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terça-feira, 12 de julho de 2011

Do Sol Latente Ao Cinza das Ruas

"Inanição", o terceiro disco da Karne Krua, saiu, finalmente. Encontra-se à venda a partir de hoje, 13 de julho de 2011 ( Dia Internacional do rock ) na loja Freedom, que fica na Rua Santa Luzia, 151, no centro de Aracaju, próximo à catedral Metropolitana. Na próxima sexta-feira os caras da banda estarão ao vivo nos estúdios da Aperipê FM para contar como foi esta saga no programa de rock.

Abaixo, um texto de Alexandre Gandhi, o guitarrista da banda, sobre o disco:

Voltando um pouco no tempo acho que dá para se localizar melhor. Lembro claramente que quando eu tocava na Gee-o-Die eu andava muito na Freedom quando a loja era na Galeria Cortês, na Rua São Cristovão, em frente ao Edifício Futuro. Tudo nessa cidade, para quem vive nela, é tão parte de si, que acaba por se lembrar de muitos momentos em certos lugares da cidade, para não dizer em quase todos. Anos depois tive uma experiência artística fora do comum, já cursando Artes Visuais pela UFS, naquele edifício. Aquela área da cidade já era muito comum para mim, mesmo antes de andar na galeria com Thiago Stress, fumando Malboro vermelho e trocando idéias com Silvio sobre Rock. Era o tempo todo ali, sentado na escadaria, fumando cigarro e ouvindo rock. O Rock-SE já havia passado e quem tinha ido, principalmente os mais iniciantes no mundo do rock, se sentiam mais rockeiros depois daquele evento. Sim, havia visto a Karne Krua lá no Batistão e não tinha gostado tanto assim. Mas as idéias estavam mudando, o hardcore estava tomando conta da cabeça quando antes só era ocupada pelo metal e algumas outras bandas, as coisas estavam mudando. Sim, estavam mudando tanto que a minha banda tinha saído dos tempos de covers e começava a tocar musicas próprias, o que era bastante legal. Meio que lá, meio que cá do hardcore melódico, mais puxado pra o HC Oldschool, os sons saiam e a banda ia tomando forma. Silvio gostava bastante da Gee-O-Die e começou a distribuir fitinhas de "Fúria, Revolta e Dor" para o Braisl inteiro junto com suas correspondências. Virava e mexia eu recebia uma carta de alguém de algum recanto escondido nos submundos anarcopunks querendo saber do som da Gee-O-Die. E eu mandava mais fitas para fora, muito mais fitas...

E foi assim que minha amizade com Silvio começou. Foi ali na Galeria Cortês que eu conheci quase tudo da Karne Krua. Acho que o trabalho mais fresco era o "Máscaras para o Caos", mas me lembro de ter gostado bastante de "Instantes Irreversíveis". Musica visceral naquela fita K7. E eu me borrava todo quando ouvia "As Crianças da Usina Nuclear", assim como me borrava quando ouvia "Animal Boy" dos Ramones. Interessante, não havia gostado do Ramones de primeira, nem tão pouco da Karne... agora me borrava todo ouvindo. E foi assim que virei um aficcionado por ambas. Muito mais pela Karne Krua. E em pouco tempo eu já tinha o maior número possível de material e já sabia quase tudo de trás pra frente e de frente pra trás. E minha amizade com Silvio crescia e a minha estadia no rock sergipano parecia duradoura.

E no passar do tempo a Gee-O-Die acabou. Os motivos: não sei se dá para listá-los. Acho que o gosto já não era comum, cada um da banda estava gostando de uma coisa, e naquela imaturidade onde Tennage Fan Club ou Belle e Sebastian nunca rimará com Agathocles a banda acabou. Mas eu tinha entrado pra a Merda di Mendigo e aquilo sim me manteria no rock - na verdade ali foi uma grande escola pra mim... não é a toa que a parada foi parar na Da Boca Ao Reto, pra mim, o som perfeito, nada a dever a meio mundo de banda que pago pau. Enfim, aqui o assunto é Karne Krua...

Quando comprei minha primeira guitarra, a qual toco até hoje, Wendell foi quem deu uma tocada nela antes que eu a levasse. Eu era um pivete que não sabia tocar nada e Wendell estava na loja. Pegou a guitarra e começou a tirar um som. Senti que a guitarra tinha timbre, tinha potencial, só faltava eu saber tocar. Ele confirmou que era uma boa guitarra e realmente hoje acho ela uma ótima guitarra, está comigo até hoje. E muito tempo passou até eu sacar que Wendell tocava na Karne Krua naquela época... parece coisa de destino traçado, viagem... e muitas formações passaram pela Karne e naquele Rock-SE a formação era Dejair no baixo, Valdeleno na bateria e Wendell na guitarra, e mesmo naquele show eu ainda não sabia que era Wendell que tinha tocado na minha guitarra quando eu a comprei... isso não importava, a banda não tinha me agradado mesmo.

Mas o tempo passou e como eu havia dito fiquei fã da banda, um pouco depois do Rock-SE, quando conheci Silvio. E Valdeleno saiu da bateria. Rony entrou rapidamente e a Karne Krua não era mais a mesma. Tinha algo de errado. Senti vergonha de um show que eles fizeram no antigo Tequila Café. Um show horrível. Sendo amigo de Silvio, acabei comentando sobre o show e a opinião foi igual. Show horrível. Algum tempo depois, Max Alberto, que estava participando da Karne como uma espécie de ajudante ideológico (a Karne Krua, com Instantes Irreversíveis, se aprofundou no tema do êxodo rural, seca nordestina e miséria do homem do campo), começou a cantar junto com Silvio. "Máscaras para o Caos" foi lançada e, provavelmente, já havia sido lançado o embrião para o disco Em Carne Viva. A banda tava sem baterista... e agora?

Eu: Silvio, porque você não chama Thiago Babalu pra tocar na Karne?

Porra, ele é um bom baterista, será que ele toparia tocar?

Vou falar com ele, se ele aceitar eu já passo algumas músicas pra ele. Gravo em K7 das fitas que tenho e passo pra ele, ok?

Tranqüilo, depois você me diz o que ele disse.

E Babalu aceitou tocar na Karne Krua. Passei uma fitinha de 90 minutos com meio mundo de som da Karne. Nem sei se foi fita de noventa minutos, só sei que a fita tinha som pra burro, a Karne Krua tem bem mais que 70 composições, tirem por ai... e Babalu caiu direto em estúdio pra gravar o "Em Carne Viva". Tava lá acompanhando as gravações de perto.

Eu: Babalu, a bateria é assim, pára no prato de ataque, trá tun tun tum. Sacou?

E o fi-da-peste pegou tudo certinho e gravou o disco. Esgotado por sinal... e ficou tocando na Karne por um bom tempo... e fez show de lançamento do cd e meio mundo de show por ai...

Certa vez, na antiga Casa Laranja, me encontrei com Max Alberto. Nos víamos direto nos shows e começávamos a conversar. E sempre o assunto era a Karne Krua, era o lirismo, era a força do hardcore da Karne. Eu, entrão todo, disse: cara, queria ver um ensaio da Karne, quem sabe tirar um som com vocês. Max disse: apareça no estúdio tal do Augusto Franco. Nesse tempo a Karne era Mazinho na guitarra (que havia gravado baixo no Em Carne Viva), Jamesson no baixo, Silvio, Max e Babalu. E Lá fui eu, para o ensaio, com minha guitarra. E como já era muito amigo de todos, fui incorporado ao ensaio tranquilamente. E como já sabia as músicas todas, tocar algumas delas não foi problema, e como o entrosamento com Sílvio já era grande, nasceu a partir de uma idéia dele "Infinitivos", um dos primeiros sons do pretenso "Do Sol Latente Ao Cinza das Ruas".

Esse era o nome do disco: Do Sol Latente Ao Cinza das Ruas. A formação seria: eu estabelecido na guitarra da Karne Krua, Mazinho na outra guitarra, Jamesson no baixo, Silvio e Max cantando e Babalu na bateria. Essa formação tava mais afiada que punhal de cangaceiro, mais amolado que espada de samurai. Fizemos muitos shows com essa formação, cada um mais destruidor que o outro. Até o dia em que fomos tocar com Marcelo Nova no Mercado Central. Evento bacana, inusitado, como foi inusitada uma mega discussão entre alguns integrantes da banda e produtores do evento (que eram envolvidos com a banda) em pleno palco, durante o show. Coisa de doido! "Vá se fuder!", "Vá tomar no cu" e outras frases delicadas foram trocadas. E essa formação da Karne começou a passar.

Max já saiu do palco desse show sem ser integrante da banda. Mazinho saiu logo depois, por motivo de trabalho. Restaram eu, Silvio, Jamessom e Babalu e algumas músicas do disco que iria ser feito.

Fizemos muitos shows. A banda continuava afiada e cada vez mais pesada. Cada show era uma porradaria só. Parece que as dificuldades estavam deixando a Karne mais revoltada. E vários show foram feitos com essa formação. Já não sabia ao certo quanto tempo estava na Karne Krua. É como se entrasse num lapso temporário que não importava, só a força dos fatos.

Eu e Babalu estávamos tocando na Da Boca Ao Reto e estávamos esbagaçando por lá. Arregaçando caixa de bateria e cubos de guitarra. Uma gritaria dos infernos. Uma doidera literalmente. E isso veio parar na Karne Krua. Musicas mais complexas, mais trabalhadas e mais destruidoras.

Estávamos com quase tudo pronto para o novo disco quando nas carreiras Babalu teve que ir pra São Paulo. E Jamesson também. Um corre corre danado para deixar registradas as baterias do novo disco. Babalu gravou e poucos dias depois partiu para a cidade grande para iniciar o ciclo do êxodo rural. Para Jamesson nem deu tempo de gravar os baixos, algumas músicas não estavam realmente acabadas.

E a Karne Krua secou. Secou como rio intermitente. E sobrou eu e Silvio e uma gravação de bateria.

"Meu irmão, o que vamos fazer?", indagou Silvio.

É Silvio. Vamos gravar o disco. Nem que eu banque essa gravação, vamos terminar esse disco, temos a bateria gravada. Vamos chamar outras pessoas pra tocar na banda, mas essa gravação é da nossa obrigação acabar, vamos acabar nós dois.

E foi desse jeito que "Do Sol Latente Ao Cinza Das Ruas" foi gravado. Eu acabei gravando baixos, guitarras e backing vocals. E de tão seco que foi gravar, acabou por virar "Inanição", música que quando gravada se destacou dentre as outras, pois sintetizava tudo que o disco queria dizer. Inanição. E desde que a bateria foi gravada até a ultima etapa do disco passou-se tempo suficiente para maturar uma nova formação, novas composições surgiram, mas um foco lá atrás, naquele disco que ainda não estava nas ruas, aquele disco que nasceu ideologicamente em outro tempo, juntamente com outras pessoas, que não mais participam do grupo, mas emanaram as suas energias para as composições e o fundamento teórico. "Inanição" é um disco que a Karne Krua não mais lançará, não mais conseguirá compor. É um disco que já nasce velho, mas como todo velho é cheio de sabedoria, cheio de história para contar. Sem sombra de dúvidas é um disco que considero um dos melhores do rock sergipano (falo como fã, antes mesmo de ser integrante da banda, e antes mesmo de ter gravado o disco, porque o disco não me pertence, ele pertence a uma banda que tem quase a minha idade, e não consideraria uma pessoa dois anos mais nova inferior a mim).

Lembro das palavras de Walter Benjamin sobre a autonomia da obra de arte. Ele dizia que a peça, quando finalizada, adquire a aura da obra de arte. E é essa aura que faz com que saibamos, mesmo sem saber ao certo, que ali está uma obra de arte. Esqueçam as abordagens sobre reprodução do teórico da Escola de Frankfurt. Disco é isso, é reprodução, mas a música tem o poder da mais perfeita das manifestações artísticas: o poder de seduzir por sons, algo perfeitamente abstrato. E eu nunca imaginaria naquele dia, naquela loja localizada lá na Praça da Catedral, que aquela guitarra um dia ia gravar um disco da mesma banda do cara que testou a guitarra pra mim, quando eu arranhava meus primeiros acordes...

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Karne Krua no Portal Rock Press



Mais um bom serviço prestado ao rock sergipano por

Michael Meneses

Karne Krua - O Vinho da História* dos Subversores da Ordem*

Pense numa banda com mais de 20 anos e fazendo sua história em Sergipe, o menor estado do Brasil! Pensou na Karne Krua? Acertou! Na ativa desde meados dos anos 80 e linear ao florescer do movimento punk no Brasil, a Karne “Ainda é Krua” e finaliza seu novo álbum intitulado “Inanição”, com previsão de lançamento para o fim do ano. Seu vocalista e um dos fundadores da banda, Sylvio Campos, concedeu esse entrevistão ao Portal ROCK PRESS em sua loja, a Freedom Discos na capital de Sergipe, Aracaju, outrora conhecida no meio underground por “Buracaju”, nome de um fanzine de sua autoria.

O século XXI segue e imagens de punks ainda chocam, às vezes com o mesmo impacto com que as primeiras aparições punks em São Paulo e no Rio de Janeiro chocavam quando exibidas na TV nos anos 80. Porém, a cena punk não era exclusiva do eixo Rio-São Paulo e assustava com vigor longe das metrópoles. A cena se mobilizava na base da sua máxima, o “faça você mesmo”, e foi se solidificando pelo Brasil. Bandas surgiram e fizeram história, algumas sugiram e fazem história, e não apenas uma história regional, mas nacional, e isso não foi diferente na capital sergipana, que na década de 80 (e até hoje) foi apelidada de “Buracaju” em referência ao zine editado por Sylvio Campos, vocal da banda mais importante do rock em Sergipe, a Karne Krua.

Apresentar a banda narrando os shows pelo nordeste, mudanças na formação, citações na mídia, dos K7’s, Lp, Cd, coletâneas, vídeos e Cd homenagem... Soa até natural. Porém, para a Karne Krua isso tem diferencial, afinal são mais de 20 anos de garra fazendo parte da construção da cena rock (e não apenas punk) sergipana, e não é fácil erguer-se num estado cujo rock. por mais “Ilustre” que seja, é infelizmente visto como um “Desconhecido”, ofuscado pela falta de visibilidade, levando muitos à acreditar que cultura em Sergipe limita-se aos sons e rebolados do Pré-Caju e do Calcinha Preta.

Morei em Aracaju nos anos 80, conheci a banda em 1987, quando ela já conquistava respeito na cena nacional, tinha 12 anos e queria distância da fase “Underground” da hoje rotulada Axé-Music e que saturava Sergipe. É Glorioso lembrar o dia que vi uma banda de rock pela primeira vez, ao acompanhar um amigo indo ao encontro dos músicos da Karne, que ouviam rock num toca-fitas na calçada da residência do artista plástico AC (Augusto César) e que, quinze anos depois, participou do lançamento do CD “Em Carne Viva”, pintando uma tela no palco. Imagens na minha mente, ou melhor, na mente de um fotógrafo , são sentimentos, e lembrar de punks escutando rock numa calçada do histórico bairro de Sto. Antonio em Aracaju é algo nostálgico, cultural, histórico e de grande importância na minha vida.

Ao retornar ao Rio em 1990, dias antes do Rock in Rio 2, o melhor cartão de visita para interagir com o Rock carioca foi responder varias vezes: “Sim conheço a Karne Krua, o Sylvio e sua outra banda o Logorreia...”. Eventualmente vou a Sergipe, e no final de 2008 assisti novamente um show da banda - antes havia assistido a um único show em 1990. Hoje shows de rock em Sergipe ocorrem com relativa frequencia, mas naqueles tempos tudo era difícil ou perto do impossível. E foi numa dessas idas que realizei a entrevista publicada no PORTAL ROCK PRESS - Clique AQUI para ler.

Karne Krua - O Vinho da História*, dos Subversores da Ordem* - Entrevista com Sylvio Campos
Por Michael Meneses!
Fotos – Alex Spirro e arquivo pessoal de Adelvan Kenobi e Michael Meneses!
Depoimentos colhidos por: Deise Santos e Michael Meneses!

*O título e sub-titulos desta matéria e da entrevista publicada na Rock Press foram inspirados em sons da Karne Krua.

Michael Meneses! – É fotojornalista, carioca do subúrbio, filho de paraibano com sergipana, torce pelo Campo GrandeA.C. no Rio de Janeiro, Itabaiana/SE no Brasil e Flamengo no Universo. Graças ao bom e velho heavy metal, conheceu as variadas vertentes do eterno rock and roll, sem esquecer suas raízes com o rock pesado. michaelmeneses@portalrockpress.com.br

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Karne Krua forever

Quando o rock se popularizou no Brasil, na década de 1980, já não era somente mais um “enlatado” importado ou “empurrado” goela abaixo pelos Estados Unidos da América, tal como o vislumbrava a elite letrada dos anos 60 e 70, mas, graças ao poder das gravadoras multinacionais, fazia já parte do dia-a-dia de parcelas cada vez maiores da população, até se tornar um dos produtos mais vendáveis do mercado fonográfico nacional nos primeiros anos da década seguinte. Nesse processo de massificação, chama a atenção o fato de a produção do “rock nacional” ter dois aspectos que só poderiam ser capazes de emergir no horizonte de expectativas dos observadores, críticos e historiadores do rock do Brasil nesse novo milênio. Isso por conta não somente do desenvolvimento da sociologia, da antropologia e dos estudos culturais, no campo acadêmico, na década de 1990, mas também da consolidação dos movimentos organizados como discurso proselitista e força política, no mesmo período. Assim, os que acreditavam na rebeldia das letras das músicas daquelas bandas tão populares na década de oitenta mal prestavam atenção para duas marcas que tornavam aquelas manifestações elitizadas. Primeiro, era produzida por um grupo de jovens brancos e bem nascidos do Sudeste e Sul do país, os quais tiveram acesso privilegiado às informações musicais que vinham dos Estados Unidos e da Inglaterra, mas também aos instrumentos importados, às guitarras Fender, aos amplificadores e caixas Marshall, a tudo que costumávamos ver nas fotos publicadas pelas revistas daquela época ainda sem MTV e Internet.

Mas essa elitização econômica e étnica foi rompida com o movimento punk em São Paulo, que se notabilizou em 1982 com o festival Começo do Fim do Mundo, realizado no SescPopeia, já decantado em prosa por Antônio Bivar em seu livrinho O que é Punk. Pela primeira vez, o público de São Paulo e do resto do país, através dos documentários e matérias exibidas na televisão, tomaram conhecimento desse grupo de garotos brancos, mulatos e negros que, saídos dos subúrbios e de uma vida dura de officeboy, divulgavam para o mundo seu rock cru de letras de protesto, tocado com guitarras nacionais vagabundas e desafinadas, com três acordes mal aprendidos. Esse espírito punk do faça você mesmo, que se manifestava pela música e pela imprensa subterrânea dos fanzines, tendo seu paradigma mítico na Inglaterra e nos SexPistols, tal como a tradição das narrativas eurocêntricas nos ensinou a entender tais fenômenos, espalhou-se pelo Brasil e, com diferença de datas, manifestou-se ao seu modo em cada região.

Em Sergipe, pela atitude, os primeiros punks surgiram por volta de 84 e 85, com as bandas da época que tocavam e publicavam seus fanzines sem infraestrutura ou apoio, mas musicalmente o movimento corporificou-se com o surgimento do  Karne Krua e com a capacidade empreendedora de Silvio Campos, vocalista/idealizador/mentor/compositor/produtor da banda. A primeira formação do Karne Kruacontava com Sílvio nos vocais, Vicente Coda na guitarra, Tony Almada na bateria e Marcelo Gaspar no baixo, mas a banda se consolidou mesmo com a entrada de Márlio no baixo. Marcelo passou para a guitarra e Vicente montou o projeto Fome Africana. Isso nos anos 80, no underground do circuito alternativo mais ou menos “inventado” pelas bandas de Aracaju, que também produziam, como ainda hoje, os cartazes dos shows e os zines. Depois cada um tomou seu rumo, mas os agentes principais de toda aquela empreitada se mantiveram persistentes, mesmo tendo que se agarrar a seus empregos ou trabalhos para se manterem na persistência.  Durante as décadas de 90 do século XX e de 10 do século XXI, vários outros músicos tocaram no Karne Krua (lembro, de cabeça, de Soneca, Fábio, Valdeleno...).

Apesar de ter se transformado musicalmente, passando a fazer um som mais elaborado, o que se manifesta também nas timbragens das distorções de guitarra, no aprimoramento das batidas, nos contratempos da bateria e, finalmente, no domínio de Silvio da arte do canto, com sua voz possante e toda peculiar, o KarneKrua é o maior exemplo dessa persistência, num estado que, como muitos outros do Brasil, quando não importa os produtos musicais de sucesso, (co)opta por selecionar, durante as sucessivas gestões municipais e estaduais dos órgãos de cultura, um grupo reduzido de artistas locais para absorver a pequena parte da verba que sobra para os eventos culturais, as quais são periodicamente superfaturadas e manipuladas no processo de contratação dos grandes nomes nacionais da música, sobretudo na celebração de eventos tradicionais, como os festejos juninos, o carnaval e o ano novo. O Karne Krua passou por todos os modismos e por sucessivas gerações de roqueiros, mantendo-se firme e fiel aos seus princípios até agora. Isso se deve a uma espécie de sacerdócio ou militância que Silvio, com sua loja Freedom, único reduto genuinamente roqueiro da cidade, na rua Santa Luzia, faz questão de deixar vivo e atuante. Silvio foi o primeiro a realizar o grande sonho de toda banda da década de 80: um disco de vinil. Fui num dos shows de lançamento, nos idos de 94, no extinto Mahalo, quando o bar era situado em frente à Faculdade Tiradentes, no centro da cidade. Antes de Karne Krua (1994), a banda já tinha produzido em fita cassete As Merdas do Sistema (1986) eLabor Operário (1989). Em 1995, lançou Instantes Irreversíveis, e em 2002 o cd Em Carne Viva, que trazia na capa, de maneira muito justa, uma bela e sinistra foto do rosto de Silvio.

É significativo que, entre 2011 e 2012, os últimos remanescentes da primeira geração dos roqueiros seguidores da filosofia do “faça você mesmo” de Aracaju – eu, Vicente Coda e Silvio Campos – tenham resolvido lançar trabalhos novos, produzindo suas músicas e discos com o auxílio indispensável da produtora instituída no país por Itamar Assunção, “Às Próprias Custas S/A”. Não há testemunho mais eloquente da persistência, da energia que se renova mesmo depois de tantos tapas tomados pela vida, e de tanta desilusão. Sobre o disco de Vicente, A viagem de Christine ao universo da beatgeneration, não escrevi, mas fiz um texto sobre o seu show de lançamento no Teatro Atheneu, do qual participei. O do CroveHorrorshow, Depois do Rock, ao que tudo indica, sairá somente depois do carnaval, no próximo ano, e o do Karne Krua, Inanição, embora tenha ficado pronto já há um tempinho, só há alguns dias tive acesso, quando o comprei diretamente das  mãos de Silvio.

Ouvi o cd faixa por faixa e decidi escrever um texto sobre ele. Silvio me disse que Inanição encerra um ciclo do Karne Krua com temática concentrada no problema da seca do Nordeste. Gostei muito do disco, desde sua concepção gráfica, cujo encarte,assinado por Alê (aledg.com), em fundo verde, traz todas as letras, com os títulos das músicas grafados em fonte muito coerente com os desenhos e fotos editados, até o desenho da capa, que, embora de longe possa ser “lido” como uma flor, tem a sua estrutura montada com caveiras e no seu botão traz a imagem macabra de cruzes, o que logo nos remonta à temática e à imagética principal do disco: o sol causticante, a seca, a perda, a carência, a morte. Silvio canta a saga do que considera “O Guerreiro”, título da faixa 7, que, ao invés do tradicional estilo hardcore, nos traz um rock sabor anos 80 com batida mais lenta, no gênero de “Garoto do Subúrbio”, dos Inocentes. “O Guerreiro” é aquele que trabalha sob o sol com sua enxada. O seu refrão, que diz: “lá vai o guerreiro”, com sua “família morta de fome”, transmite certa dignidade à imagem mítica do sertanejo forte, tal como o pintaram Portinari e Euclides da Cunha. Mas esse sertanejo é também um “cabra marcado para morrer”, como em “Navalha no Pescoço”, hardcore genuíno e sem frescuras assinado por Marcos Aurélio (letra) e Alexandre Ghandi, que também produziu o disco, compôs várias músicas – incluindo a faixa-título, Inanição –, no qualSilvio declara: “a minha mente é tão forte, move morro e tem força de leão”.  A ambiência sertaneja persiste em todas as faixas, embora o disco traga também músicas de outras fases do Karne Krua, como “Lixeiras da Cidade”, que nos anos 80 se chamava “Lá na Soledade”.

A novidade nesse disco fica por conta da versatilidade de Silvio, que, quando não rememora seu lado “bluseiro”, mais explorado em seu outro projeto musical, Máquina Blues, se transforma numa espécie de Zé Ramalho/Alceu Valença endiabrado, com voz rouca e grave, gritando seus refrões ao som da bateria rápida de Thiago Babalu e dos riffs e solos precisos da guitarra de Alexandre Ghandi. O baixo, que também foi tocado por Alexandre, faz o fundo pulsivo e agressivo, preparando com a bateria a cama sonora ideal para os rasgos vocais de Silvio. E Silvio sempre foi fã da música nordestina produzida nos anos 70/80. Lembro que ouvíamos juntos os discos de Zé Ramalho nos anos 80. Em “O Vaqueiro e a Boiada”, ele chega a entoar aboios e cantos não distorcidos, o que transforma o Karne Krua numa das mais inusitadas bandas do país e do mundo. O disco traz ainda efeitos sonoros, como cânticos religiosos, um cantador fazendo um repente na faixa “Do sol latente ao cinza das ruas”, assinada por Max Alberto (letra), Silvio, Alexandre e Thiago.

Assim, a sua excelente sonoridade e arte gráfica andam de mãos dadas, compondo um dos trabalhos mais importantes do Karne Krua em toda a sua carreira. Num momento em que se faz death metal em Angola, e em que muitos dos antigos chavões do punk rock dos anos 80 perderam sua razão de ser, Inanição – tanto o disco quanto a música – é uma amostra de que o rock de protesto ainda faz sentido, principalmente quando parte de um dos mais originais poetas contemporâneos, Silvio, que canta suas letras – e as de seus parceiros – sobre um rock duro, pesado e ágil, tão ágil quanto seus rasgos vocais, que, por sua vez, combinam com as distorções da guitarra e com a alta pulsação do baixo e da bateria. Se Inanição termina um ciclo, por outro lado inicia uma fase em que o Karne Krua se consolida não como uma banda punk reconhecida nacional e até internacionalmente, pois assim já o era no final dos anos 80, mas como uma banda original, que trouxe – acho – pela primeira vez a temática dos oprimidos pela indústria da seca do Nordeste para o “rock punk”. Escrevo “rock punk” porque, como o próprio Silvio nos ensina numa de suas letras, o punk não é rock. O rock é que é punk.  

Fotos P&B: snapic, lançamento do CD "inanição" ao vivo no programa de rock.
Fotos coloridas: (CC BY SA) Fora do Eixo/Nando - em Batalha, Alagoas.

Karne Krua forever!!!

por Luiz Eduardo Oliveira

Fonte: Portal UFS


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

1995 - karne krua, "direto do túnel do tempo"

Da Série "recordar é viver": Numa de minhas últimas passagens pela loja de Silvio, lá no centro de Aracaju (FREEDOM - Rua Santa Luzia, 151), me deparo com uma entrevista um tanto quanto rara da Karne Krua, já que é provavelmente a única que conheço que foi respondida pelos quatro componentes da banda. Data de 1995 e foi publicada num dos muitos fanzines que circularam por aqui naquela década, o "Mouth Stranger", que era editado por dois caras: Carlos "Mouth" e Estranho. Do primeiro nunca mais tive notícias. Já Estranho costuma sumir para de repente aparecer feito um furacão, cheio de idéias e projetos, se decepcionar com o marasmo desta terra amaldiçoada pelo Cacique Serigy (que ele intepretou recentemente num filme, veja só) e sumir de novo. Resolvi resgatar, aí está.

As Notas explicativas são atuais e de minha autoria.

Adelvan.

* * *

MOUTH STRANGER ZINE: Quando surgiu a banda ?
SILVIO: Em 85 teve o final de uma banda que eu fazia com Almada, era a “sem Freio na língua”, daí a intenção era fazer uma coisa mais suja, mais agressiva.A gente escolheu uma temática ligada ao anarquismo e misturada com o lance do Hardcore, surgiu a Karne Krua, em 1985.

MSZ: Qual a origem do nome “Karne Krua”?
SILVIO: Esse nome, mais uma vez, foi eu e Almada que selecionamos entre uns 40 ou 50 nomes. Colocamos e acabamos escolhendo, vendo assim o que tinha a ver com a proposta da banda. Em cima desse nome que a gente escolheu criamos sentidos de “porque karne krua?” Em relação ao nuclear, à repressão policial ... o nome é uma coisa voltada que somos carnes cruas (o povão), as pessoas que sofrem com as armadilhas do tal sistema. Por tudo isso nós, na época, não tínhamos nome melhor do que este. “Karne Krua” representa bem os objetivos da banda.

MSZ: A banda já passou por quantas formações?
SILVIO: a gente já passou por 8 formações (NOTA: Isso em 1995, é bom lembrar). A atual é: Ronnie – Bateria; Marlio – baixo (na época da entrevista Marlio ainda era da Karne Krua, hoje toca no Câmbio Negro HC de Pernambuco); Marcelo – guitarra e eu, Silvio – vocal.

MSZ: No início, qual era o objetivo de cada um ?
MARLIO: Eu entrei na banda de cara, não conhecia nada em termos musicais. Conheci a Karne Krua e já fui entrando (NOTA: que frase mais sugestiva). Foi uma oportunidade muito grande pra mim e eu aproveitei.
RONNIE: Já comigo foi diferente, porque eu já curtia mas não tinha uma aproximação. De repente, comecei a tocar em algumas bandas locais. Silvio me conheceu tocando na “Expresso Suburbano” e surgiu a oportunidade, em 1992.
MARCELO: Eu cheguei em Aracaju no final de 84, foi conheci Silvio e Tonho (Almada) e a moçada que fazia o movimento. Vim de São Paulo, do ABC paulista, conhecia o movimento punk, skin, quer dizer, eu já vinha de uma realidade diferente do que estava acontecendo aqui. Eu nem esperava que quando chegasse em Aracaju iria conhecer pessoas que estivessem no movimento. Conheci Silvio na Sem Freio na língua, que era ele, Tonho Almada e Sardão. Tinha outras bandas, como “Perigo de vida”, “H2O”, “The Merdas” que era Silvio, Elder ... Foi quando Silvio surgiu com a proposta de montar uma nova banda. Era ele, Almada e Vicente “Coda” na guitarra. A galera já conhecia o movimento punk e outras bandas como Cólera e Ratos de Porão, que são “das antigas”, já vinham do movimento do SESC Pompéia. Mas então, daí a gente se uniu e começou a fazer um som Hardcore. A Karne Krua tem muita história.
SILVIO: Na época o meu objetivo inicial, quando formei a karne Krua com Almada, era expressar o que existia em termos de cultura local, uma cultura estagnada, que tinha seus artista, como até hoje você pode ver isso, monopolizando todo o circuito, de secretarias e tudo o mais. Então o objetivo da gente foi, além do lance libertário e da propaganda anarquista, punk, era fazer com que em Aracaju se visse alguma coisa que fosse vanguarda mesmo, e eu acho que na época a gente foi muito vanguarda. Nós fazíamos som para pessoas que não sabiam o que era rock, muito menos Hardcore. Tava me lembrando um dia desses que a gente fazia musicas novas até na hora do show. Meu objetivo maior foi expressar meus sentimentos anarco-libertários, objetivando o lance de Aracaju, que era mexer com a cultura musical que existia. Esse objetivo que coloquei na Karne krua serviu, porque na época a gente mexeu com muita coisa, tipo os órgãos de cultura, onde não entra mais ninguém a não ser os que vivem ali mamando.

MSZ: Com relação ao primeiro disco, lançado em abril de 1994, como foi e como está sendo a divulgação?
SILVIO: Foi muito difícil fazer esse lance do disco assim. Nós não somos uma banda financiada por altos selos, foi um apoio que a gente encontrou de uma pessoa que é amiga da gente, que acreditou no trabalho e fez o disco. E os resultados estão vindo lentamente, mas numa boa. A repercussão, em termos de revistas, foi boa, e atualmente estamos tentando divulgar o disco fora do país, já com alguns contatos com selos e distribuidoras. Em termos de saída do disco, estamos recebendo muitas cartas de fanzines, de pessoas do Maranhão, do Pará, do Piauí, do Brasil todo. Há um aspecto de contato direto. Como a gente tem um fanzine, está sendo um contato banda e público, e está sendo muito legal.

MSZ: Nesses 10 Anos de estrada, qual foi a pior situação que a Karne Krua já enfrentou?
SILVIO: Vou dizer uma que é bem individual: foi no final de 1992, quando tivemos a saída inesperada de dois integrantes. Saiu Ronnie e Valdeir e me vi numa situação ... tudo bem, eu faço parte da banda, mas não sou eu apenas. Se fosse só eu e Marlio a banda não seria uma banda. Então olhei pra Marlio e disse: “porra, bicho, e agora?”. Não queríamos que a banda acabasse naquele momento, então foi uma situação difícil pra cacete, mas como a família Karne Krua é grande, voltaram à banda antigos integrantes e a situação foi resolvida rapidamente.
RONNIE: Situação fodida ... foi uma mão que passamos lá em São Cristóvão. Levamos o maior baculejo. Isso foi bem cedo, a gente estava já pra ficar numa boa, daí 7 horas da manhã fomos tocar, todo mundo morgado. Foi foda.
MARLIO: O foda foi ir a Maceió sem ter assistência nenhuma e ainda por cima ter que dormir na rodoviária. Foi falta de organização da parte deles.
MARCELO: Esse lance do que foi pior é muito relativo, tantas coisas aconteceram que fica difícil escolher alguma.
MARLIO: Veio logo na mente essa lembrança.
RONNIE: Porque tem pouco tempo, daí a gente sempre lembra das dificuldades. Banda não é chegar assim e encontrar tudo de mãos beijadas, a gente toca porque gosta.
SILVIO: A pior situação foi quando o carro forte do Banco do Brasil parou aqui na porta de Marlio e nos pagou altas granas (risos). Até hoje a gente vive numa boa.
MARCELO: Silvio mesmo ganhou na sena três vezes. Marlio ganhou na loteria esportiva. A gente vive muito bem, muita mulher (mais risos).

MSZ: Quem é casado ? Quem não é ? Falem um pouco do dia-a-dia de vocês.
SILVIO: Casado, 31 anos, tenho filho, me fodo diariamente pra ver se ganho dinheiro, mas o Real me colocou lá pra baixo. Não estudo, tenho uma loja com Marlio e sou fanzineiro.
RONNIE: 20 anos, saindo de altas viagens de estudos, mas ao mesmo tempo não consegui passar os meus objetivos, que era entrar na faculdade. Mas estou tentando alguma coisa. Não trabalho e não tenho compromisso com ninguém.
MARLIO: Tenho 25 anos, trabalho, sou casado. Só.
MARCELO: Tenho 27 anos, sou artista gráfico mas atualmente estou desempregado, porque a situação não está nada boa pra ninguém, a não ser pros deputados, que ganham 8 mil por mês, 13º, 14º, 15º. Desemprego do caralho, e a moçada ganhando muito pouco.

MSZ: Como vocês vêem o movimento aqui na capital sergipana ?
SILVIO: Quando as pessoas falam em movimento procuro entender isso de uma forma geral, desde o pessoal que batalha no Movimento punk com o lance da panfletagem até o pessoal que curte Heavy Metal. Acho que melhorou, rolam mais shows. Quando começamos tocávamos em lugares com aparelhagem super precária, hoje tem bandas que tocam com uma aparelhagem legal. O que deve melhorar mais é a cena libertária, o lance dos fanzines, exposições, como já está sendo feito pelo Ailton (NOTA: vulgo “casca grossa”, infelizmente já falecido), panfletos ligados ao movimento punk. Foi uma coisa forte que aconteceu em Aracaju. No começo pesava muito, saca ?

MSZ: O que vocês acharam da organização (?) e da credibilidade (?) do projeto “Metal in concert” nos shows que não aconteceram (P.U.S. e RxDxPx)? (NOTA: Ele está se referindo à primeira vez que as citadas bandas vieram à cidade e levaram um calote da produção do evento – saiba mais AQUI.)
MARCELO: No cenário nacional acontece muito disso. A nível de nordeste isso fica muito mais próximo de acontecer, pois aqui os recursos são menores. Apesar da mídia divulgar, fica dependendo de pessoas que não têm responsabilidade e tentam organizar as coisas de uma forma e acabam colocando os pés pelas mãos. E isso só vem pra piorar as coisas pro lado da gente, pois agora fica difícil arrumar espaço, patrocínio. Mesmo a gente não estando envolvido, perde credibilidade.
SILVIO: Um show que realizei, tive dificuldade para conseguir local. Fui em lojas e tive a mesma dificuldade. Não acreditavam. As únicas que acreditavam eram aquelas pessoas que conheciam meu caráter, por coisas que fiz. A credibilidade quem dá é o público, agora as pessoas deveriam realmente ver pra não ficar “babando o ovo” de pessoas que só estiveram presentes em Aracaju pra detonar. Dizem o contrário, mas estas pessoas só contribuíram negativamente em termos gerais, de amizade, inclusive. São pessoas que não servem para a cena alternativa de lugar nenhum, pessoas que só vivem a fofocar. Dá-se credibilidade a quem merece. No show que fiz recentemente, pessoas não foram porque pagaram para ver o Ratos de Porão. Porra, isso é mal pra caramba. Onde colei cartazes, vi pessoas arrancando no dia seguinte, isso é foda demais.

MSZ: O que vocês esperam desses políticos?
TODOS: Nada !
SILVIO: Meu tataravô, minha tataravó, o caralho, todos esperaram desses caras. Eu queria lembrar que eles podem aumentar o salário deles, isso não interfere nos gastos lá em Brasília. Já no trabalhador vai influir tudo, vai descentralizar tudo. Eles aumentam o deles quando querem, eles estão com a caneta na mão, é bom que as pessoas lembrem disso.
MARCELO: é ... enquanto houver ilusão, as pessoas vão sempre acreditar num “salvador da pátria”.

MSZ: Nesta edição temos uma matéria que aborda o tema “guerra”. O que vocês têm a falar sobre o assunto ?
MARCELO: A máquina de guerra é uma instituição, então não pode haver guerras sem armas, e nós precisamos vender armas. Mas para vender armas tem que haver guerra, então a cabeça dos que comandam, dos que fazem a cúpula do poder, está aí, tomando conta dos nossos ideais.
SILVIO: Gostaria de lembrar “Rumores de guerra”, da Karne krua, uma música que tem uma letra muito forte. O tema é bastante usado por várias bandas que fazem letras deste tipo, ela é muito atual. Porque você vê guerras de ambição, países brigando por um pedaço de terra, pessoas morrendo inocentemente. Tem uma frase que representa bem os desejos de guerra, que diz assim: “jovens que não se conhecem se matam por homens que se conhecem e não se matam”. Isso é a síntese da guerra: a guerra é a decepção e a vergonha do homem. Como está acontecendo na Bósnia, na Chechênia, em vários países.
MARCELO: Temos um som na banda que hoje não tocamos mais, que é “Indústria bélica”, a letra fala assim: “Industria bélica não para de aumentar/a fome e a miséria não vai parar”.
RONNIE: a guerra já é um lance arcaico, os homens já vêm com estas guerras de altos tempos, já viajavam em um detonar o outro por causa da mulher do cara, por exemplo.

MSZ: O que vocês acharam do apoio do Mouth Stranger zine às bandas sergipanas?
SILVIO: Acho legal. Também faço fanzine e apoio muita banda de fora, de outros estados, divulgo pra caramba. . Já fiz flyers de divulgação para várias bandas e eu acho que essa atitude dos fanzines muito legal. Tem que ser a cena daqui, pois o fanzine é daqui, levando para todo o Brasil.
MARCELO: Apesar de tudo é bom saber que existe pessoas que acreditam nas coisas e têm boa vontade de divulgar, então é fundamental. Sem divulgação não rola nada. Como é que você vai saber das coisas se você não obtem a informação? Então é de grande importância, é muito boa a atitude do fanzine de vocês.

MSZ: Um recado aos leitores do zine.
SILVIO: Acredite que você pode fazer alguma coisa de positivo, acredite que ninguém é mais que ninguém, acredite na simplicidade, acredite no rock and roll, na liberdade de expressão, no anarquismo, no socialismo. Acredite em tudo que possa levar a uma modificação na sociedade. Só isso.

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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Karne Krua é do rock

Karne Krua no ‘Eu Sou do Rock’

Do Blog "Spleen e charutos"

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Quando o camarada Estranho, da Boca de Forno Produções, me enviou o release do Festival Eu Sou do Rock, que deverá reunir algumas das bandas mais virulentas da cidade na área externa do Teatro Lourival Baptista, no próximo domingo, tratei logo de botar o olho na programação. A ansiedade possuía justificativa. Talvez fosse a oportunidade necessária para registrar a história da banda mais importante de todo o cenário alternativo de Sergipe. Não me arrisco a dizer se existe justiça no mundo, mas os anjos degenerados do acaso e da distorção sorriram pra mim.

Minha intenção inicial era reunir algumas impressões a respeito da Karne Krua durante um ensaio dos caras, mas o veterano Sílvio, vocalista e fundador da banda, me explicou que eles estão num ritmo bacana de shows, de modo que o repertório já está meio azeitado, dispensando a necessidade de uma nova reunião com os músicos. Isso não nos impediu, contudo, de lorotar um bocado, enquanto o rapaz atendia à molecada que continua procurando informação na Freedom.

Durante a conversa, Sílvio me explicou que o hardcore está na base de tudo o que a Karne Krua faz desde a sua fundação, há mais de vinte anos. Isso nunca representou empecilho, entretanto, para que eles utilizassem a batida vertiginosa do gênero para imprimir uma personalidade a suas composições.

“O alicerce é o hardcore, mas nós sempre incorporamos outros elementos, sem nenhuma limitação. Eu não gosto dessa história de gênero, de se prender a determinados dogmas de maneira religiosa, respeitando determinadas fronteiras. É por isso que nosso público é bem heterogêneo, e aglomera tanto a molecada que está começando a ouvir rock, quanto o quarentão de cabelos brancos que nos acompanha faz tempo”.

Quando Sílvio começou a se interessar por música, nos esmaecidos anos 80 (Itabira é só um retrato na parede, mas como dói!), influenciado pelos irmãos mais velhos e por um ambiente familiar propício, a paisagem de Aracaju era muito diferente, e não convivia pacificamente com a negação dos modelos de comportamento que cultivava. Segundo Sílvio, não era raro o camburão acompanhar um grupo de cabeludos de maneira ostensiva.

“No imaginário da época, roqueiro era tudo drogado, marginal, batia em mulher. Claro que era todo mundo moleque, com dezesseis, dezessete anos, querendo mergulhar no universo dos ídolos, e a droga sempre caminhou de mãos dadas com o rock. Mas tudo depende de como o cara lida com isso. Tem gente que afunda, tem gente que sai nadando, de mansinho…”, defendeu com alguma ironia.

Foi motivado pela curiosidade despertada por esse universo, que Sílvio começou a fazer música. “Depois de ouvir os discos que meus irmãos traziam da loja onde trabalhavam, de conhecer a música sessentista, setentista, eu entendi que tinha que buscar a emoção de fazer música. Era a peça que faltava pra completar o quebra-cabeça. O rock era a nossa grande arma, a gente tinha que montar uma banda”.

Nos tempos da Sem Freio na Língua, banda que lançou as sementes para o surgimento da Karne Krua, o cenário também não era propício para a divulgação da música autoral, mas os caras pretendiam, deliberadamente, fazer história.

“Me lembro de um show em que anunciaram que o cara ia tocar com uma Fender. Foi a grande atração do evento. A guitarra apareceu mais do que a maioria das bandas. Talvez por isso a Karne Krua tenha se destacado”.

Sílvio continua. “Desde o início, quando fundei a banda com Almada, defendemos a bandeira da música autoral. Era uma coisa ideológica, de batalha mesmo. Isso também pode explicar a nossa vitalidade. Quando um menino vem me pedir conselho, tentando entender como a Karne Krua sobrevive há tanto tempo, explico que uma banda tem que estar sempre em atividade, ocupando os espaços, renovando o seu público, procurando novos desafios. O cara precisa acreditar no que está fazendo. O resto é lucro”.

Serviço:

Local: Área externa do Teatro Lourival Baptista
Data: 20 de setembro (domingo)
Hora: 15 horas

PS: A banda também será uma das atrações da Quinta Sessão Notívagos, que será realizada no dia 03 de outubro (sábado para domingo), a partir das 23:59h, no Cinemark do Shopping Jardins. Na ocasião será exibido o aclamado documentário "GUIDABLE: A VERDADEIRA HISTÓRIA DO RATOS DE PORÃO".



segunda-feira, 24 de maio de 2010

Rock Sertão foi um sucesso

Com bandas de diversos estilos, o Rock Sertão que terminou na madrugada deste domingo, 23, mostrou que o próprio rock apresenta uma grande variação de ritmos. Do peso do punk rock da Karne Krua até o folk bastante melódico da Rosie and me, o Rock Sertão atraiu os mais diferentes públicos para o pequeno município sergipano de Nossa Senhora da Glória.

E a Fundação Aperipê (Fundap) estava lá transmitindo tudo aos ouvintes da Aperipê FM 104,9 e aos espectadores da Aperipê TV. “Há dois anos que nós mantemos essa relação com o Rock Sertão, pois antes já fizemos matéria especial sobre o evento para a TV Brasil, e agora finalmente realizamos uma transmissão ao vivo do festival. É um evento muito importante porque é feito por músicos da cena independente que se reuniram e se esforçaram para fazer algo diferente. Esperamos que nos próximos anos a Aperipê esteja presente com um apoio cada vez maior”, declara Indira Amaral, diretora-presidente da Fundap.

Saiba mais sobre algumas bandas que tocaram na última noite do Rock Sertão:

Lacertae dá um toque experimental ao Rock Sertão - Depois de quatro anos sem se apresentar em Sergipe, a banda Lacertae, do povoado de Campo Crioulo, situado no município de Lagarto, retorna em grande estilo na última noite do Rock Sertão. Ano passado se apresentou no festival uma outra vertente da banda, Zanimais e Unicampestre.

Já com 20 anos de estrada, a banda formada por Deon Costa (guitarras e vocal), Aldemir Tacer (efeitos, zabumba, berimbal e bateria), toca uma mistura inusitada de regional e jazz rock.

Segundo Deon Costa, a sensação de se apresentar no Rock Sertão é bastante diferente. “Já tocamos em festivais em Salvador, ou mesmo no Abrik pro Rock, no Recife, mas é uma sensação de tocar na nossa terra é outra. Somos Lacertae, somos mutantes, somos de Lagarto. E esse vento da brisa do sertão é maravilhoso”, disse.

Rosie and Me’ levou uma mistura de rock e country ao Rock Sertão - Quem esteve no município de Nossa Senhora da Glória pôde se apaixonar pela mistura envolvente de pop, rock e country da banda que pela primeira vez tocou no Nordeste. “Foram meses de preparação, ainda mais porque o pessoal do sul que curte rock já ouve falar do Rock Sertão. É um evento muito comentado por lá, agora é a nossa vez de experimentar essa novidade”, declarou a vocalista Rosie.

A apresentação da banda durou cerca de uma hora e deixou no público o desejo de ouvir mais desse som tão diferente. “Acho que a gente apareceu para quebrar essa tradição de rock mais pesado no evento. Trouxemos uma levada mais country, um som gostoso de ouvir e dançar”, disse a moça da voz mais doce do Rock Sertão 2010.

Karne Krua traz o som do punk rock para última noite do Rock Sertão - Como prometido pelo vocalista da Karne Krua, Silvio Campos, a banda anarquista foi se apresentar na última noite do Rock Sertão para fazer um show de rock bastante forte e de protesto.

Silvio Campos já subiu ao palco do Rock Sertão antes, mas junto com outra banda, a Words Guerrilla. Segundo o vocalista da Karne Krua, nota-se uma grande melhoria na estrutura do festival em relação a outras edições. “Quando cheguei e vi dois palcos, eu me assustei”, comentou.

Ainda de acordo com ele, persistência é a palavra-chave para a longa vida da banda, que já tem 25 anos de estrada. “A persistência e o prazer de fazer música é o que mantém a Karne Krua tocando por tantos anos. E novos músicos trazem novas energias para a banda”, disse.

Naurêa agita público do Rock Sertão 2010 - Com seu jeito descontraído, o frontaman da banda, Márcio de Dona Litinha, não escondia a alegria de um evento como o Rock Sertão. “É maravilhoso ter essa sensação e ver que o festival cresceu. É uma evolução muito grande tanto no número de bandas quanto na variedade de estilos e na excelência da estrutura”, comentou.

Ainda segundo Márcio de Dona Litinha, o festival está próximo de fazer parte do calendário de música nacional, junto a outros festivais, a exemplo do Abril pro Rock.

Foto: Banda Karne Krua Ao Vivo na Sessão Notívagos, no Cinemark Jardins

Fonte: www.aperipe.se.gov.br

terça-feira, 7 de julho de 2009

Segundo Zombeer Fest

por Adel(venom) kenobi

E eis que, depois de longo período de abstinência por uma lamentável ausência de público ( segundo um dos produtores o show de Blaze Bailey teve apenas minguados 250 pagantes !!!! ), o metal está de volta a Aracaju. Andralls está em turnê pelo nordeste e é banda de guerreiros, topam qualquer negocio (já tocaram aqui em duas ocasiões anteriores, no Caju rock e no Backstage do centro, numa salinha onde 50 almas se transformavam numa multidão). Graças a uma junção de atitudes de boa vontade, da banda em se propor a tocar mesmo em condições desfavoráveis, e dos produtores em fazer o evento, mesmo que também em condições desfavoráveis (leia-se risco de prejuízo), aconteceu o Segundo Zombeer Fest, na praia de Aruana. Um local totalmente inusitado, nunca antes palco de um show de rock. Na verdade foi numa casa de veraneio alugada que já costumava abrigar raves e festas particulares.

A presença de um público de razoável pra bom já prenunciava uma boa noitada. Tradicionais 2 horas (+ ou -) de atraso depois, começa o primeiro show, da Nucleador, atraindo a aglomeração da porta (um terreno baldio) para dentro do recinto. Entro também e me surpreendo com a falta do vocalista. Murilo, o guitarrista, improvisa os vocais (soube depois que o titular do posto precisou viajar e por isso estava ausente). Foi meio estranho, mas deu pra segurar a onda, já que o principal estava lá: os riffs matadores acompanhados da pegada vigorosa e empolgante da cozinha (baixo/bateria) garantindo o crossover sem descanso por aproximadamente 40 minutos de show. Evidentemente que não foi o melhor show da Nucleador, mas foi válido, apesar de outro problema sério que já se prenunciava, a qualidade da aparelhagem de som, precária.

A segunda banda a se apresentar foi a INRISÓRIO, depois de aproximadamente 1 ano parados. A expectativa era grande, pois é uma excelente banda death/grind e seria lamentável para a cena local se encerrasse definitivamente suas atividades. Vieram com novidade, um novo baterista, Alexandre, também Scarlet Peace – e foi uma novidade que acrescentou muito ao som da banda, com uma pegada vigorosa, inventiva e técnica. Fizeram um show competente porém burocrático – e infelizmente este não é um problema novo na banda, essa deficiência já podia ser sentida em apresentações anteriores, especialmente depois da saída de Ericão, ele sim, um frontman de primeira. O vocalista que ficou (eram dois), Sekuelado, cumpre bem seu papel, manda bem nos “screamings”, mas tem uma postura de palco um tanto quanto apática, indiferente, o que não chega a comprometer de todo a perfomance, mas causa uma certa estranheza.

Na sequencia a Karne Krua. Que dizer ? Posso dizer que show de rock underground em Aracaju com a presença da karne Krua já é uma tradição de quase 25 anos. É como quebrar caranguejo na orla – se você gosta de rock e passa um tempo fora, você só se sente de novo em casa quando vê um show da Karne Krua. Nessa já não tão nova e enésima formação, com Ivo no baixo, Adriano na bateria e Alexandre na guitarra, além do único remanescente da formação original, Silvio Campos, no vocal, a banda promove um retorno às suas origens, voltando a fazer o Hard Core vigoroso mas ao mesmo tempo melódico de sempre, com aqueles velhos Hinos do punk rock local que nós tanto amamos e estamos acostumados a entoar. Na platéia uma audiência majoritariamente jovem e participativa, pogando e cantando junto ( pois outra característica saudável da banda é a capacidade de renovar seu público ), ao lado de alguns veteranos da cena. O show transcorre com uma excelente energia sob o comando do “velho guerreiro” “Suburbano” e sua vasta cabeleira grisalha esvoaçante (nem tão velho, nem tão vasta, mas dito assim a frase ficou mais bonita ) intercalando discursos breves porém inflamados entre uma musica e outra. Alguns um tanto quanto desnecessários, a meu ver. Há momentos em que eles parecem insistir em marcar posição, coisa que uma banda com o tempo de estrada e o tipo de som que a Karne Krua faz absolutamente não necessita. Sua música é auto-explicativa e sua persistência e fidelidade a seu publico é auto-afirmativa. Senti isso, especialmente, numa fala de Silvio sobre uma suposta banda, cujo nome ele não especificou, que havia feito algumas declarações contra a politização do rock, afirmando que bandas politizadas soam reacionárias (?), declarações estas que ele usou para mais uma vez afirmar a Karne Krua como uma banda politizada e orgulhosa de suas posições. Achei desnecessário. É evidente que há espaço, na Historia do rock, para bandas politizadas, bem como o há para as que optam por outra abordagem, mais intimista, ou mais voltada a assuntos pessoais, ou a temas fantasiosos de lutas medievais contra dragões mitológicos ou o que venha à cabeça do compositor, porque uma das principais caracteristicas do rock, o que proporcionou a esse gênero toda essa longevidade e diversidade de estilos é justamente o sentimento de liberdade que ele provoca. O rock nasceu como uma música libertária e pulsante e esta é a sua força. O fato de haver essa preocupação da parte dele em responder a esse tipo de afirmação sem sentido soa também, a meu ver, sem sentido.

Por último tivemos o Andralls e o seu “fasthrash”, não sem antes uma longa espera até que fossem feitas todas as tentativas para que a aparelhagem soasse razoável. Não conseguiram muita coisa, mas rolou assim mesmo, com um som de guitarra especialmente sofrível. Foi um bom show, mais em cima da força de vontade da banda e dos organizadores e da sede de rock do publico que qualquer coisa. Aquele espetáculo de sempre, bateria espancada, baixo martelado, vocais cuspidos em cima de uma sucessão incessante de riffs, com toda a competência que só a experiência de uma banda com tanto tempo de estrada e tantos discos no currículo pode ter. Encerrou com louvor mais esta noite de metal, na distante praia de Aruana, com a silhueta dos coqueiros se destacando entre as luzes da cidade ao fundo.

Até o próximo, se Ele quiser.

Clique aqui para saber como foi o primeiro.

Abaixo, uma resenha alternativa ( e bêbada, segundo o próprio ) de autoria de um dos produtores do evento e guitarrista das bandas Nucleador e Inrisório, Murillo Viana:

Tudo foi uma desculpa pra beber cerveja, como sempre. Por conta dos organizadores e do público que não cessaram na bebedeira, pelo menos. Mas por fim, o rock foi o verdadeiro protagonista da Zombeer Fest II. Em sua segunda edição, o evento contou com a participação de quatro bandas, respectivamente: Nucleador, INRIsório, Karne Krua e Andralls.

A Nucleador, banda no estilo thrash/crossover de Aracaju, abriu o show com seu ritmo oitentista e sua pegada cavalgada. Um tanto desfalcado, obviamente, já que seu vocalista, Caio Diniz, não pôde comparecer ao evento por conta de uma viagem inesperada. Enfim, o crossover aconteceu. Com seu guitarrista improvisando no vocal, chamou o público que estava fora da Casa do Rock para dentro da casa – local este que, por sinal, serviu muito bem para um lugar para shows de rock, não tanto por sua localidade, de fato um pouco distante do centro da cidade, mas sim por sua estrutura e por seu "astral", astral esse que só quem esteve lá no dia poderia descrever em palavras... a meu ver, um ambiente perfeito para um show underground. Mas continuando focado no show da Nucleador, infelizmente não há muito que se dizer, já que a ausência de seu vocalista notoriamente desfalcou a banda em 25%, porém, posso afirmar que, por mim e por outras pessoas que estavam no show e que admiram a banda, foi um show rápido e com feeling, feeling esse que é o suficiente para se fazer um show crossover divertido.

Logo depois foi a vez da INRIsório, banda esta também de Aracaju no estilo death/grind que também faço parte (Murillo) e que estava sem fazer show por mais de um ano. O repertório do show foi curto, oito músicas, mas levando em conta que suas músicas têm em média quatro minutos, foi um show relativamente completo. Um fato relevante a salientar foi a estréia de seu novo baterista, Alê, na banda, o que acrescentou sem sombra de dúvidas um peso e uma técnica sem precedentes na INRIsório. Apesar, talvez, da apatia da banda ao palco, também talvez devido a uma concentração técnica exigida em seus riffs, não foi um show, como quase sempre nunca é, animado. Mas com certeza isso não tirou o brilho e a diversão estampada no rosto de seus integrantes. Um show bom de se tocar e muito provavelmente bom de observar.

Em seguida foi a vez da Karne Krua. Putz, o que há de se falar de novo sobre esta banda com mais de vinte anos de existência? O pior (melhor) é que há sempre algo de novo a se falar. Sua formação jovem, com apenas Sílvio de vocalista componente original da banda no vocal e três componentes relativamente novos em relação ao vocalista, este realmente presente a etimologia do nome da banda, dão uma pegada mais krua e sofisticada à banda. Digo isso, pois seu guitarrista, Alexandre, compositor musical atual da maioria das músicas novas da Karne Krua, mostra uma pegada precisa e devotada às origens oitentistas do hardcore e do thrash metal, dando a banda uma pegada técnica e violenta, coisa esta que faltava e muito aos ouvintes deste estilo de som. Seu baterista também não deixou a desejar, executando uma pegada reta e coesa. Sobre seu vocalista, Sílvio, realmente não há muito que dizer, só que ele é uma figura impar no cenário rock de Aracaju e sempre será.

Por fim, Andralls. Banda esta residente de São Paulo e com vários anos de estrada. Fez e faz um thrash metal arrebatador! Com seu vocalista recém batizado na banda, Kleber, e que em minha opinião fez seu papel com competência tanto cantando como tocando guitarra, mostrou um show coeso e intolerante à apatia, coisa esta possível devido a sua experiência de vários anos em palco. O público expressou em moshs e circle pits seu carinho e admiração pela banda. Eu, como organizador, também pude ver e perceber a humildade, competência e devoção dos integrantes do Andralls para com o underground. São pessoas bacanas e envolvidas com a correria e isso me orgulha e muito em fazer show para bandas com esse sentimento.

Gostaria de agradecer a Jell e Diogo por terem ficado no bar, a Tonhão por ajudar na segurança, ao Rafael Findans e a Biel por terem organizado o show comigo. A Débora e Adelvan Kenobi da Rádio Aperipê (NOTA: e do programa de rock, é sempre bom lembrar que o programa de rock é uma produção independente, ou seja, seu produtor – EU, Adelvan – não pertence ao quadro de funcionários da Fundação Aperipê), sempre dando essa força nas divulgações. Ao Sílvio da Karne Krua, ao Alê da INRIsório por ter feito o flyer, a Solon e Petoh da Nucleador pela força que deram também. A Victor Balde e a Mari Ana pelas belas fotos. Enfim, a uma série de pessoas que talvez esteja esquecendo de algumas agora mas que foram todas fundamentais para a realização do evento.

A Zombeer Fest não vai parar e o underground em Aracaju não vai morrer. Independente das dificuldades de estrutura e às vezes falta de público nos shows - o que não aconteceu nesse evento, pois a galera compareceu em peso, sempre haverá pessoas loucas e apaixonadas o suficiente em arriscar seu patrimônio na realização deste tipo de evento, eu por exemplo: crossover, death, hardcore e thrash metal, respectivamente foi o que rolou na Zombeer Fest II e isso é apenas o começo de uma série de shows que rolarão em nossa querida cidade de Aracaju. Até a próxima cervejada. Cheers.









sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Marlio, o baixista

Na foto, com a Devotos, tocando Karne Krua
Conheci a Karne Krua no II Festcore de Aracaju, o primeiro show de rock “underground” que fui em minha vida. O ano era 1988 e o clima estava tenso, com alguns punks radicais soteropolitanos, da banda Jesus Bastado, vociferando contra os Headbangers. Eu, ingenuamente, havia ido com uma camiseta do Slayer, do qual era fã. Marinheiro de primeira viagem, tabaréu do interior, confesso que arreguei: vesti a camiseta com a estampa ao contrário, na esperança de evitar uma abordagem mais direta – e agressiva. Mas uma pessoa, em especial, parecia ter ido pra provocar mesmo: estava com uma camiseta – belíssima, por sinal – do Metallica. Os tais radicaloides de plantão ficaram só olhando feio de longe, mas não ousaram partir para o ataque ...

Fiquei surpreso ao ver o tal “provocador” subir no palco para tocar baixo com a Karne Krua – que eu achei sensacional, tão boa quanto o Cólera – era o que vinha à minha mente, pois o Cólera era minha primeira, praticamente única, na época, referência em termos de punk rock nacional. Fiquei com uma imagem muito positiva daquela figura. Um cara de atitude ...

Algum tempo depois conheci Marlio pessoalmente numa das primeiras de muitas visitas que fiz à Lókaos, loja do vocalista da Karne, Silvio “Suburbano” – o “Imperador do Hardcore”(releve, piadinha interna) – num final de tarde, depois do expediente. Já de primeira ele e sua simpaticíssima esposa, Tânia, me convidam para tomar café em sua casa! Fui, ora. Tava morando só aqui, comia de qualquer jeito na rua. E foi aí que começou uma grande amizade que dura até hoje.

Marlio cedeu, por muito tempo, sua residencia para ensaios da Karne Krua e de algumas bandas de amigos, como a Camboja, de Jamson Madureira, e a ETC, montada por Silvio e da qual fui o vocalista. Isso só fez reforçar os laços de amizade, que não se romperam mesmo quando ele se mudou para o Recife, onde montou uma loja especializada em Skate e rock, a Curinga. Começou, também, a tocar na Câmbio Negro HC, o que faz dele a única pessoa do mundo a ter sido membro fixo das duas mais importantes bandas de punk rock e Hard Core do nordeste. Com o devido respeito a todas as demais, evidentemente ...

Hoje ele está ainda mais longe, morando em São Caetano do Sul, ABC paulista. Mas ainda é meu amigo. Faço questão de visitá-lo toda vez que vou a São Paulo – o que, infelizmente, não acontece com a freqüência que eu gostaria. Amizade verdadeira é assim: persiste, apesar dos pesares e das dificuldades, como a distancia. A lamentar, apenas, o fato de que ele tenha aposentado o contrabaixo. Um desperdício. Era um cara talentoso e esforçado, apesar da notória e assumidíssima preguiça – da qual compartilho entusiasticamente, diga-se de passagem.

Amanhã, no programa de rock, tocarei uam faixa de minha demo tape preferida da Karne Krua, “Labor Operário”, em homenagem a essas duas grandes figuras, Silvio e Marlio, que aniversariaram esta semana. Silvio fez 50 anos muito bem vividos. Marlio? Mistério ...

19H, 104,9 FM em Aracaju e região.

por Adelvan

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terça-feira, 1 de janeiro de 2013

garganta seca, inanição

               Eu confesso: tenho dificuldade para parar e colocar para ouvir, com a devida atenção, discos de bandas sergipanas de cuja quantidade de shows a que fui eu já perdi a conta. É o caso da Karne Krua, que eu conheço desde o II Festcore de Aracaju, minha primeira experiência como publico de um festival de rock underground, há muito tempo atrás, numa galáxia muito distante. De lá pra cá, acompanhei todas as fases da banda – que nunca parou! Já enjoei, desenjoei, virei fã, desgostei e voltei a gostar. Sou um entusiasta da atual formação, que considero a melhor desde a clássica, com Almada, Marlio e Marcelo – na verdade desconfio que esta já seja A melhor, superando todas as outras, mas isto é assunto para outro texto – ou não.

               Eu sabia que “Inanição” é primoroso, certamente o melhor disco da banda e um dos melhores do estilo lançado no Brasil nos últimos - e raquíticos - tempos. Mas nunca tinha parado para ouvir como se deve: em CD, num aparelho de som decente, com o encarte nas mãos e acompanhando as letras. Fiz isto hoje, e fiquei “de cara”. Que puta disco do caralho !!!! Puta que o pariu, porra, caralho, é bom pra cacete !!!!

               Já começa impressionando com a excelente letra de “Dois Cumes”, de autoria do conterrâneo Ricardo “guerrilheiro”. Dizer que somente a letra é boa seria injustiça: a música, de Silvio Campos, é igualmente matadora! O cara tem que ter muito talento pra musicar um texto de forma tão primorosa! Destaque para o final, que faz referência ao clássico do cinema politizado nacional “Cabra marcado pra morrer”. Na sequencia, duas regravações de petardos hardcore de duas fases distintas: “lixeiras da cidade”, que nos remete aos primórdios do punk rock em Aracaju, e “cobaias”, uma das muitas que vi a banda lapidar e polir nos anos 90. Esta última é inteligentemente linkada com outra mais recente que trata do mesmo tema, “Animais indefesos”, que tem excelente letra de Silvio e musica em parceria com Alexandre Gandhi. O refrão trás uma imagem  poderosíssima: “são as cobaias trancadas em jaulas torturadas queimadas e envenenadas”. Morrissey assinaria embaixo.

               A quinta faixa, “infinitivos”, também tem letra de Ricardo “Guerrilheiro” e musica de Silvio – só que, desta vez, com um resultado bem inferior à primeira. É, provavelmente, a mais fraca de todo o álbum. Mas a peteca não cai, pois em seguida entramos numa espécie de sequencia conceitual dentro do disco, com várias canções dedicadas a um tema caro a Silvio, o sofrimento do homem do campo nordestino. Por muito tempo reclamei com ele deste direcionamento que ele às vezes tomava. Via a Karne Krua como uma banda eminentemente urbana e, por isto, achava meio forçada essa faceta, digamos, “regionalista”. Com “inanição”, mudei de idéia. Aqui eles encontraram o equilíbrio perfeito entre a influencia da musica folclórica do nordeste, notadamente os “aboios” entoados pelos vaqueiros durante a condução do gado, e a agressividade do punk rock. E percebi, de uma vez por todas, que a Karne Krua canta o canto dos esquecidos, sejam eles os párias sociais que gravitam na periferia das grandes cidades, os sertanejos eternamente castigados pela “política da seca” ou mesmo os animais ditos “irracionais”, vítimas inocentes da “racionalidade” humana.

               A primeira faixa da sequencia “sertaneja” é uma junção de duas músicas, “Terra Morta” e “o vaqueiro e a boiada”. Perfeita. Silvio parece ter sido vaqueiro nalguma vida passada, pois encarna muito bem o personagem sofrido do interior. É seguida por um dos grandes clássicos de uma das formações anteriores, “o guerreiro”, assinada por Wendell, Mazinho, Silvio e Thiago, com seu refrão solene que reverencia aquele que é, segundo a definição de Euclides da Cunha, “antes de tudo, um forte”. E então temos “Lamento dos esquecidos”, uma faixa com um andamento mais lento, quase uma “balada”, que destoa de praticamente todo o repertorio da banda. Evidencia uma das muitas caracteristicas positivas da Karne: sua coragem para ousar sempre, indo além dos cânones estabelecidos pelo estilo na qual foram forjados. E segue ousando com uma espécie de rap/repente de letra quilométrica, “Do sol latente ao cinza das ruas” – letra de Max Alberto. É emendada, encerrando a sequencia semiconceitual, com a excelente “No cinza da cidade eu morrerei” – letra e musica de Alexandre Gandhi.

               Somos brindados então com a regravação de mais dois clássicos de tempos remotos, “Hienas na Carcaça” e “Perdidos”, ambas de autoria de Marcelo Gaspar. É uma pena que a letra da primeira não tenha sido reproduzida no encarte, pois é primorosa – fala dos “homens que constroem catedrais”. Tão boa quanto a de “Mensões do futuro”, de Valdeleno, ex-baterista. A esta altura já fica evidente outra característica positiva: a Karne Krua é e sempre foi uma banda, não um projeto personalista centralizado na figura de Silvio, como alguns erroneamente já interpretaram. Todos os que passam por suas fileiras têm amplo espaço para desenvolver suas habilidades tanto como músicos quanto como compositores, o que fica evidente nos créditos reproduzidos no encarte. Eu, por exemplo, não sabia que Valdeleno compunha, e bem! Foi uma agradável surpresa. Há espaço, inclusive, para a colaboração de pessoas de fora da banda, como o poeta Nagir Macaô, o já mencionado Ricardo e Marcos Aurélio, autor da letra de “Navalha no pescoço”. O que já não é surpresa é o talento de Alexandre Gandhi, que além dos riffs matadores de guitarra compôs algumas das melhores canções da fase recente da banda, a exemplo de “Inanição”, a música. Uma obra-prima. A Master piece – para que fique claro, inclusive para os gringos que por um acaso passarem os olhos por aqui ...

               Fechando o disco com mais um toque conceitual, “O vaqueiro e a boiada”, de volta. “Inanição” é um registro de uma fase de transição da Karne Krua. Foi gravado com Alexandre Gandhi assumindo o baixo e Thiago “Babalu” ainda na bateria. Posteriormente a banda encontraria aquela que parece ser sua formação definitiva, com Ivo Delmondes nas quatro cordas e Adriano empunhando as baquetas. Seguem tocando e compondo e, a julgar pelo que vi e ouvi durante a já célebre sessão de lançamento do disco no programa de rock, vem coisa muito boa ainda aí pela frente.

               Acima de tudo, “Inanição” é a comprovação de algo que eu já sabia: Sergipe tem uma banda clássica de punk rock/hardcore. Uma banda que, caso tivesse nascido e atuado em São Paulo ou algum outro centro urbano com maior visibilidade midiática, seria colocada no mesmo panteão de nomes como Cólera, Olho Seco e Ratos de Porão. Acho isto desde que os vi em ação pela primeira vez. Digo isto o tempo todo, pra quem quiser ouvir. Não sou bairrista - até prefiro Recife a Aracaju e Aracaju à minha cidade natal, Itabaiana. Digo isto porque acho mesmo. De verdade.

               Viva a Karne Krua!

por Adelvan

Fotos acima por Reinaldo & Walber. A foto ao lado é da Snapic, trabalhada por Thiago "Cachorrão"