segunda-feira, 5 de novembro de 2012

# 248 - 03/11/2012

Quando a tropa de choque da Polícia Militar forçou os portões principais do Sesc Pompéia, não houve como os 3 mil presentes bloquearem a entrada. Os cassetetes agiram com a mesma agressividade dos acordes do punk rock e cerca de 25 jovens foram presos. Esse era o começo do fim das relações entre o movimento paulistano e os meios oficiais de comunicação.

Uma briga entre alguns punks da Vila Carolina e do subúrbio em plena Rua Clélia, nas proximidades do Primeiro Festival Punk, fez tremer a pacata vizinhança, que chamou a polícia. Após verificar a gravidade da situação (um show punk, com elementos punks, quanta ousadia!), os policiais trataram de algemar aquele que tivesse “mais visual”. Impedidos pela multidão, os oficiais convocaram o Choque. A ditadura ainda reinava naquele novembro de 1982.

Podiam ser os greasers de John Travolta, os motoqueiros de Marlon Brando ou os rebeldes sem causa de James Dean – que chamou seus inimigos de “punks” no filme Juventude Transviada (1955). Mas, por motivos históricos, as gangues da periferia de São Paulo encontraram nos punks europeus diversos pontos em comum. Além de fenômeno típico do início da juventude, o punk brasileiro vinha com um insuportável gosto de ressaca social na boca. O “milagre econômico” havia acabado e, no final da década de 70, o Brasil observava a inflação disparar e o desemprego se agigantar. E para os jovens pobres, sem trabalho, sem diversão, a marginalidade passava a galope.

No campo musical, as produções caras da MPB mitificavam o processo artístico e o rock brasileiro vivia na marginalidade. A música que vinha de fora também não ajudava. A discoteca e o rock progressivo se recusavam a entrar em contato com o mundo real daquela geração. De maneira niilista, seria preciso partir do zero.

Em princípio, o punk parecia apenas mais uma moda para as gangues que se espalhavam da Vila Carolina à Barra Funda. Até que chegou a coletânea A Revista Pop Apresenta o Punk Rock, em agosto de 1977, trazendo o novo som do Ramones, Sex Pistols, Jam. Pontos em comum foram descobertos ali: a insatisfação com o presente e a vontade de se desassociar da geração anterior. O som, simples e direto, era um convite para quem não sabia discernir entre um conservatório musical e um bistrô.

Em 1978, surgiram os pioneiros Restos de Nada, AI-5 e, pouco depois, Condutores de Cadáveres – era uma resposta brutalizada, típica da periferia, contra as discotecas, a MPB e o tédio. O palco para os grupos, curiosamente, era montado em “instituições” como escolas e sociedades amigos do bairro. No início dos anos 80, o cenário começou a ganhar terreno. A Rádio Excelsior transmitia o programa de Kid Vinil. As Grandes Galerias, no centro de São Paulo, ganhava a Punk Rock Discos, de Fábio Sampaio. O Largo de São Bento se tornava ponto de encontro daqueles garotos. Aos poucos, salões como o Construção (Vila Mazei) e O Templo (Pari), começaram a incluir o punk rock em suas programações. A cena cresceu com o nascimento de Olho Seco, Fogo Cruzado, Anarkólatras, Lixomania, seguidos de Cólera, Ratos de Porão e Inocentes. Era chegada a hora de agir.

Em 1982, Fábio Sampaio alugou um estúdio de oito canais da Gravodisc para que Olho Seco, Cólera, Inocentes, Anarkólatras e M-19 registrassem suas músicas. Tinham apenas 12 horas, divididas em dois períodos, para captar ao vivo toda a raiva e urgência daquela geração. Os técnicos do estúdio, habituados a artistas sertanejos, se assustaram com aquele ruído de serra elétrica que atrapalhava as sessões – eram os pedais de distorção. No confuso processo de captação, Anarkóltras e M-19 acabaram ficando de fora de Grito Suburbano.

A imagem dos punks retratada na mídia tinha a mesma distorção das guitarras, como a exibida na reportagem “Geração Abandonada”, do jornal O Estado de S. Paulo, que dizia que eles “assaltavam velhinhas no metrô”. Para a polícia, os punks eram os cabeludos de dez anos atrás. Mesmo assim, dois Antônios, o Callegari e o Bivar, decidiram organizar o festival que reuniria 20 das mais representativas bandas no Sesc Pompéia.

Além de escrever a mais romântica abordagem da cena brasileira no livro O Que É Punk, Bivar publicou a famosa carta de Clemente na revista Gallery Around: “Somos uma nova face da música popular brasileira. Relatamos a verdade sem disfarces, não queremos enganar ninguém. Procuramos algo que a MPB já não tem mais e que ficou perdido nos antigos festivais da Record e que nunca mais poderá ser revivido por nenhuma produção da Rede Globo”. Ele ficou fascinado com a vitalidade da cena brasileira, que se ligava ao levante punk’s not dead europeu. Faltava coroar 1982 com o Primeiro Festival Punk, apelidado “O Começo do Fim do Mundo”. Mas um incidente policial, no segundo dia do evento, minou o movimento. Um abaixo-assinado exigia o fechamento da Punk Rock Discos e a polícia instalou uma guarita na Estação São Bento do Metrô. De nada adiantou Carlos Drummond defender que “uma postura punk para nos salvar do abismo tem sua razão de ser”.

Em 1983, outra coletânea mostrava que o punk resistia. Produzida por Redson, do Cólera, Sub apresentava o Ratos de Porão, Fogo Cruzado e Psykose, além de sua banda. No início do ano, Inocentes, Lixomania e Ratos de Porão se apresentaram no Circo Voador, fortalecendo a cena no Rio de Janeiro, onde bairros como o Méier sediavam shows do Coquetel Molotov, Espermogramix e Descarga Suburbana. Em Brasília (Aborto Elétrico, Blitx 64), Recife (Trapaça, Karne Krua*), Rio Grande do Sul (Replicantes), Curitiba (Carne Podre, Contrabanda) e Salvador (Camisa de Vênus), o punk ganhou características próprias.

Em 1986, as grandes companhias descobriram o filão. Inocentes (Pânico em SP), pela WEA, e Replicantes (O Futuro É Vórtex), pela RCA, chegaram às prateleiras. A lição para o rock brasileiro, contudo, havia sido dada nos primórdios. Com sua tática de choque, o punk revelou o fosso que existia entre os artistas “sérios” da MPB e a nova geração. Gil ainda tentou abraçá-la com “Punk da Periferia”, em 1983, imaginando uma linha evolutiva, mas o roteiro não se confirmou. Para aqueles garotos não havia futuro (musical) que não fosse uma ação própria, rápida e direta, desvinculada de qualquer tradição.

Entre os articuladores do movimento punk desde os seus primeiros anos, Edson Lopes Pozzi foi o mais ativo. Guitarrista do Cólera, compositor, produtor, dono de selo, fanzineiro, apresentador, empresário – não houve área em que Redson, como era mais conhecido, deixasse de atuar seguindo o lema “Faça você mesmo”. Antes dos Racionais Mc’s, ele fazia do bairro paulistano Capão Redondo o quartel-general para o protesto da periferia.

Para Redson, vestir a camisa do movimento não siginificava ser radical ou sectário. Enquanto muitos punks se divertiam assustando as pessoas com a postura agressiva, seu grupo lançava Pela Paz em Todo Mundo (1986). As letras, marcadas pela esperança e pelo pacifismo, se diferenciavam do estilo “sem futuro” de seus pares de movimento. O disco vendeu cerca de 85 mil cópias, uma enormidade para o mercado independente, e serviu de gancho para uma turnê de mais de 50 shows pela Europa, no ano seguinte.

Nos Estúdios Vermelhos e depois na Ataque Frontal, Redson lançou e produziu títulos seminais do punk nacional, como a coletânea Ataque Sonoro e Tente Mudar o Amanhã, clássico disco de estréia de sua banda, ambos lançados em 1985. As boas relações com a mídia, outro trunfo raro entre os punks, gerou participações em programas de TV, além do convite da rádio paulistana 89FM para apresentar o programa Independência ou Morte na emissora.

* Erro, claro. Karne Krua NÃO É de Recife.

Luciano Marsiglia

super

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João Ricardo - Doce Doçura
Novos Baianos - Ferro na boneca
Raul Seixas - Como vovó já dizia
Sergio Sampaio - Eu quero é botar meu bloco na rua
Guilherme Lamounier - gb em Alto relevo

Johnny Cash - A satisfied mind

The Baggios - Pisa Macio (Acústico Aperipê)
Macaco Bong - Copa dos patrão

Câmbio Negro HC - programados pra morrer
Delinquentes - soterrados
Galinha Preta - Se o mundo não acabar ...
Leptospirose - Turismo de negócios em Águas de Lindoia
Infect - Todas temos
Discarga - Justiça divina
Olho Seco - Desespero
Os Cabeloduro - punk rock song (demo)
Jason - Ninguém se importa (demo)
Karne Krua - América Latina now (demo)
Cólera - Hei
Inocentes - Pânico em SP

Cactus - Song for Aries
Blue Cheer - Rest at ease
Led Zeppelin - Thank you

The Beatles - She´s leaving home
Manic Street Preachers - I´m leaving you for solitude
Peter, Bjorn and John - Failing and passing
Flaming Lips - The sound of failure

"The Clash", 35 Anos

# White man in Hammersmith palais
# London´s burning
# I Fought the law
# Career opportunities
# What´s my name
# Hate and war
# Jail guitar doors
# Garageland
# police and thieves

 

"Celebration Day", Led Zeppelin

A troca de olhares, sorrisos e expressões entre Robert Plant e Jimmy Page durante o show é o que mais chama a atenção no filme “Celebration Day”, do Led Zeppelin. Aquilo ali não é só entrosamento consolidado por anos de estrada, trata-se de uma cumplicidade de quem fez história no mundo do rock e se vê revirado, em pleno palco, por “milhões de emoções”, como disse Plant. Junto com John Paul Jones eles sentem um orgulho danado do pequeno Jason Bonham, filho de John, o baterista original do grupo, que viram nascer e carregaram no colo. Ele cresceu um bocado e hoje arrebenta na bateria, como bem fazia o pai. É difícil acreditar que esse show único, realizado há cinco anos, não tenha desencadeado o retorno do grupo, por mais enxuto que fosse.

A apresentação de 10 dezembro de 2007, na O2 Arena, em Londres, se deu para arrecadar fundos para a fundação que leva o nome de Ahmet Ertegün, renomado executivo com o qual o grupo trabalhou nos anos 70. Cerca de 20 mil pessoas lotaram a casa, depois de uma frenética procura por ingressos na internet. Ao todo, o Led Zeppelin ensaiou por seis semanas para o show, o primeiro, inteiro, desde o fim do grupo, em 1980. O grupo optou pela “redução” do palco, concentrando todos os instrumentos bem no meio, resultado numa proximidade típica de ensaios, e a coisa funcionou. Havia a temor de que algo desse errado, e a expressão de alívio a cada passagem acertada no meio das músicas é notável.

É de impressionar como Robert Plant consegue atingir as notas mais altas e sustentar os falsetes de 30 anos antes – e não são poucos –, ainda mais depois da turnê solo cambaleante que acaba de passar pelo Brasil (veja como foi). Em “Whole Lotta Love”, com todos os efeitos, ele esgarça a voz sem o menor problema e vai fundo em “Stairway to Heaven” (quem disse que eles não gostam de tocá-la?) com um fôlego surpreendente. É possível que a produção final do filme tenha corrigido alguns deslizes em estúdio, mas nem tudo pode ser maquiado numa mixagem, em que pese a péssima qualidade de som oferecida no cinema da rede Cinemark. Jimmy Page é o verdadeiro bruxo incorporado em um senhor de madeixas brancas e faz questão de incluir todos os apetrechos que colocou na história do rock. Estão lá, por exemplo, a guitarra double neck, na qual ele toca de verdade nos dois braços, não é só firula, e o arco de contrabaixo cuja performance recebe projeções de raio laser em forma de um tronco de pirâmide que envolve o guitarrista.

De certa forma, ainda que de maneira sutil, o show repete efeitos especiais que se tornaram a marca registra do Led Zeppelin e foram muito repetidos nos anos 70. É o caso da fusão de imagens de Page, como se ele estivesse frente a frente com si próprio, a ponto de as guitarras “colarem” umas nas outras. Ou da multiplicação de imagens, com sombras sem fim formando um arco atrás do guitarrista. Mas não são os efeitos que marcam o filme, e sim a simplicidade de deixar o show rolar por si só. É possível ver detalhes em close como o de uma corda “amassada” na guitarra de Page ou o pé de John Paul Jones controlando os pedais do teclado, mas – graças aos deuses – não há nada de efeitos multicâmeras; é a música que comanda as imagens, não o contrário. O repertório é enfático no auge do grupo, registrado no filme “The Song Remains The Same”, de 1976; metade das músicas é a mesma. A novidade é a ótima versão para “For Your Life”, música do álbum “Presence” que jamais fora toca ao vivo.

Há muitos grandes momentos no filme, como a já citada “Stairway to Heaven”, emblemática canção de uma época e símbolo maior da balada perfeita que começa lentinha e termina num esporro dos diabos. Ou ainda no final, com “Kashmir”, que revela uma excepcional performance conjunta do quarteto, mas sobretudo de Jason Bonham, que espanca seus tambores com técnica e criatividade à toda a prova. Ou “Black Dog”, rock pauleira dos bons, tocada como deve ser, com o indefectível riff da guitarra de Page. Mas o melhor de tudo no filme, com o perdão do clichê colocado de propósito, é o conjunto da obra. É ver o impossível: uma banda que parecia morta e enterrada, vivinha da Silva, numa apresentação a ser apontada como a melhor de um grupo de rock em muitos anos. Se você foi a um dos shows da atua turnê de Robert Plant e achou o máximo, precisa assistir a este DVD. É a única forma de descobrir que, definitivamente, uma coisa é uma coisa, e, outra coisa, é outra coisa.

O lançamento do DVD de “Celebration Day” acontece no próximo dia 19. O pacote é duplo, e, no Brasil, sai na edição standard (boxes 1DVD/2CD e 1Blu-ray/2CD); em CD duplo, com o áudio correspondente; e em edição digital. Clique aqui para ver o trailer oficial do filme.

NOTA (Adelvan): Aqui em Aracaju a primeira sessão, na terça-feira, foi praticamente abortada depois de um levante, quando mais da metade dos presentes (eu incluso) se retirou da sala de exibição e foi reclamar seus direitos à gerência. O motivo: o som. Péssimo, horroroso, sem condições. Começou baixinho e só aumentou depois de um coro de descontentes comandado pelo legendário baterista local Marcos "Odara". Aumentou mas não melhorou: o som saía, praticamente, apenas da parte esquerda do cinema, e uma das caixas estava "estourada", produzindo um barulho irritante semelhante ao de uma agulha arranhando um disco, até que finalmente sumiu tudo, menos a bateria. Ganhamos uma cortesia para uma das sessões 3D do cinema (grandes merda, mas ok, vou aproveitar pra ver "Frankenweenie", de Tim Burton) e a oportunidade de ver o filme de novo no sábado, sem custos adicionais, evidentemente, e com a promessa de um som decente.

Voltei no sábado. O som não estava decente, mas deu pra levar até o final. No mais, assino embaixo de cada uma das palavras acima, publicadas por Marcos Bragatto no Rock Em Geral.

Set list completo:

1- Good Times, Bad Times
2- Ramble On
3- Black Dog
4- In My Time Of Dying
5- For Your Life
6- Trampled Underfoot
7- Nobody’s Fault But Mine
8- No Quarter
9- Since I’ve Been Lovin’ You
10- Dazed And Confused
11- Stairway To Heaven
12- The Song Remains the Same
13- Misty Mountain Hop
14- Kashmir

Bis

15- Whole Lotta Love

Bis

16- Rock And Roll

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# 247 - 27/10/2012

No dia 27 de outubro os renegados do punk Dani e Ivo estiveram nos estudios da Aperipê FM para falar do show de lançamento de seu primeiro "full lenght", "Coração Metrônomo", que ocorreria logo mais, no Capitão Cook. Foram acompanhados da banda alagoana Necronomicon, que iria tocar na mesma noite e estava divulgando o lançamento de seu novo álbum, “The Queen of Death”. O disco foi lançado vinil colorido pelo selo americano Hydro-Phonic Records.

Queen of Death é o segundo álbum do trio formado por Lilian Lessa (guitarra e voz), Thiago Alef (bateria) e Pedro Ivo Araújo (baixo e voz), e é uma obra conceitual. Com roteiro no melhor estilo Weird Tales, conta a saga de um assassino intergaláctico que tem a árdua missão de viajar aos confins do universo para matar a tal Rainha da Morte que, aparentemente, é uma pessoa de péssima índole.

A bolacha foi prensada em seis cores diferentes (de vermelho sangue ao verde lodo-infernal) e o freguês fica a vontade para escolher qual  levar para casa. O disco já está a venda na loja da Hydro-Phonic, mas quem não quiser pagar o frete internacional ou esperar demais, pode entrar em contato direto com a banda no e-mail necronomicon_box@hotmail.com e encomendar o seu.

Para saber como foi o show em Aracaju, clique aqui.

A. + O Inimigo

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The Renegades of punk - Coração Metrônomo
IODO - Zeit

Necronomicon - Holy Planet Yamoth
Cathedral - The Guessing game
Black Sabbath - After All (the dead)
My Dying Bride - Like a perpetual Funeral

Necronomicon + The Renegades of punk
- Entrevista

Deep Purple - Lazy (japanese B-side)

plastique noir - Empty streets (urban requiens demo)
The Sisters of Mercy - Alice
Clan of Xymox - Tonight

Cocteau Twins - I wear your ring
The Gathering - Alone
Isobel  Campbell - Monologue for an old true love
Mazzy Star - Fade into you

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domingo, 4 de novembro de 2012

" NO MONEY NO ENGLISH ", Ratos de porão

Em vinil é melhor, porra! Não sou entusiasta fanático de nenhum formato de midia específico mas tive mais uma prova de que o bom e velho bolachão preto ainda é a melhor forma de se ouvir música ao pousar o braço de meu heróico e resistente 3 em 1 caseiro da Sony comprado em 1991 (nunca foi para o conserto!) no mais novo petardo lançado, apenas em vinil, pelo Ratos de Porão - "No Money, no english" - e ter meus ouvidos estuprados por uma onda sonora implacável e cristalina de peso e distorção ...

Trata-se de um LP duplo com sobras de estúdio e faixas ao vivo nunca lançadas, emoldurado por mais uma sensacional capa produzida pelo genial Marcatti - desta vez mostrando um pobre coitado sendo torturado num pau-de-arara com saco plástico na cabeça por um PM animalesco sob os olhos complacentes da igreja e do estado. Tinha decidido que ia comprá-lo assim que vi uma foto do dito cujo na página da Laja records do Facebook, mas diante do salgadíssimo preço de 100 pilas, estava hesitando. Acabei pegando na mão de Luiz Humberto, da Purgatorius records, por 90 conto (e sem frete, evidentemente) num show que rolou este mês em Capela, interior do estado. Só falta pagar ...

Abre com uma sensacional cover para "reaganomics/sad to be", que eu já conhecia de um tributo ao DRI que havia baixado em mp3, e foi justamente aí que se manifestou, em todo o seu esplendor, a diferença entre ouvir uma musica em formato digital via caixinha de som de computador ou em glorioso vinil, com caixas de som decentes e som no talo. Não dá nem pra comparar!

Continua com outro cover, com letra em português, da banda norueguesa Turbo Negro. Bem mais fraquinha, assim como a seguinte, uma composição prória nunca antes lançada extraída das sessões de gravação do disco "onisciente coletivo" - um dos mais fracos da banda. Finalizando o lado A do primeiro disco, dois petardos: mais um cover, desta vez inusitado, porque em castelhano e de um artista que, a princípio, não tem nada a ver com o Ratos - o poeta, cantor, compositor e ativista político chileno Victor Jara. Eles já haviam experimentado algo parecido no Tributo a Arnaldo Baptista, dos Mutantes, nos anos 80, e se saído igualmente bem. A última é "Stone Dead Forever", do Motorhead, que ficou boa, apesar do inglês sofrível do Gordo.

Abrindo o lado B, "Thaw", do Septic Death, com direito à inserção de um discurso virulento anti-político em português. Ótima. Depois de "Direito de fumar", uma ode à auto-destruição, uma sequencia de sons extraídos de uma demo de 2001. Razoáveis - uma delas tem um título estranho para uma musica do Ratos de Porão, "tenho medo de te perder". Fechando o disco, duas faixas das sessões de "Carniceria Tropical": "Bad Cake" e "Estaca zero" - nesta última há outro momento inusitado, um trecho em ritmo de bossa nova! Dá pra imaginar o Gordo cantando Bossa nova? Pois é, ficou bom!

O disco 2 se resume a gravaçoes "demo" de músicas já lançadas em "just another crime in massacreland", de 1993, e trechos de dois shows ao vivo, de 1992 (não diz onde foi) e 2000 (no Hangar, casa de show localizada em São Paulo, capital). Parece pouco, mas não é: a gravação da demo é muito boa, se brincar melhor até que a do disco em si. As músicas são todas em inglês, mas o Gordo parece ter feito um esforço para pronunciar melhor as palavras. E Ao Vivo, não há nem o que questionar: no palco, o Ratos é imbatível, especialmente quando executa clássicos do "naipe" de "Amazonia nunca mais", "Novo Vietnã" e "Agressão/repressão".

Chama a atenção a qualidade e unidade sonora do disco como um todo. Se as informações não estivessem registradas na contracapa, nem daria para notar que se tratam de sessões registradas em diferentes datas e fases da banda. Excelente trabalho de equalização e, imagino, masterização - neste caso, posso apenas imaginar, já que, infelizmente, não há nehuma informação quanto à produção do disco no encarte. Aliás, outra deficiencia: não há "encarte" propriamente dito, apenas uma capa dupla que, quando aberta, exibe as letras das musicas emolduradas por um desenho do ilustrador "Magoo". Já os rótulos foram produzidos pelo camarada Tulio DFC, de Brasília.

É um disco irregular e recomendado especialmente para os fãs, mas não deixa de ser um grande lançamento. Valeu cada centavo investido.

por Adelvan



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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

MARCELO NOVA X CAMISA DE VÊNUS

O tempo fechou entre Marcelo Nova e os membros remanescentes da sua banda original, Camisa de Vênus. O cantor baiano, residente em São Paulo há quase 30 anos, entrou com uma ordem judicial impedindo o grupo, reformado em 2010 com Eduardo Scott (Gonorreia) nos vocais, de gravar um álbum de estúdio com canções inéditas. O disco seria gravado com recursos (R$ 48.100) concedidos pela Secretaria de Cultura do Governo da Bahia (Secult), através do edital do Fundo de Cultura 2012, cuja lista de  contemplados foi divulgada no dia 15 de maio último.

Por telefone, Marcelo conta que, da última vez em que esteve na cidade, foi abordado por um garoto em um shopping: “Ele me perguntou se eu tinha visto ‘o que haviam feito com o Camisa de Vênus’. Ele me pediu para esperar. Aí ele volta com um CD com o logo do Camisa em uma capa de cartolina vagabunda e um CD-R com impressão que sai com a unha. Fiquei profundamente triste”, relata.

O CD em questão é o Mais Vivo do Que Nunca, lançado há pouco mais de um ano, com gravações ao vivo registradas durante a primeira turnê com Eduardo Scott. “O Camisa teve desde o início, fonograficamente falando, uma trajetória no mínimo respeitável. O último disco que o Camisa gravou (Quem é Você, 1996), foi coproduzido por Eric Burdon (lendário cantor da banda sessentista inglesa The Animals), mixado e masterizado em Los Angeles, com acabamento primoroso e qualidade técnica irrepreensível”, lembra.

A gota d’água para Marcelo foi a notícia do edital da Secult. “O Camisa pedindo dinheiro ao governo para gravar disco me envergonha. Ora, nós surgimos para se opor justamente a esse tipo de coisa. Como titular do nome, me senti na obrigação de tomar medidas legais para por os pingos nos ‘is’. Então, fiz uma comunicação de que haveria um impedimento”, detalha.

Marcelo afirma que não pretende utilizar o nome da banda para si, “embora eu tenha o direito. Estou em turnê solo, lancei o CD duplo ao vivo Hoje no Bolshoi, em DVD e  Blu-ray. O primeiro Blu-ray de um artista de rock brasileiro, diga-se de passagem”, comenta.

Mais, ele não fala. “Esse assunto está encerrado. Vi o que vi, não gostei e tive de tomar uma decisão”, conclui.

O que diz Gustavo Müllen

Do lado de cá, em Salvador, os atuais membros do Camisa de Vênus se dividem entre o silêncio e o pouco caso com o assunto.

“Se ele não gosta de ver o Camisa gravando com dinheiro do governo, por que ele toca no Sesc e na Virada Cultural de São Paulo? Tenho certeza de que esse dinheiro fosse concedido a Mr. Nova, ele gravaria tranquilamente. Na verdade, nunca tive nada contra o governo. Só não gosto do PT”, rebate o guitarrista Gustavo Müllen (ao centro na foto ao lado, de Victor Kaupatez), o único que aceitou comentar a questão.

"Mas não me sinto injustçado. Só acho cara de pau da parte dele dizer essas coisas. Por que na cabeça dele, tudo o que ele faz é bom e tudo o que os outros fazem é uma merda. Não vejo com bons olhos esse tipo de postura", disparou.

Para Gustavo, a intimação de impedimento impetrada por Marcelo “não tem validade legal”.

“Marcelo ainda não pagou o registro do nome Camisa de Vênus no INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial). E o documento que ele enviou está vencido. Minha mulher é advogada. Judicialmente, ele não tem validade”, afirma.

Gustavo achou errado Marcelo enviar o documento a Eduardo Scott e ao produtor que entrou com o edital na Secult, Marcos Clement – que afirmou ter se desligado da banda após saber da ordem judicial.

“O advogado dele é burro. Mandaram a intimação para Scott e Marquinhos, que nada tinham a ver com isso. Quem deveria receber essa intimação era eu e Karl.  Tava louco que mandassem pra mim. Eu ia perguntar em que quitanda ele se formou”, ri.

"A cara de pau de Marcelo está maior do que nunca. Na época em que começamos, o equipamento do Camisa fui em quem paguei, do meu bolso. Ninguém ali tinha dinheiro pra isso. E quando nos mudamos pro Rio, moraram todos as minhas custas. Ninguém tinha aonde ficar. Então fcamos todos no apartamento de minha ex-mulher, por um ano inteiro", relata.

Sobre o futuro da banda, Gustavo afirma que vai continuar tocando com o nome Camisa de Vênus “toda vez que me der na telha. E não vou tomar medida nenhuma. Vou continuar tocando no Camisa de Salvador, que é o legítimo”.

Quanto ao disco financiado pela Secult, ele foi evasivo: “Talvez sim, talvez não. Ainda vamos ver isso”, disse.

Percussionista tibetano e universo feminino  inspiram novo solo de Nova
 
Com o assunto do Camisa de Vênus encerrado – pelo menos, no que lhe diz respeito – Marcelo Nova concentra todas as suas atenções nas gravações de um novo álbum solo, com lançamento previsto para depois do Carnaval de 2013.

Aquecido após a calorosa recepção crítica para seu último CD de estúdio, o autobiográfico O Galope do Tempo (2005), o músico considerou  que, depois daquilo, “não tinha pra onde ir. O Galope foi um disco que meus fãs adoram. E eu achava que era um relato pessoal demais, que talvez não tivesse muita ressonância com o público, mas me enganei. Fiz a primeira tiragem, a segunda e agora uma terceira, remasterizado”, conta.

Dentro do estúdio com o filho, Drake Nova, nas guitarras e violões e o tecladista e produtor Luis de Boni, Marcelo pensava em gravar um álbum semiacústico, de baladas.

Até que o imponderável adentrou o recinto, na forma de um monge budista tibetano.

“Entraram no estúdio  seis caras, todos carecas, com instrumentos estranhíssimos. Todos com aquelas vestimentas laranja – na verdade, eles são laranja, as roupas só acentuam o tom cenoura da pele deles. Era um grupo do movimento Free Tibet, em turnê pela América do Sul”, relata.

Conversa vai, conversa vem, Marcelo consegue cooptar um dos músicos do grupo para gravar algumas percussões em seu disco.

“Chamei esse cara, o Goba Wanka, e  mostrei pra ele meu som. Perguntei se ele gostaria de adicionar percussão e foi isso. Ele sentou e gravou bateria em duas canções, além de uma percussão tibetana muito louca  em um punhado de outras”, conta.

"Ele toca um tímpano, chamado ocean timpani, todo artesanal, amarrado com couro, com oito ou dez baquetas diferentes. Quando você bate no centro do tímpano, ele cria uma sonoridade muito peculiar: reverbera e tem ao mesmo tempo um peso na acentuação do grave que é muito incomum", descreve.

Outra surpresa foi a performance do sujeito: "Sério, o cara voa dentro do estúdio tocando seu instrumento. É muito impressionante a forma como ele se entrega a música. Tem algo de devocional mesmo, não é normal. É coisa de monge mesmo", acredita.

O disco, que tem como tema central o sexo feminino, já se encontra 80% gravado.

“É a visão de um homem sobre o universo feminino. Tem belas love songs e grandes hate songs”, conclui, com uma gargalhada.

por Franchico

rock loco

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Edson Luís, uma entrevista

Por experiência própria, digo que as fitas cassete eram um problemão - enrolavam, oxidavam, acumulavam mofo e perdiam qualidade com rapidez. Mas nos anos 80 e parte dos 90, eram uma maneira ótima de disseminar a música e, para as bandas independentes, de se fazer ouvir sem desembolsar fortunas. Ainda assim, se para a maioria as fitinhas hoje não passam de memórias inaudíveis da adolescência, para Edson Luis de Souza elas são preciosidades dignas de ganharem a eternidade. Por isso, como cultuador do underground brasileiro desde a tenra idade - e do qual também fez parte como vocalista da lendária banda joinvilense The Power of the Bira -, ele tem se ocupado em tirar do limbo sua gigantesca coleção de cassetes digitalizando trabalhos de duas, três décadas atrás e postando-as nos blogs Joinroll (apenas com bandas de Joinville e região) e Demo-tape Brasil (dedicado a gravações de todo o País). Direto de Jaraguá, onde mora, Edson falou sobre a sua missão apaixonada.

Desde quando você coleciona fitas? Isso começou com o seu envolvimento com o underground e o Curupira?
Edson Luis de Souza
- Começou em 1987, cinco anos antes de o Curupira abrir. Esse conceito de demo-tape era muito vago ainda, pois as primeiras fitas não tinham capas. Era tudo escrito a caneta. Lembro que a turma que tínhamos no bairro Glória juntou grana para comprar uma demo do Tensão Superficial. Imagina o nível da dureza do pessoal: juntar dinheiro para comprar uma fita. É a mesma fita que hoje pode ser baixada na internet e que ajudou o pessoal a se interessar novamente pela banda. A fita cassete do show da banda Cólera no extinto Baturité, em 1987, é outro exemplo. A converti cerca de 15 anos atrás e hoje ela faz parte da discografia da banda. Pode verificar na Wikipedia.

Você tem ideia de quantos cassetes tem? Ainda os escuta?
Edson
- Tenho cerca de mil fitas demo. Se considerar que em muitas delas há mais de uma gravação por fita, deve dar em torno de umas 1.400. No blog, na semana passda, chegamos a 110 demos digitalizadas, então, nesse ritmo, tem material para mais dez anos de blog sem repetir nada. Na realidade, eu não ouço mais, e explicação tem a ver com o equipamento. Esses tape-decks (reprodutores) estão virando verdadeiras raridades. O que eu tenho hoje uso para realizar as conversões e não sobra muito tempo para diversão.

Em torno de 90% das minhas fitas ficaram imprestáveis com o tempo. Como você fez pra preservar as suas?
Edson
- As minhas também sofreram com tempo, só que em níveis diferentes. Nesses dois anos que estou fazendo esses trabalhos de conversão seguidamente, reparei que certas marcas e tipos de fitas (normal, cromo, etc) têm diferentes níveis de deterioração. Como essas fitas precisavam ser baratas, as bandas procuravam o menor custo possível da mídia (a fita em si). Fita barata é o mesmo que fita de baixa qualidade. São essas que me causam maiores problemas atualmente, pois sujam o cabeçote de leitura constantemente e prejudicam a qualidade da reprodução. Daí só o cotonete com álcool resolve. Essas fitas que tenho ficavam na nossa loja, a Abrigo Nuclear. Quando a loja fechou, em 2002, eu as trouxe para casa e guardei dentro do baú de uma estante. Ele tem portas que evitam o pó e mantem um certo controle da umidade. Cuidei também para manter televisões e auto-falantes longe, já que os campos magnéticos são fatais para as fitas.

Parece que os cassetes estão ficando cult, tipo os LPs...
Edson
- Formatos são formatos. Hoje existe o mp3 como formato supremo. Até o CD já caiu em desuso, e já faz tempo. Ninguém precisa ficar refém de formatos. Sou contra isso. Gosto das artes das capas, das imagens. Quando iniciei o blog, já usei isso como regra. As artes teriam que ser reproduzidas também. Tenho também todos os meus discos de vinil e nunca vou me livrar deles. As capas dos discos de vinil são fantásticas. As pessoas costumam abandonar esses formatos com o advento de novas tecnologias. A minha visão é agregar, e não substituir. Esse retorno forte do vinil é uma resposta à mentira de que o CD seria eterno. Foi uma grande mentira da indústria fonográfica nos anos 90. Tenho CDs que não tocam mais devido à oxidação. Agora, o que me preocupa mesmo com esses revivais de cassete e vinil são os equipamentos, cada vez mais caros e raros.

Como surgiu a ideia do blog Demo-tapes Brasil?
Edson
- Eu já fazia algumas conversões para uso particular. Conheço bem o processo. Comecei a fazer o Joinroll em maio de 2010. Como as minhas fitas das bandas da região estavam misturadas com as das bandas de outros Estados, essa seleção reviveu lembranças boas de outras grandes gravações presentes nessa minha coleção. Comecei a procurar algumas específicas, de grande interesse meu em ouvir novamente, e fui me frustrando porque não achava nada. Aconteceu com Concreteness (SP), com Náuplio (BH), Waterball (SP) e por aí. No bom e velho estilo "do it yourself", pensei: 'Se ninguém fez, faça você mesmo!'. Ai aos poucos, com grande dose de paciência as conversões foram saindo e o boca-a-boca da internet foi aumentando. O blog está tendo boa repercussão, principalmente no Facebook. As pessoas com interesses comuns, principalmente com a nossa idade (30 anos pra cima), ajudam a divulgar os links e podem novamente a ouvir esses grandes trabalhos que estavam “aprisionados” no mundo analógico. Estou tendo também um cuidado em não me prender muito a estilos. O blog está bem eclético. Tem de tudo para todos os gostos.

Você continua recebendo - ou procurando - material nesse formato?
Edson - Recebo muitas doações de pessoas com o senso da importância de se preservar essas gravações. Fico muito feliz quando alguém me procura oferecendo suas fitas. A maioria dez que não tem mais onde ouvir, mas não gostaria de jogá-las fora. Sabendo do trabalho responsável e histórico que estou fazendo, eles ficam felizes ao saber que as fitas estão em boas mãos. Se você tem fitas em casa e não usa mais, me procure. Por favor, não jogue fora!!

Por que esse período dos anos 80 e 90?
Edson -
Foi o período mais fértil para o formato no Brasil. Foi quando os equipamentos começaram a ficar mais acessíveis e realizar gravações deixou de ser um luxo. Claro que em diferentes níveis. As bandas que tinham dinheiro alugavam um estúdio profissional e as que não tinham juntavam equipamentos com os amigos, alugavam uma mesa de som e faziam gravações caseiras. Na virada do século, os gravadores de CD se popularizaram e ficou mais viável lançar as gravações em CD. Naturalmente, o formato da fita cassete caiu em desuso dos anos 2000 para cá.

Alguém de banda das antigas procurou vc por causa do blog?
Edson
- Sim, direto! Acho incrível nem as bandas terem suas gravações. É a sua história! O que você vai deixar para as próximas gerações? Não é viver do passado, mas compreender sua importância. Isso tem que ser disponibilizado! São as origens do heavy metal nacional, do punk/hardcore, do psychobilly. Essas origens, antes até dos discos, são os cassetes que as bandas gravavam para mostrar suas músicas para os selos independentes, para as gravadoras. Essa visão me fez digitalizar todo o material que tinha de minha antiga banda, The Power of the Bira, e também fazer um site com esse material. Vi que fui muito relaxado com a história da banda. Critiquei bandas que não davam importância a isso e estava fazendo o mesmo. Incoerente. Espero um “lugar no céu” depois dessa.

Você teve alguma surpresa durante esse garimpo por causa do blog?
Edson -
Sim, a cada semana acho algumas preciosidades. A mais atual é uma gravação da banda Dead Fish, com data desconhecida, quando a banda só cantava em inglês. É inédita e antiga, talvez anterior ao primeiro disco da banda. Achei também uma demo da mineira Pato Fu. Está sem capa, então, ainda estou decidindo se vou lançar assim mesmo. Não gostaria. Essas gravações normalmente vêm em lados b das fitas e muitas vezes nem têm citações. Só vou descobrir se tocar a fita inteira. É o bom desse meu trabalho.

Tem muita coisa ainda pra digitalizar e postar?
Edson
- Em casa tem bastante, mais de mil demos para digitalizar, fora as doações, que não param de chegar. Como citei acima, tem material para uns dez anos de trabalho ainda. Em vídeo, tem muito material também. Temos todo o festival Juntatribo 2, que aconteceu em 1994, em Campinas, com shows completos de Planet Hemp, Oz, Garage Fuzz, Loop-B, Pinheads, Killing Chainsaw, Relespública, Concreteness, etc. Temos também vários shows realizados na região, principalmente nos primórdios do Curupira Rock Club. Aí entram bandas de Santa Catarina e de outros Estados.

por Rubens Herbst

orelhada 

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Uma viagem a Yamoth, o planeta sagrado da rainha da morte ...

Minha amiga Catarina Cristo uma vez falou uma coisa que não me saiu mais da mente: “o rock me emociona”. A mim também. O rock e, também, o talento, essa coisa misteriosa que parece aflorar do nada em pessoas aparentemente abençoadas pelos deuses desde o berço.  Thomas Edison dizia que talento é 1% inspiração e 99% transpiração. Entendo o que ele quis dizer: que por trás de uma obra bem executada há sempre muito trabalho acumulado. Mas que há quem parece ter nascido para ser Mozart e quem vai morrer sendo Salieri, isto há! Como explicar Jimi Hendrix, por exemplo? Apenas como fruto de treinamento exaustivo? Acho que não. Imagino quanto gente já praticou o dobro que ele e não chegou a uma fração de sua genialidade ...

Sábado passado eu tive mais uma demonstração de talento explícito, em estado bruto. Foi no bom (mais ou menos, né) e velho Capitão Cook, encerrando a noite de lançamento do disco “Coração Metrônomo”, da Renegades of punk. Para o azar dos incautos que foram embora mais cedo, três guris (não sei qual a média de idade deles, mas não parece passar dos vinte e poucos anos, senão menos) sacaram de seus instrumentos na, esta sim, boa e velha formação básica do rock, um Power trio, e foi como se os espíritos de Jack Bruce, baixista e vocalista do Cream, Tony Iommy e Bill Ward, respectivamente guitarrista e baterista do Black Sabbath, baixassem misteriosamente à nossa frente ...

Pedro Ivo, Thiago Alef e Lillian Lessa formam a Necronomicon, banda alagoana de rock pesado com forte influência dos sons emitidos nos anos 60 e 70 pelos nomes supra-citados, além de generosas pitadas de rock progressivo e, nas letras, do que foi escrito pelo mestre do horror H. P. Lovecraft. São, acima de tudo, muito talentosos, mas tem mais: são “do rock”, como fica evidente na entrega com que executaram suas longas composições nos cerca de 60 minutos de apresentação madrugada adentro - com direito, inclusive, a um espetacular solo de bateria e a uma divertida intervenção de um figura magrinho e perfomático que, pelo que entendi, é o “manager” deles. No “recheio”, um excelente “set” composto apenas de músicas próprias, a maioria de seu segundo disco, “The Queen of Death”, a ser lançado em breve em glorioso vinil.

A perfomance do trio foi tão perfeita que fica até difícil destacar algo. Pedro, que além de cantar e tocar baixo é uma espécie de líder informal do grupo, é acompanhado por Thiago, igualmente brilhante na tarefa de espancar sem dó nem piedade as peles da bateria, e por uma garotinha aparentemente tímida e introspectiva que se comunica basicamente através de riffs poderosos e soturnos. O nome dela é Lillian, mas resolvi rebatizá-la como Antonia – Antonia Iommy. Sensacional! Se já chegaram a este nível em inicio de carreira, é de se imaginar o que pode vir por aí, caso persistam e não se deixem abater pelo estruturalmente raquítico e desestimulante cenário independente brasileiro. Em todo o caso, posso afirmar sem medo que Alagoas já tem mais um nome com potencial para ser registrado na história das grandes bandas do rock nacional, ao lado do Mopho ...

Foi foda! Quem perdeu esta segunda oportunidade de vê-los (já haviam se apresentando por aqui no inicio do ano durante o carnaval, no festival Grito rock) tem a obrigação, a partir do momento em que lê estas mal traçadas linhas, de se arrepender amargamente. Corra atrás e ouça, mas saiba que ao vivo é ainda melhor - mesmo sem a presença dos teclados, que criam belissimos climas nas gravações de estúdio.

Antes, tivemos os anfitriões da Renegades executando seu punk rock nervoso e energético sob o brilho de luzinhas de pisca-piscas natalinos usados para decorar a bateria e os pedestais dos microfones – grande sacada. Simples, bonito e eficiente. Como a banda em si, aliás. Também difícil destacar algo, mas eu chamaria a atenção para a versão de “o inimigo”, das Marcenárias, e para a tiara de oncinha e a glamourosa guitarra azul brilhante de Daniela, que a toca com uma energia e desenvoltura desconcertantes. Excelente!

Abrindo a noite, Alunte. Banda nova, primeira apresentação. Precisam amadurecer, claro, e isto só acontecerá com mais experiência de palco, mas mandaram bem, com um som potente que remete ao grunge dos anos 90, tanto na forma quanto na execução, desencanada e desleixada. Rock, enfim.

Fim.

A.

Chuck Berry, American Music Master.

"Meus dias de cantor passaram", diz Chuck Berry

Homenageado do Hall da Fama do Rock lamenta seus problemas de saúde e elogia Barack Obama.
 
Chuck Berry fez algo raro: concedeu uma entrevista. Visitando Cleveland para aceitar o prêmio American Music Masters do Hall da Fama do Rock, o músico de 86 anos se encontrou com os jornalistas no escritório do museu antes de conhecer a exibição que celebra a sua vida. 
 
Sentado ao centro de uma mesa de conferência entre seu amigo Joe Edwards e seu filho Charles Berry Jr., vestindo um chapéu de capitão e uma jaqueta do Hall da Fama do Rock, Berry se mostrou humilde, revelador e divertido. “Deixe-me fazer uma declaração”, ele disse, no início. “O fato de eu ter ficado 48 anos na frente da bateria tem tido um efeito nos últimos quatro meses, que é um soluço toda a vez que eu falo a verdade”. E a sala explodiu em risos.

Em dado momento, a Rolling Stone EUA perguntou a Berry o quanto o país evoluiu desde que ele começou a tocar em lugares segregados no sul do país. Berry refletiu por um momento. “Eu nunca pensei que um homem com aquelas qualidades, características e tudo o que ele tem, [poderia] ser nosso presidente”, disse ele. “Meu pai dizia: ‘Talvez você não viva para ver esse dia’, e eu acreditei. Graças a deus eu vivi”. Berry parou por alguns segundos enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas. “Desculpem-me”, ele disse.

O momento mais emocionante foi quando ele discutiu seu próprio futuro. Explicando que não ouve bem, o ícone do rock se virou para o amigo Edwards. “Se você não se incomodar, Joe, pode explicar [as perguntas] para mim porque estou ouvindo muito pouco. Estou pensando no que vai ser o meu futuro”, ele disse, levantando o dedo. “Isso é uma novidade!”

Os jornalistas pediram que Berry explicasse mais. “Bom, eu vou dar a vocês um pouco de poesia”, ele disse. “Dar uma canção? Eu não posso fazer isso. Meus dias de cantor passaram. Minha voz se foi. Minha garganta está gasta. E meus pulmões se vão rápido demais. Acho que explica tudo.”

O jornalista do St. Louis Post Kevin C. Johnson argumentou que as pessoas ainda pagam para ver Berry mensalmente no St. Louis’ Blueberry Hill. “Deixe-me lhe dizer o que é isso”, disse Berry. “Eles têm um ótimo momento de lembranças. E eu espero que eu continue melhorando a memória deles, porque ela parece muito fraca, como eu disse, entendeu?”

por PATRICK DOYLE
rolling stone 
 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

# 246 - 20/10/2012

The Meteors disputa com o Cramps o honroso título de banda fundadora do "psychobilly" - uma espécie de rockabilly com pegada punk e temática mórbida. Na verdade não disputa: Cramps perde por WO, já que se recusava a se rotular como tal. E, na verdade, seu som estava muito mais para o garage rock que para o que se convencionou chamar posteriormente como psychobilly. O programa de rock do último sábado abriu com um cover dos Meteors para "paranoid", do Black Sabbath. A faixa está no novo disco deles, "Doing the Lords work" /// Também nova é a cover do Laibach para "Ballad of a Thin man", de Bob Dylan. É uma das faixas inéditas da nova coletânea dos eslovenos, "An introduction to" /// Quando perguntaram numa entrevista do Laibach se eles se incomodavam em estar sendo “copiados” pelo Rammstein, eles responderam: “O Laibach não acredita em originalidade. Portanto, não há muito que eles pudessem ‘roubar’ de nós. (…) De todo modo, hoje nós dividimos o território: o Rammstein parece uma espécie de Laibach para adolescentes e o Laibach é um Rammstein para gente grande.”

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(*) A Eslovênia é um país pequeno até para os padrões europeus, com área menor que a de Sergipe e pouco mais de 2 milhões de habitantes. Encravada entre a quina oriental dos Alpes e o Mar Adriático (você acertou: a paisagem é de tirar o fôlego!), formando uma cunha entre a Itália e a Áustria, fez parte desta última durante mais de 600 anos. Mas apesar de a influência austríaca ser obviamente muito grande após uma ocupação tão longa, os eslovenos não são um povo germânico: sempre foram e ainda são um povo eslavo, aparentado mesmo é com seus vizinhos croatas, com os sérvios e búlgaros, e mais distantemente com os tchecos, poloneses e russos. A Eslovênia costuma ser confundida com a Eslováquia (com a qual nem faz fronteira), o que deixa os dois povos furiosos, embora os dois nomes de fato queiram dizer exatamente a mesma coisa: “terra onde vivem eslavos”. Mas o nome é recente: até 1918, a Eslovênia era uma província do Império Austro-Húngaro chamada “Carníola”. O nome “Eslovênia” tinha sido cunhado poucas décadas antes, por um movimento nacionalista, justamente para enfatizar a identidade eslava do país, dominado durante séculos por um povo germânico.

Depois do colapso do Império Austro-Húngaro na I Guerra Mundial, durante a maior parte do século XX a Eslovênia foi parte da Iugoslávia, sendo uma das seis repúblicas que constituíam aquele instável país que só existiu por poucas décadas. A Iugoslávia era uma colcha de retalhos frágil demais, mantida unida em torno de apenas um homem, sua mão de ferro e seus ideais pan-eslavos um tanto megalomaníacos: o marechal e ditador supremo Josip Broz, apelidado de “Tito”. Quando este morreu, em 1980, a Iugoslávia começou a se desintegrar, e em 1991, a Eslovênia foi a primeira república a pular fora, numa curta guerra de independência em que um pequeno exército formado do nada praticamente na hora da batalha derrotou as forças iugoslavas muito mais numerosas e bem equipadas em apenas 10 dias, com pouquíssimas baixas – um feito militar que até hoje causa admiração. Depois, não se envolveu quando seus ex-companheiros da federação iugoslava se trucidaram em guerras de uma selvageria raramente vista; enquanto eles se aniquilavam, a Eslovênia trabalhava em paz e prosperava. E depois de em menos de um século passar duas vezes pela experiência de fazer parte de países maiores que arrotavam grandeza mas acabaram desmoronando completamente, a pequena Eslovênia vem andando muito bem sozinha, e só ladeira acima: entrou logo para a União Europeia, para o Tratado de Schengen, para a Zona do Euro e hoje é de longe o mais próspero e bem-sucedido país ex-comunista da Europa Oriental, o único que já atingiu um padrão de vida comparável ao dos vizinhos ocidentais.

Estética militar, idioma alemão e letras cínicas que frequentemente têm temas e linguagem típicos de regimes totalitários ainda evocam em muitos uma associação imediata com o nazismo, e por isto o Laibach foi acusado de neonazista (assim como de comunista radical) em várias ocasiões. Mas o Laibach não é para quem tem QI baixo (em entrevistas, eles se divertem respondendo ambiguamente, com a cara mais séria do mundo: “Somos fascistas tanto quanto Hitler era pintor.”). O músico e crítico inglês Richard Wolfson matou a charada brilhantemente: “O método do Laibach é extremamente simples, eficaz e horrivelmente propenso a ser mal interpretado. Antes de mais nada, eles absorvem os maneirismos do inimigo, adotando todos os ornamentos sedutores e símbolos do poder do Estado, e depois exageram tudo até a beira da paródia. Em seguida, eles mudam o foco para assuntos com altas cargas emocionais — o medo que o Ocidente tem dos imigrantes da Europa Oriental, os jogos de poder da União Europeia, as analogias entre a democracia ocidental e o totalitarismo.” Ou seja, o Laibach discute tudo que artistas engajados de verdade deveriam discutir (embora pouquíssimos consigam fazer de forma tão brilhante) e exatamente tudo que nenhum regime totalitário de verdade gosta de ver discutido.

Por isto chega a ser pueril achar que o Laibach prega o totalitarismo, de direita ou de esquerda, simplesmente por causa da estética radicalmente engajada deles. Aliás, eles também se apropriam com frequência de símbolos trabalhistas e da estética do realismo socialista, levando também a acusações de que eles teriam saudades do comunismo iugoslavo. Isso seria muito incoerente num grupo que foi muito perseguido nos tempos do comunismo por sua ousadia – inclusive a de, durante um show em Zagreb (capital da Croácia e na época a segunda maior cidade da Iugoslávia), projetar no palco ao mesmo tempo um conhecido filme de propaganda do regime e outro pornográfico, levando a momentos em que o então recentemente falecido e ainda cultuado ditador Tito aparecia na tela ao mesmo tempo que um pênis… A polícia política não gostou nada, é claro. Os membros do grupo tiveram que sair do país e passar um tempo trabalhando como operários na Inglaterra e Irlanda do Norte, antes de voltarem e entrarem fundo na cena artística semiclandestina da Iugoslávia e especialmente da Eslovênia. Mas já tinham seus fãs atentos em toda a Europa e a fama crescia de boca em boca.

O Laibach começou em 1980, mesmo ano em que Tito morreu, na cidadezinha eslovena de Trbovlje (não, não errei a digitação! – pronuncia-se mais ou menos “terbôulhe”), de menos de 20 mil habitantes. O que viria a ser o Laibach era apenas o braço musical de um movimento que também incluía grupos de artes plásticas e teatro de vanguarda, numa abordagem multimídia que já seria ousada para a época em Londres ou Amsterdam, quanto mais num grotão da então Iugoslávia. A primeira performance anunciada do grupo já foi proibida antes de acontecer, dentre outros motivos porque os cartazes de divulgação misturavam as “cruzes suprematistas” de Kazimir Malevich (pintor russo que, como todos os expoentes da arte moderna, era considerado “contrarrevolucionário” e “burguês”, portanto banido em regimes comunistas) com imagens nacionalistas e de propaganda do regime. Nessa época, o grande gênio por trás do Laibach era um jovem chamado Tomaž Hostnik. Infelizmente, Hostnik sofria de depressão profunda e se matou em dezembro de 1982, aos 21 anos de idade. Mas apesar de sua curta vida e mais breve ainda passagem pelo grupo, foi ele que criou o conceito do Laibach, que se mantém até hoje.

Apesar desses reveses iniciais, o grupo não desanimou, mudou-se para Ljubljana e lá, em Zagreb e Belgrado, começou a se firmar na cena cultural iugoslava. Passou o resto da década de 1980 à mercê dos humores do regime, que ora proibia o trabalho do grupo, ora o usava para mostrar ao Ocidente como seu país era “moderno e liberal”. O período de exílio foi ótimo para eles, porque fizeram muitos contatos valiosos em Londres. Um deles foi o celebrado bailarino e coreógrafo de vanguarda Michael Clark, e foi assim que eu conheci o Laibach: em 1988, Clark apresentou-se no Brasil como uma das atrações do Carlton Dance Festival, com a absolutamente genial coreografia No Fire Escape in Hell (“não há saída de incêndio no inferno”), que foi uma das coisas que mais me deixaram completamente PASMO de tudo que já vi na vida. Na Europa, Clark apresentava a coreografia com o Laibach tocando ao vivo no palco; no Brasil, foi com uma gravação, mas mesmo assim, a combinação daquela dança hipnótica e perturbadora com aquela música densa e provocante me deixou achatado. O Laibach tocava o que só muito depois vim a descobrir serem músicas de Nova Akropola, um dos seus últimos álbuns gravados em esloveno, pois naquela época eles já estavam começando a cantar mais em alemão e ocasionalmente em inglês.

Fiquei obcecado em conhecer mais sobre a banda, mas o único disco do Laibach que achei na época aqui no Brasil foi Opus Dei, um dos seus mais polêmicos, por vários motivos. Primeiro, porque eles fizeram um cover de Live Is Life (sic), uma música pop bobinha, “para cima” e completamente alienada que fazia sucesso na época com a banda austríaca Opus. Na mão do Laibach, sem mudar uma vírgula na letra, o que parecia uma conclamação a aproveitar a vida só curtindo virou uma mobilização de massa histérica por um regime totalitário, só com o tratamento musical que eles deram. E eles ainda fizeram uma versão em alemão, Leben Heißt Leben, com letra parecida, mas de tom completamente niilista. Ainda mais provocante foi o que eles fizeram com One Vision, do Queen, que ganhou uma letra em alemão (meus anos de Goethe-Institut e o encarte me ajudaram muito!), um andamento de marcha wagneriana e o título de Geburt einer Nation (“O Nascimento de uma Nação”) – referência ao famoso filme esteticamente revolucionário mas asquerosamente racista de D. W. Griffith (basta dizer que o título original era para ser O Homem da Klan – sim, a KKK, e ele era o mocinho do filme!!!). Geburt einer Nation era apresentada com um videoclipe pela primeira vez usando uma estética definitivamente emprestada do nazismo – o que além de ser chocante por si só, surpreendeu muita gente que até então pensava que eles eram comunistas roxos… E ainda havia Leben/Tod (“Vida/Morte”) com o provocante e praticamente único verso: “Há uma vida antes da morte.”

Ao ouvir Opus Dei, algo dentro de mim rejeitou o que parecia ser óbvio e nem por um momento acreditei que eles fossem neonazistas – as entrelinhas eram ainda mais eloquentes que os versos; a ironia e a caricatura flutuavam no ar junto com o som. Poucas vezes vi um disco tão curto quanto Opus Dei sair tanto do banal. Eles simplesmente fazem com sutileza e classe a denúncia que Roger Waters tentou fazer berrando (e falhou) em The Final Cut, usando uma estética para lá de ousada e alternativa e aquele método de provocação que Wolfson explicou tão bem. Por exemplo, a letra em alemão de Geburt einer Nation tem praticamente o mesmo significado da letra inglesa de One Vision, mas por ser em alemão e usar aquela estética, versos como “uma só raça”, que em inglês soa como “a raça das pessoas não importa”, passa a sugerir “só uma raça sobrevivente ou dominante (depois de aniquilar as outras)”. Isso faz o ouvinte refletir sobre um monte de coisas: como a mentalidade dos vencedores se impõe, em como estereótipos culturais se perpetuam, como é fácil manipular informações e até a arte, e como o aparentemente liberal e democrático sistema político e cultural do Ocidente está mais próximo dos métodos do totalitarismo do que imaginamos – o que é um dos temas centrais da obra do Laibach. O grupo foi forjado no totalitarismo comunista da Iugoslávia, um país que, como toda a Europa Oriental, caiu numa ditadura de extrema esquerda sem escalas logo depois de sair de uma traumática ocupação pelo outro extremo (os nazistas); eles ganharam Ph.D. nisso e dedicaram suas vidas a expor as entranhas dos métodos de controle do poder através da sua arte, brutal e refinada ao mesmo tempo. É uma tarefa para poucos, muito poucos!

A disponibilidade de material do Laibach no Brasil sempre foi paupérrima e foi só depois do amplo acesso à Internet que pude voltar a acompanhar o que o Laibach andou fazendo estes anos todos – e não foi pouca coisa. Continuam ativíssimos depois de 32 anos de carreira e arrebatando críticos e público. Recentemente abriram shows para a turnê europeia de Marilyn Manson e na opinião de muitos, ofuscaram o astro supostamente principal. Continuam baseados em Ljubljana, mas viajam muito e produzem muito. E lembra-se que eu falei que eles eram associados a um grupo de artistas plásticos e dramáticos? O movimento, chamado Neue Slowenische Kunst (“Nova Arte Eslovena”, em alemão), ou simplesmente “NSK”, também continua ativíssimo e tão celebrado e cultuado quanto seu braço musical.

por Goytá*

DAQUI

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The Meteors - paranoid
Laibach - Ballad of a thin man

Mopho - Ao vivo - O amor é feito de plástico
Mott The Hoople - Sweet Jane (Live at Hammesmith Odeon 1973)
Neil Young - Ao Vivo - Rockin´in the free world
Dee Purple - Mistreated - Live at Califonia Jam 1974

Metallica - Battery
Slayer - War ensamble
Sepultura - Troops of Doom

Air - Sexy Boy
New Order - True Faith
The Flaming Lips - My Cosmic Autumn Rebellion

45 Anos de "Arnold Lane", "See Emily Play" & "The Piper at the gates of dawn"
Pink Floyd:

# Arnold Lane =
# See Emily Play =

# Astronomy Domine =
# Lucifer Sam =
# Matilda Mother =
# Flaming =
# Power R. Toc H. =
# Take up thy stethoscope and walk =
# The Gnome -
# Chapter 24 -
# The Scarecrow -
# Bike -

= Stereo
- Mono

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Celebrando Robert Plant

Led Zeppelin foi a banda mega por excelência: excessos, magia negra, jato particular, etc. Queria eu que Iron Maiden e Metallica tivessem acabado na hora certa. Banda depois de dez anos vence a validade. Vira pantomima, entretenimento, o que você quiser, menos rock, nem no Rio nem em lugar nenhum. Springsteen pelo menos é um indivíduo, não uma turminha de faz de conta, reciclando eternamente hits empoeirados. Plant é igualmente dono de seu nariz. Anda numa trip muito louca — mais uma — mergulhado em ritmos americanos de raiz, tambores africanos e tal. Sinal que continua vivo e procurando, parabéns. Plant não vai fazer o show que a turma que pagou R$ 500 espera. Não toca pandeiro pros fãs sambarem. Faz o que está a fim, e joga umas bananas pros macacos na audiência, uns três ou quatro clássicos do Zep. Certo ele.

Uma amiga das antigas me convoca: “Vamo lá!” Me conta que sua vida mudou quando assistiu no cinema The Song Remains the Same, documentário com o Led Zeppelin ao vivo, Rio de Janeiro, fim dos 70. Descobriu O ROCK, e Plant foi o primeiro homem de sua vida, o símbolo sexual que a desvirginou. Era enchimento, provoco... mas, sim, Plant era um deus grego, ou talvez ninfa celta pré-rafaelita, andrógino e muito macho, lindo e loiro e sedutor e natural. Led Zeppelin era o bicho.

Em entrevista a Rodrigo Carneiro no Valor, Castor Daudt, do DeFalla, explica muito bem: "Eles criaram os parâmetros para todas as bandas de hard rock e heavy metal que se seguiram... Tinha o cantor sexy, o guitarrista gênio descolado, o baixista nerd e o baterista alucinado". Faltou dizer que tinha um gênio da composição no comando, Jimmy Page, o guitarrista mais importante de sua geração, que inclui Clapton e Hendrix, pra começar.

Eu não me apaixonei por Plant no cinema nem nunca. Só me rendi ao Led Zeppelin muitos anos depois da banda acabar. Eles sempre estiveram por ali, cercando, "o Led", falavam os cabeludos, mas era banda para os irmãos mais velhos dos meus amigos, e, muchocho, som de bicho-grilo. A ficha começou a cair junto com os preconceitos, lá por 1985. Em 1990, cometi meu primeiro artigo sobre o Led Zeppelin para a Folha.

Chutava o pau, comparando a vitalidade e a riqueza criativa da coleção Remasters com a bunda-molice, unha encravada do lamuriento rock amoreco da crítica da época, Morrissey etc. Gigantes andavam sobre a Terra nos 70, eu dizia em 90. Hoje, parecem everests. O rock ficou pequeno.

Dispenso a orgia mitômana nos shows brasileiros de Plant. Mas confesso uma certa tentação de ir a um cinema assistir Celebration. É o filme do show que reuniu Plant, Page, John Paul Jones e o filho de John, Jason Bonham, por uma única noite, em 2007. Hoje, é o lançamento mundial em DVD, Blu-Ray, vinil e tal. Mas também será exibida em cinema, aqui no Brasil, dias 30 de outubro e 3 de novembro. Metal pesado no conforto de poltronas reclináveis?

Pipoca e Led Zeppelin combinam? Talvez trufada? Talvez com a amiga? A principal razão do Led Zeppelin ser esse mito intocável é Plant. Sempre se negou a vender a lenda em troca de uns caraminguás. Resistiu valente a se tornar cover de si mesmo. Tentações não faltaram, nem pressão de Jimmy Page. Nunca topou ressuscitar a banda ou gravar novo material. Cedeu de leve e raramente.

Vi a dupla reunida em São Paulo na turnê Unledded, 1996*, reinventando o melhor do Led Zeppelin para outra Era, com forte acento étnico. Belo show, sem fedor de defunto, contendo uma Kashmir mais épica que a original, o que em princípio é impossível. As memórias vivem e me bastam. Led Zeppelin, nunca verás nada igual. Plant, muito menos. Faz o que quer. Rasga dinheiro. Escolheu o caminho onde ninguém vai. É louco, louco dos meus. Sabe o segredo. He asks no quarter...

* NOTA DO EDITOR (ADELVAN): Também vi esse show e foi uma experiencia transcedental! Lembro que estava sentado no piso do estádio (Hollywood rock, pacaembu, são paulo), totalmente esgotado, mas ao ouvir os primeiros acordes da guitarra de Jimmy Page - provavelmente o som de guitarra mais cristalino que já penetrou meus tímpanos - esqueci completamente o cansaço ...

por  André Forastieri

r7


domingo, 21 de outubro de 2012

So young ...

“What are we?”, perguntou o vocalista do Suede, Brett Anderson, dando a deixa para o público cantar o refrão de um dos grandes hits do primeiro disco da banda. E, aquela altura, após a décima música do setlist, a resposta era totalmente óbvia: “we’re sooo young!” berraram muitos e muitos jovens que já passaram há tempos dos 30, alguns até perto dos 45 que o próprio Brett completou este ano.

Dezenove longos anos se passaram desde que o Suede lançou seu (homônimo) disco de estreia e o show no Planeta Terra, seu primeiro no Brasil. Mas a banda, como ficou claro esta noite, parece ter uma relação meio diferente com o tempo.

Depois de uma breve introdução instrumental, todos entraram logo, com exceção dele, que chega caminhando lentamente, sabendo exatamente o impacto que sua presença provoca nos fãs. Brett Anderson pisa no palco e, magicamente, é como se fosse algum lugar entre 1994 e 1998 novamente.

Sem conversa, sem tempo para sequer trocarem olhares, todo mundo ali já sabe o que fazer. Começam então os primeiros acordes de She, a música que há muito tempo abre os shows do Suede. Na sequência, um dos maiores hits da carreira, Trash, além de Filmstar, Animal Nitrate e We Are The Pigs. Tudo direto, sem respiro.

Na última dessa sequência, aliás, Anderson mostra claramente que os anos e os excessos (e foram muitos) não estragaram sua potência vocal, um dos grandes trunfos da banda. O que é mais do que comprovado em The Wild Ones, o primeiro momento “tranquilo” do show, no qual ele canta sentado em um cantinho do palco.

Mas um show do Suede não é exatamente um lugar para se descansar. Apesar de um “oi, São Paulo” e um ou dois “obrigado”, ninguém parou, em momento algum. As músicas são emendadas umas às outras, o ritmo nunca cai e a banda parece usar uma energia armazenada sabe-se lá como desde os anos 90. A dinâmica entre os integrantes, aliás, é impressionante. Todos realmente sabem quando e como agir e ninguém dá sinais de cansaço.

Após pouco mais de uma hora, vem a despedida ao som de The Beautiful Ones, outro de seus maiores hits, com Brett agradecendo por eles terem sido convidados a tocar aqui e dizendo que foi adorável.

Cumprindo o que havia prometido, a banda não apresentou músicas novas, mas deu aos fãs exatamente o que eles esperaram 19 anos para ver: uma coleção invejável de clássicos, saídos de quatro dos seus cinco discos (eles nunca tocam nada de A New Morning, o disco de 2002 que assumidamente não gostam).

Caso continuem cumprindo a palavra, é só esperar agora que voltem em breve. Depois de demorar tanto para chegar à América do Sul, eles disseram na entrevista coletiva de sexta (19) que tinham adorado o show no Chile e usariam a apresentação no Planeta Terra como uma espécie teste com os brasileiros. A julgar pela reação do público, já devem ter se decidido.

por Fabiana de Carvalho,

Veja a seguir o setlist:

She
Trash
Filmstar
Animal Nitrate
We Are The Pigs
The Wild Ones
The Drowners
Killing of a Flashboy
Can't Get Enough
Everything Will Flow
So Young
Metal Mickey
New Generation
Saturday Night
Beautiful Ones

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

"Eletrokarma", dos Mamutes, por Silvio Campos

De cara um dos melhores álbuns de rock and roll que escutei nos últimos tempos! Temos em Aracaju um dos maiores representantes do rock "setentista" atualmente no Brasil. O som é  loucura, curtição, psicodelia, sexo, som, drogas - viagem mesmo! As influencias escorrem por todo o álbum e é tudo de muito bom gosto: Thin Lizzy, Deep Purple, Atomic Rooster, Led Zeppelin, Grand Funk e ACDC, além das referências a bandas nacionais como Casa Das Maquinas, Secos e Molhados,  Joelho de Porco, Mutantes, Golpe de Estado e O Peso, dentre outras.

O som, por mais que esteja trampado, cheio de arranjos, ainda passa aquela coisa bacana de garagem, sem deixar vestígios de uma banda amadora - muito pelo contrario: o som é muito maduro e a banda sabe em que terreno está pisando na execução dos temas. O vocalista mostra uma certa malandragem na voz, isso evidencia a grande evolução do mesmo, que consegue boas melodias e variações nas interpretações. A voz tem caracterizado bastante o som da Mamutes, se tornando uma das principais responsáveis pela originalidade do produto final. As guitarras esbanjam excelentes melodias, puro sentimento, com riffs estupendos. Ao final, completa-se com a cozinha: bateria e baixo pulsando firmemente, tudo muito rock.

São 10 temas de um conteúdo rock incrível, difícil é aceitar um trabalho como esse num simples envelope, uma veia inchada pronta para ser penetrada com uma seringa carregada de rock n roll da melhor qualidade. Alem disso a Mamutes é prá fuder também!!!! Em “Dama de Branco” cabe um belo Streep tease, tem algo muito sensual  naquilo ali, “Eu e Minha Guitarra” a segunda faixa é uma pancada hard, ai mora uma áurea ACDC, muito destacável  também temos a perola “Eletrokarma” a qual da titulo ao trabalho, nota dez e a referencia prá mim é o velho Deep Purple, já “Noturna” traz com eles a influencia na cara do Thin Lizzy, que melodia maravilhosa e envolvente, sentimento da porra!!!! dez!!!! acredito ser a musica mais elaborada da Mamutes, em seguida temos a dureza com uma certa ginga e feeling “O Olho Azul”, seguindo o cd temos outra perola “Os Olhos da Cabra”, esta entre as três melhores composições da banda, puro rock e mostra a pegada da banda, baixo e bateria marcantes e firme em toda a musica, perfeita,  já o hit “ Fora de Controle” mostra a cara rockeira que a Mamutes tem e a qual a mesma segue, é o que chamamos de musica rockeira toda!  Então isso é um álbum tipo coletânea, só tem musica boa, vai ser difícil a propria banda supera-lo,  na minha opinião. 

Ao final do cd temos as duas ultimas: “Te Deixando Meu Bye Bye” - um adeus a uma paixão que se foi. Agora é cair no rock, na estrada, legal demais e fecha a bolachinha “Tudo No Seu Tempo” essa é a referencia ao Led Zep. deles e claro com um toque de soul music e até funk, sem muitos comentários, ótima  musica e performance da banda, e para não dizer que esqueci da faixa três “Cabeça De Mamutes” ao escutar o cd aumente o volume  nessa faixa e incomode a quem quiser com essa avalanche ROCK da Mamutes, esse enorme animal feito de puro alicerce rock n roll.

                                                                                                                       (Silvio Campos)

Existem cópias físicas do CD da Mamutes à venda na Freedom.
Se preferir, baixe AQUI.
A Freedom é a loja de Silvio, e fica na Rua Santa Luzia, 151 - centro - próximo à Catedral Metropolitana.
Em Aracaju.
Silvio, além de proprietário da Freedom, faz blues e rock há cerca de 30 anos com as bandas:
Karne Krua
Veneno de Cobra
Máquina Blues
Words Guerrila
Cruz da Donzela
Casca Grossa
Tempestuous
Sublevação
Logorréia
etc



# 245 - 13/10/2012

A tarde em que Mike Patton trocou figurinhas com Max Cavalera, conheceu o rock brasileiro, escapou de dar entrevista – e se revelou um cara absolutamente normal.

O quarto é uma puta zona: meias e moletons se espalham pelo chão, a cama desarrumada está atulhada de discos e CDs, as paredes são cobertas de dezenas de fotos e pôsteres de tudo que é banda de metal, de Black Sabbath a – principalmente – Sepultura. Natural. O dono do quarto é Max Cavalera, cantor e guitarrista do quarteto mineiro que inverteu a lógica paul-simoniana do mercado fonográfico mundial ao exportar thrash metal para o primeiro mundo.

Há menos de uma semana em São Paulo, depois de uma vitoriosa turnê europeia, Max tem hoje em seus bagunçados aposentos um convidado especialíssimo: Mike Patton, do Faith No More. No dia do último show do FNM no Brasil, Mike passou a tarde no quartel-general dos Cavalera, no bairro de Santa Cecília, ouvindo as novidades que Max acabara de trazer de viagem (Pearl Jam, Primus etc.) e descobrindo as maravilhas do passado punk paulistano. “This is cool”, diz Mike de uma antiguidade do Olho Seco. Max mostra a capa do LP Screw You, do DeFalla. Mike gargalha: “This is waaaay cool!”

E nós – nós sendo eu, Carlos Eduardo Miranda e o fotógrafo Rui Mendes –, que catzo estamos fazendo em meio a este amigável encontro de titãs? Nada, porque já desisti de entrevistar Mike. Pô, é a última tarde livre do cara no Brasil. A última coisa que ele quer é dar entrevista. E, pensando bem, não tenho muito o que perguntar, apesar de ter sido um dos primeiros a encher a bola do Faith No More neste país. Afinal, entre MTV, jornais e revistas, todo mundo já perguntou tudo para Patton. Se ele gosta da mulher brasileira, o que ele acha de macumba, da Rosane Collor, seus filmes/grupos/tênis/políticos prediletos etc. etc. Foi uma over total.

Melhor relaxar e entrar no clima carnaval da banda. O soundcheck até que rendeu umas abobrinhas – já na viagem, no ônibus da banda, engatei um papo com o Roddy sobre o Kraftwerk. Mostrei o Entrevistão de setembro e tal. No Olympia, vi os caras escaparem das minas que cercavam a entrada; almoçarem o rango da peãozada da MTV, que ia gravar o show (frango, arroz, feijão, salada e Coca-Cola; Big Jim Martin arrotava sem parar); e fazerem uma passagem de som bacaninha, com Zombie Eaters, We Care A Lot e uma música nova. Era um punk-progressivo (existe?) que eles tocaram nos shows e ainda estavam meio que compondo (“e se a gente fizer um break aqui?” etc. Deu pra sacar que o Roddy manda mais do que parece).

Num intervalo da passagem do som apareceu uma vozinha, sussurrando “Varig flight 510 to São Paulo and Recife, now boarding... gate 8”. Opa, os caras samplearam um aeroporto? Não, Mike Patton é que é um imitador bom pra cacete. O cara é bem legal também. Molecão, boa praça, nem um pouco impressionado com seu status sexual entre as ninfetinhas brazucas. Só quer se divertir, só quer good clean fun.

E é porque o cara é legal que eu desisto definitivamente de tentar estragar o último dia livre dele. Melhor deixar o papo rolar sem gravadores nem blocos. Só peço duas coisas: que ele tire uma foto com o Max, e que diga como está a produção do novo disco do FNM – provavelmente a única coisa que ninguém perguntou ao vocalista. “Você sabe tanto quanto eu, cara. Já compusemos umas dez canções, e cada uma aponta para um lado. O que vai entrar no disco não sei.”

Você disse numa entrevista para a Bizz que estava mais para Commodores que Black Sabbath.
“Gosto dos dois. Todo mundo na banda gosta de umas coisas meio estranhas, a não ser o Jim Martin, que só ouve som pesado. Nas músicas novas estamos radicalizando pelo dois lados: é ao mesmo tempo muito mais trash e muito mais macio, easy listening, que The Real Thing. Mas ainda é cedo pra dizer que cara o álbum vai ter.” O disco já tem nome? “Ainda não.” Ontem, no soundcheck, vocês tocaram uma música nova. Tinha um riff, metal bem tradicional e um tecladão meio Rush, sobre uma batida punk forte. “É, ainda não tem nome nem letra, estou escrevendo ainda. Mas você viu, não vamos mudar do dia para a noite, nem nada assim. É só o Faith No More.”

E é mais que o suficiente. Libero o cara e vamos todos para a sala fazer as fotos. O fotógrafo faz milagres com a pouca luz e tempo disponíveis, e pronto. Segue-se uma discussão sobre as diferenças entre a censura americana e a brasileira. Mike teorizou: “Aqui dão muita importância para o que se diz, por isso é que censuram. Lá nos EUA ninguém encana com o que você fala, porque sabem que não faz muita diferença”.
Eles, no caso, são aqueles de sempre – o governo, o sistema, quem "manda no boteco". Eles, pô. “Mas na prática você tem de enfrentar a censura comercial, lojas que não vendem o seu disco se não concordam com o que você diz. E os meios de comunicação são muito bundões, qualquer grupinho pressiona e eles já cedem."

O resto é conversa mole. Max entra num papo com Miranda (produtor do Screw You de que ele tanto gostou), ouve Titãs, Grito Suburbano, Ratos De Porão. Vemos um vídeo do Ice-T que Max acaba de trazer de viagem. Discutimos onde comprar uma zarabatana no centro de São Paulo. Rola Mucky Pup na MTV, risadas, uma defesa do jornal paulistano Notícias Populares sobre o carioca O Povo e muito guaraná.
Garanto que misturar guaraná em pó com Coca-Cola é pega garantido. Mike, viciado em Coke, vibra com a ideia.

Já está chegando a hora de ir – a moçada BIZZ para casa, Max e Mike vão comprar discos na Baratos Afins. Descemos o elevador, demos tchaus. Mike agradece por não termos forçado a barra e tentado fazer a entrevista. No problem. O prazer foi todo meu.

Na rua, é cinco e meia. Uma chuvinha fina e pentelha embaça o trânsito. Vamos para um lado caçar um táxi, Max e Mike vão para o outro. Essa era a foto: Max Cavalera e Mike Patton no centro de São Paulo, encolhidos na chuva, a caminho do metrô.

Ambos estão subindo como ônibus espaciais na cena pop mundial mas continuam despretensiosos, desencanados. Dois caras normais – aleluia.

por André Forastieri (para a revista Bizz, em algum momento do início dos anos 1990)

Fonte: O Blog dele

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The Beatles – Love me do
Led Zeppelin – In the light

L7 - Monster
Ministry - N.W.O.
Helmet - unsung
Sonic youth - Kool thing
Faith No More - just a man

Screaming lord sutch - scream and scream
Elvis Hitler - Cool Daddy in a cadillac
Astro Zombies - Desperado
Dmented are go - Call of the wired
Guana Batz - Seethrough

Devotos do ódio - Vida de ferreiro
Karne Krua - subversores da ordem
Mukeka di rato - new wave índio
Blind Pigs - Bread & Circus policy
Anões de jardim - The peas
Intense Manner of living - Barbarism behind the wall

Gang of four - It was never turn out too good
Harry - Morbid (nobody else´s lucid dream remix)
KMFDM - Urban Monkey warfare
nine inch nails - all the pigs, all lined up

Voi Vod - Batman
Metallica - Lover man
Scarlett Johansson - I don´t want to grow up
Patti Smith - Everybody wants to rule the world
Nouvelle Vague - Love will tear us apart