Morreu na manhã desta segunda-feira (3/12) o idealizador do Garage,
Fabio Costa. Ele tinha diabetes e há anos sofria com a doença, chegando
a ser internado várias vezes. Nos últimos tempos, fazia hemodiálise e a
situação se agravou causando o falecimento. Fabio tinha 53 anos.
Fábio Gordo ou Fábio do Garage, como era chamado, era torneiro
mecânico e iniciou no meio do entretenimento com uma equipe de rock, que
fazia som mecânico no subúrbio do Rio na década de 1970. Trabalhou com
Raul, outro pioneiro do underground carioca, na década de 1980, no
Caverna I, em São João de Meriti, e também no Caverna II, em Botafogo,
ao lado do Canecão. Depois, junto com Hans Júnior, passou a tocar o
Garage Art Cult, na Praça da Bandeira, exibindo vídeos e, a partir de
1992, realizado shows.
O Garage foi o principal palco do underground carioca na década de
1990. Passaram (começaram) por lá nomes como Planet Hemp (Marcelo D2
chegou a morar na casa); Los Hermanos, que tocou o hit “Anna Julia” pela
primeira vez no local, em 1999; Angra, um dos recordes de bilheteria; Soutien Xiita, No Sense, Gangrena Gasosa, Endoparasites, Anschluss, The Mist e
Korzus, entre tantos outros. Foi ainda palco de bandas internacionais
como Buzzcocks, DRI, Madball, Kreator, Exodus, Varukers e Agnostic Front.
Fechado há muitos anos, a casa está sob cuidados do empresário Leo
Feijó, que, segundo consta, tenta reabri-la, mas esbarra em questões
legais. Por outro lado, o endereço do Garage, a Rua Ceará, na Praça da
Bandeira, é há muitos anos point da juventude interessada em rock, que
curiosamente chama a região de “Garage”. Mesmo com a saúde debilitada,
Fabio vinha realizando, com a ajuda de amigos, as “Noites do Garage”, no
Teatro Odisseia.
Sobre o "Garage": O Garage
fez fama na década de 1990 por revelar os nomes da nova safra do rock
carioca, além de se tornar parada obrigatória para bandas de outros
estados e até para grupos com certa projeção, que faziam questão de ter
no currículo uma passagem por essa verdadeira lenda viva do underground.
A pacata Rua Ceará, durante a semana, era um local de pequeno e
tradicional comércio, com moradores de antigas casas que remetiam à época
do Império. Mal iluminada, à noite era um local aparentemente sinistro (a
rua passa por cima de um canal e por baixo dos trilhos da ferrovia),
mas tão tranquilo que nunca se teve notícia de ocorrência policial na
região. Seguindo o exemplo, o Garage era talvez o único local de shows de medio porte no mundo que não
tinha seguranças fixos - e raramente sentia-se a falta deles.
Quando Fábio Costa chegou ao Garage, em 1989, e começou a passar
vídeos de rock, com ênfase no heavy metal, jamais poderia pensar que
faria história no rock nacional, resistindo aos altos e baixos de todos
os seus segmentos e sustentando uma cena nem sempre tão forte, muito
menos lucrativa para quem se propunha a investir no meio. Hans Júnior era o
dono da casa, que se chamava Garage Art Cult, antes de Fábio chegar.
Ele negociou o espaço junto ao Moto Clube do Brasil, que funcionava
durante a semana no subsolo, e parte da arrecadação era repassada aos os
proprietários. O primeiro show aconteceu com Endoparasites e Anschluss, em setembro
de 1992. A madeira
usada na construção do palco foi comprada com um cheque pré-datado, e o dinheiro para cobrir o borrachudo saiu da bilheteria dos primeiros eventos.
Mesmo com uma trajetória de sucesso, Hans Júnior deixou o clube em
1992, após problemas com o show do Kreator, que teve produção do Garage
mas acabou rolando na antiga quadra da Estácio de Sá, por questões de
espaço. A partir daí começou um verdadeiro entra e sai de sócios,
permanecendo somente Fábio, até o fim.
No início, dado o boom do heavy metal no Brasil, que levou a reboque o Sepultura
(que nunca tocou no Garage, diga-se) ao sucesso internacional, era esse
o estilo predominante, com casa cheia todo final de semana.
Pode-se considerar essa fase, entre 1993 e1994, como o auge, sendo shows
de bandas como Korzus, The Mist e Angra os mais concorridos.
Em 1994, o clube tentou decolar o próprio selo, que chegou a lançar a
coletânea “Garage Voices”, com Freaks?, Unmasked Brains, Scars Souls e
Go Ahead!. Perdido na transição entre vinil e CD, e com a tradicional
falta de verbas, o Garage Records acabou não indo adiante.
Como nada dura para sempre, o metal deixou de ser o estilo
predominante no mercado, e o Garage passou a abrir espaço para todas as
novas bandas do novo rock brasileiro, versão anos 90. Ao mesmo tempo,
com a falta de espaço para shows de médio porte no Rio de Janeiro, os
produtores passaram a ver no Garage uma opção também para eventos
internacionais. O primeiro foi o Buzzcocks, que teve grande repercussão na mídia (veja foto aqui e aqui). Depois viriam DRI (fotos aqui e aqui), Madball , por duas vezes, Exodus, Seaweed, Varukers, Agnostic Front e Earth Crises.
Em 1995, o então prefeito César Maia “desapropriou” as casas que
compunham a Vila Mimosa, tradicional prostíbulo que funcionava junto à
Praça Onze, e alojou as meninas de vida fácil nos arredores
da Rua Ceará. Esse fato acabou trazendo um movimento maior para a
região, entre táxis transportando clientes e policiais que sempre rondam
locais desse tipo.
Em 1997, o clube Balaios, também com sede na Rua Ceará, e composto
por motoqueiros e suas envenenadas Harley Davidson, inaugurou o bar
Heavy Duty, que, com temática típica de motocicletas, roupas de couro e
muito heavy metal rolando, passou a atrair grande número de
frequentadores. Somando a isso os vários bares pé-sujos que já
funcionavam no local, estava criado o Baixo Ceará. Mesmo atraindo um
movimento muito maior, esse público não frequentaria o Garage, e não era
raro de se ter shows com lotação média e a rua lotada, sobretudo aos
sábados.
Nos tempos das vacas magras, o Garage esteve para fechar várias
vezes, e Fábio "gordo" buscou as saídas mais criativas e
inusitadas para que isto não acontecesse. A mais comum foi organizar os chamados “SOS Garage”,
reunindo bandas com razoável apelo de público, que doavam a bilheteria pra
o pagamento das dívidas.
Numa dessas crises, porém, Fábio acabou repassando a
casa para um novo sócio que transformaria o local numa casa de forró,
aproveitando certo frisson sustentado pelas academias de dança da classe
média carioca. A casa chegou a ser reformada, ganhou um novo bar e um
mezanino, além de uma pintura típica, com sertanejos e caatingas
espalhadas pelas paredes. Com duas semanas de eventos fracassados, o
clube voltou para a mão de Fábio - mas por pouco tempo, infelizmente.
O Garage em fatos e números
Início, só com vídeo: final de 1988
Primeiro show do Garage: 4/9/1992, com Endoparasites e Anschluss
Bandas: mais de 1000
Shows: mais de 4 mil
Shows oficialmente mais cheios (público): Korzus, Angra e Planet Hemp com Black Alien
Show mais cheio (bandas): mais de 20, em 6/9/1993, no aniversário; não dava para entrar, até a rua estava lotada
Banda que mais tocou: Cabeça, “umas 30 vezes”, segundo Fábio.
Demos e discos recebidos: + de 2 mil
por Marcos Bragatto
reg
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Karne Krua forever
Quando o rock se popularizou no Brasil, na década de 1980, já não era somente mais um “enlatado” importado ou “empurrado” goela abaixo pelos Estados Unidos da América, tal como o vislumbrava a elite letrada dos anos 60 e 70, mas, graças ao poder das gravadoras multinacionais, fazia já parte do dia-a-dia de parcelas cada vez maiores da população, até se tornar um dos produtos mais vendáveis do mercado fonográfico nacional nos primeiros anos da década seguinte. Nesse processo de massificação, chama a atenção o fato de a produção do “rock nacional” ter dois aspectos que só poderiam ser capazes de emergir no horizonte de expectativas dos observadores, críticos e historiadores do rock do Brasil nesse novo milênio. Isso por conta não somente do desenvolvimento da sociologia, da antropologia e dos estudos culturais, no campo acadêmico, na década de 1990, mas também da consolidação dos movimentos organizados como discurso proselitista e força política, no mesmo período. Assim, os que acreditavam na rebeldia das letras das músicas daquelas bandas tão populares na década de oitenta mal prestavam atenção para duas marcas que tornavam aquelas manifestações elitizadas. Primeiro, era produzida por um grupo de jovens brancos e bem nascidos do Sudeste e Sul do país, os quais tiveram acesso privilegiado às informações musicais que vinham dos Estados Unidos e da Inglaterra, mas também aos instrumentos importados, às guitarras Fender, aos amplificadores e caixas Marshall, a tudo que costumávamos ver nas fotos publicadas pelas revistas daquela época ainda sem MTV e Internet.
Mas essa elitização econômica e étnica foi rompida com o movimento punk em São Paulo, que se notabilizou em 1982 com o festival Começo do Fim do Mundo, realizado no SescPopeia, já decantado em prosa por Antônio Bivar em seu livrinho O que é Punk. Pela primeira vez, o público de São Paulo e do resto do país, através dos documentários e matérias exibidas na televisão, tomaram conhecimento desse grupo de garotos brancos, mulatos e negros que, saídos dos subúrbios e de uma vida dura de officeboy, divulgavam para o mundo seu rock cru de letras de protesto, tocado com guitarras nacionais vagabundas e desafinadas, com três acordes mal aprendidos. Esse espírito punk do faça você mesmo, que se manifestava pela música e pela imprensa subterrânea dos fanzines, tendo seu paradigma mítico na Inglaterra e nos SexPistols, tal como a tradição das narrativas eurocêntricas nos ensinou a entender tais fenômenos, espalhou-se pelo Brasil e, com diferença de datas, manifestou-se ao seu modo em cada região.
Em Sergipe, pela atitude, os primeiros punks surgiram por volta de 84 e 85, com as bandas da época que tocavam e publicavam seus fanzines sem infraestrutura ou apoio, mas musicalmente o movimento corporificou-se com o surgimento do Karne Krua e com a capacidade empreendedora de Silvio Campos, vocalista/idealizador/mentor/compositor/produtor da banda. A primeira formação do Karne Kruacontava com Sílvio nos vocais, Vicente Coda na guitarra, Tony Almada na bateria e Marcelo Gaspar no baixo, mas a banda se consolidou mesmo com a entrada de Márlio no baixo. Marcelo passou para a guitarra e Vicente montou o projeto Fome Africana. Isso nos anos 80, no underground do circuito alternativo mais ou menos “inventado” pelas bandas de Aracaju, que também produziam, como ainda hoje, os cartazes dos shows e os zines. Depois cada um tomou seu rumo, mas os agentes principais de toda aquela empreitada se mantiveram persistentes, mesmo tendo que se agarrar a seus empregos ou trabalhos para se manterem na persistência. Durante as décadas de 90 do século XX e de 10 do século XXI, vários outros músicos tocaram no Karne Krua (lembro, de cabeça, de Soneca, Fábio, Valdeleno...).
Apesar de ter se transformado musicalmente, passando a fazer um som mais elaborado, o que se manifesta também nas timbragens das distorções de guitarra, no aprimoramento das batidas, nos contratempos da bateria e, finalmente, no domínio de Silvio da arte do canto, com sua voz possante e toda peculiar, o KarneKrua é o maior exemplo dessa persistência, num estado que, como muitos outros do Brasil, quando não importa os produtos musicais de sucesso, (co)opta por selecionar, durante as sucessivas gestões municipais e estaduais dos órgãos de cultura, um grupo reduzido de artistas locais para absorver a pequena parte da verba que sobra para os eventos culturais, as quais são periodicamente superfaturadas e manipuladas no processo de contratação dos grandes nomes nacionais da música, sobretudo na celebração de eventos tradicionais, como os festejos juninos, o carnaval e o ano novo. O Karne Krua passou por todos os modismos e por sucessivas gerações de roqueiros, mantendo-se firme e fiel aos seus princípios até agora. Isso se deve a uma espécie de sacerdócio ou militância que Silvio, com sua loja Freedom, único reduto genuinamente roqueiro da cidade, na rua Santa Luzia, faz questão de deixar vivo e atuante. Silvio foi o primeiro a realizar o grande sonho de toda banda da década de 80: um disco de vinil. Fui num dos shows de lançamento, nos idos de 94, no extinto Mahalo, quando o bar era situado em frente à Faculdade Tiradentes, no centro da cidade. Antes de Karne Krua (1994), a banda já tinha produzido em fita cassete As Merdas do Sistema (1986) eLabor Operário (1989). Em 1995, lançou Instantes Irreversíveis, e em 2002 o cd Em Carne Viva, que trazia na capa, de maneira muito justa, uma bela e sinistra foto do rosto de Silvio.
É significativo que, entre 2011 e 2012, os últimos remanescentes da primeira geração dos roqueiros seguidores da filosofia do “faça você mesmo” de Aracaju – eu, Vicente Coda e Silvio Campos – tenham resolvido lançar trabalhos novos, produzindo suas músicas e discos com o auxílio indispensável da produtora instituída no país por Itamar Assunção, “Às Próprias Custas S/A”. Não há testemunho mais eloquente da persistência, da energia que se renova mesmo depois de tantos tapas tomados pela vida, e de tanta desilusão. Sobre o disco de Vicente, A viagem de Christine ao universo da beatgeneration, não escrevi, mas fiz um texto sobre o seu show de lançamento no Teatro Atheneu, do qual participei. O do CroveHorrorshow, Depois do Rock, ao que tudo indica, sairá somente depois do carnaval, no próximo ano, e o do Karne Krua, Inanição, embora tenha ficado pronto já há um tempinho, só há alguns dias tive acesso, quando o comprei diretamente das mãos de Silvio.
Ouvi o cd faixa por faixa e decidi escrever um texto sobre ele. Silvio me disse que Inanição encerra um ciclo do Karne Krua com temática concentrada no problema da seca do Nordeste. Gostei muito do disco, desde sua concepção gráfica, cujo encarte,assinado por Alê (aledg.com), em fundo verde, traz todas as letras, com os títulos das músicas grafados em fonte muito coerente com os desenhos e fotos editados, até o desenho da capa, que, embora de longe possa ser “lido” como uma flor, tem a sua estrutura montada com caveiras e no seu botão traz a imagem macabra de cruzes, o que logo nos remonta à temática e à imagética principal do disco: o sol causticante, a seca, a perda, a carência, a morte. Silvio canta a saga do que considera “O Guerreiro”, título da faixa 7, que, ao invés do tradicional estilo hardcore, nos traz um rock sabor anos 80 com batida mais lenta, no gênero de “Garoto do Subúrbio”, dos Inocentes. “O Guerreiro” é aquele que trabalha sob o sol com sua enxada. O seu refrão, que diz: “lá vai o guerreiro”, com sua “família morta de fome”, transmite certa dignidade à imagem mítica do sertanejo forte, tal como o pintaram Portinari e Euclides da Cunha. Mas esse sertanejo é também um “cabra marcado para morrer”, como em “Navalha no Pescoço”, hardcore genuíno e sem frescuras assinado por Marcos Aurélio (letra) e Alexandre Ghandi, que também produziu o disco, compôs várias músicas – incluindo a faixa-título, Inanição –, no qualSilvio declara: “a minha mente é tão forte, move morro e tem força de leão”. A ambiência sertaneja persiste em todas as faixas, embora o disco traga também músicas de outras fases do Karne Krua, como “Lixeiras da Cidade”, que nos anos 80 se chamava “Lá na Soledade”.
A novidade nesse disco fica por conta da versatilidade de Silvio, que, quando não rememora seu lado “bluseiro”, mais explorado em seu outro projeto musical, Máquina Blues, se transforma numa espécie de Zé Ramalho/Alceu Valença endiabrado, com voz rouca e grave, gritando seus refrões ao som da bateria rápida de Thiago Babalu e dos riffs e solos precisos da guitarra de Alexandre Ghandi. O baixo, que também foi tocado por Alexandre, faz o fundo pulsivo e agressivo, preparando com a bateria a cama sonora ideal para os rasgos vocais de Silvio. E Silvio sempre foi fã da música nordestina produzida nos anos 70/80. Lembro que ouvíamos juntos os discos de Zé Ramalho nos anos 80. Em “O Vaqueiro e a Boiada”, ele chega a entoar aboios e cantos não distorcidos, o que transforma o Karne Krua numa das mais inusitadas bandas do país e do mundo. O disco traz ainda efeitos sonoros, como cânticos religiosos, um cantador fazendo um repente na faixa “Do sol latente ao cinza das ruas”, assinada por Max Alberto (letra), Silvio, Alexandre e Thiago.
Assim, a sua excelente sonoridade e arte gráfica andam de mãos dadas, compondo um dos trabalhos mais importantes do Karne Krua em toda a sua carreira. Num momento em que se faz death metal em Angola, e em que muitos dos antigos chavões do punk rock dos anos 80 perderam sua razão de ser, Inanição – tanto o disco quanto a música – é uma amostra de que o rock de protesto ainda faz sentido, principalmente quando parte de um dos mais originais poetas contemporâneos, Silvio, que canta suas letras – e as de seus parceiros – sobre um rock duro, pesado e ágil, tão ágil quanto seus rasgos vocais, que, por sua vez, combinam com as distorções da guitarra e com a alta pulsação do baixo e da bateria. Se Inanição termina um ciclo, por outro lado inicia uma fase em que o Karne Krua se consolida não como uma banda punk reconhecida nacional e até internacionalmente, pois assim já o era no final dos anos 80, mas como uma banda original, que trouxe – acho – pela primeira vez a temática dos oprimidos pela indústria da seca do Nordeste para o “rock punk”. Escrevo “rock punk” porque, como o próprio Silvio nos ensina numa de suas letras, o punk não é rock. O rock é que é punk.
Fotos P&B: snapic, lançamento do CD "inanição" ao vivo no programa de rock.
Fotos coloridas: (CC BY SA) Fora do Eixo/Nando - em Batalha, Alagoas.
Karne Krua forever!!!
por Luiz Eduardo Oliveira
Fonte: Portal UFS
Mas essa elitização econômica e étnica foi rompida com o movimento punk em São Paulo, que se notabilizou em 1982 com o festival Começo do Fim do Mundo, realizado no SescPopeia, já decantado em prosa por Antônio Bivar em seu livrinho O que é Punk. Pela primeira vez, o público de São Paulo e do resto do país, através dos documentários e matérias exibidas na televisão, tomaram conhecimento desse grupo de garotos brancos, mulatos e negros que, saídos dos subúrbios e de uma vida dura de officeboy, divulgavam para o mundo seu rock cru de letras de protesto, tocado com guitarras nacionais vagabundas e desafinadas, com três acordes mal aprendidos. Esse espírito punk do faça você mesmo, que se manifestava pela música e pela imprensa subterrânea dos fanzines, tendo seu paradigma mítico na Inglaterra e nos SexPistols, tal como a tradição das narrativas eurocêntricas nos ensinou a entender tais fenômenos, espalhou-se pelo Brasil e, com diferença de datas, manifestou-se ao seu modo em cada região.
Em Sergipe, pela atitude, os primeiros punks surgiram por volta de 84 e 85, com as bandas da época que tocavam e publicavam seus fanzines sem infraestrutura ou apoio, mas musicalmente o movimento corporificou-se com o surgimento do Karne Krua e com a capacidade empreendedora de Silvio Campos, vocalista/idealizador/mentor/compositor/produtor da banda. A primeira formação do Karne Kruacontava com Sílvio nos vocais, Vicente Coda na guitarra, Tony Almada na bateria e Marcelo Gaspar no baixo, mas a banda se consolidou mesmo com a entrada de Márlio no baixo. Marcelo passou para a guitarra e Vicente montou o projeto Fome Africana. Isso nos anos 80, no underground do circuito alternativo mais ou menos “inventado” pelas bandas de Aracaju, que também produziam, como ainda hoje, os cartazes dos shows e os zines. Depois cada um tomou seu rumo, mas os agentes principais de toda aquela empreitada se mantiveram persistentes, mesmo tendo que se agarrar a seus empregos ou trabalhos para se manterem na persistência. Durante as décadas de 90 do século XX e de 10 do século XXI, vários outros músicos tocaram no Karne Krua (lembro, de cabeça, de Soneca, Fábio, Valdeleno...).
Apesar de ter se transformado musicalmente, passando a fazer um som mais elaborado, o que se manifesta também nas timbragens das distorções de guitarra, no aprimoramento das batidas, nos contratempos da bateria e, finalmente, no domínio de Silvio da arte do canto, com sua voz possante e toda peculiar, o KarneKrua é o maior exemplo dessa persistência, num estado que, como muitos outros do Brasil, quando não importa os produtos musicais de sucesso, (co)opta por selecionar, durante as sucessivas gestões municipais e estaduais dos órgãos de cultura, um grupo reduzido de artistas locais para absorver a pequena parte da verba que sobra para os eventos culturais, as quais são periodicamente superfaturadas e manipuladas no processo de contratação dos grandes nomes nacionais da música, sobretudo na celebração de eventos tradicionais, como os festejos juninos, o carnaval e o ano novo. O Karne Krua passou por todos os modismos e por sucessivas gerações de roqueiros, mantendo-se firme e fiel aos seus princípios até agora. Isso se deve a uma espécie de sacerdócio ou militância que Silvio, com sua loja Freedom, único reduto genuinamente roqueiro da cidade, na rua Santa Luzia, faz questão de deixar vivo e atuante. Silvio foi o primeiro a realizar o grande sonho de toda banda da década de 80: um disco de vinil. Fui num dos shows de lançamento, nos idos de 94, no extinto Mahalo, quando o bar era situado em frente à Faculdade Tiradentes, no centro da cidade. Antes de Karne Krua (1994), a banda já tinha produzido em fita cassete As Merdas do Sistema (1986) eLabor Operário (1989). Em 1995, lançou Instantes Irreversíveis, e em 2002 o cd Em Carne Viva, que trazia na capa, de maneira muito justa, uma bela e sinistra foto do rosto de Silvio.
É significativo que, entre 2011 e 2012, os últimos remanescentes da primeira geração dos roqueiros seguidores da filosofia do “faça você mesmo” de Aracaju – eu, Vicente Coda e Silvio Campos – tenham resolvido lançar trabalhos novos, produzindo suas músicas e discos com o auxílio indispensável da produtora instituída no país por Itamar Assunção, “Às Próprias Custas S/A”. Não há testemunho mais eloquente da persistência, da energia que se renova mesmo depois de tantos tapas tomados pela vida, e de tanta desilusão. Sobre o disco de Vicente, A viagem de Christine ao universo da beatgeneration, não escrevi, mas fiz um texto sobre o seu show de lançamento no Teatro Atheneu, do qual participei. O do CroveHorrorshow, Depois do Rock, ao que tudo indica, sairá somente depois do carnaval, no próximo ano, e o do Karne Krua, Inanição, embora tenha ficado pronto já há um tempinho, só há alguns dias tive acesso, quando o comprei diretamente das mãos de Silvio.
Ouvi o cd faixa por faixa e decidi escrever um texto sobre ele. Silvio me disse que Inanição encerra um ciclo do Karne Krua com temática concentrada no problema da seca do Nordeste. Gostei muito do disco, desde sua concepção gráfica, cujo encarte,assinado por Alê (aledg.com), em fundo verde, traz todas as letras, com os títulos das músicas grafados em fonte muito coerente com os desenhos e fotos editados, até o desenho da capa, que, embora de longe possa ser “lido” como uma flor, tem a sua estrutura montada com caveiras e no seu botão traz a imagem macabra de cruzes, o que logo nos remonta à temática e à imagética principal do disco: o sol causticante, a seca, a perda, a carência, a morte. Silvio canta a saga do que considera “O Guerreiro”, título da faixa 7, que, ao invés do tradicional estilo hardcore, nos traz um rock sabor anos 80 com batida mais lenta, no gênero de “Garoto do Subúrbio”, dos Inocentes. “O Guerreiro” é aquele que trabalha sob o sol com sua enxada. O seu refrão, que diz: “lá vai o guerreiro”, com sua “família morta de fome”, transmite certa dignidade à imagem mítica do sertanejo forte, tal como o pintaram Portinari e Euclides da Cunha. Mas esse sertanejo é também um “cabra marcado para morrer”, como em “Navalha no Pescoço”, hardcore genuíno e sem frescuras assinado por Marcos Aurélio (letra) e Alexandre Ghandi, que também produziu o disco, compôs várias músicas – incluindo a faixa-título, Inanição –, no qualSilvio declara: “a minha mente é tão forte, move morro e tem força de leão”. A ambiência sertaneja persiste em todas as faixas, embora o disco traga também músicas de outras fases do Karne Krua, como “Lixeiras da Cidade”, que nos anos 80 se chamava “Lá na Soledade”.
A novidade nesse disco fica por conta da versatilidade de Silvio, que, quando não rememora seu lado “bluseiro”, mais explorado em seu outro projeto musical, Máquina Blues, se transforma numa espécie de Zé Ramalho/Alceu Valença endiabrado, com voz rouca e grave, gritando seus refrões ao som da bateria rápida de Thiago Babalu e dos riffs e solos precisos da guitarra de Alexandre Ghandi. O baixo, que também foi tocado por Alexandre, faz o fundo pulsivo e agressivo, preparando com a bateria a cama sonora ideal para os rasgos vocais de Silvio. E Silvio sempre foi fã da música nordestina produzida nos anos 70/80. Lembro que ouvíamos juntos os discos de Zé Ramalho nos anos 80. Em “O Vaqueiro e a Boiada”, ele chega a entoar aboios e cantos não distorcidos, o que transforma o Karne Krua numa das mais inusitadas bandas do país e do mundo. O disco traz ainda efeitos sonoros, como cânticos religiosos, um cantador fazendo um repente na faixa “Do sol latente ao cinza das ruas”, assinada por Max Alberto (letra), Silvio, Alexandre e Thiago.
Assim, a sua excelente sonoridade e arte gráfica andam de mãos dadas, compondo um dos trabalhos mais importantes do Karne Krua em toda a sua carreira. Num momento em que se faz death metal em Angola, e em que muitos dos antigos chavões do punk rock dos anos 80 perderam sua razão de ser, Inanição – tanto o disco quanto a música – é uma amostra de que o rock de protesto ainda faz sentido, principalmente quando parte de um dos mais originais poetas contemporâneos, Silvio, que canta suas letras – e as de seus parceiros – sobre um rock duro, pesado e ágil, tão ágil quanto seus rasgos vocais, que, por sua vez, combinam com as distorções da guitarra e com a alta pulsação do baixo e da bateria. Se Inanição termina um ciclo, por outro lado inicia uma fase em que o Karne Krua se consolida não como uma banda punk reconhecida nacional e até internacionalmente, pois assim já o era no final dos anos 80, mas como uma banda original, que trouxe – acho – pela primeira vez a temática dos oprimidos pela indústria da seca do Nordeste para o “rock punk”. Escrevo “rock punk” porque, como o próprio Silvio nos ensina numa de suas letras, o punk não é rock. O rock é que é punk.
Fotos P&B: snapic, lançamento do CD "inanição" ao vivo no programa de rock.
Fotos coloridas: (CC BY SA) Fora do Eixo/Nando - em Batalha, Alagoas.
Karne Krua forever!!!
por Luiz Eduardo Oliveira
Fonte: Portal UFS
sábado, 1 de dezembro de 2012
Hoje, Devotos.
O início das comemorações dos 25 anos, celebrados próximo ano, de
trajetória da banda Devotos será marcado pelo lançamento do oitavo
disco, Póstumos. O grupo se
apresenta neste sábado, a partir das 22h, no Burburinho (Rua Tomazina,
106, Bairro do Recife), com ingressos a R$ 15. A abertura da noite será
com o grupo Nação Corrompida.
O álbum é mais um de lançamento independente do grupo. Desta vez, o primeiro disco gravado no estúdio Altovolts, na oficina de amplificador do guitarrista Neilton. Antes disso, o disco foi lançado pelo selo Mass Prod, na França, em show no festival Vive Le Punk, dia 13 de agosto, quando se comemorou o Dia do Rock.
O novo trabalho contempla músicas inéditas e já conhecidas pelo público. “A maioria das músicas do repertório foi composta há mais de 10 anos, mas nunca tinham sido gravadas”, conta o guitarrista. Segundo ele, a ideia nasceu a partir de uma entrevista cedida pela banda sobre o que faltava para o grupo fazer. Ele lembra: "Cannibal respondeu: 'a banda acabar'". Antes que isso aconteça, eles resolveram fazer um disco póstumos para "homenageá-los" em vida.
Algumas composições foram feitas antes mesmo do disco de estreia, Agora tá valendo, de 1997.
Em entrevista ao Diario, o vocalista Cannibal fez o comentário das faixas. Confira:
1 - Elas
Fiz essa música entre 2004 e 2005 para falar sobre as crianças de rua que sofrem violência sexual. O turismo sexual do Recife parou de ser só em lugar de praia e penetrou nos subúrbios. Depois do brega, que não tem uma moral nas letras, a prostituição subiu muito nos subúrbios.
2- Devotos do ódio
Essa foi feita antes do primeiro disco. Não sei porque ela ficou de fora dele. Praticamente, traz toda ira nossa de adolescente. Nós tínhamos um inconformismo
muito grande pelo que acontecia na época.
3- Sinfonia da miséria
É uma cover da primeira banda SS-20. Foram os caras que deram o nome da Devotos do Ódio. Depois de quatro anos, a gente descobriu que era um nome do livro de José Louzeiro.
4- Flores em nossas vidas
Essa música fala de um cara do Alto José do Pinho. Ele começou a ir para um caminho de drogas. Conheço muito os pais e vejo o sofrimento deles. É um cara massa, que se perdeu nisso.
5- Luz e amores
Fala sobre sentimentos e homossexualidade. Gostar de uma pessoa sem precisar ser do sexto oposto. Na época que fiz, era um tema muito zelado. Hoje, se fala abertamente.
6- Alienação
Fala sobre igrejas que surgiram com o intuito de ganhar dinheiro. Igrejas que fazem você dar tudo. Deus existe em cada um de nós. Não precisa de nenhum pastor.
7- Orixás
Antes do Póstumos, tive a ideia de fazer um disco sobre religião afro. Como ela estava pronta, resolvi inclui-la.
8- Para que as drogas
Essa também fiz antes de gravar o primeiro disco. Desde que começou o movimento punk, as pessoas bebiam e se drogavam muito. Eu e meus amigos não. A gente ficava observando a reação deles. Eles estavam chapados e debatiam sobre o que a gente dizia. E eu pensava: não quero cantar desse jeito.
7- A morte do Messias
Falam de pessoas que utilizam a história de Jesus para ganhar dinheiro. Como exemplo, a Paixão de Cristo. Tudo aquilo que aconteceu com Jesus, o lado ruim é o mais lembrado. As pessoas pagam para ver o “Jesus crucificado”.
8- Já é Natal
Eu penso que não precisa criar uma data para as pessoas comprarem presentes. Nem Dia das mães, nem Dia dos pais. Por que tem tanta criminalidade? Na mídia, a proporção que se avança para comprar não é a mesma para ter emprego.
9- A nova 1
Trato de coisas mal-governadas. Isso não é só de governo. Pode acontecer vida pessoal, profissional. Você planeja algo e isso dá errado. E quando vê, a culpa foi sua.
10- Uma terra livre
Sempre senti na pele o preconceito e racismo. Essa vem antes do primeiro disco também. Trata sobre racismo. Em diferentes situações. A pessoa anda, e a outra esconde a bolsa. Passa num lugar, e o outro fica olhando. No próprio Alto José do Pinho, tinha batida de polícia e parava todo mundo. A gente levava muito baculejo.
13- São fatos da guerra que fazemos sem saber porque
Inspirado no livro V de Vingança. Um amigo (o designer Marcos Sá Barreto) me dava uns livros e fanzines para eu ler. Esse foi um deles. Escrevi uma música em cima disso. Ela é super radical.
Fonte: Diário de Pernambuco
O álbum é mais um de lançamento independente do grupo. Desta vez, o primeiro disco gravado no estúdio Altovolts, na oficina de amplificador do guitarrista Neilton. Antes disso, o disco foi lançado pelo selo Mass Prod, na França, em show no festival Vive Le Punk, dia 13 de agosto, quando se comemorou o Dia do Rock.
O novo trabalho contempla músicas inéditas e já conhecidas pelo público. “A maioria das músicas do repertório foi composta há mais de 10 anos, mas nunca tinham sido gravadas”, conta o guitarrista. Segundo ele, a ideia nasceu a partir de uma entrevista cedida pela banda sobre o que faltava para o grupo fazer. Ele lembra: "Cannibal respondeu: 'a banda acabar'". Antes que isso aconteça, eles resolveram fazer um disco póstumos para "homenageá-los" em vida.
Em entrevista ao Diario, o vocalista Cannibal fez o comentário das faixas. Confira:
1 - Elas
Fiz essa música entre 2004 e 2005 para falar sobre as crianças de rua que sofrem violência sexual. O turismo sexual do Recife parou de ser só em lugar de praia e penetrou nos subúrbios. Depois do brega, que não tem uma moral nas letras, a prostituição subiu muito nos subúrbios.
2- Devotos do ódio
Essa foi feita antes do primeiro disco. Não sei porque ela ficou de fora dele. Praticamente, traz toda ira nossa de adolescente. Nós tínhamos um inconformismo
muito grande pelo que acontecia na época.
3- Sinfonia da miséria
É uma cover da primeira banda SS-20. Foram os caras que deram o nome da Devotos do Ódio. Depois de quatro anos, a gente descobriu que era um nome do livro de José Louzeiro.
4- Flores em nossas vidas
Essa música fala de um cara do Alto José do Pinho. Ele começou a ir para um caminho de drogas. Conheço muito os pais e vejo o sofrimento deles. É um cara massa, que se perdeu nisso.
5- Luz e amores
Fala sobre sentimentos e homossexualidade. Gostar de uma pessoa sem precisar ser do sexto oposto. Na época que fiz, era um tema muito zelado. Hoje, se fala abertamente.
6- Alienação
Fala sobre igrejas que surgiram com o intuito de ganhar dinheiro. Igrejas que fazem você dar tudo. Deus existe em cada um de nós. Não precisa de nenhum pastor.
7- Orixás
Antes do Póstumos, tive a ideia de fazer um disco sobre religião afro. Como ela estava pronta, resolvi inclui-la.
8- Para que as drogas
Essa também fiz antes de gravar o primeiro disco. Desde que começou o movimento punk, as pessoas bebiam e se drogavam muito. Eu e meus amigos não. A gente ficava observando a reação deles. Eles estavam chapados e debatiam sobre o que a gente dizia. E eu pensava: não quero cantar desse jeito.
7- A morte do Messias
Falam de pessoas que utilizam a história de Jesus para ganhar dinheiro. Como exemplo, a Paixão de Cristo. Tudo aquilo que aconteceu com Jesus, o lado ruim é o mais lembrado. As pessoas pagam para ver o “Jesus crucificado”.
8- Já é Natal
Eu penso que não precisa criar uma data para as pessoas comprarem presentes. Nem Dia das mães, nem Dia dos pais. Por que tem tanta criminalidade? Na mídia, a proporção que se avança para comprar não é a mesma para ter emprego.
9- A nova 1
Trato de coisas mal-governadas. Isso não é só de governo. Pode acontecer vida pessoal, profissional. Você planeja algo e isso dá errado. E quando vê, a culpa foi sua.
10- Uma terra livreSempre senti na pele o preconceito e racismo. Essa vem antes do primeiro disco também. Trata sobre racismo. Em diferentes situações. A pessoa anda, e a outra esconde a bolsa. Passa num lugar, e o outro fica olhando. No próprio Alto José do Pinho, tinha batida de polícia e parava todo mundo. A gente levava muito baculejo.
13- São fatos da guerra que fazemos sem saber porque
Inspirado no livro V de Vingança. Um amigo (o designer Marcos Sá Barreto) me dava uns livros e fanzines para eu ler. Esse foi um deles. Escrevi uma música em cima disso. Ela é super radical.
Fonte: Diário de Pernambuco
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
# 251 - 24/11/2012
The Evens - Warble Factor (version)
Bjork - Virus (Hudson Mohawke Peaches & Guacamol remix)
Manfred Hübler and Siegfried Schwab - Necronomania
Pata de Elefante - Não fique triste
Vendo 147 - Mar aberto
Systemas de aniquilacion - Rebeldes muertos
Escato - Acorrentados
Diagnose - Hardcore do coração
Under Threat - Sick mind
Necrose - Destroy the media
- por Alércio
Motorhead - Devil´s in my hand
Faith No More - Digging the grave
Supergrass - Pumping on the stereo
New Model Army - Wonderful way to go
The Cramps - like a bad girl should
Elf - First Avenue
Shocking Blue - Inkpot
Deep Purple - One More rainy day (BBC Top Gear Session)
Curved Air - Melinda more or less
Fleetwood Mac - Green Manalishi
45 anos de "The Doors" e "Strange Days"
The Doors
# Break on through (to the other side)
# Strange Days
# Take it as it comes
# People are strange
# The Crystal ship
# When the music´s over
#
Bjork - Virus (Hudson Mohawke Peaches & Guacamol remix)
Manfred Hübler and Siegfried Schwab - Necronomania
Pata de Elefante - Não fique triste
Vendo 147 - Mar aberto
Systemas de aniquilacion - Rebeldes muertos
Escato - Acorrentados
Diagnose - Hardcore do coração
Under Threat - Sick mind
Necrose - Destroy the media
- por Alércio
Motorhead - Devil´s in my hand
Faith No More - Digging the grave
Supergrass - Pumping on the stereo
New Model Army - Wonderful way to go
The Cramps - like a bad girl should
Elf - First Avenue
Shocking Blue - Inkpot
Deep Purple - One More rainy day (BBC Top Gear Session)
Curved Air - Melinda more or less
Fleetwood Mac - Green Manalishi
45 anos de "The Doors" e "Strange Days"
The Doors
# Break on through (to the other side)
# Strange Days
# Take it as it comes
# People are strange
# The Crystal ship
# When the music´s over
#
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Pussy Riot se recusa a lucrar com a fama ...
Duas integrantes da banda russa de punk feminista Pussy Riot estão na
prisão por protestar em uma igreja contra Vladimir Putin. Enquanto isso,
por US$ 19,95 mais o frete, os fãs da cantora norte-americana Madonna
podem encomendar uma camiseta 100 por cento algodão da "Pussy Riot", com
o logo da banda de uma mulher em um vestido curto vermelho e máscara de
esqui, com o punho levantado e um guitarra elétrica.
Primeiro veio a batalha pela liberdade, agora vem a batalha pela propaganda. Três meses após o fim de um julgamento que as lançou para a fama mundial, as integrantes da banda dizem que estão lutando para impedir que qualquer um ganhe dinheiro em cima de sua marca, que vale uma fortuna, segundo especialistas. Se elas estivessem interessadas, as meninas poderiam ficar ricas com turnês, filmes, documentários e contratos de gravação. Mas é um anátema para as mulheres que, vestidas com máscaras extravagantes, vestidos e meias-calças descombinantes, invadiram uma catedral ortodoxa russa em fevereiro e fizeram uma "oração punk", pedindo à Virgem Maria afastar Putin.
"Nós nunca iremos permitir que a marca seja registrada", disse Yekaterina Samutsevich, a única das três integrantes da banda a ficar livre até agora, que anunciou em seu comunicado que vai representar os interesses das duas que ainda estão na prisão. "Nós sempre dissemos que nossa banda nunca seria comercial. Até um certo ponto, ela foi criada para combater o comercialismo." Samutsevich, 30, foi condenada em agosto por vandalismo motivado por ódio religioso, juntamente com Nadezhda Tolokonnikova, 23, e Maria Alyokhina , 24. A pena Samutsevich foi suspensa e ela foi libertada em um recurso; Tolokonnikova e Alyokhina iniciaram suas penas de dois anos de prisão. A Anistia Internacional considera-as prisioneiras de consciência.
Para os estrangeiros, incluindo celebridades ocidentais que adotaram a
causa das mulheres encarceradas, vender mercadorias com o logotipo da
Pussy Riot é uma forma de arrecadar dinheiro para ajudá-las. A cantora
Madonna oferece camisetas da Pussy Riot para venda em seu
site e em seus shows. Ela diz que está enviando o dinheiro que arrecada
para ajudar a pagar pela defesa legal da banda. A cantora islandesa
Bjork também entrou em contato com a banda russa para discutir venda de
camisetas para ajudar a arrecadar dinheiro para os custos legais, disse
seu empresário, Derek Birkett. Essas discussões estão em espera, porque
os membros da banda "agora estão em dúvida sobre a comercialização do
nome e da ideia", disse Birkett.
Reuters
Primeiro veio a batalha pela liberdade, agora vem a batalha pela propaganda. Três meses após o fim de um julgamento que as lançou para a fama mundial, as integrantes da banda dizem que estão lutando para impedir que qualquer um ganhe dinheiro em cima de sua marca, que vale uma fortuna, segundo especialistas. Se elas estivessem interessadas, as meninas poderiam ficar ricas com turnês, filmes, documentários e contratos de gravação. Mas é um anátema para as mulheres que, vestidas com máscaras extravagantes, vestidos e meias-calças descombinantes, invadiram uma catedral ortodoxa russa em fevereiro e fizeram uma "oração punk", pedindo à Virgem Maria afastar Putin.
"Nós nunca iremos permitir que a marca seja registrada", disse Yekaterina Samutsevich, a única das três integrantes da banda a ficar livre até agora, que anunciou em seu comunicado que vai representar os interesses das duas que ainda estão na prisão. "Nós sempre dissemos que nossa banda nunca seria comercial. Até um certo ponto, ela foi criada para combater o comercialismo." Samutsevich, 30, foi condenada em agosto por vandalismo motivado por ódio religioso, juntamente com Nadezhda Tolokonnikova, 23, e Maria Alyokhina , 24. A pena Samutsevich foi suspensa e ela foi libertada em um recurso; Tolokonnikova e Alyokhina iniciaram suas penas de dois anos de prisão. A Anistia Internacional considera-as prisioneiras de consciência.
Reuters
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
"Coração Metrônomo", The Renegades of punk - por Sílvio Campos
Sabem de uma coisa? O que me estimulou a falar sobre “ Coração Metronomo” não foi nem o fato de ser uma banda que faz algo voltado ao punk, suas letras e sonoridade. Eles têm um público que vai além do punk, de indies e rockers atuais, pode-se dizer assim, e que talvez sejam distantes do que muitos pensam sobre o que é realmente uma banda e público essencialmente punk. As idéias e atitudes da banda, isso sim, me fazem tentar falar. Sua vida e a vontade de fazer algo pelo estilo do qual as pessoas vejam de forma mais respeitada. Se por um lado ainda vemos gigs com a precariedade dos tempos das cavernas, a Renegades, por outro lado, tenta melhorar ao máximo essa cara, e isso é mais que positivo. Nem tudo que leve o slogan do punk tem que ser necessariamente ruim ou precário! Além de tudo a R/P ainfa faz sua historia e seu caminho Sergipe e Brasil afora.
Ação: “Coração Metronomo”, a primeira faixa, começa instigadissima! Punk rock cheio de quebradas e muito, muito nervosa, e uma letra que coloca o consumismo e individualismo burro, digamos assim, abaixo de tudo. Muito legal, e ainda te faz pensar, começando muito bem o álbum. Em “Me Testa” a banda continua com a mesma pegada e energia, nervosa, característica natural da R/P. Melodia marcante, refrão ótimo e sentimento na interpretação. Já em “Ghost” parecem buscar algo mais introspectivo, pois uma certa melancolia rodeia toda a musica. Em seguida vem uma das melhores da banda, “Fake”, rápida e com uma letra mais no padrão punk: direta, na veia.
As faixas “Você Faca Coração”, com seu ótimo ...”fucking lies”... e “Mistura Meus Olhos”, com um riff matador, sustentam toda a sequencia do álbum mantendo a energia nervosa da banda. Nesta segunda citada a letra me parece uma certa critica à doideira junkie(?) - é só minha visão. Aí está a maior influencia, a meu ver, da R/P - o velho Dead Kennedys. Na veia, sonzaço.
Em “We Seem So Close” mais som reto, influencias do velho punk rock, sensacional os arranjos. A guitarra de Dani parece fazer a outra parte de voz, isto é, canta com ela, aparece o tempo todo e isso serve também para a faixa seguinte, “Algo Que Não Tenho”, que por sinal é uma ótima letra. Temos em seguida “Um Leão Por Dia”: som punk de verdade, letra e uma sonzeira "da gota"! A guitarra mais uma vez detonando com acordes nervosíssimos, muito estilo.
“Coisas Belas” vem com uma letra bem interessante e o baixo em sua melhor performance, ótima faixa. Mais rebeldia e protesto em “La Reprise” - essa faixa vem curiosamente cantada em francês! Trata-se de uma releitura de uma outra banda a qual integrantes da R/p fizeram parte, REVER, louca nervosa, sobrando adrenalina. É o som para agitar, extravasar ...
Não posso esqucer aqui a parte gráfica da obra no formato de envelope duplo, bem bacana. Acompanha encarte com as letras, capa ultra original e cheia de estilo, e ai chegamos ao final com a “Vida Real” - esta soa como aquele tipo de desabafo/protesto que costumamos fazer todos os dias. É climática e tem uma sonoridade diferente na guitarra, o que dá um toque muito original. A bateria na sua crueza junta-se à ótima linha de baixo, definindo assim toda a sonoridade desta renegada banda de punk rock Sergipana.
Silvio Campos (Zine Microfonia)
O disco da renegades está à venda na Freedom.
O resto você já sabe.
#
Ação: “Coração Metronomo”, a primeira faixa, começa instigadissima! Punk rock cheio de quebradas e muito, muito nervosa, e uma letra que coloca o consumismo e individualismo burro, digamos assim, abaixo de tudo. Muito legal, e ainda te faz pensar, começando muito bem o álbum. Em “Me Testa” a banda continua com a mesma pegada e energia, nervosa, característica natural da R/P. Melodia marcante, refrão ótimo e sentimento na interpretação. Já em “Ghost” parecem buscar algo mais introspectivo, pois uma certa melancolia rodeia toda a musica. Em seguida vem uma das melhores da banda, “Fake”, rápida e com uma letra mais no padrão punk: direta, na veia.
As faixas “Você Faca Coração”, com seu ótimo ...”fucking lies”... e “Mistura Meus Olhos”, com um riff matador, sustentam toda a sequencia do álbum mantendo a energia nervosa da banda. Nesta segunda citada a letra me parece uma certa critica à doideira junkie(?) - é só minha visão. Aí está a maior influencia, a meu ver, da R/P - o velho Dead Kennedys. Na veia, sonzaço.
Em “We Seem So Close” mais som reto, influencias do velho punk rock, sensacional os arranjos. A guitarra de Dani parece fazer a outra parte de voz, isto é, canta com ela, aparece o tempo todo e isso serve também para a faixa seguinte, “Algo Que Não Tenho”, que por sinal é uma ótima letra. Temos em seguida “Um Leão Por Dia”: som punk de verdade, letra e uma sonzeira "da gota"! A guitarra mais uma vez detonando com acordes nervosíssimos, muito estilo.
“Coisas Belas” vem com uma letra bem interessante e o baixo em sua melhor performance, ótima faixa. Mais rebeldia e protesto em “La Reprise” - essa faixa vem curiosamente cantada em francês! Trata-se de uma releitura de uma outra banda a qual integrantes da R/p fizeram parte, REVER, louca nervosa, sobrando adrenalina. É o som para agitar, extravasar ...
Não posso esqucer aqui a parte gráfica da obra no formato de envelope duplo, bem bacana. Acompanha encarte com as letras, capa ultra original e cheia de estilo, e ai chegamos ao final com a “Vida Real” - esta soa como aquele tipo de desabafo/protesto que costumamos fazer todos os dias. É climática e tem uma sonoridade diferente na guitarra, o que dá um toque muito original. A bateria na sua crueza junta-se à ótima linha de baixo, definindo assim toda a sonoridade desta renegada banda de punk rock Sergipana.
Silvio Campos (Zine Microfonia)
O disco da renegades está à venda na Freedom.
O resto você já sabe.
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# 250 - 17/11/2012
A letra de "emergência", do Câmbio Negro HC, fala sobre os campos de refugiados palestinos. É triste constatar que a musica foi lançada ainda nos anos 80, no clássico LP "O Espelho dos deuses", e hoje, na segunda sécada do século XXI, continua atual. /// O disco de estréia do rage against the machine, um dos mais influentes grupos a surgir no cenário alternativo dos anos 90, está fazendo 20 anos. Para marcar a data, tocamos o hit "killing in the name" - só que na versão da demo de dezembro de 1991. Um "best seller" que rendeu, para eles, um contrato com a mesma máquina pela qual nutriam tanto ódio. Há quem, ainda hoje, não entenda. /// How to destroy angels é Trent Reznor, Mariqueen Maandig, Atticus Ross, e Rob Sheridan. Acabaram de lançar um novo EP, "An Omen". Não é um nine inch nails, mas tá valendo. /// Eu não sabia, mas a banda Lêmures foi formada, a princípio, apenas para concorrer ao Festival Aperipê de música do ano passado. Se deram bem, pois foram os vencedores da noite. Esta e outras histórias, dentre elas a da participação de Lois Lancaster, do Zumbi do mato, na gravação da música "ratosss", foram contadas ao vivo por eles e pelo pessoal da Casa Forte no estúdio da aperipê FM. /// Casa Forte toca com a Toddy´s Trouble band próxima sexta, dia 30, no CHE petiscaria /// "Animals", do pink floyd, é um álbum conceitual baseado no conto de fábulas "A revolução dos bichos", de George Orwell. É, na minha modesta opinião, um dos discos mais subestimados da banda - porque foi lançado em 1977, em pleno levante punk, e entre os clássicos absolutos "Wish you where here" e "The Wall". Acredito que tenha sido a primeira vez que ele foi tocado na íntegra no rádio sergipano - quiçá mundial! Afinal, são praticamente 3 musicas de 17, 12 e 10 minutos, respectivamente, e duas quase-vinhetas. Um formato nada radiofônico - perfeito, portanto, para o programa de rock.
See you later, alligators.
A.
######################
Câmbio Negro HC - Emergência
Rage Against the machine - Killing in the name (demo)
How to destroy Angels - On the wing
Fugazi - I´m so tired
The Fall - It´s a curse
The Horrors - Excellent choice
The Flaming Lips - Powerless
Lêmures - Ratosss
Casa Forte - O rock ensina algo
Casa Forte - Rock Soul
+ Entrevista
35 Anos de "Animals"
Pink Floyd
# Pigs on the wind (pt one)
# Dogs
# Pigs (Three different ones)
# Sheep
# Pigs on the wind (pt two)
See you later, alligators.
A.
######################
Câmbio Negro HC - Emergência
Rage Against the machine - Killing in the name (demo)
How to destroy Angels - On the wing
Fugazi - I´m so tired
The Fall - It´s a curse
The Horrors - Excellent choice
The Flaming Lips - Powerless
Lêmures - Ratosss
Casa Forte - O rock ensina algo
Casa Forte - Rock Soul
+ Entrevista
35 Anos de "Animals"
Pink Floyd
# Pigs on the wind (pt one)
# Dogs
# Pigs (Three different ones)
# Sheep
# Pigs on the wind (pt two)
terça-feira, 20 de novembro de 2012
"Fear of time", do Tchandala, por Silvio Campos
A execução das musicas sempre com o acompanhamento e arranjos de teclados por Toni não deixa o álbum menos Heavy Metal e isso é uma coisa que acontece com diversas bandas ao adotar os teclados em sua musicas. No caso da Tchandala este elemento ficou muito incorporado. Na segunda faixa, “Beyond The Power”, a banda mostra mais ainda a riqueza desse trabalho. Destacável demais o riff incrível da guitarra, as narrações de Erico G., para meu gosto o uso dos dois bumbos nesse momento inicial da musica trava um pouco o andamento, mas nada que comprometa.
Em “The Vision Of Blind Man” nota-se a sinfonia rock da banda, grandiosa, e mais uma vez o uso inicial dos dois bumbos fica prá mim uma sensação de que a banda não desenvolve o que a música pede, até que em seguida ela se abre em uma velocidade perfeita e a bateria fica perfeita, nota dez, uma pegada empolgante. A letra casa muito bem com a sonoridade e, claro., letras bacanas, isso é Tchandala e convidados enriquecendo essa bela faixa, os teclados viajantes, o baixo de Sandro aparecendo de forma mais clara pois ao decorrer do álbum deveria ter um ganho maior.
A quarta faixa, “Enemy Of Man Kind’, considero uma das mais difíceis do álbum no que diz respeto à interpretação. Exige o Maximo do Dejair , mais uma que tem refrões que são um ponto marcante da obra e ainda a perfeita participação de Daniel Pinho muito bem incorporada. Em seguida uma musica muito significativa no álbum, e é aquela que você sente desejo em cantar: “Time And Of Life”, que considero a mais pesada do álbum sem deixar de ser metalzão. Soa clássica e vai mais uma participação em voz de Dan Loureiro, por sinal muito boa também.
Agora temos “Fear Of Time” dando titulo ao trabalho árduo da Tchandala e é claro não poderia ser menos entusiasmada, prá cima, sentimento na interpretação, que é algo que está se tornando uma marca de Dejair. Nesse aspecto posso dizer que meu amigo superou tudo que ele já fez - sutileza e garra juntos. Continua a cozinha de Pablo e Sandro, bateria e baixo respectivamente colados e aveludados pelo teclado de Toni, fodaço!!!! As guitarras tem prá mandar pras cucuias, indiscutivelmente a Tchandala enriqueceu muito seu som no que diz respeito linhas de guitarra.
Temos em seguida o que se chama de balada viajante, achei o arranjo inicial de uma perfeição incrível. “Angel” é, prá mim, o diferencial desta musica. Sem esse arranjo talvez soasse uma simples balada.
Finalizando o trabalho temos “Revenge”, Heavy Metal na cara cheio de técnicas e tempos elaboradissimos com elementos tradicionais, uma musica muito trampada. Agora é acreditar que a velha Tchandala, doa a quem doer, é uma historia viva da musica rock e, mais especificamente falando, do Heavy Metal, em Sergipe e no Brasil.
Obrigado à banda por provocar em mim o desejo de escrever algo! Vida longa, e que a persistência e o slogan punk “Faça você Mesmo” continue rondando sua existência, pois eu sei muito bem que essa é uma banda que corre atrás dos seu desejos e faz sua própria historia com suas próprias mãos.
Silvio Campos (Zine Microfonia)
Haverá uma audição pública de "Fear of time" no dia 07/12/2012 no Lado B Estúdio - Rua Boquim, 478.
O CD da Tchandala está à venda na Freedom.
A Freedom é a loja de Silvio, e fica na Rua Santa Luzia, 151 - centro - próximo à Catedral Metropolitana.
Em Aracaju.
Silvio, além de proprietário da Freedom, faz blues e rock há cerca de 30 anos publicando fanzines e tocando e cantando com as bandas:
Karne Krua
Veneno de Cobra
Máquina Blues
Words Guerrila
Cruz da Donzela
Casca Grossa
Tempestuous
Sublevação
Logorréia
etc
Ago
domingo, 18 de novembro de 2012
A Foice e a guitarra
Mariana Reis, Do "Gazeta Russa"
O Rock and Roll surgiu nos Estados Unidos no início da década de 1950 e, em pouco tempo, se espalhou pelo mundo: no Brasil chegou em 1955 e, na Rússia, mais precisamente na antiga União Soviética, um pouco mais tarde, em 1957. Nesta época, a URSS era comandada por Nikita Krushchiov, que em seu “Discurso Secreto” no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, denunciou os crimes cometidos por Stalin (uso desmedido da violência, execuções, fraudes etc.), dando início ao processo de “desestalinização” da política soviética.
Apesar da censura aos artistas se tornar um pouco mais branda neste período, os músicos ainda deveriam seguir os padrões artísticos estabelecidos pelo governo. Havia uma seleção de estilos musicais oficiais que eram permitidos de serem executados publicamente, por exemplo, a música clássica (na verdade, nem todos os compositores eram tidos como oficiais) e o jazz (que caiu na ilegalidade no período de Stálin e, após sua morte, foi gradativamente reabilitado pelo Kremlin). Quanto às letras das canções, críticas ao período de Stalin eram permitidas, mas as que eram feitas ao modo socialista de governo e sociedade não eram toleradas; a censura também valia para temas que fossem considerados nocivos à população como o alcoolismo, o sexo, a violência etc.
Havia uma única gravadora na União Soviética – a Melodiia (Мелодия) – que tratava-se de uma companhia pública administrada pelo Ministério da Cultura. Os estúdios de gravação também eram estatais, assim como as Casas de Cultura onde ocorriam as grandes apresentações. A seleção e distribuição de instrumentos musicais também eram por conta do governo. Desta forma, se o estilo musical e as letras das músicas fossem aprovados pelo Ministério da Cultura, o cantor ou conjunto receberia todo o apoio que precisasse para seguir a sua carreira. Caso fosse rejeitado, teria que se adequar às exigências do governo. Ou se virar sozinho.
Os músicos que quisessem se aventurar em estilos musicais não-oficiais, como era o caso do rock (sempre acusado de contaminar a juventude com um estilo de vida “degenerado” - lembram-se do trio sexo, drogas e rock'n'roll?), desde que não criticassem o governo e ameaçassem a ordem pública, eram tolerados e poderiam se apresentar em locais controlados pelas autoridades, como os bailes estudantis e alguns cafés, sem direito a gravar discos e a ter bons instrumentos musicais.
Timothy W. Ryback, no seu clássico estudo sobre o rock soviético Rock Around the Bloc (1990, Oxford University Press), aponta que o mês de julho de 1957 foi a data que o rock and roll fez sua primeira aparição pública em território soviético, numa apresentação musical que antecedia o 6º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, em Moscou. O Kremlin, tentando demonstrar que já havia deixado para trás a xenofobia do período do pós-guerra, convidou diversos conjuntos de jazz da Tchecoslováquia, Romênia, Polônia, Grã-Bretanha, França, Alemanha e Islândia para se apresentarem na abertura do Festival.
Alguns desses conjuntos apareceram com instrumentos inusitados na bagagem (guitarras) e algumas canções que não estavam no repertório original. Essas canções “barulhentas” (possivelmente músicas de Bill Halley & His Comets) acabaram passando batido pela censura e foram executadas no Festival por grupos da Grã-Bretanha. As reações do público foram diversas: enquanto muitos jovens se maravilharam com aquele ritmo diferente, críticos musicais se horrorizaram com tamanho primitivismo e alguns oficiais do governo ficaram desconfiados com o fascínio que aquela música exercia no público. Curiosos para saber mais sobre aquele estilo musical tão empolgante, alguns estudantes começaram a trocar informações sobre bandas e músicas.
Já que os LP's de música ocidental eram proibidos de serem
comercializados e reproduzidos, os poucos que conseguiam chegar em
território soviético (oriundos de outros países que faziam parte do
Bloco Soviético, como a Alemanha Oriental e a Tchecoslováquia) eram
pirateados, inscrevendo-se as ranhuras dos discos em chapas de raio-X
(os famosos roentgenizdat, que também eram
utilizados por fãs de jazz na época em que esse estilo musical era
ilegal). Mas, ao descobrir essa prática, em 1958, o governo passou a
confiscar os LP's e destruiu dezenas de centros de produção e
distribuição dos “discos de raio-X”. Mas a investida do governo contra a
difusão do rock acabou não dando certo.
Alguns anos depois, em 1964, as páginas dos jornais soviéticos não poderiam deixar de noticiar a nova mania que atingiu os EUA, os quatro rapazes de Liverpool conhecidos como The Beatles. É claro que os críticos musicais “desceram a lenha” nos Beatles, acusando-os de serem garotos propaganda do estilo de vida capitalista. Mas a simples menção ao Fab Four foi o suficiente para atiçar a curiosidade das pessoas, e não demorou muito para cópias de discos do grupo aparecerem. As roupas, os cortes de cabelo, a música e tudo o mais que se referisse à banda se tornou uma febre entre os jovens soviéticos.
O Ministério da Cultura percebeu que a tal “febre do rock” era
realmente séria. Como uma contrapartida às bandas ocidentais, o governo
passou a aceitar alguns elementos musicais do rock, com algumas
restrições: foi estabelecido um termo próprio para a expressão banda de rock,Vokal'no-instrumental'nyi ansambl' (вокально-инструментальный ансамбль, conjunto vocal-instrumental ou simplesmente VIA);
mais de 60% do repertório deveria ser composto por canções de origem
soviética (ou seja, de compositores “oficiais”) e as letras das músicas
não deveriam fazer menção aos assuntos considerados “tabus” que já
explicitamos anteriormente. Em contrapartida, o governo daria todo o
apoio técnico e financeiro necessário para os grupos. Muitos músicos
acharam a proposta interessante e não perderam a oportunidade de se
tornarem “oficiais”, cedendo em alguns pontos ao governo para,
finalmente, seguirem uma carreira profissional.
Há muitos grupos VIA interessantes e eles foram os pioneiros ao levar um pouco do rock aos locais públicos, ao rádio e à televisão. Apesar da constante vigilância ideológica, alguns eram extremamente criativos e conseguiam transformar canções oficiais insonsas em ótimas peças psicodélicas. Poderia citar diversos nomes, como o cantor russo Aleksandr Gradskii e sua banda Skomorokhi (Скоморохи), que mesclava diversos estilos como o folk e o rock progressivo; o grupoAriel' (Ариэль), de Tcheliabinsk (cidade localizada próxima aos Montes Urais), também com uma pegada mais folk e elementos de prog aqui e acolá; e o Vesiolye rebiata (Весёлые ребята), que na década de 1970 contou com a participação da famosa cantora pop Alla Pugatchiova. Apesar de estes conjuntos serem muito populares e importantes, gostaria de destacar em especial outros dois nomes: Poiushchie Gitary (Поющие Гитары) e Pesniary (Песняры).
O Poiushchie Gitary foi formado em 1966 na cidade de Leningrado (atual São Petersburgo), e foi uma das primeiras bandas soviéticas de rock a se tornar famosa. Foi uma das principais referencias dos grupos VIA e muitos acabaram imitando o seu estilo. Fortemente influenciada por The Beatles, The Shadows e The Ventures, o grupo costumava fazer versões em russo de músicas dessas bandas, adaptando as letras às exigências do Ministério da Cultura – algumas letras não precisaram ser censuradas, como foi o caso de Byl odin paren' (Был один парень), uma versão da canção C'era un ragazzo che come me amava i Beatles e i Rolling Stones, de Gianni Morandi (também imortalizada no Brasil pela banda Os Incríveis). O Poiushchie Gitary está em atividade até os dias de hoje.
Já o Pesniary foi formado em 1969 em Minsk, capital da atual Bielorrússia. Era um conjunto extremamente criativo e seus integrantes músicos de primeira linha. Utilizavam instrumentos tradicionais eslavos de sopro, cordas e percussão em conjunto com as guitarras e o órgão eletrônico. Essa combinação de tradição e modernidade deu à banda uma sonoridade única que muitas vezes tocava o rock psicodélico. Além de fazerem versões de músicas ocidentais, também transformaram canções folclóricas bielorrussas em verdadeiras viagens psicodélicas. Apesar de algumas indas e vindas, o grupo ainda está em atividade.
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O Rock and Roll surgiu nos Estados Unidos no início da década de 1950 e, em pouco tempo, se espalhou pelo mundo: no Brasil chegou em 1955 e, na Rússia, mais precisamente na antiga União Soviética, um pouco mais tarde, em 1957. Nesta época, a URSS era comandada por Nikita Krushchiov, que em seu “Discurso Secreto” no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, denunciou os crimes cometidos por Stalin (uso desmedido da violência, execuções, fraudes etc.), dando início ao processo de “desestalinização” da política soviética.
Apesar da censura aos artistas se tornar um pouco mais branda neste período, os músicos ainda deveriam seguir os padrões artísticos estabelecidos pelo governo. Havia uma seleção de estilos musicais oficiais que eram permitidos de serem executados publicamente, por exemplo, a música clássica (na verdade, nem todos os compositores eram tidos como oficiais) e o jazz (que caiu na ilegalidade no período de Stálin e, após sua morte, foi gradativamente reabilitado pelo Kremlin). Quanto às letras das canções, críticas ao período de Stalin eram permitidas, mas as que eram feitas ao modo socialista de governo e sociedade não eram toleradas; a censura também valia para temas que fossem considerados nocivos à população como o alcoolismo, o sexo, a violência etc.
Havia uma única gravadora na União Soviética – a Melodiia (Мелодия) – que tratava-se de uma companhia pública administrada pelo Ministério da Cultura. Os estúdios de gravação também eram estatais, assim como as Casas de Cultura onde ocorriam as grandes apresentações. A seleção e distribuição de instrumentos musicais também eram por conta do governo. Desta forma, se o estilo musical e as letras das músicas fossem aprovados pelo Ministério da Cultura, o cantor ou conjunto receberia todo o apoio que precisasse para seguir a sua carreira. Caso fosse rejeitado, teria que se adequar às exigências do governo. Ou se virar sozinho.
Os músicos que quisessem se aventurar em estilos musicais não-oficiais, como era o caso do rock (sempre acusado de contaminar a juventude com um estilo de vida “degenerado” - lembram-se do trio sexo, drogas e rock'n'roll?), desde que não criticassem o governo e ameaçassem a ordem pública, eram tolerados e poderiam se apresentar em locais controlados pelas autoridades, como os bailes estudantis e alguns cafés, sem direito a gravar discos e a ter bons instrumentos musicais.
Timothy W. Ryback, no seu clássico estudo sobre o rock soviético Rock Around the Bloc (1990, Oxford University Press), aponta que o mês de julho de 1957 foi a data que o rock and roll fez sua primeira aparição pública em território soviético, numa apresentação musical que antecedia o 6º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, em Moscou. O Kremlin, tentando demonstrar que já havia deixado para trás a xenofobia do período do pós-guerra, convidou diversos conjuntos de jazz da Tchecoslováquia, Romênia, Polônia, Grã-Bretanha, França, Alemanha e Islândia para se apresentarem na abertura do Festival.
Alguns desses conjuntos apareceram com instrumentos inusitados na bagagem (guitarras) e algumas canções que não estavam no repertório original. Essas canções “barulhentas” (possivelmente músicas de Bill Halley & His Comets) acabaram passando batido pela censura e foram executadas no Festival por grupos da Grã-Bretanha. As reações do público foram diversas: enquanto muitos jovens se maravilharam com aquele ritmo diferente, críticos musicais se horrorizaram com tamanho primitivismo e alguns oficiais do governo ficaram desconfiados com o fascínio que aquela música exercia no público. Curiosos para saber mais sobre aquele estilo musical tão empolgante, alguns estudantes começaram a trocar informações sobre bandas e músicas.
Como já mencionamos, o rock não foi incluído na lista
dos estilos “oficiais” porque o Ministério da Cultura o considerava uma
ameaça à juventude ao incentivar práticas como o alcoolismo, o fascismo,
a violência, a perversão sexual e, principalmente, por conter mensagens
contra o socialismo. Desta forma, era praticamente impossível encontrar
discos, fitas e qualquer tipo de publicação sobre este gênero musical.
Os fãs acabaram usando a criatividade para conseguir os discos de suas
bandas favoritas.
Alguns anos depois, em 1964, as páginas dos jornais soviéticos não poderiam deixar de noticiar a nova mania que atingiu os EUA, os quatro rapazes de Liverpool conhecidos como The Beatles. É claro que os críticos musicais “desceram a lenha” nos Beatles, acusando-os de serem garotos propaganda do estilo de vida capitalista. Mas a simples menção ao Fab Four foi o suficiente para atiçar a curiosidade das pessoas, e não demorou muito para cópias de discos do grupo aparecerem. As roupas, os cortes de cabelo, a música e tudo o mais que se referisse à banda se tornou uma febre entre os jovens soviéticos.
Foi nessa época que surgiram as primeiras bandas de
rock soviéticas. Elas tocavam, na sua grande maioria, versões cover dos
Beatles em instrumentos musicais artesanais, já que não tinham acesso
aos instrumentos de ponta que eram fornecidos pelo governo. Em pouco
tempo, começaram a mesclar outros grupos ocidentais em seu repertório e a
fazer versões rock de canções populares soviéticas. Apesar de
muitas delas se tornarem relativamente famosas entre os jovens, sem
apoio e recursos técnicos adequados não havia mais para onde irem a não
ser se conformarem com o underground.
Há muitos grupos VIA interessantes e eles foram os pioneiros ao levar um pouco do rock aos locais públicos, ao rádio e à televisão. Apesar da constante vigilância ideológica, alguns eram extremamente criativos e conseguiam transformar canções oficiais insonsas em ótimas peças psicodélicas. Poderia citar diversos nomes, como o cantor russo Aleksandr Gradskii e sua banda Skomorokhi (Скоморохи), que mesclava diversos estilos como o folk e o rock progressivo; o grupoAriel' (Ариэль), de Tcheliabinsk (cidade localizada próxima aos Montes Urais), também com uma pegada mais folk e elementos de prog aqui e acolá; e o Vesiolye rebiata (Весёлые ребята), que na década de 1970 contou com a participação da famosa cantora pop Alla Pugatchiova. Apesar de estes conjuntos serem muito populares e importantes, gostaria de destacar em especial outros dois nomes: Poiushchie Gitary (Поющие Гитары) e Pesniary (Песняры).
O Poiushchie Gitary foi formado em 1966 na cidade de Leningrado (atual São Petersburgo), e foi uma das primeiras bandas soviéticas de rock a se tornar famosa. Foi uma das principais referencias dos grupos VIA e muitos acabaram imitando o seu estilo. Fortemente influenciada por The Beatles, The Shadows e The Ventures, o grupo costumava fazer versões em russo de músicas dessas bandas, adaptando as letras às exigências do Ministério da Cultura – algumas letras não precisaram ser censuradas, como foi o caso de Byl odin paren' (Был один парень), uma versão da canção C'era un ragazzo che come me amava i Beatles e i Rolling Stones, de Gianni Morandi (também imortalizada no Brasil pela banda Os Incríveis). O Poiushchie Gitary está em atividade até os dias de hoje.
Já o Pesniary foi formado em 1969 em Minsk, capital da atual Bielorrússia. Era um conjunto extremamente criativo e seus integrantes músicos de primeira linha. Utilizavam instrumentos tradicionais eslavos de sopro, cordas e percussão em conjunto com as guitarras e o órgão eletrônico. Essa combinação de tradição e modernidade deu à banda uma sonoridade única que muitas vezes tocava o rock psicodélico. Além de fazerem versões de músicas ocidentais, também transformaram canções folclóricas bielorrussas em verdadeiras viagens psicodélicas. Apesar de algumas indas e vindas, o grupo ainda está em atividade.
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CNHC
"Câmbio Negro H.C nasceu em 1983, tempos de dureza para os roqueiros no
Recife - uma época em que os caranguejos com cérebro sequer cogitavam fincar a parabólica na lama e revigorar o manguezal pernambucano. A
primeira formação é, no mínimo, curiosa: Além de Nino (o único
integrante original), faziam parte da banda o baixista
Vinícius, mais Fred 04, na guitarra e, acreditem, Renato L, o Ministro
da Informação do Movimento Mangue, nos vocais. Os futuros mangueboys
saíram logo para formar sua própria banda, a Serviço Sujo, que acabaria
como Mundo Livre s/a.
O ano de 1984 é considerado por Nino como o marco inicial do Câmbio Negro H.C porque, a partir daí, a banda passou a fazer shows e manter integrantes mais ou menos definidos. Nem ele nem Pesado, vocalista que mais tempo ocupou o posto, consegue contabilizar com precisão todos os músicos que saíram e entraram na banda ao longo destes mais de 28 anos. Alguns são bem conhecidos da cena, como por exemplo os guitarristas Cláudio Munheca e Ony, do Faces do Subúrbio.
Não eram tempos fáceis. Ao contrário da efervescente cena atual, em meados dos anos 80, contavam-se nos dedos bandas de rock na ativa no Recife: Herdeiros de Lúcifer, Kristal, Napalm. "A gente tocava onde desse, não havia uma mídia como atualmente, abrindo espaço para o rock. Para conseguir a Mansão do Fera, onde aconteceu o II Encontro Anti-Nuclear, foi preciso dizer ao dono que o grupo fazia um som estilo Ultraje a Rigor", lembra Nino. Os punks eram pacifistas e pregavam diatribes atrás de diatribes contra o que os mortais comuns consideravam uma ameaça remota: a guerra nuclear. Os encontros antinucleares chegaram a três. O mais importante foi o segundo, que contou com participação do grupo de Oi! Vírus 27, do ABC paulista, que nem chegou a tocar. A polícia, convocada pelo dono do estabelecimento, antecipou o final do festival.
Além de trocar de guitarristas como trocava de acordes, o Câmbio Negro H.C experimentou vários vocalistas até chegar a Pesado, cuja figura confunde-se hoje com a história do Hard Core no Recife: "Entrei em 85, mas vivia nos ensaios e shows da banda. Minha entrada foi portanto uma coisa natural", conta ele. Comparado muitas vezes com João Gordo, do Ratos de Porão, pelo tamanho e vozeirão, Pesado confessa que sofreu mais influências de Fábio, vocal do Olho Seco, de São Paulo.
PAULEIRA NA MOLEIRA - Quando tudo parecia ir a mil para a banda, roubaram-lhes a aparelhagem, amplificadores, baterias: O grupo ensaiava num casarão na Rua da Guia e o Mundo Livre S/A no andar de cima. Depois desta, houve uma parada de quase um ano, conta Nino. No final da década de 80, a cena punk, rock, hard core do Recife tornara-se uma das mais movimentadas do País. Os shows que se produziam por aqui, atraíam caravanas de outros Estados. O Sepultura, por exemplo, ainda viajava de ônibus quando tocou no Recife e em Caruaru. Bandas já consagradas, como Headhunters, faziam escalas, na Sucata, uma discoteque falida no Pina, que se tornou um espaço para os roqueiros. O Câmbio Negro H.C, de volta aos palcos, destacou-se na cena e passou a ser a banda preferida para abrir shows dos grupos de fora.
"Em 1990, abrimos para a Morbid Angel. O pessoal que cuidava da turnê deles convidou a gente para tocar em São Paulo", conta Pesado. O Câmbio Negro H.C foi o primeiro grupo local de rock dos anos 90 a chamar atenção no Sul Maravilha. Nesta época eles já haviam até gravado o primeiro LP, Espelho dos Deuses, de 1989 - certamente o primeiro LP de Hard Core saído no Nordeste.
Até 1992, tendo o Beco da Fome como epicentro, o movimento punk/hard core do Recife expandiu-se. Já se podiam ver garotos nas ruas com T-shirts do Câmbio Negro H.C, deslocando-se para os periféricos Centro Sociais Urbanos ou clubes populares, feito o dos Rodoviários, na Imbiribeira, para curtir The Ax, Arame Farpado, Euthanasia, Realidade Encoberta (uma das grandes bandas desta fase), e os sergipanos do Karne Krua, cujo baixista Márlio posteriormente tocaria no Câmbio Negro H.C.
Surpreendentemente depois de lançar mais um LP, Terror nas Ruas, a banda saiu de cena outra vez: "Quando Chico Science apareceu a banda estava parada há dois anos", lembra Pesado. Estivessem na ativa, assim como Os Devotos do Ódio, eles poderiam ter sido agregados ao manguebeat, pelo qual nutrem declarada simpatia: "Quando só havia bandas de hard core a gente tinha um certo destaque. Agora a cena está muito diversificada. Hoje aparecem mais as bandas que fazem mistura de ritmos. Porém a gente não pode contestar que o Nação Zumbi é uma excelente banda. Mas, sem citar nomes, tem muito neguinho oportunista, que outro dia fazia hard core e de repente começa dizer que curtia maracatu, misturas. Nós caminhamos paralelos à cena", dispara Nino.
Por esta época passaram a atuar de forma mais esporádica, fazendo shows com menos freqüência. Só topavam paradas com infra-estrutura profissional, como o Abril Pro Rock, do qual participaram em 1997: "Passou a época em que a gente ensaiava em cubículos, tocava em qualquer espaço, hoje não dá mais", confessa Nino. Depois pararam, e por um bom tempo. Chegaram a ser dados como extintos, mas o Câmbio Negro H.C, o mais jurássico de todos os grupos de rock do Recife, é feito o lendário monstro do Lago Ness, na Escócia: Quando todos pensam que está desaparecido para sempre, de repente, surge do nada para realimentar o próprio mito.
Apesar de nenhum dos integrantes ter faturado com sua música, o Câmbio Negro H.C não dá pinta de que vai acabar tão cedo. Seus integrantes lembram o personagem de Rock and Roll Fantasy, um clássico do Kinks, um dos grandes grupos ingleses dos 60. Caras para quem o rock transcende a um gênero musical, é o combustível que os faz ir em frente.
NOTA: O texto acima foi encontrado, sem assinatura do autor, aqui. Reproduzo-o como encontrei, apenas editando-o para excluir ou atualizar dados defasados. A banda voltou recentemente à ativa. Para resgistrar esta nova fase, reproduzo abaixo uma entrevista concedida pelo baterista Nino ao Blog Aborto Verbal:
A.V: Voltando um pouco no tempo. O CNHC foi uma das principais bandas do nordeste brasileiro dentro da cena hardcore. Como se deu a origem da banda até o ano que cessou as atividades ?
O ano de 1984 é considerado por Nino como o marco inicial do Câmbio Negro H.C porque, a partir daí, a banda passou a fazer shows e manter integrantes mais ou menos definidos. Nem ele nem Pesado, vocalista que mais tempo ocupou o posto, consegue contabilizar com precisão todos os músicos que saíram e entraram na banda ao longo destes mais de 28 anos. Alguns são bem conhecidos da cena, como por exemplo os guitarristas Cláudio Munheca e Ony, do Faces do Subúrbio.
Não eram tempos fáceis. Ao contrário da efervescente cena atual, em meados dos anos 80, contavam-se nos dedos bandas de rock na ativa no Recife: Herdeiros de Lúcifer, Kristal, Napalm. "A gente tocava onde desse, não havia uma mídia como atualmente, abrindo espaço para o rock. Para conseguir a Mansão do Fera, onde aconteceu o II Encontro Anti-Nuclear, foi preciso dizer ao dono que o grupo fazia um som estilo Ultraje a Rigor", lembra Nino. Os punks eram pacifistas e pregavam diatribes atrás de diatribes contra o que os mortais comuns consideravam uma ameaça remota: a guerra nuclear. Os encontros antinucleares chegaram a três. O mais importante foi o segundo, que contou com participação do grupo de Oi! Vírus 27, do ABC paulista, que nem chegou a tocar. A polícia, convocada pelo dono do estabelecimento, antecipou o final do festival.
Além de trocar de guitarristas como trocava de acordes, o Câmbio Negro H.C experimentou vários vocalistas até chegar a Pesado, cuja figura confunde-se hoje com a história do Hard Core no Recife: "Entrei em 85, mas vivia nos ensaios e shows da banda. Minha entrada foi portanto uma coisa natural", conta ele. Comparado muitas vezes com João Gordo, do Ratos de Porão, pelo tamanho e vozeirão, Pesado confessa que sofreu mais influências de Fábio, vocal do Olho Seco, de São Paulo.
PAULEIRA NA MOLEIRA - Quando tudo parecia ir a mil para a banda, roubaram-lhes a aparelhagem, amplificadores, baterias: O grupo ensaiava num casarão na Rua da Guia e o Mundo Livre S/A no andar de cima. Depois desta, houve uma parada de quase um ano, conta Nino. No final da década de 80, a cena punk, rock, hard core do Recife tornara-se uma das mais movimentadas do País. Os shows que se produziam por aqui, atraíam caravanas de outros Estados. O Sepultura, por exemplo, ainda viajava de ônibus quando tocou no Recife e em Caruaru. Bandas já consagradas, como Headhunters, faziam escalas, na Sucata, uma discoteque falida no Pina, que se tornou um espaço para os roqueiros. O Câmbio Negro H.C, de volta aos palcos, destacou-se na cena e passou a ser a banda preferida para abrir shows dos grupos de fora.
"Em 1990, abrimos para a Morbid Angel. O pessoal que cuidava da turnê deles convidou a gente para tocar em São Paulo", conta Pesado. O Câmbio Negro H.C foi o primeiro grupo local de rock dos anos 90 a chamar atenção no Sul Maravilha. Nesta época eles já haviam até gravado o primeiro LP, Espelho dos Deuses, de 1989 - certamente o primeiro LP de Hard Core saído no Nordeste.
Até 1992, tendo o Beco da Fome como epicentro, o movimento punk/hard core do Recife expandiu-se. Já se podiam ver garotos nas ruas com T-shirts do Câmbio Negro H.C, deslocando-se para os periféricos Centro Sociais Urbanos ou clubes populares, feito o dos Rodoviários, na Imbiribeira, para curtir The Ax, Arame Farpado, Euthanasia, Realidade Encoberta (uma das grandes bandas desta fase), e os sergipanos do Karne Krua, cujo baixista Márlio posteriormente tocaria no Câmbio Negro H.C.
Surpreendentemente depois de lançar mais um LP, Terror nas Ruas, a banda saiu de cena outra vez: "Quando Chico Science apareceu a banda estava parada há dois anos", lembra Pesado. Estivessem na ativa, assim como Os Devotos do Ódio, eles poderiam ter sido agregados ao manguebeat, pelo qual nutrem declarada simpatia: "Quando só havia bandas de hard core a gente tinha um certo destaque. Agora a cena está muito diversificada. Hoje aparecem mais as bandas que fazem mistura de ritmos. Porém a gente não pode contestar que o Nação Zumbi é uma excelente banda. Mas, sem citar nomes, tem muito neguinho oportunista, que outro dia fazia hard core e de repente começa dizer que curtia maracatu, misturas. Nós caminhamos paralelos à cena", dispara Nino.
Por esta época passaram a atuar de forma mais esporádica, fazendo shows com menos freqüência. Só topavam paradas com infra-estrutura profissional, como o Abril Pro Rock, do qual participaram em 1997: "Passou a época em que a gente ensaiava em cubículos, tocava em qualquer espaço, hoje não dá mais", confessa Nino. Depois pararam, e por um bom tempo. Chegaram a ser dados como extintos, mas o Câmbio Negro H.C, o mais jurássico de todos os grupos de rock do Recife, é feito o lendário monstro do Lago Ness, na Escócia: Quando todos pensam que está desaparecido para sempre, de repente, surge do nada para realimentar o próprio mito.
Apesar de nenhum dos integrantes ter faturado com sua música, o Câmbio Negro H.C não dá pinta de que vai acabar tão cedo. Seus integrantes lembram o personagem de Rock and Roll Fantasy, um clássico do Kinks, um dos grandes grupos ingleses dos 60. Caras para quem o rock transcende a um gênero musical, é o combustível que os faz ir em frente.
NOTA: O texto acima foi encontrado, sem assinatura do autor, aqui. Reproduzo-o como encontrei, apenas editando-o para excluir ou atualizar dados defasados. A banda voltou recentemente à ativa. Para resgistrar esta nova fase, reproduzo abaixo uma entrevista concedida pelo baterista Nino ao Blog Aborto Verbal:
A.V: Voltando um pouco no tempo. O CNHC foi uma das principais bandas do nordeste brasileiro dentro da cena hardcore. Como se deu a origem da banda até o ano que cessou as atividades ?
Luiz(Nino) - A origem do CNHC ocorreu naturalmente, acho que como todas as
bandas, alguns caras que estavam a fim de tocar, as letras sempre seguiram uma
mensagem de conotação de protesto. O decorrer dos anos que a banda esteve mais
presente na cena, vamos dizer assim, foi tempos sacrificantes, mas
recompensadores. Alcançamos grandes momentos em palco, objetivos foram
alcançados, enfim, valeu muito a pena. Tão natural como o início foi a parada
que demos.. Na última apresentação, ganhei um calo na mão durante o show e que
me rendeu uma infecção, uma cirurgia e algum tempo de fisioterapia, até poder
voltar e quando fui liberado, cada um tava cuidando da sua vida e perdemos o
contato. Mas, estamos de volta agora..
A.V: Esta, quem manda é
meu brother, Hudson que editava
o zine
grind noise. O ESPELHO DOS DEUSES nasceu de uma demo tape ou as músicas
foram compostas pensando no vinil mesmo? Sendo que fora do eixo rio SP, era uma
época mais difícil para gravar .
Luiz(Nino) - "O ESPELHO DOS DEUSES" foi apenas o
resultado de shows e uma época do CÂMBIO NEGRO HC. Não fez parte integralmente
de alguma demo-tape, nem tão pouco suas músicas foram compostas para o disco,
mas sim, fez parte de um grande momento que a banda atravessou.
A.V: Como anda a cena underground
no nordeste, é bem unida e houve uma evolução grande ? ou ainda existe um
certo “monopólio” Rio- SP como no passado ?
Luiz(Nino) - Na minha
opinião, de forma geral a cena teve uma grande evolução e não só no NE. Hoje vemos muito mais bandas atuando e com
melhores estruturas próprias, etc.. Isto é muito bom. Por outro lado, no
tocante a união não tenho bem certeza disto. Este discurso de união sempre
teve, mas em Recife, na prática não vejo uma união tão significativa, vamos
dizer assim. Desculpe, eu não entendi muito bem quanto ao "monopólio"
que se referiu, mas eu acredito que quanto se fecha num mundo só, acaba-se
escolhendo pra si uma parcela menor do conhecimento e assim, ficando de fora
das oportunidades de conhecer coisas boas de um "mundo
vizinho"...rrsss. Assim como os pesquisadores europeus que achavam que
somente a sua cultura era o termômetro pra conceituar as outras sociedades eu
acredito que preconceituar o outro por baixo é um grande equívoco.
A.V: O CNHC vem de uma
época onde a informação na cena
underground circulava em sua
maioria nos fanzines ou escassas publicações oficiais de rock , mesmo com estas dificuldades alcançou uma
projeção dentro do underground
nacional . Atualmente
é possível produzir em casa e disparar em segundos utilizando a
tecnologia e a internet
, Como vocês vêem isso , acham
que o excesso de produções
acabou desvirtuando o
hardcore com o surgimento de “bandas artificiais(que aproveitaram um
embalo modista )” ou fortaleceu mais a cena
?
Luiz(Nino) - Boa pergunta.. Eu acho que uma coisa deve
complementar a outra, mas sabemos que não é isso que ocorre. A internet é uma
excelente ferramenta, de fato, mas é fato também que hoje em dia tem muitos que
acham que fazer barulho é fazer Hardcore. Claro que não é assim, não é verdade?
Acho que de forma geral a galera daquela época compreendia mais de Hardcore do
que hoje em dia. Talvêz
isso possa estar associado a internet, ou melhor, a velocidade com que as
pessoas esperam em ter uma informação, mas, além da informação, é fundamental
ter mentalidade. Hardcore é muito além de tocar, é preciso compreender e só
compreendendo que se faz algo melhor.
A.V: Os anos 80/90 particularmente eu considero uma das melhores
safras das bandas do hardcore nacional,
o CNHC sempre adotou nas letras
basicamente “temas de protestos". Como vocês vêem a função
das letras criticas
dentro da cena musical .
Luiz(Nino) - Para nós as letras críticas é uma coisa
inevitável. É o reflexo de nossa visão em relação as coisas que nos rodeiam. É
uma forma da gente expressar o nosso conceito e o nosso descontentamento do que
é para nós nocivo a humanidade. Como falar de flores se estamos rodeados de
espinhos?
A.V: Fale um pouco sobre a
decisão de voltar a cena após um período
afastado e sobre a atual formação da banda ?
Luiz(Nino) - Tocar sempre esteve no sangue. Vivemos um
momento que marcou e depois achamos que poderíamos reviver aqueles momentos
numa época diferente. É certo que muitos caras nos incentivaram muito pra
voltarmos e isto foi determinante, então reunimos alguns ex-integrantes da
banda que estavam a fim de tocar, como foi o caso de Pedrito (Pedro Riker -
guitarra) que gravou os dois discos do CNHC e Jairo (baixo). Eis a formação
para voltar junto comigo (batera) e com Pesado (vocalista), embora por pouco
tempo, pois Pesado não estava disposto em continuar por mais do que um show.
Nesse momento de reunião, Léo, um amigo de longas datas, estava sem banda e me
pediu pra compor a formação com mais um guitarrista. Fizemos um teste e
gostamos muito do resultado..o som ficou muito pesado e agressivo! Bom, fizemos
alguns ensaios, mas, como Pesado não continuaria, chamamos um outro vocalista,
o Ajax - que é um fã incondicional do CNHC e se interessou em ocupar o vocal, e
assim está sendo. Estamos num período de entrosamento com Ajax e esta é a
formação que dará continuidade.. Ajax Lins (vocal); Pedro Riker (guitarra); Léo
Lins (guitarra); Luiz "Nino" (bateria) e Jairo Neto (baixo).
A.V: Como está o processo de criação, músicas novas, mudanças de sonoridade em comparação aos trabalhos anteriores (o espelho dos deuses 90 e terror
nas ruas 92) ?
Luiz(Nino) - No momento estamos mais empenhados em ensaiar
um set de show que escolhemos com músicas que marcaram os 2 discos e algumas
outras que acabaram entrando numa compilação em CD que fizemos, alguns bônus
que entraram no cd. Paralelamente, tenho feito algumas músicas e letras.
Pedrito também fez uma música, excelente por sinal e a gente acabou mostrando a
todos algumas coisas que fizemos..a receptividade foi a melhor possível!
Há uma mudança de sonoridade no que diz respeito ao volume,
peso e nas músicas mais rápidas, estas também ficaram bem mais rápidas. Os
elementos característicos do Hardcore permaneceram. Queremos continuar fazendo
Hardcore, mas hoje em dia temos condições de deixar o som melhor, bem mais
pesado do que antes e estamos fazendo isto.
A.V: Quais o projetos para
o futuro do CNHC ? Já pensam na
possibilidade de lançar um
material ? serão músicas inéditas ou vão regravar algumas faixas dos álbuns
anteriores ? Caso regravem ,para vocês qual não poderia ficar de fora?
Luiz(Nino) - Estamos empenhados em preparar um set de show e
subir ao palco oficializando a volta do CNHC em shows. Além disso,
preparar e gravar um material novo (estamos anciosos pra isso). Ainda não tenho
certeza se regravaremos alguma música antiga, mas provavelmente,
"MARIONETES" e "ANGÚSTIA" entrem no novo material. Já me
passou pela cabeça regravar todo o "O ESPELHO DOS DEUSES" ou os
clássicos dos dois discos, mas a prioridade é gravar um material inédito
mesmo. Isso pode ser projeto para o
futuro, já que só tenho de recordação 4 cópias do 1º e um pouco mais do 2º
disco.
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