segunda-feira, 31 de maio de 2010

Carbono 14



Entre 1982 e 1987, a casa noturna Carbono 14 abrigou praticamente tudo que acontecia de novo e interessante em São Paulo. Juntou tribos diversas em clima familiar. Inspirou bandas, movimentos, parcerias. E ficou gravada a ferro na memória afetiva de uma geração

OS CARBONÁRIOS - Nas matinês de heavy metal do Carbono 14, Castilhão deixava num canto da pista uma pilha de ripas de madeira. As ripas vinham da inacreditável marcenaria que o número 164 da rua 13 de Maio abrigava. Não, uma marcenaria em si não tem nada exatamente de inacreditável, mas é que o Carbono era, no início dos anos 80, o lugar mais moderno para dançar em São Paulo. E ver show. E assistir a vídeo. E ouvir ópera. E ver dança. E jogar fliperama. E conhecer gente.

A marcenaria, no segundo dos quatro andares do prédio na Bela Vista, ficava trancada de noite. Motivo mais do que suficiente para provocar todo tipo de especulação por parte dos frequentadores. O que de tão secreto poderia rolar ali naquela sala fechada? Porque, digamos, as cenas mais ou menos normais de sexo e drogas eram liberadas nas diversas salas e muitas escadas escuras do Carbono.

Talvez a marcenaria fosse simplesmente para aquilo mesmo, cortar as ripas de madeira que viravam guitarras imaginárias nas mãos de garotos de 12, 13 anos enquanto viam vídeos de bandas como Motorhead e Iron Maiden.

Ver música, aliás, era uma das coisas que mais se faziam naquele centro cultural pop e libertário. Isso mesmo: no início dos anos 80, era uma absoluta novidade poder assistir a shows e documentários em vídeo ou 16 mm sobre música. Ou ver cinema alternativo, underground. Ou ver animação adulta, de vanguarda. Ou filmes de surf.

“A sacada foi o vídeo. Àquela época, no Brasil, quem não tinha viajado para fora do país não tinha visto quase nada.” O nada a que Andrez Castilho F ilho se refere é tudo: de shows dos Rolling Stones a filmes de Andy Warhol. De videoclipes do pós-punk – Siouxsie, Bauhaus, Cure – a Bob Marley. Alguns clipes de bandas do mainstream rolavam na TV. Cinema tinha mais: o circuito de cineclubes era intenso e já havia a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, mas não chegavam os filmes mais pop, mais radicais.

SUPERMERCADO DE CULTURA - Como tudo na história do Carbono 14, as memórias vêm numa espécie de névoa, iluminada aqui e ali por algum tipo de revelação. No “supermercado de cultura” da família Castilho muita gente teve sua primeira vez. Metaforicamente falando ou não.

Nas salas de vídeo ou na de 16 mm, o então radialista e vocalista de uma banda chamada Verminose descobriu Sebastiane, a versão explicitamente gay da vida de São Sebastião feita pelo cineasta inglês Derek Jarman. (À frente de uma nova banda, o Magazine, esse mesmo radialista fincaria o primeiro p é paulistano na porta da new wave brasileira com o hit “Eu sou boy”). “O Castilhão e os filhos viajavam e traziam filmes desse lado mais maldito.”

Ali, no Carbono, um garoto de 14 anos assistiu a Urgh! A Musical War!, espécie de quem é quem do pós-punk inglês. (Depois, inventou um moicano daqueles sustentados por sabão e, como se dizia, à época, passou a “andar no visual” punk 24 horas por dia). “Eu assisti ao filme e pensei: ‘É isso que eu quero ser’.”

Um outro punk, então quase um veterano ali por 1983, 1984 (vinha da pioneira Restos de Nada e já estava à frente de sua segunda banda, Inocentes; além disso, era autor de “Pânico em SP”, faixa essencial da coletânea Grito suburbano), passava reto pelas salas de “filme de arte alemão chato pacas” e subia para os shows. Como os dois do Agentss, banda de new wave séria e efêmera, que levava uma montanha de sintetizadores para o palco. Ou os da Gang 90 & Absurdettes, Júlio Barroso à frente e as lindas e moderníssimas Alice Pink Pank e Mae East de backing vocals.

Foi num show, o punk veterano não se lembra qual deles, que Marcelo Nova teve sua sobrevivência garantida por mais alguns anos: “Um daqueles punks treteiros pediu um gole de cerveja para a mulher do Marcelo. Ela deu, mas o punk não quis devolver o copo. O Marcelo resolveu engrossar; daí juntaram uns dez punks para bater nele. Sem pensar, eu disse que ele era meu amigo, mesmo sem nunca ter visto o cara antes. Os caras recuaram e a gente começou a trocar ideia”.

Apesar da atração estética pela transgressão e pelos lados mais escuros da existência, o Carbono era um lugar tranquilo. “Era o único lugar onde podia tudo, sem ninguém para perturbar. Não tinha um segurança e não me lembro de brigas ou encrencas”, lembra Miguel Barella, guitarrista do mesmo Agentss e, depois, dos Voluntários da Pátria (que também tocou lá).

MEDO DO NOVO - Andrez Castilho, o Castilhão, não deixava a polícia entrar, quase como uma declaração de princípios de alguém que foi presidente do grêmio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP nos anos 50 e chegou a ajudar organizações clandestinas de esquerda no imediato pós-68. Eram tempos ainda de confronto, apesar da distensão iniciada pelo processo de abertura política do regime militar. Havia resquícios de censura (Je vous salue, Marie ainda teria sua exibição proibida em 1985, por exemplo) e os comportamentos mais transgressores, os cabelos mais curtos e espetados, as roupas escuras eram olhados com desconfiança.

Mas ali, no Carbono, valia tudo, desde que fosse interessante e tivesse qualquer indício de conter informação nova. Era, na verdade, um empreendimento familiar. Foi concebido durante a temporada europeia da família – Andrez e Maria Helena Varoli, jornalista de moda, mudaram-se para a França em 1 976 com os filhos Andrez Filho, Renata e Theo. No fim dos anos 70, morando em Paris, desencantado com as possibilidades de transformação pela via política e convivendo com a intensidade e a diversidade da vida cultural na Europa, Andrez imagina fazer um centro cultural privado. No início, Rudá de Andrade, filho de Oswald de Andrade e Pagu, também participa das discussões. “Mas o Rudá queria fazer um outro MIS [Museu da Imagem e do Som] e meu pai tinha sacado que a história era fazer uma coisa mais jovem, mais pop”, lembra Andrez Filho.

Os filhos de Castilho, então com 20 e poucos anos (à época da inauguração, Andrezinho tinha 23, Renata, 22 e Theo, 20), depois de uma adolescência passada na Europa entre viagens meio aventureiras, cinematecas, museus e muita música pop, tinham acesso a essa informação nova e uma rede de amigos. Alguns também com passagens pela Europa, como os críticos Pepe Escobar e Fernando Naporano, que integravam a equipe renovada do caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo e faziam barulho a cada evento do Carbono. Outros, ligados ao que estava acontecendo aqui no Brasil em todas as áreas da cultura, desde que contivessem algum tipo de reação ao clima dominante de hippismo tardio, nacionalismo populista de esquerda ou da lixaiada mais comercial.

“Eu cheguei ao Brasil com cabelo supercurto, roupas de brechó e vi aquele bando de bicho-grilo, com camisa xadrez e cabelo comprido. Foi um choque.” Renata, a filha do meio e única mulher, tinha vindo cuidar da programação visual dos folhetos, dos cartazes e da revista mensal que o Carbono editava. Por algum tempo, também cuidou de uma loja no térreo que vendia acessórios e onde as pessoas entravam para perguntar como fazer para, elas também, ficarem modernas. “As pessoas tinham um pouco de medo, mas muita curiosidade.”

Para muita gente, a curiosidade vencia o medo e, nos cinco anos que durou, o Carbono acabou t ornando-se a força centrípeta para a qual convergiu quase tudo o que foi interessante e novo em São Paulo. Ou quase todos que, daquilo que viram e aprenderam por lá, sairiam fazendo coisas interessantes e novas nas décadas seguintes. O punkinho que andava no visual é Alex Atala. O radialista, Kid Vinil. O punk veterano, Clemente, dos Inocentes (a banda existe e continua tocando por aí). Grupos como Ira!, Mercenárias, Smack, Nau, Cabine C e Violeta de Outono passaram por lá. Alguns volta e meia se reúnem e são redescobertos todo dia pela molecada.

“Arte é datação, arte é datação.” Theo, o filho mais novo da família, insiste nessa ideia. Tem razão. Quase três décadas depois de sua inauguração, alguns anos após as mortes de Castilhão e Maria Helena, o Carbono 14 (nome do elemento químico cujo ritmo de dispersão serve para calcular a idade de qualquer material orgânico) ainda emana suas partículas no ambiente.

Texto por Bia Abramo

Fonte: Trip

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Arthur Veríssimo conta do dia em que levou uma botinada na testa e continuou discotecando.

A pista de dança bombava com neopunks, darks, carecas do subúrbio, modernosos, bichos-grilos, new romantics, skatistas, rastas, surfistas e drogadictos em geral. Observava o espetáculo dantesco das evoluções e coreografias no alto da cabine de som. A trilha sonora misturava o suprassumo do rock e seus derivados. Naquela época eu vivia no eixo São Paulo-Londres e viajava de três a quatro vezes ao ano, trazendo nas malas e cases as antiguidades e novidades do pós-punk. Meu parceiro nos turntables naquela balada era o master DJ Alois (Eddie The Monster) Lacerda. A noitada era conhecida como Incubus Sucubus, e o nosso acervo era o mais eclético e turbinado na terra do pau-brasil.

Percebo um bafafá na pista. Um surfista rola pelo chão com um punk da morte. Treta forte. Como num passe de mágica os dois são neutralizados e colocados para fora. Nossa cabine é invadida por duas be ldades estonteantes. Uma delas, com a camiseta do Xmal Deustschland, carrega uma garrafa de Veuve Clicquot, outra com os olhos saltados como um pequinês retira da bolsa uma caixinha de música recheada de cocaína, canudo de prata e espelhinho. Se sentem as donas do pedaço e dos DJs. Na primeira snifada da dondoca, uma bota voa e bate entre o seu rosto e o canudo. Minha namorada na época lança o outro par da bota, que acerta minha testa e cai em cima do pickup. Confusão generalizada. Gritaria. O disco salta e a música para. Um urro tribal coletivo emerge da pista. Alois salta como um Baryshnikov e lança nos toca-discos o clássico “Love will tear us apart”, do Joy Division. A pista delira e o transe transborda.

TRIP EMBRIONÁRIA - Para vocês se situarem, essa história aconteceu no segundo semestre de 1984. O local era o Carbono 14, a catedral cultural de todas as tribos alternativas e roqueiras de São Paulo. No prédio de quatro andares acon tecia de tudo. Shows de punk, de metal, reggae, espetáculos de dança, vernissages de artes plásticas, teatro, performances, apresentações de filmes e vídeos inéditos. Foi naquela época que conheci o Paulo Lima e o Califa, pouco tempo antes de criarem a Trip. O sumo-sacerdote do Carbono 14, mestre Castilhão, apresentou-me ao Paulo, que precisava de um sonoplasta para fazer a trilha de uns vídeos de surf. Estava dado o start da nossa parceria. O resultado vocês conhecem ao longo dos 25 anos de história da revista Trip.

Meu primeiro contato com o clã do Carbono 14 ocorreria nas areias escaldantes de Trancoso, na Bahia, no início dos anos 80. Andres Castilho, um dos mentores do Carbono, convidou-me para conhecer e fazer parte da mandala dos carbonários. Minha vida era um mar de rosas. Discípulo de Rajneesh, vivia circulando pelas comunidades alternativas espalhadas pelo Brasil. Naquele tempo já mixava sonoridades nos grupos de terapia onde a luz do di a predominava. O convite era o que faltava para infernizar e me arrastar para a noite. Em São Paulo, conheci o restante da família Castilho (a matriarca, Maria Helena, seu marido, Castilhão, os filhos, Renata e Theo). Deixei de lado as roupas vermelhas de sannyassin, a meditação, o tantra, o incenso e mergulhei sem escafandro no paraíso nebuloso do sexo, drogas e rock’n’roll. Não me arrependo de nada. Nem mesmo da botada na cabeça.

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