quarta-feira, 1 de maio de 2013

# 270 - 27/04/2013

Treasure - Cocteau Twins 

            Não faz a menor diferença que este álbum seja de 1984. A aceleração do tempo digital que estamos vivendo transforma estes meses em décadas, mas Cocteau Twins - a concepção - é atemporal. Para falar deste Treasure, me sinto tão pouco à vontade quanto um guia descrevendo um monumento maia recém-descoberto no meio da floresta da Guatemala, lugar que o quadro-capa realizado pela 23 Envelope evoca com perfeição. Se as letras destiladas pelas vozes de Elizabeth Fraser escapam da sua compreensão, basta preenchê-las com a leitura de contos fantásticos, por exemplo. Com este disco, não há muitas soluções. Ou conto em detalhes tudo o que Robin Guthrie, Simon Raymonde e Elizabeth já fizeram, estão fazendo e vão fazer, ou solto literatura para cima de vocês. E nisso que dá tentar descrever um monumento, explicar o inexplicável. A beleza. Uma beleza que vem do folclore da Idade Média, chupa tudo da música polifônica da Renascença, pirateia o barroco de Monteverdi a Bach, se nutre dos lieder de Mahler e flerta com Siouxie and the Banshees. Erudito e simples. A sofisticação do gato.

          Treasure é o resultado de meses de trabalho em estúdio, que permitiram alcançar aquele equilíbrio tão procurado entre o acústico e o elétrico, o etéreo da(s) voz(es) e das guitarras com o peso das sonoridades surdas do contrabaixo e da bateria, presentes para sublinhar o mistério. Mistério dos sons deformados, ouvidos no fundo do mar, com ruídos das ondas deslizando sobre as praias sonoras dos sintetizadores, e os sussurros da fada Elisabeth. Ela é responsável pelos nomes alegóricos das músicas ("Beatrix", "Persephone", "Pandora", "Aloysius" "Donimo") que rege com suas cordas vocais. O resto segue. Aqui termina a visita do monumento e a tortura do crítico. As obras de arte são implacáveis.

            Jean Yves de Neufville

Bizz # 17 – dezembro de 1986

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COCTEAU TWINS - BIOGRAFIA: Elizabeth Fraser (Liz, Falkirk/GB, vocais), Robin Guthrie (Falkirk/GB, guitarra, teclados, programações) e Will Heggie (Falkirk/GB, baixo) formam os Cocteau Twins em 79 - Deixam a Escócia e viajam para Londres em 81. Através de uma fita demo, conseguem um contrato com o selo independente 4AD - O álbum de estréia, Carlands, chega ao segundo posto na parada independente britânica em 82 - Com Head Over Hills (83), alcançam o 51º posto da parada oficial. Nesse ano, Heggie é substituído por Simon Ray monde (baixo, teclados) - Chegam pela primeira vez ao Top 30 britânico em 84 com o EP Pearly-Dewdrops´Drops. Ainda nesse ano, gravam com integrantes de outros grupos da 4AD sob o nome de This Mortal Coil. Ficam novamente no Top 30 com o LP Treasure, também de 84 - O primeiro lançamento dos Cocteau Twins nos EUA é a coletânea The Pink Opaque, em 85 - Alcançam o décimo lugar na Inglaterra com Victorialand, gravado em 86 sem a participação de Simon Raymonde. Nesse mesmo ano, gravam com o pianista e compositor minimalista Harold Budd o LP The Moon And The Melodies - Depois de um silêncio de dois anos, lançam em 88 Blue Bell Knoll, que fica no décimo-quinto lugar na Inglaterra - Em 90, sai Heaven Or Las Vegas, sétimo lugar na Inglaterra. O álbum traz o hit "Iceblink Luck", que fica no Top 40 britânico - Deixam a 4AD em 91. Em abril desse ano, apresentam-se no Brasil acompanhados pelos guitarristas Mitsuo Tate e Ben Blakeman.

FRASES: "Começamos a banda porque vivíamos num lugar muito deprimente na Escócia, e a música era um modo de escapar". "Liz sempre foi paranóica com as letras, que são sobre ela mesma. Ela faz com que sejam incompreensíveis para que ninguém perceba isso". "As pessoas têm uma idéia pré-concebida sobre a nossa música. Elas nos chamam de New Age, e não podemos fazer nada". "Não acho que nossos discos sejam todos iguais. Mas as mudanças foram graduais, nunca radicais". "Liz cantou muitas canções com Lucy no colo. A maior parte do disco é sobre nossa filha" (Robin, sobre Heaven Or Las Vegas).

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(wikipedia) Davidson Elizabeth Fraser (29 de agosto de 1963, Grangemouth, Escócia) é uma cantora escocesa, mais conhecida por seu trabalho como vocalista do grupo Cocteau Twins. Seu estilo vocal, melódico e abstrato, e suas letras indecifráveis têm gerado muita discussão ao longo dos anos.

Quando o Cocteau Twins lançou seu primeiro LP, "Garlands", em 1982, seu estilo e habilidade vocal surpreendeu a imprensa do Reino Unido, o lendário DJ da BBC, John Peel, teve a banda ao vivo em seu programa de rádio antes mesmo de "Garlands" ser distribuido nas lojas britânicas.

Fraser juntou-se ao Cocteau Twins no início dos anos 80 (o guitarrista da banda, Robin Guthrie, foi seu namorado). Embora o grupo nunca tenha vendido milhões de discos, sua audiência foi sendo ampliada a cada álbum lançado; Além disso, Fraser influenciou bandas como Throwing Muses, The Sundays, Belly, The Cranberries e Sugar Hiccup, este último tem o nome de uma faixa do Cocteau Twins.

As canções do Cocteau Twins compostas por Fraser são freqüentemente caracterizadas como ininteligíveis; a faixa-título do álbum de 1990, "Heaven or Las Vegas", surpreendeu os fãs com as suas palavras relativamente indecifráveis e foi tocada constantemente em rádios de rock moderno. Os Cocteau Twins se separou no final dos anos 90.

Além de seu trabalho com o Cocteau Twins, Fraser colaborou como vocalista nos álbuns de diversos artistas. Em 1986, Fraser cantou em "The Moon and the Melodies", álbum gravado pelos membros do Cocteau Twins e o tecladista e compositor Harold Budd.

Em 1990, participou do EP solo "Candleland" de Ian McCulloch do Echo and The Bunnymen.
Fraser participou no álbum do Massive Attack, Mezzanine, em 1998, com o vocal na Faixa "Teardrop",e em diversos concertos desta banda.

No cinema, mais recentemente, participou da trilha sonora do filme O Senhor dos Anéis, contando em diversas faixas.

Em 2009, Fraser lançou o single Moses. O CD traz dois remixes da música Moses, um do músico experimental Thighpaulsandra (Timothy Lewis), e outra de Spaceland.

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BELEZA SEM PALAVRAS

            Vamos com calma. Pense no que não se diz. Aquilo que não deve ser dito. Palavras brancas, beleza, eternidade. Tudo isso soa completamente absurdo. E novamente precisamos de algo que preencha o opaco vazio destes dias calados. Precisamos de coisas práticas. Ou pelo menos colocar coisas em prática. Cabe a nós a escolha da "coisa" certa.
            Existe uma banda que se chama Cocteau Twins, nome de uma antiga canção dos Simple Minds. A banda é de Falkirk, uma cidade-nada da Escócia. Seu núcleo são dois amantes, Robin Guthrie e Elizabeth Fraser. No início, em 82, Will Heggie tocava baixo. Ele saiu em 83 e Simon Raymonde entrou em 84. Hoje, juntamente com o New Order e os Smiths, os Cocteau são a banda independente mais bem-sucedida da Inglaterra. Seus discos são lançados pelo selo 4AD e vendem muito. As capas são verdadeiras obras de arte que misturam texturas naturais, vegetações orvalhadas, substâncias indefinidas, véus, seda e lagos espelhados. São criadas por Vaughan e Nigel, da 23 Envelope, a responsável pelo departamento de arte da 4AD. Os Cocteau gravaram até hoje dois clips, o primeiro deles em um asilo abandonado de estilo vitoriano e o outro em seu próprio estúdio. E os Cocteau Twins fazem música.
            Esqueça a calma. Pense no que não se diz. Aquilo que não deve ser dito. Palavras brancas, beleza, eternidade. Nem tudo é completamente absurdo. A música dos Coeteau evoca paisagens perdidas, quase gregas, de tão clássicas e etéreas, alheia a qualquer tempo ou espaço. Uma música completamente particular, apesar da sensação de universalidade e presença, existe realmente música, e essa música dá voltas silenciosas, criando uma orientação circular que intoxica e dá um imenso, inédito e profundo prazer em ouvir música. Uma música de acordes lentos, harmonias azuis e uma tristeza oceânica, entorpecida, suave. Robin acredita que uma guitarra só produz o som ideal quando tratada com muitos pedais e ecos. Elizabeth canta palavras inéditas, que não pertencem a nenhuma língua em especial. Ela as inventa procurando em livros e misturando os seus sons. Sua voz é única. Extremamente suave, ela expressa paixão, tristeza, calma, alegria sem o compromisso do significado. A música simplesmente é.
            Os Cocteau são tímidos, irônicos, detestam entrevistas, e quando as dão fazem questão de ser vagos, reticentes. Não acreditam na equação pergunta-resposta. Suas melhores entrevistas são longas conversas com os entrevistadores, onde comentam como adoram gatos, sentem-se péssimos em um palco e gostam de gravar somente de madrugada, já meio bêbados, improvisando em seu estúdio próprio. Seus shows são muitos raros, e muito simples também. Robin liga um gravador com percussão e teclados pré-gravados, toca guitarra, Simon orienta com o baixo e Elizabeth canta.
            Garlands, uma coroa de louros tímida e tensa, é a estréia dos Cocteau em disco. Seguem-se dois compactos que desenvolvem as idéias do primeiro LP. No ano seguinte, uma grande mudança. Robin e Elizabeth sozinhos produzem o segundo LP, Head over Heels. Majestoso, lírico e muito trabalhado, ele muda a trajetória dos Cocteau, que agora são donos únicos do seu estilo. O primeiro grande sucesso comercial dos Cocteau veio com "Pearly-Dewdrops’ Drops", um compacto apaixonado, único, que fez dos Cocteau os favoritos da imprensa independente inglesa. No mesmo ano sai Treasure, o terceiro LP, suave, limpo, plácido. O EP Aikea-Guinea, do ano seguinte, traz os Cocteau com uma das canções mais belas do ano, a faixa-título. Ela é também a favorita de Robin, que a considera a mais perfeita definição do som dos Cocteau. Tiny Dinamine e Echoes in a Shallow Bay (mais dois EPs) saem no fim do ano passado, com uma produção impecável dos três e canções profundamente densas, esotéricas e belas. Este ano saiu o LP Victoria/and. Calmo, silencioso, triste, só guitarra e voz, foi planejado para ser um EP e resultou no melhor momento dos Cocteau. Um LP que fala por palavras brancas, sobre beleza, rabos de baleias e eternidade. Uma música que preenche o opaco vazio destes dias calados e dista do enfado, da repetição, dos excessos, da banalização, da síndrome fim-de-século.
            Escute os Cocteau. Não existe nada lançado aqui, mas isso não deve surpreender mais ninguém. Não desista. Eles são simples, iluminados, únicos. Música e oceano em incontáveis doze polegadas.

Bizz # 13 – agosto de 1986

por Cristiano Madureira

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DITO PELO NÃO DITO

            O sol brilha sobre Londres, e eu enfrento o calor implacável para ir ao encontro de Liz, Robin e Simon, no estúdio que eles acabam de construir à beira do Tâmisa. Não sei se estou suando por causa do calor ou porque tenho pela frente uma tarefa árdua: fazê-los falar sobre sua música. Não que eles se recusem a dar entrevistas, mas a verdade é que as respostas são sempre vagas e reticentes - de resto, uma atitude compatível com a própria natureza do som da banda, onde o que menos importa são as palavras. A dificuldade vem ainda da posição que os Cocteau ocupam hoje no cenário pop, tão insula que resiste a qualquer tentativa de rótulo. Mas isso não impede que eles tenham conquistado um público numeroso e fiel, inclusive no Brasil, onde só ficaram conhecidos em 1987, com o lançamento de Treasure, o quarto LP.

            A história do grupo, porém, nos leva para o início da década, quando o guitarrista Robin Guthrie e o baixista Will Heggie conheceram Elizabeth Fraser. Depois de vê-Ia dançar numa discoteca de Grangemouth, na Escócia, eles não pensam duas vezes: "Alguém que dança assim tem que saber cantar". Está formado o Cocteau Twins. Mas o empurrão decisivo só viria com a passagem do Birthday Party (a ex-banda de Nick Cave) por terras escocesas. Após uma breve audição do material da banda, eles sugerem uma visita à gravadora independente 4AD - que contrata o trio imediatamente.
            Em 1982, sai o LP de estréia, Garlands, para delírio da imprensa inglesa, que se deleita com o som muito pessoal dos Twins - onde a riqueza de texturas encobre a simplicidade das canções - e com a voz de Liz. Adotados pelo DJ John Peel, partem para se estabelecer como uma das grandes bandas independentes britânicas, ao lado do New Order e dos Smiths.
            Will deixa o grupo em 1983, depois do lançamento de Head Over Heels, o segundo LP, precedido por uma turnê onde abrem os shows do Birthday Party. Um projeto idealizado por Ivo Watss-Rissel, dono da 4AD, atrai o grupo, que toca como This Mortal Coil - ao lado de integrantes de outras bandas (Dead Can Dance, X-Mal Deutchland, entre outras) - gravando dois LPs com covers e composições próprias.
            Com "Pearly Dewdrops ´Drops", faixa de um EP lançado em 1984, eles alcançam seu maior sucesso comercial até então. Nessa época, já são novamente um trio, com a entrada de Simon Raymonde. Ainda nesse ano, gravam Treasure, considerado até hoje pela crítica o melhor LP do trio, pela variedade inédita de climas e ritmos.
            A imprensa musical continuava procurando adjetivos para definir a música dos Twins e o vocabulário particular das letras de Liz: etéreo, celestial, cinematográfico são os mais constantes. A preocupação da mídia não encontra resposta na banda, que prefere o anonimato - o que fica claro nas belas capas dos discos, jamais incluindo fotos do trio.
            Em 1985, eles compram seu próprio estúdio e tem seu primeiro disco editado nos Estados Unidos: The Pink Opaque, uma compilação de EPs lançados anteriormente na Inglaterra. Enquanto isso, Robin encontra tempo para produzir bandas como Felt, Wolfgang Press e Dif Juz. Victorialand (1986) traz o grupo em sua proposta mais radical, totalmente acústico. O disco chega ao número dez da parada inglesa, em meio a rumores infundados sobre a saída Simon (fora desse disco). Na mesma época, trabalham com o pianista e compositor Harold Budd, com quem gravam The Moon and The Melodies.
            Foi preciso uma retirada de dois anos para que brilhassem novamente com Blue Bell Knoll, mais cinemático do que nunca - e, possivelmente, o mais acessível da sua carreira. Essa entrevista pega o trio rastro dos infindáveis encontros com a imprensa que sucedem o lançamento do LP. Com xícaras de café na mão, nos instalamos no enorme terraço e pergunto por que eles começaram a banda.

            Porque queríamos um lugar assim, à beira do rio... (risos). Porque vivíamos num lugar muito deprimente na Escócia, e a música era um modo de escapar."Liz:" É melhor do que judô". Robin faz cara de desespero e nos pergunta do que ela está falando. Liz continua..."Meu irmão fazia judô, e quando voltava pra casa ele vinha treinar em mim. eu sempre acabava apanhando". Eu simpatizo, passei pelos mesmos problemas com o meu irmão, mas... quando vocês começaram a banda, existia um objetivo, uma idéia original? Robin: "Não, nós simplesmente fomos fizemos música, nunca paramos e dissemos ´Vamos começar uma banda e fazer isto e mais aquilo´". Simon comenta que existe gente assim, ao que Robin responde com um olhar incrédulo. Como foi o começo? Robin: "Éramos jovens e cheios de entusiasmo. E aí perdemos tudo isso". Liz: "Não só musicalmente... é assim com todo o resto".
            Vocês têm alguma semelhança ou afinidade com outras bandas? Liz: "Não musicalmente"."Em atitude, talvez", diz Simon. Robin: "Talvez tenhamos afinidades com outras bandas, mas não sei quais". Simon: "Todo mundo começa com a idéia de fazer algo à sua maneira, lançar apenas os álbuns que quer lançar. Mas quantas pessoas podem honestamente dizer que fizeram isso?".
            Quais bandas vocês admiram? Robin hesita... "Eu gosto de uma banda durante um certo tempo mas depois a tendência é enjoar. Do que você gosta?". Cito Nick Cave e Sonic Youth, e comento que é uma pergunta difícil... Simon concorda: "È, porque talvez resposta seja diferente na semana que vem". Robin: "Alguns anos atrás eu teria dito Sonic Youth também, mas não gosto mais deles. Ficaram cheios si e só fazem merda". Liz o acalma: "Nossa. Parece que você quer matá-los" (risos), Robin continua: "Quanto ao Nick Cave... bem, foi através do Birthday Party que chegamos a 4AD". Simon: "Todas essas pessoas fizeram grandes discos em sua época, mas isso não significa que nos tenham influenciado".
            Muito já foi escrito sobre a voz de Liz e o quase esperanto das letras, Liz: "È, eu não sei por quê. Não importa o que as pessoas pensem. Nós temos que tentar ignorá-las, acho bem mais fácil. Se eu preciso autoconfiança, procuro-a no Robin e no Simon... porque às vezes eu realmente preciso!".
            Quando vocês falam de sua música, parece uma coisa totalmente sem esforço, quase sem intenção. Robin: "Música para mim não é uma tarefa, um dever. È sem esforço no sentido ele que nós gostamos do que fazemos. E divertido. Não é como se estivéssemos carregando o mundo nas costas. Ainda é como era no começo". Mas onde está a intenção? Ou será que a música simplesmente "acontece"? Simon: "E difícil dizer, porque houve tanto esforço para construir este novo estúdio, e no lado técnico da coisa, que quando finalmente fazemos música, esquecemos do resto". Robin: Não que nós entremos no estúdio e façamos um disco inteiro em uma tarde. Somos perfeccionistas, queremos as coisas de uma determinada maneira. E sem esforço porque é como uma paixão ". Não há lugar então para esforço na paixão? Robin: "Ir até a lavanderia é, um esforço. Fazer essa merda não é esforço nenhum. E apenas música".
            O que vocês acham de certos rótulos que são freqüentemente aplicados a vocês, como música atmosférica, música ambiente? Simon: "As pessoas usavam essas expressões antigamente. Não usam mais... não com o último disco. Liz discorda: "Usam sim... coisas idiotas como new age, nos Estados Unidos": Robin interrompe: "Bem, eles são americanos, não se pode esperar muito deles" (risos). O que, então, as pessoas fazem ao som dos Cocteau Twins? Robin diz maliciosamente: "Já nos contaram várias coisas...(risos). Você usa certos tipos de música para certos tipos de situação. Por exemplo, você não acorda e põe um disco do Brian Eno na vitrola, porque aí você volta a dormir imediatamente (risos). Não consigo pensar no que as pessoas fazem ao som de nossa música, exceto... bem, não importa"(risos).
            A música mudou com o passar dos anos? Robin: "Sim, tanto quanto nós mudamos. A música apenas reflete o que estamos sentindo ". No que ela mudou, exatamente? Simon: "Ficou muito melhor". Robin: "Não nos preocupamos muito em fazer um disco Conscientemente diferente do outro, porque conforme vamos amadurecendo, isso tudo vai se refletindo nossa música. Não acho que nossos discos sejam todos iguais. Mas as mudanças foram graduais, a gente não muda radicalmente de um disco para o outro. Mas é só ouvir o que fazemos agora para ver diferenças ". Simon: "Eu sei o que você quer dizer... tem gente que acha que sabe como nossa música soa. Só porque ouviram um disco nosso seis anos atrás. E uma pena".
            Como foi o trabalho com Harold Budd em TheMoon and lhe Melodies? Robin: "Foi bom. Porque o Harold é diferente do, que as pessoas imaginam quando ouvem sua música. È um cara normal, que gosta de sair e encher a cara. Ele realmente faz isso, ao contrário de gente como Nick Cave, que canta sobre isso". Tento defender meu ídolo em vão, mas, à essa altura, Liz está rindo histericamente enquanto Robin e Simon falam ao mesmo tempo. Robin volta ao assunto: "Foi uma experiência diferente, foi divertido. Ele é um cara legal para trabalhar. Mas não dou importância alguma a esse disco". A qual disco você dá importância? Robin não hesita: "Ao seguinte, sempre".
            Como foi a participação de vocês no projeto This Mortal Coil? Robin: "Não tem nada a ver conosco. Nos pediram para gravar umas duas músicas e foi isso. Não gosto daquele tipo de música".
            Me falem um ,pouco sobre o último disco, Rlue Reli Knoll. Robin: "E a melhor coisa que já fizemos até que o próximo esteja pronto. Na época ficamos bem satisfeitos com ele. Sempre que pensamos nos discos que já fizemos, achamos péssimos, mas na época eram bons, suponho". Simon: "Essa é a coisa mais trágica... quando alguém chega para você e diz que gosta da banda, e menciona uma música de quatro anos atrás!". Robin aproveita a ocasião para comentar sarcasticamente: "Garlands é seu predileto, né, Simon? E Treasure, que grande disco...urgh!"(risos).

            Chegou a hora da clássica pergunta, mas como não quero ser jogada no Tâmisa (apesar do calor), inverto-a: vocês influenciaram alguma banda? Robin: "Isso cabe a eles dizerem. Acho que influenciamos sim... se eles admitirem primeiro, nós diremos quais" (risos). Liz, no quinto mês de gravidez, não agüenta o sol e vai para dentro.
            Vocês vêem algo de interessante acontecendo em termos de música atualmente? Robin: "Nos últimos três ou quatro anos não apareceu nenhuma banda que tivesse algo de interessante para oferecer!". Simon: "Sempre a mesma coisa. Quatro ou cinco anos atrás, as pessoas estavam escrevendo um monte de baboseira sobre nós, como se fôssemos a melhor coisa do mundo desde a invenção do pão de fôrma (risos). Os jornalistas têm que manter o interesse dos leitores, não podem escrever sobre as mesmas pessoas eternamente... então eles têm que sair e procurar bandas novas, e mesmo que as bandas não sejam grande coisa, eles têm que dizer que são, têm que justificar seu trabalho". Tudo bem, mas isso imprensa. Vocês, pessoalmente, o que acham? Robin: "Eu tenho ouvido algumas coisas, mas nada de interessante, de diferente. Gosto dos Stone Roses, mas o que eles fazem não é nada, de novo". Simon: "Gosto do disco do De La Sou!. E bom, totalmente diferente daquilo que fazemos. Tem outra função".
            Vocês raramente tocam ao vivo... Robin: "Nós gostamos de tocar ao vivo; mas não temos a obrigação de fazer um álbum e uma turnê, e depois outro álbum e outra turnê e assim por diante". Simon: "A impressão que as pessoas têm é que você é total-mente inútil se não passar metade do ano excursionando". Robin: "O problema é que nunca fomos muito bons ao vivo. Acho que somos melhores em disco".
            Vocês já estão gravando o disco novo? Robin: "Começamos na semana passada.Se o tempo continuar ensolarado assim, não vamos terminar tão cedo (risos). Temos nosso próprio ritmo. Não há pressão nenhuma sobre nós. Estamos fazendo o disco porque queremos, não porque alguém nos disse que já estava na época. Poderíamos não fazer absolutamente nada o dia inteiro se quiséssemos. Mas não somos esse tipo de gente".
            Mais tarde, na cozinha com Liz, enquanto ela folheia uma BIZZ e confessa seu amor pelos Pet Shop Boys, ouço pedaços do disco em preparação e faço as pazes com o mundo. Afinal, se eles fazem músicas assim, por que falar?

Bizz # 49 – agosto de 1989

por Anamaria G. de Lemos

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Em 1982, na minúscula cidade de Grangemouth, na Escócia existia um cantinho em que um DJ chamado Robin agitava as noites locais tocando clássicos do punk e new wave, chamada Nash, uma boate localizada em um hotel. Grangemouth era tão minúscula que Robin a comparava com um banheiro. Em Nash, sempre aparecia uma garota para dançar e pular, já que não havia outra forma de divertimento. Seu nome era Elizabeth Fraser, conhecida como Liz. Robin e Will Heggie, companheiro de agitos, riam dela, a única que conseguia dançar, e embora não simpatizassem muito com a menina, conversavam entre uma canção e outra. Os três então descobriram alguns gostos comuns, e resolveram montar um grupo. Will tinha um baixo e jurava saber tocar; Robin era guitarrista e Elizabeth mostrou uma voz especialmente peculiar. Para tentarem sair da cidade e ainda fazer algum dinheiro, apostaram na música, enquanto Liz e Robin iniciavam um relacionamento. Adotaram o nome de uma antiga canção do Simple Minds, “The Cocteau Twins”, que foi gravada no álbum de estréia, Life in A Day, do grupo de Jim Kerr, lançado em 1979, com outro nome: No Cure.

O grupo tinha uma grande paixão pelo som do The Birthday Party, grupo australiano que revelou Nick Cave ao mundo. O Party gravava por um exótico selo chamado 4AD, e Robin e Liz queriam gravar seu primeiro disco pela mesma gravadora. Robin tentou (e conseguiu) conversar com Phil Clavert do Party e entregar uma demo. Phil gostou muito e fez uma importante ponte para que a 4Ad contratasse o jovem trio. “Foi muita cara-de-pau do Robin fazer isso, mas conseguimos o contrato”, lembra Liz.

O que mais chamou a atenção de Phil e da 4AD foi o som produzido pelo grupo. O baixo de Will era pesado, porém extremamente climático. Robin era um guitarrista que não se importava com solos, apenas em sons diferentes, quase minimalistas. E para complementar havia a voz de Liz, sem nenhum paralelo. Como nunca tiveram um baterista, usavam um sintetizador Roland 808. E assim lançaram o seu primeiro disco, batizado de Garlands, em 1982, que recebeu vários elogios dos semanários britânicos.

O disco de estréia ofereceu uma prova embrionária do rápido progresso que a banda teria, mostra um som atmosférico habilidosamente construído em volta do talento de Guthrie em usar criativamente a guitarra distorcida, loops e caixas de eco, ancorado no baixo rítmico de Heggie, além de uma onipresente bateria eletrônica. Mesmo sendo um belo trabalho, em comparação com aqueles que viriam a seguir, a sonoridade ainda se apresenta um tanto seca, sem a fluidez dos trabalhos vindouros. Porém, neste primeiro disco, o grupo já apresentava a definição do tipo de som que se tornaria a característica marcante do Cocteau Twins, algo à época, um tanto inclassificável. Se Robin estava mais preocupado com sons diferentes do que com solos de guitarra, o mesmo pode se dizer da relação entre o vocal de Liz Fraser e as letras das canções, pois nesse disco e muitos que viriam posteriormente, o que mais importava eram justamente os sons, pois muitas vezes, as letras cantadas por Liz eram simplesmente incompreensíveis, ou seja, mais valia a sonoridade das palavras do que o seu significado. Aliás, as letras nem sequer apareciam nos encartes dos discos. Apesar da banda defender em entrevistas que essa imprecisão não era proposital, isto acabou se tornando um mito sobre as canções do Cocteau Twins. Perguntava-se, inclusive, em que língua afinal cantava Liz Fraser, chegando-se a conclusão de que não haviam letras nas canções do Cocteau Twins, mas apenas e tão somente sons sem um significado preciso.

Uma das grandes atrações do grupo era o grande cuidado e apuro visual com as capas de discos, singles e EP, todos produzidos pela empresa de artes e design, 23 Envelope. Suas capas etéreas e abstratas tornaram-se uma marca não apenas do Cocteau, mas de quase todo o cast da 4AD, a exemplo do projeto This Mortal Coil, Colourbox, Throwing Muses, etc.

O disco alcançou a quinta posição na parada independente e ganhou um fã: o DJ John Peel. Peel ouviu a banda através do mesmo sistema que Robin apresentou o grupo ao pessoal do Birthday Party, dando-lhe uma famosa fita demo. “Estava um dia na rua e vi o (John) Peel. Pensei que era uma oportunidade muito boa para deixar escapar, me aproximei e educadamente ofereci a fita, que aceitou.” Peel, o DJ mais famoso do Reino Unido, começou a tocar o grupo e logo produziu um programa apenas com eles.

Com o sucesso, abriram shows do Modern English e do Birthday Party por toda a ilha. Aproveitando o sucesso inesperado, lançaram no final do ano o EP Lullabies, que recebeu críticas ainda mais elogiosas. O trio já mudara para Londres, e gravava em um pequeno estúdio e tinha um som diferente. “Garlands parecia uma pedra gigante amarrada em nossos pescoços. Todos esperavam que soássemos da mesma maneira e isso nunca foi nossa intenção”, conta Robin.

No ano seguinte, outro EP, Peppermint Pig, canção que fica nas parada independentes atrás apenas de “Blue Monday”, do New Order, e que teve como produtor Alan Rankine, dos Associates. E, ainda em 1983, acontece o lançamento do segundo disco Head Over Heels, que marca a saída de Heggie. Guthrie e Fraser gravam em 1983 o disco como um duo. Notadamente este é o trabalho de sonoridade mais diáfana do grupo aproximando-se mais do estilo que ficaria conhecido com ethereal, e estabeleceu a fórmula que o grupo continuaria a trabalhar durante quase toda a sua carreira. Ainda como uma dupla, fizeram o EP Sunburst and Snowblind, no mesmo ano.

No final de 1983, Simon Raymonde (ex-Drowning Croze) juntou-se à banda para a gravação do disco The Spangle Maker; enquanto o grupo durou, Raymond trouxe um reforço importante para eles, sendo um componente essencial do Cocteau Twins, gradualmente assumindo um ativo papel como escritor das letras, arranjador e produtor. Paralelamente, o grupo participou do projeto This Mortal Coil, idealizado por Ivo Watts-Russel, presidente da 4AD, originalmente um projeto que queria gravar versões de material de outros selos e artistas sem gravadoras, explorando o talento dos artistas “caseiros”, como o pessoal do Dif Juz, X Mal Deutchsland, Wolfgang Press e Dead Can Dance, com participações ocasionais de outros músicos fora da 4AD.

Robin comenta que Ivo lançou o projeto na mesma época em que o Cocteau estava sedimentando sua fama: “quando eu ouvia Song to the Siren tocar na rádio (que tinha vocais de Liz e o baixo de Simon) e nada nosso nas mesmas, me deixava doente de raiva. Simon e Liz participaram de oitos canções lançadas entre 1983 e 1984. Simon conta porque entrou para o Cocteau: “eu sempre fui um grande fã da banda e ouvia todos comentarem como eram místicos e todas essas coisas. Nunca pensei isso, apenas que as músicas eram brilhantes e excitantes e nunca imaginei que, nem em um milhão de anos, seria um membro da banda”, explica.

Simon conta que viajava com o pessoal da 4AD durante os shows, em um dia, em Camden, enquanto Liz e Robin trabalhavam em um pequeno estúdio de 8 pistas, Simon chegou e escreveu a canção “Millimillenary”, que faria parte da coletânea The Pink Opaque, que sairia em 1985. Animado, voltou para casa afim de compor novas músicas até ser convidado por Liz e Robin para passar uma semana na Escócia escrevendo novas composições. “Millimillenary” faria parte de uma coletânea do semanário New Musical Express. O primeiro lançamento de fato do novo trio seria o EP The Spangle Maker, e em seguida, lançariam aquela que é considerada a grande obra-prima da banda (e o primeiro lançamento do grupo no Brasil), Treasure, em 1984.

Entre os muitos fatores que alçaram Treasure a categoria de obra prima, podemos citar a evolução estrutural melódica das músicas, que apresentam também efeitos sonoros cada vez mais complexos e perfeitamente burilados por Robin e Simon. As canções guardam reminescências sonoras barrocas e dark wave. A voz de Liz também sofreu uma considerável melhora, mostrando um timbre claro e delicado além de um belo alcance vocal, o que pode ser apreciado em faixas como “Persephone”. O disco inicia com a faixa “Ivo” uma clara referência ao presidente da 4AD, as outras canções têm títulos que evocam personagens místicos ou mitológicos, a exemplo de “Lorelei” e “Pandora”. Esse estilo de canções com títulos obscuros ou místicos se repetiriam em outros discos, assim como a utilização de lendas e palavras de origem celta. Essa prática se tornou tão comum que chegaram a disponibilizar um glossário em seu site oficial www.cocteautwins.com com as palavras mais incomuns que apareciam nas canções.

O disco foi votado como o melhor lançamento do ano e Liz considerada a melhor vocalista feminina por vários semanários ingleses. O grupo fez então sua primeira excursão fora da Europa, indo para o Japão onde foram assediados de forma absurda pelo fãs, o que deixou Robin surpreso: “os japoneses são carinhosos. Não era aquela histeria tipo Bealtes, mas após nossas apresentações, ficavam na porta do hotel, querendo conversar, pedir autógrafos. Quando íamos para as estações de trem, eu cheguei a ver entre 2000 a 3000 pessoas nos acompanhando.” Elizabeth completa: “o Japão é um lugar absurdo, eu estava excitada para conhecer por tudo que havia lido, e Treasure era o disco mais vendido do país e lá eles têm a mania de mudar os títulos dos discos nas capas. Treasure virou The Woman the Gods Loved. Imagino que a canção “Persephone” tenha estimulado isso. Apesar do imenso sucesso do disco, os Cocteau Twins só executavam duas canções ao vivo, “Lorelei” e “Pandora”.

Depois do disco, O Cocteau entrou numa maratona de lançamento nos anos de 1985 e 1986, com seis discos de material inédito e uma coletânea. O primeiro deles foi o EP Aikea-Guinea, e a canção título é uma das melhores composições do grupo segundo, Robin e a favorita dos fãs em shows. Logo depois do lançamento do EP, Robin e Liz participaram de uma inusitada cover de “Respect”, de Otis Redding e que ficou imortalizada na voz de Aretha Franklin, em um álbum do Wolfgang Press, The Legendary Wolfgang Press and Other Tall Stories. Em seguida lançam mais dois Eps, Tiny Dynamine e Echoes in a Shallow Bay, que no final do ano seriam re-lançados como um EP duplo e, segundo Robin, os dois são os dois melhores discos que os Cocteau já produziram. O ano se encerra com o quarto lançamento da banda, a coletânea The Pink Opaque, com faixas desde 1982, além da primeira canção feita por Simon Raymonde, “Millimillenary”, disponível apenas na fita cassete lançada pela já citada revista New Musical Express. O disco foi realizado para funcionar como um cartão de visitas para o mercado norte-americano, já que a banda tinha assinado um acordo para a distribuição de seus trabalhos na América. E antes do ano terminar, a banda já partia para outras colaborações: Simon estava envolvido com o This Mortal Coil e Robin e Liz realizando trabalhos com o pessoal do Dif Juz e do Felt, grupo que teria um pequeno sucesso em uma canção chamada “Primitive Painters”, com vocais de Frazer. E fariam de 1986 um ano inesquecível para suas vidas com o lançamento de dois discos: Victorialand e The Moon and the Melodies.

Lançado em abril de 1986, o disco não teve a participação de Simon, envolvido com o Coil e, mais uma vez, repetindo o que tinha feito após a partida de Will, Liz e Robin realizaram um trabalho em parceria. O disco, que começou como uma maneira dos dois amantes e músicos para passarem o tempo em estúdio e trabalhando acusticamente com voz e instrumentos e lutando contra suas limitações (palavras de Robin), resultou naquele que é considerado o álbum mais aclamado da vasta discografia da banda e recebeu vários prêmios como o melhor lançamento do ano. O nome foi tirado de uma região da Antártica, e todas as canções giraram em torno desse conceito: “Throughout the Dark Months of April and May” é uma referência ao escuro inverno da região nesses meses; “Whales Tails” fala de rabos de baleia e “The Thinner in the Air”, dos ventos locais. O disco tem a colaboração delicada de Richard Thomas no saxophone e do pessoal do Dif Juz nas tablas (pequenos tambores tocado com as mãos). Nessa época começaram a ser rotulados como new age, por causa dos vocais peculiares de Liz e dos climas esparsos e etéreos da banda, o que não deixou a banda muito feliz. Robin chegou a dizer que new age era música feita por gente de mais de 50 anos e carecas. Para Simon, o rótulo apareceu apenas por causa de Victorialand, mas que new age era muzak, enquanto o Cocteau jamais soou como tal.

Para o próximo disco, resolveram ampliar seus horizontes: ao invés de um disco intiitulado Cocteau Twins, preferiam usar os nomes Simon Raymonde, Robin Guthrie and Elizabeth Fraser, ao lado do pianista Harold Budd. O nome do disco era The Moon and the Melodies. A idéia começou como um documentário de televisão, mas como viram que as músicas eram boas demais para servirem apenas como trilha de fundo, resolveram fazer um disco do grupo, acrescido de Budd, que mais uma vez colaboraria em um trabalho da banda como tecladista e compositor. Budd comparece com sons de teclado e piano que guardam uma forte influência musical de Brian Eno. Também enriquecem a sonoridade do disco a presença do sax e da bateria de Richard Thomas, do Dif Juz , nas faixas “She Will Destroy You”, “The Ghost Has No Home” e “Bloody and Blunt”, o que já havia acontecido no álbum anterior .Tudo isso combinado a guitarra de Robin e o vocal bem trabalhado de Liz, servem para criar aquilo que a banda denominaria “trilha sonora para os sonhos”. Todo o conjunto soa um tanto difuso, distante, como se realmente se tratasse de um sonho, até mesmo o piano, que parece estar sendo tocado embaixo d'água.

E se a banda era um tanto difusa e para alguns misteriosa, começaram a cercar o grupo para entrevistas, o que desagradava os membros do Cocteau. O mais intratável era sempre Robin que chegou a comentar: “Gostaria que as pessoas parassem de querer saberem sobre nossas vidas, o que gostamos, quem somos e que aceitassem os discos e pronto. Por que, raios, querem saber sobre minha filosofia de vida? Desde quando minha opinião é mais importante do que a dos outros?” Enquanto isso, lançaram mais um EP Love's Easy Tears, com três faixas: a faixa de mesmo nome, “Sigh's Smell of Farewell” (a minha preferida do grupo – Rubens) e “Those Eyes, That Mouth”. Posteriormente o EP seria relançado com a adição de outra canção, “Orange Appled”.

Nessa época o grupo havia construído seu próprio estúdio e ficavam horas trancados produzindo músicas, sem se importar com a morosidade das outras bandas. Robin: “ficar trancado dentro de um estúdio meses e meses não significa que queremos simplesmente fazer um trabalho diferente de outro, mas acontece que isso ocorre de uma maneira natural e acabam soando assim. Constantemente mudamos nossas atitudes e nos contradizemos, mas acho que isso é um hábito bem saudável.” Liz tentava explicar porque as letras soavam de maneira quase incompreensíveis: “nós tentamos colocar a voz bem alto na mixagem, para manter todos os efeitos longe, mas parece que sempre falhamos nisso.” Robin, discorda: “não há nada errado com a mixagem, efeitos ou a voz de Liz, é assim que ela soa. Isso quer dizer que as pessoas são incapazes de entender o que ela canta?”

Robin, Liz e SimonRobin mostra que apesar de não gostarem de falar de outros assuntos fora a música, confessou que gostaria de ter sido convidado para o projeto Artists United Against Apartheid, organizado pelo guitarrista Little Steven, colaborador de Bruce Springsteen, de 1986, contra o regime racial da África do Sul. Posteriormente, cederiam uma canção de Victorialand para a campanha dos direitos dos animais, e outra para a paz mundial, em 1993.
 “Música com mensagens têm sua hora e lugar e muitos podem e fazem isso melhor do que nós. Pegue o exemplo do Morrissey, que responde qualquer coisa porque tem grande conhecimento geral e o considero melhor falando do que cantando. Esse é um dos motivos que fazem as pessoas comprarem os discos dos Smiths, eles querem uma mensagem. Mas não é por isso que seguiremos a mesma linha”, explica Robin.

“Para mim está claro que as pessoas vejam nos títulos uma maneira de entender a canção, mas acredito que as capas também podem fazer a mesma coisa. Se um disco não mostra os nomes das músicas fica impossível dele ser publicado e evita que os jornalistas fiquem escrevendo 'aquela música que faz hum hum hum', essa merda toda. Em Treasure sofremos esse tipo de problemas ao dar nomes às músicas e no fim, desistimos e fizemos da maneira que achávamos melhor”, explica Liz.

Das quatro canções de Love's Easy Tears, apenas “Those Eyes, That Mouth”, não era tocada nos shows, embora “Orange Appled”, só tenha feito parte das apresentações, a partir de 1991. Em 1987, primeiro ano desde 1982 em que não houve um lançamento oficial do grupo, eles cederam a faixa “Crush” para uma compilação da 4AD, chamada Lonely is An Eyesore, coletânea que acabou sendo lançada aqui, também.

Em 1988, lançam o disco que seria considerado por muitos como o melhor de sua carreira, Blue Bell Knoll. Sei que isso é relativo, mas de fato esse foi o disco que obteve a melhor recepção da crítica e do público. Em uma enquete feita recentemente no site oficial da banda esse trabalho foi apontado pelos fãs como o melhor já lançado, seguido de Victorialand e Treasure. O título evoca uma antiga lenda celta sobre a morte. Somente aqueles que estão próximos da morte podem ouvir o som do blue bell (uma planta gramínea que tem florzinhas em forma de sino). Segundo alguns, a banda teria nesse trabalho sofisticado demais o seu som, apesar de que realmente esse foi até então o disco que soava melhor produzido. Isso é percebido à partir da primeira faixa, e que intitula o disco (e a minha preferida da banda – Beatrix), belamente introduzida por uma delicada seqüência de loops de piano e sintetizador, que acompanham uma melodia fluida e hipnotizante. Em outras faixas do disco aparecem combinações instrumentais diferentes e variadas, que soam ao mesmo tempo ricas e exóticas. As várias camadas de guitarras e baixo se aliam aos sons de xilofone, clavicórdio e marimba produzindo uma sonoridade rica, densa e fluida, conferindo um certo tom impressionista às melodias, evocando diferentes texturas e imagens. Esse disco traz algumas das mais belas e inspiradas canções do grupo: “Carolyn's Fingers” e “Athol-brose”. Esse foi o primeiro trabalho da banda produzido por uma major,a Capitol, além de ser o primeiro disco de estúdio lançado nos Estados Unidos.

Após o disco, o grupo tirou as primeiras férias desde o início da carreira. Robin e Liz ficaram curtindo a gravidez da cantora e o nascimento da pequena Lucy Belle. Simon casou e também virou pai com o nascimento de Stanley. O grupo investiu em um novo estúdio para trabalhar, em Twinckenham, ao sudoeste de Londres e que era conhecido por ter sido o famoso estúdio Eel Pie, de Pete Townshend, do finado The Who. A banda batizou a nova casa de September Sound, já que setembro foi o mês em que nasceram as duas crianças.

Paralelo à isso, Robin produziu vários grupos, como o Chapterouse, o Lush, o Veldt e Shellyan Orphan, enquanto Liz deu uma canja no primeiro disco-solo do bunnyman Ian McCulloch, Candleland, na faixa-título. Em 1990, lançam o novo disco Heaven or Las Vegas, que acabaria sendo o maior sucesso comercial da carreira do grupo.

Tal sucesso talvez se deva ao fato deste ser o menos experimental e mais acessível dos trabalhos da banda, o que não significa, em hipótese alguma que o grupo tenha aberto mão da inventividade sonora, contudo é um disco mais palatável para os padrões pop. É de fato o primeiro disco em que é possível entender claramente as letras cantadas por Liz. Na faixa de ritmo lento e monótono, "Fotzepolitic", ela canta: “Meus sonhos são todos mais ou menos básicos e endereçados, são sonhos de uma garotinha...” . As canções trazem impressões sobre a maternidade ("Road, River, and Rail"), a realidade e o estresse do dia-a-dia ("Wolf in the Breast"), amor ("Pitch the Baby") e trabalho ("Iceblink Luck"). As dez faixas que compõem o disco apresentam sonoridades diversas, que vão do hip hop em “Pitch the Baby” (que foi lançada em uma coletânea da Mute Records/4AD chamada Red Tape); suaves baladas como "Wolf in the Breast" e "Fifty-Fifty Clown"; e a beleza tépida e refinada de "Iceblink Luck" e da faixa título.

A interpretação de Liz ganha uma certa candura, talvez decorrente da maternidade. Mesmo apresentando texturas claras e brilhantes, aparentando ser um disco menos trabalhado que os anteriores, na verdade ele representa uma evolução em relação a exploração de novas tecnologias pelo grupo (especialmente por Robin, o mais ligado nessas experimentações), contudo as canções conseguem soar mais objetivas, coesas e despojadas.

Estranhamente, após o lançamento do disco, a Capitol e a 4AD resolveram lançar, em conjunto, ao invés de um single de trabalho da faixa-título, um novo título, contendo a versão do disco, uma editada e outra canção inédita, “Dials”, que foi usada como música inicial para os shows da turnê.

A turnê, aliás, foi a mais concorrida da carreira dos Cocteau Twins, com ingressos esgotados para todas as apresentações. Pela primeira vez seriam headliners (banda principal de um show) e, ainda assim, não queriam sair excursionando de maneira nenhuma. “Nós não queríamos fazer shows, mas estamos fazendo isso apenas porque há um novo álbum, mas enquanto fazíamos o disco ficávamos angustiados pensando que teríamos que tocar todas essas novas canções ao vivo”, explica Simon. Outro motivo para não quererem realizar apresentações era o longo tempo em que não tocavam certas canções. “Quando entramos em estúdio, gastamos mais da metade de uma tarde, arrumando um solo de guitarra de uma música, detalhes assim, e quando vamos tocá-las dois anos mais tarde, nem sempre conseguimos nos lembrar. Nós não ficamos ensaiando antigas músicas no estúdio como outras bandas que conhecem seu repertório de trás para frente. Não fazemos isso”, completa Robin. Para os shows na América, eles tiveram a companhia, primeiro do Mazzy Star, e depois do Veldt.

A banda percebeu que dificilmente conseguiria reproduzir o som do disco no palco, apenas com baixo, bateria, voz e tapes e que necessitariam de uma maior infra-estrutura. A solução foi a adição de dois novos guitarristas, Mitsuo Tate e Ben Blakeman. Efeitos e baterias eram executados por computadores e apenas na turnê seguinte, entre 1993/94 é que contratariam um baterista. A turnê encerrou, de forma apropriada, em Las Vegas, quando perceberam o quanto o paraíso (alusão ao “Heaven” do título) estava distante, por alguns motivos. O primeiro deles foi a declaração oficial de Ivo, avisando que o longo contrato com a 4AD estava terminado e que poderiam seguir o caminho que desejassem. Apesar disso, houve um certo constrangimento dos dois lados. Mas o maior problema era o de Robin com as drogas, que se tornava cada vez maior, adicionados a um racha interno que só fazia aumentar, embora ninguém comentasse. Apesar de todo sucesso e atenção da mídia, o grupo não estava mais feliz.

Em três anos, a única canção nova composta foi “Frosty the Snowman”, para uma revista de música, em 1992. Então a 4AD e a Capitol resolveram capitalizar em cima do hiato criativo e lançaram, em 1991, uma caixa contendo todos os inúmeros singles que o grupo gravara entre 1982 e 1990, e canções raras, sendo formada por dez cds.

Os anos de hibernação serviram para que Robin ficasse limpo em relação às drogas e que o grupo descansasse da pressão e começasse a trabalhar novamente em outras composições, que resultaria no disco Four-Calendar Café.

O disco foi lançado por um novo selo no Reino Unido, a Mercury Fontana, que veio até o Brasil assinar com o grupo, já que a Capitol era a represetante norte-americana do Cocteau. Robin explica melhor o ocorrido: “nós estávamos promovendo o Heaven or Las Vegas no Brasil, quando ficamos sabendo que algumas pessoas da Fontana queriam ir até lá para conversar conosco. Disse que poderiam vir, mas eles estão loucos se pensam que assinaremos só porque resolveram vir de tão longe para isso.”. O acerto aconteceu porque a gravadora resolveu deixar a banda totalmente livre para executar suas músicas da maneira que achasse melhor.

É o primeiro trabalho da banda após o término de um longo e estável relacionamento com a gravadora 4AD. Produzido e lançado pela Capitol Records em novembro de 1993, traz 10 faixas que foram gravadas e mixadas no September Sound, o estúdio da banda. É considerado o mais confessional dos seus trabalhos. Aqui o grupo preferiu investir mais no conteúdo que no estilo. Os temas oscilam entre as dificuldades do novo começo profissional e os problemas pessoais de seus integrantes. As canções expõem de forma bastante aberta essas questões, como nunca havia sido feito antes, quebrando um pouco a mística enigmática em torno do grupo. O disco conta com colaborações de estúdio de Lincoln Fong, além das guitarras adicionais de Mitsuo Tate e Ben Blakeman, e da bateria e percussão de Benny DiMassa e David Palfreeman. Canções como "Evangeline," "Bluebeard" e "Know Who You Are at Every Age" representam o contínuo esforço do grupo em tornar-se mais acessível em relação às letras e melodias, contudo, sem abrir mão da fluidez e do estilo ethereal que sempre caracterizou a banda. Ao mesmo tempo em que traz pops dançantes misturados a influência de country-music, como a faixa “Bluebeard” , apresenta canções com forte carga emocional e que expõem as dificuldades e sofrimentos individuais dos integrantes da banda, inclusive uma dos maiores problemas do grupo, a dependência de Robin em relação às drogas e o álcool; à exemplo de "Theft, and Wandering Around Lost","Oil of Angels","Squeeze Wax” e “Evangeline”, que traz um delicado arranjo de guitarras e teclado rítmico.

“Eu fui o último a perceber a que ponto chegaram meus problemas por causa das drogas. Não consegui me limpar rapidamente, demorei uns seis meses. Só resolvi parar com tudo isso quando me lembrei das pessoas que haviam morrido dessa maneira, como o Sid Vicious. Eu havia me tornado um problema.”

As letras de Liz surpreenderam pela maneira direta e até crua seus problemas e dando pistas que o casamento com Robin não andava bem, e não era apenas pela questão do abuso de aditivos químicos. Em “Evangeline”, Liz fala: “Não há como voltar para trás/Não posso evitar meus sentimentos/Não sou mais a mesma/Voltei a crescer”. Em “Bluebeard”, os sentimentos são ainda mais expostos: “Você é o homem certo para mim?/Está seguro disso? É meu amigo?/Ou está intoxicado de mim?/Por que você me maltrata ou trai minha confiança?”

“Percebi que sempre fui uma pessoa muito reservada e que constantemente crio uma máscara para os outros e só agora percebi o quanto fiz isso. Não sei dizer ao certo o que está acontecendo, mas espero que não signifique que não me permita fazer mais do que realizei em Blue Bell Knoll. Gosto de ter habilidade de fazer o que sinto vontade. Neste disco estou expressando ou falando das mesmas coisas, mas não estou aprisionadas nelas. Tudo é muito doloroso e as letras refletem são mais explícitas, embora não ache o termo explícito o mais correto. Penso que são mais pessoais.”

Fraser tenta explicar o motivo de suas letras serem menos abstratas do que no passado: “No passado parece que eu queria escrever e cantar letras que eu não entendia como se eu construísse novas palavras por haver uma resma delas que não tinha a menor idéia do que significavam. Mesmo assim queria usá-las porque me sentia capaz de me expressar sem dar a menor chance de me decifrarem.”

No outono de 1993, o grupo sai promovendo o disco levando um baterista e um percussionistas reais, convidando Benny DiMassa e David Palfreeman , que haviam trabalhado no disco, além dos já habituais guitarristas Mitsuo Tate e Ben Blakeman, e no palco, pareciam mais entusiasmados do que nunca. O grupo fez então algumas experiências totalmente estranhas: a primeira delas foi participar do programa “120 Minutes” da MTV onde Robin mostrou um visível desconforto. Depois participaram do programa “Tonight Show with Jay Leno”, onde tocaram “Bluebeard” com Liz brincando bastante com sua voz e Ben usando um vestido.

Durante a turnê Liz e Robin começaram a deixar ainda mais claro que as diferenças entre eles apenas aumentavam. Enquanto Liz dizia que queria cantar antigas músicas que não eram mais realizadas, Robin desdenhava o passado, dizendo que preferia aprender outras novas para ensinar ao grupo. Robin também começou a ter atitudes de um rock-star típico, reclamando do alto custo diário da excursão: “As antigas canções são ok, assim como as novas, mas na verdade, não me importo com nenhuma delas. Tudo que gostaria era de poder parar por uma semana e aprender outras, mas não podemos fazer isso, por causa do alto custo diário. Parece um choro bobo, mas essa turnê nos custa um sem-número de milhares de dólares por dia e nós estamos perdendo dinheiro com ela. O único dinheiro que entra atualmente para mim são dos royalties. Eu não ligo para salário, mas gosto de ter meu dinheiro como qualquer outro trabalhador, mas a verdade é que já faz 3 ou 4 meses que não tenho um como qualquer pessoa normal. Se fizéssemos apenas uma excursão pela Europa, os custos seriam bem menores e ainda ganharíamos, mas privaríamos nossos fãs na América. Estou tentando ser mais razoável com o tempo porque antigamente eu mandaria os fãs à merda. Então as pessoas compram o ingressos e damos exatamente aquilo que querem. Mas eu fico me perguntando se estou sendo sincero comigo e com a minha música ou apenas fingindo ser. Hoje tento fazer a coisa certa, enquanto no passado queria apenas realizar à minha maneira, que nem sempre era a correta.”

Após a turnê, em 1994, Liz teve uma crise nervosa decorrente de toda a pressão e também admitiu que seu relacionamento com Robin não tinha mais sentindo. Mais uma vez, Robin, Liz e Simon investiram em projetos pessoais, sendo o mais curioso realizado pela cantora, que participou de um disco nunca lançado: um disco de músicas do Pink Floyd com a London Philarmonic Orchestra. Enquanto isso, uma cantora chinesa, Faye Wong (Wangfei) regravou “Know Who You Are at Every Age” e “Bluebears” de Four-Calendar Café em mandarim.

Em 1995, os ânimos estavam mais serenados e o grupo resolveu fazer algo em que sempre foram mestres, um EP, que acabaram virando dois: Twinlights e Otherness. “Estamos bem melhores agora e foi bom esse pesadelo ter acontecido porque percebemos que se amamos alguém, não importa o quanto ela desça e você continuará a amando. É algo estressante, de fato, porque é um casamento entre três pessoas, mas ao mesmo tempo, muito prazeroso.”

Os EPs foram um processo natural, segundo Liz: “nós queríamos voltar a produzir e imaginamos que um EP, por ser mais curto que um disco seria o melhor caminho”. A opinião era compartilhada por Simon: “é um tipo de exercício. Escrevemos pequenas canções para ver onde queríamos chegar.”

Na canção “Rilkean Heart”, de Twinlights, inspirada no poeta alemão Rainer Maria Rilke, Liz canta sobre o amor e cita Jeff Buckley, cantor, compositor, filho de Tim Buckley e que morreria no ano seguinte, afogado. Muitos diziam que Jeff era a grande paixão de Liz desde que a separação de Robin acontecera, fato que ela jamais comentou, especialmente após a morte de Buckley. A única coisa que disse à epoca foi “é realmente algo cafone falar assim, mas eu estou me sentindo terrivelmente faminta por amor, e me sinto compulsiva com isso.”

A música acabou gerando um projeto novo. O cineasta Drik Van Dooren e desenhista gráfico Tomato resolveram fazer um curta-metragem em cima de “Rilkean Heart”. Mesmo sem o apoio da Mercury Fontana, o grupo bancou o projeto, rodado em 16 mm e Super 8, e que acabou ganhando o prêmio do Grande Júri no Festival de Cinema em Charleston, na Carolina do Sul.

Tudo isso faria que a gravação do último disco oficial do Cocteau Twins, Milk & Kisses, fosse realizado em uma harmonia de grande paz e alegria. Esse trabalho representa um retorno às raízes musicais do grupo. Estão presentes as antigas texturas e camadas de guitarras e voz, linhas de baixo, e as letras obscuras e ininteligíveis que tanto caracterizaram o grupo e fizeram a sua mística. Um exemplo é a faixa de abertura, "Violaine", uma espécie de rock'n'roll estilo Cocteau Twins, com uma linha de baixo funk e camadas de guitarra distorcida, acompanhadas da voz de Liz, que canta uma letra totalmente incompreensível, que seria uma espécie de brincadeira sobre mensagens ocultas em canções. "Half-Gifts" e "Rilkean Heart," que apareceram em um formato semi-acústico no EP Twinlights reaparecem em versões diferentes, mais eletrônicas. Merecem destaque as pérolas pop "Tishbite," "Calfskin Smack" e "Ups", além da faixa "Eperdu" que recria um clima fluido como ondas oceânicas, uma referência ao local onde o álbum foi escrito, na costa francesa (Eperdu é o equivalente em francês arcaico à expressão es perdu, "está perdido"). "Treasue Hand" mostra a banda de volta a sua melhor forma, uma bela canção construída sobre um clima sereno e contemplativo que encaminha-se lentamente rumo a uma tensão que explode repentinamente, em uma fórmula semelhante à canções anteriores da banda como "Donimo" (Treasure) e "Pur" (Four-Calendar Café). É um trabalho memorável, que ilustra a caminhada de um dos grupos mais criativo e inovadores das últimas décadas, e traz tudo que um bom álbum do Cocteau Twins pode dar: som hipnótico, onírico, embalado por vozes etéreas, sons líquidos e delicadas texturas sonoras.

Robin define a gravação desse trabalho como uma experiência prazerosa. Elas foram gravadas na ciidade de Brittany, na França, onde a nova esposa de Robin vivia. Segundo ele, foi a primeira vez na carreira em que os três trabalharam ao mesmo tempo em estúdio, já que no passado, cada um fazia sua parte em horas diferentes. “Quando líamos sobre a vibração dos outros grupos trabalhando juntos em um estúdio, achávamos isso uma grande besteira, porque para nós sempre foi extremamente alienante. E descobrimos que esses dois meses juntos, todos os dias foram muito agradáveis.” Simon fala que a melhor coisa do disco foi a rapidez: “Robin e eu escrevíamos uma canção e não precisamos ficar esperando que a musa eterna viesse visitar Liz para que cantasse.”

Uma última excursão mostrou a banda ainda mais madura. Com vários músicos no palco, entre eles um tecladista, a banda soou mais alegre do que antes, cantando vários clássicos da época de Garlands, passando por Heaven Over Heels e Treasure. Após o final das apresentações, eles ficaram livres do contrato com a Mercury Fontana e tiveram que negar que se separariam, dizendo que estavam felizes de terem saído da “grande máquina”. Fundaram um selo próprio, Bella Union, e de forma surpreendente, anunciaram em 1998, em meio às gravações de um novo trabalho, que iriam encerrar as atividades. Simon tenta explicar os motivos: “Sempre houve uma grande dificuldade desde a separação de Liz e Robin, em 1993. Foi um período duro, com excursões e pressão. Eles acabaram se tornando amigos novamente, mas logo arranjaram outros companheiros, o que gerou uma grande tensão. Talvez todos tivéssemos medo de ficar sem a banda e por isso, sempre conseguíamos criar um bom ambiente de trabalho. Todos queríamos deixar a Mercury e desde os tempos da 4AD sonhávamos com um selo nosso.. Começamos a trabalhar e estávamos perto do final, com 15 ou 16 novas canções e Liz já tinha colocado a voz em sete delas. Não sei o real motivo pelo qual ela resolveu partir, já que em duas semanas todas as canções estariam finalizadas. Foi um choque, pois eram coisas maravilhosas, com influências diversas. Enfim, nossa separação será um outro muito sobre a lenda acerca dos Cocteau Twins.”

Com a separação, o grupo deixou alguns legados. Em 1999, pela Bella, lançaram um CD duplo com gravações na BBC, entre 1982 e 1996, o BBC Sessions. Simon explica que fizeram o disco por acharem que tinham uma dívida com John Peel. São trinta faixas divididas em dois discos. Todas são músicas do Cocteau Twins, com exceção de Strange Fruit, uma cover de uma canção de autoria de Lewis Allan, de 1939, que ficou celebrizada nas vozes de Billie Holliday e Josephine Baker. Foi cantada por Liz em uma Peel Session em outubro de 1983. A única música inédita é a instrumental “My Hue and Cry”.

Em 2000 é lançado Stars and Topsoil, uma coletânea de 18 faixas, dos melhores trabalhos da banda gravados entre 1982 e 1990 pela 4AD Records. As faixas foram rigorosamente selecionadas pelos membros da banda e remasterizadas por Robin e Walter Coelho, um engenheiro de som e produtor brasileiro especializado em música eletrônica. O título da coletânea, que foi dado por Liz, sugere uma mistura entre bem e mal, céu e terra, talvez uma reflexão sobre as experiências boas e más, que grupo viveu nos seus 19 anos de carreira. Esta coletânea foi lançada no Brasil e continua em catálogo.
Após o término da banda seus integrantes continuaram produzindo musicalmente, ainda que de maneira esparsa, participando de colaborações com outros artistas e bandas. Simon ainda lançou um disco-solo muito elogiado chamado Blame Someone Else, em 1998. Logo após este lançamento Robin anunciou que voltaria a escrever novamente. Montou um novo projeto musical com a vocalista Siobahn De Maré (ex-Mono), chamado Violet Indiana. A primeira gravação do grupo foi o EP lançado em 2000, intitulado Choke, logo seguido do disco Roulette em 2001,dos singles Killer Eyes do mesmo ano e Cassino, de 2002. O novo projeto de Robin traz harmonias e texturas de guitarra muito próximas aos antigos trabalhos do Cocteau Twins, em meio a um pop com influências de cool jazz.

Quanto a Liz Fraser, fez participações vocais em trabalhos de diversos artistas. Mudou-se com seu novo parceiro, Damon Reece (membro do Spiritualized) em 1998 para Bristol, lar da cena trip-hop inglesa. Em 1998 participou do álbum Mezzanine da banda Massive Attack nas faixas "Teardrop," "Black Milk" and "Group Four", chegando a acompanhar a turnê britânica da banda. No mesmo ano participou da gravação do disco de Craig Armstrong, The Space Between Us, com a canção "This Love" . Em 1999 foi convidada por Peter Gabriel para participar de seu controverso projeto conceitual OVO, que tratava da comemoração da chegada do novo milénio. Liz aceitou e compareceu em duas faixas "Downside Up" e "Make Tomorrow". Também participou da gravação da trilha sonora de diversos filmes, entre os quais o britânico The Winter Guest e o americano In Dreams. Seus trabalhos mais recente são participações nas trilhas sonoras dos filmes O senhor dos Anéis: a sociedade do anel (Lothlorien (Lament for Gandalf)) e O senhor dos Anéis: As duas Torres (Isengard Unleashed).

Discografia

Garlands (1982)
Lullabies (EP, 1982)
Peppermint Pig (EP, 1983)
Head Over Heels (1983)
Sunburst and Snowblind (EP, 1983)
The Spangle Maker (EP, 1984)
Treasure (1984)
Aikea-Guinea (EP, 1985)
Tiny Dynamine (EP, 1985)
Echoes in a Shallow Bay (EP, 1985)
The Pink Opaque (1985)
Victorialand (1986)
The Moon and the Melodies (1986)
Love's Easy Tears (EP, 1986)
Blue Bell Knoll (1988)
Heaven or Las Vegas (1990)
Iceblink luck (single, 1990)
Heaven or Las Vegas (1991)
Box Set (1991)
Four-Calendar Café (1993)
Evangeline (single, 1993)
Snow (single, 1993)
Bluebeard (single, 1994)
Twinlights (EP, 1995)
Otherness (EP, 1995)
Milk & Kisses (1996)
Tishbite 1 (1996)
Tishbite 2 (1996)
Violaine 1 (1996)
Violaine 2 (1996)
BBC Sessions (1999)
Stars and Topsoil (2000)

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Brujeria - Narco-satanicos
Carcass - Keep on rotting in the free world
Fear Factory - Martyr
Kreator - Amok run
Darkthrone - Valkyrie

Beatallica - I saw her standing there
Iggy & The Stooges - Ready to die
Black Sabbath - God is dead

Bad Religion - True north
Suicidal Tendencies - Smash it!
Bad Brains - Youth of today
45 Grave - Child of fear

Máquina Blues - Esse Blues triste

The Strokes - Welcome to Japan
Suede - Snowblind
David Bowie - You feel so lonely you could die
My Bloody Valentine - Who sees you

Cocteau Twins - "Treasure"
- para Joanne Mota

# Ivo
# Lorelei
# Pandora
# Aloysius
# Donimo
# Otterley

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segunda-feira, 29 de abril de 2013

ABRIL PRO ROCK 2013

punk´s not dead
A edição de 2013 do já tradicional festival Abril pro rock aconteceu nos dias 19 e 20 últimos, sexta e sábado, no palco do Chevrolet Hall, simpática casa de espetáculos localizada exatamente na divisa entre os municípios vizinhos de Recife e Olinda. E eu, como faço todos os anos, fui lá conferir. É minha “peregrinação roqueira a Meca” particular. Porque é, geralmente, a única oportunidade que temos de ver por aqui, na região nordeste, grandes nomes, bandas clássicas e revelações da música independente dividindo o mesmo palco. E, nos últimos tempos, sempre com algumas atrações internacionais de peso.

Fui na sexta quase que exclusivamente para ver o legendário Television, que nasceu na efervescente  cena novaiorquina do final da década de 1970 – a mesma que nos legou nomes como Ramones, Blondie e Talking Heads - e já era pós-punk antes mesmo do punk existir como movimento. O “quase”, no caso, ficou por conta de Siba, de quem sempre gostei, seja no Mestre Ambrosio, na “Fuloresta” ou agora em carreira solo, mesmo que com ressalvas – achei o disco “avante” apenas mediano. Não de todo ruim, mas certamente irregular. Chatinho, para ser bem claro.

Não me arrependi. Até porque num Festival como o Abril pro rock as atrações não se limitam aos shows: há também as barraquinhas de souvenirs e a oportunidade de rever amigos que moram longe. Foi o que fiz, logo que cheguei – tarde, já que havia um temporal infernal no meio do caminho: percorri as barracas e comecei a colocar a conversa em dia, já que o que rolava no palco, naquele momento, não era nem um pouco atrativo para mim. Só depois de um bom tempo com aquela chatice como musica de fundo fui me interessar em perguntar a alguém de que se tratava. Era o Volver, uma espécie de Los Hermanos local. Já conhecia de outras edições. Nunca gostei. Na real, nunca consegui prestar atenção.

Television
Na sequencia veio o Television. Ótimo, não seria preciso esperar até o final. Palco reduzido -  tudo na frente - iluminação simples e direta. Sem muito papo, nem mesmo um educado e de bom tom “Boa noite”. Tomaram seus lugares e começaram a mandar brasa em seu som “anguloso” e cheios de improvisos, com as guitarras passeando pelas melodias, ora se encontrando e conversando, ora tomando rumos diferentes. Tudo devidamente marcado pela cozinha “jazzística” de Fred Smith, no contrabaixo, e Billy Ficca, o baterista - ambos egressos dos primórdios ao lado do guitarrista, vocalista e líder informal Tom Verlaine.  O outro “guitar hero”, Richard Lloyd, não está mais na banda. Em seu lugar, de chapéu coco e cavanhaque grisalho, temos Jimmy Rip – de quem nunca tinha ouvido falar mas que, soube depois, já trabalhou com muita gente grande e boa, tendo sido, inclusive, guitarrista e produtor do disco de duetos lançado em 2006 por Jerry Lee Lewis, “Last man standing”. Segura bem a onda, fazendo a cama para o “virtuosismo discreto” e refinado de Verlaine.

Television
Eu sei, é contraditório, mas é por aí. O Television é uma puta banda, mas sempre foi para poucos. É “Cult”. Não é música para grandes estádios, para levantar a “massa”. Tanto que a impressão que tive é de que o show caberia muito bem num teatro, com o público sentado. E, de preferência, calado – o que não aconteceu naquela noite. Sem conseguir assimilar a proposta sonora que emanava dos auto falantes, as pessoas pareciam aproveitar para tagarelar, o que atrapalhou um pouco nos momentos mais “intimistas”. Mas nada de mais. Nada poderia estragar aquele momento único. Nem os objetos jogados no palco, que provocaram alguns sorrisos irônicos em Verlaine e uma reação mais exaltada de Rip, que foi à beira do palco com o dedo em riste tentando encontrar o autor da afronta.

Billy Ficca
Entre uma musica e outra Verlaine mandava uns “obrigado”, em português, e era isso. Foi assim até o final apoteótico, com a faixa título de seu disco mais clássico, “Marquee Moon”, em versão estendida – sendo que a original de estúdio, quem conhece sabe, já é bem grande. E acabou. Menos de uma hora de show. (Quase) ninguém pediu mais, e eles não pareciam dispostos a voltar, em todo caso. Ficou um gostinho de quero mais, de “coito interrompido”, mas ok, tranqüilo. Já posso dizer que vi um show do Television.

De volta ao fundão, assisti de longe e desatento às demais apresentações. Posso no entanto afirmar, mesmo que superficialmente, que Marcelo Jeneci fez uma apresentação interessante, com arranjos “ousados” e um excelente acompanhamento de Laura Lavieri – aliás não entendo porque eles não se apresentam como dupla, já que a cantora participa de igual para igual em praticamente todas as canções, sendo solista em pelo menos uma, “Astronauta”, versão de uma musica de Roberto Carlos. Própria, mesmo que em parceria com Chico César, o paulistano tem pelo menos uma excelente composição: “Felicidade”, à qual já havia sido apresentado por Bela Raposo na programação da Aperipê FM.

Siba - e Thiago Babalu
E então veio Siba. Apesar da formação sui generis, com uma tuba fazendo as vezes de contrabaixo, e de algumas boas canções como “Ariana” e “Avante”, apenas confirmou a impressão que eu tive ao ouvir o disco: faltou inspiração nas composições. E, por conseqüência, faltou repertório para segurar um show inteiro, mesmo que em formato reduzido, com foram os do Abril pro rock. Foi chato, dispersivo. Só não fui embora porque fiquei hipnotizado pela perfomance de meu amigo de longa data, o sergipano Thiago “Babalu”, hoje radicado em São Paulo e membro efetivo da banda de apoio do pernambucano.

Retirei-me depois, aos primeiros acordes do Móveis Coloniais de Acaju. Não curto – e não agüento mais ouvir essa porra, já que o último disco deles, em dobradinha com o do Pata de Elefante (aí sim!), virou trilha sonora do Cinemark antes do início da exibição dos filmes. Tortura Chinesa perde.

Sodom
Voltei na noite seguinte, claro. A já tradicional “Noite das camisas pretas”, quando o capeta se torna Rei Momo e a capital do frevo e do maracatu se transforma numa espécie de sucursal do inferno! “Hellcife” virou de cabeça pra baixo, numa curiosa “inversão de valores”: enquanto as hordas de punks e Headbangers “from Hell” tomavam conta do nobre espaço do Chevrolet Hall, o Só Pra Contrariar, numa turnê de 25 anos com a volta de Alexandre Pires, teve que se contentar com o Centro de Convenções, que já abrigou várias edições do Abril pro rock. Uma “vingança maligrina”, como diria Bento Carneiro, o vampiro brasileiro.

(Uma curiosidade: segundo o Jornal Folha de São Paulo, os integrantes do Dead Kennedys, ao ficarem sabendo que havia um grande espetáculo de samba logo ali ao lado, fizeram questão de ir lá dar uma conferida, apesar da advertência do produtor Paulo André de que aquele não era exatamente um tipo de samba, digamos, tradicional. Se decepcionaram com o som pasteurizado dos pagodeiros românticos e foram embora depois de cerca de dez minutos.)

Vocífera
Muita gente na porta, filas enormes para comprar ingresso. Mas entrei a tempo de ver o final da apresentação da primeira entre as 10 (isso mesmo, dez !!!) atrações da noite. Era a Vocífera, banda local, de Pernambuco, composta só de meninas. Meninas mesmo – a baixista, que tinha pinta de ser menor de idade, quase some por trás do instrumento. Estão no caminho certo, mas “it´s a long way to the top/IF you wanna rock and roll”: ainda estão verdes, e deixaram transparecer a inexperiência no palco. Em todo caso, reafirmo: promete. Espero vê-las maiores e melhores daqui a alguns anos ...

Vocífera
Na sequencia entrou um daqueles Heavy Metal´s genéricos com um vocalista meio abobalhado forçando a barra na perfomance e eu fui visitar os amigos do fundão. Sempre muito bom rever camaradas como George Frizzo, de Fortaleza, Fernando Castelo Branco, de Teresina, Rogerio Big Brother e os Pastéis de Miolos, de Salvador, LA Nino, baterista do Câmbio Negro HC, lá mesmo do Hellcife, Pedro De Luna, do Rio de Janeiro, Evandro “Cigano Igor” e o grande Tulio DFC, que eu não via há pelo menos uma década. E conhecer, inclusive, alguns ouvintes do programa de rock, como o brother do Picos e Pistas skateborad. E, por fim, ficar babando nos discos de vinil que eu não estava em condições de adquirir – dentre eles um Neubaten em capa dupla que quase me fez cair em tentação – para minha sorte a banquinha do Big foi desmontada antes do final da noite e livrou-me do mal do consumismo. Amém.

No palco, uma banda chamava a atenção: Kataphero, do Rio Grande do Norte. Pesadão, meio industrial, meio Rammstein, inclusive no visual. Legal. Na sequencia, Fang, a primeira atração internacional da noite. Estão acompanhando o Dead Kennedys, por isso foram incluídos no pacote. Boa banda, Hard Core correto e energético made in California. Não conhecia, mas consta que são bem conceituados, tendo entre seu roll de admirados personalidades do quilate de Mark Arm, do Mudhoney, e o falecido Kurt Cobain, de vocês sabem qual banda.

DFC
E então veio o DFC. Tulio havia me dito que Paulo André confessou que os chamou de volta 18 anos depois para se ver livre da molecada que insistia em pedir a presença dos candangos bastardos. E eles vieram com tudo, cuspindo fogo e metendo o “pau no cu do capitalismo em posições obscenas” – singelo nome da primeira canção. Quase destruíram o palco e os tímpanos dos incautos, fazendo a alegria da “molecada 666” que abriu a primeira e maior roda de pogo da noite, transformada pela energia emanada dos alto falantes num verdadeiro “clube da luta”, para além da tradicional “ciranda cirandinha” sem muito confronto individual que costuma ser da tradição local. Estava mais para uma roda de punk baiano – na Soterópolis o bicho pega, sempre. Sei por experiência própria.

DFC
O show foi insano. Tulio é um grande frontman, e conduzia a massaroca (bem definida, o som estava bom) crossover com saltos quase ornamentais e saudações “maloqueiras”. Destaque para a homenagem a Brasilia em “Cidade de merda”, que eles compuseram durante as comemorações dos 50 anos de nossa distópica capital. No final, “Molecada meia meia meia” – “porque o capeta vai te pegar e vai te comer”. Foram cerca de 30 faixas extraídas de todos os (muitos) discos, que sempre têm títulos excelentes: “Igreja quadrangular do triângulo redondo”, “O mal que vem para pior”, “O massacre da guitarra elétrica” e “sob o signo de satã”. O próximo sairá em breve em vinil pela Laja Records e se chamará “Sequência Animalesca de Bicudas e Giratórias”.

Devotos
Depois foram os Devotos, que também estavam há um tempão longe da escalação do Abril – 12 anos, se não me engano. Dizem todas as línguas, boas e más, que por conta de uma antiga briga com a produção – o que se confirmou de maneira bastante contundente no palco, quando Canibal incluiu Paulo André no roll de execáveis da letra de “Devotos do Ódio”. “O que nós temos por Paulo André: ódio” foi uma afirmação, no mínimo, forte. Confesso que fiquei “de cara”.  Me deu a impressão de que algo ruim aconteceu nos bastidores específicamente naquela noite, pois havia um clima tenso no ar ...

Fizeram um bom show, mas ficaram um tanto quanto ofuscados pelo rolo compressor (DFC) que havia passado por cima da platéia. Platéia que, no entanto, não deixou de prestigiar um dos mais queridos representantes da cena local. Tiveram, também, a melhor produção de palco no quesito visual, com uma belíssima projeção de imagens que iam de colagens de matérias de jornal sobre os 25 anos da banda a esboços de desenhos, provavelmente do guitarrista e artista plástico Neilton. O som, no entanto, deixou a desejar – especialmente a guitarra, um tanto quanto “saturada” e sem peso.

Dead Kennedys
A sequencia “3D” terminou com a mais que lendária Dead Kennedys. Foi legal ver os caras que construíram um dos capítulos mais marcantes da história do punk rock e do rock and roll em geral ao vivo e a cores e em alto (nem tanto) e bom (também não, estava apenas razoável) som. Mas a verdade é que eu não consegui superar a falta de Jello Biafra. E olha que nem foi culpa do competente e esforçado vocalista Ron “Skip” Greer. Foi muito acusado de tentar imitar os trejeitos de Jello, mas acho injusto. Creio que qualquer um naquela posição, a não ser que se comporte como uma estátua inanimada – como HR nos últimos shows do Bad Brains – sofreria com a comparação. É que Biafra é daqueles que simplesmente não dá para substituir, mesmo que tenhamos por trás aquela mesma banda que gravou clássicos absolutos como “Frankenchrist”, “Plastic Surgery disaster” e “Bed time for democracy”.

Dead Kennedys
Pra piorar a situação, os caras pareciam estar na base do “qualquer nota”, meio desleixados na execução do repertório que, eu sei porque já vi em muitos vídeos, costumava ser, além de extremamente energética, também precisa. O baixista, Klaus Flouride, foi quem mais deixou a desejar. Como falou o camarada Marcos Braggato em seu Rock Em Geral, “com todo o respeito, está mais para a fila de benefícios do INSS do que para comandar uma horda de desajustados como a do Recife e arredores.” East Bay Ray também parecia estar ali apenas para cumprir tabela. Lamentável.

Mas o show não foi exatamente ruim. Foi apenas “fraco” – ou muito aquém do que se esperaria de uma banda deste porte. Em todo o caso, estavam lá os clássicos, tocados por East Bay, Flouride e DH Peligro – este último visivelmente empolgado e ainda bastante em forma, se comparado aos companheiros – e entoadas em uníssono pela platéia. Mas era foda: você olhava pro palco e queria ver Jello Biafra. Era inevitável. Sem ele, os Dead Kennedys não conseguem deixar de ser apenas uma banda cover de si mesmos – e nem chega a ser das mais competentes, diga-se de passagem.  

Krisiun
Fim de papo para os punks. Chegou a vez das Hordas do metal saírem dos fundos e se posicionarem na frente do palco. Porque o Krisiun estava ali. E fez aquele que foi, tecnicamente, o melhor show da noite – em minha humilde opinião, claro. E olha que eu nem sou um grande fã do estilo ou da banda em especial, apesar de ter gostado bastante de seus dois últimos discos. O som estava simplesmente perfeito. Inacreditavelmente perfeito. Certamente o melhor equalizado: tudo em seu lugar, perfeitamente audível e, agora sim, em alto (MUITO ALTO) e bom som. O trio infernal não deixou por menos: fez uma apresentação matadora, precisa. Não deixou pedra sobre pedra. Sua cover para “No Class”, do Motorhead, foi, pra mim, o ponto alto não apenas daquela noite, mas de todo o festival. Antológico.

Krisiun
O Sodom também foi muito bom. Trata-se de outro trio, só que alemão (O Krisiun é brasileiro, do Rio Grande do Sul). Formado em 1981, é uma daquelas verdadeiras instituição do metal, venerada por um seleto porém fiel séquito de admiradores ao redor do mundo. Nunca ouvi direito, confesso, mas ouço falar deles desde os meus primeiros passos na seara do rock “do mal”. E eles realmente não decepcionaram. Para que se tenha uma idéia da importância e do pioneirismo dos caras, foi abrindo para eles que o nosso Sepultura começou a se destacar mundo afora, na turnê de divulgação de “Beneath the Remains”.

Depois de cerca de 20 minutos de espera – foram os únicos a se atrasar – Tom Angelripper se posiciona no centro do palco em frente a um ventilador que deixa seus cabelos esvoaçantes – efeito que dura até que o suor começa a tomar conta das abundantes madeixas. Escudado pelo guitarrista Bernd Bernemann Kost e conduzido por um baterista cujo visual, de cabelos curtos e boné com a aba invertida, destoava do figurino metálico, passou a enfileirar clássicos da porradaria sonora que combinam execução simples porém precisa, agressividade e boas mudanças de andamento.  

Sodom
Ao som de clássicos como “Agent Orange” e “Remember the fallem”, seguiram o roteiro “maléfico” à risca até que, num dos momentos mais inusitados de todo o festival, para minha surpresa, o alemão começa a tirar no baixo uma melodia conhecida que não tem, a principio, nada a ver com o som que fazem usualmente. Custei a acreditar, mas quando ele começa a cantar não resta dúvida: O Sodom estava fazendo um cover de “Surfin´Bird”, dos Trashmen, imortalizada pelos Ramones! Por esta eu, realmente, não esperava! Conquistou minha admiração, definitivamente.

Encerrando a apresentação, “Angelripper” tira a suada camiseta do Tankard – outra cultuada banda de thrash metal alemã – que usou durante todo o show, joga-a para a platéia e se retira, com cara de satisfação e dando tapinhas na pança saliente.

E foi isso, senhoras e senhores. Ops! Não, ainda teve André Matos, encerrando a noite. Mas não pra mim. FUI!

Para finalizar, duas observações: A organização do evento foi impecável, fornecendo iluminação de muito bom gosto e som de qualidade para todas as bandas. Ou quase todas. Da luz não há do que reclamar, foi sempre perfeita, mas o som variou um pouco de um show para outro – nada que estragasse o espetáculo, mas é lamentável, em todo o caso. Não sei o que houve, se foram falhas técnicas do festival ou culpa das bandas, que teriam se atrapalhado com a equalização ou coisa do tipo. Não sei, não frequentei os bastidores. Sou público pagante. Nunca viajei credenciado nem “a convite da produção”.

E, por fim, tem a maldita BR 101, que continua praticamente intransitável em alguns trechos, com um fluxo pesado de caminhões em marcha lenta emperrando tudo. Fatura a ser cobrada de Dona Dilma, já que as obras de duplicação, que ironicamente fazem parte do PAC – Plano de Aceleração (???) do Crescimento – e resolveriam o problema continuam se arrastando a passos de tartaruga há já quase uma década, calculo eu. Isso porque Juscelino, o principal responsável por nos legar como herança este equivocado modelo de desenvolvimento baseado no transporte de passageiros e cargas em rodovias em detrimento das ferrovias, infinitamente mais apropriadas para países de dimensões continentais como o nosso, já morreu.

por Adelvan Kenobi

fotos: apr 2013 © Rafael Passos

mais tarde

 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Muito tempo longe

Com primeiro álbum de inéditas em 16 anos, Soundgarden consolida a volta ao mercado e deve, enfim, vir ao Brasil em 2013. Publicado na Billboard Brasil 36, de novembro de 2012.


1989
Quase três anos depois de anunciar o retorno, no revéllion de 2010, finalmente o Soundgarden lança um álbum de inéditas, o bom “King Animal”. Antes, a banda quis revirar o passado com a coletânea “Telephantasm” e com “Live On I-5”, disco gravado ao vivo com material antigo. As 13 faixas de “King Animal” quebram um jejum de 16 anos, já que “Down The Upside” praticamente decretou a separação do quarteto em 1996.

Nesse meio tempo, enquanto o vocalista Chris Cornell seguia carreira de altos e baixos, com quatro álbuns solo, os demais integrantes saíram de cena - à exceção de Matt Cameron, que continua dividindo as baquetas entre o grupo e o contemporâneo Pearl Jam. No fim das contas a separação parece ter sido até benéfica, já que os quatro - completam a banda o guitarrista Kim Thayil e o baixista Ben Shepherd - retornaram bastante participativos na feitura do novo disco, como conta Cornell nessa por telefone, de Los Angeles.

Ben Shepherd, o baixista
O vocalista também explica a demora para iniciar as gravações das músicas de “King Animal”; faz comparações do momento atual da banda com o passado; se surpreende com a instantaneidade do mundo virtual; e ainda promete que o Soundgarden, sempre cogitado para os festivais brasileiros, finalmente vem ao País em 2013. Será mesmo? 

“King Animal” é primeiro disco do Soundgarden em 16 anos. O que mudou nesse tempo todo?
É um gap muito grande. Eu já acho que o intervalo entre um disco e outro, de alguma forma, é sempre um momento de mudança de abordagem. Agora que tivemos um longo tempo para ensaiar e para tocarmos, vimos que estamos diferentes, há novos sentimentos rolando.

A reunião foi anunciada em 2010. Por que demoraram tanto tempo para lançar este álbum?
Não havia nada planejado com tanta certeza. Havia muitas coisas que queríamos fazer logo de cara: voltar com um site, reacender os fãs, trabalhar em merchandise. Isso foi a primeira coisa que fizemos, e então decidimos lançar coisas antigas, queríamos ver como funcionaria a ideia de trabalharmos juntos de novo. Só depois é que veio o negócio de fazer shows e também a possibilidade de compormos material novo. Mas é claro que queríamos isso desde o início, só não era o caso nem a situação de termos pressa. Precisávamos antes acertar as contas com a nossa história e cuidar do nosso legado. E o mais importante era termos paciência para fazermos músicas com inspiração.
De onde vem o título “King Animal”? Não aparece em nenhuma música do disco.
O Kim veio com esse título, baseado na arte da capa, que é muito elaborada. Essa foi a primeira vez que pensamos antes na arte do CD e depois nas músicas, e antes de o disco ficar pronto. Fizemos o título para funcionar junto com o visual e estamos superfelizes com ele.
A escultura da capa foi feita antes do disco?
Antes de finalizamos, sim, certamente. Estávamos no meio das gravações. O título é algo muito específico. Não é como quando o AC/DC dá o nome “Powerage” ou “High Voltage” e dá pra saber essencialmente o que é. No nosso caso há muitos aspectos diferentes nesse disco, não há um titulo que represente especificamente tudo o que acontece musicalmente em todas as faixas. Por isso o titulo é meio aberto, como “Superunknown” e “Louder Than Love” (álbuns de 1994 e 1989, respectivamente). “King Animal” sugere agressividade, mas também evoca coisas diferentes, lugares diferentes para ir, mentalmente falando.
Como vocês acham que esse disco se encaixa no mercado musical de hoje?
Eu não me importo com o mercado. A única coisa que o mercado musical fez por nós foi mostrar aquilo que devemos evitar. Nós estamos todos bem felizes com o álbum. Acho que é bom estarmos de volta, porque o que fazemos é algo que ninguém faz. Qualquer um pode ouvir esse disco e se sentir bem.
Com qual das fases anteriores esse disco mais se parece?
Eu sei lá (pensativo)… Talvez esse disco encerre uma trilogia, com o “Superunknown” e o “Down The Upside”. Há algumas músicas que soam como o Soundgarden do início, talvez a forma de compor. Nós realmente temos quatro compositores bastante participativos na banda, cada um com uma abordagem completamente diferente. Por isso é difícil dizer como um disco sai exatamente, o que é uma coisa muito boa. Toda música nova surpreende. Eu me lembro exatamente quando o Ben tocou para mim a música “Head Down” (do “Superunknown”) pela primeira vez. Eu parei e pensei: que sorte é ter isso! A maioria das bandas não trabalha assim, é tipo uma figura central que faz quase todas as músicas. E temos um baterista que compõe e traz músicas difíceis de tocar!
“Being Away Too Long” é a primeira música lançada desse disco, e o titulo é quase um cartão de visitas do retorno. Como rolou de essa música ser o primeiro single?
Mesmo que a letra não se refira especificamente ao nosso retorno como banda, acho que era óbvio, pela natureza da música, o feeling… tinha que ser o primeiro single.
É que é uma música mais pesada, com um riff forte. Muitas vezes músicas assim não são colocadas como single…
É verdade. Mas nós sempre tivemos problemas com singles. No “Superunknown” o terceiro single foi “Black Hole Sun”, que as rádios simplesmente tocaram, nós não tivemos escolha, e a gravadora queria colocar “Feel on Black Days”, que acabou saindo depois. O single nunca representa o álbum como um todo, porque há muito mais no disco. E agora é mais difícil ainda, porque as pessoas estão on line, conversando, fazendo comentários em blogs. E dizem o que elas acham, o que o disco vai ser, baseado em uma música. Dessa vez liberamos um pedaço de 40 segundos primeiro, e eu li parágrafos e parágrafos de pessoas descrevendo o que eles esperam de um disco e de uma música após terem escutado 40 segundos!
“Attrition” seria um single interessante, embora não seja uma música típica do Soundgarden, porque tem um sotaque mais pop.
Pode ser, sempre há a possibilidade. Para mim é uma boa música, mas as coisas não funcionam como antes. Hoje parece que para ser um single a música tem que seguir uma fórmula específica, de modo a agradar o pessoal das rádios, os produtores. Isso nunca fez sentido algum para mim. É por essas e outras que hoje o radio é algo totalmente desinteressante.
O guitarrista Mike McCready, do Pearl Jam, toca na música “Eyelid’s Mouth”. Como ele se envolveu nisso?
O Mike é um sujeito com o qual ainda saímos às vezes, é um rocker de primeira e poderia ter participado de mais músicas no disco.
Esse disco tem um naipe de metais em algumas músicas, o que não é comum na história do Soundgarden…
Já usamos trompete uma ou duas vezes, mas essa é a primeira vez que colocamos uma seção de metais. Na verdade achei que podiam ter ficado mais altos. É muito bonito o jeito de eles tocarem, gostamos desde o início, caiu perfeitamente nas músicas.
O Soundgarden é sempre esperado no Brasil, afinal quando vocês tocam aqui?
Sei lá, mas sei que temos que ir. Nas vezes em quando toquei (2007 e 2011) o público foi incrível. Na verdade sempre converso com fãs brasileiros o tempo todo e em algum momento vamos tocar por aí, possivelmente em 2013.
Você lançou um disco mais pop (“Scream”), em 2009, produzido por Timbaland. Como foi essa experiência? Pretende repetir?
Foi bem estranho. Mas foi bom no sentido de eu ter que mudar a abordagem na hora de compor e de fazer um disco. Foi tudo de um jeito que eu nunca tinha feito antes, então tive a possibilidade de fazer um disco único. Havia o mito da expectativa de eu fazer um disco “moderno”, mas era legal trabalhar em algo que eu não sabia no que ia dar, fora da zona de conforto. Foi uma boa experiência, mas por hora não pretendo repetir.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

rip Storm Thorgerson

Morreu nesta quinta-feira, 18, o designer Storm Thorgerson, conhecido pelo seu trabalho com o Pink Floyd. Ele tinha 69 anos e, segundo a BBC News, vinha batalhando contra um câncer na garganta há alguns
anos.

A família do designer declarou ele morreu de forma tranquila, em casa. Em 2003, Storm sofreu um enfarte, mas conseguiu se recuperar bem. Storm deixa a esposa e um filho.

Em um comunicado, Dave Gilmour, guitarrista e vocalista do Pink Floyd, afirmou que a arte gráfica criada por de Storm para a banda sempre foi uma “parte inseparável do nosso trabalho”.

O artista começou a carreira em grupos de design no fim dos anos 60. A amizade com os integrantes do Pink Floyd veio da infância – mais precisamente de Syd Barrett.

Em entrevista à Rolling Stone EUA, em 2011, o designer gráfico explicou o conceito da sua mais conhecida obra: a capa de The Dark Side of the Moon. “Eles não tinham realmente celebrado este lado. Isso era uma coisa, a outra era o triângulo. Eu acho que o triângulo, que é um símbolo de reflexão e ambição, foi muito sobre o assunto nas letras de Roger [Waters, baixista e principal letrista da banda]. Então o triângulo foi muito útil – como nós sabemos, obviamente – no aspecto de ser um ícone para transformá-lo em um prisma – e você sabe, o prisma pertencia ao Floyd”, disse.

Ele ainda confirmou que, entre as várias opções de capa, uma delas incluía um Surfista Prateado, como o personagem das histórias em quadrinhos da Marvel Comics. “Mas eles recusaram”, contou. Para a arte interna do álbum, veja bem, o Pink Floyd enviou Storm para o Egito, simplesmente para clicar fotos das pirâmides.

Storm também assina a arte gráfica de bandas como Biffy Clyro, Audioslave, Bruce Dickinson, Peter Gabriel, David Gilmour, The Mars Volta, Helloween, Megadeth, Muse e The Offspring.

O trabalho ao lado, "scrutinity", foi feito para uma banda não identificada que aprovou todo o processo e o resultado final, mas foi recusado pela gravadora por "falta de apelo comercial".

Certas coisas não mudam, nunca ...

Fonte: Rolling Stone

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