sexta-feira, 31 de julho de 2015

Alunte.

Quando vcs decidiram formar a banda?

A banda foi apenas uma idéia de Fábio (guitarra e vocais) durante um tempão, depois ele se juntou com Sean (nosso primeiro baterista) e por um tempo ficaram tentando recrutar um baixista, e aí cheguei eu (João), a terceira tentativa de baixista da banda e foi a formação que se encaixou durante um tempo.

Qual o significado do nome?

A gente roubou de uma música dos Novos Baianos chamada "Linguagem do Alunte", nesse som a Baby fala de uma "palavra nova que não tem explicação" e a gente acabou pirando nisso não só por gostar da idéia do nome, mas também com a potência desse som, a coisa acabou vindo como uma bomba: o nome tem que ser esse! E, velho, foi um alívio quando a gente finalmente escolheu, demoramos um tempão tentando achar um nome pra gente.

A sonoridade da banda nasceu de influências anteriores que vcs possuíam ou optaram por seguir um novo rumo?

Acho que é natural pra uma banda querer fazer algo novo, mas a gente nunca escapa do fantasma das coisas que a gente ama, acho que as primeiras canções são mais fiéis esteticamente ao punk e suas vertentes mais recentes (ou diria, um pouco menos antigas) dos 90s. Depois a gente foi querendo fazer músicas mais soltas, com mais efeitos e climas e isso também se relaciona muito com o que a gente vinha consumindo recentemente - acho que Pink Floyd é a referência mais evidente desse segundo momento. Eu sinto que a gente vai fazendo basicamente o que acha massa e essa coisa das influências vai se encaixando bem naturalmente.

Como surgiu o ep "Muro da moral"?

O "Muro da Moral" surgiu quando Sean,um dia decidiu gravar as baterias num estúdio sozinho, sem a intenção mesmo naquele momento de fazer um disco, mas a gente acabou gostando e resolveu aproveitar o que tinha sido feito, então chamamos Gabriel, o Mago, que na época tinha um pequeno estúdio, chamado Yellow, numa galeria e que se juntou com a gente pra gravar o resto das coisas. Esse primeiro ep tem algumas músicas bem antigas (que Fábio anotava em cadernos durantes as aulas há não sei quantos anos atrás);até algumas que foram compostas já comigo na banda, como "Muro da Moral" e "Memo".

O álbum foi lançado em edição física ;foi independente ou teve apoio de algum selo?

Os dois ao mesmo tempo, a gente teve apoio do Brechó Discos e do Big Bross, que nos ajudaram a prensar e distribuir algumas cópias. Fomos independentemente ajudados, vamos dizer assim.

Quem elaborou a arte das capas dos discos?

No "Muro da Moral" a capa foi feita por Raul Matos, um amigo nosso que toca em bandas muito fodas daqui como a Seu Montanha e a Skabong. Já o nosso último, "A morte do seu Super-Herói" foi basicamente uma foto de Janaína Vasconcelos, que tem um trampo muito foda no Sobre Mundos (https://www.facebook.com/demasiar.ser.sobremundos)

No que vcs se basearam em retratar nessas faixas do muro da moral?

Olhe, engraçado, eu não sei muito bem no que a gente se baseou, nem sei se a gente se baseou em algo pra fazer isso. Mas eu considero que é mais um grito anti-conservador como vários outros trabalhado da nossa maneira, esse cansaço em relação ao "dever ser", a "trajetória de vida", emprego, do papai-mamãe. Acho que são temas que nunca cessam e nem devem cessar, embora a nossa perspectiva sobre eles tenham tomado uma forma mais "propositiva" no segundo ep. São temas que podem parecer batidos à primeira vista, mas na real eles continuam aí constituindo os sonhos de muitas pessoas por gerações, né? Então acho que faz sentido falar sobre essas coisas!

Qual a diferença entre o "muro" e o mais recente ep "a morte do seu super herói"?

Acho que o segundo ep soa diferente mas ainda parece a mesma banda, os temas (como vinha dizendo antes) carregam o mesmo incômodo, principalmente em "Fome de mim", "Ela é dela" e "Cidadela", mas a gente também quis experimentar mais desse mundo doido dos sons, colocamos outros instrumentos e faixas longuíssimas com mais climas e momentos. Na verdade, a gente não tinha nenhum compromisso mesmo em fazer algo parecido com o "Muro da Moral" e acabou acontecendo assim!

Há intenção de lançar também em cd?

Eu gostaria, mas não creio que há uma necessidade muito grande no momento de fazermos. Por enquanto há só uma possibilidade de que aconteça. Eu acho que tendo mais algum outro rolê pra fazermos, vamos pensar melhor sobre isso!

Como tem sido os shows da banda,e como foi essa passagem pelo sudeste recentemente?

A gente não tem feito muitas apresentações recentemente, basicamente voltamos a tocar em abril. Tivemos primeiro uma pausa com a saída de Sean em abril do ano passado depois fizemos algumas apresentações com o batera novo e fomos nos dedicando vagarosamente a esse segundo EP. Então acho que as apresentações foram pegando corpo a cada gig, no final da passagem pelo sudeste a gente tava querendo que tivesse mais pra gente continuar na pegada. Eu diria que os últimos shows foram os melhores. Sobre a passagem pelo sudeste, foi a nossa primeira juntos e a gente recebeu uma linda ajuda do Abraxas, que contatou pessoas de outros grupos e bandas pra fecharem shows com a gente. É um momento muito massa pra qualquer banda, essa coisa de tocar com bandas diferentes, conhecer seus espaços, e notar a dedicação das pessoas pra que façamos mais essas coisas, mais música, mais encontros entre as bandas é muito enriquecedor mesmo e sempre nos dá idéias novas do que fazer na nossa cidade e com as nossas bandas e amigos.

Como surgiu "vida punk floydeana"?

Pô, essa música surgiu no show de lançamento do "Muro da Moral", velho! Sabe aquelas jams que às vezes rolam no começo só pra dar uma passadinha rápida no som? Foi desse jeito que ela surgiu, depois o Fábio aproveitou a idéia e fez uma letra. Eu e Sean nem tínhamos percebido como seria massa utilizar esse som, ainda bem que Fábio notou, acho que é uma das músicas mais queridas por nós e o título dela representa bastante esse nosso último momento.

O que vcs esperam pro futuro?

Então, do futuro a gente ainda não sabe muita coisa, o baterista novo (João Mateus) também vai ter uma longa temporada fora daqui e vamos ficar desfalcados mais uma vez Emoticon unsure . Mas ainda temos coisas pra lançar por aí, três amigos nossos que trampam com cinema (Maria Camila Medeiros, Matheus Aragão e Leonardo) nos acompanharam nessa tour pelo sudeste e a documentaram e isso tudo já tá em edição, então ainda devemos lançar isso junto com esses amigos. E também devemos fazer a trilha pra um curta realizado por Maria Kika e o Leonardo logo mais! A gente vai disponibilizar esse registro.


NOTA: Amanhã tem Alunte no programa de rock.

alunte.bandcamp.com

Fonte: Raro Zine

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segunda-feira, 27 de julho de 2015

Política e rock: como surgiu a cena punk de Washington ...

Faça você mesmo, mas não de qualquer jeito. A premissa ética do punk rock criada nas esquinas de Nova York no meio da década de 1970 foi reinventada quando chegou à capital dos Estados Unidos. Em Washington, um pouco depois, o punk renasceu vibrante, fértil e politizado. O relato profundo desta cena está no livro “Dance of Days – Duas Décadas de Punk na Capital dos EUA”, obra do ativista Mark Andersen e do escritor Mark Jenkins que agora ganha versão brasileira pela Edições Ideal.

O livro conta como o som violento de bandas como Bad Brains, Minor Threat, Rites of Spring, Fugazi, Scream e Bikini Kill serviu de trilha para posturas políticas e de comportamento que reverberaram no mundo todo desde então.

Esqueça o sujeito de cabelo espetado dizendo que nada presta com uma seringa espetada no antebraço. Os punks do DC, em geral, raspam o cabelo, tem aversão a álcool ou entorpecentes, assumem debates políticos como a ecologia, feminismo, pró-escolha (no debate sobre aborto), violência, consumismo, religião, mercantilismo e arte.

Ao ruído das canções curtas e aceleradas, da violência da slam dancing ( a rude dança ritual punk), das letras baseadas em revolta e frustrações individuais surgiram ativismos como o Positive Force, o straight edge, o movimento Riot Grrrl e vertentes estéticas como o hardcore e o emo.

Neste contexto, o espaço também foi importante combustível de revolta. Segundo Jenkins, Washington é uma cidade odiada em três níveis diferentes. Boa parte do mundo a enxerga como sede do “império do mal”. Dentro do país, o racismo latente olha de esguelha uma das grandes cidades que tem maioria da população negra. Dentro de suas fronteiras, o distrito federal é visto como uma opressora e corrupta repartição pública por quem não está pendurado em seus cabides – ou seja, os caras que construíram a história do punk por lá (ao contrário, por exemplo da cena punk surgida em Brasília nos anos 1980, na qual a maioria dos integrantes era ligada ao poder oficial). (NOTA DO BLOG: Meio nada a ver essa afirmação. O fato dos caras serem filhos de funcionários públicos, muitos deles em altos cargos, como diplomatas, não faz eles, a meu ver, serem “ligados ao poder oficial”. Até parece que o governo patrocinou o punk rock de Brasilia. Teve, no máximo, um “pai”trocínio. No caso, via salário dos pais, não com verbas oficiais).

Ex-baterista da banda de hardcore Pinheads e pesquisador da cultura punk, Eduardo Munhoz afirma que a principal diferença entre a cena de Washington para a dos precursores de Nova York foi que os primeiros expandiram a ética D.I.Y – do it yourself ( faça você mesmo) “incorporando ideais (pessoais ou políticos) complexos, além de construir algo positivo tendo a música como papel principal, pano de fundo ou força motriz”.

Se é possível identificar uma figura central neste processo é Ian MacKaye. Cara certo no lugar certo, antecipador de tendências, o músico criou as bandas fundamentais Minor Threat, Embrace e Fugazi e a mitológica gravadora Dischord, que levou a ideia de produção independente às ultimas consequências e em cujo redor toda cena se formou. MacKaye também se impôs pelas ideias e pelo exemplo no ativismo político.

Tradutor e editor da versão brasileira de Dance of Days , Marcelo Viegas destaca, porém, que as bandeiras das bandas de Washington não são maiores que a música poderosa criada por elas. “No fim das contas, foi a qualidade musical que conquistou o espaço na história do rock. Ativismo e música sempre caminharam lado a lado. Mas não sei se as bandeiras políticas se tornaram maiores do que a música. Conheço muita gente que não dá a mínima para o aspecto do ativismo, mas mesmo assim é grande fã de bandas como Fugazi, Dag Nasty, ou The Evens”, diz.



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quinta-feira, 23 de julho de 2015

A Terceira vinda

Agora é pra valer. Depois de algumas apresentações esporádicas aqui e acolá, o Second Come está de volta. O grupo está reunido e ensaiando regularmente desde desde abril e com a melhor formação possível, considerando o falecimento do vocalista/guitarrista Fábio Leopoldino, em 2009 (saiba mais). Estão em ação Fernando Kamache (guitarra e voz), F. Kraus (voz e baixo), Kadu (bateria), e Mauricio “Mauk” Garcia (guitarra e voz).

Outra boa novidade é que os dois álbuns do grupo estão sendo relançados, o emblemático “You”, de 1991, e “Super Kids, Super Drugs, Super God And Strangers”, de 1994. Ícone dos anos 90 em meio a avalanche grunge que vinha dos cafundós americanos, o Second Come era praticamente uma unanimidade na crônica especializada, integrante do quarteto fantástico que tinha ainda o também carioca Beach Lizards, e os paulistanos Pin Ups e Killing Chainsaw.

Mas o melhor é que essa turma não está só a fim de reviver os bons tempos do underground noventista, mas, também, lançar material inédito. Ao menos uma música nova já deve se apresentada no show que o grupo faz no próximo sábado, no Rio, como uma das atrações do Laud! Fest (saiba mais). Foi o que nos contou o vocalista e baixista F. Kraus, num papinho básico por e-mail. Veja: 

Rock em Geral: Como rolou a ideia de voltar com a banda em definitivo?
F. Kraus: Desde de 2000, quando fizemos uma participação em um evento do Midsummer Madness (selo independente), pensamos em voltar com o Second Come. Em 2011, fizemos um show para comemorar o “You”, com participações de amigos importantes para a banda, como o André Paixão (Nervoso, músico, ex-integrante de Beach Lizards, Autoramas e Matanza, entre outros), Simone do Vale e o Dado Villa-Lobos (ex-integrante da Legião Urbana e dono do selo Rock It, que lançou os discos do Second Come). Desde então, pensamos em continuar firmes com a banda, o que acabou acontecendo agora, com a volta ao Brasil do Fernando Kamache e do Kadu, que estava morando em São Paulo havia anos. Começamos a tocar juntos como banda em abril. 

REG: Foi fácil voltar depois da morte do Fábio? De certa forma a passagem dele serviu como motivação para a banda voltar?
F. Kraus: Nunca é fácil voltar com uma banda. Principalmente sem um integrante importante como o Fábio, pois boa parte das melodias de voz foi feita por ele. É duro… Mas acho que de certa forma a passagem dele fez com que olhássemos para o Second Come com outros olhos, mais contemplativos, valorizando tudo o que fizemos e querendo voltar a nos divertir com isso, como no início da banda. 

REG: Os dois álbuns, “You” e “Super Kids, Super Drugs, Super God And Strangers” serão relançados. Há material extra acrescido no repertório original de cada um?
F. Kraus: Os discos serão reeditados em formato econômico, sem bônus. O “You”, na transposição (do vinil) para o CD, já tinha duas músicas novas que gravamos depois, “Shoes” e “Mouse” (esta foi “rebatizada” de “You” na gravação). Estamos estudando uma edição em vinil de ambos e o lançamento de uma compilação de demos da fase anterior ao “You”. 

REG: Os dois discos foram lançados rela Rock It, foi fácil conseguir a liberação por parte dessa gravadora?
F. Kraus: Muito fácil. O Dado Villa-Lobos sempre quis ajudar a banda e não seria diferente agora. A Rock It vai lançar os discos no site dela e iTunes, Spotify, Bandcamp, etc. Tudo lançado de forma independente, com apoio da Rock It e do Midsummer Madness. Além de poder comprar nos shows, as pessoas podem pedir pela página da banda no Facebook (www.facebook.com/secondcome) ou pelo site do Midsummer Madness (http://mmrecords.com.br). 

REG: Vocês estão compondo músicas novas. Já tem títulos definidos, é possível ouvir na web?
F. Kraus: Estamos ensaiando faz pouco tempo. Temos algumas músicas sendo trabalhadas e uma praticamente pronta que vamos apresentar no show do Laud! Fest, dia 25 de julho, na Audio Rebel. Estamos revisitando músicas que abandonamos antes do “You” também. Devemos gravar em breve e disponibilizar nos canais da web. 

REG: Já há material para o lançamento de um disco de inéditas?
F. Kraus: Um EP talvez… Mas queremos fazer as coisas com tranquilidade, critério, sem pressa. Nós cobramos muito sobre qualidade e sei que seremos muito cobrados disso, então, vamos fazer as coisas como sempre fizemos: sem a correria efervescente do mundo “conectado” e urgente. 

REG: O repertório desse show da Laud! Fest é baseado nos dois discos antigos?
F. Kraus: A base do show serão os dois discos, com música nova e revisões de músicas que largamos pelo caminho. Se der tempo de ajustarmos o que queremos nos próximos ensaios, faremos uma versão de uma música que curtimos muito, mas que talvez não seja uma das influências do Second Come. Mas a Madonna também não foi, né?

por Marcos Bragatto

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quarta-feira, 24 de junho de 2015

Marcelo Nova, uma entrevista (sobre a volta - mais uma - do Camisa de Vênus)

Hoje é difícil imaginar, mas uma música que - à maneira do antigo apresentador televisivo Gil Gomes - falava de um estupro seguido de assassinato já foi hit nas FMs e aposta de gravadora. Era o Camisa de Vênus com Bete Morreu.

Se uma banda hoje em dia lança um som desses, vai tomar pedrada. E muita. Era coisa dos psicodélicos anos 80, em que a liberdade de expressão era muito levada em conta, mesmo que se confundisse às vezes com liberdade de chocar ou de ofender. E em que talvez as pessoas não se assustassem tanto com as coisas, mesmo porque retratar uma realidade (coisa que o jornal faz todo dia) é bem diferente de gostar dela ou querer fazer parte dela. O Camisa também falou sobre playboys imbecis que batiam nas namoradas (Ana Beatriz Jackson), transformou uma piada machista digna de Costinha em música (Sílvia, cuja letra foi inspirada pela peça Dois perdidos numa noite suja, de Plínio Marcos, e cuja melodia chupava Sorrow, rockinho gravado pelos McCoys e por David Bowie). E fez uma espécie de Ouro de tolo (a do Raul Seixas) punk dos anos 80, O adventista, pregando que nem Freud aguentaria mais uma sessão de psicanálise, entre outros temas.

O grupo volta para uma turnê de 35 anos em condições discutíveis. No palco, da formação original, tem só Marcelo Nova (vocal) e Robério Santana (baixo). Karl Hummel (guitarra) e Gustavo Mullem (guitarra solo) andavam envolvidos com uma turnê do grupo sem Nova e foram impedidos pelo vocalista de continuar. O que a volta da banda tem a oferecer (junto com a execução de canções cáusticas e eternamente criticadas pela turma politicamente correta) talvez seja mais a colocação de pulgas em orelhas estratégicas do que o retorno a tempos musicais que não têm mais como voltar.


Como surgiu a possibilidade dessa turnê? Bom, tudo começou com o Airton Valadão (empresário, responsável também pelo retorno do Ira!). Ele me ligou e me disse: "São 35 anos do Camisa de Vênus! Vamos fazer uma turnê?" Cara, eu estava tão desligado dessa data que falei "porra, você tem razão, são 35 anos! Cacete, como eu tô velho!". E aí nós tivemos algumas reuniões. O Robério foi a primeira pessoa que convidei para montar o Camisa de Vênus lá em 1980 e ele achou interessante o convite do Valadão. Tem uma boa parte dessas canções que não canto há muito tempo, até mesmo nos meus shows solo. Eu penso que com 63 anos me dou ao direito de revisitar minha obra, Tenho 18 álbuns gravados de 1983 para cá. Eu e Robério nos divertimos muito ensaiando as músicas, relembrando coisas. Acho que o ideal é que esse show seja uma festa e que a gente se divirta..

Na época você e Robério trabalhavam juntos numa rádio, certo? Não, eu é que trabalhava na rádio Aratu, e ele na TV Aratu. Mas nos conhecemos e descobrimos que rock era algo que tínhamos em comum...O que não é comum é minha formação. Eu fui um menino deslocado, cresci sozinho, sem irmãos para dividir as brincadeiras (em entrevistas, Marcelo disse que tinha só uma irmã 12 anos mais velha, que na época era fã de bossa nova). Eu gostava de ler  e os outros meninos gostavam de jogar bola. Eles gostavam de ir à praia e eu gostava de ficar em casa ouvindo Animals, Rolling Stones, Beatles, e aquelas bandas inglesas dos anos 60. Por outro lado essa relativa introspecção me conduziu para a literatura. Só que isso só veio tomar uma forma consciente quando comecei a escrever meus primeiros textos. Quando comecei a colocar o que tinha para dizer em letras de música. É importante falar que até o Camisa eu não tinha nenhuma experiência musical. 

Nada? Lembro que uma vez vi um documentário antigo sobre o Camisa, disponível no YouTube, em que você dizia mesmo que o critério para escolher gente para tocar no grupo era que não fossem "músicos" na acepção da palavra... Eu não sabia nenhum acorde de guitarra, não sabia tocar guitarra. Isso às vezes era interessante, porque começamos a pegar referências de outras coisas e fui aprendendo a compor. Eu nunca nem tinha subido num palco na vida! A primeira vez foi com o Camisa, numa casa de shows na qual cabiam 800 pessoas e tinha gente do lado de fora que não conseguiu entrar. Essa foi nossa estreia na cena musical. E o nome chamou muita atenção de cara. Me parecia realmente inadequada essa coisa de me cercar de músicos que tivessem uma trajetória formal, ou de me cercar do que havia de melhor tecnologicamente e virtuosisticamente, ainda mais para uma banda chamada Camisa de Vênus. O idealizador da banda não sabia um acorde! E a ideia da música baiana era na época - e é até hoje - exaltar os valores místicos da Bahia, como se tudo tivesse o toque de Midas, de transformar tudo em ouro. Sempre me ressenti de nunca ouvir alguém que viesse antes de mim e dissesse "não, isso não é verdade".

Daí veio Controle total, que só está no primeiro compacto da banda. Isso! E acho que até hoje é o único texto de um artista baiano depreciando a cidade de Salvador do ponto de vista cultural, estético e musical. Isso nos deu uma independência em relação ao modismo, em relação ao que estava sendo feito na época. As coisas começaram a acontecer muito rapidamente em Salvador, porque a banda destoava de tudo que estava sendo feito lá. Ficou uma cisão entre quem adorava e odiava a banda. Para mim foi muito gratificante saber que uma canção de três minutos que eu escrevia era capaz de levar artistas e críticos a discutirem veementemente através das páginas de um jornal. Na época não tinha nem internet, né?

Não tinha nem uma cena punk na Bahia na época, ou de bandas parecidas? Não, nada. O Camisa tinha algumas peculiaridades... Além dessa limitação de não sermos músicos, que no fim das contas virou uma característica, de não ter muito fru-fru. As músicas, a coisa da performance, o grito do "bota pra fuder" que me acompanha até hoje. As pessoas gritam isso pra mim quando eu estou atravessando a rua. E na época tinha as bandas de São Paulo, de Brasília, o rock meio pop do Rio e os "baianos do Camisa de Vênus", que de baianos não tinham nada no sentido literal. Nós éramos sempre os azarões, não tínhamos um grande aparato de produção, de investimento. Ainda por cima, quando lançamos Viva! (1986), ele virou disco de ouro com praticamente todas as músicas censuradas.

Não teve uma história de que você ficou vendo o disco ser apreendido nas lojas e se ofereceu para ser preso? Eu estava numa loja chamada Hi Fi e os censores chegaram na loja e apreenderam os discos do Camisa. Cara, eu só fiquei olhando, né? Eu sendo preso sem ir para a jaula. Mas teve uma hora que cheguei pro cara e falei, em tom irônico: "Não seria mais lógico você me prender? Quem tá no disco sou eu, as coisas que estão dando problemas foram ditas por mim!"

Vi um show do Camisa de Vênus no Circo Voador por volta de 2008 em que você cantou O Adventista e mudou um verso para "eu acredito/no Big Brother Brasil". Atualizou outras letras? Não, não tenho nem esse objetivo. Gosto muito de improvisar e às vezes essas coisas surgem. Em algumas músicas funciona bem e em outras não. E ter que ficar atualizando, revendo... Eu tenho 18 discos gravados. Em 2011 lancei um DVD e um álbum duplo gravado ao vivo. Em 2012 lancei um Blu-Ray. Em 2013 lancei o 12 fêmeas, um disco de músicas inéditas. Nos últimos anos tenho trabalhado incessantemente. Essa possibilidade de voltar a um passado muito distante, se for uma nostalgia, melhor que a gente faça disso uma diversão. Eu já sou avô, cara, tenho uma netinha. Quero é me divertir. Pra você ver: fiz uma turnê ano passado de 25 anos do disco A panela do diabo (gravado em 1989 com Raul Seixas). Não fiz nada quando o disco tinha dez anos, nada com 15, com 20... De repente, 25! Pensei: "Ou eu faço agora, ou só no crematório!". Prefiro agora!

Tem muita coisa que o Camisa fez, como Bete morreu, que soam politicamente incorreta. Não falta um botão de ironia para as pessoas entenderem certas coisas? Bom, a internet trouxe alguns elementos à tona, alguns elementos interessantes... Mas por outro lado virou um tribunal do semianalfabetismo. Com toda essa história de interação de classes tão distintas, de repente você tá é cercado por uma avalanche de frases e de afirmações de gente que possui a verdade na mão e quer enfiá-la pela sua garganta adentro a qualquer custo, com uma virulência impressionante. Esse tipo de atitude, onde porque você tem computador você tem voz, e sua opinião é de importância vital para a sobrevivência do país, sabe? Paralelo a isso, estamos pouco a pouco perdendo o sentido da ironia, o sabor do sarcasmo. Isso desapareceu do convívio social. Ficou uma tacanhice.


E as origens do Camisa. Você é fã do Mott The Hoople. O glam rock foi inspiração da banda? Não, não, minhas influências vieram mais da tradição do rock (nem tanto, já que o Camisa chupou um título de disco do Roxy Music, Viva!, e copiou descaradamente Sorrow, dos MacCoys, gravada por David Bowie, para Silvia). Adoro o Mott, Ian Hunter é um grande compositor, subestimado. Depois me interessou a coisa dos Sex Pistols, do Clash, tinha um imediatismo ali que me interessava. Vi que podia aprender a tocar guitarra, a dar o recado. Nunca fui punk de carteirinha, nos discos do Camisa tinha piano, sax, baladas... Mas parti dali. Ao mesmo tempo que nosso som tinha Johnny Rotten, tinha Walter Franco e Jards Macalé, ou Adelino Moreira, um compositor do qual gosto bastante pelo teor de dramaticidade que ele empregava nas composições.

Aliás, em algum momento o Adelino comentou a versão que vocês fizeram de Negue? Olha, nunca nem soube.


Como está sendo tocar com seu filho no Camisa? Olha, é ótimo. Quando a herança é apenas genética não tem significado. Mas o Drake já demonstrava interesse aos 15, 16 anos, por timbres de guitarra, diferentes formas de abordar um instrumento musical. Essa preocupação que ele demonstrava já me surpreendeu de cara, porque um garoto nessa idade quer é tocar como o Joe Satriani. E aí ele foi evoluindo e aos 17 anos já tocava comigo profissionalmente. Ele até fala: "Porra, pai, tô fodido. Daqui a 20 anos só vou ouvir artista que já morreu!". Ele se interessa por guitarristas como Rory Gallagher, Leslie West e Robin Trower! São nomes que nem fazem parte do panteão, não estamos falando de Jimmy Page e Toni Iommi, que já são mais comuns, entende? E isso vem deixando o papaizinho aqui bem orgulhoso...

Dizem por aí que está vindo uma biografia sua, escrita pelo André Barcinski. É verdade? Eu e Barcinski conversamos sobre isso há bastante tempo. Somos amigos, conversamos até não só sobre essa biografia ou sobre a possibilidade de fazer uma biografia, temos vários outros assuntos... Sempre falamos e sempre adiamos! Nunca foi um trabalho, vamos dizer, prioritário, "vamos agora trabalhar na biografia"...

por Ricardo Schott

aqui, 

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quinta-feira, 18 de junho de 2015

30 Anos de Sepultura

Era pra ser um bate e volta de perguntas e respostas trocadas por e-mail, só para saber sobre os shows que o Sepultura faz nesse final de semana no Rio de Janeiro e em São Paulo (saiba mais). Mas, dado o cansaço da viagem de volta da turnê dos Estados Unidos – a banda chegou na terça de manhã e nos atendeu à tarde -, a entrevista se converteu em um papo animado por telefone. E aí, o guitarrista Andreas Kisser não se esquivou e falou muito mais do que se imaginava. Tanto que, antes de ser perguntado, entrou no tema recorrente, a sempre comentada reunião da formação clássica do grupo, hipótese cada vez mais descartada, e ainda das agruras da troca de vocalista, há quase 18 anos.

Depois de completar 30 anos, o Sepultura converteu a turnê do último álbum – respire fundo - “The Mediator Between the Head and Hands Must be the Heart”, lançado em 2013, em um giro comemorativo da data. O que significa que, nos shows do próximo final de semana, músicas em geral não incluídas no repertório vão ser tocadas, para a alegria dos fãs das antigas. Andreas garante que ao menos “Bestial Devastation”, faixa-título do split album que o grupo lançou com o Overdose, em 1985, antes de ele próprio entrar na banda, e “From The Past Comes The Storm”, que abre o segundo disco, “Schizophrenia”, de 1987, estão dentro. Completam a formação atual Derrick Green (vocal), Paulo Jr. (baixo) e Eloy Casagrande (bateria).

Na conversa, o guitarrista ainda elenca os cinco momentos mais marcantes desses 30 anos da banda brasileira mais bem sucedida no exterior. Como não pode ficar parado, o papo vai até os dois singles lançados este ano, “Darkside” e “Under My Skin”, e ainda aponta os planos para o futuro, uma vez que, em 2016, um novo álbum deve ser gravado. Pense numa banda, numa história, numa superação e relembre como o Sepultura avança três décadas com muitos casos para contar. Ou, por outra, não pense nada disso. Leia a entrevista abaixo (ou AQUI, na postagem original) e dirija-se automaticamente, como um zumbi, para os shows desse final de semana. 

Rock em Geral: Vocês acabam de chegar do trecho americano da turnê de aniversário de 30 anos. Como têm sido esses shows?
Andreas Kisser: Foi muito bom, fizemos Canadá e Estados Unidos, já fazia três anos que não íamos para lá. Na verdade era para termos feito essa tour há um ano, mas tivemos alguns problemas e acabamos não conseguindo ter os vistos em tempo hábil. E agora finalmente tocamos lá, fazendo turnê ainda pelo último disco e também comemorando os 30 anos da banda. 

REG: Acabou juntando as duas turnês…
Andreas: Esse ano fizemos isso em alguns lugares, como na Rússia. Fizemos 17 shows por lá em março, que foi a mesma coisa, e agora na América do Norte, foi fantástico. É legal tocar nos Estados Unidos porque tem muito músico, muitos amigos e nós revemos muita galera, teve muita gente comparecendo, foi bem positivo, fiquei super satisfeito. 

REG: Você acha que o interesse dos fãs de heavy metal pelo Sepultura no exterior voltou a aumentar nos últimos tempos, após a assinatura do contrato com a Nuclear Blast? Ou nunca houve desinteresse?
Andreas: Não é questão de desinteresse, teve muita ladainha da imprensa, principalmente vindo do Max (Cavalera, vocalista e guitarrista que deixou o grupo em 1996) e da Glória (Cavalera, empresária e esposa Max), muita coisa feita também nos bastidores, uma pressão para fazer reunião. Teve uma época em que até os promotores ficaram em dúvida. Que Sepultura eles estão tentando vender? É o da reunião ou o Sepultura que tá rolando? Tivemos que fazer até um vídeo esclarecendo as coisas, dizendo que não tem nada acontecendo, que era tudo boataria, porque tava atrapalhando o nosso business realmente. Então acho que agora isso deu uma dissipada, tem o Cavalera Conspiracy (uma das bandas de Max, com o baterista Iggor Cavalera, também ex-Sepultura), os caras tão fazendo os projetos deles e tudo o mais, e nós focados no que fazemos. Acho que o último disco foi muito bem aceito, a entrada do Eloy deu um up grade de energia e de possibilidades musicais. O Eloy realmente é um monstro na batera, traz muita possibilidade e o disco foi muito bem aceito, tanto que estamos há quase dois aos fazendo turnê com ele. Acho que a galera tá deixando essa novela de lado e curtindo mais a música mesmo. 

REG: Para os shows desse final de semana, no Rio e em São Paulo, vocês pretendem manter o repertório da turnê americana ou vão tocar músicas mais antigas?
Andreas: Vai ser mais ou menos isso mesmo, vamos dar uma mesclada um pouco maior, tocar um pouco menos do disco novo, sem deixar de fora, mas com mais espaço para coisas que nós dificilmente colocamos, porque é muita música, muito disco para formatar um show. Lógico que temos aquela espinha dorsal com as músicas principais. Já estamos fazendo um show bem diverso, estamos tocando, por exemplo, a “Bestial Devastation”, que dessa formação só o Paulo tinha tocado, no século passado, literalmente (risos), e agora estamos fazendo uma versão muito legal. Tem a “From The Past Comes The Storm”, que abre o “Schizophrenia”, a primeira música que eu escrevi com os caras, e algumas coisas já da época do Derrick que ficaram meio paradas, como a “Mindwar”, a própria “Choke”, “Apes Of God”, “Sepulnation”… É um show bem completo, bem representativo do que o Sepultura fez desde o começo da carreira. 

REG: Alguma chance de entrar “Orgasmatron” (cover do Motörhead) de novo?
Andreas: Ah, certamente, é um dos covers mais especiais da nossa história…
REG: Mas vocês não estavam tocando…

Andreas: De vez em quando tocamos. Depende da galera, eu puxo o riff, vai todo mundo atrás e tocamos. Mas tem também “Polícia” (Titãs), “Bullet the Blue Sky” (U2) que são covers emblemáticos da nossa carreira, e queremos fazer a referência, sim. 

REG: Acabou que o Sacred Reich não vem mais, você sabe por quê?
Andreas: Teve problemas burocráticos, de papelada, deu uma confusão, e quando você perde uns dias, uma semana que seja, o negócio já ferra, é uma coisa muito encaixada. E aí nós estamos querendo trazer os caras mais pra frente, talvez em outubro, com mais alguns shows pelas capitais, mas vamos ver. Seria fantástico trazê-los numa celebração dessas, foi uma banda muito importante no começo da carreira do Sepultura. 

REG: Aqui no Rio o show é no Circo Voador, o que traz à memória outros shows do Sepultura junto com Ratos de Porão e Dorsal Atlântica. Quando você entra no Circo vem à cabeça esse tipo de coisa?
Andreas: Ah, claro, o Circo Voador é fantástico, foi o meu primeiro show com o Sepultura no Rio! Você mencionou o Dorsal, e nesse show tocamos um cover do Black Sabbath, “Symptom Of The Universe”, e o Carlos (Vândalo, vocalista e guitarrista) deu um mosh pit e caiu com o pescoço no chão, foi fantástico! Imagina para mim, entrando numa banda, tocando no Rio pela primeira vez e o Carlos Vândalo dando um mosh pit no seu show? Foi classe A. Fora o Ratos de Porão, junto com o Jello Biafra (ex-líder do Dead Kennedys), em 1992, aquilo foi histórico, maravilhoso! Foi uma das melhores noites da minha vida, foi fantástico! O clima do Rio de Janeiro tava maravilhoso, muito bom. Tem vários outros shows, com o com o Krisiun, na última vez em que estivemos lá…

REG: O Sepultura lançou recentemente dois singles, “Darkside” e “Sepultura Under My Skin” (saiba mais). Eles são parte do material que sobrou do “The Mediator…” ou é coisa nova?
Andreas: É coisa completamente nova, pintou pelas oportunidades. “Darkside” foi uma encomenda dessa editora que lança várias biografias e coisas relacionadas ao rock, e eles queriam um jingle. Escrevemos no estúdio com aquela ideia de uma coisa curta, ficou com um minuto e vinte e ficou legal pra caramba, os caras curtiram. E “Under My Skin” foi uma ideia de fazer essa celebração de 30 anos e de dar uma homenagem aos fãs do Sepultura que fazem uma tatuagem na pele. Nesses últimos 10 anos eu tenho visto muita gente tatuando o Sepultura, a tatuagem explodiu no mundo também. 

REG: Aquele “S” do sepultura fiou muito marcado…
Andreas: Pois é, e tem gente que tatua os nossos rostos na pele, é uma coisa absurda. Isso é uma demonstração de respeito, de carinho e amor pela banda. E quisemos retribuir escrevendo uma música especial para eles, usando as tatuagens deles para fazer a arte do disco. É uma música isolada, representativa mesmo desse momento de 30 anos, lançada só em vinil 7” e em formato digital. Temos tocado ela ao vivo e tem sido muito bem aceita, com a galera já cantando e tudo, e vamos tocar no Brasil. 

REG: Então não tem a nada a ver com um próximo disco?
Andreas: Não, é uma coisa bem isolada. Vamos começar a formatar o disco, eu tenho várias ideias, o Eloy também tem várias, já tem quatro anos que ele tá na banda, já não é tão novo, tá com 24 anos (risos). Vamos começar a formatar esse disco no final do segundo semestre, para começar a trabalhar no ano que vem. 

REG: Você poderia elaborar um “top 5″ de cabeça com grandes momentos da carreira do Sepultura nesses 30 anos?
Andreas: Felizmente, olhando para trás, são vários, é maravilhoso ter uma carreira de 30 anos, olhar pra trás e ver tanta coisa foda que aconteceu e continua acontecendo. Eu acho que o primeiro foi o Rock In Rio de 1991, que foi fundamental para o Brasil começar a aceitar o Sepultura como uma banda que já estava começando a fazer uma carreira internacional. No Brasil tava meio parado e aquele Rock In Rio, lá no Maracanã, foi um marco fantástico para nós, principalmente para abrir as portas da mídia grande aqui no Brasil, foi maravilhoso. O show da Praça Charles Miller também, no Pacaembu, foi um marco (maio de 1991). Gravamos o clipe para “Orgasmatron”, que ganhou o prêmio de melhor clipe da audiência na MTV, e daí fomos para Los Angeles por causa desse clipe. Hoje tem gente que acha que a música é do Sepultura, de tão identificável com a gente. O terceiro é a turnê do “Arise” (disco de 1991), foi a primeira vez que nós fizemos dois anos de turnê quase que ininterruptos, sem parar. Fomos para o mundo inteiro, a primeira vez no Japão, a primeira vez na Austrália, tocamos com o Ozzy Osbourne e Alice In Chains. Tocamos com o Ministry, fizemos os grandes festivais pela primeira vez. Foi um momento de explosão do Sepultura pelo mundo, e dessa turnê tiramos um estilo mais Sepultura de ser, de tirar os elementos da música brasileira, de ficar afastado do Brasil e ver o Brasil de fora, de respeitar mais as músicas, ritmos e melodias que o Brasil tem. A consequência foi o “Chaos A.D.” (disco de 1993), que foi um disco do qual até hoje tocamos mais música do que de qualquer outro disco… 

REG: Mais do que do “Roots” (disco de 1996)?
Andreas: Sim, tem “Refuse/Resist”, “Territory”, “Biotech…”, “Kaiowas”… tem muita música emblemática. O “Chaos A.D.” é a conseqüência de toda essa tour do “Arise”, isso pode ser considerado como um momento marcante, quando o Sepultura deixou de ser comparado ao Slayer - não que nós não gostássemos -, mas aí começamos a ter uma linguagem nossa, uma coisa mais brasileira. Foi o que colocou o Sepultura como uma coisa realmente original. O quarto momento é a saída do Max e a entrada do Derrick, que foi um momento difícil, brutal. O Max saiu no auge do Sepultura, nós já estávamos tocando uma turnê de arenas pela Europa, pelo Japão, no Big Day Out, na Austrália… Noventa e sete ia ser um ano fantástico para o Sepultura, e realmente colocaria o Sepultura em um nível ainda maior. A saída do Max foi muito traumática, foi feita de uma maneira completamente errada, todo mundo envolvido estava muito despreparado para aquilo que estava acontecendo. E a entrada do Derrick foi fundamental, ele tá fazendo 18 anos de banda. 

REG: Durou, né?
Andreas: Porra, o cara trouxe novas possibilidades para a banda, nós não queríamos um clone do Max, nem de vocal nem de visual, e o Derrick veio completamente diferente, com um background diferente. Foi um começo difícil, como todo começo, mas hoje estamos aqui celebrando 30 anos e essa mudança foi crucial para que nós pudéssemos continuar, porque o Max já estava com outra cabeça, querendo outras coisas. Nós realmente começamos a reestruturar toda a carreira da banda a partir daquele momento. E o quinto momento é hoje, os 30 anos, o “Mediator…”, é um dos melhores momentos da nossa carreira. Podemos não estar tocando em arenas pela Europa, mas estamos com uma carreira muito mais consolidada, mais organizada, mais tranquila. Temos uma conexão de banda como nunca antes, estamos muito unidos e fortes no palco e fora dele também. Acho que celebrar 30 anos numa situação dessas é fantástico, não estamos só dependendo do material antigo, o “Mediator…” é muito atual, muito forte e foi muito bem aceito, tanto que estamos fazendo dois anos de turnê pelo disco e voltamos a tocar em Download (festival britânico), vamos fazer o Wacken (Open Air, na Alemanha) pela terceira vez, em agosto, o Brutal Assault (na República Tcheca) de novo, o “Bloodstock”, na Inglaterra… é um momento muito especial e uma boa maneira de comemorar uma data tão forte.


REG: Você falou da saída do Max e de que 1997 seria um ano fantástico em um tom de lamentação…
Andreas: Ah, sem dúvida… 

REG: Olhando agora, de longe, será que não teria sido melhor ter adiado a saída dele para um ou dois anos depois?

Andreas: A questão é que nós mandamos a nossa empresaria embora, né? Nosso contrato com a empresária acabava no dia 16 de dezembro de 1996 e a escolha de sair foi deles. Nós não mandamos o Max embora, queríamos trocar a maneira como estavam sendo geridos os negócios da banda, a relação com a gravadora… Nosso contrato expirou e nós não renovamos, simples assim. Enfim, ele foi embora, virou as costas e nós tivemos que arcar com várias consequências, inclusive no Japão, onde o produtor nos culpa até hoje pela turnê cancelada. Mas nós não tínhamos condição nenhuma de achar outro vocalista, estávamos em um momento muito conturbado, muito difícil, as coisas acontecendo ao mesmo tempo, as boas e as ruins, tudo não liquidificado… 

REG: Foi noticiado em um monte de lugar que a banda tinha acabado…
Andreas: Era o que eles queriam, que a banda acabasse para depois ficar esperando a “reunion”. Mas isso não aconteceu, porque sempre mantivemos a cabeça erguida e olhando para frente sem chorar o leite derramado. A escolha foi dele. Beleza, foi uma escolha lamentável, mas foi feito o que foi feito, levantamos a cabeça e continuamos, e é por isso que estamos aqui ainda. Mas foi um momento marcante na nossa carreira, ao mesmo tempo em que uma porta gigantesca se fechou, outras 10 se abriram, não é só um caminho a ser seguido, são várias possibilidades. Tivemos também a nossa calma, tranquilidade, não queríamos resolver a vida em uma jogada de xeque-mate. 

REG: Devem ter rolado alguns momentos de hesitação também…
Andreas: Total, éramos mais jovens, muita coisa acontecendo, você escuta várias opiniões, fica no meio do furacão. Acho que tivemos tranquilidade, foi importante o Iggor ter ficado com a gente, como um trio. Porque era esse trio que tava segurando a banda ao vivo há muito tempo. O Max, na turnê do “Roots”, estava tocando cada vez menos guitarra, mas não tinha problema nenhum, a química da banda era essa mesmo, o cara da frente que tinha esse carisma e nós três, que segurávamos musicalmente. Essa mudança de o Max ter saído não foi tão traumática, musicalmente. Mas acho que a saída dele foi mesmo a coisa mais difícil da nossa carreira. E foi o que nos deu condição de estar aqui hoje, no melhor momento da banda. Foi uma superação muito difícil, porque um vocalista como o Max é quase impossível de achar. Mas é como eu disse: uma porta se fecha, outras 10 se abrem, você tem que levantar a cabeça e perceber isso.

por Marcos Bragatto

reg

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quinta-feira, 11 de junho de 2015

Arquitetando o fim do mundo

“O meio é a mensagem”. Se o Papa Marshall McLuhan estava certo, Alessandro Santana acertou em cheio ao disponibilizar o documentário ‘Karne Krua – Arquitetando o fim do mundo’ (2015) no próprio canal do Youtube. Além de atestar a filiação da Faz o que pode Produtora a certo ideal de independência criativa, essencialmente alheio às noções comercialmente consagradas de produto e mercado, a plataforma eleita para jogar o trabalho na rede ainda agrega um dado sensível ao todo imagético – Quando os recursos importam menos do que o propósito e a disposição para a tarefa abraçada.

Entre as quatro paredes do estúdio, durante os poucos dias de gravação do disco mais recente da banda. A intimidade com os “personagens” e a matéria abordada dispensou inserções, entrevistas e as interferências narrativas de praxe. O processo, somente. Há uma breve sequência em que as imagens ilustram a pedrada reverberando ao fundo, como que orquestradas pela voz gutural do vocalista Sílvio Campos, mas no geral a intenção aparente de um registro puro e simples é seguido ao pé da letra. Cortes secos. Tesoura afiada.

Não é a primeira vez que o realizador se dedica ao documento da música realizada aqui e agora. Sempre bem acompanhado. O documentário ‘Na estrada do tempo’ (2013), por exemplo, segue a banda Plástico Lunar durante três anos. No palco, comendo poeira nas BR’s da vida, e no backstage. Nos dois filmes aqui mencionados, é a cumplicidade evidente entre as partes que explica o sucesso da empreitada. Ao focar a música dos seus tão de perto, sem ceder às tentações da homenagem, Alessandro conta também um pouco da própria história.

Treteiro de marca maior, Alessandro Santana postou em abril uma nota nas redes sociais comunicando o propósito de negar o acesso aos trabalhos da produtora, gradualmente, ao longo dos dias seguintes. “Quem viu, viu. Quem não viu se apresse pra ver. SE QUISER (...). Continuarei fazendo filmes, a diferença é que vocês não vão mais vê-los”. Está no próprio direito. Mas esse doc, com prazo de acesso prestes a expirar, sublinha a mancada.

O DVD está à venda na Freedom Rock Tattoo.

AQUI, no youtube.


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quarta-feira, 3 de junho de 2015

30 Anos de Karne Krua

ATENÇÃO: Esta será uma porra de uma noite histórica do caralho! Olho Sêco, lendária banda pioneira do cenário punk/HC nacional - e paulistano - estará se apresentando pela primeiríssima vez em solo segipano! Vai ser massa ver o Fabião velho de guerra "de rolê" pelas antigas terras do Cacique Serigy! Porque, além de ser o cara do Olho Seco e um dos primeiros lojistas da galeria do rock de sp, ele era um dos donos da new face, a gravadora que trouxe os discos de todas aquelas bandas finlandesas maravilhosas para o Brasil. Além do mais, será também a noite de lançamento de "Bem Vindos ao fim do mundo", o fodidíssimo novo álbum da Karne Krua, que já está à venda na Freedom Rock Tattoo, na Bigbross Produtora e por aí à fora, por todo o Brasil - e além! - nas melhores lojas e/ou distibuidoras. Em LP. De vinil! 
////// Portanto saiba que se você, por algum acaso, em algum momento de sua vida, sequer pensou em declarar que gosta do estilo - Punk rock/Hard Core - NEM PENSE em perder este show! Caso contrário, favor comparecer à Rua Santa Luzia, 151, no centro de Aracaju, a qualquer dia da semana, no horário comercial, para solicitar ao ilustríssimo senhor Silvio Campos, ex-suburbano, eterno "Imperador do Hard Core", para solicitar a baixa em sua carteirinha de "punk rocker". O processo pode ser feito também no restaurante Om Shanti, com o Sr. Ivo Delmondes ou a Sra. Dani "vegana" - eles se auto-intitulam "renegados", mas acredite, são legítimos herdeiros do império fundado há 30 anos pelo referido Suburbano, no Conjunto Bugio, periferia de Aracaju.


Dia 05 de junho | 21h | Caverna Rock bar
R$ 20 (INGRESSO ANTECIPADO NA Freedom
R$ 25 NA PORTA

Exibição do Documentário "Arquitetando o fim do mundo", de Alessandro Santana

KARNE KRUA
OLHO SECO (SP)
CASCA GROSSA
CESSAR FOGO

Tenho dito.

A.

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quinta-feira, 28 de maio de 2015

Nucleador, uma entrevista ...

Foto: Janaina Amarante
Como surgiu o Nucleador?

Primeiramente eu gostaria de agradecer ao German e ao Rarozine pelo apoio. A Nucleador surgiu no menor estado do Brasil, Sergipe, na capital Aracaju, no começo de 2008. A proposta da banda, idealizada por mim, Murillo, guitarrista, sempre foi fazer um som que soasse como o hardcore e o thrash metal feito nos anos 80. A junção desses dois estilos fez a banda soar como o crossover.

Vocês já tinham experiência anteriores de outras bandas?

Sim. Antes de fundar a Nucleador eu tinha uma banda de grindcore chamada INRIsório, que teve um grande destaque na cena local da época. Os outros integrantes também tocavam em bandas de hardcore.

O que influencia na composição das canções?

Contos de terror, trash e horror. Críticas sociais ácidas. Diversão e cerveja. Temas diversificados que representam o nosso cotidiano, sem pender para o batido tema de protesto social. Ficções imaginativas de uma mente em devaneio seria a melhor representação. KKKKK. A proposta da banda sempre foi a diversão. Uma boa desculpa pra sairmos do cotidiano desse sistema que a gente vive e termos uma boa desculpa para beber umas cervejas e suar um pouco tocando nossos instrumentos (musicais).

Como foi produzir o ep "zombeers infest"

Um tiro no escuro. A banda tinha menos de seis meses de fundada e já queríamos gravar as músicas que tínhamos ensaiado até o momento. Ninguém da banda outrora tinha tocado numa banda de thrash metal e não tínhamos feito nenhum show com a Nucleador. Não sabíamos como nossas músicas iriam soar num registro de estúdio.

Bom, o resultado final foi bem satisfatório. Disponibilizamos o ep para download na internet. Divulgamos em grupos do Orkut, rede social mais popular da época, e rapidamente tivemos um feedback surpreendente por parte da galera que curte o estilo. Dias depois de lançado o Zoombeers Infest, o Chris, vocalista da banda paulista de crossover, Bandanos, nos chamou para tocar num festival em São Paulo, o Night Of Living Thrashers, na qual a banda sueca Dr. Living Dead iria tocar também. A partir desse convite, bolamos uma turnê pelo sudeste. Tocamos em São Paulo e Rio de Janeiro. Capitais e interiores. Foi do caralho!

Entre um ep e outro houve um intervalo de tempo, qual o motivo?

Nós não somos músicos profissionais e não ambicionamos viver de músicas. Todos, nesse hiato, estavam terminando suas faculdades, trabalhando, e a banda ficou em segundo plano, apesar de nunca ficar parada. Também, logo depois da turnê pelo sudeste em meados de 2009, nosso primeiro vocalista saiu da banda e foi morar em outro estado. Demoramos um pouco pra achar outro vocalista. Quando achamos, nosso baixista foi fazer mestrado em Floripa. Demoramos pra achar outro baixista. Quando percebemos, tinham passado quatro anos sem lançarmos nada.

Quem elabora as capas dos discos?

A arte do primeiro ep foi feita pelo nosso primeiro vocalista, Caio Murder. Não sei de onde ele tirou a arte, mas com certeza não foi original. A arte do segundo ep foi feita por Jansen Baracho, artista gráfico residente em Natal.

"United by the Toxic", como foi essa fase?

Foi uma fase longa. Logo depois de lançarmos em 2009 o nosso primeiro ep e fazermos a turnê pelo sudeste, começamos a compor as músicas do que seria o segundo ep. Devido às mudanças de integrantes, só conseguimos finalizar a pré-produção do ep no final de 2011, quando começamos a gravá-lo. Gravamos bateria, baixo e guitarras, só faltavam os vocais. Foi exatamente nesse período que nosso segundo vocalista saiu da banda, por razões pessoais, e nos deixou com um material semi-pronto, mas drasticamente incompleto.

Demoramos um pouco para descolar outro vocalista, o que está conosco até hoje em dia, o Levi. Tivemos que passar por todo o processo de adaptação novamente. Nessa brincadeira, só no final de 2013 que recomeçamos a gravar os vocais do segundo ep, no qual só foi finalizado no começo de 2014. O resultado foi muito bom, apesar da demora. Com o segundo ep lançado, fomos fazer uma mini turnê com a banda Uzomi, no Rio de Janeiro

Como é a cena que vocês transitam?

Em Aracaju? Inconstante. Os shows undergrounds em nossa cidade ora "bombam", ora não dá quase ninguém. É uma incógnita digna de estudo. Porém, atualmente, com a abertura de bares menores com uma temática rock, a cena deu um leve salto. Antes não tinha lugar pra tocar ou, se tinha, era um lugar grande e caro com certeza de prejuízo. Nesses bares atuais, num perfil minimalista, a logística de se organizar um show ficou bem mais simples e segura, tornando nossos shows em Aracaju bem mais constantes.

Como foi a turnê com o Uzomi?

Foi do caralho, como sempre. Conhecemos os caras do Uzomi desde 2007, quando outra banda que o Bruno Bin Laden veio tocar em Aracaju, a Horrificia. Em 2008 o Uzomi em si tocou por aqui, sendo eu o novamente organizando o show. De lá pra cá firmamos uma bela parceria.

Essa turnê de 2014 foi bastante especial. Fizemos quatro shows no estado do Rio de Janeiro, sendo dois shows na capital e dois no interior. Todas as noites a Nucleador tocou ao lado da Uzomi. Todas as noites eu toquei guitarra em ambas as bandas. Sim, foi uma experiência magnífica tocar guitarra no Uzomi em quatro shows seguidos. Bebemos e comemoramos todas as noites, pura diversão.

O que se espera do futuro da banda?

A Nucleador vai continuar despretensiosa como sempre foi, porém, constante. Sempre produzindo, ensaiando e tocando em shows pelo nosso estado. De quando em quando, viajaremos, quando for confortável. Agora, em 2015, pretendemos produzir e lançar full length, junto com uma turnê pelo nordeste e sudeste. Esse é o plano, torcemos pra que dê certo. Agradeço novamente ao Rarozine pelo interesse na Nucleador e vida longa ao rock.

http://nucleador.bandcamp.com/


Fonte: Raro Zine

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quarta-feira, 20 de maio de 2015

Coma-Doof Warrior

O quarto filme da franquia Mad Max, a reinvenção poderosa concebida por George Miller, está dando o que falar – isso é fato. As redes sociais estão borbulhando de gente se derretendo de amores pela produção, desde já eleita oficialmente por quem importa como um dos melhores filmes de ação dos últimos anos. - NOTA DO BLOG: Ou de todos os tempos ... - Um dos grandes destaques do filme, no entanto, é um coadjuvante que aparece poucos minutos e não diz uma única palavra. Tom Hardy e Charlize Theron podem chutar bundas, mas eles que se cuidem: Coma-Doof Warrior está na área. Ou no palco, no caso.

Sim, este é o nome oficial do guitarrista cego vindo do inferno (ou quase isso), aquele sujeito de rosto bizarro que aparece em meio às tropas de Immortan Joe, no topo de um carro em alta velocidade em pleno deserto, tocando uma guitarra que cospe fogo enquanto fica pendurado em cabos elásticos diante de um paredão de amplificadores.

Nota do Editor original: Eu vou repetir, caso não tenha ficado claro: UM GUITARRISTA CEGO FR0M H3LL NO TOPO DE UM CAMINHÃO EM ALTA VELOCIDADE NO MEIO DO DESERTO, TOCANDO UMA GUITARRA QUE COSPE FOGO ENQUANTO FICA PENDURADO NA FRENTE DE UMA PAREDE DE AMPLIFICADORES.

Se apenas a descrição desta cena já não é incrível o suficiente para que isso se torne a sua parte favorita do filme, imagine ao ver a dita cuja em tela imensa, com AQUELE som ecoando um riff maníaco de heavy metal. Vai explodir a sua cabeça — e te fazer pedir por um filme solo inteirinho do Coma-Doof Warrior. É, sim, tem gente clamando por isso sabia? Confesso: e eu sou um deles.

Pra muita gente, essa sequência de Mad Max parece uma insanidade. Mas faz todo o sentido quando iOTA (nome artístico de Sean Hape), o músico/ator australiano de 46 anos que a protagoniza, explica em entrevista ao Yahoo Movies! que ele é o equivalente pós-apocalíptico do garoto que incentiva os soldados tocando um tambor. “Ou o sujeito que incita os soldados à batalha tocando sua corneta”, diz. “Ele é o cara responsável por deixar as tropas furiosas”.

A expressão “doof” é típica da Austrália, onde acontecem as chamadas “festas doof”, eventos de música eletrônica nos quais as batidas ensurdecedoras do house ou do techno ficam bombando - “doof doof doof”. E quer saber do mais legal? Aquele veículo todo funcionava DE VERDADE. Nada de trucagem de efeitos especiais. “Sabe, infelizmente, o George Miller não gosta de coisas que não funcionam pra valer”, conta Colin Gibson, designer de produção, num papo com a MTV. “No passado, eu já tinha produzido coisas para ele e tive que ouvir ‘legal, agora liga isso pra eu ver’. Então, tinha que funcionar”, diz.

O que aconteceu foi que Gibson usou um veículo de 8 rodas, um antigo aparato militar para disparar foguetes, a única forma de dar a escala necessária àquela maluquice. Meteu uma dezena de Marshalls e aquele espaço traseiro no qual os rapazes tocavam tambores alucinadamente para acompanhar o trabalho do guitarrista. “E devo dizer, bater aqueles tambores era muito desconfortável andando a 70km/h, comendo a areia da Namíbia”, confessa Gibson. Mas ainda tinha a questão da guitarra. Que tinha que tocar de verdade. “A primeira versão, bom, acho que investi demais no disparador de chamas e pouco no reverb (...) Não me ocorreu que ela tinha que funcionar. Achei que era suficiente soltar fogo e parecer uma guitarra feita de panelas ou algo assim. Até que George disse ‘E onde eu ligo agora?'”. E de volta pra prancheta. “O fogo, sabe, não estava na versão original dos storyboards. Mas era um pouco como um show do Kiss. Precisava soltar fogo. Tinha que ser divertido”. E foi. Pra caralho.

No entanto, para dar o efeito adequado, já que a captação no deserto pode não ser das melhores, a música acabou sendo inserida mais tarde, na pós-produção. Então, o que diabos o iOTA estava tocando, afinal? “Eu basicamente ficava lá improvisando”, conta. “É uma guitarra double neck, então é ao mesmo tempo um baixo e uma guitarra elétrica de seis cordas – e eu estava em cima de um amplificador também, então ficava tremendo, era tudo barulhento o tempo todo. Eu tocava Zeppelin, Soundgarden, AC/DC ou qualquer coisa que me inspirasse” – incluindo aí até os brasileiros do Sepultura. Aliás, por falar no AC/DC, as calças curtas e os tênis do Coma-Doof Warrior foram totalmente inspirados no estilo icônico de Angus Young. “Sabe, a guitarra não era muito boa. E eu passava muito tempo no sol, na areia e no frio. Então era complicado tirar uma boa nota daquilo”. 

O personagem - Juntos, Miller e iOTA criaram uma história para o cativante e enérgico sujeitinho de vermelho. Enquanto o mundo ruía, anos antes, havia este garoto, um prodígio musical que presenciou a mãe, uma mulher que também tinha talentos musicais, ser decapitada em sua frente. “Pra mim, é tudo sobre como alguém cego sobrevive num lugar como este”, explicou o próprio cineasta, em entrevista ao Fandango. “Como alguém mais fraco sobrevive ao apocalipse? Ele sobreviveu porque era cego. Porque viveu no fundo de uma mina, tirando vantagem de ser cego”.

Lá no fundo, se alimentando de pequenos roedores e bebendo o pouco de água do lençol freático que passava por ali, o garoto tocava o que restou de sua guitarra. E o som acabou atraindo Immortan Joe, que encontrou o moleque ainda ao lado da cabeça cortada de sua mãe. “Joe precisava de alguém pra tocar a gaita de fole, alguém que ajudasse a chamar todo mundo pra guerra”. Achou. Adotado pelo líder da cidadela, cresceu e continuou praticando. Mas sempre carregando consigo a lembrança da mãe: seu rosto não é o de uma pessoa desfigurada. É a pele do rosto da própria mãe, arrancada e transformada numa máscara. Estilo Coringa.

" Na hierarquia social que se formou neste futuro, ou você estava pronto para a batalha, como um garoto da guerra; ou tinha um status maior do que qualquer um, como o Joe; ou tinha uma habilidade particular”, complementa Gibson. “Claro que ser um mecânico seria a mais importante destas habilidades, mas essa coisa de tocar guitarra também é. E como ele nasceu cego, isso significaria que ele é nada neste lugar, e eles quebrariam suas pernas e o deixariam no alto da montanha para morrer, estilo Esparta. Mas ele sabia tocar guitarra – então certamente isso garantiu o seu lugar no panteão”.

Um fanático por quadrinhos, Miller vai contar alguns prólogos de Mad Max em uma série especial da Vertigo (DC Comics), escritos por ele e pelo roteirista do filme, Nico Lathouris, com arte do artista de storyboards Mark Sexton. Mas, infelizmente, a trama do Coma-Doof Warrior não consta desta primeira leva – que vai abordar histórias pregressas de Max, da Imperatriz Furiosa, do garoto da guerra Nux e do próprio Joe. Só que o diretor deixa a semente plantada: “eu quero contar a história sobre ele num gibi se tiver a oportunidade”. 

O homem por trás da máscara - iOTA, ou melhor, Sean, é uma espécie de rock star na Austrália. Além de já ter lançado cinco discos de composições próprias, foi a estrela das montagens locais de musicais como Hedwig and the Angry Inch, The Rocky Horror Show e Smoke and Mirrors (do qual é co-criador). Já foi indicado ao ARIA Music Award, uma espécie de Grammy australiano, e chegou até a derrotar o compatriota Hugh Jackman na categoria de melhor ator nos Helpmann Awards, uma espécie de Tony australiano. Atualmente, está ensaiando para encenar a peça B-Girl, escrita e estrelada por ele – e a ser apresentada na Sydney Opera House a partir de junho. O seu nome, claro, acabou se tornando um dos principais argumentos de venda do espetáculo.

Nome que, aliás, não significa lá muita coisa. “Quando eu era criança, sempre quis mudar meu nome, na mesma linha do que fizeram ícones dos anos 1970, como David Bowie e Iggy Pop”, explica ele, em entrevista para o Buzzfeed. “Sempre gostei dessa palavra, iota (a nona letra do alfabeto grego), e eu achei que seria um bom nome pra uma banda. Aconteceu. Quando acabei ganhando a chance de fazer um show solo, pensei, é agora que mudo meu nome para iOTA”. E assim mesmo, com o I em caixa baixa. “Ia acabar saindo no jornal como LOTA, o que é horrível. E assim até que ficou legal”.

Antes de Mad Max, a única experiência de Sean nos cinemas tinha sido em 2013, na adaptação de O Grande Gatsby dirigida pelo também australiano Baz Luhrmann. O músico interpretou, ironicamente, outro músico: Trimalchio, o líder da orquestra. Mas como todo moleque da terra dos cangurus, claro, iOTA cresceu fascinado pela trilogia original de Miller, estrelada por Mel Gibson – em especial pelo segundo filme, seu favorito. Assim que descobriu que o diretor estava querendo rodar um novo capítulo da saga, o sujeito pirou. Ligou imediatamente para os seus agentes e exigiu entrar na parada. “Eu faria qualquer coisa para estar naquele filme”.

Um ano depois, praticamente esquecido daquela história, eis que vem um telefonema. O chamado para um teste. “Eles me pediram basicamente pra levar uma guitarra. E disseram que o papel era uma mistura de Keith Richards e espantalho”. Mas iOTA fez mais do que carregar o instrumento consigo. Colocou um figurino que lembrava o dos motoqueiros de Mad Max 2, com couro, penas e pedaços de coisas penduradas. Sujou os dentes. Ficou nojento. Se meteu num táxi e arrancou olhares espantados do motorista. “E aí, chegando lá, eu toquei a minha guitarra e foi isso. Peguei o papel”.

Mas esqueça este ar blasè porque, conforme o próprio admite, foi como estar em um sonho o tempo inteiro. “A coisa toda foi de explodir os miolos, sabe? Eu ficava andando pelo set de queixo caído o tempo todo. Foi incrível. E atravessar o deserto naquela caminhão foi realmente demais. Você deveria tentar”.

Eu adoraria ...

por Thiago Cardim


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sexta-feira, 15 de maio de 2015

Clandestino & Maximum Rock´n´Roll

Amanhã, 16, às 17h, acontece mais uma vez o Clandestino. O evento, que acontece sempre com local divulgado horas antes do seu início, já ocupou pontos de Aracaju como o calçadão da 13, a Praça Camerino, a Ponte do Imperador e até a parte inferior da ponte Aracaju-Barra. Sempre com o estilo punk do “faça você mesmo”, o Do It Yourself, diversas bandas já se apresentaram sem edital num evento consolidado no cenário alternativo que não conta com portão ou ingresso.
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A edição deste mês é a décima primeira e está alinhada com uma mobilização mundial para angariar verba para o zine americano Maximum Rock’n’Roll. A publicação desde 1982 pauta punk, hardcore e garege rock em sua publicações, além da rádio MRR que está no ar desde 1977.
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Na página do evento, a pergunta sobre um possível local recebe ótimas sugestões dos adeptos como a praça da Epifânio Dória, uma pista de skate na Barra dos Coqueiros e ainda na parte de traz do Shopping Riomar. O negócio é ficar ligado na fanpage para saber onde será este Clandestino. Desta vez, The Renegades of Punk,  Orca, Seu Montanha e Zeitgeist são as bandas que tocarão no espaço que conta com a contribuição espontânea para ajudar na estrutura, além dos fundos para o fanzine.
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Bagaceira Talhada – Como surgiu a ideia e como se deu o processo de estruturação do Clandestino?
Clandestino – A ideia do Clandestino não é nada nova, nem original. Este evento já existia e era executado pelos punk locais em décadas passadas. Ele faziam eventos na rua chamados “Clandestino” do jeito que eles sabiam e podiam; com todos os percalços que vinham junto com a iniciativa. Ouvindo esses relatos e unindo essa história a um ímpeto que já tínhamos de fazer shows punks na rua, o Clandestino ressurgiu, ganhou características novas e de 2012 pra cá já foram feitas dez edições – estamos indo para a décima primeira.
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BT – As manifestações de rua de 2013 foram favoráveis às ocupações artísticas da cidade? As pessoas passaram a pensar mais a questão de ocupar os espaços desde então?
Clandestino – Não vemos uma relação direta de uma coisa com a outra. As “grandes manifestações de 2013” tiveram uma peculiaridade bem do nosso tempo, uma volatilidade incrível. A gente busca algo diferente. Uma experiência mais real, mais viva de um evento com música e uma re-significação dos espaços públicos da cidade.
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BT – Como o Clandestino vê o Manifesto Político-Cultural, lido no aniversário de Aracaju, e o grupo que tem se formado em torno dele?
Clandestino – O Clandestino é marginal por opção. Fazemos questão de que nossa proposta seja executada por nós mesmos e pelas pessoas que interagem e constroem aquelas experiências. Acreditamos que precisamos fortalecer uma comunidade baseada em autonomia, no “faça-você-mesmo”. O grupo organizado para o manifesto tem tomado iniciativa em nome da cultura local e reclamado uma valorização oficial/institucional dessa cultura. Entendemos o valor que esse reconhecimento tem para a comunidade artística local, em termos de viabilização financeira de projetos culturais. Porém, a proposta do Clandestino é claramente outra. As atividades que realizamos já são o fim e não o meio, e independem de apoio institucional.
Para nós, atividades como o Sarau Debaixo, assim como o Clandestino por exemplo, já são experiências bem sucedidas de organização autônoma e de reconhecimento pela própria comunidade que legitima esse tipo de manifestação. Há um empoderamento em construir cultura (contracultura) de forma independente, do qual não podemos fazer pouco caso. E é isso que tentamos mostrar para as pessoas: elas podem, não precisam de permissão e não precisam esperar ou pedir que ninguém faça por elas. Tendo dito isso, não queremos de forma alguma desmerecer o trabalho que esse grupo tem realizado. Só estamos deixando claro que há diferenças de abordagem sobre esses temas, ainda que no fim tenhamos intenções semelhantes.
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BT – O Clandestino sempre conta com várias bandas até de fora do estado. A Ideal quando fez quatro “Zuadas” para a gravação do seu próximo trabalho contou com várias bandas. Há uma irmandade na cena punk maior do que em outros estilos?
Clandestino – O punk é construído, desde que existe, em cima de uma rede de amizade/solidariedade gigante que desconhece fronteiras e idiomas diferentes. Isso é uma das coisas que o torna tão fascinante. E a pegada do Clandestino é essa. Fazer as coisas acontecerem independente de dinheiro, de distância… fazer as coisas de uma forma colaborativa e onde todo mundo possa fazer um pouco. Sempre enfatizamos isso. A responsabilidade de participar ativamente do evento, mesmo que você não tenha um amplificador de guitarra para emprestar ou não tenha uma banda para tocar. Qualquer pessoa pode chegar junto e fazer algo. É um evento construído coletivamente. Não estamos oferecendo um serviço em troca de dinheiro. Estamos tentando realizar tudo no chão, no mesmo nível. Sem palco, sem estrelas, sem balada. E isso vem de tudo que vivemos e aprendemos nessa grande rede do punk. Nesse sentido, pode-se até dizer que existe uma irmandade nesse rolê. Mas não sabemos se essa palavra é a melhor para descrever a relação que é constantemente construída entre as bandas que fazem parte desse circuito. Ao mesmo tempo nunca fizemos parte de outro circuito para poder comparar. Acho que na verdade é tudo uma questão de formas de funcionamento diferentes. Cada rolê tem o seu jeito de fazer as coisas acontecerem.
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BT – Como surgiu a mobilização mundial pelo zine americano Maximum Rock’n’Roll? Por que o Clandestino aderiu a esta corrente?
Clandestino - A MRR existe há muito tempo de forma independente, total faça você mesma, cobrindo o punk mundial, seja através do seu zine, site, rádio… Como participantes e consumidores desse rolê, conhecemos a revista tem tempo e sabíamos que eles eventualmente fazem eventos para levantar grana para continuarem ativos. Dessa vez eles resolveram fazer algo maior, um dia mundial onde vão estar rolando centenas de shows em praticamente todos os continentes do planeta de forma conjunta. Tudo isso para levantar alguma grana e ajudar a MRR a persistir. Um amigo nosso, que tem bastante envolvimento lá com a MRR, jogou essa ideia pro pessoal da Renegades of Punk (que faz parte do Clandestino) que topou fazer no esquema de sempre. O que mais teria a ver com esse evento? Clandestino, claro.
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BT – Há uma carência de publicações que pautem o punk, assim como faz o Maximum Rocknroll?
Clandestino – Sim. Tradicionalmente esse é um campo dos zines. Existem muitos zines ainda, mas depois de um período meio fraco e disperso, eles voltam a estar em distros, em selos, e em trocas de zineros pelo mundo. A MRR é um zine mais estruturado, num formato meio revista já e de circulação mundial. Zines pequenos existem em todo canto. Também foram ofuscados de leve por blogs e sites especializados. Aqui em Aracaju temos zineiros e zineiras ativas e algumas pessoas que se dedicam a cobrir o que borbulha na cena mais rock and roll e o que fervilha no submundo, um exemplo disso é um zineiro antigo sergipano, Adelvan Kenobi, que mantem alguns blogs que tratam de submundo, rock, cinema, literatura e coisas gerais de inconformados com o mundo como ele é. É sempre importante que se conte uma história. Precisamos que mais pessoas queiram participar e essa participação pode ser feita de várias formas, inclusive documentando o rolê.

Do Site Bagaceira Talhada

por Kaippe Reis

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