
O
Hojerizah foi uma das bandas mais talentosas e criativas que a música brasileira já produziu. O grupo lançou apenas dois discos,
“Hojerizah”, de 1987 e
“Pele”, de 1988, mas algumas músicas que esses LPs trazem estão as melhores composições do rock nacional até hoje.
“Senhora feliz”,
“Setembro” e
“A lei”, por exemplo, possuem melodias e letras fortíssimas, que impressionam por serem atemporais.
Como
todo grande artista deste país, que não esteja atrelado ao “sucesso
comercial”, o grupo não obteve o reconhecimento merecido. Para recontar
essa história, A coluna
Cwb Live do jornal Gazeta do povo, de Curitiba, apresenta uma entrevista exclusiva com o
vocalista Toni Platão, o baterista Alvaro Albuquerque e o baixista
Marcelo Larrosa, passando a limpo a trajetória do
Hojerizah.
Os primeiros passos

A
saga do grupo teve início em 1983, no Rio de Janeiro. Pouco antes do
grande boom do rock brasileiro, alguns amigos se reuniam para começar a
tornar realidade um antigo sonho. “Eu tentava fazer algo com uma
guitarra e o Larrosa já tirava um baixo, de ouvido, com dignidade.
Levávamos algo que chamávamos de som e queríamos montar uma banda. Na
verdade ‘montar uma banda’ era uma ideia fixa na nossa cabeça”, relembra
Toni Platão, um dos maiores vocalistas de sua geração.
Os amigos
Toni e Larrosa não tinham ideia de que formariam uma dos grupos mais
influentes da história do rock nacional. “Tudo começou quando eu namorei
a irmã do Toni. Nenhum dos dois tocava qualquer coisa. Ele era um cara
do futebol e eu era asmático. Entramos para a mesma faculdade, a
Universidade Federal Fluminense (UFF), ele no curso de física e eu em
arquitetura. Lá conheci dois caras que se inscreveram no festival da
Hebraica e precisavam de um baterista. Eu disse que tocava, mas não
tinha uma”, conta o baixista.
Após esse contato inicial, a banda
acabou encontrando uma baterista que possuía o instrumento, e Larrosa
foi novamente convidado, desta vez para ser o baixista do grupo. “Minha
carreira musical começou de uma grande mentira. Arrumei um baixo,
emprestado por uma semana por um aluno meu, e fomos tocar no
festival. Era um rock progressivo do Léo Gatti, um músico que mora em
Mauá há muitos anos. Na bateria estava o Rogério Vieira, que viria a se
tornar baterista do
Hojerizah, anos depois. A primeira vez que ele sentou na bateria foi na passagem de som. Apesar disso tudo, fomos bem”, relembra.

A
parceria com o cantor Toni Platão, que foi assistir ao show ao lado de
sua irmã, começaria nesse encontro, ainda de forma tímida. “Ele me disse
que arranhava um violão. Eu comprei um baixo e começamos a tocar no
quarto dele. Logo depois ele largou a UFF e se transferiu para o curso
de jornalismo da Faculdade da Cidade. Eu larguei a arquitetura e passei
uns seis meses em Aracaju, onde fiz meu o primeiro show profissional com
Lula Ribeiro, que mora há muitos anos no Rio de Janeiro”, conta o
baixista.
De volta ao Rio, após esse período no Sergipe, Larrosa
recebeu um golpe do destino ao conhecer o responsável pela canção mais
conhecida do
Hojerizah:
“Pro’s que estão em casa”. A
música foi muito tocada nas rádios de todo o país, na época. “Na
volta desta viagem comecei a frequentar o ‘Mosca’, um boteco ao lado da
faculdade do Toni onde vários profissionais do álcool se reuniam antes
das aulas. Lá eu conheci o Rômulo Portela que, depois, seria o autor de
‘Pro’s que estão em casa’ e
‘Dentes da frente’, e Manolo Kaos Martins, que tinha uma banda com o Flávio Murrah”, relembra.
Nesse ponto da história do
Hojerizah,
começa a aparecer um dos principais personagens na construção do que
viria a ser a banda, o gênio Flávio Murrah. “Voltando à comunicação, na
turma que entrei em março de 1982 estava o Manoel Martins, então Manolo
Kaos. Ele escrevia letras e delas fazia canções com um antigo colega de
colégio, Flávio Murad, depois Murrah. Numa doideira típica da época, e
da idade, Manoel me mostrou
‘Não sou normal’ e
‘Tratamento de choque’, duas canções muito interessantes”, conta Toni.

O
embrião do grupo estava ali, pronto para dar os seus primeiros passos.
Ao marcarem um encontro para assistir a um show no bar Western Club,
estava armado o cenário para o surgimento da banda. “Feitas as devidas
apresentações, acho que se pode dizer que nasceu o
Hojerizah. Manolo no vocal, Flávio na guitarra solo, Larrosa no baixo e eu na guitarra base”, relembra Toni.
O nome do grupo remete à palavra “ojeriza”, que é um sinônimo de aversão. A sugestão foi de Manolo. “Foi dele a ideia do
ojeriza.
Já tinha o nome e tudo, depois só acrescentamos os dois ‘H’ para dar
uma aproximada com ‘hoje’. Uns seis meses depois, o Flávio Murrah também
entrou para a faculdade e passamos a tocar na casa do Toni”, conta
Larrosa.
Pouco tempo depois, o quarteto se apresentava ao vivo pela primeira vez. “O Ivo Ricardo, baixista da banda
Água Brava
e colega de faculdade, nos escalou para tocar na festa de formatura da
turma de 1982, no salão nobre do glorioso Fluminense Futebol Clube.
Conheci um baterista no lendário Western Club, o primeiro palco
exclusivo do rock carioca, e tocamos umas cinco músicas”, conta Larrosa.
Depois desta estreia, eles se “concentraram” durante dez dias na
fazenda do pai de Toni Platão, onde ficaram compondo e aprendendo as
músicas compostas por Flávio e Manolo. Após esse período, um novo show
foi marcado, em fevereiro de 1983, desta vez no Western Club, no Rio de
Janeiro. Foi aí que o destino forjou o que seria um dos diferenciais do
Hojerizah:
os vocais. “Uma semana antes o Manolo nos disse que não iria cantar,
que a onda dele era formar a banda, e só. Ele queria ser jornalista e a
sua missão estava cumprida: juntar o Flávio à nós”, relembra Larrosa.
Arrumar
outro vocalista, o que normalmente seria um grande problema, se tornou
uma coisa fácil, pois ele já estava ali. “Fizemos testes para ver quem
cantaria. Eu e o Flávio não conseguíamos cantar e tocar ao mesmo tempo.
Eu mal sabia tocar. Toni era ainda pior na guitarra base e foi, então,
escalado para o posto. Ele tocava apenas em algumas músicas
instrumentais. Assim começou a banda”, relembra o baixista. O destino
colocava, à frente do
Hojerizah, uma das maiores vozes da música
nacional: Toni Platão. “Como eu estava meio ‘inútil’ na guitarra, tive
que assumir o vocal. Minha vida de cantor começa assim, por acaso”,
explica Toni.
Após muitos ensaios, e com uma formação definida, o
mítico bar carioca testemunhou o nascimento de um dos grandes nomes do
rock brasileiro. “Tocar no Western era nosso sonho de consumo. Tanto
que, depois de conseguir, só fomos tocar em outro lugar depois que o bar
fechou. Às vezes penso que, se não tivesse fechado, poderíamos estar lá
até hoje, tocando, bebendo e pendurando as contas. Vi muita gente boa
tocando por lá, como o Paralamas. Hoje a casa é um centro espírita.
Sério!”, brinca Toni.
O posto de baterista foi o que mais teve
substituições no grupo, até a entrada de Alvaro Albuquerque. “Primeiro
foi o Rogério, depois o Eduardo, o Paulo Henrique e, de volta, o
Rogério, isso tudo entre dezembro de 82 e algum lugar de 84, quando o
Alvaro entra e, de fato e de direito, assume o posto de batera do
Hojerizah, fixando a formação clássica da gente”, conta Toni.
Alvaro
daria ainda mais criatividade ao som do grupo. “O Rogério, baterista
deles, era meu aluno de bateria. Além de aulas, eu também alugava o meu
estúdio para outras bandas ensaiarem, entre elas o
Hojerizah. Quando o Rogério quis sair, o Toni, o Flávio e o Marcelo me chamaram, e eu prontamente aceitei”, relembra Alvaro.
Influências
As influências que o grupo incorporava iam do jazz à música brasileira. “
Led Zeppelin, desde sempre, e todos os grandes, de
Pink Floyd a
Deep Purple, sem esquecer de
Beatles, Santana e Neil Young. Mas eu ouvia também desde A
Cor do Som
e Miles Davis até muito som instrumental. Eu, com certeza, era mais
tradicional. Eles eram mais antenados. Através deles eu conheci
Echo,
Smiths,
Tears for Fears etc”, conta Alvaro.
Segundo Larrosa, o rock and roll tradicional era uma referência muito forte para todos. “Toni era fã de
Queen,
Elvis e Roberto Carlos, tinha pouca cultura musical além disso. Eu era
muito eclético, ouvia muita coisa, mas tinha os dois pés no rock
progressivo. Flavio era
Zepellin e
Stones até a alma”, afirma.
Entre
essas influências, uma seria especial e mudaria os rumos musicais do
vocalista Toni Platão: o camaleão David Bowie. “Em um belo dia, Murrah
apareceu lá em casa com o
‘Ziggy Stardust’. Foi um divisor de
águas para mim. Muitas possibilidades, até então desconhecidas e, sequer
imaginadas, se abriram ouvindo aquele disco. Ouço muito esse álbum, até
hoje. Acabo de comprar a edição comemorativa dos 40 anos dele”, conta
Toni.
Nessa época, de forma muito diferente de hoje, algumas
rádios procuravam levar informação e boa música para o público
consumidor de cultura. No Rio de Janeiro havia a famosa “maldita”, a rádio Fluminense FM. “A
partir de 83, a nossa fonte de informação musical passou a ser o ‘Rock
Alive’, programa do Maurício Valladares na rádio Fluminense. Era quase
que uma função religiosa ouvir o programa nas segundas e sextas, às 22h.
Eu e o Flávio, geralmente, nos encontrávamos pra ouvir. Era por onde
ficávamos ligados no que rolava aqui e fora”, relembra Toni.
O primeiro contrato de gravação
Um dos maiores
problemas entre os artistas brasileiros, talvez o maior deles, é
conseguir uma gravadora que valorize o trabalho dos músicos. O
Hojerizah
também encontrou dificuldades. “Foi complicado. Das bandas
contemporâneas, creio que fomos os últimos a gravar um álbum. Foi um
compacto, em 1984, na BB Records, do Billy Bond, que foi cantor do
Joelho de Porco.
O engraçado disso é que tínhamos uma proposta pra gravar em um
pau-de-sebo da CBS, hoje Sony Music, e preferimos assinar com o Billy
para gravar um compacto só nosso. Isso é bem
Hojerizah”, relembra
Toni. Billy foi uma figura importante nesse começo da banda. “O mais
engraçado foi ter conhecido e convivido com Billy Bond, um adorável
picareta. Eu era muito fã de
Joelho de Porco, foi ótimo”, afirma Larrosa.
Feita a escolha da BB Records, o quarteto entrou em estúdio para gravar a música
“Que horror”, o primeiro registro fonográfico do
Hojerizah.
“Gravamos nosso compacto e fizemos dois clipes muito ‘xexelentos’, mas
que passavam direto no programa dele na TV. Por coincidência, o
Água Brava
era a outra banda do selo BB Records/Polygram. Para a RCA acho que
pesou muito a nossa popularidade no Rio de Janeiro. Tínhamos muitos fãs.
Eles não podiam ignorar este fato ao montar o selo Plug”, conta
Larrosa.
Com a boa repercussão do compacto, principalmente entre os ouvintes da
Fluminense FM, o grupo foi convidado para registrar o seu debut. O
primeiro LP, intitulado
“Hojerizah”, foi gravado pelo extinto
selo Plug, criado por Tadeu Valério e Miguel Plopschi e que, na época,
abriu espaço para que novas bandas, como o
Defalla e o
Replicantes,
gravassem. “Quem nos chamou para o selo foi o Tadeu Valério. Antes de
assinarmos, tínhamos gravado uma demo com quatro músicas, que,
curiosamente, teve a participação do saxofonista Ricardo Rente em duas.
Apesar de ter sido interessante, pois trouxe uma sonoridade que não
estávamos acostumados a ouvir em nossas músicas, nunca aproveitamos
esses arranjos em disco”, conta Alvaro. A demo acabou se perdendo na
história do grupo. “Eu tinha uma cópia em cassete, emprestei para alguém
e, lamentavelmente, nem sei mais onde está”, relembra.
O álbum teve algumas participações especiais. Zé da Gaita tocou na música
“Águas”, que acabou não entrando no disco, e o mestre da sanfona, Dominguinhos, emprestou o seu talento para a belíssima
“Tempo que passa”. Em
“Roma”,
como relembra Alvaro, foram usados alguns “recursos” no estúdio. “É uma
das músicas do Flávio que mais gosto. Era um clima de fim do mundo.
Sempre quis pontuar a tensão da letra e do arranjo de baixo/bateria com
algum som inusitado, de vidros sendo quebrados ou algo assim”, conta. E
como fazer isso em uma época em que existiam poucos recursos de
gravação? Alvaro usou a criatividade. “Na época não existia sampler,
então peguei um copo na cozinha da gravadora e, com uma martelada, o
espatifei. Gravamos isso em um canal separado e usei em algumas
passagens da música”, explica.
“Pessoas” também teve a sua dose
de experimentação. “Resolvemos, no final da música, desligar o gravador
de 16 canais com a master. A música terminava como se houvesse faltado
luz no estúdio. O técnico de som não acreditava, falava que era loucura
nossa, que nunca ninguém havia feito aquilo com seu gravador”, relembra
Alvaro.
O processo de gravação em estúdio seguia um certo ritual.
“Quando começamos a gravar na RCA, o Flávio aparecia com umas coisas
novas e, de última hora, fazíamos jam sessions à tarde e gravávamos à
noite. O processo sempre foi este”, conta Larrosa. O guitarrista Flávio
Murrah compunha boa parte das músicas e, no estúdio, a banda trabalhava a
canção. “O Flávio vinha com a música quase pronta e o arranjo era
coletivo. O Alvaro tinha muita importância nesta hora. Para os LPs, o
Flavio começou a vir também com a letra pronta. Antes tinham mais letras
em conjunto, minhas ou do Toni”, relembra Larrosa.
A letra de
“Senhora feliz”,
uma das melhores músicas do disco, também tem as suas histórias. “Ela,
apesar de todo o lirismo, vem de uma fase que Flávio estava pegando umas
coroas, ou seja, mulheres um pouco mais jovens do que somos hoje”,
brinca Toni. O vocalista deu uma “pequena”, mas fundamental contribuição
para a música. “Lembro quando o Murrah me cantou essa letra no baixo
gávea. Estava tudo pronto, menos a segunda frase. Eu, em uma fase de
ouvir samba, Lupicínio e Paulinho da Viola eram meus prediletos, mandei,
na lata, ‘perdido na cadência dos dias’. Junto ao fato do meu canto ter
uma impostação, confundida com ópera, advinda da minha fissura
adolescente por sambas-enredo, (tinha os discos de 72 até 78), estão aí
as contribuições do samba ao
Hojerizah”, conta.
Algumas
músicas desse disco se mostram tão fortes quanto na época em que foram
criadas. Qualquer amante da boa música brasileira tem, ainda hoje na
cabeça, os versos: “Não vou tomar café, nem escovar os dentes. Vou de
água ardente, como o sol que queima a praça”. Composta por Rômulo
Portela,
“Pro’s que estão em casa” traz um universo lírico de
boemia e prazeres ao ouvinte. Larrosa acha difícil explicar a música.
“Ela é do Rômulo Portela, um ser que veio na mesma nave que o Ziggy
Stardust”, brinca. Toni tenta ser direto no seu entendimento da canção.
“Bem, conhecendo o Rômulo fica tudo claro. O sujeito não dormiu, virou
esperando um telefonema que não veio e ele sai por aí, a todo vapor.
Vapor e o que for preciso, evidentemente”, explica.
“Gritos”
era a música com que o grupo entrava no palco, na época. “Ouço gritos
que trazem um aviso. Mordem caminhos, preferem os baldios. Forjam
ninhos, refúgio dos aflitos e servem, ao cio, fogueiras de perigo”, diz a
letra. “É uma canção muito forte, que passou a abrir nossos shows”,
relembra Toni.
“Belos e malditos” tem um clima soturno
impressionante. A criação da letra foi um daqueles momentos “espíritas”
que todo compositor tem. “Foi de ‘sopetão’. Assim que terminei a leitura
do livro do Scott Fitzgerald, que batiza a canção, ainda deitado na
cama, puxei um bloquinho que tinha sempre na mesa de cabeceira e
escrevi. Entreguei pro Murrah na hora, a gente era vizinho naquela
época. O Flavio musicou e me mostrou no dia seguinte, quase ao mesmo
tempo que me pedia o livro emprestado. Ela fala sobre essas rachaduras
que a vida vai fazendo na gente, e que não tem mais conserto”, explica
Toni.
Alvaro considera
“Belos e malditos” e
“Senhora feliz” duas das melhores composições do
Hojerizah. “Sempre foram músicas de arrepiar o cabelo. Quando as tocava me sentia em outro plano, era algo quase místico”, afirma.
Pele
O segundo álbum,
“Pele”, foi
gravado em 1988. Nesse disco houve uma evolução de ideias e melodias que
acabaram consolidando um “som Hojerizah”, uma espécie de marca do
grupo. “Deve ter sido à base de conhaque Dreher. O segundo disco,
aparentemente, é mais coletivo. A banda produziu o disco, o que é um
fato raríssimo”, conta Toni.
Larrosa acredita que o maior tempo
tocando juntos, aliado ao toque jazz de Alvaro, seja a receita para essa
“mudança” no som do grupo. “Pegue todas aquelas influências da banda e
acrescente mais dois elementos: rock inglês dos anos 80 e Alvaro
Albuquerque, o mais jazzista e melhor músico do grupo”, explica. Alvaro
também acha que essa característica marcante do
Hojerizah foi
fruto de muito ensaio. “Nossos primeiros anos ensaiando naquele meu
estúdio foram fundamentais para forjar nosso som. Nós o chamávamos
carinhosamente de ‘Alvarenga Records’. Provavelmente foi nossa época
mais feliz e profícua”, afirma. Um dos fatores que contribuíram para que
isso acontecesse talvez tenha sido uma melhor divisão entre as
participações nas composições. “No primeiro disco só tinha uma letra
minha,
‘Belos e malditos’. No
‘Pele’ são quatro as minhas parcerias com o Flávio”, relembra Toni.
Alvaro
tem uma admiração especial por uma das canções do disco. “Uma música
pouco conhecida, que quase não tocamos em shows e é uma de minhas
preferidas, é
‘Fogo’. Composição belíssima, interpretação
marcante do Toni e um arranjo elegantíssimo de bateria, baixo, percussão
e violão. Sem falsa modéstia, uma pérola da música brasileira, que
pouquíssimos conhecem”, desabafa. "Aonde você vai vê na pele o fogo. O
fogo não me trai, envolto e incerto. De onde estou não vejo você
sorrindo. Clamas ao anjo que ofertou", diz a letra.
Toni tem sentimentos diferentes em relação aos dois LPs gravados pelo
Hojerizah.
“O primeiro disco pra mim é o fruto da nossa melhor fase enquanto uma
banda, mas, hoje consigo enxergar melhor a beleza das canções do
‘Pele’. Tecnicamente, o ‘Pele’ é muito mal gravado e mixado, por culpa nossa e de mais ninguém”, define Toni.
O fim do Hojerizah
Um ano depois do lançamento de
“Pele”,
a banda chegava a um precoce fim, para surpresa dos fãs. Os motivos
nunca ficaram claros, pois, na visão do público, o grupo tinha muito
mais a oferecer. “Foram sete anos na estrada, de convívio diário, mesmo
que social apenas. O desgaste é inevitável. Some a isso o desinteresse
de gravadoras e a doença do Flávio. Foi impossível continuar”, afirma
Larrosa. “Tudo desmoronava e, em 1989, eu decidi sair fora. Quando
comuniquei isso, saímos todos juntos”, relembra Toni. Apesar de terem
criado uma das obras primas da música brasileira, a relação entre a
banda estava se deteriorando. “Minhas lembranças das gravações são muito
ruins. Acho que a única pessoa que falava direito com todos da banda
era eu”, conta Toni.
Entre os ex-integrantes do grupo parece
existir uma certeza de que o trabalho que eles se propuseram a realizar
foi concretizado. “Duramos o que tínhamos que durar. Relações se
desgastam, independente do afeto que se tem pelas pessoas”, afirma
Alvaro.
O legado
Uma banda, quando é boa,
deixa a sua marca registrada na história, independente do tempo que ela
durar. A música está repleta desses fatos, como os ingleses do
Stone Roses, só para citar um exemplo. O
Hojerizah
nunca teve o reconhecimento que merecia, dentro da história do rock
brasileiro. “Por um motivo ou outro, não tivemos um reconhecimento a
nível nacional que poderíamos ter alcançado”, desabafa Alvaro.
Algumas
atitudes tomadas pelo grupo para manter a sua integridade criativa e
moral podem ter contribuído para que o espaço oferecido para eles, aos
poucos, se fechasse. “Um fato foi marcante. Quando fomos a São Paulo
divulgar o nosso primeiro LP, fomos claros com o departamento de
divulgação da RCA: não faríamos programas infantis”, relembra Alvaro.
Essa decisão tinha uma razão de ser, no entendimento da banda. “Nossa
música de trabalho,
‘Pro's que estão em casa’, cita na letra:
‘vou de aguardente’ e ‘quero dar um tapa’. Era inapropriada para
crianças. E qual foi o primeiro programa que eles nos mandaram fazer? Um
infantil, cheio de criancinhas nos rodeando”, conta Alvaro.
A
decisão de não se apresentar no programa era plenamente justificável,
afinal os poderosos das gravadoras, normalmente, não possuem o mínimo
tato para saber em que segmento da mídia a sua banda se encaixa,
colocando os grupos para se apresentar em qualquer espaço disponível. "Recusamo-nos a fazer e, a partir daí, nossa relação com a gravadora
ficou tensa. Eles interpretaram como uma rebeldia nossa quando, na
verdade, era uma total falta de sensibilidade deles. Nunca mais sentimos
da parte da gravadora uma relação de parceria, ficamos queimados com o
departamento de divulgação”, relembra Alvaro.
A vida pós Hojerizah
Depois
do fim da banda, cada integrante seguiu o seu caminho. Alvaro continuou
atuando como músico. Ele foi o baterista da banda que acompanhava Toni
Platão, em seu início de carreira solo, além de ter tocado com Ivo
Meireles e Tânia Alves. “Outro trabalho do qual muito me orgulho foi a
participação no trabalho solo do Humberto Effe, do
Picassos Falsos,
um cantor e compositor de primeira grandeza”, afirma Alvaro. Atualmente
o baterista é dono, em parceria com a sua esposa, de um bistrô no
bairro da Gávea, no Rio de Janeiro, chamado "Da Casa da Táta".
O baixista Marcelo Larrosa também tocou com o ex-vocalista do
Picassos Falsos. “A cozinha do
Hojerizah
foi tocar com ele. Foi uma ótima experiência. Considero o Humberto o
mais talentoso compositor daquela geração. Fiquei com ele durante quatro
anos. Saí porque tinha que arrumar dinheiro para manter a minha
família”, relembra. Larrosa, então, montou uma confecção e uma loja de
roupas. “Não deu muito certo e fui trabalhar no estúdio 585, onde fiquei
durante seis anos. Lá conheci e toquei com muita gente. No ano 2000
resolvi largar a música e me tornar designer gráfico”, conta.
Toni
Platão está envolvido, até hoje, com a sua carreira solo. No momento,
ele está gravando o seu quinto disco, que está sendo produzido por Berna
Ceppas e deve ser lançado ainda em 2012. Além disso, Toni juntou-se a
alguns monstros sagrados da música brasileira em uma superbanda, a
“Nunca diga nunca mais!”,
com o guitarrista Dado Villa-Lobos, ex-Legião Urbana, o baixista Dé,
ex-Barão Vermelho e o baterista Charles Gavin, ex-Titãs. O grupo está
gravando um disco, que deve ser lançado também neste ano. Toni também
trabalha na rádio MPB FM, no Rio de Janeiro, no programa Popbola. “É um
programa de rádio, aparentemente, sobre futebol. Já temos dez anos no
ar, é um grande sucesso no Rio. Começou na extinta rádio Cidade e hoje
encontramos pouso na querida MPB FM. É a minha terapia”, afirma.
É possível uma nova reunião?
O grupo reapareceu, em 1999 e 2009, para relembrar os velhos tempos de
Hojerizah.
“Nos reunimos em 1999, dez anos após o término da banda, com intenção
de ter nossos dois LPs lançados em CD. Realizamos alguns shows, nos
divertimos e conseguimos atingir parcialmente o nosso objetivo. Foi
lançado um CD com quase todas as músicas gravadas nos dois LPs”, conta
Alvaro.
Sobre a possibilidade da banda voltar a tocar junto, Toni
é taxativo. “Infelizmente, nenhuma”, afirma. Larrosa é mais flexível e
deixa em aberto. “Sempre existiu, tanto que comemoramos a cada década o
final da banda. Foi assim em 1999 e 2009. Agora comigo aqui (ele mora em Aracaju) é mais
difícil, mas nunca se sabe”, explica. Alvaro destaca que o prazer de
fazer um som com os seus ex-companheiros ainda existe. “Tocar com o
Flávio, o Toni e o Marcelo sempre será uma experiência marcante, mas,
uma coisa é levar som com três amigos, outra é se organizar para montar
um repertório, ensaiar, agendar shows etc. Podemos até vir a nos reunir
em algum futuro distante para tocar juntos, mas realizar shows é algo
improvável”, afirma.
O som do
Hojerizah continua presente
vida dos amantes dos bons sons. Muitos ainda conservam os seus vinis
como relíquias. A mensagem que a banda deixa para esses fãs é para não
deixarem o nome do grupo morrer. “Façam uma petição, um abaixo assinado,
qualquer coisa para que relancem os nossos discos. Não desta forma meia
boca como o
“Hot 20”. Uma coisa séria, em vinil também. Muita
gente ainda não conhece. Nossa música vai continuar por muitas décadas
mais”, afirma Larrosa. Alvaro também demonstra consideração pelas
pessoas que acompanham a banda, de alguma forma, até hoje. “Obrigado por
ajudarem a perpetuar esse nosso trabalho”, declara. É de Toni Platão, a
voz das músicas do
Hojerizah, a frase final desta matéria. “Obrigado. Vocês fazem valer a pena até os momentos ruins. Os bons então”, afirma.
Quem
agradece são as pessoas que gostam de música de qualidade neste país e,
hoje, sentem tanta dificuldade em encontrar bandas que preencham a
lacuna deixada por grupos como o
Hojerizah.
por
Marcos Anubis
CWB live