sábado, 26 de dezembro de 2015

Júpiter Maçã

O rock não é feito somente de ídolos, de grandes músicas e de discos maravilhosos. O rock é feito de heróis, de exageros, de falta de limites. É feito de alma, subconsciente, vísceras, transcendência. O rock é o virtuosismo da própria atitude, é sobre ultrapassar as convenções e demarcar sua trajetória atravessando o que se determina como regra.

Flávio Basso se chamava assim quando introduziu cabeça, corpo, alma e sacanagem dos Cascavelletes no cenário musical brasileiro na segunda metade dos anos 1980. Entre Jéssicas Roses, menstruadas, mortes por tesão e punhetinhas de verão, o escracho, o politicamente incorreto - duvido que a banda faria sucesso no mundo de vigilantes do comportamento alheio de hoje em dia -, um misto entre pornochanchada da Boca do Lixo, cachaça no Bar João, cara de pau e atitude punk tomou conta das rádios mais antenadas, chegando à trilha de novela da Globo e a programa infantil da Angélica. Sem pudores, Flávio tinha a mais pretensiosa banda sem pretensão do Brasil, que falava sobre o que realmente importava para seu público: sacanagem.

Fã de Syd Barrett, dos Beatles, do rock inglês e do rock psicodélico, o homem Flávio virou o mito Júpiter. Em 1996, lançou o maior álbum do rock gaúcho moderno. Sintonizado com Londres, letras absolutamente incríveis e uma inspiração única fizeram de "A Sétima Efervescência" um marco de inspiração na indústria do rock dos anos 1990. Diferente de tudo, lisérgico, arrebatador, o disco fez de Júpiter aquilo que Flávio sempre quis ser. A partir dali, o garoto adolescente que cantava sob um céu de blues passou a cantar na 7ª Efervescência Intergalática. O céu não era o limite, não havia mais limites criativos para o talento de Júpiter, que depois virou Apple, voltou a ser Maçã, cantou em inglês, português, chegou a ser Flávio por um dia, Júpiter para sempre.

O homem Flávio não suportou os excessos do mito Júpiter. Não suportou os excessos do rock, a angústia de querer viver rompendo a zona de conforto da caretice, vivendo como um incompreendido, um outsider, fora de seu tempo, dentro de seu mundo. Júpiter já era refém dos próprios excessos. Cambaleante, corpo frágil, visivelmente alterado em suas aparições públicas, o corpo por trás da alma nos deixou. Não é fácil viver nesse mundo chato. Mitos têm seu próprio mundo. O de Júpiter começava quando batia a sétima efervescência, num barato permanente que só parou quando Flávio caiu.

A alma Júpiter deve estar por aí, com gente legal, que curta Syd Barrett e os Beatles, onde as pessoas sejam mesmo afudê. Um lugar onde as pessoas sejam loucas e super chapadas, como ele, Júpiter. Que ele esteja num lugar do caralho! - por Carlos Guimarães_

Minha timeline no facebook se enche de posts de pesar sobre a morte de Júpiter Maçã, do quão genial ele era etc. Sem entrar na discussão do abuso do termo “gênio”, digamos que o gaúcho Flavio Basso, o Júpiter Maçã era um músico muito talentoso e inspirado sim. - por Alex Antunes

De minha parte, sou fã do álbum Hisscivilization, de 2002, que tem uns achados neopsicodélicos, como a longa e belíssima faixa eletrônica de abertura, “The Homeless and the Jet Boots Boy”. Também gosto de Uma Tarde na Fruteira (2007), este cantado em português, e que traz a canção definitiva da pós-tropicália, “A Marchinha Psicótica De Dr. Soup”, além de outra de suas melhores músicas, a delicada “Mademoiselle Marchand”, cujo clipe foi dirigido por meu amigo Cisco Vasques. (Na foto, Júpiter e Sonia Braga em outro filme de Cisco e Beto Brant, Kreuko – Mundo Invisível).

Posto isso, estranhei o flood jupiteriano nas redes por algumas razões. Primeiro, porque uma boa parte do tempo ele era uma figura mais chapada e folclórica do que propriamente genial.  Essa entrevista no programa de Rogério Skylab é um exemplo do quão sexualmente bobo e constrangedor ele podia ser (evidentemente Skylab, que é um falso maluco com uma perfeita noção de timing desconfortável e nonsense, faz a coisa funcionar – e chega a fazer uma pergunta jornalística, se uma queda de Júpiter do segundo andar de um prédio em 2012 foi acidente ou tentativa de suicídio. Júpiter finge que está dormindo).

Segundo, porque não se sabe bem onde estavam esses fãs exaltados todos antes dele morrer. Tudo bem, há um elemento que é o “fator gainsbourg”, ou “fator bukowski”: há artistas com quem fica bem mais fácil de se lidar depois de mortos. Vivos, não se sabe como usarão seus trunfos (provavelmente sendo inconvenientes ao extremo). Nos círculos feministas, e não só, a personalidade abusiva de Júpiter foi posta em questão. Recentemente ele teve que ser retirado de uma ocupação artística em São Paulo, a Ouvidor 63, para não conviver com mulheres com quem tinha um histórico de agressão. Essa discussão foi feita abertamente no coletivo. Mas não quero me focar no aspecto feminista (ou seja, criminalmente imputável) da questão, mas no “comportamento abusivo do gênio incompreendido” como um todo.

Creio que essa fantasia brianjonesiana/ sydbarretiana, que Júpiter abraçou, e que conduzia forçosamente à incapacitação e à morte precoce, tem uma conivência perversa dos fãs. Por um lado, ele foi realmente importante para uma geração que descobriu a psicodelia com seu primeiro disco solo, A Sétima Efervescência (1997). Acho o frisson em torno desse disco meio exagerado, mas certamente é um salto considerável em relação às bobagens repulsivas da sua banda anterior, os Cascavelettes.

A importância dessa transição para o público de Porto Alegre, no entanto, demonstra apenas como o Rio Grande do Sul é apegado aos mitos datadões do rock. Eu acho que fazia todo o sentido, na época, a vida no fio da navalha de Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, ou de Brian Wilson (que não morreu, só lesou – assim como nosso representante nacional, Arnaldo Baptista). Porque eles estavam realmente captando uma enorme energia social de transformação, no momento em que ia colapsar. Eles simplesmente colapsaram junto.

Também fazia sentido a descoberta pela indústria fonográfica de como “empacotar” e vender melhor a rebeldia, na época em que o Led Zeppelin, por assim dizer, era pago para quebrar quartos de hotel. Mas esse embate não faz sentido hoje – a não ser como reprodução romântica (ou mesmo trágica) de clichês. Júpiter Maçã não estava se embatendo com nada real. Poderia estar juntando e trocando seus trunfos na produção independente em novos discos e shows como fazem, digamos, bandas tão inquietantes quanto o Cidadão Instigado. Eu não disse que é fácil – mas que essa é a real aventura, não o recurso mais óbvio ao autocolapso, à autocondescendência. Claro, ele pode ser considerado vítima de uma doença, a da adicção a substâncias.

Mas a celebração um pouco descabida da sua “genialidade” me leva a crer que um contrato mórbido com seu público foi cumprido. Se a escolha desse destino de “bode sacrificial” já era meio besta para Kurt Cobain (que ao mesmo tempo repudiava e acreditava em seu estrelato), o que dizer dessa mesma encenação em escala ínfima e tropical? Reproduzo um relato de um amigo meu, então distribuidor de discos, que me parece colocar a questão na perspectiva correta, com todas as tags no lugar (automitificação, relação ambivalente com mulher, mico no gerenciamento de carreira).

Aí vai: “Eu o conheci uma única vez… e posso dizer que foi a reunião mais constrangedora que ja fiz. Ele estava muito doido e acompanhado de sua mulher na época tentando me ‘vender’ seu novo álbum. Os dois ficaram a reunião inteira discutindo na minha frente, e o Júpiter quase foi as vias de fato no momento em que a sua mulher discordou de uma de suas afirmações (a de que ele era melhor que o Caetano Veloso)… Ele ficou muito nervoso com ela, levantou da mesa agressivo e foi em sua direção… eu tive que intervir… Depois de meia hora de desculpas e já sem a mulher (que foi embora) continuamos… Gostava muito de sua música, mas confesso que não tinha muito saco para esse tipo de personalidade. RIP.”

Ao contrário dos nossos  hábitos santificadores cristãos, não vejo grandes problemas nas críticas pós-morte. Se esses são momentos de balanço, não vejo porque não meter alguns elementos mais sórdidos/ realistas – não para cotejar moralisticamente a obra com a vida, mas para entender como uma alimenta a outra, no que é o processo criativo. Idealizar alguém é mais desleal do que lembrar os erros, que são a única fonte real de aprendizado na vida.

Expandindo o que disse o meu amigo distribuidor, eu não só não tenho muito saco para esse tipo de personalidade, como acho que esse grau de autocondescendência “maldita” deixou de fazer qualquer sentido neste século. Simplesmente não interessa o quanto a figura em questão seja talentosa – ela tem mais é que segurar a barra, porque não existe mais um mainstream cultural sufocante, apenas o caos (que deveria ser seu elemento). E ninguém tem direito a designar a si mesmo como lixeira vibracional da sociedade.

Quem surfa nessa vaibe é porque está pendurado nos mitos culturais do século passado – ou na sua reprodução (cada vez mais) patética. Abaixo o salvo-conduto para o abuso dos “gênios” supostos e incompreendidos. É o crepúsculo do Zé Louquinho.

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