segunda-feira, 29 de abril de 2013

ABRIL PRO ROCK 2013

punk´s not dead
A edição de 2013 do já tradicional festival Abril pro rock aconteceu nos dias 19 e 20 últimos, sexta e sábado, no palco do Chevrolet Hall, simpática casa de espetáculos localizada exatamente na divisa entre os municípios vizinhos de Recife e Olinda. E eu, como faço todos os anos, fui lá conferir. É minha “peregrinação roqueira a Meca” particular. Porque é, geralmente, a única oportunidade que temos de ver por aqui, na região nordeste, grandes nomes, bandas clássicas e revelações da música independente dividindo o mesmo palco. E, nos últimos tempos, sempre com algumas atrações internacionais de peso.

Fui na sexta quase que exclusivamente para ver o legendário Television, que nasceu na efervescente  cena novaiorquina do final da década de 1970 – a mesma que nos legou nomes como Ramones, Blondie e Talking Heads - e já era pós-punk antes mesmo do punk existir como movimento. O “quase”, no caso, ficou por conta de Siba, de quem sempre gostei, seja no Mestre Ambrosio, na “Fuloresta” ou agora em carreira solo, mesmo que com ressalvas – achei o disco “avante” apenas mediano. Não de todo ruim, mas certamente irregular. Chatinho, para ser bem claro.

Não me arrependi. Até porque num Festival como o Abril pro rock as atrações não se limitam aos shows: há também as barraquinhas de souvenirs e a oportunidade de rever amigos que moram longe. Foi o que fiz, logo que cheguei – tarde, já que havia um temporal infernal no meio do caminho: percorri as barracas e comecei a colocar a conversa em dia, já que o que rolava no palco, naquele momento, não era nem um pouco atrativo para mim. Só depois de um bom tempo com aquela chatice como musica de fundo fui me interessar em perguntar a alguém de que se tratava. Era o Volver, uma espécie de Los Hermanos local. Já conhecia de outras edições. Nunca gostei. Na real, nunca consegui prestar atenção.

Television
Na sequencia veio o Television. Ótimo, não seria preciso esperar até o final. Palco reduzido -  tudo na frente - iluminação simples e direta. Sem muito papo, nem mesmo um educado e de bom tom “Boa noite”. Tomaram seus lugares e começaram a mandar brasa em seu som “anguloso” e cheios de improvisos, com as guitarras passeando pelas melodias, ora se encontrando e conversando, ora tomando rumos diferentes. Tudo devidamente marcado pela cozinha “jazzística” de Fred Smith, no contrabaixo, e Billy Ficca, o baterista - ambos egressos dos primórdios ao lado do guitarrista, vocalista e líder informal Tom Verlaine.  O outro “guitar hero”, Richard Lloyd, não está mais na banda. Em seu lugar, de chapéu coco e cavanhaque grisalho, temos Jimmy Rip – de quem nunca tinha ouvido falar mas que, soube depois, já trabalhou com muita gente grande e boa, tendo sido, inclusive, guitarrista e produtor do disco de duetos lançado em 2006 por Jerry Lee Lewis, “Last man standing”. Segura bem a onda, fazendo a cama para o “virtuosismo discreto” e refinado de Verlaine.

Television
Eu sei, é contraditório, mas é por aí. O Television é uma puta banda, mas sempre foi para poucos. É “Cult”. Não é música para grandes estádios, para levantar a “massa”. Tanto que a impressão que tive é de que o show caberia muito bem num teatro, com o público sentado. E, de preferência, calado – o que não aconteceu naquela noite. Sem conseguir assimilar a proposta sonora que emanava dos auto falantes, as pessoas pareciam aproveitar para tagarelar, o que atrapalhou um pouco nos momentos mais “intimistas”. Mas nada de mais. Nada poderia estragar aquele momento único. Nem os objetos jogados no palco, que provocaram alguns sorrisos irônicos em Verlaine e uma reação mais exaltada de Rip, que foi à beira do palco com o dedo em riste tentando encontrar o autor da afronta.

Billy Ficca
Entre uma musica e outra Verlaine mandava uns “obrigado”, em português, e era isso. Foi assim até o final apoteótico, com a faixa título de seu disco mais clássico, “Marquee Moon”, em versão estendida – sendo que a original de estúdio, quem conhece sabe, já é bem grande. E acabou. Menos de uma hora de show. (Quase) ninguém pediu mais, e eles não pareciam dispostos a voltar, em todo caso. Ficou um gostinho de quero mais, de “coito interrompido”, mas ok, tranqüilo. Já posso dizer que vi um show do Television.

De volta ao fundão, assisti de longe e desatento às demais apresentações. Posso no entanto afirmar, mesmo que superficialmente, que Marcelo Jeneci fez uma apresentação interessante, com arranjos “ousados” e um excelente acompanhamento de Laura Lavieri – aliás não entendo porque eles não se apresentam como dupla, já que a cantora participa de igual para igual em praticamente todas as canções, sendo solista em pelo menos uma, “Astronauta”, versão de uma musica de Roberto Carlos. Própria, mesmo que em parceria com Chico César, o paulistano tem pelo menos uma excelente composição: “Felicidade”, à qual já havia sido apresentado por Bela Raposo na programação da Aperipê FM.

Siba - e Thiago Babalu
E então veio Siba. Apesar da formação sui generis, com uma tuba fazendo as vezes de contrabaixo, e de algumas boas canções como “Ariana” e “Avante”, apenas confirmou a impressão que eu tive ao ouvir o disco: faltou inspiração nas composições. E, por conseqüência, faltou repertório para segurar um show inteiro, mesmo que em formato reduzido, com foram os do Abril pro rock. Foi chato, dispersivo. Só não fui embora porque fiquei hipnotizado pela perfomance de meu amigo de longa data, o sergipano Thiago “Babalu”, hoje radicado em São Paulo e membro efetivo da banda de apoio do pernambucano.

Retirei-me depois, aos primeiros acordes do Móveis Coloniais de Acaju. Não curto – e não agüento mais ouvir essa porra, já que o último disco deles, em dobradinha com o do Pata de Elefante (aí sim!), virou trilha sonora do Cinemark antes do início da exibição dos filmes. Tortura Chinesa perde.

Sodom
Voltei na noite seguinte, claro. A já tradicional “Noite das camisas pretas”, quando o capeta se torna Rei Momo e a capital do frevo e do maracatu se transforma numa espécie de sucursal do inferno! “Hellcife” virou de cabeça pra baixo, numa curiosa “inversão de valores”: enquanto as hordas de punks e Headbangers “from Hell” tomavam conta do nobre espaço do Chevrolet Hall, o Só Pra Contrariar, numa turnê de 25 anos com a volta de Alexandre Pires, teve que se contentar com o Centro de Convenções, que já abrigou várias edições do Abril pro rock. Uma “vingança maligrina”, como diria Bento Carneiro, o vampiro brasileiro.

(Uma curiosidade: segundo o Jornal Folha de São Paulo, os integrantes do Dead Kennedys, ao ficarem sabendo que havia um grande espetáculo de samba logo ali ao lado, fizeram questão de ir lá dar uma conferida, apesar da advertência do produtor Paulo André de que aquele não era exatamente um tipo de samba, digamos, tradicional. Se decepcionaram com o som pasteurizado dos pagodeiros românticos e foram embora depois de cerca de dez minutos.)

Vocífera
Muita gente na porta, filas enormes para comprar ingresso. Mas entrei a tempo de ver o final da apresentação da primeira entre as 10 (isso mesmo, dez !!!) atrações da noite. Era a Vocífera, banda local, de Pernambuco, composta só de meninas. Meninas mesmo – a baixista, que tinha pinta de ser menor de idade, quase some por trás do instrumento. Estão no caminho certo, mas “it´s a long way to the top/IF you wanna rock and roll”: ainda estão verdes, e deixaram transparecer a inexperiência no palco. Em todo caso, reafirmo: promete. Espero vê-las maiores e melhores daqui a alguns anos ...

Vocífera
Na sequencia entrou um daqueles Heavy Metal´s genéricos com um vocalista meio abobalhado forçando a barra na perfomance e eu fui visitar os amigos do fundão. Sempre muito bom rever camaradas como George Frizzo, de Fortaleza, Fernando Castelo Branco, de Teresina, Rogerio Big Brother e os Pastéis de Miolos, de Salvador, LA Nino, baterista do Câmbio Negro HC, lá mesmo do Hellcife, Pedro De Luna, do Rio de Janeiro, Evandro “Cigano Igor” e o grande Tulio DFC, que eu não via há pelo menos uma década. E conhecer, inclusive, alguns ouvintes do programa de rock, como o brother do Picos e Pistas skateborad. E, por fim, ficar babando nos discos de vinil que eu não estava em condições de adquirir – dentre eles um Neubaten em capa dupla que quase me fez cair em tentação – para minha sorte a banquinha do Big foi desmontada antes do final da noite e livrou-me do mal do consumismo. Amém.

No palco, uma banda chamava a atenção: Kataphero, do Rio Grande do Norte. Pesadão, meio industrial, meio Rammstein, inclusive no visual. Legal. Na sequencia, Fang, a primeira atração internacional da noite. Estão acompanhando o Dead Kennedys, por isso foram incluídos no pacote. Boa banda, Hard Core correto e energético made in California. Não conhecia, mas consta que são bem conceituados, tendo entre seu roll de admirados personalidades do quilate de Mark Arm, do Mudhoney, e o falecido Kurt Cobain, de vocês sabem qual banda.

DFC
E então veio o DFC. Tulio havia me dito que Paulo André confessou que os chamou de volta 18 anos depois para se ver livre da molecada que insistia em pedir a presença dos candangos bastardos. E eles vieram com tudo, cuspindo fogo e metendo o “pau no cu do capitalismo em posições obscenas” – singelo nome da primeira canção. Quase destruíram o palco e os tímpanos dos incautos, fazendo a alegria da “molecada 666” que abriu a primeira e maior roda de pogo da noite, transformada pela energia emanada dos alto falantes num verdadeiro “clube da luta”, para além da tradicional “ciranda cirandinha” sem muito confronto individual que costuma ser da tradição local. Estava mais para uma roda de punk baiano – na Soterópolis o bicho pega, sempre. Sei por experiência própria.

DFC
O show foi insano. Tulio é um grande frontman, e conduzia a massaroca (bem definida, o som estava bom) crossover com saltos quase ornamentais e saudações “maloqueiras”. Destaque para a homenagem a Brasilia em “Cidade de merda”, que eles compuseram durante as comemorações dos 50 anos de nossa distópica capital. No final, “Molecada meia meia meia” – “porque o capeta vai te pegar e vai te comer”. Foram cerca de 30 faixas extraídas de todos os (muitos) discos, que sempre têm títulos excelentes: “Igreja quadrangular do triângulo redondo”, “O mal que vem para pior”, “O massacre da guitarra elétrica” e “sob o signo de satã”. O próximo sairá em breve em vinil pela Laja Records e se chamará “Sequência Animalesca de Bicudas e Giratórias”.

Devotos
Depois foram os Devotos, que também estavam há um tempão longe da escalação do Abril – 12 anos, se não me engano. Dizem todas as línguas, boas e más, que por conta de uma antiga briga com a produção – o que se confirmou de maneira bastante contundente no palco, quando Canibal incluiu Paulo André no roll de execáveis da letra de “Devotos do Ódio”. “O que nós temos por Paulo André: ódio” foi uma afirmação, no mínimo, forte. Confesso que fiquei “de cara”.  Me deu a impressão de que algo ruim aconteceu nos bastidores específicamente naquela noite, pois havia um clima tenso no ar ...

Fizeram um bom show, mas ficaram um tanto quanto ofuscados pelo rolo compressor (DFC) que havia passado por cima da platéia. Platéia que, no entanto, não deixou de prestigiar um dos mais queridos representantes da cena local. Tiveram, também, a melhor produção de palco no quesito visual, com uma belíssima projeção de imagens que iam de colagens de matérias de jornal sobre os 25 anos da banda a esboços de desenhos, provavelmente do guitarrista e artista plástico Neilton. O som, no entanto, deixou a desejar – especialmente a guitarra, um tanto quanto “saturada” e sem peso.

Dead Kennedys
A sequencia “3D” terminou com a mais que lendária Dead Kennedys. Foi legal ver os caras que construíram um dos capítulos mais marcantes da história do punk rock e do rock and roll em geral ao vivo e a cores e em alto (nem tanto) e bom (também não, estava apenas razoável) som. Mas a verdade é que eu não consegui superar a falta de Jello Biafra. E olha que nem foi culpa do competente e esforçado vocalista Ron “Skip” Greer. Foi muito acusado de tentar imitar os trejeitos de Jello, mas acho injusto. Creio que qualquer um naquela posição, a não ser que se comporte como uma estátua inanimada – como HR nos últimos shows do Bad Brains – sofreria com a comparação. É que Biafra é daqueles que simplesmente não dá para substituir, mesmo que tenhamos por trás aquela mesma banda que gravou clássicos absolutos como “Frankenchrist”, “Plastic Surgery disaster” e “Bed time for democracy”.

Dead Kennedys
Pra piorar a situação, os caras pareciam estar na base do “qualquer nota”, meio desleixados na execução do repertório que, eu sei porque já vi em muitos vídeos, costumava ser, além de extremamente energética, também precisa. O baixista, Klaus Flouride, foi quem mais deixou a desejar. Como falou o camarada Marcos Braggato em seu Rock Em Geral, “com todo o respeito, está mais para a fila de benefícios do INSS do que para comandar uma horda de desajustados como a do Recife e arredores.” East Bay Ray também parecia estar ali apenas para cumprir tabela. Lamentável.

Mas o show não foi exatamente ruim. Foi apenas “fraco” – ou muito aquém do que se esperaria de uma banda deste porte. Em todo o caso, estavam lá os clássicos, tocados por East Bay, Flouride e DH Peligro – este último visivelmente empolgado e ainda bastante em forma, se comparado aos companheiros – e entoadas em uníssono pela platéia. Mas era foda: você olhava pro palco e queria ver Jello Biafra. Era inevitável. Sem ele, os Dead Kennedys não conseguem deixar de ser apenas uma banda cover de si mesmos – e nem chega a ser das mais competentes, diga-se de passagem.  

Krisiun
Fim de papo para os punks. Chegou a vez das Hordas do metal saírem dos fundos e se posicionarem na frente do palco. Porque o Krisiun estava ali. E fez aquele que foi, tecnicamente, o melhor show da noite – em minha humilde opinião, claro. E olha que eu nem sou um grande fã do estilo ou da banda em especial, apesar de ter gostado bastante de seus dois últimos discos. O som estava simplesmente perfeito. Inacreditavelmente perfeito. Certamente o melhor equalizado: tudo em seu lugar, perfeitamente audível e, agora sim, em alto (MUITO ALTO) e bom som. O trio infernal não deixou por menos: fez uma apresentação matadora, precisa. Não deixou pedra sobre pedra. Sua cover para “No Class”, do Motorhead, foi, pra mim, o ponto alto não apenas daquela noite, mas de todo o festival. Antológico.

Krisiun
O Sodom também foi muito bom. Trata-se de outro trio, só que alemão (O Krisiun é brasileiro, do Rio Grande do Sul). Formado em 1981, é uma daquelas verdadeiras instituição do metal, venerada por um seleto porém fiel séquito de admiradores ao redor do mundo. Nunca ouvi direito, confesso, mas ouço falar deles desde os meus primeiros passos na seara do rock “do mal”. E eles realmente não decepcionaram. Para que se tenha uma idéia da importância e do pioneirismo dos caras, foi abrindo para eles que o nosso Sepultura começou a se destacar mundo afora, na turnê de divulgação de “Beneath the Remains”.

Depois de cerca de 20 minutos de espera – foram os únicos a se atrasar – Tom Angelripper se posiciona no centro do palco em frente a um ventilador que deixa seus cabelos esvoaçantes – efeito que dura até que o suor começa a tomar conta das abundantes madeixas. Escudado pelo guitarrista Bernd Bernemann Kost e conduzido por um baterista cujo visual, de cabelos curtos e boné com a aba invertida, destoava do figurino metálico, passou a enfileirar clássicos da porradaria sonora que combinam execução simples porém precisa, agressividade e boas mudanças de andamento.  

Sodom
Ao som de clássicos como “Agent Orange” e “Remember the fallem”, seguiram o roteiro “maléfico” à risca até que, num dos momentos mais inusitados de todo o festival, para minha surpresa, o alemão começa a tirar no baixo uma melodia conhecida que não tem, a principio, nada a ver com o som que fazem usualmente. Custei a acreditar, mas quando ele começa a cantar não resta dúvida: O Sodom estava fazendo um cover de “Surfin´Bird”, dos Trashmen, imortalizada pelos Ramones! Por esta eu, realmente, não esperava! Conquistou minha admiração, definitivamente.

Encerrando a apresentação, “Angelripper” tira a suada camiseta do Tankard – outra cultuada banda de thrash metal alemã – que usou durante todo o show, joga-a para a platéia e se retira, com cara de satisfação e dando tapinhas na pança saliente.

E foi isso, senhoras e senhores. Ops! Não, ainda teve André Matos, encerrando a noite. Mas não pra mim. FUI!

Para finalizar, duas observações: A organização do evento foi impecável, fornecendo iluminação de muito bom gosto e som de qualidade para todas as bandas. Ou quase todas. Da luz não há do que reclamar, foi sempre perfeita, mas o som variou um pouco de um show para outro – nada que estragasse o espetáculo, mas é lamentável, em todo o caso. Não sei o que houve, se foram falhas técnicas do festival ou culpa das bandas, que teriam se atrapalhado com a equalização ou coisa do tipo. Não sei, não frequentei os bastidores. Sou público pagante. Nunca viajei credenciado nem “a convite da produção”.

E, por fim, tem a maldita BR 101, que continua praticamente intransitável em alguns trechos, com um fluxo pesado de caminhões em marcha lenta emperrando tudo. Fatura a ser cobrada de Dona Dilma, já que as obras de duplicação, que ironicamente fazem parte do PAC – Plano de Aceleração (???) do Crescimento – e resolveriam o problema continuam se arrastando a passos de tartaruga há já quase uma década, calculo eu. Isso porque Juscelino, o principal responsável por nos legar como herança este equivocado modelo de desenvolvimento baseado no transporte de passageiros e cargas em rodovias em detrimento das ferrovias, infinitamente mais apropriadas para países de dimensões continentais como o nosso, já morreu.

por Adelvan Kenobi

fotos: apr 2013 © Rafael Passos

mais tarde

 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Muito tempo longe

Com primeiro álbum de inéditas em 16 anos, Soundgarden consolida a volta ao mercado e deve, enfim, vir ao Brasil em 2013. Publicado na Billboard Brasil 36, de novembro de 2012.


1989
Quase três anos depois de anunciar o retorno, no revéllion de 2010, finalmente o Soundgarden lança um álbum de inéditas, o bom “King Animal”. Antes, a banda quis revirar o passado com a coletânea “Telephantasm” e com “Live On I-5”, disco gravado ao vivo com material antigo. As 13 faixas de “King Animal” quebram um jejum de 16 anos, já que “Down The Upside” praticamente decretou a separação do quarteto em 1996.

Nesse meio tempo, enquanto o vocalista Chris Cornell seguia carreira de altos e baixos, com quatro álbuns solo, os demais integrantes saíram de cena - à exceção de Matt Cameron, que continua dividindo as baquetas entre o grupo e o contemporâneo Pearl Jam. No fim das contas a separação parece ter sido até benéfica, já que os quatro - completam a banda o guitarrista Kim Thayil e o baixista Ben Shepherd - retornaram bastante participativos na feitura do novo disco, como conta Cornell nessa por telefone, de Los Angeles.

Ben Shepherd, o baixista
O vocalista também explica a demora para iniciar as gravações das músicas de “King Animal”; faz comparações do momento atual da banda com o passado; se surpreende com a instantaneidade do mundo virtual; e ainda promete que o Soundgarden, sempre cogitado para os festivais brasileiros, finalmente vem ao País em 2013. Será mesmo? 

“King Animal” é primeiro disco do Soundgarden em 16 anos. O que mudou nesse tempo todo?
É um gap muito grande. Eu já acho que o intervalo entre um disco e outro, de alguma forma, é sempre um momento de mudança de abordagem. Agora que tivemos um longo tempo para ensaiar e para tocarmos, vimos que estamos diferentes, há novos sentimentos rolando.

A reunião foi anunciada em 2010. Por que demoraram tanto tempo para lançar este álbum?
Não havia nada planejado com tanta certeza. Havia muitas coisas que queríamos fazer logo de cara: voltar com um site, reacender os fãs, trabalhar em merchandise. Isso foi a primeira coisa que fizemos, e então decidimos lançar coisas antigas, queríamos ver como funcionaria a ideia de trabalharmos juntos de novo. Só depois é que veio o negócio de fazer shows e também a possibilidade de compormos material novo. Mas é claro que queríamos isso desde o início, só não era o caso nem a situação de termos pressa. Precisávamos antes acertar as contas com a nossa história e cuidar do nosso legado. E o mais importante era termos paciência para fazermos músicas com inspiração.
De onde vem o título “King Animal”? Não aparece em nenhuma música do disco.
O Kim veio com esse título, baseado na arte da capa, que é muito elaborada. Essa foi a primeira vez que pensamos antes na arte do CD e depois nas músicas, e antes de o disco ficar pronto. Fizemos o título para funcionar junto com o visual e estamos superfelizes com ele.
A escultura da capa foi feita antes do disco?
Antes de finalizamos, sim, certamente. Estávamos no meio das gravações. O título é algo muito específico. Não é como quando o AC/DC dá o nome “Powerage” ou “High Voltage” e dá pra saber essencialmente o que é. No nosso caso há muitos aspectos diferentes nesse disco, não há um titulo que represente especificamente tudo o que acontece musicalmente em todas as faixas. Por isso o titulo é meio aberto, como “Superunknown” e “Louder Than Love” (álbuns de 1994 e 1989, respectivamente). “King Animal” sugere agressividade, mas também evoca coisas diferentes, lugares diferentes para ir, mentalmente falando.
Como vocês acham que esse disco se encaixa no mercado musical de hoje?
Eu não me importo com o mercado. A única coisa que o mercado musical fez por nós foi mostrar aquilo que devemos evitar. Nós estamos todos bem felizes com o álbum. Acho que é bom estarmos de volta, porque o que fazemos é algo que ninguém faz. Qualquer um pode ouvir esse disco e se sentir bem.
Com qual das fases anteriores esse disco mais se parece?
Eu sei lá (pensativo)… Talvez esse disco encerre uma trilogia, com o “Superunknown” e o “Down The Upside”. Há algumas músicas que soam como o Soundgarden do início, talvez a forma de compor. Nós realmente temos quatro compositores bastante participativos na banda, cada um com uma abordagem completamente diferente. Por isso é difícil dizer como um disco sai exatamente, o que é uma coisa muito boa. Toda música nova surpreende. Eu me lembro exatamente quando o Ben tocou para mim a música “Head Down” (do “Superunknown”) pela primeira vez. Eu parei e pensei: que sorte é ter isso! A maioria das bandas não trabalha assim, é tipo uma figura central que faz quase todas as músicas. E temos um baterista que compõe e traz músicas difíceis de tocar!
“Being Away Too Long” é a primeira música lançada desse disco, e o titulo é quase um cartão de visitas do retorno. Como rolou de essa música ser o primeiro single?
Mesmo que a letra não se refira especificamente ao nosso retorno como banda, acho que era óbvio, pela natureza da música, o feeling… tinha que ser o primeiro single.
É que é uma música mais pesada, com um riff forte. Muitas vezes músicas assim não são colocadas como single…
É verdade. Mas nós sempre tivemos problemas com singles. No “Superunknown” o terceiro single foi “Black Hole Sun”, que as rádios simplesmente tocaram, nós não tivemos escolha, e a gravadora queria colocar “Feel on Black Days”, que acabou saindo depois. O single nunca representa o álbum como um todo, porque há muito mais no disco. E agora é mais difícil ainda, porque as pessoas estão on line, conversando, fazendo comentários em blogs. E dizem o que elas acham, o que o disco vai ser, baseado em uma música. Dessa vez liberamos um pedaço de 40 segundos primeiro, e eu li parágrafos e parágrafos de pessoas descrevendo o que eles esperam de um disco e de uma música após terem escutado 40 segundos!
“Attrition” seria um single interessante, embora não seja uma música típica do Soundgarden, porque tem um sotaque mais pop.
Pode ser, sempre há a possibilidade. Para mim é uma boa música, mas as coisas não funcionam como antes. Hoje parece que para ser um single a música tem que seguir uma fórmula específica, de modo a agradar o pessoal das rádios, os produtores. Isso nunca fez sentido algum para mim. É por essas e outras que hoje o radio é algo totalmente desinteressante.
O guitarrista Mike McCready, do Pearl Jam, toca na música “Eyelid’s Mouth”. Como ele se envolveu nisso?
O Mike é um sujeito com o qual ainda saímos às vezes, é um rocker de primeira e poderia ter participado de mais músicas no disco.
Esse disco tem um naipe de metais em algumas músicas, o que não é comum na história do Soundgarden…
Já usamos trompete uma ou duas vezes, mas essa é a primeira vez que colocamos uma seção de metais. Na verdade achei que podiam ter ficado mais altos. É muito bonito o jeito de eles tocarem, gostamos desde o início, caiu perfeitamente nas músicas.
O Soundgarden é sempre esperado no Brasil, afinal quando vocês tocam aqui?
Sei lá, mas sei que temos que ir. Nas vezes em quando toquei (2007 e 2011) o público foi incrível. Na verdade sempre converso com fãs brasileiros o tempo todo e em algum momento vamos tocar por aí, possivelmente em 2013.
Você lançou um disco mais pop (“Scream”), em 2009, produzido por Timbaland. Como foi essa experiência? Pretende repetir?
Foi bem estranho. Mas foi bom no sentido de eu ter que mudar a abordagem na hora de compor e de fazer um disco. Foi tudo de um jeito que eu nunca tinha feito antes, então tive a possibilidade de fazer um disco único. Havia o mito da expectativa de eu fazer um disco “moderno”, mas era legal trabalhar em algo que eu não sabia no que ia dar, fora da zona de conforto. Foi uma boa experiência, mas por hora não pretendo repetir.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

rip Storm Thorgerson

Morreu nesta quinta-feira, 18, o designer Storm Thorgerson, conhecido pelo seu trabalho com o Pink Floyd. Ele tinha 69 anos e, segundo a BBC News, vinha batalhando contra um câncer na garganta há alguns
anos.

A família do designer declarou ele morreu de forma tranquila, em casa. Em 2003, Storm sofreu um enfarte, mas conseguiu se recuperar bem. Storm deixa a esposa e um filho.

Em um comunicado, Dave Gilmour, guitarrista e vocalista do Pink Floyd, afirmou que a arte gráfica criada por de Storm para a banda sempre foi uma “parte inseparável do nosso trabalho”.

O artista começou a carreira em grupos de design no fim dos anos 60. A amizade com os integrantes do Pink Floyd veio da infância – mais precisamente de Syd Barrett.

Em entrevista à Rolling Stone EUA, em 2011, o designer gráfico explicou o conceito da sua mais conhecida obra: a capa de The Dark Side of the Moon. “Eles não tinham realmente celebrado este lado. Isso era uma coisa, a outra era o triângulo. Eu acho que o triângulo, que é um símbolo de reflexão e ambição, foi muito sobre o assunto nas letras de Roger [Waters, baixista e principal letrista da banda]. Então o triângulo foi muito útil – como nós sabemos, obviamente – no aspecto de ser um ícone para transformá-lo em um prisma – e você sabe, o prisma pertencia ao Floyd”, disse.

Ele ainda confirmou que, entre as várias opções de capa, uma delas incluía um Surfista Prateado, como o personagem das histórias em quadrinhos da Marvel Comics. “Mas eles recusaram”, contou. Para a arte interna do álbum, veja bem, o Pink Floyd enviou Storm para o Egito, simplesmente para clicar fotos das pirâmides.

Storm também assina a arte gráfica de bandas como Biffy Clyro, Audioslave, Bruce Dickinson, Peter Gabriel, David Gilmour, The Mars Volta, Helloween, Megadeth, Muse e The Offspring.

O trabalho ao lado, "scrutinity", foi feito para uma banda não identificada que aprovou todo o processo e o resultado final, mas foi recusado pela gravadora por "falta de apelo comercial".

Certas coisas não mudam, nunca ...

Fonte: Rolling Stone

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# 269 - 13/04/2013

Em 2005 o coletivo anarquista Chumbawamba - que fez sucesso na década de 1990 com o single "Tubthumping" - colocou em pré-venda um EP chamado in Memoriam: Margaret Thatcher, que seria entregue apenas quando a ex-primeira ministra inglesa falecesse. Aconteceu, e eles cumpriram o prometido. Para não deixar dúvidas de que aquilo não era uma homenagem, escreveram no release que acompanha o lançamento: "se nós precisamos mostrar algum decoro e reverência neste momento, que seja: nosso profundo respeito e simpatia a todas as vítimas de Margareth Tatcher". Achei genial. Toquei no programa uma das músicas do EP.

E toquei também o Ghost, que vem chamando a atenção mundo afora com seu visual profano espalhafatoso e seu som que remete ao Heavy Metal, mas foge dos clichês. Achei interessante.

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Television - See no evil
Siba - Ariana

Gene - Town called malice
Echo & The Bunnymen - People are strange
Glauberovsky Orchestra - Working class hero

Ghost - Infestissuman/Body and blood
Chumbawamba - The Day the lady died
Jello Biafra & The Guantanamo School of medicine - The Brown lipstick parade

1919 - caged
Joy Division - Ice age
Gary Numan - Cars

Pin Ups - Witkin

Ultraje a Rigor - Inútil (1983 single)
Titãs - Clitóris
Ira! - É assim que me querem
Camisa de Vênus - Lobo expiatório

Sodom - Agent Orange
Krisium - Extinção em massa

DFC - Tchan nan nan nan nan
DFC - O pé
Dead Kennedys - Kill the poor
Dead Kennedys - Drug me
Dead Kennedys - Take this job and shove it
Dead Kennedys - Rambozo the clown
Devotos do Ódio - Punk rock Hard Core Alto José do Pinho
Devotos do Ódio - Eu tenho pressa
Devotos - Devotos do ódio
Devotos - Canção para mudar
Devotos - Roda punk
Devotos - Selvagem
Devotos - Alien

Mais uma dose

‘Dias de Luta’, livro que melhor explica o rock brasileiro dos anos 80, tem relançamento 10 anos após à primeira edição; autor Ricardo Alexandre explica os detalhes. Fotos: internet.

 

por Marcos Bragatto

reg 

 

Se você conhece a década de 1980 no rock nacional a partir de festinhas trash cujo nome não vale grafar e acha que aquela é que foi a geração perdida, você está fazendo isso de modo errado. Mas a história está te dando uma nova oportunidade de descobrir, tintim por tintim, como tudo aconteceu e o porquê de o rock ter dominado as paradas musicais no Brasil naquele período. É que o livro “Dias de Luta - O Rock e o Brasil dos Anos 80″, do jornalista Ricardo Alexandre, está sendo reeditado, quando a edição inicial completa (já?) uma década.

Sim, na década de 1980 o playlist das grandes rádios era rock de cabo a rabo, as bandas nacionais lotavam casas de shows de diversos portes, as novelas tinham rock na trilha sonora, o cinema ia atrás do rock e até as vinhetas de final de ano da “Globo” eram protagonizadas por artistas de rock e narradas pelas locutoras da rádio rock da época, a Fluminense FM. Foi a Flu FM, junto com o Circo Voador, que catapultou essa história, comum a outros países em períodos pós ditadura, e que foi desaguar improvável verão do rock do Rock In Rio.

É por aí a maior sacada de Ricardo Alexandre, que conta a história do rock nacional do período, abraçado pela juventude, contextualizando com as mudanças políticas e sociais pelas quais nosso País passava. E isso sem soar aquela coisa chata de livros de história. Para saber os detalhes dessa redição de “Dias de Luta”, falamos com o autor, que explica o que há de diferente da edição original, o cruzamento com o mundo virtual (veja aqui o site, com imperdíveis podcasts temáticos), e os novos projetos, que inclui um livro sobre o rock da década de 1990. Leia abaixo o resumo do papo, travado via e-mail:

NOTA DO EDITOR DESTE BLOG: Antes, gostaria de dizer que já li o livro, na edição original, e recomendo muito. Em mim, que vivi a época, despertou um saudosismo tão grande que me fez ter vontade de comprar discos que ouvi muito via FM mas que reneguei posteriormente e nunca imaginei ter em minha coleção, como Kid Abelha, Leo Jaime e Ritchie. Confesso que comprei o do Ritchie ...

Rock Em Geral: O que foi acrescentado de conteúdo inédito nessa nova edição do livro “Dias de Luta”?
Ricardo Alexandre: Na edição em papel, o texto foi revisto, e atualizado e corrigido onde era necessário. O projeto gráfico é totalmente novo – e, curiosamente, mais próximo da minha ideia original de 2002, vencida pela sugestão da editora. Há um novo prefácio, escrito em 2012 e um apêndice com uma sugestão de playlist com as 50 músicas mais importantes daquela história. Nessas, o livro ganhou 40 páginas. Mas o grande objetivo da edição em papel era trazer a obra de volta às lojas. A edição em e-book, prevista para junho, esta sim, vem cheia de extras, como o áudio das entrevistas originais, testes de capa, anotações etc.

REG: Desde quando o livro estava fora de catálogo e por que isso acontece?
Ricardo: Se não me falha a memória, a tiragem original se esgotou em dois anos. No nosso caso, aconteceu que a DBA é uma editora especializada em livros de arte e projetos de conteúdo para marcas, e 4 mil exemplares de um livro de jornalismo foi considerado uma boa venda, o suficiente para ficarem satisfeitos – mas não o bastante para que decidissem bancar nova impressão e distribuição. Depois de cinco anos, os direitos do livro voltam para o autor – e, estranhamente, nem a editora nem eu cogitamos relançá-lo desde 2007. Esse desejo só apareceu quando se aproximava a efeméride dos 10 anos da publicação original.

REG: Houve mudança de editora nesse período. Deu trabalho liberar a reedição do seu próprio livro?
Ricardo: Não, de forma alguma. Sempre tive uma relação excelente com a editora DBA, especialmente com o amigo Alexandre Dórea, que ajudou tanto quanto pode, em detalhes muito valiosos do processo. De mais a mais, os direitos eram meus.

REG: Lembrando da edição original, assim como o surgimento do rock no início dos anos 80 é bem explicado, faltou uma explicação para a queda do movimento, na década de 90. Você chegou a mexer nessa parte? Ou nem concorda com esse ponto de vista?
Ricardo: Não, não mexi em nada da estrutura do livro – apenas detalhes ao longo de todo o texto para corrigi-lo e atualizá-lo. Eu lembro da crítica do Rock em Geral à edição original, havia algumas reservas justamente à ideia de que aquela geração havia se deixado cooptar pela mpb (leia a crítica aqui). Hoje eu acho que você estava certo, acho que isso é uma das coisas que mais me incomodaram no processo de revisão do livro – mas por honestidade histórica, eu preferi deixar como estava. Atualmente, creio que essa visão, de que o rock brasileiro deveria seguir peitando Caetano e Gil, era muito ingênua e muito injusta com ambos os lados. Isso posto, acredito que a derrocada do movimento está, sim, registrada, em seu estranhamento com a indústria, em sua autocondescendência, em seu experimentalismo, em sua soberba, nas drogas, nos fins de algumas bandas, e em sua inabilidade de renovar-se diante de uma geração de entertainers totalmente subservientes à indústria (axé music, sertanejos, pagodeiros etc).

REG: Você está trabalhando num livro sobre o rock dos anos 90. Será parecido com o “Dias de Luta?” Dê mais detalhes sobre o projeto:
Ricardo: Não, será totalmente diferente. Na verdade, sempre me perguntavam sobre a “continuação” do “Dias de luta”, desde 2002, e eu dizia que um projeto assim seria impossível por definição, já que o eixo do primeiro livro é o ponto de vista de alguém que olhava para aquela geração de fora, como um espectador comum. Nos anos 90, eu estava envolvido desde a primeiríssima hora, como jornalista. Mas decidi usar essa característica como ponto de partida de um novo projeto. Começa em maio, em forma de blog, dois capítulos por semana. Em primeiríssima pessoa, as aventuras de um moleque jundiaiense na última dentição do rock brasileiro, “Almost Famous” total. Ao final de 50 capítulos, reunimos tudo e lançamos em papel. Vai se chamar “Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar”.

REG: Algum outro projeto em andamento?
Ricardo: Quero tentar estabelecer a “Tudo Certo Conteúdo Editorial” como uma boa parceira para quem tem plataformas e precisa de conteúdo, esse é o grande projeto. Tenho feito coisas com TVs, com aplicativos, rádio. Espero que dê certo.

REG: Há quem enxergue que o rock nacional está em baixa no mercado. Você pensa dessa forma ou aponta a diluição das novas formas de se ouvir música a culpada pela falta de referências nos nossos tempos?
Ricardo: Acho que há de se “fatiar” essa questão. Primeiro, porque o que costumamos chamar de rock brasileiro hoje não obedece mais o padrão de música-jovem-dominada-por-guitarras. Acho que a linhagem do rock brasileiro dos anos 80 veio dar no Curumin, na Céu, no BNegão, coisas que dificilmente tocariam numa rádio rock. Em segundo lugar, porque o rock que sobra, aquele evidentemente roqueiro, ou acabou virando música de criança (Restart, NXZero, Charlie Brown Jr) ou virando algo que, a despeito da qualidade, não dialoga muito com o pop (Vespas Mandarinas, Diablo Motor). Mas não acho que a questão esteja aí. Na minha opinião, a grande diferença é que nos anos 80 todo mundo precisava, em algum momento de sua fase inicial, enfrentar e provar-se para um público que não era o seu. Seja no Napalm, no Rock Voador ou no Chacrinha, aquela banda radical de pós-punk socialista precisava fazer dançar e cantar junto. Hoje, com a internet,sua música chega ao mesmo tempo no sertão nordestino e nas capitais do sul. Qualquer banda tem a ilusão de encontrar “fãs” em qualquer lugar que pisa, sem nunca ter de fato rompido o terceiro escalão. Aí é que está a diferença. Temos grandes bandas no underground e, desde o Skank, não temos uma banda de influencias roqueiras no mainstream.

REG: Você foi o editor da “Revista Bizz” na última fase. Como avalia essa experiência hoje, seis anos depois, e, afinal, por que a revista deixou de ser publicada?
Ricardo: Foi a materialização de um sonho, sem nenhum bônus e com todo o ônus de uma estrutura gigantesca como a da editora Abril. Durmo absolutamente tranquilo de termos feito um ótimo trabalho ali, editorialmente falando. Talvez tenha sido a equipe mais talentosa, e certamente a mais apaixonada com quem já trabalhei. Mas poderia ser ainda mais talentosa e mais apaixonada que o resultado seria o mesmo: não consigo imaginar saída para uma revista profissional sobre música num mundo ultrassegmentado, 2.0, em que a informação circula tão livre. Espero do fundo do coração estar errado, mas não vejo muito futuro para revistas de música. 

REG: Você está no comando de um estúdio de criação editorial, chamado “Tudo Certo Conteúdo Editorial”. Como funciona e quais os projetos envolvidos nesse trabalho?
Ricardo: A criação da Tudo Certo foi uma forma que me ocorreu de continuar gerindo jornalistas, revelando gente nova e talentosa, e harmonizando diferenças, coisas que eu gosto muito de fazer e que sempre fiz com sucesso. Mas eu não quero ser editora, nem produtora, não posso nem sei empenhar esforços e recursos em áreas para as quais não tenho preparo. Então eu faço parcerias, com emissoras de TV, com escritórios de marketing, com quem tenha plataforma, enfim, e precise de conteúdo apurado e confeccionado com cuidado e capricho. Os primeiros frutos disso foram os documentários para a Globosat, “Napalm: O som da cidade industrial” e “Júlio Barroso, Marginal conservador”, feitos para o canal BIS. Estou trabalhando em um aplicativo infantil para uma marca de smart-TVs, num filme para uma televisão regional e no livro contando a história da 89FM. E conversando muito, com muita gente bacana, o que me dá um enorme prazer também.

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# 268 - 06/04/2013

Abri a já longíqua edição # 268 do programa de rock fazendo uma reverência a dois dos últimos "mártires" do rock - e do "grunge", mais específicamente: Kurt Cobain, do Nirvana, e Layne Staley, do Alice in Chains. Ambos morreram no mesmo dia, 05 de abril, em anos diferentes - 1994 e 2002. Serão lembrados para sempre.

O programa prosseguiu com rockabilly e rock de raíz safra anos 50 - primeiro com duas bandas americanas que resgataram o estilo nos anos 80 e 90, Stray Cats e Southern Culture on the Skids, depois com alguns clássicos absolutos que dispensam maiores apresentações. Daí tivemos o Cure, porque Cure é foda e estava se apresentando em São Paulo naquela mesma noite. E Black Sabbath, porque Black Sabbath também é foda e na semana anterior um ouvinte pediu, via telefone, uma musica (meio fraquinha) de Ozzy e eu aproveitei pra emenda-la com um clássico da primeira banda do maluco. E Blue Cheer com uma musica que não é do "Vincebus eruption" (sim, o Blue Cheer fez alguns discos ALÉM do Vincebus Eruption, a maioria bem bons), é do "The Original Human being", seu quinto (!!!) álbum, lançado em 1970. E a faixa título do novo disco do Yeah Yeah Yeahs, que eu achei bem mais ou menos, e belas vozes femininas e, finalizando, algumas das mais anárquicas e criativas bandas "underground" brasileiras dos anos 1990, cujas maravilhosas demos você pode baixar em www.demo-tapes-brasil.blogspot.com

E foi isso.

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Alice in chains - Them Bones
Nirvana - Frances Farmer will have her revenge in Seattle

Stray Cats - Rock this town
Southern Culture on the skids - Voodoo Cadillac
Eddie Cochran - C´mon everybody
Bo Didley - Bo Didley
Elvis Presley - Heartbreak Hotel

The Cure - Inbetween days (acoustic)

Black Sabbath - Snowblind
Ozzy Osbourne - Let it die

Blue Cheer - Man on the run
Led Zeppelin - The Ocean
Deep Purple - Mistreated

Yeah Yeah Yeahs - Mosquito

Karen Elson - The truth is the dirt
Bjork - All is full of love
Florence & The Machine - What the water gave me
Siouxsie & The Banshees - The Rapture

Zumbi do mato - Hino do Flamengo
Graforréia Xilarmônica - Budda Baby
Doiseu Mindoisema - Esta é a outra música
Sex Noise - Elefantes temem pulga
Boi Mamão - Fowl´s Hey Day
Lovecraft - Abstraction

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quarta-feira, 10 de abril de 2013

Morrissey: “Margareth Thatcher foi um terror sem um átomo de humanidade”

Em uma carta aberta divulgada em seu site oficial e num artigo publicado no site "The Daily Beast" nesta segunda-feira (9), Morrissey, ex-The Smiths e ferrenho opositor de Margaret Thatcher, comentou a morte da Dama de Ferro, como era conhecida a britânica. "Thatcher é recordada como a Dama de Ferro apenas porque possuía traços completamente negativos, tais como uma teimosia persistente e uma recusa determinada em ouvir os outros". O músico que mais ferozmente atacou o regime “tory” nos anos 1980 escreveu um texto de raiz em que volta a atacar a falecida Dama de Ferro e todos os que a defenderam na hora da sua morte como o primeiro-ministro inglês David Cameron: 

"Todos os seus passos foram marcados pela negatividade: ela destruiu a indústria britânica, odiava os mineiros, odiava as artes, odiava os lutadores pela liberdade na Irlanda e deixou-os morrer, odiava os ingleses pobres e nunca fez nada para ajudá-los, odiava a Greenpeace e os ambientalistas, ela foi a única líder europeia que foi contra a proibição do comércio de marfim, não tinha qualquer sentido de humor ou carinho e até o seu próprio Governo se livrou dela". 

"Thatcher será recordada com carinho apenas pelos sentimentalistas que não sofreram com a sua liderança, mas a maioria dos trabalhadores britânicos já a esqueceu e o povo argentino irá celebrar a sua morte. Para a posteridade, Thatcher era um horror, sem um átomo de humanidade ".

«A dificuldade em produzir um comentário sobre a morte de Margaret Thatcher para os tablóides britânicos é que, não importa o quão calmo e ponderado possa falar, que a declaração vai ser relatada como «um desabafo» ou um «ataque explosivo» se o ponto de vista não é pro-regime.

Se referir as Malvinas, vão alterar para Falklands e Thatcher vai ser suavizado para Maggie. Isto é como as coisas estão geralmente estruturadas numa sociedade não-democrática. O nome de Thatcher não deve ser protegido por todo o mal que nos fez, e porque as pessoas ao seu redor permitiram que o fizesse, e, portanto, qualquer crítica lança uma luz perigosamente absurda na maquinaria política britânica.

Thatcher não era uma líder forte ou formidável. Ela simplesmente não queria saber das pessoas e essa atitude grosseira foi cuidadosamente transformada em bravura pela imprensa britânica que está a tentar reescrever a história para defender o patriotismo. Como resultado, qualquer opinião contrária é sufocada ou ridicularizada, enquanto que temos todos de suportar o louvor obrigatório de David Cameron a Thatcher, sem qualquer sugestão da BBC que este louvor pode ser uma explosão extremista pró-Thatcher de alguém cujo louvor pode proteger os seus interesses.

O fato de que Thatcher inflamou o povo britânico com motins de rua, manifestações violentas e uma desordem social inédita na história, é completamente ignorado por David Cameron em 2013. Na verdade, é claro que nenhum outro político britânico foi tão desprezado quanto Margaret Thatcher.

O funeral de Thatcher esta quarta-feira vai ser fortemente policiado com medo de que os contribuintes britânicos expressem finalmente a sua visão.

Reino Unido? Síria? China? Qual é a diferença?».

“The difficulty with giving a comment on Margaret Thatcher's death to the British tabloids is that, no matter how calmly and measuredly you speak, the comment must be reported as an "outburst" or an "explosive attack" if your view is not pro-establishment. If you reference "the Malvinas", it will be switched to "the Falklands", and your "Thatcher" will be softened to a "Maggie." This is generally how things are structured in a non-democratic society. Thatcher's name must be protected not because of all the wrong that she had done, but because the people around her allowed her to do it, and therefore any criticism of Thatcher throws a dangerously absurd light on the entire machinery of British politics. Thatcher was not a strong or formidable leader. She simply did not give a shit about people, and this coarseness has been neatly transformed into bravery by the British press who are attempting to re-write history in order to protect patriotism. As a result, any opposing view is stifled or ridiculed, whereas we must all endure the obligatory praise for Thatcher from David Cameron without any suggestion from the BBC that his praise just might be an outburst of pro-Thatcher extremism from someone whose praise might possibly protect his own current interests. The fact that Thatcher ignited the British public into street-riots, violent demonstrations and a social disorder previously unseen in British history is completely ignored by David Cameron in 2013. In truth, of course, no British politician has ever been more despised by the British people than Margaret Thatcher. Thatcher's funeral on Wednesday will be heavily policed for fear that the British tax-payer will want to finally express their view of Thatcher. They are certain to be tear-gassed out of sight by the police.

United Kingdom? Syria? China? What's the difference?”

Morrissey
9 April 2013Margaret On The Guillotine
True to you

Margaret On The Guillotine

As pessoas amáveis
Têm um sonho maravilhoso
Margaret na guilhotina
Porque pessoas como você
Me fazem sentir tão cansado
Quando você vai morrer?
Quando você vai morrer?
Quando você vai morrer?
Quando você vai morrer?
Quando você vai morrer?

E pessoas como você
Me fazem sentir tão velho por dentro
Por favor morra
E as pessoas amáveis
Não acalentem este sonho
Transformem-no em realidade
Transformem o sonho em realidade
Transformem o sonho em realidade
Transformem-no em realidade
Transformem o sonho em realidade
Transformem-no em realidade

Bigmouth Strikes Again

Doçura, doçura, eu estava só brincando
Quando disse que gostaria de
Arrebentar cada dente de sua boca

Oh, doçura, doçura, eu estava só brincando
Quando disse que o certo seria você
Ser coberta de cacetadas na sua cama

E agora eu sei como Joana d'Arc se sentiu
Agora eu sei como Joana d'Arc se sentiu
Enquanto as chamas subiam até seu nariz romano
E seu walkman começava a derreter

Linguarudo, Linguarudo
O desbocado ataca outra vez
E eu não tenho mais direito de assumir o meu lugar
Na raça humana

Linguarudo, Linguarudo
O desbocado ataca outra vez
E eu não tenho mais direito de assumir o meu lugar
Na raça humana

E agora eu sei como Joana d'Arc se sentiu
Agora eu sei como Joana d'Arc se sentiu
Enquanto as chamas subiam até seu nariz romano
E seu aparelho para surdez começava a derreter

Linguarudo, Linguarudo
O desbocado ataca outra vez
E eu não tenho mais direito de assumir o meu lugar
Na raça humana
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domingo, 7 de abril de 2013

Klaus Flouride (Dead Kennedys), duas entrevistas

(**) Em sua opinião, o que mudou no mundo desde que vocês começaram, em finais dos anos 1970, para hoje?

Tudo está pior. A pobreza vai aumentar, as corporações multinacionais, especialmente a indústria de armamentos, estão indo para onde está o dinheiro. Estão colocando armas automáticas na mão de gente que não poderia ter acesso a armas automáticas. Essas armas estão indo para os lugares errados. Estão indo para os morros do Rio de Janeiro, onde aqueles caras violentaram a mulher na semana passada. Coisas como essas vão sempre acontecer eternamente. E tudo que eles querem é pegar os 99% de todo o dinheiro e ficar com ele. As lideranças continuam megalomaníacas e as corporações continuam no topo das decisões. Os países estão destroçando as conquistas sociais, os direitos sociais. A religião segue enlouquecendo as pessoas. Temos um novo papa que está sendo retratado como um cara legal, mas cujas posições o desmentem. Ele não tem mostrado nenhuma visão diferente dos anteriores, não vai reconhecer que as pessoas têm o direito de decidirem sobre o que fazem com seus próprios corpos. Então, vai ser um retrocesso, a Igreja Católica não tem intenção de mudar e as pessoas vão mergulhando em mais ignorância. Esse papa simplesmente ganhou um belo de um apartamento para si. O Vaticano é um belo palácio, quantos de nós poderiam viver num lugar assim? Nada mudou. 

O novo papa chegou a ser acusado de ter colaborado com a ditadura argentina.

Não tinha ouvido falar sobre isso, mas não posso dizer que seja uma surpresa para mim. A Igreja Católica sempre vendou seus olhos nos lugares onde aconteciam atrocidades. E a igreja argentina, naquele período, ganhou a reputação de não ser um bom lugar para se procurar um homem santo. Eu tendo a ficar longe de teorias conspiratórias, mas sempre que há uma fumaça há fogo. 

Jello Biafra disse uma vez que “o punk rock não está morto, mas merece morrer”.

Biafra sempre usou de muito sarcasmo. Acho que ele estava falando… Eu não falo muito sobre Biafra hoje em dia, não sei o que exatamente ele pensa. Mas acho que as coisas se mantém em movimento, que uma música agressiva não é necessariamente punk rock, e certamente a moda, um casaco preto, um cabelo moicano, nada disso tem nada a ver com punk. Muita gente vive desse sentimento nostálgico, que não carrega o espírito da coisa. Tem muita gente por aí vivendo como se fosse um hippie dos anos 1960. E ficam dizendo besteiras: “Ah, 1966, aquele ano era meu favorito!”. Ou: “Uh, 1977 foi o melhor ano da vida!”. 

Há alguma possibilidade de o Dead Kennedys gravar um novo disco com essa formação atual?

Há sempre uma possibilidade. O único problema é que não é mais tão orgânico como costumava ser. O cantor vive em Nova York, o baterista vive em Los Angeles, e eu vivo aqui em São Francisco. Então, ficar juntos para ensaiar e desenvolver canções é muito difícil de acontecer. Mas temos colaborado, mandando arquivos musicais um para o outro. Há algum material novo já produzido.

(*) A última vez que o DK veio ao Brasil foi em 2001, com Brandon Cruz no vocal, e vocês tiveram uma resposta bastante positiva. O que mais mudou desde então?
Klaus: Bem, um vocalista e algumas músicas diferentes e no mínimo uma música nova. Talvez mais, ainda não sabemos. Além disso, desde então nós temos tocado bastante, feito shows mais regularmente e, por causa disso, nós estamos tocando bem melhor e somos músicos mais experientes do que nos anos 1980.

O que vocês esperam desta turnê brasileira?
Klaus: Esperamos atingir um público que nunca teve a chance de assistir a um show nosso assim como ter a possibilidade de reencontrar alguns que nos viram em 2001 de um ângulo diferente do Brandon, assim como Brandon era diferente do Jello.

O que o Público brasileiro pode esperar da turnê?
Klaus: Nós pretendemos tocar nossas músicas e fazer um show mais forte do que nunca, sendo que fazer quatro shows em quatro dias em um país bem extenso requer muita concentração para atravessar os limites. Nós vemos isso como um desafio.

Em uma entrevista para a citizenmag em 2003, você disse que o DK estava com material novo para gravar e lançar. Bem, estamos em 2013, quais as chances de vermos um álbum de inéditas do DK.
Klaus: Acho que não sou o "vidente" que eu achei que era. Nós todos estivemos trabalhando em projetos diferentes, alguns já vieram à tona, outros ainda não, e também estivemos trabalhando em novas músicas p’ro Dead Kennedys, novamente, algumas foram finalizadas (pelo menos uma estará nos shows) e outras não estão prontas ou mal iniciadas ou serviam melhor para nossos projetos individuais. Também há o problema de que não moramos todos dentro de um raio de apenas alguns quilômetros uns dos outros como nos anos 80. Nós temos que viajar para estarmos juntos em um lugar. Skip, o vocalista, mora na costa leste, o que é literalmente do outro lado do país. Adicione a isto o fato de trabalharmos muito bem quando estamos na mesma sala (alguns dos nossos melhores materiais saem das passagens de som), mas não trabalhamos nada bem trocando arquivos de áudio pela internet, cada um adicionando um pouco aqui depois ali. Nós nunca compusemos assim e provavelmente nunca iremos. Dito isto, isso não exclui alguns de nós colaborando e então reunindo a banda em um mesmo espaço para transformar as ideias em músicas de verdade. Qualquer coisa pode acontecer e eu aprendi a jamais dizer nunca.

O que é punk?
Klaus: É o que você quiser que seja. Nós não criamos a palavra e eu não acho que devemos dizer que “o punk é isso ou aquilo”. É uma coisa diferente para pessoas diferentes, das quais algumas eu concordo e outras eu discordo. Tentar definir esse tipo de coisa é função de blogueiros. O que é literatura? O que é a TV ou a internet? Faça as perguntas e você terá um milhão de respostas. Nossa posição é mais sobre pensar por você mesmo do que ser alimentado por fatos e se curvar diante deles. Em nossas músicas, nós falamos sobre assuntos que podem te fazer pensar e se estes temas te interessarem você pode ir para casa e pesquisar um pouco mais sobre esses assuntos. Porém, nós não iremos dizer o que você tem que pensar, apesar de tentarmos te fazer refletir enquanto você também se diverte.

Alguma banda nova que está entre suas favoritas?
Klaus: Tem algumas bandas que eu realmente gosto de ouvir e ver, mas não são limitadas apenas a bandas punk. Seria o mesmo que limitar sua alimentação a “comer apenas milho” porque eu gosto de milho. Eu não tenho certeza se estaremos falando da mesma coisa se disséssemos “esta banda é punk”. Então, para não ofender ninguém que eu gosto deixando-os de lado, eu não vou falar o nome de nenhuma. Portanto, Bieber, você pode esquecer.

Você está acompanhando o processo entre o Premier Russo Vladimir Putin e a banda punk Pussy Riot? Qual sua opinião a respeito do assunto?
Klaus: Eu acho que é um grande absurdo e ao mesmo tempo brilhante Putin se sentir tão ameaçado por elas, mas as ações dele são criminosas, não as delas, como pode parecer. O que elas fizeram???? Cantaram suas opiniões? E elas estão na prisão já faz um ano? Mas que... Mas que bando de... Parece que a antiga lógica da U.R.S.S. está voltando para ficar, só que usando o velho nome pré 1917. Seria interessante ver o quanto a população irá permitir até termos, quem sabe, uma primavera russa.

Como um grupo contra grandes corporações, eu imagino que o DK não veja a distribuição gratuita de músicas pela internet necessariamente como uma coisa ruim, mas vocês acreditam que a internet seja realmente capaz de atingir as massas como o rádio fez em um passado não muito distante?
Klaus: Como um artista/músico/performer eu discordo da premissa da sua pergunta.
No “passado não muito distante” megacorporações fizeram toneladas de dinheiro em cima de músicos, mas os músicos também foram pagos (apesar de ter sido de uma maneira desequilibrada) por seus trabalhos. Contratos foram feitos e esperançosamente seguidos. O rádio paga pelo uso das músicas. Museus por arte visual. Cinemas por filmes bem como seus atores, diretores, cinegrafistas, etc., por seus trabalhos nos filmes. DVDs foram vendidos e por aí vai. Então, sobre a pirataria. Todos compramos bootlegs, todos gravamos fitas para os amigos, etc., mas o percentual era tão mínimo comparado a sites como Megaupload, no qual um cara comprava um CD e então todos os outros teriam de graça. Seu o site tinha milhões e milhões de acessos e os publicitários sabiam disso e estavam dispostos a bem pagar por este espaço. Assim ele ficou bilionário enquanto os artistas levaram um prejuízo tão grande que isso realmente tirou seus sustentos e a chance de ter arte como modo de vida.
Se você gosta da comida de um restaurante, é certo você comer e simplesmente ir embora sem pagar? Fodam-se o cozinheiro, o garçom e o dono, isso deveria ser GRÁTIS!!!
Se você curte arte, fotografia, música e é grátis (apesar de não ser necessariamente com a permissão do artista) você deveria apenas baixá-las?
Uma coisa é o artista dizer “Aqui, pegue uma amostra grátis de um projeto que está por vir. Pegue e aproveite.” Outra coisa totalmente diferente é alguém postar , digamos, no youtube, onde eles não tem praticamente nenhum trabalho e qualquer um pode copiar o que está lá, sem contar que o Google, entre todos, é o único que ganha dinheiro com isso. (Toneladas de dinheiro, por sinal, mesmo com canais monetizados)
Então, se alguém tem algum valor pra você, não deveria ser recompensada pelo prazer que você aproveita a não ser que seja escolha do artista dar de graça?
Shows grátis? Mas o artista fez uma escolha. Fazer um bootleg na era pré-napster de compartilhamento, talvez não tão legal, mas ainda é como comparar um resfriado com câncer. São dois níveis totalmente diferentes.
Portanto, nós aceitamos as corporações, isso se elas se comportarem de maneira justa, tiverem boas intensões e não tenham apenas o objetivo de sustentar os caras no topo da lista dos podres de rico em cima do trabalho de outros. Nós não somos tão anticorporações como somos anticorporações gananciosas. Parafraseando, “É sobre o seu caráter”. Nós não gostamos do conceito de que músicos ou artistas de qualquer tipo presumidamente não deveriam ser recompensados por seus trabalhos, se o trabalho é valorizado por aqueles que o apreciam.

Você acredita na militância na internet e em mídias sociais?
Klaus: Sim. Eu acho que as ideias podem se espalhar e os movimentos ganharem ímpeto. Contudo, sou cauteloso com a verdade sobre qualquer coisa que leio na web, ou em qualquer lugar, se é uma coisa que quer me convencer. Então, é preciso tempo para verificar os fatos.

Você não acha que a falta de humanidade e contato direto entre as pessoas na internet pode levar isso a nada?
Klaus: Tire a humanidade e o contato direto entre as pessoas e estará sujeito a uma redução na experiência.

Em 2009 e 2011 eu assisti a diversos shows de bandas tanto famosas quanto independentes e alternativas nos EUA, e algo que realmente me deixou desconfortável foi a apatia do público norte-americano. Eles param em frente ao palco e apenas assistem e batem palmas ao final de cada música. É como se estivessem assistindo TV. Isso já aconteceu com o DK? Como vocês superam isso?
Klaus: No geral não. Parece ter sempre um pouco de ação, no mínimo, em frente ao palco. Nós também chegamos a tocar em lugares com um balcão e cadeiras onde as pessoas assistiam sentadas. Cada um na sua em questão de participação (se o público quer participar beleza, senão beleza também), mas algumas vezes parece haver um cansaço que pode vir com uma superexposição. Se você mora em uma cidade onde toda noite tem cinco bons shows para ver, algumas pessoas terão uma linguagem corporal dizendo “Certo, prove que você merece”. Nós os vemos como um tipo especial de público que precisa ser informado e que nos faz superar desafio proposto.

Mesmo após diversas críticas positivas sobre Ron Skip Greer estar tocando junto com o DK, o luisville.metromix.com o classificou como a sexta pior substituição de vocalistas em bandas de rock (aparentemente apenas por causa do nome). Qual a sua resposta para isso?
Klaus: Honestamente, eu não tenho uma opinião sobre isso ou qualquer uma de suas intensões em apenas irritar. É como passar a noite lendo blogs e vendo que a maioria é escrita por pessoas incomodadas com as próprias vidas e não têm nada melhor pra fazer do que ficar vomitando em cima do teclado. Também existem muitos outros (uma boa coisa da internet) que possuem outros objetivos melhor definidos. Tanto faz.

O público brasileiro parece estar indeciso sobre ver o DK sem o Jello. Levando em conta que ele saiu da banda em 1986, e que a maior parte desse público praticamente nunca viu a formação original mesmo em DVD ou no You Tube, o que você tem a dizer para essas pessoas?
Klaus: Ninguém é obrigado a comprar o ingresso. Se você está curioso e tem a mente aberta, venha e veja por si mesmo. Nós somos os Dead Kennedys com o Jello e nós somos os Dead Kennedys com o Skip. São apenas temperos diferentes. Se o Jello algum dia pedisse para voltar, ele seria mais do que bem vindo, a oferta foi feita, mas ele escolheu o caminho de suas spoken words e com o Guantanamo [School of Medicine]. Esta é a escolha dele e por ele está bem assim. Contudo, eu sei e entendo que muitos gostariam de ver uma reunião da formação original, Jello parece não achar que vale a pena pra ele. Mas o que deve ser lembrado é que será um show musical com ênfase nas músicas e letras. É isso que levaremos ao Brasil, assim como nós fazemos em todos os outros lugares que tocamos.

Uma mensagem para todos que mal podem esperar para ver o Dead Kennedys novamente no Brasil.
Klaus: Nós estamos ansiosos para os shows e encontrar todos depois deles. Todos nós saímos (depois de recuperar o fôlego por uns cinco minutos) e conversamos com o maior número de pessoas possível. O Brasil sabe festejar mais do que qualquer um. Então, vamos nos reunir e celebrar a música.

Serviço:

Data: 18/04/2013 (quinta-feira) - Curitiba/PR
Abertura da casa: 20h
Local: Music Hall
Endereço: Rua Engenheiro Rebouças, 1645 Fone: (41) 3026-5050
Abertura: FANG (USA)

1º lote de ingressos antecipados a R$ 75,00*
2º lote de ingressos antecipados a R$ 90,00*
Camarotes antecipados a R$ 130,00*
*estudantes e doadores de 1kg de alimento

Pontos de Venda:
Túnel do Rock, Let’s Rock, Dr. Rock, Bar Lado B
Vendas Online
https://ticketbrasil.com.br/show/deadkennedys-pr/

Data: 19 de abril de 2013 (sexta-feira) - Americana/SP
Local: Espaço Americana (Av. Bandeirantes, 2345
Centro)

Data: 20 de abril de 2013 (sábado) - Recife/PE
Local: Chevrolet Hall (Abril Pro Rock 2013)

Data: 21 de abril de 2013 (domingo) - São Paulo/SP
Local: Via Marques

Fontes:

(**) Jotabê Medeiros – O Estado de S.Paulo
(*) Guilherme S. Guinski - Bronco rock

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sexta-feira, 5 de abril de 2013

05/04/2013 - 19 Anos sem Kurt Cobain

Era a manhã de 8 de abril de 1994 quando o corpo de Kurt Cobain foi encontrado em Seattle, após seis dias desaparecido. Naquele instante, o líder e principal compositor do Nirvana não deixava apenas uma esposa – Courtney Love –, uma filha – Frances Bean – e milhões de fãs órfãos ao redor do mundo: ele também entrava para o mítico e seleto grupo dos gênios da música que se foram cedo demais. Em uma entrevista longa e assustadoramente premonitória, ocorrida quase seis meses antes do suicídio (e a última que concedeu para a Rolling Stone EUA), o cérebro do Nirvana discorre com comovente sinceridade sobre fama, paternidade e o futuro de sua banda, além de admitir estar em um dos momentos mais felizes de sua vida.

Era a manhã de 8 de abril de 1994 quando o corpo de Kurt Cobain foi encontrado em Seattle, após seis dias desaparecido. Naquele instante, o líder e principal compositor do Nirvana não deixava apenas uma esposa – Courtney Love –, uma filha – Frances Bean – e milhões de fãs órfãos ao redor do mundo: ele também entrava para o mítico e seleto grupo dos gênios da música que se foram cedo demais. Em uma entrevista longa e assustadoramente premonitória, ocorrida quase seis meses antes do suicídio (e a última que concedeu para a Rolling Stone EUA), o cérebro do Nirvana discorre com comovente sinceridade sobre fama, paternidade e o futuro de sua banda, além de admitir estar em um dos momentos mais felizes de sua vida.

Desarrumado e sem camisa, Kurt Cobain para no meio da escada que leva ao camarim do Nirvana, nos bastidores do Aragon Ballroom, em Chicago. Oferece a um visitante um gole do chá que tem nas mãos e diz, com uma voz sem expressão: “Estou muito grato por você ter vindo ao pior show de toda a turnê”.

E ele está certo. A apresentação dessa noite – a segunda das duas realizadas no local, na primeira semana da primeira turnê da banda nos Estados Unidos em dois anos – foi uma porcaria. A acústica cavernosa do lugar transformou até músicas mais corrosivas como “Breed” e “Territorial Pissings” em massas sonoras indistinguíveis, e Cobain foi atormentado a noite inteira por problemas no retorno do vocal e da guitarra. Mesmo assim, houve momentos de brilhantismo: o uivo rasgado de Cobain cortando o eco abismal no explosivo refrão de “Heart-Shaped Box”; uma versão atordoante de “Sliver”. Mas eles não tocaram “Smells Like Teen Spirit” e, em troca, receberam vaias quando as luzes se acenderam.

De acordo com a imagem de Cobain perpetuada pela imprensa – “irritadiço, reclamão, esquizofrênico descontrolado”, como ele mesmo coloca com precisão –, o cantor e guitarrista de 26 anos deveria ter demitido o técnico de som, cancelado esta entrevista e voltado para o hotel revoltado. Em vez disso, passou o pós-show no backstage paparicando sua filha Frances Bean, uma bela e sorridente garotinha loira de 1 ano. Mais tarde, de volta ao hotel e armado com um maço de cigarros e duas garrafas de água Evian, Cobain aparece pensativo, com dificuldades para explicar que o sucesso não é exatamente uma droga – pelo menos não tanto quanto costumava ser – e que a vida anda muito bem. E melhorando.

“Foi tão rápido e explosivo”, diz, com a voz sonolenta e grave, sobre sua primeira crise de autoconfiança, ocorrida em consequência do sucesso fulminante de Nevermind (1991). “Não sabia como lidar com aquilo. Se houvesse um curso do tipo ‘rock star para principiantes’, teria me inscrito. Poderia ter me ajudado.”

“Ainda vejo descrições de rock stars em algumas revistas – ‘Sting, o cara do meio ambiente’, e ‘Kurt Cobain, o chorão, neurótico que odeia tudo, o estrelato, sua própria vida’. E é engraçado, porque nunca estive tão feliz. Especialmente na última semana, já que os shows têm ido muito bem – tirando o de hoje. Sou um cara muito mais feliz do que as pessoas pensam.”

Cobain percorreu um caminho longo, cheio de obstáculos, para atravessar todo o último ano e chegar até aqui. A produção de In Utero (1993), esperada sequência de estúdio de Nevermind, foi assombrada por mudanças de título e de faixas na última hora, além de uma desavença entre a banda, a gravadora Geffen e o produtor Steve Albini sobre o potencial comercial do álbum – ou a falta dele. O casamento de Kurt com Courtney Love – munição de primeira para os fofoqueiros de plantão desde que o casal trocou votos em fevereiro de 1992 – esteve nas manchetes novamente em junho, quando ele foi preso em Seattle, supostamente por ter atacado Love durante uma briga doméstica. A polícia encontrou três armas na casa, mas nenhuma acusação foi feita e o caso foi arquivado.

No ano passado, Cobain declarou abertamente seu vício em heroína, especulado pelos meios de comunicação já há muito tempo, afirmando utilizar a droga – pelo menos em parte – para aliviar dores crônicas de estômago. Ou como ele coloca nesta entrevista, “para me automedicar”. Hoje, ele diz estar livre do vício e, graças a novos medicamentos e uma dieta melhor, seu aparelho digestivo está a caminho da recuperação.

Depois que o Nirvana teve seu status catapultado de banda novata a superdeuses do grunge, Cobain não conseguia entender se seu talento era uma bênção ou uma maldição. Decidiu que era um pouco de cada. Ele se incomoda com o fato de as pessoas o verem mais como um ícone do que como compositor, mas ao mesmo tempo teme que In Utero marque o fim do som que o Nirvana cristalizou com “Smells Like Teen Spirit”. Desconfia da indústria fonográfica, mas diz ter mudado sua atitude perante o público que acompanha o Nirvana.

“Não os julgo tanto quanto antes”, diz em tom de desculpas. “Consegui entender por que eles estão lá e nós aqui. Não me incomoda mais ver um neanderthal de bigode, bêbado, cantando ‘Sliver’. Agora acho muito legal.”

“Me livrei de tanta pressão no último ano e meio”, conta Cobain, com a sensação na voz. “Ainda estou deslumbrado.” Ele lista as razões de seu contentamento: “Ter lançado o disco. Minha família. Minha filha. Ter encontrado William Burroughs e gravado com ele”.

“São coisas pequenas, que ninguém daria valor ou se importaria”, continua. “E tem muito a ver com a banda. Se não fosse o Nirvana, nada disso teria acontecido. Estou muito grato e a cada mês que passa chego a conclusões ainda mais otimistas.”

“Só espero”, ele sorri, “que o excesso de felicidade não me torne um cara chato. Acho que vou ser sempre neurótico o suficiente para fazer algo esquisito”.

Além de todos os problemas no show de hoje, vocês não tocaram “Teen Spirit”. Por quê?
Seria a cereja do bolo [sorrindo]. Isso tornaria tudo duas vezes pior. Nem me lembro do solo de “Teen Spirit”. Levaria uns cinco minutos para sentar e reaprender. Mas não me interesso mais por esse tipo de coisa. É algo tão largado que não me importo mais. Ainda gosto de tocar a música, mas é quase embaraçoso.

Em que sentido? A enormidade do sucesso ainda te incomoda?
Sim. Todo mundo se focou demais nesta música. Houve tanta repercussão porque as pessoas a viram na MTV milhões de vezes. Foi martelada na cabeça delas. Mas acho que tenho tantas outras canções tão boas, se não melhores. “Drain You”, por exemplo, é definitivamente tão boa quanto “Teen Spirit”. Amo a letra e nunca me canso de tocá-la. Talvez se tivesse feito tanto sucesso quanto “Teen Spirit”, eu não gostasse tanto.

O que acontece é que não suporto, especialmente em uma noite ruim como esta, ter que tocar “Teen Spirit”. Tenho, literalmente, vontade de jogar minha guitarra e sair andando. Não consigo fingir que estou curtindo.

Mas você deve ter gostado de compô-la.
Estávamos ensaiando há três meses, esperando para assinar com a Geffen. Dave e eu vivíamos em Olympia e Krist em Tacoma [ambas em Washington]. Íamos toda noite para Tacoma ensaiar. Queria compor a canção pop definitiva. Basicamente, estava tentando copiar os Pixies, admito. Quando ouvi os caras pela primeira vez, senti uma conexão tão forte que passei a achar que devia fazer parte da banda – ou pelo menos de uma banda cover deles. Usamos o mesmo senso de dinâmica dos Pixies: primeiro baixo e calmo, depois alto e pesado.

O riff de “Teen Spirit” é tão clichê. Tão parecido com um riff do Boston ou com “Louie, Louie”. Quando compus a guitarra, Krist olhou para mim e disse: “Isso é tão ridículo”. Fiz a banda tocar aquilo por uma hora e meia.

Está é a primeira turnê que vocês fazem nos Estados Unidos desde 91, um pouco antes de “Nevermind” explodir. Por que ficaram longe da estrada por tanto tempo?
Precisava de tempo para colocar a cabeça no lugar e me reajustar. Bateu tudo muito forte e fiquei com a impressão de que não precisava mais sair em turnê, porque estava ganhando muito dinheiro. Milhões de dólares. De oito a dez milhões de discos vendidos – para mim parecia muita grana. Assim, achei que o melhor era relaxar e aproveitar.

Não quero usar isso como desculpa, como já pareceu muita vezes, mas meu problema de estômago foi uma das coisas que mais atrapalharam a ideia de uma turnê. Já lidava com isso há muito tempo, mas quando alguém convive com dores crônicas por cinco anos, acaba ficando literalmente louco no fim do processo. Não conseguia lidar com nada. Tinha virado um esquizofrênico completo.

Quanto dessa dor você acha que transferiu para suas músicas?
É uma questão assustadora, porque obviamente uma pessoa que compõe e tem algum tipo de distúrbio irá refletir algo disso em sua música. E muitas vezes isso é benéfico. Acho que deve ter ajudado. Mas eu trocaria tudo por uma boa saúde. Quis dar esta entrevista quando já estivesse na estrada por algum tempo e, até agora, tem sido a melhor turnê de toda a minha carreira. Mesmo.

Não tem nada a ver com os fatos de os locais serem maiores ou por as pessoas puxarem mais o nosso saco. O que conta é que meu estômago não me incomoda mais. Estou comendo. Comi uma pizza enorme ontem à noite. Foi legal poder fazer isso. Mas sempre tive medo de que, se a dor no estômago passasse, minha criatividade acabaria junto. Quem sabe? [Pausa]. Não tenho nenhuma música nova no momento.

Em cada álbum, tínhamos de uma a três músicas que haviam sobrado da gravação do anterior. E geralmente eram boas, músicas de que realmente gostávamos. Sendo assim, tínhamos sempre algo a que recorrer – um hit ou alguma canção acima da média. Por causa disso, o próximo álbum vai ser interessante, porque não sobrou nada. Estou começando do zero pela primeira vez. Ainda não sei o que vou fazer.

Uma das músicas que ficaram de fora de In Utero, “I Hate Myself and I Want to Die” (“Eu me odeio e quero morrer”). O quão literal é esse título?
Tão literal quanto uma piada pode ser. Não é nada mais que isso: uma piada. Tiramos justamente por causa disso. Sabíamos que ninguém ia entender, que levariam a sério. Era algo totalmente satírico, tirando sarro de nós mesmos. O tempo todo me veem como um cara irritadiço, reclamão, esquizofrênico, descontrolado que pensa o tempo todo em se matar. “Ele não se satisfaz com nada.” Por isso achei que seria um título engraçado. Por um bom tempo, queria que fosse o nome do disco. Mas achei que a maioria não entenderia.

Já se sentiu consumido por uma dor ou raiva tão grande que te fez querer realmente se matar?
Por cinco anos, enquanto tive meu problema de estômago, sim. Quis me matar todos os dias. Cheguei muito perto algumas vezes. Me desculpe ser tão direto nesse assunto. Houve um ponto em que estava em turnê, deitado no chão, vomitando ar porque não conseguia manter sequer um copo d’água dentro do estômago. E em 20 minutos precisava estar no palco tocando. Cantava tossindo sangue. Isso não é jeito de se viver. Adoro tocar, mas alguma coisa não estava certa. Por isso decidi por me automedicar.

Mesmo enquanto sátira, uma música como essa pode ter algum tipo de consequência. Há uma boa quantidade de garotos que, por várias razões, tem instintos suicidas.
Isso define muito bem nossa banda. Essas contradições. É satírica e séria ao mesmo tempo.

Que tipo de cartas você recebe dos fãs?
[Longa pausa] Costumava ler muito a correspondência e me envolver bastante. Mas ando tão ocupado com o disco, os vídeos, a turnê, que não tenho me interessado em ler uma carta sequer, o que faz com que me sinta muito mal. Tem me faltado energia suficiente para publicar nosso próprio fanzine, que é uma das coisas que fazemos para combater as coisas ruins que alguns veículos dizem sobre nós, para mostrar um lado mais real da banda.

Mas é bem difícil, tenho que admitir. Me vejo fazendo as mesmas coisas que muitos rock stars fazem ou são forçados a fazer. Como não responder cartas ou não se manter atualizado com o que rola na música. Acabo ficando isolado. O mundo lá fora é bem estranho para mim.

Acho que tenho muita sorte por conseguir sair para uma balada de vez em quando. Tivemos uma noite de folga em Kansas City e eu e Pat [Smear, guitarrista convidado para a turnê] não tínhamos ideia de onde estávamos ou para onde ir. Então ligamos para a rádio da faculdade local e perguntamos o que estava rolando. E nem eles sabiam! Acabamos ligando para um bar e a banda Treepeople, de Seattle, estava tocando. No fim, conheci três garotos muito legais e que também tinham bandas. Me diverti junto com eles a noite toda. Chamei-os para o hotel, pedi serviço de quarto e acho que até acabei me empolgando demais ao tentar ser gentil. Mas foi ótimo saber que ainda consigo fazer isso, que ainda posso fazer amigos. Não achava que fosse possível. Há alguns anos, estávamos em Detroit, tocando em uma casa noturna para cerca de dez pessoas. Ao lado havia um bar e Axl Rose chegou com quinze guarda-costas. Foi um espetáculo; todo mundo idolatrando o cara. Se ele tivesse entrado sozinho, não aconteceria nada de mais. Mas ele queria aquilo. Você gera atenção para atrair atenção.

Atualmente, qual sua posição quanto ao Pearl Jam? Há boatos de que você e Eddie Vedder iriam posar juntos na capa da revista Time.
Não quero entrar nesse assunto. Uma das coisas que acabei aprendendo é que falar mal dos outros não me faz bem nenhum. É uma pena, porque toda essa história entre o Pearl Jam e o Nirvana tem rolado por tanto tempo e esteve tão perto de ser esclarecida.

Nunca ficou claro qual era seu problema com ele.
Nunca houve um problema. Falei mal dele porque não gosto da banda. Ainda não tinha encontrado Eddie na época. Foi minha culpa. Devia ter falado mal da gravadora, e não deles. A banda foi transformada em um produto – provavelmente não contra a vontade – mas sem saber que estava sendo incluída no embalo do grunge.

Você não sente nenhuma empatia por eles? O Pearl Jam sofreu a mesma pressão que vocês, por causa do sucesso.
Até sinto. Exceto que tenho certeza de que eles não se esforçaram para desafiar seu público como estamos fazendo com nosso novo álbum. Eles são o exemplo da banda de rock segura. A banda de rock agradável de que todo mundo gosta [risos]. Por Deus, tinha frases tão boas sobre isso na minha cabeça.

Só fico puto por saber que demos duro para fazer um disco com músicas que valessem a pena, que representassem o nosso melhor. Massageando meu próprio ego, posso dizer que somos melhores do que muitas das bandas que estão por aí. Descobrimos que se você tem duas músicas comerciais e pegajosas o suficiente no seu álbum, o resto pode ser um monte de bobagem. Se eu fosse esperto, teria guardado uma boa parte das músicas de Nevermind e espalhado em discos diferentes pelos próximos quinze anos. Mas não consigo fazer isso. Todos os discos de que gostei na vida tinham uma música ótima atrás da outra: Rocks [Aerosmith], Led Zeppelin II [Led Zeppelin], Never Mind the Bollocks [Sex Pistols], Back in Black [AC/DC].

Você já se declarou fã dos Beatles.
Ah, sim. John Lennon era meu Beatle favorito, sem dúvida. Não sei quem escrevia o que nas músicas, mas Paul McCartney me deixa constrangido. Lennon era obviamente uma pessoa perturbada [risos]. Deve ser por isso que simpatizo com ele. E do que li nos livros – e sou muito cético quanto ao que leio, especialmente em livros sobre rock – senti pena dele. Ficar trancado naquele apartamento. Mesmo apaixonado por Yoko e seu filho, sua vida era uma prisão. Ele estava preso. Não é justo. Esse é o grande ponto do meu problema em ser uma celebridade – o modo como as pessoas lidam com gente famosa. Isso precisa mudar. Precisa mesmo. Não importa o quanto você se esforce, sempre vai parecer que você é um reclamão. Entendo por que o público se sente desse jeito e chega a ficar obcecado por um ídolo. Mas é tão difícil convencê-los a relaxar, pegar leve, ter um mínimo de respeito. No fim das contas, somos todos um monte de merda [risos].

Suas melhores músicas – “Teen Spirit”, “Come as You Are”, “Rape Me”, “Penny Royal Tea” – abrem com um verso mais baixo, em um estilo climático. Então vem o refrão no volume máximo. O que vem primeiro, o verso ou o refrão?
[Faz uma longa pausa e então sorri] Não sei mesmo. Acho que faço o verso primeiro. Mas estou ficando cansado dessa receita. E é realmente uma receita. Não há muito que eu possa fazer a respeito. Dominamos esse processo enquanto banda, mas estamos bem cansados disso. É um estilo de dinâmica, mas só estou usando esses dois tipos. Há muito mais que eu poderia usar. Temos trabalhado nessa fórmula – essa coisa de ir do silêncio ao barulho – por tanto tempo que está, literalmente, se tornando chato. É tipo, “Ok, tenho esse riff. Vou tocar baixinho, com o som limpo, sem distorção, enquanto canto. Depois ligo a distorção e você toca a bateria com mais força”. Quero aprender um meio-termo, ir e voltar, de um jeito quase psicodélico no sentido de haver muito mais estrutura. É algo bem difícil de se fazer e não sei se somos capazes – como músicos.

Faixas como “Dumb” e “All Apologies” demonstram que você está buscando um jeito de atingir as pessoas sem apelar para a receita tradicional.
Absolutamente. Queria ter escrito mais algumas músicas como essas. Colocar “About a Girl” em Bleach [1989] foi um risco. Havia muita pressão dentro do underground – do mesmo tipo que você sofre quando está no colégio. E colocar uma música meio pop, que lembrava um R.E.M. desafinado em um disco de grunge, no meio daquela cena, foi arriscado.

Fracassamos em mostrar o lado mais calmo, mais dinâmico da banda. Os garotos querem ouvir a guitarra barulhenta. Gostamos de tocar essas coisas, mas não sei até quando vou conseguir berrar até me esgoelar todas as noites. Às vezes queria ter seguido o mesmo caminho de Bob Dylan e cantar músicas que não acabassem com a minha voz a cada show, assim poderia ter uma carreira longa se quisesse.

O que isso significa para o futuro do Nirvana?
Para mim é meio impossível olhar para o futuro e dizer que vou conseguir tocar as músicas do Nirvana daqui a dez anos. Não dá. Sem querer desmerecer Eric Clapton, mesmo porque o respeito, não quero ser obrigado a fazer o que ele fez. Não quero ter que mudar minhas músicas para que fiquem condizentes com a minha idade [risos].

Quando você foi preso, acusado de violência doméstica, sua esposa, Courtney Love, admitiu à polícia que há armas de fogo em sua casa. Por que você sente necessidade de estar armado?
Gosto de armas. Gosto de atirar.

Onde? Em quê?
[Risos] Quando vou para o bosque, em uma área de tiro. Não é oficialmente uma área de tiro, mas no nosso país é permitido que seja. Há um desfiladeiro, então não existe chance de atirar de lá e acertar alguém. Mesmo porque não há nada a quilômetros de distância.

Sem querer soar politicamente correto, você não acha perigoso ter armas com sua filha em casa?
Não. É uma proteção. Não tenho guarda-costas. Há pessoas bem menos famosas que eu e Courtney que foram perseguidas e assassinadas. Podia até ser alguém procurando uma casa qualquer para assaltar. Temos um sistema de segurança. Na verdade tenho só uma arma carregada, mas a mantenho em um lugar seguro, onde Frances jamais poderia alcançar. E tenho uma M16, que é muito legal de atirar. É o único esporte de que sempre gostei. Não é algo pelo qual seja obcecado ou incentive. Nem penso muito nisso.

O que Courtney acha sobre ter armas em casa?
Ela estava junto quando comprei. Olha, não sou um cara forte. Não seria capaz de impedir alguém armado com uma faca ou revólver. Mas não vou ficar parado assistindo minha família ser esfaqueada ou estuprada na minha frente. Não pensaria duas vezes antes de estourar a cabeça de alguém que fizesse isso. É por proteção. E às vezes é divertido sair e atirar. [Pausa] Em alvos, que fique bem claro [risos].

Costuma-se achar que alguém que vende milhões de discos está muito bem de vida. O quão rico você é? O quão rico se sente? Contam que quis comprar uma casa e montar um estúdio nela, mas seu contador disse que você não podia pagar.
É, não posso. Acabei de receber um belo cheque referente aos direitos autorais de Nevermind. É bem estranho. Quando estávamos vendendo um monte de discos, pensei: “Deus, vou ter 10 milhões de dólares, 15 milhões”. E não é o caso. Não temos uma vida de rico. Ainda como macarrão com queijo de caixinha – porque gosto, estou acostumado. Não somos extravagantes.

Não culpo os garotos por acharem que alguém que vende 10 milhões de cópias é um milionário e está com a vida ganha. Mas não é o caso. Gastei US$ 1 milhão no ano passado e não sei nem como. Sério. Comprei uma casa de US$ 400 mil. Mais 300 mil em impostos ou algo assim. O que mais? Emprestei uma grana para minha mãe. Comprei um carro. Foi isso.

Não é muita coisa para 1 milhão.
É surpreendente. Uma das maiores razões para que não fizéssemos uma turnê nos Estados Unidos justamente quando Nevermind fazia mais sucesso foi porque pensei: “Foda-se, por que eu sairia em turnê? Tenho essa dor de estômago, posso morrer na estrada, estou vendendo um monte de discos, posso viver o resto da minha vida com US$ 1 milhão”. Mas não tem como explicar isso para um moleque de 15 anos. Se me contassem, jamais acreditaria.

Você se preocupa com o impacto que seu trabalho, estilo de vida e guerra contra a vida de celebridade possa ter em Frances? Deve ser um mundo estranho para uma criança.
Me preocupo muito. Ela se sente atraída por todo mundo. Ama todo mundo. É triste que a gente tenha que ficar levando-a de lá para cá o tempo todo. Temos duas babás, uma em período integral e outra mais velha, que cuida dela aos fins de semana. Mas quando trazemos Frances para a estrada há sempre gente por perto. Não conseguimos levá-la ao parque com frequência. Fazemos o melhor possível, mas é um mundo totalmente diferente.

Em “Serve the Servants” você canta, “I tried hard to have a father/But instead I had a dad” (“Me esforcei para ter um pai/Mas só consegui um papai”). Você teme cometer os mesmos erros que seu pai cometeu na sua criação?
Não. Nem um pouco. Sou completamente diferente do meu pai. Sei que sou capaz de demonstrar muito mais afeição do que ele. Mesmo se me separasse de Courtney, jamais permitiria que Frances presenciasse qualquer desavença entre nós. Esse tipo de coisa pode acabar com uma criança, mas isso só acontece quando os pais não são muito espertos. Não acho que somos irresponsáveis. Passamos a vida toda precisando de carinho. E, por saber da necessidade que passamos, temos como único objetivo dar a ela todo o amor e apoio possível. Essa é a única coisa que, tenho certeza, jamais dará errado.

Como tem sido o relacionamento dentro do Nirvana desde o ano passado?
Quando ainda usava drogas, era muito ruim. Não havia comunicação. Krist e Dave não entendiam o problema da droga. Eles nunca se envolveram com isso. Encaravam a heroína do mesmo jeito que eu encarava antes de usar. Era muito triste. Quase não nos falávamos. Eles pensavam o pior, como a maioria faz, e não os culpo. Mas nada é tão ruim quanto parece. Desde que fiquei limpo, tudo voltou ao normal. Exceto por Dave. Ainda fico meio preocupado porque ele ainda acha que pode ser substituído a qualquer momento. Ele ainda se sente como se...

...Como se ainda não tivesse passado na audição?
É. Não entendo. Tento elogiá-lo tanto quanto posso. Não sou do tipo que elogia o tempo inteiro, principalmente nos ensaios. “Vamos tocar essa, aquela, de novo.” É assim. Acho que Dave é o tipo de pessoa que precisa sentir que tem um voto de confiança às vezes. Percebi que era assim e por isso faço elogios com mais frequência.

Então é você quem manda?
Sim. Peço a opinião deles, mas a decisão final é minha. É sempre estranho dizer isso; soa egoísta. Mas nós nunca discutimos. Dave, Krist e eu nunca gritamos um com o outro. Nunca. Não que eles tenham medo de tocar em algum assunto ou dizer algo. Sempre peço a opinião deles e conversamos a respeito. Eventualmente chegamos às mesmas conclusões.

Não houve nem uma discussão mais acalorada?
No caso dos direitos autorais. Ganho sobre todas as letras. Nas músicas, ganho 75% e eles ficam com o resto. Acho que é justo. Mas naquela época estava usando drogas. E eles acharam que eu ia acabar fazendo outras exigências, transformando os dois em empregados com salário e coisas do tipo. Mesmo nesse dia ninguém gritou um com o outro. E dividimos todo o resto em partes iguais.

É possível imaginar uma época em que não haverá mais Nirvana? Você tentaria uma carreira solo?
Acho que não. Creio que não seria capaz de embarcar em um “Kurt Cobain Project”.

O nome também não soa muito bem.
Não [risos]. Mas, sim, gostaria de trabalhar com pessoas que fazem o oposto do que faço hoje. Algo diferente.

Não me parece um bom sinal para o Nirvana e para o tipo de música que vocês fazem juntos.
É meio o que tenho tentado dizer durante toda a entrevista. Que estamos quase exaustos. Chegamos a um ponto em que as coisas estão se tornando repetitivas. Não há para onde progredir, nada que queiramos alcançar.

Odeio dizer isso, mas não vejo a banda durando mais que alguns álbuns, a menos que comecemos a trabalhar duro e experimentar mais. Quero dizer, vamos encarar a realidade: quando as mesmas pessoas se juntam para fazer o mesmo tipo de trabalho, sempre haverá uma limitação. Estou realmente interessado em estudar coisas diferentes e sei que Dave e Krist também estão. Mas não sei se seremos capazes de fazer juntos. Não quero lançar um novo álbum que se pareça com os três anteriores. Sei que vamos lançar pelo menos mais um, e já tenho uma boa ideia de como vai soar: bem etéreo, acústico, como o último álbum do R.E.M. Se eu pudesse compor tão bem quanto eles...

Não sei como conseguem fazer o que fazem. Por Deus, eles são os maiores. Lidaram com o sucesso como santos e lançam músicas incríveis. Isso é o que eu realmente queria que o Nirvana fizesse. Porque estamos encalhados. Fomos rotulados. O R.E.M. é o quê? “College rock”? É um rótulo que nem pegou. “Grunge” é um termo tão potente quanto “new wave”. Não dá para cair fora. E uma hora vai se tornar ultrapassado. Você tem que se arriscar e esperar que um público totalmente diferente te aceite ou que seus fãs cresçam junto com você.

E se os fãs disserem: “Não curtimos, caiam fora”?
Bom, aí [risos] eles que se fodam.

por David Fricke

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