua mão, ora o abraçavam, ora levavam a mão ao rosto sem saber se acreditavam que estavam ao lado de uma lenda. Ao final, não quis deixar que os invasores saíssem do palco, reclamou da iluminação ("Não quero saber se vocês são da televisão ou do governo, acendam as luzes", ordenou) e mostrou que efeitos e iluminação são dispensáveis se você tem carisma, um bom repertório e é um cara fodaço. Clássico.

Com a lembrança do show arrasador que a banda fez no Free Jazz alguns anos atrás, o Sonic Youth era a certeza de uma apresentação apoteótica. Grande engano. A rigor, existem dois Sonic Youth desde sempre. Um legal pra caralho (de hits como 100%, Teenage Riot, SugarKane e do show no Brasil em 2001) e outro chato demais (de inaudíveis álbuns paralelos como Anagrama, Goodbye 20th Century e Slaapkamers Met Slagroom). O que se apresentou no Claro Que é Rock trazia o clima charmoso do Sonic Youth cool soterrado pela execução e a paixão pela microfonia do Sonic Youth chato. Em uma palavra, o show foi tedioso. Boa parte da culpa pelo tédio pode ser jogada sobre o repertório, com cinco longas canções do fraquíssimo Sonic Nurse, álbum mais recente de estúdio da banda, que fecha a trilogia Nova York iniciada com os bons NYC Ghosts & Flowers (2000) e Murray Street (2002). Porém, mesmo canções incendiarias como Schizofrenia e Bull on the Heather soaram pálidas e desconfortáveis. Ao fim, a banda definiu a apresentação com uma exaustiva e terrivelmente chata onda de microfonia que durou longos dois minutos e meio. Acredite: o Sonic Youth é muito foda no palco, mas não esse Sonic Youth.

Após o banho de água fria que foi a apresentação do casal Thurston Moore/Kim Gordon, o Nine Inch Nails se revelou uma expurgação de demônios. Em seu livro Barulho, o jornalista André Barciski comentava sobre um show do Nirvana que havia visto em Seattle, 1993: "Finalmente entendi o que um amigo me falou sobre um show do Ministry. 'Foi a coisa mais violenta que eu já vi'. Eu não entendia ou não acreditava. Agora sim deu para pegar o espírito da coisa. A violência em questão não é aquela coisa escrota a que estamos acostumados, com imbecis armados de machadinhas querendo matar alguém. Ninguém sai machucado de um show do Nirvana, mas purificado. O Nirvana solta os bichos que existem em você". E é mais ou menos isso que se pode dizer de uma apresentação do NIN. Uma avalanche de bateria eletrônica misturada a porradas humanas, baixo seqüenciado, guitarras poderosas, um jogo de luzes de palco absurdo e por cima de tudo isso o vocal insano do maluco de carteirinha Trent Reznor. Enquanto uns 700 gatos pingados urravam a cada nova música, uns outros 12 mil achavam que estavam em uma rave. Na boa, as letras surreais do gênio Trent Reznor esperam os últimos.

No repertório do Nine Inch Nails, pouca concessão ao material novo, do bom (mas levezinho) With Teeth (2005), representado pela faixa título e pelas boas The Line Begins to Blur, The Hand That Feeds e Only. De resto, Trent resgatou porradas de seus primeiros álbuns como Sin, Head Like a Hole e Terrible Lie (Pretty Hate Machine, 1989), March of the Pigs, Closer e a fodaça Hurt apenas em voz e piano (Downward Spiral, 1994), e praticamente ignorou o constantemente detonado álbum duplo The Fragile (1999), mixando The Frail com The Wretched. No geral, a apresentação foi monstruosa, um tiquinho "poseur" (com instrumentos e pedestais constantemente jogados de um lado para o outro do palco) e teve, como único ponto negativo, o avançado da hora. Por mais que a porrada estivesse saindo clara e alta pelas caixas de som, nem todo o público tinha pique para pular ensandecidamente àquela altura da madrugada. No entanto, quem questionava o NIN como headliner do festival teve motivos de sobra para entender a escolha após um show memorável. E o que foi Hurt? Só faltou Johnny Cash baixar no palco...

No saldo final, o Claro Que é Rock conseguiu apagar o quase fiasco das apresentações do Placebo no primeiro semestre, primou (em São Paulo) por uma boa organização no geral para um festival deste porte, e esbarrou em qualidade de shows com o Curitiba Rock Festival, com Stooges, NIN e Flaming Lips fazendo shows à altura de Weezer e Mercury Rev. Só precisa, para 2006, destacar melhor as bandas nacionais.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Paul McCartney no Brasil


As 64 mil pessoas que se apinharam no Morumbi, domingo, em São Paulo, não têm do que reclamar. Saíram do estádio depois de ter visto Paul McCartney cantar as músicas de suas vidas, com a simpatia de quem é o amigo mais próximo de cada uma delas. E vai ver que é mesmo. O músico conversou o tempo todo com a plateia num português lido de última hora que continha expressões como “E aí, galera?”, ‘Tudo bem, paulistas?” e “Vocês estão gostando?”, com o “s” carregado típico dos cariocas. Em cerca de 2h45 Paul tocou basicamente o mesmo repertório da “Up And Coming Tour” (idêntico ao do show de Porto Alegre), totalizando nada menos que 34 músicas.

Turnês de rock, em geral, são assim. Tudo certinho e programado de tal forma que cada fã já sabia mais ou menos que música viria a seguir. Só a reação do público e a emoção que resulta da interação com o artista é que não aparece dimensionada friamente no roteiro. Por isso foi possível ver um cascudo Paul McCartney, 68, nos telões gigantes com os olhos cheios d’água em mais de uma oportunidade. Não só nos momentos óbvios, em que ele homenageia os ex-companheiros dos Beatles John Lennon e George Harrison, já falecidos, com “Here Today” e “Something”, respectivamente. Acontece em trechos distintos da noite, em “Let It Be”, na parte final; “Long And Winding Road”, na primeira vez em que Paul senta ao piano; e em “Hey Jude”, a bisavó das baladas, que encerra a primeira parte, num drama daqueles.

O show de Paul McCartney foge do que comumente se vê em turnês de artistas consagrados. Estão lá os telões centrais e laterais (um de cada lado), mas a banda é enxuta. Não há, por exemplo, naipe de metais, backing vocals ou outros músicos de apoio. Tudo se resolve entre os experientes guitarristas Rusty Anderson e Brain Ray, que junto com Paul se revezam em solos e parte rítmica, o versátil tecladista Paul Wix Wickens e baterista e figuraça Abe Laboriel, também dançarino nas horas vagas. Todos cantam e fazem coros relevantes em várias músicas. A parte visual é econômica. Afora os fogos de “Live And Let Die” (há algo de Guns N’Roses ali) e tímidos jatos de confete verde e amarelo no final, não há efeitos especiais.

Isso porque o Show de Paul McCartney é baseado – repita-se - num apanhado de canções excepcionais. Se não são músicas colantes, pertencem a uma espécie de inconsciente coletivo musical sem fronteiras. Não é qualquer música que faz 64 mil pessoas suspirarem simultaneamente ao serem simplesmente anunciadas, como “Hey Jude” e “And I Love Her”. Imaginem ao serem executadas num volume de som alto e encorpado. Não por acaso quase toda canção do repertório é cantarolada do início ao fim, muitas vezes com setores diferentes do estádio se empenhando uns mais que os outros. Quando Paul dá a deixa, então, é mais um momento de marejar os olhos. Foi assim em “Mrs. Vanderbilt”, com um atraente “ô-ê-ô-ê”; em “Olba Di Obla Da”, que enlouquece a platéia; e em “A Day In The Life”, emendada com “Give Peace a Chance”, com todo mundo segurando balões brancos, num dos momentos mais bonitos da noite.

O repertório, no entanto, parece não seguir qualquer lógica conceitual. É uma música boa atrás da outra e ponto final. No afã de interagir com o público, Paul conversa muito entre todas elas na parte inicial, o que, se encanta pela leveza e simpatia, quebra um pouco a sequência do espetáculo. Na segunda metade da noite, até pela inclusão de verdadeiros blockbusters da música pop, o ritmo é outro. Embora a palavra Beatles pareça ilustrar a testa de cada um no meio do público, músicas da carreira solo ou do Wings também agradam geral. “Band On The Run”, quase um tema progressivo, por exemplo, levanta o Morumbi com um ímpeto inesperado. A energia foi tanta que até a chuva anunciada pelo serviço meteorológico se dissipou pelos ares.

O desfecho vem com a banda voltando ao palco com bandeiras do Brasil e do Reino Unido, e com “Day Tripper”, a tataravó do hard rock, que levanta o público como poucas músicas de maior apelo conseguiram. O final do primeiro bis é com “Get Back”, em total ritmo de festa. No segundo bis, Paul vem só com o violão para “Yesterday”, a música mais regravada em todos os tempos, e depois lança a senha para “Helter Skelter” derrubar os fãs depois de duas horas: “Vocês querem rock?” - na saída o próprio McCartney leva um tombo daqueles ao deixar o palco. Mas ninguém arredou o pé até ver e ouvir, ao vivo, a faixa-título do álbum mais importante do mundo, executada por quem estava lá. “Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band” fecha uma noite na qual se passaram mais de 40 anos.

por Marcos Bragatto

REG

Set list completo:

1- Jet
2- All My Loving
3- Letting Go
4- Drive My Car
5- Highway
6- Let Me Roll It
7- Long And Winding Road
8- 1985
9- Let Me In/Foxy Lady
10- My Love
11- I´Ve Just Seen A Face
12- And I Love Her
13- Blackbird
14- Here Today
15- Dance Tonight
16- Mrs Vanderbilt
17- Eleanor Rigby
18- Something
19- Sing The Changes
20- Band On The Run
21- Obla Di Obla Da
22- Back In The USSR
23- I’ve Got Feeling
24- Paperback Writter
25- A Day In The Life/Give Peace a Chance
26- Let It Be
27- Live And Let Die
28- Hey Jude
Bis
29- Day Tripper
30- Lady Madonna
31- Get Back
Bis
32- Yesterday
33- Helter Skelter
34- Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band/The End

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Smashing Pumpkins no Planeta Terra


O renovado Smashing Pumpkins salva uma noite fadada a decepções no Planeta Terra; Billy Corgan toca com os dentes, esmerilha a guitarra nas caixas e assume de vez sua face mais pesada e voltada para o rock de verdade.

por Marcos Bragatto
REG

Já era alta madrugada de domingo quando Billy Corgan voltou ao palco com sua nova banda, ainda chamada de Smashing Pumpkins, para arrematar uma apresentação absolutamente visceral. O público esperava por “Disarm”, um dos tantos hits que parece não caber mais no repertório da banda, mas a opção foi por “Heavy Metal Machine”, mais pesada que nunca, tocada num volume absurdo. Corgan sabia o que fazia, na tradução do “soco na cara” que prometera numa entrevista publicada durante a semana. Não teve pra ninguém: o renovado Smashing Pumpkins fez – e de longe - o melhor show da edição desse ano do Planeta Terra, que aconteceu ontem, no Playcenter, em São Paulo.

Não parecia que seria assim, de início, com a recepção fria causada por “The Fellowship” – há milhões de músicas melhores para uma abertura -, mas logo a coisa engrenou. “Today”, o primeiro sucesso a ser tocado, foi a senha para que o rock de verdade, ausente até então no afamado parque de diversões, tomasse conta do lugar. Já em “Astral Planes”, uma das novas que a banda vem jogando na web, o guitarrista Jeff Schroeder desanda a aplicar solos e ofusca – vejam vocês – o próprio Corgan. A música, aparentemente inofensiva e cadenciada, cativa por belos e discretos riffs, numa prova de que não é preciso a canção ser consagrada para arrebatar o ouvinte, basta ser boa e ter os ingredientes certos.

Billy Corgan não deixaria barato. Já na seguinte, “Ava Adore”, protagonizou um duelo daqueles com Schroeder, como se iniciasse ali uma virada de jogo para mostrar – com vantagem – quem é o dono da boca. Dali em diante, ele tocou com os dentes, esmerilhou a guitarra nas caixas próximas à plateia (só não a destruiu porque teve humildade em gol), distorceu cada acorde e finalizou um improvável solo de bateria (numa noite indie) com citações a “Moby Dick”, do Led Zeppelin, antes de o gongo (!) à Emerson, Lake And Palmer ser percutido cinco vezes. Tá bom pra vocês? O prodígio batera Mike Byrne, 20 aninhos, oriundo da desconhecida banda Moses, Smell The Roses, mostrou ter sido a escolha certa que contribui para o processo de renovação do Smashing Pumpkins.

Ainda que mantenha um temperamento irritadiço, Billy Corgan, 43, amadureceu muito. Nos últimos tempos, tem assumido abertamente suas influências de bandas como Black Sabbath e Rush, entre outras, coisa inimaginável no nicho do alternativo, onde a banda surgiu. E mostra isso, ao vivo, como um rocker de verdade, como se fosse ele um de seus próprios ícones. De comunicação em geral meramente protocolar com a plateia, Corgan até que se soltou, ao apresentar a banda e se autodenominar “Billy Ronaldinho”, numa referência ao centroavante de careca idêntica à dele. Teve bom humor para chamar “Spangled” de música triste, cutucando de forma sutil a apatia do Pavement no show anterior.

A primeira parte do set teve ainda a inesquecível “Bullet With Butterfly Wings” e outras “das antigas” incluídas foram “Tonight, Tonight”, que encerrou a primeira parte do show, e “Cherub Rock”. Poderia ter mais (“Disarm”, claro), mas como reclamar de uma hora e quarenta minutos de um show que salvou uma noite, até então, fadada a decepções? Nem mesmo o cansaço generalizado na alta madrugada retira da apresentação a pecha de redentora.

Set list completo (a conferir):

1- The Fellowship
2- Lonely is the name
3- Today
4- Astral Planes
5- Ava Adore
6- Song For a Son
7- Bullet With Butterfly Wings
8- Tarantula
9- United States
10- Splangled
11- Drown
12- Shame
13- Cherub Rock
14- Zero
15- Stand Inside Your Love
16– Tonight, Tonight
Bis
17- Heavy Metal Machine

Tom Morello para o "Brasil de Fato"

Após passagem pela América do Sul, o guitarrista do RATM, Tom Morello, fala sobre política e música ao jornal Brasil de Fato.

Nascida em 1991 na Califórnia, EUA, a banda Rage Against The Machine (RATM) se consolidou no cenário mundial da música com uma rara mescla de rap, variantes do rock and roll pesado e crítica política furiosa e constante.

Na trajetória da banda, pedradas ao capitalismo, ao belicismo estadunidense, ao racismo, ao etnocídio dos nativos da América, à violência machista. Homenagens aos zapatistas, à Liga Anti-Fascista da Europa, à organização Women Alive, aos presos políticos Leonard Peltier e Múmia Abu-Jamal.

Para todos estes, a banda realizou shows, revertendo todo o dinheiro para a defesa das causas. O RATM também tocou em protestos contra o Nafta (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio) e a Alca (Área de Livre Comércio das Américas), fez dois shows contra à guerra (2000 e 2008) às portas da Convenção Nacional do Partido Democrata, provocou o fechamento da Bolsa de Valores de Nova York por algumas horas ao tentarem gravar um clipe, dirigido por Michael Moore, em frente à instituição, e, também, foi censurado pela emissora NBC por exibirem a bandeira dos EUA de cabeça para baixo em uma apresentação.

Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, a emissora Clear Channel criou a lista de “músicas com letras questionáveis”, na qual o RATM foi a única banda a ter todas as suas músicas incluídas.

De 2000 a 2007, a banda esteve separada, mas, em outubro deste ano, aterrissou e “aterrorizou” pela primeira vez em solo sul-americano, passando por Brasil, Argentina e Chile, homenageando o MST, as Mães da Praça de Maio, Víctor Jara e Salvador Allende. Passada a turnê, o guitarrista do RATM, Tom Morello, concedeu uma entrevista exclusiva ao Brasil de Fato.

Brasil de Fato – Os fãs da América do Sul esperaram muito tempo por uma apresentação do RATM. Vocês gostaram da recepção do público?

Tom Morello – Nós ficamos muito extasiados com o público brasileiro. Nós temos grandes fãs no Brasil e é uma vergonha termos demorado 19 anos para tocar no país. Mas valeu a espera. Foi realmente uma noite para ser lembrada.

O RATM é uma banda claramente anticapitalista. Porém, percebemos, no show do Brasil, que parte considerável dos seus fãs não se interessa pelo conteúdo político ou até mesmo tem aversão a posicionamentos de esquerda. Como vocês interpretam isso?

O RATM é uma banda que se preocupa em agir amplamente. Tocamos nossa música para atingir uma ampla variedade de pessoas, independentemente de suas inclinações ideológicas. Estou tranquilo com isso. Nós não somos uma banda elitista que toca exclusivamente para pessoas que compartilham exatamente nossa pauta política. O que nós percebemos ao longo destes anos é que muitos jovens que antes eram apáticos ou possuíam opiniões políticas diferentes foram expostos a um novo conjunto de ideias através de nossa música e, em alguns casos, isso os ajudou a mudar sua forma de pensar.

Um jornalista chegou a publicar que vocês foram usados pelo MST no Brasil, colocando-os como “gringos bonzinhos nas mãos de pessoas más”. O que você tem a dizer sobre isso?

Minha hipótese é que o jornalista que diz sermos marionetes nas mãos do MST possivelmente discorda da postura política do movimento. Isto é uma crítica comum que encontramos aqui nos Estados Unidos. Quando a mídia de direita critica artistas por se posicionarem politicamente é geralmente porque eles discordam do ponto de vista dos artistas. Eu aprendi sobre o MST com o Zack, que conhece bastante sobre os movimentos políticos de toda a América Latina e nós temos orgulho de prestar solidariedade ao MST na sua luta por justiça no Brasil.

Você faz parte de algum movimento político?

Sou cofundador, junto com Serj Tankian, da banda System of a Down, da Axis of Justices, uma organização sem fins lucrativos determinada a reunir músicos, fãs de música e organizações políticas de base para lutar por paz, direitos humanos e justiça econômica. Também sou membro do IWW (Trabalhadores Industriais do Mundo, por sua sigla em inglês), uma organização de trabalhadores radical, fundada no início do século 20 e que engloba trabalhadores de todos os tipos. Trabalhadores da indústria do sexo, estudantes, músicos, metalúrgicos, camponeses etc.

Qual a importância para vocês que os jovens apoiem movimentos sociais, como o MST? No Brasil, atualmente, a juventude raramente se engaja em lutas sociais. Como ela se comporta nos EUA?

É a juventude que muda o mundo e eu acredito ser de crucial importância que eles ganhem perspectiva numa larga variedade de ideias e movimentos políticos que estão abertos para a participação deles em seus próprios países. Nos Estados Unidos, a juventude foi muito energizada pela campanha presidencial do Obama e muitos se desiludiram com suas ações desde que ele foi eleito. Existe muito descontentamento nos Estados Unidos com a economia e com o prosseguimento das guerras no Oriente Médio e, infelizmente, os semideuses da direita têm manipulado esse descontentamento para os seus próprios propósitos.

A vitória dos republicanos nas últimas eleições nos parece um fiel exemplo disso. Existem movimentos populares nos Estados Unidos capazes de reverter esse quadro?

Durante a administração Bush, houve um fortíssimo movimento antiguerra. Muito da energia desse movimento foi canalizada para a campanha do Obama, quem eu considero uma pessoa decente. Mas acredito que a alta cúpula do governo está repleta de compromissos. A política nos Estados Unidos é dominada e operada pelo grande capital e não me surpreende este giro à direita que tivemos depois de dois anos com Obama. E não é porque sua política ameaçava a elite em qualquer aspecto. Seu apoio contínuo à guerra do Afeganistão e o resgate criminoso oferecido aos bancos e à indústria financeira são uma clara indicação de sua fidelidade de classe. Mas o que sublinhou o movimento da extrema direita na política estadunidense foi o desafio às convenções culturais que o Obama representa. Existem muitos racistas nos Estados Unidos que sequer podem dormir bem sabendo que existe um presidente negro na Casa Branca. A extrema direita usou temas como raça, sentimentos antigay e anti-imigrantes para reavivar a animosidade para com o centrista Partido Democrata, deixando sua pauta econômica e de poder por detrás e, assim, convencendo a maioria da classe trabalhadora branca a votar contra os seus próprios interesses.

Que visão vocês tem sobre o recente processo político latino-americano?

Parece-me que, enquanto os Estados Unidos focaram sua atenção em nossas guerras imorais e ilegais no Oriente Médio, a América Latina foi deixada para seguir seu próprio destino. Eu estou muito satisfeito que, ao longo do curso da última década, movimentos realmente populares tenham começado a influenciar a política do Estado e, eventualmente, tenham ascendido ao poder na América Latina. Governos que explicitamente estão ao lado dos pobres e da classe trabalhadora, ao mesmo tempo em que a população de qualquer país deve estar atenta contra a corrupção. Eu acredito que é um sinal encorajador que os oprimidos tenham, mais do que nunca, voz na política latino-americana.

Entrando na música, mas sem sair tanto da política, como uma banda como o RATM lida com a indústria cultural?

Bom, é bem possível que ninguém no Brasil jamais tivesse escutado o RATM ou que ninguém se interessasse em ler esta entrevista se não fosse o fato da música do RATM ser veiculada pela Sony Music. Logo no início da banda, nós tomamos uma decisão de forma extremamente consciente sobre como tentaríamos divulgar nossa mensagem revolucionária para o maior número de pessoas possíveis ao redor do mundo. E, ainda que eu respeite as decisões de outros artistas em lidar exclusivamente com gravadoras independentes, nossos objetivos políticos são muito maiores. Nós queremos que nossa música tenha um impacto mundial.

A influência musical de vocês é bastante vasta. Do RAP ao Rock, passando pela música negra e até o heavy metal. Ela sempre se pautou pela atividade política?

Minhas preferências musicais são muito amplas e certamente nem sempre existe um componente político nelas. Eu adoro heavy metal, como Black Sabbath, Iron Maiden e Rush, assim como o hip-hop contemporâneo de DMX e Jay-Z e, obviamente, também gosto de grupos políticos, como Public Enemy e The Clash. No RATM, nós sempre sintetizamos nossas várias influências musicais para então preencher com o nosso compromisso político.

Algo na música sul-americana é referência para você?

Um dos meus maiores heróis musicais é Víctor Jara, o tremendamente talentoso mártir do golpe de 1973 no Chile. Sua vida como músico e ativista é muito inspiradora, especialmente no meu projeto solo, que leva o nome de The Nightwatchman.

Você apontaria novos talentos na música?

Eu sou um grande fã de Gogol Bordello, The Arcade Fire, Bright Eyes e de uma banda pouco conhecida fora da cidade de Nova York, que se chama Outernational.

O RATM voltou para ficar? Há previsão para novos trabalhos?

Bem, nós estamos juntos de verdade, como nosso show no Brasil demonstrou. Atualmente, não existem planos para um novo disco, mas nós continuamos amigos e fazendo shows. Mas o futuro não está escrito.

Vocês têm planos para retornar à América do Sul?

Eu adoraria voltar em breve para tocar mais vezes e explorar o continente. Nessa viagem, nós estivemos na América do Sul por menos de dez dias, o que não foi nem de longe suficiente. Eu fui inspirado pelo público daí, pelo encontro com o MST, pelo ensaio que nós vimos da escola de samba Vai Vai, por visitar os túmulos de Víctor Jara e Allende no Chile, por marchar com as Mães da Praça de Maio em Buenos Aires. Essas coisas serão absorvidas por minha música no futuro. Finalmente, gostaria de agradecer muito aos fãs do Brasil. Levamos dezenove anos para ir pela primeira vez, mas garanto que não levaremos outros dezenove anos para voltar. Nos veremos em breve.

QUEM É

Nascido em 1964 no Harlem, em Nova York, formado em ciências políticas na Universidade de Harvard, Tom Morello foi incluído pela revista Rolling Stone como um dos 100 maiores guitarristas de todos os tempos.

por:

Ana Maria Straube, Rodrigo Salgado

e Vinicius Mansur (de São Paulo)

MM3 no Brasil - como foi ...



Sabia-se muito bem que a passagem de Lou Reed pelo Brasil seria ruidosa, bem ruidosa. O cantor norte-americano trouxe ao Sesc Pinheiros neste sábado e domingo, em São Paulo, a turnê do Metal Machine Trio, inspirada em "Metal Machine Music", seu álbum de 1975, considerado por muitos, como se divulgou a exaustão, o pior de todos os tempos. A experiência extrema do disco, ruídos e distorção pura, felizmente só serviu de inspiração – o show, ufa, tem momentos de melodia para afastar o desconforto.

Mas ele está lá, quase o tempo todo. Sentado, Reed fica na guitarra e diante de uma mesa de efeitos, orientando o nova-iorquino Sarth Calhoun, nos computadores, e o alemão Ulrich Krieger, saxofone, com gestos e meneios de cabeça: ele é o maestro. Ao fundo, sons em loop parte hipnóticos, parte enlouquecedores, numa apresentação de uma hora e meia de improvisações. Não foram poucas as pessoas que deixaram o teatro ontem, inclusive pais desavisados (inexplicavelmente) com crianças e um engraçadinho que se filmou dando tchau para o palco, como que desaprovando o som do trio.

Na verdade, não há o que desaprovar. A proposta do espetáculo é, desde o início, um flerte forte de Reed com a música experimental, o noise, que encontra abrigo na arte avant-garde, onde conceitos como "estética do ruído", como diz um folheto do Sesc, são aceitáveis. Entra no jogo quem quer. Só é preciso deixar claro que o Metal Machine Trio, justamente por trazer paz vez ou outra – em especial quando Ulrich para as notas agudas no sax e arrisca uma melodia –, é um representante "amigável" do noise. Há gente muito mais engajada por aí, que faz dos shows um experiência sensorial, auxiliada por protetores auriculares.

Não foi assim com Reed, ainda bem. No final, quando ele estava de pé, com a guitarra nos braços, o silêncio e a cara amarrada durante todo o show deram lugar a um sorriso. "Muito obrigado por terem vindo. Espero que vocês tenham se divertido tanto quanto a gente", disse ele, pouco depois de levar um susto ao ver um fã invadir o palco para pegar uma palheta a seus pés.

Talvez pela recepção da plateia, que aplaudia sem parar, ele voltou sozinho dos bastidores, pegou a guitarra e não só tocou, como cantou. Abrindo uma brecha no rigor das apresentações do Metal Machine Trio, Reed deu de presente aos brasileiros "I'll Be Your Mirror", do álbum "The Velvet Underground & Nico" (1967). Um bálsamo para curar os ouvidos da barulheira, a música nunca soou melhor (assista a um vídeo aqui). Ao terminar, Reed foi apertar a mão de quem se espremia para vê-lo mais de perto. E saiu, a tempo de não ver a turba saquear o palco atrás de uma recordação.

Marco Tomazzoni

iG

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Em 1975, Lou Reed lançou Metal Music Machine. O disco trazia distorções e barulhos esquisitos que arrepiaram até os cabelos dos críticos mais vanguardistas.

Dizem que, na época, Reed estava se desligando de sua gravadora e entregou a tortura sonora só como obrigação contratual.

Por outro lado, o cantor rebate a história e afirma que o trabalho é importante e influenciou estilos como o punk e o eletrônico.

O fato é que este ano o polêmico álbum foi relançado em vinil e CD. Além disso, o cantor de 68 anos montou o Metal Machine Trio (MM3), para excursionar mostrando improvisos baseados na obra.

Sendo assim, a terceira vinda de Lou Reed ao Brasil foi marcada pelos barulhos infernais do Metal Machine na Mostra Sesc das Artes 2010.

Com ingressos esgotados para dois dias (20 e 21) no Sesc Pinheiros, em São Paulo, a trinca barulhenta matou a curiosidade dos fãs e assustou alguns desavisados que achavam que veriam um show “normal” do ex-líder do Velvet Underground.

Neste sábado (20), Reed subiu ao palco ao lado de quatro guitarras ligadas e encostadas em um pequeno muro de amplificadores. Enquanto a microfonia desentupia os ouvidos da plateia, o avô do punk sentou em torno de máquinas com efeitos sonoros, empunhou uma outra guitarra e seguiu viagem acompanhado pelo saxofonista Ulrich Krieger e pelo tecladista e programador Sarth Calhoun.

Desta forma, passaram-se cerca de 40 minutos de pandemônio sonoro, com pouquíssimas intervenções do compositor balbuciando algumas palavras.

Uma fã perdeu a paciência e xingou o ídolo antes de abandonar o local, depois de uns 15 minutos “de espera”. Mas os incomodados foram poucos, porque a maioria dos pagantes sabia o que esperava.

No final, Lou Reed caminhou até a beira do palco, agradeceu a todos e chegou a arriscar um som do Velvet Underground, I'll Be Your Mirror.

Um show surreal.

Daniel Vaughan

R7

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SÃO PAULO - Ruídos, microfonias, distorções e demais efeitos sonoros que passam ao largo do que se convencionou se chamar música. Por quase uma hora e meia, sem intervalo algum, na noite de sábado, Lou Reed (guitarra e eletrônica) e seus dois copilotos no Metal Machine Trio - Ulrich Krieger (sax tenor e eletrônica em tempo real) e Sarth Calhoun (processamento ao vivo) - apresentaram aos paulistanos a nova versão do controverso e radical projeto "Metal machine music", lançado em disco em 1975 pelo músico americano.

O concerto - que terá uma segunda dose neste domingo - lotou os cerca de mil lugares do Sesc Pinheiros, na capital paulista, abrindo a série "Barulho", que, até sábado, também contará com apresentações de grupos da Itália (Splinter vs Stalin e Crash Trio), da Dinamarca (The Raveonettes) e do Brasil (o coletivo carioca Chelpa Ferro e a banda paulistana Patife Band).

Ruídos que invadiram o teatro de ótima acústica antes mesmo de os três músicos tomarem seus lugares no palco. Até Reed se instalar numa cadeira, de onde só se levantaria perto do fim, passaram-se quase dez minutos de zoeira vinda das caixas de som, e que prosseguiria com o Metal Machine Trio em ação. Com uma guitarra e rodeado por um painel de computadores e demais geringonças eletrônicas, Reed, quase sempre cabisbaixo, disparava rajadas sonoras, que, encorpadas pelas contribuições dos companheiros, alternaram cacofonia, próxima do estilo free jazz, e momentos de algum descanso, beirando mantras. Após algum tempo, a receita se torna previsível, mas ainda incômoda, sem resquício de melodia, sem letras - em poucos trechos, ele murmura algo, algumas frases, mas que passam longe do canto.

No mínimo também é coerente com as intenções deste que já foi considerado o "pior álbum de todos os tempos", ao ser editado, há 35 anos, e que, com o passar do tempo, ganhou status de precursor ou referência de diferentes gêneros, do heavy metal ao grunge, passando pelo rock industrial, pelo techno e pelo trance.

Recuperado pelo artista no início do ano, que lançou uma versão remasterizada do disco, "Metal machine music" tem uma história bem mais interessante e curiosa do que seu resultado. Editado como um álbum duplo, ele teria sido feito para encerrar o contrato de Reed com a gravadora RCA. Num texto que escreveu para o encarte dessa primeira edição, Reed dizia que como o inventor do heavy metal estava fazendo o trabalho definitivo do gênero. Para muitos aquilo era uma piada, mais uma provocação do iconoclasta artista em briga com sua gravadora. Ao chegar às lojas, foi inicialmente recusado pelo público - muitos, ao não encontrarem as habituais canções do ex-líder do grupo Velvet Underground, devolveram o disco, alegando que estaria com defeitos.

Reed montou o Metal Machine Trio, ou MM3, em 2008, e desde então já tinha gravado um disco inédito, "The creation of the Universe", e também a trilha de um documentário "Red Shirley" , sobre sua tia de 102 anos, Shirley Novik, judia-polonesa que, em 1938, conseguiu fugir dos nazistas e emigrar para os EUA. Aos 68 anos, o cantor e compositor parece fisicamente debilitado, movendo-se com alguma dificuldade nos raros momentos em que se levanta. No fim, aplaudido calorosamente pela plateia - foram poucos os que abandonaram o concerto no meio - Reed retornou ao palco sozinho e fez no bis a única concessão da noite, apresentando "I'll be your mirror", canção do Velvet Underground. Mas, a voz cavernosa que saía de sua garganta pouco diferia dos raros espasmos guturais que ele tinha emitido momentos antes em sua Metal Machine Music.

Antonio Carlos Miguel

O Globo

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Imaginem como seria se hoje, em pleno ano de 2010, Marcel Duchamp enviasse a sua obra Fountain (um urinol, vaso sanitário, assinado com pseudônimo) para a Bienal de São Paulo. Haveria escândalo? O público fugiria? A crítica se enfureceria, como em 1917?

Lou Reed propôs algo parecido na noite de anteontem no Sesc Pinheiros com o seu Metal Machine Trio, com um efeito final curioso. Passou um espanador numa obra de impacto antiestético, o disco Metal Machine Music - An Electronic Instrumental Composition (RCA, 1975). Aquele álbum, hoje com 35 anos, era feito somente de música aleatória, álbum duplo com quatro faixas contínuas sem picos dramáticos, sem manipulação de emoções. Um manifesto de vanguarda ("Isso não tem significado para o mercado", advertia o cantor, nas notas do álbum).

Metal Machine Music, portanto, prestava-se a um questionamento ético - o que significa fazer música para entreter plateias? "Esse disco não é para festas, dança, música de fundo ou romance", escreveu Lou Reed. Quando foi anunciado seu novo projeto com o Metal Machine Trio, ficou no ar a questão: como ele retomaria aquela ideia, sem parecer déjà-vu, extemporâneo e, pior ainda, exibicionista?

A resposta, para os brasileiros, veio no show do Sesc, com todas as implicações de respeito e rejeição que a resolução da charada traria. Lou, tocando na penumbra, cercou-se de dois parceiros aplicados, que davam pinta de ter escapado de alguma banda extinta de metal melódico: o saxofonista Ulrich Krieger e o piloto de botões Sarth Calhoun, que também operava uma percussão eletrônica.

Livre improvisação num território eletrônico, um jazz de serralheria. Feedback, realimentação contínua dos sons, alternância de velocidades da guitarra (Lou Reed, sentado no centro do palco, parecia uma velha costureira do purgatório) e rasantes de saxofone. O efeito, na maioria do tempo, era de que o Metal Machine Trio tinha enfiado 1.000 pessoas (a lotação do teatro) numa espécie de máquina de ressonância magnética coletiva.

Os desavisados saíam às dezenas do teatro do Sesc Pinheiros após uns 20 minutos de show. Surpreendidos por uma música abstrata, cheia de distorções, sem melodias, sem padrões, sem canto, assaltos de urros e restos de sons urbanoides, como sirenes e metrôs, alguns sentiam-se lesados. "Está insuportável", dizia a educadora Ísis de Palma. "É um desconforto que dá, é um incômodo", definia a professora.

Como cães metálicos ganindo, a guitarra de Lou Reed gemia e o saxofone de Ulrich Krieger ignoravam a movimentação apressada no escuro do teatro, em direção à porta de saída. Seus "solos" lembravam serras elétricas desgovernadas na noite de São Paulo, e só de vez em quando se intuía alguma melodia no meio de tudo aquilo. Na frente do saxofonista, haviam falsas partituras - não é o tipo de música que se escreve.

Lou trabalhou a criação eletrônica ao vivo, com instrumentos eletrônicos e eletroacústicos, criando música em progresso. A referência ao álbum clássico só foi dada somente 10 minutos antes do início do show - enquanto a plateia ainda se sentava, o sistema de som tocava faixas do mais odiado disco do rock. De vez em quando, as vozes eram usadas para criar mantras soltos, que eram repetidos pelos laptops e juntavam-se a novos mantras.

Somente na metade do show é que Lou soltou algumas frases soltas ("O que você pensa? O que você vê?"), sob uma base que lembrava uma improvisação jazzística, mas um primo bem remoto desta. Com gestos enérgicos com as mãos, como um maestro da improbabilidade, Lou ordenava ao outro parceiro da noite, Sarth Calhoun, que operava os laptops ao vivo, para que castigasse a percussão eletrônica, ou estendesse efeitos.

Nos anos 1950, a música eletroacústica de Pierre Henry e Pierre Schaeffer utilizava-se de um banco de sons que armazenava desde gritos de animais a barulhos industriais editados. O alemão Stockhausen chegou a fazer um concerto com um quarteto de cordas tocando dentro de um helicóptero. Lou Reed parece concordar com Pierre Henry, que hoje em dia coloca os computadores na "categoria acidente de trabalho", preferindo sempre enfatizar os sistemas analógicos.

É preciso salientar que o show do Metal Machine Trio não seguiu de forma alguma o script daquele disco de 1975. Lou Reed fez música dessa vez, mas igualmente perturbadora quanto os ruídos do álbum. Naquela época, o artista escreveu no álbum que se sentia forçado, devido à capacidade de estimulação sensorial do seu trabalho, a advertir que poderia ter contraindicações - salientava que era delicado para hipertensos, pessoas com possibilidade de ataques epiléticos, disfunções motoras, etc.

No saguão fora do teatro do Sesc Pinheiros, a plateia que fugia gargalhava aliviada. Mas quem ficou tinha motivos fortes. Ao final, a plateia que resistiu pediu e Lou voltou. Ciente de que submetera seu público a uma provação, encerrou com uma do Velvet Underground, I"ll Be Your Mirror (a música é de 1967, do álbum The Velvet Underground & Nico, composta por Lou a partir de uma frase da cantora alemã Nico). "Com o Velvet Underground, a ideia sempre foi assumidamente lírica, verbalmente orientada para a cabeça, rock cabeça, com a exploração de vários temas tabu, como drogas, sexo e violência", disse Reed. Ao retornar a esse mundo das coisas naturais, tocando uma canção convencional no apagar das luzes, Lou Reed acabou cometendo um solitário ato de generosidade de um eterno enfant terrible do rock. Depois, foi comer numa cantina italiana.

Fonte: O Estado de S.Paulo

por Jotabê Medeiros