sexta-feira, 20 de julho de 2012

UMA NOITE EM 2012


CENÁRIO: Rua da loucura (ops, cultura), 16/07/2012, por volta das 21:00. Camarones Orquestra Guitarrística, banda instrumental do Rio Grande do Norte, no palco. Noite chuvosa (pero no mucho), pouca gente na platéia. Som bom, o que é ótimo – e não muito comum. O publico, além de pequeno, é pouco participativo (sergipanos costumam ser tímidos), mas a banda não se abala e entrega uma perfomance perfeita - devidamente registrada pelas lentes espertas de Marcelinho Hora e Victor Balde da Snapic (esta resenhazinha metida a besta é, na verdade, apenas uma desculpa pra publicar as fotos deles).

ANDERSON FOCA: Boa noite a todos. A chuva quase estraga a festa de novo (era pra ter rolado na segunda-feira passada, mas foi cancelado devido às péssimas condições meteorológicas), mas que bom que deu uma trégua. Em todo caso nós estamos aqui, protegidos no palco, e vocês estão aí, sujeitos ao mal tempo, então, já que não tem tanta banda pra tocar hoje,  vamos estender um pouco nosso set, que costuma ser de meia hora, se não for incoveniente para ninguém.

E tome rock. Rock bom, redondinho, bem tocado, cheio de guitarras e com algumas intervenções eletrônicas. Ana Moreno, a baixista, é o destaque da noite, sempre com um belo sorriso no rosto e uma empolgação contagiante no corpo. Tocaram por cerca de 45 minutos, ao fim dos quais Foca recita o nome de algumas bandas do lado obscuro da força, como Venon, Exciter, Exodus e Slayer. “Mystical Fire”, eu grito, arrancando risos dos que me circundam, membros honorários da confraria informal que freqüenta as noites quentes regadas a álcool e substancias ilícitas do centro de Aracaju.

Falando neles, uma noite na Rua da Cultura seria incompleta sem os diálogos nonsense protagonizados por estas criaturas:

RAS (RENATO AUREOLINO): Essa baixista é massa, sempre sorridente, dá os pulinhos do rock e não perde a nota nunca.

BILAL: E é gata.

RAS (RENATO AUREOLINO): Pode crer. A guitarrista é gatinha também.

BILAL: Que nada, a mulher parece Joey DiMayo (do Manowar).

RAS (RENATO AUREOLINO): Só na sua cabeça de jerico que aquela mulher parece com aquele brucutu. Mas tanto faz, o que importa é que a banda é boa e ela toca pra caralho.

Adolfo Sá, que miraculosamente estava presente com sua simpática patroa (parabéns aos Camarones por tirar este indivíduo notoriamente recluso de casa numa noite chuvosa) cai na gargalhada. E me chama pra ir lá nos bastidores ver o material que a banda tem pra vender.

ANDERSON FOCA: Bela camisa, grande banda (eu estava com uma camiseta do Atari Teenage Riot). Vi um show deles, muito bom. Pressão total.

EU: Este último, agora?

ANDERSON FOCA: Sim, esse mesmo.

EU: Eu só vi pelo youtube e achei sensacional. Queria muito poder ter ido. Panço do Jason foi da outra vez que eles estiveram aqui no Brasil e nem conseguiu ficar até o final, achou mais barulhento que Slayer e Napalm Death juntos. Disse que ainda conseguia ouvir o barulho do som vários quarteirões à frente, a caminho de casa. Ficou com os ouvidos zunindo por um bom tempo.

ANDERSON FOCA: É por aí mesmo.

EU: Tocaram no Cine Íris, em São Paulo. Nunca fui lá, é legal, o local?

ANDERSON FOCA: Não sei, eu fui na Argentina.

EU: Caralho, agora você me matou de inveja ...

Inveja branca, saudável.

Risos gerais.

Fim.

A.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

# 232 - 14/07/2012


Um ouvinte reclamou no facebook que tava faltando Slayer e Black Sabbath no set list,  então toma Slayer tocando Black Sabbath, abrindo o segundo bloco do programa - aquele no qual a gente geralmente desce a madeira, sempre tocando algo pouco recomendado a ouvidos sensíveis. No caso, Death Metal, com os recifenses (que não têm nada a ver com o mangue beat) do Decomposed Gods, os poloneses do Decapitated e os britânicos do Carcass e do Bolt Thrower – os dois últimos são pioneiros do estilo, na ativa desde os anos 80.

Tony Wilson, fundador do lendário selo Factory (que lançou New Order e Joy Division, dentre outros), tinha uma grande frustração e um grande alívio: primeiro, por não ter conseguido lançar os Smiths. Segundo, por não ter contratado o Simple Red. Mick Hucknall, o vocalista, estava entre os presentes no show do Sex Pistols que os Buzzcocks promoveram na cidade no final dos anos 70 e que foi o estopim para o surgimento da cena alternativa de Manchester, uma dos maiores e melhores do rock britânico e, por tabela, do mundo. Homenageamos a cidade, também berço da Revolução industrial, com um bloco extraído da trilha sonora do excelente filme “24 Hours party people” (no Brasil, “A Festa nunca termina”). Fica a dica ...

E tivemos também os Rolling Stones, que comemoram 50 anos de banda este ano ...

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Neste ano, no dia 12 de julho, os Rolling Stones completaram 50 anos desde sua primeira apresentação em 1962 no Marquee Club, em Londres. É a mais antiga banda de rock ainda em atuação no mundo. Muita coisa mudou desde o início dos anos de 1960. Em 2003 (10/12), seu líder, Mick Jagger, recebeu do príncipe Charles o título de Cavaleiro do Império Britânico. A rainha recusou-se a participar da festa e marcou uma cirurgia no joelho real para o mesmo dia. O Daily Telegraph publicou (11/07) que a soberana nunca suportou as posições anti-regime de Jagger e suas extravagâncias sexuais, constantemente anunciadas na mídia mundial. Por isso recusou-se a participar da cerimônia de investidura do cantor em 2003.
A soberana também não apreciava a relação dele com sua falecida irmã, a princesa Margaret, que sempre manteve laços embaraçosos com a contracultura e o movimento underground. A informação veio do livro recém-lançado Mick: The Wild Life and Mad Genius of Jagger, de Christopher Andersen. Trata-se de uma biografia não autorizada e a rainha da Inglaterra não deveria preocupar-se tanto com o conteúdo da obra. Livros, no fim das contas, do ponto de vista da checagem de fatos, são péssimas fontes de informação. Biografias não autorizadas têm credibilidade próxima de zero. Sua Majestade preocupa-se muito. É muito zelosa de sua posição. Recentemente, obrigou a esposa do príncipe Willian a curvar-se diante de suas netas porque a duquesa de Cambridge “não tem sangue real”.
Banda foi filmada em tecnologia digital
Mick Jagger aceitou o título, fato que desagradou a muitos fãs e a seu principal parceiro no repertório da banda, o milagrosamente ainda vivo guitarrista Keith Richards. Mas a história registra alguns casos de recusa da honra real: o cantor David Bowie (citado no livro de Andersen como suposto amante de Jagger no passado) recusou o título no mesmo ano (2003) em que o cantor dos Stones aceitou o seu. Bowie declarou que “nunca tive a intenção de aceitar nada como isso. Eu seriamente não sei para que serve. Não foi para isso que trabalhei a vida inteira”. Outros nomes famosos que recusaram a homenagem da coroa britânica: o ator Albert Finney, o escritor Aldous Huxley, autor de Admirável Mundo Novo (Chatto & Windus Ed. 1932), o cientista Stephen Hawking, a atriz Vanessa Redgrave e o grande escritor George Bernard Shaw recusaram o título, informou a revista TopTenz (15/02).
Os Rolling Stones são muito mais do que uma banda de rock de 50 anos que sobreviveu a tudo e a todos: são um fenômeno colossal de mídia. Mick Taylor, guitarrista que já fez parte da banda em seus melhores dias, declarou ao Irish Independent, da Irlanda (10/7), que os Stones, daqui a muitos e muitos anos, serão lembrados mais por sua atitude e rebeldia do que por sua música, que é muito difícil de ser reproduzida. É muito difícil reinterpretar qualquer material deles porque sempre ficarão em falta suas marcas principais: a atitude, a rebeldia e o todo o jogo cênico da banda, que é uma coisa só deles “e não tem nada a ver com notas musicais”, lembrou Taylor. Já os Beatles, comentou o melhor guitarrista que os Stones já tiveram, serão lembrados “por suas harmonias e melodias e Bob Dylan por suas palavras”.
A revista mensal Galileu, em sua edição de julho deste ano traz um histórico que mostra o vasto uso de tecnologias inovadoras nos shows do grupo desde 1969, quando estabeleceram o formato atual dos concertos de rock, com o uso de telões, palco e iluminação próprios, até 1994, quando transmitiram 20 minutos de seu show em Dallas pela web, “tornando-se a primeira banda grande a fazer isso”. No ano seguinte, passaram pelo Brasil e utilizaram novamente tecnologia inovadora: o Jumbo Screen, um painel gigante “que toma conta de todo o fundo do palco”, explicou a revista. Em 2008, Martin Scorsese filmou em tecnologia digital a banda, em Shine a Light – o primeiro contato do famoso diretor com a nova tecnologia. Scorsese foi editor e diretor-assistente nas filmagens do legendário festival musical de Woodstock, em 1969 (ver aqui ).
Reclamações mesquinhas e egoístas
Mas a conexão mais importante que liga Mick Jagger à mídia e suas questões mais contemporâneas foi sua posição desassombrada diante da questão dos direitos autorais e a internet que, segundo a indústria musical, vinha e vem destruindo o negócio com os downloads praticados pelo mundo afora. Jagger abriu o verbo e declarou à BBC em 2010 (11/07) que os empresários do setor musical, no início dos anos dourados do rock, nunca pagaram ninguém. O pagamento nunca foi em dinheiro, naquela época. Os músicos eram recompensados por orgias, mulheres, hospedagens caras, carros de luxo e muita droga. Os profissionais eram propriedade de seus produtores, que nunca abriram o jogo quando o assunto era dinheiro. Embolsavam o grosso dos lucros e empurravam o pagamento dos impostos aos músicos. O assunto já foi brevemente abordado por mim na edição nº 678 deste Observatório (“O Templo dos downloads sagrados”).
O cantor explicou que, desde o início das primeiras gravações, no princípio do século, os direitos autorais nunca se traduziram em grandes lucros para os músicos – que efetivamente criavam o produto que era vendido no mercado. Quantidades enormes de royalties negociados traduziam-se em quantias ridiculamente pagas aos músicos. O sistema de direitos autorais sempre beneficiou muito mais os empresários do setor do que os trabalhadores e criadores do produto musical. Houve uma pequena brecha, entre 1970 e 1997, em que alguns músicos fizeram muito dinheiro, explicou sir Mick à BBC. “Mas hoje isso acabou”, acrescentou logo depois o cantor.

Os direitos autorais nunca garantiram boa vida aos músicos, mas os produtores musicais e empresários de vendas do setor acumularam fortunas com dinheiro escondido dos músicos em acordos em que eles controlavam completamente o processo de comercialização e distribuição de música. A internet obrigou os músicos a voltarem à estrada, de volta aos concertos e as apresentações ao vivo. E a serem mais criativos e atentos a respeito de como vender seu produto. A internet garante o acesso dos artistas a todas as partes do globo, e serve como plataforma gratuita de propaganda em escala mundial. Se os músicos quiserem voltar a auferir grandes lucros com vendas de material gravado digitalmente, vão ter que refazer o modelo de comercialização e distribuição de música, que parou no tempo e nas reclamações mesquinhas e egoístas dos antigos e ultrapassados empresários musicais.
Reformular os modelos de trabalho
O modelo empresarial da indústria musical estava viciado, pesado e pouco lucrativo para os músicos antes da chegada da divulgação digital livre pela web. Com a chegada da internet, os músicos aprenderam duramente que precisam controlar o processo produtivo e de distribuição daquilo que produzem. Vão ter que afastar os parasitas que nada produzem, e fazer eles mesmos o trabalho que antes era realizado por seus exploradores da indústria musical. Acabou-se o tempo do criador genial e isolado do mundo comercial. Agora, todos têm que trabalhar para construir um novo modelo de vendas que garanta a sobrevivência dos músicos na era digital.
Seja na música, nas artes ou no jornalismo, a internet é um grande nivelador: ela dá poderes insuspeitos a quem nunca teve e obriga os profissionais a reformularem seus modelos de trabalho, financiamento e monetização. Apegar-se aos antigos modelos inevitavelmente significará o fim da viabilidade econômica de qualquer atividade afetada pelo surgimento e popularização da internet.
Fontes: Mick: the Wild Life and Mad Genius of Jagger,de Christopher Andersen, 2012, (ed. Amazon Books), U$ 12,99; Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, 2001, (ed. Globo), R$ 32,50
por Sergio da Motta e Albuquerque
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The Rolling Stones – 50 Anos
# (I can´t get no)satisfaction
# Brown sugar
# It´s All over now
# Tumbling dice
# The last time
# Time is on my side
# As tears goes by
# Heart os Stone

Slayer – Hand of  Doom

Decomposed Gods – Pestholy
Carcass – No Love lost
Decapitated – perfect Dehumanisation (the answer)
Bolt Thrower – ... for victory

Autopse – rancor
Jason – Bipolar
Camarones Orchestra guitarrística – Ghostbusters theme


PJ Harvey - Who the fuck
Sonic Youth – junkie´s promise
The Jesus and Mary Chain – The Hardest walk (the Power of negative thinking)
My Bloody Valentine – Soft as snow (but warm inside)
Spiritualized – I think I´m in Love

The Smiths – untitled one (Marr isntrumental)

Buzzcocks – Ever fallen in Love
New Order – Here to stay
Happy Mondays – 24 Hours party people
Joy Division – Transmission
808 State – pacific state
The Durutti Column – Otis

Crove – Barra pesada

Plebe Rude – Johnny vai à guerra (outra vez)
Ira! – Me perco nesse tempo
Titãs – Eu vezes eu
Hojerizah – Tempestade em Viena

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Holidays
The Renegades of punk
Karne Krua
Hugo Ribeiro
Lacertae
Cinemerne
Urublues
Máquina Blues



terça-feira, 17 de julho de 2012

Jason, de volta.

Jason, banda carioca de Hard Core e "sons esquisitos" há mais de 14 anos em atividade, volta este mês ao nordeste para uma turnê de lançamento de seu novo EP, "obtuso". Em Aracaju, o show acontecerá na próxima segunda feira, às 21H, na Rua da Cultura. Entrada franca. Abaixo, a reprodução de uma entrevista concedida por eles ao site "PUNKnet":


PUNKnet – Quem é quem e o que cada um faz na banda?

FF: Toco baixo, escrevo as letras e respondo pela parte gráfica da banda. Excepcionalmente no disco novo fiz e gravei algumas guitarras.

Marcelo: Toco bateria, componho e, no disco, toquei também guitarras.

Vital: Eu crio as melodias, componho junto com a banda, canto e berro.

PUNKnet - Vocês tocaram em outras bandas. Qual a principal diferença entre elas e o Jason? Existem projetos paralelos de alguém da banda no momento?

FF: Na época em que surgiu o Jason, eu e o Vital tínhamos o Poindexter, que era uma banda de crossover. O hardcore era tipo uma célula dentro do leque de sons que fazíamos, mas pertencia ao mesmo universo. Se eu comparar com o Jason de hoje, posso dizer que a diferença é que somos muito melhores.

Marcelo: No Jason, é onde faço o que mais gosto. Paralelamente, toco também no Spektro, que é um projeto totalmente diferente, voltado pra trilhas de filmes.

PUNKnet - Com tantas alterações na formação, como manter a identidade da banda?

FF: Essa história de muitas formações, apesar de verdadeira, ao mesmo tempo é um mito. É uma boa oportunidade para esclarecer, inclusive. Para mim, a identidade da banda está muito mais no material gravado, na criação, na idealização.

Dentro dessa lógica, veja só: nos três primeiros discos só houve uma troca de baterista. Posteriormente entraram o Marcelo, também na bateria, e o Glerm no vocal – época das músicas do EP Verde, lançado só na internet. E no Regressão o Vital regressou (tá-tum-tsss), eu fiz as letras e o David era o único novato da banda. Isso em, sei lá, 15 anos de carreira.  Ou seja, a célula criativa da banda sempre esteve quase intacta. Incluindo o Obtuso, eu, curiosamente, sou o único a estar em todos os discos do Jason, mesmo tendo ficado fora da banda por vários anos.

Houve um milhão de formações em shows, em turnês? Sim. Mas são elas que respondem pela identidade da banda? Não. Foram pessoas apenas tocando as músicas do Jason temporariamente.

Marcelo: Identidade também pode ser algo relativo. Eu apoio você querer se desconstruir a cada trabalho, e se sair tudo completamente novo, quem é que vai dizer que isso também nao faz parte da identidade da banda? Mais legal é se reinventar, sob pena de te custar isso, do que se esconder atrás de um estilo, e ficar se repetindo por anos e anos, por motivos menos nobres do que fazer arte.

PUNKnet - De que forma foi ocorrendo a mudança sonora ao longo dos discos?

Marcelo: Em 14 anos, só posso achar natural que mude muita coisa. Suas referências vão mudando, você ouve coisas diferentes, ou vê as antigas sob um novo ponto de vista. Você quer abordar outros assuntos, ou as vezes, falar dos mesmos, mas de uma forma que não falou antes. Da mesma forma que foi ocorrendo a nossa mudança como pessoa, nossa criação foi acompanhando. E acho totalmente saudável isso, refletir no seu processo artístico. É você pegar para comparar, por exemplo, os Beatles no Please Please Me, e os Beatles no Abbey Road – obviamente guardadas as devidas proporções.

PUNKnet - Ainda sobre os trabalhos de vocês, muitos consideram o disco Odeia Eu um marco na carreira do grupo, por ser um trabalho com letras retas, diretas, coesas, ou seja, sem firula. Por que vocês acreditam que esse trabalho foi tão bem recebido e como ele nasceu?

FF: Para mim é marcante apenas por ser o primeiro. Ah, e por ter meus pais na capa – eu realmente adoro essa capa. Aliás, o disco vai ser relançado em vinil muito em breve, será ótimo ver aquela foto do casamento com mais de 30cm. Acho que o Odeia Eu foi bem recebido porque é mesmo um disco de hardcore muito bom. Despretensioso, mas ao mesmo tempo tem profundidade. E não é de hoje que as pessoas adoram dizer “ui, no primeiro disco é que era bom”, mas isso é normalíssimo, acontece até com o Metallica. Achar que algo do passado é bom, tem a ver com afetividade, não obrigatoriamente com qualidade.

Sobre as letras, acho que não tem firula em nenhum disco, nem no Eu Sou Quase Fã de Mim Mesmo que tem vários textos adicionais. E na real, eu melhorei muito neste quesito, naquela época eu não seria capaz de escrever uma frase tipo “sempre soube embaralhar, enrolada igual ioiô” com essa naturalidade de agora. No Odeia Eu eu ainda não tinha o aparato poético suficiente para fazer de outra forma, só sabia ser direto. E assim o disco nasceu, tudo bem simples, rápido e sem maiores preocupações.

PUNKnet - Sobre as letras, de onde vocês buscam inspiração para conseguir abordar tantos assuntos nos seus discos, visto que muitas bandas ficam suas raízes em desilusões amorosas ou críticas políticas?

FF: As desilusões amorosas e (também) políticas até estão lá, mas de forma sutil. Porque a intenção maior é fisgar as pessoas escrevendo histórias. Conto as minhas, as dos meus amigos, partes de outras que escuto nas ruas… e invento a maioria, claro. Não tem muita inspiração, só procuro ficar atento ao que está ao redor e trabalho muito para encaixar cada sílaba na métrica. As palavras-cruzadas que tanto fiz na adolescência ajudaram a formar meu vocabulário.

PUNKnet - Além dos discos e shows, vocês tiveram a oportunidade de ter a sua passagem pela Europa registrada em um livro pelo Panço, ex integrante da banda. Comentem um pouco sobre essa tour e o livro Jason – 2001, Uma Odisséia na Europa.

FF: Foi um momento marcante da minha vida, como se eu tivesse feito uma outra faculdade em trÊs meses. Conheci muitos países, me deparei com muita novidade de uma só vez: squats, punks que vivem de seguro desemprego, neo-nazistas, agressão verbal aos meus companheiros de viagem (aceitem minhas desculpas), ser um “cara de banda” 24 horas por dia, saudade da minha cidade natal, da namorada… O que vivi lá ajudou muito a moldar o que sou hoje.

Marcelo: Em 2003 fomos mais uma vez, desta vez com a formação 100% titular na época. Quem estava lá sabe que essa dava tranquilo outro livro.

FF: É, com a segunda turnê na Europa finalmente amadureci.

PUNKnet - Se me lembro bem, o Herón (Uzomi) esteve presente nessa tour. Contem um pouco como foi.

FF: Na de 2001, sim. O Heron descobriu um drink na Espanha, logo no início da turnê, chamado Kalimotxo, que basicamente é Coca-cola com um vinho qualquer. Se você encontrá-lo esta noite na Lapa, aqui no Rio, provavelmente ele estará com uma garrafa pet de dois litros contendo exatamente esta pitoresca bebida. Isso é mágico, isso é parte do que fez valer a pena viajar com 50% da formação da banda na época.

PUNKnet - Após tudo isso vocês ainda tiveram a música “Imagem É Tudo, Sua Cabeça Não Tem Nada”, regravada pela cantora Pitty. Como isso aconteceu e ela soube dar conta do recado?

FF: Não lembro bem como aconteceu o convite para participar da gravação, mas o Rafael Ramos, nosso baterista original, estava produzindo este primeiro DVD da Pitty e foi algo bem natural. E divertido. Temos uma relação com ela desde a época do Inkoma. Existe um vídeo de 2000 da Pitty, ainda uma verdadeira “moleca”, cantando “Imagem É Tudo…” com a gente em Salvador, daí foi só levar essa vibe para o estúdio. Achei legal ela ter escolhido essa música porque uma garota falando para outra “você é uma Barbie disfarçada” faz todo o sentido, funciona como uma autenticação, uma chancela. Confira o  vídeo aqui.

Marcelo: Acabou que apresentou a banda a um público diferente também. Sempre tem alguém que chega até a gente dizendo que conheceu a banda por causa da Pitty. É gratificante ver que muitas dessas pessoas se tornaram realmente fãs da gente.

PUNKnet - Ainda sobre a formação, como está sendo o desafio da versão power trio do Jason?

Marcelo: O power trio só vale para o EP. No início, a gente decidiu continuar a boa maré criativa e o entrosamento em que nós três estavámos, ao invés de sair por aí procurando guitarrista. Foi um processo democrático, aonde todo mundo participou intensamente, independente de instrumentos. Mas para o futuro, a gente tem planos de compor já com um guitarrista de verdade exercendo a função. Foi muito prazeiroso gravar as guitarras, mas ter que pensar nas baterias já é muito.

FF: O maior desafio é dividir os gastos só entre três pessoas.

PUNKnet - Pouco antes de anunciarem o EP, vocês estavam em busca de um novo guitarrista. Como surgiu essa ideia e se ela ainda está firme e forte?

Marcelo: A gente anunciou nas redes e testamos uma galera, mas firmamos com o Rodrigo Piccoli (foto), que logo de cara foi o que se demonstrou mais pilhado para ser da banda, além de, é claro, ter preenchido todos os requisitos técnicos. A turnê no Nordeste vai ser com ele, e naquela filosofia de dar um passo de cada vez, deixaremos para decidir na volta, tudo que tá implícito aí.

PUNKnet - De que maneira vocês avaliam o hiato pelo qual a banda passou? E a atual fase que cuminou no EP Obtuso?

FF: Nem consigo definir o que foi esse hiato porque a banda existiu um bom tempo nos palcos, fez turnês, só que sem lançar nada de novo. A única coisa que me ocorre agora é que sem o afastamento não haveria uma reunião tão frutífera. Parece óbvio, mas se você imaginar tamanho desgaste caso tocássemos juntos direto por 14 anos, passa a fazer sentido. Um exercício de ver o lado bom.

Marcelo: Todos na banda ja estiveram fora dela em algum momento, e ver as coisas em perspectiva, te reposiciona a respeito do que você quer e do que você não quer mais fazer. Nessa volta, a gente priorizou criar coisas novas, ao invés de continuar fazendo shows com repertório antigo. Está aí o Obtuso para provar que foi tudo do jeito que tinha que ser.

PUNKnet - Como foi o processo de composição, produção e gravação do Obtuso?

Marcelo: A gente passou um bom tempo indo para o estúdio os três, e só levando som e gravando. Simplesmente criando. Sem regra. Essa foi a melhor parte. No início a gente estava pensando em música independente de instrumento, porque bem ou mal sempre faltava um nos ensaios para completar a banda. Depois fomos pegando prática com as deficiências de uma formação incompleta, e reunindo e organizando todo material que tinha, para daí transformar em música. Esse processo foi tão rico em material que a gente tem já um monte de músicas novas engatilhadas para um outro disco. A conferir.

FF: É, se a gente ouvir o que tem de material gravado dos ensaios e resolver seguir finalizando, não vejo motivo para não lançarmos outro disco já no ano que vem. Aliás, só o fato de ser o ano 13 já é um estímulo a mais para isso acontecer. E essa foi a pergunta 13 também, sente a vibe.

PUNKnet - Qual a principal diferença do último trabalho de vocês, o disco Regressão, e o novo EP?

Vital: Foi tudo diferente! O Regressão foi composto e gravado de forma atípica: a formação da época gravou o disco inteiro sem vozes criadas nem letras. Mesmo fora da banda na época, eu criei e gravei todas as vozes depois e o FF fez todas as letras.

Marcelo: Na época, como o nome já diz, quisemos fazer um disco mais cru, meio que remetendo mais às coisas do início da banda. Acabou que saiu um disco até rebuscado em alguns momentos. Foi uma regressão que saiu pela culatra (que bom!)

Vital: Já no Obtuso os três participaram de tudo desde o início, desde os improvisos de estúdio de onde saíram todas as músicas, até a última voz gravada no fim. Um trabalho coletivo de verdade.

Marcelo: É com certeza a atividade artística que eu mais me orgulho de ter feito na vida. A gente está muito feliz com o resultado.

FF: Pela primeira vez assinamos músicas que de fato criamos juntos. Uma baita diferença e um desperdício não ter acontecido antes.

PUNKnet - Vocês acreditam que esse novo trabalho será o início de uma nova fase do Jason?

Vital: Já estamos em uma nova fase, muito boa por sinal.  Estamos muito felizes com as músicas novas, como o EP, ansiosos para pôr os pés nos palcos outra vez para tocar esse material. Tem sido um bom momento, apesar do trabalho que dá fazer tudo da forma correta.

FF: Impossível não chamar de nova fase, simplesmente porque mudou muita coisa. Musicalmente não é de hoje que a banda vem mudando, só não percebeu quem parou no tempo, nos dois primeiros discos. Mas na forma de conduzir a banda está sendo meio drástico, agora pensamos em todos os detalhes, evitando fazer “do jeito que der”. É uma nova fase sim, a fase das coisas como devem ser.

PUNKnet - Como vocês resumem esses 14 anos de história?

Vital: Como toda banda que dura esse tempo todo, houve altos e baixos. Mas, olhando assim agora em retrospecto, gosto de imaginar que a banda teve mais altos que baixos. Sou muito orgulhoso dos discos que fiz com o Jason, todos eles. Já tive outras bandas, mas definitivamente o Jason é meu trabalho mais importante. Foram também 14 anos de muita estrada, muitos shows memoráveis. E felizmente temos ganhado fãs bem legais ao longo desse tempo.

FF: Foram muitas aventuras e uma grande confusão, tipo um filme da sessão da tarde.

Marcelo: Nos 10 anos que estou na banda, fiz o que quis em 100% do tempo, artisticamente falando, e acho o máximo ter pessoas por aí que curtem algo que fiz só para mim.

PUNKnet - Das bandas que estão surgindo na cena independente, quais vocês recomendam para a galera?

Vital: Cara, curto o Galinha Preta, HC sujão, bem humorado. Ontem conheci a banda do amigo Sad que era do Ack, Evil Idols, achei bem maneira também. Recomendo as duas.

Marcelo: Recomendo o Spektro, projeto de trilhas de filmes do amigo Kayo Iglesias, do qual eu também participo. Tem várias pegadas diferentes ali no meio. Inclusive hardcore e metal.

FF: Gosto muito do Chinese Cookie Poets, aqui do Rio. Mas para alguns recomendo cautela.

PUNKnet - O que o nordeste pode esperar do Jason?

Vital: Uma banda que vai tocar apaixonadamente o novo material e coisas de todas as épocas, inclusive do comecinho. Esperamos que a galera entre em sintonia e curta todas as nuances do nosso som, que tem HC, roque estranho, tem de tudo rs… ensaiamos uns HCs especialmente para o Nordeste, mas a gente está levando o Jason 2012 para estrada, e acho que todos vão curtir.

FF: Estou muito feliz pelas pessoas que no nosso show vão ouvir a voz do Vital, cara. Isso era uma angústia minha, porque tem as peculiaridades do timbre dele, ele cantou nos discos, é outra parada. E sabe-lá a última vez em que a banda fez turnê lançando disco novo com a formação que acaba de gravar. Estamos vivendo intensamente esse momento. A frase é piegas, mas é real.

Marcelo: Nesses anos todos de banda, não teve um dia sequer que a gente não recebesse pelo menos uma manifestação de carinho dos fãs espalhados pelo Nordeste. A gente tá planejando isso há muito tempo. Ia ser ano passado, e não deu. Neste ano, fizemos uma verdadeira força-tarefa para viabilizar essa turnê, e mesmo não podendo atingir 100% das cidades que a gente queria atingir, estamos satisfeitos em poder retribuir essas boas vibrações dessas pessoas, dando o melhor da melhor fase criativa de nossas vidas. Vai ser bom para cacete.

PUNKnet - Aproveite o espaço e deixe seu recado.

FF: Dav e Laís, um obrigado pela receptividade. Ilsom (Sub Folk), Wilson (Brechó) e Klotz (Suvaco), um salve por estarem conosco nessa empreitada obtusa. David (Molotov), um valeu pelas belas e novas camisetas que virão. Bil e Superfuzz um brinde pela moral sinistra. E um abraço para todos os amantes do ritmo doidão.

Marcelo: Você acha a gente em praticamente todas as redes disponíveis sob a alcunha de “jasonoficial”. Facebook, Twitter, Instagram, Youtube etc. Antes da turnê no Nordeste, tocaremos dia 6 na Audio Rebel (RJ), dia 7 em Resende (RJ) e dia 8 em São José dos Campos (SP). uou!

Download grátis do EP “Obtuso”: http://tramavirtual.uol.com.br/jason






segunda-feira, 16 de julho de 2012

RIP Jon Lord

O tecladista e fundador do Deep PurpleJon Lord, morreu nesta segunda, depois de sofrer uma embolia pulmonar, em um hospital, em Londres. Lord vinha lutando contra um câncer no pâncreas, diagnosticado em agosto de 2011 (veja aqui).
No último dia 6, o tecladista, que deixou o grupo em 2002, mas continuava atuando como músico, cancelou o show que faria em Hagen, na Alemanha, por conta de problemas médicos (leia aqui).
Jon Lord fundou o Deep Purple junto com o baterista Ian Paice, em 1968. Além do Purple, o tecladista fez parte das bandas Whitesnake, Paice, Ashton And Lord, The Artwoods e Flower Pot Men, e mantinha um trabalho como artista solo. Jon Lord tinha 71 anos. Abaixo, a íntegra da nota postada no site oficial do tecladista:
“É com profunda tristeza que anunciamos o falecimento de Jon Lord, que sofreu uma embolia pulmonar fatal, hoje, segunda, 16 de Julho, na ‘London Clinic’, após uma longa batalha contra o câncer de pâncreas. Jon estava ao lado de sua família. Jon passa das trevas à luz.”
Jon Lord, o lendário tecladista do Deep Purple, co-escreveu muitas das canções lendárias da banda, incluindo ‘Smoke On The Water’, e tocou com muitas bandas e músicos ao longo de sua carreira.
Mais conhecido por seu trabalho ‘Concerto Orquestra de Grupo e Orquestra’, executado pela primeira vez no Royal Albert Hall, com o Deep Purple e a Royal Philharmonic Orchestra, em 1969, e conduzido pelo renomado Malcolm Arnold, feito repetido em 1999, quando foi novamente realizada no Royal Albert Hall pela London Symphony Orchestra e pelo Deep Purple.
O trabalho de Jon solo foi universalmente aclamado quando ele finalmente se aposentou do Deep Purple em 2002.
por Marcos Bragatto
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Histórico ...


Pouco depois da meia-noite, meu táxi chega a uma casa noturna chamada Vortex. O clima é seco, e a vizinhança, como o resto de Londres, é um distrito comercial com um olho nos turistas. Meio quarteirão à frente, cerca de dez adolescentes vestidos como agentes funerários de filmes de terror pulam e batem uns nos outros. O cabelo deles é curto, jogado para trás com gel ou penteado para cima com pomada ou vaselina e talco. Xingando uns aos outros em um forte sotaque de proletariado, os rapazes finalmente descem a rua enquanto outro táxi para na entrada do lugar. Um homem de cabelos ruivos encaracolados, moderadamente longos, rosto pálido e suéter preto sai de dentro do veículo. É Malcolm McLaren, empresário do Sex Pistols, a banda punk mais notória do mundo, que me fez sair de Nova York para conhecê-la e vê-la tocar.
McLaren vem me evitando há dois dias. Eu me apresento e sugiro que nos encontremos logo. McLaren some para dentro do Vortex e passo a noite inteira sem conseguir encontrá-lo de novo. A densa plateia dentro do lugar é composta de uns poucos curiosos e de 400 a 500 adolescentes cadavéricos vestidos de preto ou cinza. A maioria tem o cabelo tingido em variações de rosa, verde e amarelo. A música alta mistura novidades e reggae, aos quais os garotos reagem com quase tanto entusiasmo quanto dedicam ao punk rock. A dança é frenética quando uma banda de garotas chamada Slits entra no palco. O estilo é chamado pogo – pular caminhando com os braços balançando. Todo mundo está sujeito a um empurrão. A pista está empanturrada de seres humanos suarentos, e ficando cada vez mais cheia a cada música. Os roadies no palco e alguns fãs jogam copos de cerveja uns nos outros.
Mais tarde ao sair do Vortex, reconheço o baterista do Sex Pistols, Paul Cook, também deixando a casa. Desacompanhado, ele veste uma camiseta sem mangas, um jeans reto e tênis detonados. O nariz é largo, a pele é pálida. Condicionado por seis meses de relatos sobre a propensão do Sex Pistols à violência, quase espero que ele me ataque. Mas sua mão é mole quando nos cumprimentamos e seus olhos não encaram os meus quando me apresento. Ele é tímido. “Parte da imprensa está até tentando ligar vocês aos fascistas”, falo. “Nem me dou ao trabalho de me importar com essas merdas”, ele responde. “Isso é o que eles querem enxergar de tudo isso. Quando começamos a tocar, antes de todas essas matérias saírem, as pessoas vinham e diziam que nunca tinham visto nada tão divertido na vida.”
Passei a tarde seguinte em meio a recortes de reportagens sobre a banda no escritório do Sex Pistols – duas salas sombrias e cinzentas no último andar de um pequeno edifício comercial a poucos quarteirões de Piccadilly Circus. O arquivo de matérias de quase 1 metro mostra que a banda está tão imersa em uma névoa mitológica que chega a ser impossível discernir a verdade. A imprensa publica tudo o que consegue imaginar. A imagem do Sex Pistols enquanto fruto proibido é ampliada. Mas a banda tem se encaminhado rapidamente para a superexposição em sua terra natal. Levando as letras do punk no sentido literal, os jornais proclamam o movimento como o fim da civilização ocidental.
O telefone toca e é McLaren. Eu me ajoelho diante de sua assistente e escrevo “POR FAVOR!” no meu caderninho. Ela se apieda de mim e deixa que eu fale com ele por um instante. Para minha grande surpresa, ele me convida para ir a seu apartamento no começo da noite. Expresso minha gratidão sincera e saio com o guitarrista Steve Jones para um estúdio de gravação. Jones tinha acabado de chegar ao escritório para ver algumas fotos de divulgação. De longe, ele é o Pistol com aparência mais saudável, parecendo uma mistura de mineiro de carvão com um conquistador garanhão. Mas seu aperto de mão é tão molenga quanto o de Cook. Sigo Jones para o estúdio onde o Sex Pistols está dando os toques finais no álbum. Uma das coisas que mais me espantam no movimento punk, eu digo a Jones, é que parece antissexo – garotos e garotas que se tornam tão feios e mutilados que qualquer atracão física se torna impossível. Sid Vicious, por exemplo, o notório baixista da banda, se descreveu em uma matéria como “um monstro assexuado”, totalmente entediado com o assunto. “Sid disse isso?”, diz Jones. “Ele tava zoando.”
Logo quando chego, encontro Sid Vicious no lounge do estúdio, ele tenta se justificar. “Eu me sentia um monstro assexuado porque na época minha cabeça estava raspada e eu usava esse fraque horrível, quatro números maior que o meu. Não tinha dinheiro para comprar roupas, e as pessoas corriam quando me viam descendo a rua. Chegava a ser engraçado”, diz. A voz de Vicious tem um tom bobo meio absurdo, que deixa engraçado quase tudo o que ele fala. Magrelo, está vestido com uma jaqueta preta sem camiseta alguma por baixo e coturnos enormes. Seus dentes parecem estar sem escovar há vários anos. O comprimento de seu cabelo é de mais ou menos uns 5 centímetros, espetado em ângulos estranhos. Várias cicatrizes vermelhas se destacam em seu plexo solar. “Teve uma noite que ninguém estava prestando atenção em mim, aí resolvi cometer suicídio”, ele explica, arrotando alto. “Fui ao banheiro, quebrei um copo e rasguei meu peito com ele. É um belo modo de chamar a atenção. Vou fazer isso de novo – principalmente porque não funciona. Todo mundo disse para eu ir me cortar direito e me ignorou.” Ele ri da própria conclusão sem lógica, acrescentando: “É melhor você não me fazer de idiota nessa sua matéria”.


Vicious cursou o ensino médio com o vocalista Johnny Rotten. “Éramos dois filhos da puta bem grudados”, diz ele. “Ele era o cara mais escroto que eu já tinha conhecido – todo torto, sem cabelo, meio corcunda, pé chato. Todo mundo odiava ele. Todo mundo também me odiava. Nós dois nos odiávamos, mas ninguém mais falava com a gente, por isso a gente enchia a cara e ficava batendo boca um com o outro. Rotten contava para as pessoas que teve que cortar suas hemorroidas com uma gilete, porque ficavam penduradas na calça, e eles acreditavam. Ele também falava que os negros tinham pelo no céu da boca. E acreditavam nisso também.” Vicious largou a escola depois de arrumar um diploma por meios escusos, que usou para abrir algum tipo de negócio ilícito que ele se recusa a especificar. Seu primeiro contato com a imortalidade foi em um dos primeiros shows do Sex Pistols. “Eles eram o único grupo que eu tinha vontade de ver”, conta. “Eu não sabia dançar, aí ficava pulando e trombando nas pessoas. Então, todo mundo começou a fazer a mesma coisa, mas não faziam direito, por isso parei.”
“Você vai ter sobre o que cantar quando for rico?”, pergunto.
“Não acho que vamos virar milionários algum dia. Não fico pensando no futuro. Não tenho nem ideia.”
“Com todo o dinheiro que você ganha, ainda não comprou um apartamento?”
“Não ganhei nada.”
Vicious puxa os bolsos para fora. Uma moeda cai no chão. “Olha, eu só recebo na sexta, e quando chega a segunda não tenho mais nada. Dinheiro nenhum.”
Malcolm McLaren, que tem a reputação de chegar duas horas atrasado para tudo, está também duas horas atrasado para o nosso encontro em seu apartamento. Quando McLaren chega, depois da meia-noite, ainda veste o suéter preto esfarrapado que vi há várias noites. Pergunto por que ele apresentou o New York Dolls, banda norte-americana com quem se envolveu antes dos Pistols, como comunistas.
“Foi só uma ideia”, ele diz. “O rock é só música. Você também está vendendo atitude. Tire a atitude e você vira alguém comum, como os grupos de rock dos Estados Unidos. O Sex Pistols surgiu porque nas ruas do Reino Unido estão dizendo: ‘O que é esse lixo sessentista? Pagar 5 libras para ver um tampinha tocar, enquanto dependo do seguro-desemprego para viver?’ A molecada precisa de um senso de aventura, e o rock precisa encontrar um jeito de dar isso a eles.” O empresário não tem ilusões sobre o mercado musical: “Adoro ir pelo caminho mais difícil. Mantém você esperto e percebendo a verdade. Muitas das bandas novas são sugadas pelas gravadoras. Todos esses presidentes de gravadoras são umas putas. Há dois meses, os porteiros deles teriam nos jogado na rua. Hoje, vendemos um punhado de discos e eles ligam querendo fotos com a gente. Mo Ostin [da Warner Bros. ] está vindo de avião com seu advogado amanhã, e antes eu não conseguia nem passar de sua secretária. Já entrei e saí da CBS muitas vezes. Walter Yetnikoff [presidente da CBS] cantou ‘Anarchy in the U.K.’ para mim durante um café da manhã no Beverly Wilshire, só para provar que conhecia a banda. Ele disse que não se sentiu ofendido quando Johnny Rotten falou que era um anticristo. ‘Sou judeu’, ele disse”.
O telefone toca e McLaren atende. “O que foi? Elvis Presley morreu?... É triste, não? Como se seu avô morresse... É, pena que não foi o Mick Jagger.”
Sid Vicious não poderia ter descrito o colega Johnny Rotten (nome de batismo: Lydon) com mais precisão: todo torto, meio corcunda, quase transparente de pálido, cabelo curto tingido de laranja-brilhante – sem dúvida, o cara mais escroto que já conheci. Ele está vestindo uma camiseta adornada com a palavra DESTROY e uma suástica, calças de couro preto e aqueles sapatos pretos bizarros que têm o formato de uma canhoneira. Seu aperto de mão é o mais mole de todos. “Você, uh, prefere ser chamado de John?”, pergunto.
“Isso”, ele diz. “Desprezo o nome Johnny Rotten. Não falo com ninguém que me chame assim.” Sua voz seria capaz de transformar o Pai Nosso em algo brutalmente sarcástico. Por ter aprendido, provavelmente, que se olhar nos olhos de alguém por tempo o suficiente a pessoa vai começar a achar que você sabe que ela é uma fraude (porque no fim das contas todo mundo é uma fraude), Rotten me encara com uma autoconfiança demoníaca, ameaçando me reduzir a balbucios incoerentes. O efeito geral, entretanto, faz surgir um instinto maternal que eu nem sabia que tinha. A noção de que esse anão enfermo carrega a fúria de uma nação inteira nos ombros acaba sendo reconfortante.
“Quer dividir com o mundo algum comentário sobre a morte de Elvis?”
“Esse trolha já vai tarde pra caralho”, ele rosna. “Estou pouco me fodendo, e ninguém mais liga também. Só é divertido fingir simpatia, é só isso que estão fazendo.”
“É verdade que você costumava dizer que teve que cortar suas hemorroidas com uma gilete?”
“É, fiquei sem ir à escola por três semanas. Os professores me mandaram flores. Sou um mentiroso abominável.”
“Como você ficou assim?” Me arrependo da pergunta assim que ela sai da minha boca, mas não há volta.
“Saindo com gente que pergunta esse tipo de merda. Cuzões que acham que esse tipo de coisa não merece ser cuspida em cima.”
Na manhã seguinte ligo para a casa de McLaren e ele promete me dar uma carona até Wolver Hampton, um subúrbio de Birmingham, para o primeiro show da “turnê de guerrilha” do Sex Pistols pelo Reino Unido. Já que foram banidos de todos os lugares, eles vão tocar com nomes falsos. Hoje o grupo chama Spots, um acrónimo de Sex Pistols on Tour Secretly (“Sex Pistols em Turnê Secretamente”).
McLaren não me liga de volta para explicar como faço para pegar minha carona, então vou de trem na última hora. Wolver Hampton é um buraco industrial que lembra Cleveland, se Cleveland tivesse sido construída 200 anos antes. O Club Lafayette fica no meio de um bairro operário barra-pesada. Uma fila de cinco ou seis pessoas de largura tomou todo o quarteirão. Lá dentro, o lugar está lotado de jovens entre o fim da adolescência e os vinte e poucos anos. Exceto por um garoto que pintou a pele de verde (ou seria um efeito da pouca luz?) e uns poucos outros usando a parafernália punk, a plateia usa roupas normais. Eles pogam ao som da música gravada, entretanto, com até mais intensidade que o pessoal do Vortex. As brigas se tornam mais frequentes e mais violentas.
“Vocês têm que se controlar”, pede o DJ pelo sistema de som, “ou os Spots não vão tocar!” A plateia responde com um canto de torcida de futebol. À meia-noite, o Sex Pistols finalmente emerge do camarim. A pressão perto do palco, que tem menos de 1 metro de altura, é literalmente inacreditável e conflitos com os seguranças logo surgem. As pilhas de auto-falantes balançam para a frente e para trás, ameaçando tombar. A banda aumenta o som e Rotten rosna a risada demoníaca do começo de “Anarchy in the U.K.”
Algum garoto deu um murro e furou um dos alto-falantes. Outros pisaram nos fios e derrubaram alguns equipamentos eletrônicos. A música é quase ininteligível sobre o barulho ambiente, exatamente como a anarquia deve soar. O público poga freneticamente. Paul Cook está escondido, mas soa bem. A guitarra de Steve Jones evita firulas, mas faz um trabalho benfeito. Sua expressão é sincera – como uma estrela de basquete colegial prestes a cobrar um lance livre decisivo – que ele quebra só quando decide cuspir na plateia a cada poucos minutos.
O baixo de Sid Vicious é energético e sem sutileza. Ele está acordado há dois dias, e tenta tirar um cochilo entre um lick e outro. Ainda ostentando sua camiseta com a suástica, Rotten é o artista mais cativante que já vi. Ele não faz muita coisa além de rosnar curvado no palco; são os olhos que matam. Eles não perfuram, espancam. Vários roadies grandalhões se juntam aos seguranças para formar uma parede sólida em frente à banda. Rotten está oculto por ela, por isso sobe em cima de um retorno, se pendura no teto com uma mão e segura o microfone com a outra.
A banda consegue passar por “I Wanna Be Me”, “I’m a Lazy Sod” e “No Feeling” com o sistema de som relativamente intacto. “Pretty Vacant”, o single atual, faz o público berrar o refrão a plenos pulmões: “A gente é tão/Oh, tão vazio/Vazio/E não estamos nem aí!” Pela primeira vez, vejo Johnny Rotten sorrindo – é breve, mas é um sorriso. O refrão de “God Save the Queen” – “Sem futuro, sem futuro, sem futuro pra você” – fecha o set. “No Fun” é o bis e detona de vez o sistema de som.
Estou feliz por ter gostado. Sid Vicious simboliza o quão perto o rock vai conseguir chegar do ideal de Huckleberry Finn nesta década. Espero que, assim como o personagem de Mark Twain, Vicious consiga explorar novos territórios antes de se transformar em mais um ego perdido. Não consigo deixar de gostar de Malcolm McLaren. Se ele fosse um mero manipulador, não teria escolhido um grupo de fodidos tão genuínos para a banda. Se fosse meramente ganancioso, poderia ter encontrado meios mais fáceis de tornar o Sex Pistols a banda número 1 do planeta. Ele escolheu não a política do tédio, mas a da divisão: amputar os liberais sessentistas babacas de seu apoio da classe operária.
E Johnny Rotten contou ao Reino Unido inteiro que precisou cortar suas hemorroidas com uma gilete, e os idiotas acreditaram fielmente. Mas não paro de pensar naquele breve sorriso de Rotten durante “Pretty Vacant”, no Club Lafayette. Será que queria dizer: “Olha como eu sou incrível!” ou então: “Olha como estes moleques estão se divertindo!”? Sempre existiram estradas bem divergentes no rock and roll. O Sex Pistols escolheu a menos manjada e a que tem feito toda a diferença.

Cara a Cara com o Sex Pistols

Há 35 anos, em 1977, a Rolling Stone EUA rumou à Inglaterra para saber quem eram aqueles novos delinquentes musicais surgidos na terra da rainha.

COPYRIGHT © 2011 - ROLLING STONE BRASILP. ESCARRO NAPALM UNAUTHORIZED REPRODUCTIONS INC.por CHARLES M. YOUNG | TRADUÇÃO: J. M. TREVISAN
ORIGINAL AQUI



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segunda-feira, 9 de julho de 2012

# 231 - 07/07/2012

Com 20 minutos de atraso (perdão, problemas pessoais), o programa de rock do último sábado começou "esporrando na manivela" com os ingleses "crusties" do Extreme Noise Terror, os italianos bastardos do Cripple Bastards e o doentio Anal Cunt, do falecido e infame Seth Puttnan (O GG Alin do grindcore). E com os também ingleses do Carcass e os Mexicanos do Bujeria e do Asesino.

Depois voltamos aos primórdios do "Horror punk" com 45 Grave, pioneira do estilo ao fundir a sonoridade crua e urgente do punk rock com o visual gótico e temas sombrios. A banda foi fundada em Los Angeles, em 1979, e está na ativa até hoje na pessoa de sua vocalista Dinah Cancer - estão, inclusive, prestes a lançar seu primeiro disco de inéditas depois de 27 anos! Na sequencia, Misfits com uma faixa de seu mais novo CD, "The Devil´s rain", que dividiu opiniões, já que conta apenas com Jerry Only, o baixista (e agora também vocalista) da formação original. Eu gostei do disco: pode não ter o mesmo brilhantismo do tempo de Danzig, mas é muito bem gravado e segue a mesma linha - inclusive nos vocais.

O rock gaúcho mais uma vez se faz presente com um clássico de Jupiter Maçã interpretado por Wander Wildner. No final do bloco, uma de minhas músicas favoritas dos Titãs (do disco "Jesus não tem dentes no país dos banguelas") numa versão do Cachorro Grande.

Pixies, certamente uma de minhas bandas favoritas de todos os tempos, compareceu com uma de seu primeiro álbum, "surfer rosa", mais dois derivados: The kelley Deal 6000, banda formada em 1995 (e terminada dois anos depois) pela irmã gêmea da baixista Kim, e Breeders, da qual as duas fizeram parte.

Tivemos então um bloco ao vivo ("quem sabe faz ao vivo", já dizia aquele apresentador mala) com Blondie interpretando um clássico dos anos 70 e Echo & The Bunnymen outro dos anos 60, mais duas pérolas oitentistas. Na reta final, Bis para a "chanson française" composta por um americano (Joe Dassin ) recentemente gravada por Iggy Pop. Aproveitando o gancho, outra faixa cantada em francês, extraída do disco "Into de Pandemonium", do Celtic Frost; mais o segundo single do novo álbum dos holandeses do The Gathering e, para encerrar, uma faixa "corta pulso" de "Third", do Portishead.

Agradecimentos a Marcelo Larrossa por ter colocado o rock no ar enquanto eu não chegava ao estúdio.

A.

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Extreme Noise Terror - Low life
Cripple Bastards - Mondo Plastico
Anal Cunt - Face it! You´re a metal band
Carcass - reek of putrefaction (peel session)
Brujeria - Eram mios para siempre
Asesino - Maldito

45 Grave - Insurance from God
Misfits - Cold in Hell

Wander Wildner - Lugar do caralho
Bidê ou Balde - Me deixa desafinar
Video Hits (com Ronnie Von) - Silvia 20 Horas domingo
Cachorro Grande - Lugar nenhum

Pixies - Gigantic (single version)
The Kelley Deal 6000 - Canyon
The Breeders - Oh!

Blondie - Bang a gong (get it on) (live)
Echo & The Bunnymen - Paint it black (live, 1986)
The Smiths - Some girls are bigger than others (Live in London 12-12-1986)
The Cure - Charlotte Sometimes (Live in Oxford)

Iggy Pop - Et Si Tu N'Existais Pas

Celtic Frost - Tristesses de la luna
The Gathering - Meltdown
Portishead - Small

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Free world éss êi

Num mundo mais justo, Fred Zero Quatro, frontman da banda Mundo Livre SA, seria meu brother e a entrevista reproduzida abaixo teria ocorrido na beira do mangue, com umas brejas molhando as palavras e o rumor dos carros que adoecem a capital sergipana ao fundo. No entanto, o arremedo de jornalismo que ilustra essa página foi mediado por outro Fred, xará do músico, que promove mais uma edição do Baile Tropical e aproxima a produção musical da terrinha com o que existe de mais pra cima nos quatro cantos do mundo.

O Mundo Livre SA, principal atração da festa, é um velho conhecido das nossas radiolas. Mesmo com 25 anos de estrada, a banda continua reconfigurando o passado e investindo no desenvolvimento de uma estética musical singular. Essa perspectiva histórica é uma marca indissociável da época em que o vocalista Fred Zero Quatro, mancomunado com um tal de Chico Science, ajudou a redigir o manifesto 'Caranguejos com Cérebro', que deu início Movimento Mangue Beat. Impossível não mencionaro movimento.
História da música brasileira à parte, o Mundo Livre SA chega a Aracaju para lançar o seu trabalho mais recente: o 'Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa'. Com gravação independente, o álbum foi lançado nacionalmente em 2011 pela Coqueiro Verde e marca uma nova (nova) fase da Mundo Livre S/A.

Jornal do Dia - É curioso notar que a maior pretensão da banda, co-responsável por um movimento tão consistente quanto o mangue, seja o de fazer o corpo do pessoal chacoalhar.

Zero Quatro - Desde o primeiro disco, chacoalhar e pensar. No primeiro tinha os balanços Cidade Estuário, O Rapaz do B... Preto, Manguebit, etc. No segundo tinha Militando Na Contrainformação, e por aí vai. E o que dizer de Embustation, faixa do Manuela Rosário. Acho que atingimos o grau máximo deste conceito na faixa de encerramento do Novas Lendas...Tua Carne Black Label é puro chacoalhar e pensar.

JD - A cena de Hell Cife (como gosta o jornalista Xico Sá) é uma referência obrigatória pra todo mundo que transpira pra mostrar o próprio trabalho sem o apoio de uma multinacional. Além dos círculos criativos, a cidade é mesmo esse oásis artístico que a gente idealiza? As demais engrenagens da cadeia cultural, a exemplo dos meios de comunicação, funcionam a contento?

Zero Quatro - Os meios de comunicação de massa locais são o nosso pior gargalo. Não toca quase nada que preste nas rádios e tvs. A coisa só não é pior por causa do grande incentivo do poder público, abrindo espaço em todos os eventos e palcos municipais e estaduais.

JD - Falando na produção artística pernambucana, como se deu a aproximação com o artista plástico Derlon Almeida? A concepção visual de NLETB é coisa fina!

Zero Quatro - Eu já acompanhava e admirava o trabalho dele nos muros e paredes da cidade. Mas não conhecia pessoalmente. O Rafael, da Zeroneutro, me levou na casa dele, e eu chapei. A identificação foi imediata!

JD - O que NLETB diz a respeito do em que estágio a banda se encontra? Me parece que, apesar do disco continuar obediente às premissas evidentes na discografia da Mundo Livre, há agora uma ambição de maturidade. Do ponto de vista estritamente musical, os últimos 25 anos foram generosos com vocês?

Zero Quatro - Acho que hoje eu sou um compositor muito mais completo. E a banda, com novos integrantes, tem oxigenado de forma muito positiva a sua linguagem. Acho que esse é o nosso melhor trabalho, em termos de composição, e isso se refletiu no resultado que colhemos, pela primeira vez, no Prêmio da Música Brasileira.

JD - Essa não é a primeira vez que a Mundo Livre/SA visita Sergipe. Nessas idas e vindas, deu pra conhecer um pouco de nossa cena? Qual a impressão que nossas bandas e público deixaram em vocês?

Zero Quatro - Acompanhei o início da Lacertae e gostava muito. Mas perdi o contato. Ouvi falar do The Baggios, Snooze, Plático Lunar, etc. Acho que a troca de informações entre as bandas nordestinas ainda é precária, apesar da internet. A própria cadeia produtiva, totalmente desconstruída, dificulta esse intercâmbio. Quanto ao público, temos notado um interesse cada vez maior no nosso trabalho, aqui na Região. Mas lembro que das últimas vezes que  pisamos em Aracaju, a nossa penetração era muito restrita ao circuito underground. Talvez esse prêmio, pela dimensão nacional, ajude a esquentar a demanda. De qualquer forma, nossa expectativa é positiva, pois no geral o público nordestino tem se mostrado tão ou mais antenado quanto qualquer outro do Brasil.

riansantos@jornaldodiase.com.br

terça-feira, 3 de julho de 2012

# 230 - 30/06/2012

Voltamos do recesso junino em ritmo eletrônico com os santistas do Harry – duas faixas que abrem seu segundo (e excelente) LP, “Vessel´s town” – Kraftwerk, com uma faixa de seu último disco de inéditas, “Tour de France”, e um remix para um dos maiores sucessos do New Order, que incendiava as pistas de dança nos anos 80 do século passado. Fechando a primeira parte do programa, mais uma do novo disco do Mundo Livre S/A – que será lançado em Aracaju na próxima sexta em mais uma edição do Baile Tropical.

O Jason, banda carioca de hardcore e sons esquisitos também dará o ar de sua graça mês que vem, na rua da cultura. Deles, tocamos a faixa de abertura do novo EP, “obtuso”. Recomendo – é rock “torto” da melhor qualidade, com alguns bons refrões pegajosos em meio a riffs quebrados e melodias dissonantes. Trata-se do primeiro trabalho deles sem a presença de Leonardo Panço, membro fundador que praticamente carregou a banda nas costas, mantendo-a viva e fazendo turnês, por um bom tempo. Mas é bom ressaltar que, pelo menos nas gravações, Vital e Floq, respectivamente vocalista e baixista/letrista/designer gráfico, sempre estiveram presentes, portanto trata-se de uma volta aos palcos, específicamente. 

Focamos então o rock com presença feminina, com duas bandas que estarão tocando por aqui este mês – o Tuna, de São Paulo, próximo sábado, às 17:00H, no restaurante vegetariano Om Shanti (Rua Santa Luzia, 439 - Centro - Aracaju - SE - (0xx)79 3211-1037), e o Autopse, de Maceió, Alagoas, na décima edição do Rock Sertão, uma semana depois. Completando o time, Noskill, de João Pessoa, Paraíba, e The Jezebels, de Aracaju.

No Bloco “dor de ouvido”, os finlandeses blasfemos do Impaled Nazarene, a lenda viva (vivíssima) do grindcore Napalm Death (numa faixa com a participação especial do saxofonista John Zorn!) e Fear Factory, mestres do metal industrial. Todos com faixas de seus últimos discos: “Road to octagon”, “Utilitarian” e The Industrialist. Fechando o combo, os japoneses insanos do Melt Banana e outro mestre do som industrial, Trent Reznor (aka nin).

Elizabeth Fraser, do Cocteau Twins, vai voltar aos palcos este mês (ver post abaixo). Para comemorar, tocamos a belíssima faixa que encerra com chave de ouro a carreira da banda – é a última do último disco, “Milk and kisses”. Na volta do intervalo, uma dica do ouvinte Marlio Oliveira: Fugazi!

E tome rock! E Britânico! 4 clássicos que dispensam maiores apresentações + 4 “peel sessions" – dentre elas uma matadora versão para “Love Will tear us apart”, que acaba de ser eleita a melhor música das últimas 6 décadas numa votação que o jornal New Musical Express promoveu para comemorar seus 60 anos de existência.

Fechando a noite, rock sergipano.

Fui, mas volto.

A.

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Harry – Seaweed on a rock shore
Harry – Savior
Kraftwerk – elektro kardiogram (radio mix)
New Order – Bizarre love triangle (Extended dance mix)

Mundo Livre s/a – Constelação carinhoca

Jason – Rivotril

Autopse – Autopse
Noskill – Contradições
The Jezebels – I won´t pay
Tuna – Ismael no liquidiamplificador

Impaled Nazarene – Under attack
Napalm Death – Everyday pox
Fear Factory – Recharger
Melt Banana – Lost parts stinging me so cold
Nine Inch Nails – Liar (reptile demo)

Cocteau Twins - Seekers who are lovers

Fugazi – Reclamation

The Small Faces – Hey girl (BBC session)
The Kinks – I need you
The Who – My generation (previously un. Instrumental version)
David Bowie – Love you ´till Tuesday

Bloc party – Little thoughts (presented by John Peel)
Joy Division – Love will tear us apart (Peel session)
Echo & The Bunnymen – Seven seas (Peel session)
Gene – The Looker (Peel session)

The Baggios (Acústico) – Canção dos velhos tempos
Mamutes – Te deixando o meu bye bye
Crove – A dança do forró

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