sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

# 254 - 15/12/2012

O livro “Laranja Mecânica” (“A Clockwork Orange”, no original) foi lançado no dia 3 de dezembro de 1962 pelo escritor britânico Anthony Burgess. Por fazer uma sátira forte à sociedade inglesa e mostrar um lado mórbido e violento da mesma, gerou muita polêmica e ganhou status de cult, sendo considerado um dos clássicos do século XX.

Uma das grandes consagrações do romance foi a adaptação da obra dirigida por Stanley Kubrick em 1971, com Malcom McDowell interpretando Alex, o protagonista da história. Após muitas indicações a diversos prêmios e o sucesso da crítica, o mundo passou a conhecer melhor “Laranja Mecânica”, e consequentemente a obra escrita.

Agora, a editora Aleph lança uma exclusiva edição comemorativa de 50 anos do lançamento do livro de Burgess. UM belíssimo livro em capa dura e com ilustrações inéditas do renomado desenhista brasileiro Ageli, além do argentino Oscar Grillo e do britânico Dave McKean. O livro também conta com textos de Anthony Burgess inéditos no Brasil.

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(A história do punk rock, com suas tramas e subtramas) foi magistralmente contada em Mate-me Por Favor: a história sem censura do punk, escrita por Legs Mcneil e Gillian McCain (L&PM, tradução de Lúcia Brito). Baseado em entrevistas com os participantes daquele período de excesso, drogas, marginalidade e música, o livro é uma colagem de depoimentos, um formato muito interessante porque totalmente apropriado ao tema. Na cena individualista e anárquica do punk rock, não haveria espaço para um único discurso narrativo que tentasse condensar o que foi o movimento, e, portanto, os autores apresentam várias vozes que se contrapõem, se desmentem, numa operação irônica que mostra a força descentralizada e ao mesmo tempo paroquial que gerou um dos movimentos mais importantes da música pop na segunda metade do século. Do embrião da cena, com os New York Dolls, os Stooges e o Velvet Underground, até os heróis do estilo, Iggy Pop e os Ramones, chegando finalmente na aparição dos Sex Pistols – que, como o livro é escrito por uma dupla interessada em provar que o punk surgiu na América, é identificada com a diluição e a decadência das propostas originais de arte e independência, degenerando em violência e rebeldia adolescentes. Abaixo, alguns trechos que falam da relação de Malcom McLaren e dos Sex Pistols Pistols com o movimento (a L&PM relançou o livro em dois volumes de uma edição de bolso, mas chorem, mortais, porque a que eu tenho é a primeira edição nacional, de 1997 – comprada em 1999 num sebo na Marcílio Dias –, em um único volume tamanho livro convencional e com a clássica capa laranja que eu acho muito mais legal):

Malcolm McLaren: Eu era pelo menos uma geração mais velho que a geração que eu empresariava. Eu não era da geração dos Sex Pistols, era da geração dos anos sessenta. Por isso minha relação com os Sex Pistols era uma ligação direta com aquela opressiva angústia existencial, motivo primordial para fazer qualquer coisa no rock& roll – abandonando a noção de carreira –, e com aquele espírito amador de faça-você-mesmo típico do rock & roll. Foi assim que cresci, com a ideia de que você podia fazer coisas.
Lá pelo começo dos anos setenta, a filosofia era de você não podia fazer nada sem um monte de dinheiro. Então minha filosofia se voltou para “foda-se, a gente não se importa se não sabe tocar e não tem instrumentos realmente bons, a gente ainda está fazendo porque acha que vocês são um bando de escrotos.”
No fundo, acho que foi isto que criou a raiva – a raiva era simplesmente por causa do dinheiro, porque a cultura tinha se tornado corporativa, porque a gente não a possuía mais, e todo mundo estava desesperado para tê-la de volta. Essa era uma geração tentando fazer isso.

Mary Harron (escritora e ex-repórter especial da revista Punk): Fui ver Malcolm McLaren na loja dele. Ele tinha um jeito meio fresco – muito teatral. Levemente afetado. Sarcástico. Mas muito legal. Conversei com ele muito rapidamente, e ele disse que ia deixar meu nome na porta pro show dos Sex Pistols no Eric’s, em Liverpool.

Como todos os eventos legendários a que assisti, o concerto dos Sex Pistols estava semivazio. Havia umas cinco pessoas vestidas como punk, e todas elas se conheciam. Era como na época do punk em Nova York – havia cem pessoas envolvidas, e todo mundo conhecia todo mundo. O show foi ruim. Foi desleixado. Houve uma pontinha de pentelhação casual, Johnny meio que segurando o microfone e dizendo: “Foda-se o sol!” Ele era muito sarcástico e dançava de um jeito esquisito. Adorei. Era como se algo de verdade estivesse acontecendo no palco. Era como se eles estivessem vivenciando uma coisa muito excitante. Me senti tipo: “Oh, meu, isso é um evento extraordinário da vida real!”

Bob Gruen (fotógrafo de rock e cineasta): No dia seguinte fui ao loft onde os Sex Pistols ensaiavam e fiz uma sessão de fotos com eles pra Rock Scene. Quando entrei no loft, Steve Jones disse: “Aceita um pouco de chá?” Eu tinha ouvido falar da reputação da banda antes de chegar na Inglaterra, daí pensei: “Esses caras são completamente normais.” Sabe como é: “Onde é que está a esquisitice?” Fiquei olhando pra eles – ninguém cuspiu no chá, sabe? Não atiraram uma garrafa em mim, nem nada. Era um bando de caras totalmente comuns, sentados tomando chá numa tarde inglesa.

Daí apareceu Johnny Rotten. Ele era um pouquinho estranho porque tinha uma autêntica maldade, aquela negatividade em torno dele, como se estivesse se esforçando para conseguir aquilo. Ele dizia coisas sarcásticas e cinicas realmente surpreendentes. “Uau, me desculpe por estar na sua vida.” Mas todos os outros pareceram sociáveis e muito legais. E Johnny pareceu se acalmar um pouco.

Então comecei a tirar as fotos e sugeri fazer algumas deles tocando no lugar onde ensaiavam, no andar de baixo. Johnny Rotten tinha uma garganta sensível, então eu disse que não precisava cantar de verdade. Fotos sem som, certo? Mas Johnny começou a cantar Substitute, do Who. O que foi maravilhoso, porque eu era um grande fã do Who. Estava tirando fotos e pensando: “O que há de tão estranho nisso? Eles são apenas uma boa banda de rock & roll. Onde está o chamariz? Tipo, quando aparece a parte muito louca?”
Não captei.

Mary Harron: Eu conhecia a Inglaterra, tinha crescido lá, por isso pra mim foi como um cartum que virasse realidade. Quer dizer, não inteiramente. Havia um monte de pose naquilo. Era horripilante – havia aquela gente esquisita e desconexa perambulando por lá. Circulei pelo backstage sem problema. Eu estava muito assustada. Eu era facilmente intimidável. Afinal, era Johnny Rotten.

Mas ele era fascinante. Bem, Johnny era, os outros não. Johnny me protegeu dos outros – Steve Jones e Glen Matlock estavam bêbados e fazendo uns comentários grosseiros pra mim, e Johnny dizia: “Ela é legal, deixem pra lá.”

Eu estava usando minha camiseta da revista Punk, e ele foi muito legal comigo porque eu era uma garota de um fanzine, essencialmente do primeiro fanzine. Eu tinha ido pra entrevista com uma comitiva, porque tinha conhecido aqueles garotos com calças emborrachadas que pareciam aterrorizantes, mas eram apenas cabeleireiros de Liverpool cujo maior sonho era conhecer os Sex Pistols. Bem, Johnny Rotten ficou meio puto com a comitiva, mas foi muito legal comigo. Ele disse: “Não, parem com isso, ela é legal, estas perguntas são interessantes”. 

Lembro de pensar o quão incrivelmente esperto ele era – era uma das pessoas mais espertas que eu já tinha conhecido – alguém muito jovem que tinha um ponto de vista e por algum motivo estava absolutamente no centro desse redemoinho, porque eles personificavam o que estavam representando. Não era papo furado. eles deram respostas completamente claras, profundas, muito espertas, muito seguras, divertidas – eles viam claramente o culto do qual eram os pregadores e sabiam exatamente o que estava rolando naquilo. De todas as entrevistas que já fiz, com certeza a de John Rotten foi a mais impressionante.

Fui com um ex-namorado, que se aborreceu. Ele disse pra mim: “Sinto muito, mas essa coisa toda é um fraude – tudo não passa de onda, arquitetada por Malcolm McLaren.”

Daí ele me disse que eu era uma idiota por ter caído naquela.

Malcolm McLaren: No começo, quando achei que os Sex Pistols não estavam acontecendo, pensei: “Oh, talvez eu faça Richard Hell vir e se juntar ao Sex Pistols. Ou talvez pegue até Syl Sylvain. Era uma ideia estúpida da minha parte, porque não haveria como Hell ou Syl se encaixar nos Pistols – as sensibilidades deles estavam anos à frente dos Sex Pistols – e os Pistols eram incrivelmente ingênuos. Eles me pareciam muito ingênuos, por isso era assim que eu os tratava. Quer dizer, provavelmente eu era o ingênuo, e aqueles caras eram muito mais informados e conscientes do que eu.

Nem trepei com nenhuma daquelas garotas da cena do punk rock, bem que eu queria ter, mas na época pensei que todas elas fossem inocentes garotinhas virgens! Não sabia que elas estavam se picando nos banheiros e trepando com um milhão de caras. Eu costumava me virar pros entrevistadores e dizer: “Do que você está falando? Essas pessoas são virgens!” Só porque usam umas porras de umas coleiras de cachorro e eu vendo camisetas emborrachadas pra elas não significa que elas estejam trepando com um exército de caras num ponto de ônibus.”

Eu estava totalmente errado, é claro. Fiquei completamente pasmo ao descobrir quão errado, cinco anos depois daquele episódio. Eu disse: “Quer dizer que de fato você fez todas essas coisas nos banheiros enquanto do lado de fora eu tentava acertar o show? Você estava me dizendo que estava trepando com a mesma garota que Steve Jones? Não pensei que nenhum de vocês estivesse fazendo esse tipo de merda.”
Fiquei estupefato. Ainda estou chocado. Até onde iam as drogas, eu não sabia o que as pessoas estavam usando. Não tinha a menor ideia.

Eu era apenas esse sujeito estranho com aquele sonho louco. Estava tentando fazer com os Sex Pistols o que fracassara em fazer com os New York Dolls. Estava pegando as nuances de Richard Hell, a veadagem pop dos New York Dolls, a política do tédio e misturando tudo pra fazer uma afirmação, talvez a minha afirmação final. E irritar aquela cena rock& roll, era isso que eu estava fazendo.

Carlos André Moreira


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35 Anos de "Never Mind The Bollocks Here´s The Sex Pistols"
Sex Pistols

# No Feeling
# Liar
# God Save the Queen
# Problems
# Seventeen
# Submission
# New York
# EMI
# Did you no wrong
# Satellite

Forro in the Dark Feat. Miho Hatori - Paraíba
Forro in the Dark Feat. David Byrne - Asa Branca

Damião Experiença - A minha dor
Trio - Danger is
GG Allin & The Jabbers - Beat, Beat, Beat
Tomahawk - sir yes sir
Naked City - Batman
Rogerio Skylab - Derrame
Tom Waits - Alice

The Smashing Pumpkins - Mellon Collie and the infinite sadnees (Home piano version)
Wendy Carlos - Title music from A Clockwork orange 

Plástico Lunar - Entrevista Ao vivo
+ voz e violão

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Pioneira no metal extremo, transexual rompe barreiras, mantém "urros" e é até cantada por fãs

Quem vê Marissa Martinez no palco de um show da banda de grindcore Cretin pode imaginar que ela é só mais uma mulher que venceu as barreiras do preconceito e conquistou seu espaço com a guitarra em punhos e os agressivos vocais guturais. E está certo. Em termos. Marissa é sim uma mulher liderando uma banda de metal extremo, em um ambiente amplamente machista e muitas vezes preconceituoso. O detalhe é que, há apenas cinco anos, Marissa era um cabeludo e barbudo, chamado Dan.

A norte-americana de 37 anos se declara a primeira transexual do metal extremo – pelo menos, a primeira a abrir o jogo em relação ao tema. Em 2007, Dan resolveu passar a Marissa, pondo fim a anos de sofrimento e negação que vivia na vida pessoal, que não a permitia ser o que ela chama de "eu mesmo". O longo processo de transformação, que envolve cirurgias, tratamento hormonal e psicológico, foi vencido. Uma coisa, no entanto, permanece a mesma, a sua dedicação à banda. De saia, decote e maquiagem, mas com os mesmos vocais guturais de outrora, a novidade é o apoio de antigos e novos fãs e até cantadas dos mais atirados.

"Eu tinha de fazer isso para poder viver minha vida autenticamente, como eu mesma", explica Marissa ao UOL, resumindo em poucas palavras a experiência complicada vivida desde a adolescência. "É muito mais complicado que isso. Eu não acordei uma manhã com a súbita ideia de que seria divertido passar por tudo isso. Foi uma experiência de sentimentos incrivelmente complexos e confusos, desde minha puberdade."

Filho de um guitarrista de uma banda local de rock em San Jose (EUA), Dan cresceu com a expectativa de seguir o mesmo caminho e ganhou um violão aos cinco anos, após a morte do pai. Foi apenas quando passou a andar de skate que a música lhe chamou a atenção, ao ouvir grupos como Metallica e Misfits, influenciando o jovem a ter sua própria banda de heavy metal – hoje, além do Cretin, é guitarrista do Repulsion, banda criada nos anos 1980 muito respeitada na cena grindcore.

Esse caminho estava sacramentado em seu futuro, mas algo incomodava Dan mais profundamente. "Quando meu corpo passou a mudar, com 11 ou 12 anos, começaram os sentimentos conflituosos. Mas eu não os entendia, não conseguia colocar em palavras. A minha família e a sociedade reforçavam minha apresentação como homem. Observando as meninas, no entanto, aquilo parecia algo mais confortável para mim, apesar de eu ainda não enxergar que ‘eu era elas’. Combinando isso com a falta de informação, nada me ajudava a enxergar que eu era uma transexual. Eu via isso apenas como uma extensão da homossexualidade, algo que me dava vergonha", conta ela.
Dan desde a adolescência tinha a mania de se vestir com as roupas da mãe, e secretamente o fez até já ser adulto. Foi apenas aos 30 anos que a ficha caiu. "Eu mantinha um estado de negação, brigava contra os meus sonhos e escondia o ‘cross dressing’. Quando completei 30 anos, tive uma epifania. Eu me dei conta de que era adulta, que tinha de ter um nível de respeito próprio e dignidade para viver uma vida honesta. O fato de eu manter segredos de mim mesma e temer enfrentá-los me zangou de tal forma que eu não podia mais ceder ao medo", detalha a norte-americana.

Ela precisou de um ano e meio antes de fazer a transformação, um processo de pesquisa, exploração e entendimento do que passaria, acompanhado de terapias. Já pronta, passou a tomar hormônios, mudou legalmente seu nome e sexo, fez plásticas no rosto e nos seios e, enfim, passou a viver uma vida normal. Apesar de experiências como lésbica (já como Marissa), hoje está noiva de um homem, tem um trabalho regular desenvolvendo softwares na Lucasfilm e, é claro, se dedica às suas bandas de metal.

Apesar da "troca de figuras" no palco dos shows da banda – afinal, Dan foi trocado por uma mulher de saias e meia-calça –, o que menos mudou na vida de Marissa foi no campo da música. Assim como sua família, os companheiros de Cretin estranharam a repentina mudança. A norte-americana tentou manter a banda, mas mesmo com o apoio de todos foi decidido dar uma pausa para que ela passasse o período mais complicado. 

Tudo isso aconteceu logo após o lançamento do primeiro disco do grupo, "Freakery", de 2006. A banda foi criada pelos amigos Dan e Matt Widener (baixo) em 1992, influenciada por nomes como Carcass, Napalm Death e Terrorizer, pilares do grindcore – o gênero surgiu no fim da década de 1980, misturando metal extremo, punk e hardcore. Após esse álbum e uma pausa, algumas reuniões ocorreram em falso, e agora o grupo está na ativa, ensaiando e compondo para um lançamento em 2013.

Marissa admite que toda a sua transformação impulsionou a fama do Cretin, mas não tem planos de usar isso na hora de compor e mesmo em sua atuação como vocalista em estúdio e ao vivo. "Ainda não escrevi nenhuma canção sobre o que passei e não acho que vou. Seria muito óbvio. Quanto à minha voz, uma cirurgia de mudança de sexo não a afeta em nada, e nem os hormônios, já que os tomei como adulta. Eu treinei minha fala normal (para soar mais feminina), mas ainda consigo fazer os antigos vocais guturais. [No Cretin,] sou basicamente a mesma", explica ela.

O Cretin só fez um show desde o "surgimento" de Marissa, mas o contato com os fãs e as apresentações com sua outra banda, o Repulsion, mostraram novidades para ela, algumas até lisonjeiras. "É verdade... Eu sou cantada muito mais hoje em dia! Nunca recebi uma cantada no passado, e hoje os homens realmente caem em cima", admite Marissa.

Apesar de saber que o metal extremo muitas vezes sofre com fãs de mente fechada , Marissa diz que não tem sofrido grandes preconceitos. "A vez que realmente me pegou foi quando completos estranhos gritaram algumas bobagens na rua. Na internet, sempre há alguns comentários negativos, mas tento não dar atenção. Além disso, meus fãs aparecem rapidamente e os calam. Sinto-me amada, não tenho nem como retribuir aos meus fãs pelo apoio", adiciona.

Marissa esbanja orgulho de ter conseguido soltar as amarras do passado, mas não se vê na missão de passar grandes lições de moral com sua história ou levantar bandeiras a favor da causa. "Quem já é contra transexuais não se comoverá por minha causa. Quem tem a mente limpa sobre o assunto, talvez. Não vejo lições particulares, mas uma junção de coisas que ultrapassa aquelas frases batidas como ‘trate os outros como quer ser tratado’ ou ‘apesar das diferenças, somos todos iguais’. A minha transição foi única, mas acho que cada pessoa vive mudanças de um tipo próprio e é isso o que nos ajuda a definir e entender a nós mesmos", conclui.

Primeira gravação como Marissa foi com banda brasileira

Coube a uma banda brasileira a estreia de Marissa como vocalista, enquanto o CD novo do Cretin não sai. O The Black Coffins, de São Paulo, convidou-a a cantar na música Dead Planets, de "Dead Sky Sepulchre" (2012). "Sou fã do Cretin desde 2006 e acompanhei todo o processo meio que ao vivo por lá", diz o vocalista Thiago Vakka. "Desde o primeiro contato, ela sempre foi muito gente fina. Topou na hora, mandamos a música e dois dias depois ela me mandou a parte que sugerimos". Marissa é só elogios em relação ao grupo. "Eles são ótimos. Eu os conheci pelo Thiago, em uma entrevista para o seu blog e, quando ele me convidou, aceitei. Sentei em meu sofá, gritei na direção do meu iPad e mandei para eles (risos)", disse ela, uma fã de bandas brasileiras como Sepultura e Sarcófago.

por Mauricio Dehô

uol

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

# 253 - 08/12/2012

A versão do Soundgarden para "Stray Cat Blues", dos Rolling Stones, que tocamos, foi lançada originalmente como lado B do single "Jesus Christ pose" /// Temple of the dog foi um "supergrupo" formado em Seattle em 1990 por Chris Cornell, do Soundgarden, como uma forma de prestar tributo a Andrew Wood, vocalista do Mother Love Bone. Wood havia morrido naquele mesmo ano, vítima de overdose associada a uma hemorragia cerebral. O Mother Love Bone foi uma das mais influentes bandas do que viria a ser conhecido como "grunge", ao lado do Mudhoney. A formação do projeto de Cornell consistia de Stone Gossard na guitarra rítmica, Jeff Ament no baixo (ambos ex-membros do Mother Love Bone), Mike McCready na guitarra líder, Matt Cameron na bateria e Eddie Vedder nos vocais de apoio e fazendo um dueto com Chris em "Hunger Strike". /// Lulu´s Marble é uma banda feminina de garagem japonesa. Saiba mais sobre elas aqui. /// The John Spencer Blues Explosion é foda. /// Sonic Youth também é foda, e seus últimos discos, como "ratter ripped", do qual foi extraída a faixa "incinerate", não tiveram a atenção merecida. Desagradável efeito colateral do excesso de informação que impera nos dias de hoje. /// Não sou exatamente um fã do Muse, mas sua mistura da melancolia do Radiohead com a grandiosidade de arena do Queen não deixa de ser, no mínimo, interessante. /// Hey Hey Hey foi, provavelmente, a primeira banda de Porto Velho, Rondonia, a ser incluída em nossa programação. Viva o Brasil! /// Lestics é uma banda classuda e simpática de São paulo que sempre nos manda cópias físicas de seus lançamentos. Agradecemos imensamente o interesse. /// Tenho uma estranha simpatia pelo Ludov - estranha porque não é, definitivamente, o tipo de som que costuma me chamar a atenção. Seria pela carinha de Bjork de Vanessa Krongold? Não sei. Acho que não. /// The Revivals é uma banda de Salvador que entrou em contato conosco via facebook e solicitou espaço no programa. Prontamente concedido. /// Boi Mamão era uma banda louca de Curitiba que fazia um som inclassificável com letras ininteligíveis. Depois fizeram "ska com pauleira". O vocalista Glerm já cantou no Jason, do Rio de Janeiro /// Oz era de Brasilia. /// Lovecraft e Graforréia Xilarmônica eram/são do Rio Grande do Sul. /// Living in the shit era de Alagoas, e "o porque" fazia parte da demo tape "Quentura", na verdade uma pré-produção para um segundo disco que não existiu. /// "Sgt. Peppers Lonely Heart´s Club Band" foi o disco mais importante da história do rock. É um prazer poder tocá-lo no rádio, praticamente na íntegra. Sempre há alguém que vai ouvir pela primeira vez ...

See you later, Alligators.

Adelvan

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Nick Cave And The Bad Seeds - We No Who U R

Screaming Trees - Uncle Anesthesia
Nirvana - Serve the Servants
Soundgarden - Stray Cat Blues
Temple of the dog - Hunger Strike

Lulu´s Marble - Ah! So!
The John Spencer Blues Explosion - Bag of bones
Sonic Youth - Incinerate
Muse - United States of Eurasia (+ Collateral Damage)

Hey Hey Hey - Brechó
Ecos Falsos - Nada não
Lestics - História Universal do esquecimento
Ludov - O salto a queda
The Revivals - Gargulas

Oz - Shit Bomb
Boi Mamão - Happy Buggies
Lovecraft - Crazy!
Living in the shit - o porque
Professor Antena - Boys don´t cry
Aristóteles de Ananias jr. - Bico de pato
Graforréia Xilarmonica - Mixto quente

45 Anos de "Sgt. Peppers Lonely Heart´s Club Band"
The Beatles
# Lucy in the sky with diamonds
# Getting better
# Fixing a Hole
# Being for the benefit of Mr. Kite
# Within you without you
# When I´m Sixty-four
# Lovely Rita
# Goog Morning Good Morning
# Sgt Peppers (reprise)
# A Day in the life

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terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Mozine, uma entrevista

Nem empresário, nem músico

Criador do Crackinho e do selo de hardcore mais underground do Brasil, o capixaba Fábio Mozine revela os segredos do seu sucesso


Da quase sempre inóspita paisagem musical do Espírito Santo, nos anos 90 surgiu uma onda de fúria incorporada a um hardcore energético que combinava agressividade e criatividade. Subitamente, Vitória e Vila Velha tornaram-se uma das cenas mais cobiçadas do punk nacional, impulsionada pelo sucesso underground de suas duas bandas principais: o Dead Fish e o Mukeka di Rato. Essa inversão de eixo no Sudeste se deu principalmento por conta da empresa-modelo no que diz respeito a selos de rock no país do carnaval, o epicentro das gravações do terremoto punk capixaba, a Läjä Rekords.

A gravadora foi fundada em 1998 pelo baixista do Mukeka, Fábio Mozine, como veículo de distribuição do primeiro disco do grupo, o hoje antológico Pasqualin na Terra do Xupa-Kabra (1997). Com todos os contatos na mão, o distribuidor virou o maior selo independente do estado e ajudou a impulsionar a cena do Espírito Santo para mercados maiores e para shows por todo o país, além de trazer ao Brasil lançamentos de qualidade de bandas estrangeiras, especialmente as latinas que dificilmente conseguem espaço por aqui.

14 anos depois a Läjä continua firme e forte lançando o que há de mais legal no rock n'roll sujo do país. De Possuído Pelo Cão ao Skate Aranha, passando por Ratos de Porão, Vivisick e Boom Boom Kid, o selo continua preocupado em levar material de qualidade para um público que já foi tão carente de lançamentos nota dez em seus estilos favoritos que quase sempre são proibidos em qualquer outra gravadora do país. Em 2012, o selo colocou no mercado seu lançamento de número 100, mostrando que ainda tem muita gente interessado na barulheira que vem lá de Vila Velha.

Entre as funções de baixista do Mukeka, de Os Pedrero e do Merda, a distribuição de vendas e a vida de empresário da indústria fonográfica, conseguimos um horário na disputada agenda de Mozine para falar de rock, mercado e música na internet. E claro, não deixa de falar de um mascote muito querido da internet, o polêmico Crackinho, a pedra de crack mais amistosa que você já conheceu.

Trip - Como surgiu a gravadora e o que te motivou a fundá-la?
Fábio Mozine - A Läjä surgiu em 1998 para que a gente conseguisse lançar o segundo disco do Mukeka di Rato. O primeiro disco, Pasqualin na Terra do Xupa-Kabra, saiu na época pela RBC, de Brasília, e eu participei ativamente de todas as partes do projeto: gravação, produção da capa e tudo mais. Quando o disco saiu eu comecei também a fazer um intercâmbio de distribuição. Descobria as lojas que queriam os discos, fazia os contatos e passava para a gravadora. Assim eu vi que podia tomar conta de tudo isso. Já sabia onde fazer o disco, já tinha um capital comigo e sabia quem distribuia. Então foi natural. Assim a Läjä nasceu para lançar os discos do Mukeka.

Mas logo a ideia se expandiu, certo?
Certo. Antes mesmo de lançar o Gaiola (segundo disco do Mukeka, de 1999) já saí assinando outras bandas, que foram o TPM de São Paulo, o Gritos do Ódio de Vitória (ES). Depois saiu o Gaiola e eu continuei lançando mais coisas, como as outras bandas em que eu já tocava como o Merda e o Os Pedrero. Daí pra frente comecei também a ir atrás de bandas estrangeiras, dos EUA, da Argentina, da Europa. Hoje eu vejo a Läjä como uma forma de lançar minhas bandas, as bandas que eu gosto e as bandas dos meus amigos.

O nome Läjä foi uma homenagem ao Veli-Matti "Läjä", vocalista da banda finlandesa de hardcore Terveet Kadet?
Foi, mas a história vai além [risos]. Na verdade, aqui em Vila Velha, a gente fazia muita gíria com nome de banda e de pessoas ligadas ao punk ou hardcore. Por exemplo: pegar um Buzzcocks é pegar um ônibus. Sick of It All é fazer sexo - dizer que rolou “mó Sick of It All” [gargalhadas]. Então eram várias dessas. E o adjetivo Läjä surgiu porque tem um disco do Terveet Kadet que o vocalista aparece todo doido na capa, meio sadomasoquista, sacou? Aí a gíria era dizer tipo: “Pô, o cara tá Läjä hoje”, que quer dizer que o cara chegou no bar já muito louco. Essa parada acabou virando comum aqui, aí não teve como não dar esse nome pro selo

Como foram os primeiros anos? Como foi a transição pra você de músico para empresário da indústria fonográfica?
Se for pra olhar bem olhadinho, eu não sou nenhum dos dois [risos]. Eu não sou nem músico nem empresário, mas eu aventuro nessas áreas. Eu não sei tocar direito, mas mesmo assim eu pego o baixo e toco. É a mesma coisa com a empresa aqui. Eu vou fazendo. É tudo meio na doideira aqui. Algumas coisas são legalizadas, outras não, não tem registro e não tem porra nenhuma. Mas eu tento levar essa bagunça de uma forma série e profissional. Então a Läjä é séria no sentido de que eu pago o que tem que pagar e envio o que tem que ser enviado. A mesma coisa com o Mukeka e Os Pedrero. Mesmo que não seja uma coisa musicalmente top a gente procura respeitar o público e respeitar os contratantes. Eu vivo entre esses dois mundos. Não tenho como e nem quero rejeitar nenhum deles. Eu gosto desse processo de fazer as coisas da Läjä, de inventar capa de disco e tudo isso.

Quando você percebeu que a ideia teria força para caminhar com as próprias pernas?
A gente teve sorte. A Läjä começou bem, graças ao Gaiola. Esse é o disco do Mukeka que a galera mais gosta e na época ele vendeu muito bem. Mas nunca me preocupei com esse negócio de conceito não. Hoje tem umas pessoas diferentes que gostam do selo. Mas teve uma época, quando o CD vendia bem no Brasil, que a gente tinha 900 selos. E todo mundo falava que era pela música, pelo hardcore e pelo não sei mais o que. Só que quando o CD parou de vender, todos esses selos sumiram. Na verdade nego tava só garimpando dinheiro. Todo mundo queria achar o novo Dead Fish [risos]. Acontece que agora ficaram poucos selos ativos que ainda lançam material e organizam suas coisas. Hoje a galera dá valor para a Läjä porque todo mundo sabe como é difícil manter uma gravadora nessas condições.

O MP3 chegou perto de matar a Läjä?
De jeito nenhum [risos]. Essa questão é muito mais complexa do que só o MP3. Pra mim, o lance é que a “mídia” do CD, o próprio material, caducou. E a galera procurou uma parada diferente. Então é uma série de fatores. O MP3 não é o Satanás. O inferno é que é formado por outros detalhes. A música na internet não é vilã. Mas essa crise da indústria já está passando. As pessoas estão aprendendo a trabalhar nessas condições e vão conseguir se estabelecer novamente.

Tanto é um problema do CD que as pessoas estão preferindo comprar vinil novamente...
Exatamente. Antes os caras compravam aqui um CD de R$15, que hoje ninguém mais compra. Mas esses mesmos caras vem aqui e pagam R$60 no vinil da mesma banda. E é um produto quatro vezes mais caro. Isso pra mim é uma pista clara de que o problema da indústria fonográfica não é o MP3. É o próprio CD.

Como é o quadro de funcionarios da gravadora?
A Läjä sou eu [gargalhadas]. Eu faço tudo aqui. Eu entrego disco até de carro. Vendo nos shows, checo as artes dos discos, escolho merchandising... Mas é claro que tem várias pessoas colaborando. Tem uma galera que sempre me ajuda, faz montagem, ajuda no boca a boca, etc. Eu escolho os artistas das capas, distribuo, faço pacotes e mando pra fábrica. Mas sempre conto com colaborações.

Como rola a escolha das bandas do casting da Läjä? O que uma banda precisa pra ter o selo Mozine de qualidade?
O selo começou para que a gente conseguisse lançar nossos discos sem depender de ninguém. Aí eu comecei a lançar também as bandas que eu gostava e que eram dos meus amigos, porque afinal tem várias bandas de amigos meus que eu não gosto [gargalhadas]. Eu coloco tudo na balança e peso. Cada situação é uma. Mas o que eu posso te garantir é que eu nunca lanço uma banda por interesse comercial. Nunca lanço ninguém querendo faturar. Mas o critério é amplo: lanço de grindcore a rock n’ roll. Só depende se eu vou com a cara do negócio ou não.

Hoje vocês vendem mais discos, DVDs, livros ou merch?
Cara, hoje a Läjä não tem nenhuma galinha dos ovos de ouro. Hoje não tem um produto que traga lucros exorbitantes nem nenhum produto que venda pra caralho. É tudo meio equilibrado. Mas o que faz a Läjä sobreviver é o montante de estoque que eu tenho. O estoque da Läjä não é morto. Tem disco prensado em 1997 que ainda sai. Então tô que nem um supermercado de varejo [risos]. No fim do mês, juntando as vendas e shows, eu consigo viver e trabalhar. Boné é uma parada que vende muito aqui porque a galera já associou o boné de redinha ao selo. Tem o Guidable, DVD do Ratos de Porão, que vendeu muito e já está na quinta prensagem. Isso além dos LPs, que vendem muito bem também. Claro que quando eu vendo um LP de R$ 60 eu ganho mais do que quando eu vendo um chaveiro do Crackinho [risos]. Então tem isso também.

Falando nisso, como o Crackinho entrou na jogada?
Vila Velha é bizarro, bicho [gargalhadas]. As coisas surgem muito do nada aqui. Todos os nomes de discos das bandas daqui surgem assim: Motoqueiro Doido, Caveira & Macaco, tudo isso surge do nada. Alguém chega no bar com uma jaqueta de couro e um fala: “ó o motoqueiro doido chegando aí”. Cinco minutos depois já virou música escrita num guardanapo. E o Crackinho foi a mesma coisa. Encontrei um amigo na rua e o cara tava sujo. Aí falei: “pô, você ta parecendo um crackinho que anda”. Como todo mundo riu eu desenhei o personagem na hora, escrevi crackinho, escaneei e virou isso aí [risos].

Existe algum plano especial pra ele? Quadrinhos, animação, etc.?
Tem muitas ideias. A galera na internet pira nele. O Rick, da Black Vomit, fez aquele vídeo dele pro Mukeka di Rato [veja abaixo] e assim veio a ideia de fazer um talk show do Crackinho. Seriam entrevistas, dicas de saúde e coisas assim. O Alex Vieria, da revista Prego, fez uma história em quadrinhos do Crackinho que está pra sair. Eu escrevi o roteiro e é meio que uma gênese do personagem que ele desenhou. Volta e meia tem uns doidos que me escrevem querendo fazer boneco de pelúcia do Crackinho [risos]. A galera gosta do personagem. Mas por ser um personagem que é o nome de uma droga e para não rolar um mal entendido, achei legal fazer essa história.

Como é o roteiro?
O quadrinho vai mostrar que o Crackinho foi manipulado em um laboratório por uns deputados [gargalhadas]. Acho que vai ser uma gênese legal para o personagem.

Depois de tanto tempo ainda tem algum disco ou uma banda que você gostaria muito de lançar pela Läjä?
Eu tive a chance de lançar muita gente legal nesse tempo. Teve o Discarga, de São Paulo, que eu sempre curti muito. O FYP, que sempre foi uma referência pra mim, também foi uma honra de lançar. Então algumas bandas que eu lancei me dão muito orgulho, como o Motosierra. Eu poderia citar várias que eu tenho vontade de lançar, mas não tem aquela uma que é a ideal que eu esteja buscando. Acho que se eu tivesse um troféu em mente e tivesse almejando uma banda famosa, a Läjä não seria a Läjä.

por Luiz Filipe Tavares

trip



terça-feira, 4 de dezembro de 2012

# 252 - 01/12/2012

Malcolm McLaren sabia que os "pais da matéria" estavam nos EUA. Foi lá que ele buscou inspiração para que o movimento punk acontecesse - de forma concentrada - na Inglaterra. O que seria do punk sem o despojamento dos N.Y. Dolls, a demência dos Stooges, o antilirismo do Velvet e a agressividade do MC 5? E não foram só estas - todas elas, bandas extintas anos antes do punk - as fundamentais. A "Big Apple" fervilhava de bandas que acabariam traçando os moldes do que viria depois do punk. Eram as bandas new wave de Nova York e, dessas, a mais importante, ao lado dos Talking Heads e dos Voidoids de Richard Hell, foi o Television. 

A história deles começa com o grupo Neon Boys, fundado por Tom Verlaine (guitarra/vocais) e Richard Hell (baixo/vocais) em 71. Richard Lloyd (guitarra) e Billy Ficca (bateria) completavam o grupo, que alguns anos depois mudaria de nome para Television. Hell saiu por volta de 74 e Fred Smith, ex-baixista da Blondie, foi chamado para substitui-lo. Em 74, o TV gravou um single e em 77 eles assinaram com a Elektra para gravar o "Marquee Moon", o primeiro LP. 


Em meio à avalanche punk em que a maioria das bandas fazia um som rápido e primário (Ramones, Dead Boys) ou flertava com o pop (Blondie, Marbles), o Television optava por uma linha musical mais elaborada, com melodias harmoniosas, convivendo com ruídos e músicas longas que, ao vivo, se transformavam em verdadeiras jam sessions. O som do TV remete a uma gama de referências musicais, que vão de Byrds a Neil Young, de Doors a Velvet Underground. Não que o TV soasse como uma das bandas citadas. Ela parecia querer ser todas elas ao mesmo tempo e um pouco mais.

A música de "Marquee Moon" é leve em seus ingredientes e pesada em sua atitude. Os instrumentistas não usam efeitos ou pedais. É rock'n'roll puro, de uma fluidez impressionante. Verlaine e Lloyd formam uma das duplas de guitarristas de rock que mais deram certo. Ambos solam, se alternam em riffs, bases e harmonias. Ambas as guitarras - principalmente a de Verlaine - alcançam sonoridades que às vezes parecem com guinchos, grunhidos e gritos. Ficca e Smith formam uma cozinha "à francesa": leve, com toques jazzísticos, sem abusos. 

As letras - todas de Verlaine - sugerem mais do que dizem, como na faixa de abertura "See No Evil" ("Eu entendo tudo/ a destruição urge/ela parece tão perfeita/eu vejo/eu não vejo nenhum mal"). As texturas sonoras são molduras perfeitas para as letras, como na faixa seguinte, a balada "Venus", em que Verlaine cai "direto nos braços da Vênus de Milo". Em "Friction" o destaque vai para o solo esquizofrênico de Verlaine, assim como na comprida "Marquee Moon" (que, aliás, tem um belíssimo falso gran finale). 

O lado B começa com uma jóia, "Elevation" ("A última palavra/é a palavra perdida/por que você não o diz então?"), onde o junkie Lloyd faz um solo emocionante. "Guiding Light" (única co-parceria de Verlaine no disco - com Lloyd) é mais uma balada que demonstra a sensibilidade harmônica de Verlaine. Em "Prove It", a combinação de base sonora simples com o caleidoscópio de images evocadas por Verlaine é mais uma vez perfeita. Em "Tom Curtain", a última música do disco, outra magnífica combinação: a voz chorosa de Verlaine relembra os anos passados, enquanto sua guitarra estridente rola suas lágrimas mais amargas.
Nem o Television (que acabou em 1979) nem seus integrantes em carreira solo conseguiram fazer um disco à altura de "Marquee Moon" (que na primeira edição nacional saiu com um ridículo carimbo de "punk rock" na capa). É este o disco que prova que eles eram, instrumentalmente, uma das bandas mais integradas da década de 70, e não há músico ou não-músico - de qualquer gênero - que, ao ouvir o disco, não se convença disto. 

Sessão "Discoteca Básica" - Revista Bizz - Edição 22, maio de 1987

por Celso Pucci/Thomas Pappon

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The Jimi Hendrix Experience - The wind cries Mary
The Smiths - There´s a light that never goes out
Air - playground love

Fun people - Si pudera (Desde Ushuaia)
The Cure - just like heaven
Garbage - Not your kind of people
Spiritualized - Death Take your fiddle

Happy Ol´McWeasel - Hairy Grizzly
Sir Reg - Frustration
The Dreadnoughts - Grand Union Hotel
Jamie Clarke´s perfect - Hey now
- por Edson Luis

Safari Hamburgers - Full effect
IODO - Contraponto
Holidays - Slaves this century
Rótulo - Universal da exploração
Rotten Horror - Stupid questions

Mopho - O amor é feito de plástico
Plástico Lunar - Próxima parada
Mamutes - Eu e minha guitarra
Crove Horrorshow - Sem grana
+ Entrevista com Marcos Odara

35 Anos de "Marquee Moon"
Television
# Venus
# Friction
# Torn curtain

#


 


DEP Fabio "garage"

Morreu na manhã desta segunda-feira (3/12) o idealizador do Garage, Fabio Costa. Ele tinha diabetes e há anos sofria com a doença, chegando a ser internado várias vezes. Nos últimos tempos, fazia hemodiálise e a situação se agravou causando o falecimento. Fabio tinha 53 anos.

Fábio Gordo ou Fábio do Garage, como era chamado, era torneiro mecânico e iniciou no meio do entretenimento com uma equipe de rock, que fazia som mecânico no subúrbio do Rio na década de 1970. Trabalhou com Raul, outro pioneiro do underground carioca, na década de 1980, no Caverna I, em São João de Meriti, e também no Caverna II, em Botafogo, ao lado do Canecão. Depois, junto com Hans Júnior, passou a tocar o Garage Art Cult, na Praça da Bandeira, exibindo vídeos e, a partir de 1992, realizado shows.

O Garage foi o principal palco do underground carioca na década de 1990. Passaram (começaram) por lá nomes como Planet Hemp (Marcelo D2 chegou a morar na casa); Los Hermanos, que tocou o hit “Anna Julia” pela primeira vez no local, em 1999; Angra, um dos recordes de bilheteria; Soutien Xiita, No Sense, Gangrena Gasosa, Endoparasites, Anschluss, The Mist e Korzus, entre tantos outros. Foi ainda palco de bandas internacionais como Buzzcocks, DRI, Madball, Kreator, Exodus, Varukers e Agnostic Front.

Fechado há muitos anos, a casa está sob cuidados do empresário Leo Feijó, que, segundo consta, tenta reabri-la, mas esbarra em questões legais. Por outro lado, o endereço do Garage, a Rua Ceará, na Praça da Bandeira, é há muitos anos point da juventude interessada em rock, que curiosamente chama a região de “Garage”. Mesmo com a saúde debilitada, Fabio vinha realizando, com a ajuda de amigos, as “Noites do Garage”, no Teatro Odisseia.

Sobre o "Garage": O Garage fez fama na década de 1990 por revelar os nomes da nova safra do rock carioca, além de se tornar parada obrigatória para bandas de outros estados e até para grupos com certa projeção, que faziam questão de ter no currículo uma passagem por essa verdadeira lenda viva do underground.

A pacata Rua Ceará, durante a semana, era um local de pequeno e tradicional comércio, com moradores de antigas casas que remetiam à época do Império. Mal iluminada, à noite era um local aparentemente sinistro (a rua passa por cima de um canal e por baixo dos trilhos da ferrovia), mas tão tranquilo que nunca se teve notícia de ocorrência policial na região. Seguindo o exemplo, o Garage era talvez o único local de shows de medio porte no mundo que não tinha seguranças fixos - e raramente sentia-se a falta deles.

Quando Fábio Costa chegou ao Garage, em 1989, e começou a passar vídeos de rock, com ênfase no heavy metal, jamais poderia pensar que faria história no rock nacional, resistindo aos altos e baixos de todos os seus segmentos e sustentando uma cena nem sempre tão forte, muito menos lucrativa para quem se propunha a investir no meio. Hans Júnior era o dono da casa, que se chamava Garage Art Cult, antes de Fábio chegar. Ele negociou o espaço junto ao Moto Clube do Brasil, que funcionava durante a semana no subsolo, e parte da arrecadação era repassada aos os proprietários. O primeiro show aconteceu com Endoparasites e Anschluss, em setembro de 1992. A madeira usada na construção do palco foi comprada com um cheque pré-datado, e o dinheiro para cobrir o borrachudo saiu da bilheteria dos primeiros eventos.

Mesmo com uma trajetória de sucesso, Hans Júnior deixou o clube em 1992, após problemas com o show do Kreator, que teve produção do Garage mas acabou rolando na antiga quadra da Estácio de Sá, por questões de espaço. A partir daí começou um verdadeiro entra e sai de sócios, permanecendo somente Fábio, até o fim.

No início, dado o boom do heavy metal no Brasil, que levou a reboque o Sepultura (que nunca tocou no Garage, diga-se) ao sucesso internacional, era esse o estilo predominante, com casa cheia todo final de semana. Pode-se considerar essa fase, entre 1993 e1994, como o auge, sendo shows de bandas como Korzus, The Mist e Angra os mais concorridos.

Em 1994, o clube tentou decolar o próprio selo, que chegou a lançar a coletânea “Garage Voices”, com Freaks?, Unmasked Brains, Scars Souls e Go Ahead!. Perdido na transição entre vinil e CD, e com a tradicional falta de verbas, o Garage Records acabou não indo adiante.

Como nada dura para sempre, o metal deixou de ser o estilo predominante no mercado, e o Garage passou a abrir espaço para todas as novas bandas do novo rock brasileiro, versão anos 90. Ao mesmo tempo, com a falta de espaço para shows de médio porte no Rio de Janeiro, os produtores passaram a ver no Garage uma opção também para eventos internacionais. O primeiro foi o Buzzcocks, que teve grande repercussão na mídia (veja foto aqui e aqui). Depois viriam DRI (fotos aqui e aqui), Madball , por duas vezes, Exodus, Seaweed, Varukers, Agnostic Front e Earth Crises.

Em 1995, o então prefeito César Maia “desapropriou” as casas que compunham a Vila Mimosa, tradicional prostíbulo que funcionava junto à Praça Onze, e alojou as meninas de vida fácil nos arredores da Rua Ceará. Esse fato acabou trazendo um movimento maior para a região, entre táxis transportando clientes e policiais que sempre rondam locais desse tipo.

Em 1997, o clube Balaios, também com sede na Rua Ceará, e composto por motoqueiros e suas envenenadas Harley Davidson, inaugurou o bar Heavy Duty, que, com temática típica de motocicletas, roupas de couro e muito heavy metal rolando, passou a atrair grande número de frequentadores. Somando a isso os vários bares pé-sujos que já funcionavam no local, estava criado o Baixo Ceará. Mesmo atraindo um movimento muito maior, esse público não frequentaria o Garage, e não era raro de se ter shows com lotação média e a rua lotada, sobretudo aos sábados.

Nos tempos das vacas magras, o Garage esteve para fechar várias vezes, e Fábio "gordo" buscou as saídas mais criativas e inusitadas para que isto não acontecesse. A mais comum foi organizar os chamados “SOS Garage”, reunindo bandas com razoável apelo de público, que doavam a bilheteria pra o pagamento das dívidas.

Numa dessas crises, porém, Fábio acabou repassando a casa para um novo sócio que transformaria o local numa casa de forró, aproveitando certo frisson sustentado pelas academias de dança da classe média carioca. A casa chegou a ser reformada, ganhou um novo bar e um mezanino, além de uma pintura típica, com sertanejos e caatingas espalhadas pelas paredes. Com duas semanas de eventos fracassados, o clube voltou para a mão de Fábio - mas por pouco tempo, infelizmente.

O Garage em fatos e números

Início, só com vídeo: final de 1988
Primeiro show do Garage: 4/9/1992, com Endoparasites e Anschluss
Bandas: mais de 1000
Shows: mais de 4 mil
Shows oficialmente mais cheios (público): Korzus, Angra e Planet Hemp com Black Alien
Show mais cheio (bandas): mais de 20, em 6/9/1993, no aniversário; não dava para entrar, até a rua estava lotada
Banda que mais tocou: Cabeça, “umas 30 vezes”, segundo Fábio.
Demos e discos recebidos: + de 2 mil

por Marcos Bragatto

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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Karne Krua forever

Quando o rock se popularizou no Brasil, na década de 1980, não era somente mais um “enlatado” importado ou “empurrado” goela abaixo pelos Estados Unidos da América, tal como o vislumbrava a elite letrada dos anos 60 e 70, mas, graças ao poder das gravadoras multinacionais, fazia parte do dia-a-dia de parcelas cada vez maiores da população, até se tornar um dos produtos mais vendáveis do mercado fonográfico nacional nos primeiros anos da década seguinte. Nesse processo de massificação, chama a atenção o fato de a produção do “rock nacional” ter dois aspectos que poderiam ser capazes de emergir no horizonte de expectativas dos observadores, críticos e historiadores do rock do Brasil nesse novo milênio. Isso por conta não somente do desenvolvimento da sociologia, da antropologia e dos estudos culturais, no campo acadêmico, na década de 1990, mas também da consolidação dos movimentos organizados como discurso proselitista e força política, no mesmo período. Assim, os que acreditavam na rebeldia das letras das músicas daquelas bandas tão populares na década de oitenta mal prestavam atenção para duas marcas que tornavam aquelas manifestações elitizadas. Primeiro, era produzida por um grupo de jovens brancos e bem nascidos do Sudeste e Sul do país, os quais tiveram acesso privilegiado às informações musicais que vinham dos Estados Unidos e da Inglaterra, mas também aos instrumentos importados, às guitarras Fender, aos amplificadores e caixas Marshall, a tudo que costumávamos ver nas fotos publicadas pelas revistas daquela época ainda sem MTV e Internet.

Mas essa elitização econômica e étnica foi rompida com o movimento punk em São Paulo, que se notabilizou em 1982 com o festival Começo do Fim do Mundo, realizado no SescPopeia, já decantado em prosa por Antônio Bivar em seu livrinho O que é Punk. Pela primeira vez, o público de São Paulo e do resto do país, através dos documentários e matérias exibidas na televisão, tomaram conhecimento desse grupo de garotos brancos, mulatos e negros que, saídos dos subúrbios e de uma vida dura de officeboy, divulgavam para o mundo seu rock cru de letras de protesto, tocado com guitarras nacionais vagabundas e desafinadas, com três acordes mal aprendidos. Esse espírito punk do faça você mesmo, que se manifestava pela música e pela imprensa subterrânea dos fanzines, tendo seu paradigma mítico na Inglaterra e nos SexPistols, tal como a tradição das narrativas eurocêntricas nos ensinou a entender tais fenômenos, espalhou-se pelo Brasil e, com diferença de datas, manifestou-se ao seu modo em cada região.

Em Sergipe, pela atitude, os primeiros punks surgiram por volta de 84 e 85, com as bandas da época que tocavam e publicavam seus fanzines sem infraestrutura ou apoio, mas musicalmente o movimento corporificou-se com o surgimento do  Karne Krua e com a capacidade empreendedora de Silvio Campos, vocalista/idealizador/mentor/compositor/produtor da banda. A primeira formação do Karne Kruacontava com Sílvio nos vocais, Vicente Coda na guitarra, Tony Almada na bateria e Marcelo Gaspar no baixo, mas a banda se consolidou mesmo com a entrada de Márlio no baixo. Marcelo passou para a guitarra e Vicente montou o projeto Fome Africana. Isso nos anos 80, no underground do circuito alternativo mais ou menos “inventado” pelas bandas de Aracaju, que também produziam, como ainda hoje, os cartazes dos shows e os zines. Depois cada um tomou seu rumo, mas os agentes principais de toda aquela empreitada se mantiveram persistentes, mesmo tendo que se agarrar a seus empregos ou trabalhos para se manterem na persistência.  Durante as décadas de 90 do século XX e de 10 do século XXI, vários outros músicos tocaram no Karne Krua (lembro, de cabeça, de Soneca, Fábio, Valdeleno...).

Apesar de ter se transformado musicalmente, passando a fazer um som mais elaborado, o que se manifesta também nas timbragens das distorções de guitarra, no aprimoramento das batidas, nos contratempos da bateria e, finalmente, no domínio de Silvio da arte do canto, com sua voz possante e toda peculiar, o KarneKrua é o maior exemplo dessa persistência, num estado que, como muitos outros do Brasil, quando não importa os produtos musicais de sucesso, (co)opta por selecionar, durante as sucessivas gestões municipais e estaduais dos órgãos de cultura, um grupo reduzido de artistas locais para absorver a pequena parte da verba que sobra para os eventos culturais, as quais são periodicamente superfaturadas e manipuladas no processo de contratação dos grandes nomes nacionais da música, sobretudo na celebração de eventos tradicionais, como os festejos juninos, o carnaval e o ano novo. O Karne Krua passou por todos os modismos e por sucessivas gerações de roqueiros, mantendo-se firme e fiel aos seus princípios até agora. Isso se deve a uma espécie de sacerdócio ou militância que Silvio, com sua loja Freedom, único reduto genuinamente roqueiro da cidade, na rua Santa Luzia, faz questão de deixar vivo e atuante. Silvio foi o primeiro a realizar o grande sonho de toda banda da década de 80: um disco de vinil. Fui num dos shows de lançamento, nos idos de 94, no extinto Mahalo, quando o bar era situado em frente à Faculdade Tiradentes, no centro da cidade. Antes de Karne Krua (1994), a banda já tinha produzido em fita cassete As Merdas do Sistema (1986) eLabor Operário (1989). Em 1995, lançou Instantes Irreversíveis, e em 2002 o cd Em Carne Viva, que trazia na capa, de maneira muito justa, uma bela e sinistra foto do rosto de Silvio.

É significativo que, entre 2011 e 2012, os últimos remanescentes da primeira geração dos roqueiros seguidores da filosofia do “faça você mesmo” de Aracaju – eu, Vicente Coda e Silvio Campos – tenham resolvido lançar trabalhos novos, produzindo suas músicas e discos com o auxílio indispensável da produtora instituída no país por Itamar Assunção, “Às Próprias Custas S/A”. Não há testemunho mais eloquente da persistência, da energia que se renova mesmo depois de tantos tapas tomados pela vida, e de tanta desilusão. Sobre o disco de Vicente, A viagem de Christine ao universo da beatgeneration, não escrevi, mas fiz um texto sobre o seu show de lançamento no Teatro Atheneu, do qual participei. O do CroveHorrorshow, Depois do Rock, ao que tudo indica, sairá somente depois do carnaval, no próximo ano, e o do Karne Krua, Inanição, embora tenha ficado pronto já há um tempinho, só há alguns dias tive acesso, quando o comprei diretamente das  mãos de Silvio.

Ouvi o cd faixa por faixa e decidi escrever um texto sobre ele. Silvio me disse que Inanição encerra um ciclo do Karne Krua com temática concentrada no problema da seca do Nordeste. Gostei muito do disco, desde sua concepção gráfica, cujo encarte,assinado por Alê (aledg.com), em fundo verde, traz todas as letras, com os títulos das músicas grafados em fonte muito coerente com os desenhos e fotos editados, até o desenho da capa, que, embora de longe possa ser “lido” como uma flor, tem a sua estrutura montada com caveiras e no seu botão traz a imagem macabra de cruzes, o que logo nos remonta à temática e à imagética principal do disco: o sol causticante, a seca, a perda, a carência, a morte. Silvio canta a saga do que considera “O Guerreiro”, título da faixa 7, que, ao invés do tradicional estilo hardcore, nos traz um rock sabor anos 80 com batida mais lenta, no gênero de “Garoto do Subúrbio”, dos Inocentes. “O Guerreiro” é aquele que trabalha sob o sol com sua enxada. O seu refrão, que diz: “lá vai o guerreiro”, com sua “família morta de fome”, transmite certa dignidade à imagem mítica do sertanejo forte, tal como o pintaram Portinari e Euclides da Cunha. Mas esse sertanejo é também um “cabra marcado para morrer”, como em “Navalha no Pescoço”, hardcore genuíno e sem frescuras assinado por Marcos Aurélio (letra) e Alexandre Ghandi, que também produziu o disco, compôs várias músicas – incluindo a faixa-título, Inanição –, no qualSilvio declara: “a minha mente é tão forte, move morro e tem força de leão”.  A ambiência sertaneja persiste em todas as faixas, embora o disco traga também músicas de outras fases do Karne Krua, como “Lixeiras da Cidade”, que nos anos 80 se chamava “Lá na Soledade”.

A novidade nesse disco fica por conta da versatilidade de Silvio, que, quando não rememora seu lado “bluseiro”, mais explorado em seu outro projeto musical, Máquina Blues, se transforma numa espécie de Zé Ramalho/Alceu Valença endiabrado, com voz rouca e grave, gritando seus refrões ao som da bateria rápida de Thiago Babalu e dos riffs e solos precisos da guitarra de Alexandre Ghandi. O baixo, que também foi tocado por Alexandre, faz o fundo pulsivo e agressivo, preparando com a bateria a cama sonora ideal para os rasgos vocais de Silvio. E Silvio sempre foi fã da música nordestina produzida nos anos 70/80. Lembro que ouvíamos juntos os discos de Zé Ramalho nos anos 80. Em “O Vaqueiro e a Boiada”, ele chega a entoar aboios e cantos não distorcidos, o que transforma o Karne Krua numa das mais inusitadas bandas do país e do mundo. O disco traz ainda efeitos sonoros, como cânticos religiosos, um cantador fazendo um repente na faixa “Do sol latente ao cinza das ruas”, assinada por Max Alberto (letra), Silvio, Alexandre e Thiago.

Assim, a sua excelente sonoridade e arte gráfica andam de mãos dadas, compondo um dos trabalhos mais importantes do Karne Krua em toda a sua carreira. Num momento em que se faz death metal em Angola, e em que muitos dos antigos chavões do punk rock dos anos 80 perderam sua razão de ser, Inaniçãotanto o disco quanto a músicaé uma amostra de que o rock de protesto ainda faz sentido, principalmente quando parte de um dos mais originais poetas contemporâneos, Silvio, que canta suas letras – e as de seus parceirossobre um rock duro, pesado e ágil, tão ágil quanto seus rasgos vocais, que, por sua vez, combinam com as distorções da guitarra e com a alta pulsação do baixo e da bateria. Se Inanição termina um ciclo, por outro lado inicia uma fase em que o Karne Krua se consolida não como uma banda punk reconhecida nacional e até internacionalmente, pois assim o era no final dos anos 80, mas como uma banda original, que trouxeachopela primeira vez a temática dos oprimidos pela indústria da seca do Nordeste para o “rock punk”. Escrevo “rock punk” porque, como o próprio Silvio nos ensina numa de suas letras, o punk não é rock. O rock é que é punk.  

Fotos P&B: snapic, lançamento do CD "inanição" ao vivo no programa de rock.
Fotos coloridas: (CC BY SA) Fora do Eixo/Nando - em Batalha, Alagoas.

Karne Krua forever!!!

por Luiz Eduardo Oliveira

Fonte: Portal UFS