quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

UMA NOITE “ FORA DO EIXO “



por Adelvan Kenobi

Na última noite de segunda-feira, dia 14 de dezembro de 2009, a estrutura montada para abrigar a Rua da Cultura entre os Mercados Centrais de Aracaju serviu para uma causa nobre: acolher mais uma etapa da “ Tour Nordeste Fora Do Eixo “, que levou as bandas Macaco Bong (MT), Porcas Borboletas (MG) e Burro Morto (PB) a 7 cidades da região: Fortaleza, João Pessoa, Campina Grande, Recife, Maceió, Aracaju e Salvador. Uma bela oportunidade para se ver por aqui e ao vivo alguns dos principais nomes da nova cena independente nacional, com a abertura pra lá de especial dos sergipanos da Plástico Lunar.

Cheguei atrasado, como sempre, e preocupado em ter perdido algo. Realmente perdi, o show da Plástico, mas esse eu posso ver depois (aliás verei próximo sábado, no Cinemark, em mais uma Sessão Notívagos). Nenhum dos “ visitantes “ havia ainda se apresentado, para meu alivio – e surpresa, já que passava das 21:00 e o evento estava marcado para começar às 19:00. Burro Morto estava no palco passando o som, e demorou uma eternidade – tempo mais do que suficiente pra que eu desse uma boa circulada pelo local e revesse velhos camaradas que há tempos não encontrava. Quando finalmente começou, mostrou um som instrumental “ viajante “ , psicodélico e cheio de grooves, porém meio repetitivo, o que, para uma banda instrumental, é um senhor ponto negativo. Não chegou a ser ruim, obviamente, são bons músicos e executam suas composições de forma precisa e competente, porém de forma um tanto quanto automática, com pouca comunicação com a platéia, algo que, aliás, foi a tônica de (quase) todos os shows da noite (exceção para a banda seguinte, Porcas Borboletas) e eu credito ao cansaço de uma turnê tão corrida. Essa foi a minha impressão, mas admito que pode ser uma opinião equivocada, já que o som que eles fazem, navegando entre o groove e o afro, o dub e o jazz, não é muito a minha praia.

Mais uma bela demora, e temos Porcas Borboletas. A primeira musica pareceu muito Patife Band, a segunda, Arnaldo Antunes – por aí já fica evidente a fonte na qual os caras bebem: a chamada “ vanguarda paulistana “ do inicio dos anos 80, cheia de acordes dissonantes, ritmos quebrados e poesia concreta. Isso é ruim ? Não necessariamente. Eu gostei – inclusive porque gosto muito da Banda patife e nutro alguma simpatia pelo ex-titã. As letras são bem humoradas e despretensiosas, mais a serviço da melodia do que da poesia. E a perfomance dos caras no palco é bem interessante, um tanto quanto exageradamente teatral, porém formando um bom conjunto com a obra musical executada. Uma banda, enfim, para se prestar atenção e se conhecer melhor – não por acaso têm chamado a atenção por onde passam e conseguido alguns feitos, como tocar junto com Paulo “patife” Barnabé no último Goiânia Noise e emplacar a música-tema do filme “ Nome próprio “ (a que abriu o show), estrelado pela musa Leandra Leal, o que rendeu, inclusive, uma participação dela em seu último disco.

Por fim, Macaco Bong, a mais conhecida e por isso mesmo mais esperada, recepcionada por um bom publico apesar do avançado da madrugada (lembrando que era uma noite de segunda para terça, sem nenhum feriado no dia seguinte). Nunca é demais lembrar que o primeiro ( e por enquanto único ) disco deles, “ Artista igual a pedreiro “, foi eleito o álbum do ano de 2008 pela revista Rolling Stone. “ E daí ? “, deve estar pensando você, leitor “ underground “ ou “ indie “ que está cagando e andando para nossa semimorta crítica musical “ mainstrean “. E daí que isso dá moral a banda para, entre outras coisas, segurar um bom publico mesmo numa madrugada de segunda para terça. Só isso. E quem ficou não se arrependeu. Belíssimo show, com o volume no talo – na verdade o volume do som estava MUITO alto, chegando a incomodar - em certos momentos parecia que a guitarra estava literalmente estuprando nossos ouvidos. E foi MUITA guitarra, uma verdadeira overdose de riffs matadores emoldurados por uma cozinha (baixo e bateria) precisa. Mas uma overdose “sadia”. Foi uma oportunidade única de ver uma banda consagrada nacionalmente mas que faz um som pouco acessível aos ouvidos médios em solo sergipano. Um fechamento com chave de ouro para a noite – que seja a primeira de várias, e que Aracaju entre definitivamente para esse “eixo”.

Um comentário:

  1. Adelvan como sempre com suas resenhas concisas e precisas...

    Roberto Nunes

    ResponderExcluir