sábado, 19 de novembro de 2011

Aperipê FM, Boa noite ...

Quase ninguém liga pro programa de rock. Isto é um fato, e digo isto apenas pra ilustrar o inusitado do relato que vou fazer, não é uma reclamação, nem um pedido, nem nada. Pois bem, há uns 2, 3 anos, ligou um senhor (pela voz imagino que tenha sido um senhor) e travou-se o seguinte diálogo entre mim (Adelvan) e ele:
- Aperipê FM, boa noite.
- Boa. Minha filha, quem é o responsável por esta coisa que ta no ar na “rádja” aí agora?
- É meu filhO. Sou eu mesmo, porque?
- Ah, é você que tem essa voz horrível é ? e é um “hômi”, é, pensei que fosse “muié” ...
- Hum, err, é, fazer o que ...
- Deveriam arranjar alguém melhorzinho pra fazer a locução ...
- Sim, eu sei, é que sou eu mesmo que produzo então é melhor que eu mesmo comente o que foi tocado, mas sei que não sou locutor, não tenho nenhuma formação, nenhum curso, não estudei pra isso. Sou amador, mesmo ...
- Percebe-se. Mas não foi por causa disso que eu liguei não, tou ligando pra protestar contra essas musicas horríveis que vocês tocam aí ...
Nesse momento pensei que o cara estava reclamando especificamente do bloco que estava no ar, que era só com splatter/grind/noise e Death metal produzido por Furia – um inferno sonoro, enfim, aí tentei explicar:
- Senhor, este bloco que está no ar eu sei que é um tipo de musica muito especifica e de difícil assimilação mesmo, mas acho importante tocar este tipo de musica também, e o programa não se resume a isto não, pelo contrário, é o mais variado possível. Hoje mesmo, mais cedo, tocamos U2 ...
- Eu sei, eu tou ouvindo desde o inicio. Achei tudo um lixo ...
- Ah, ta ...
- Isso é musica pra perverter a juventude ...
Longo silencio. Confesso que fui pego de surpresa e fiquei sem saber o que dizer, mas o coroa logo voltou à carga:
- E tem mais, muita musica estrangeira, em “ingrês”, coisa que a gente não entende ...
- o que o senhor sugere, então?
- Sugiro que seu programa acabe. Uma radio publica deveria tocar apenas musica brasileira, e de qualidade, não essa coisa aí que você toca.
Mais silencio ...
- E tem mais, já que a radio é do governo daqui, acho que deveria tocar só musica sergipana.
- Não concordo não. Musica é musica, é arte, e arte não deve ter fronteiras. E a gente já toca bastante musica sergipana, isso que o senhor ta sugerindo é uma espécie de gueto, a musica sergipana tem que estar é misturada à musica do mundo mesmo ...
- que gueto que nada. Eu vou é fazer um abaixo-assinado pra tirar esse programa do ar.
- Ah, ta. Então ta.
- Era só isso que eu queria dizer, boa noite.
- Boa.
Infelizmente, não rolou o tal abaixo-assinado, pelo menos não que eu saiba. Uma pena, teria sido publicidade gratuita.

A.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

# 205 - 12/11/2011

O programa de rock do último sábado foi aberto por uma musica do Unabomber Files, projeto que reune verdadeiras lendas vivas do metal mineiro: Vladimir Korg (Chakal, ex The Mist) nos vocais, Paulo Xisto jr. (Sepultura) no baixo, e dois membros da banda Eminence, Allan Wallace e André Marcio, na guitarra e bateria. Na sequencia, Vicente Coda flertando com as batidas eletronicas em "Bukowski", musica nova que fará parte de seu novo disco, duplo, a ser lançado no mês que vem.

No segundo bloco, aproveitamos o gancho do Festival SWU para tocar mais algumas das favoritas da casa - Alice in Chains com "down in a hole", do disco "Dirt", de 1992, e Sonic Youth com uma faixa de "Dirty", também de 1992. Já com o Faith No More, do qual tocamos o cover de "War Pigs" que eles gravaram para "The Real Thing", de 1989, saudamos também a volta do Black Sabbath com as promessas de um disco novo produzido por Rick Rubin, o primeiro em 33 anos com a formação original, e uma turnê mundial que, todos esperamos, passe também pelo Brasil.

O programa prosseguiu com mais uma edição do Drop loaded e com os Invasores de Cérebro, banda capitaneada por Ariel, notório vocalista e miltante anarquista que participou dos primordios do punk no Brasil fazendo os vocais do Restos de Nada e dos inocentes, e Karne Krua, pioneira do estilo em nosso estado. Tivemos ainda a psicodelia nordestina do Mopho, de Maceió, e do Anjo Gabriel, de Pernambuco, e, para encerrar, uma entrevista Ao Vivo com o niteroiense Pedro De Luna, que estava na cidade para o lançamento de seu livro "Niterói Rock Underground 1990-2010". A festa aconteceu no Capitão Cook e contou também com as apresentações das bandas Maria Scombona e Maquina Blues, numa noite agradável com a casa parcialmente cheia - o cook tem este paradoxo: se lotar, fica desconfortável, pois o lugar é muito pequeno (poderia crescer, bastando para isso que se derrubasse uma parede e se erguesse mais 3, o que incluiria a inutil área externa ao ambiente dos shows, mas o dono não quer - ou não pode - fazer, então fica por isso mesmo), se não der ninguém, prejudica quem está produzindo o evento. Ao que me consta, o publico pagante foi suficiente para pagar os custos e sobrar uma laminha, então todos ficaram relativamente felizes - Até porque os shows foram muito bons.

O livro de Pedro De Luna pode ser encontrado na Freedom, que fica na Rua Santa Luzia, 151, no Centro de Aracaju. Próximo à Catedral Metropolitana.

Tenho dito.

A.

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Anjo Gabriel alucinado e mergulhado na psicodelia

Bento Araújo – ESPECIAL PARA O ESTADO DE S. PAULO

A primeira informação é misteriosa, levemente duvidosa: “Eles irão tocar numa casa…” Numa casa? “Sim, eles e outras seis bandas…” Depois de uma bela garimpada na rede, foi possível achar pelo menos o endereço da tal casa, mas nada além. E o mistério continuava.

Domingo de chuva, aquela garoa ininterrupta que a São Paulo de outros tempos costumava se orgulhar. No meio da tarde, a casa é encontrada, num bairro tradicional da cidade. O som pode ser ouvido da rua, vindo lá de baixo. O grupo acabou de adentrar ao palco, ou melhor, ao cômodo.

Uma rampa dá acesso ao quintal, onde um conglomerado de freaks toma cerveja em canecas particulares e degusta uma espécie de cachorro-quente preparado num imenso caldeirão. Parece hora do recreio numa creche qualquer – a garotada correndo, conversando, dando risada – comendo e bebendo debaixo de chuva.

Para achar o cômodo onde o grupo se apresenta o único jeito é seguir as ondas sonoras. Passando por sósias animados do Devendra Banhart (de saia e tudo), cocotas com visual emo, e alguns punks, é possível sacar que toda aquela massa sonora vinha de uma porta de alumínio, daquelas típicas de vestiário de clube de futebol de várzea.

É só entrar, sem bater, e lá dentro cerca de 30 pessoas presenciam quatro jovens de Recife em catarse coletiva. Da terra do sol diretamente para a terra da garoa, executando um groove hipnótico, puro Krautrock, a vertente experimental alemã que trouxe ao mundo grupos como Can, Faust, Neu! e tantos outros.

No palco improvisado, o guitarrista abusa de uma Gibson SG de dois braços, um ícone dos anos 70, famosa por ilustrar timbres de hinos do período como Stairway To Heaven, Hotel California e Band On The Run. Entre o som agonizante e agudo do theremin e projeções na parede atrás do grupo, fica claro que o Anjo Gabriel é um combo único dentro do rock brasileiro atual.

Nessa mini turnê dos garotos pelo sudeste, esses 30 minutos na misteriosa casa foram o único gostinho que os paulistanos tiveram do Anjo Gabriel, um agrupamento lunático que certamente não faria feio num Rock In Rio ou em um SWU da vida.

A banda foi formada quando alguns de seus integrantes se encontraram numa comunidade hippie de Recife, chamada Ripohlandya, nome também do selo desenvolvido por eles, por onde surgiu o primeiro, e por enquanto único, registro da banda: O Culto Secreto do Anjo Gabriel.

O vinil, duplo, é quase todo instrumental, um oásis sonoro para aqueles cansados da choradeira indie que assola o mundo. Ecos da nordestina psicodelia “maldita” dos anos 70 é a espinha dorsal do trabalho, que também se alimenta do som pesado do Black Sabbath e do Blue Cheer, do progressivo espacial do Pink Floyd e do hard groove do Zeppelin. Sim, parece um disco perdido de um grupo obscuro da época, daqueles que você baixa hoje em dia e acha que descobriu o universo.

“Optamos por lançar em vinil e usar o processo analógico na produção. Essa prática soa real e coerente,” diz o pessoal, que aproveita a deixa: “Podemos dizer que corremos por fora das soluções modernas de distribuição com a estratégia ‘menos é mais’. Trabalhar dentro dessa prática provoca os antigos apreciadores e faz surgir novos curiosos. Além disso, o fato de colecionar discos nos faz entender um pouco como funciona o comércio e o público que consome música produzida em vinil.”

O elepê foi registrado em um gravador de rolo de 16 canais, num sítio, onde o grupo varou algumas intensas madrugadas realizando longas jams. Dessas lisérgicas sessões surgiram os oito temas do disco. Canções longas, trabalhadas, progressistas e livres.

Depois do impacto no ‘udigrudi’ o Anjo Gabriel já está preparado para encarar a famigerada ‘maldição’ do segundo disco: “Temos uma ideia basicamente definida quanto ao próximo lançamento, que já está composto e arranjado. Será uma trilha para o filme Lucifer Rising, de Kenneth Anger. Como o filme tem somente meia hora, nossa intenção é fazer uma trilha alternativa, e lançá-la num disco de dez polegadas que deve sair até o meio do ano de 2012, antes do mundo acabar…” Literalmente amaldiçoado e apoteótico.

http://blogs.estadao.com.br/combate_rock/anjo-gabriel-alucinado-e-mergulhado-na-psicodelia/

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Mopho, uma entrevista

Como se deu a volta do formato quarteto para gravar esse material novo?

Voltamos a nos encontrarmos a partir de 2008, quando o Bocão conseguiu um show para o Mopho aqui em São Paulo. De lá pra cá muita coisa aconteceu. Outros shows, inclusive um em Macapá, que era uma cidade que nunca tinhamos tocado. Desde o encontro em 2008 já estávamos querendo gravar um disco novo, porque música era o que mais tinhamos guardado esse tempo todo que estivemos separados. Aliás, muitas músicas lindas ficaram fora desse disco novo e já estamos pensando em começar a trabalhar nessas novas canções.

Como funcionou os processos de produção desse novo disco?

Tivemos a ajuda de muitos amigos, e que agora eles fazem parte do Mopho também, mesmo que seja apenas no Vol.3. Pessoas como Paulo Blob, que fez toda arte do disco; Pedro Ivo Euzébio, o Tup, que foi nosso técnico nas gravações, na mixagem e na produção do disco; Woulthamberg Rodrigues que é um grande fotógrafo que nos acompanha desde que nos reencontramos em 2008. Essas pessoas trabalharam neste disco como se fossem membros da banda desde o início, em 1997.

Como funcionaram os contatos com a gravadora e as distribuidoras para rolar esse terceiro CD?

O Bocão é o cara que faz os contatos com o pessoal das gravadoras. A gente grava e manda uma pré-mix das músicas para eles ouvirem. Para o Mopho, hoje, ficou um pouco mais fácil esse contato por conta da banda ter conseguido uma pequena notoriedade no meio underground.

O que você destacaria como as principais mudanças nesse novo trabalho?

Acho que a maturidade foi algo que fez muita diferença neste disco, tanto na música como na vida, e as vezes as duas se confundem. Mas ainda temos muito para amadurecer.

Como rolaram as participações de outros músicos?

Eu não acompanhei tanto esse processo, pois estou morando em São Paulo enquanto os outros da banda estão em Macéio. Mas posso te dizer que as pessoas que participaram deste trabalho são amigos que conhecemos há um bom tempo. O Marco Túlio é um grande amigo da banda e que temos ele como se fosse um grande irmão e conselheiro. O Wado, nós nos conhecemos desde o tempo da “Ball”. O Billy é nosso maestro; a participação dele no disco, desta vez, foi apenas no piano e no clarinete em uma das faixas. No próximo disco estamos pensando em arranjos de cordas e sopros, e ele é o cara indicado pra escrever esses arranjos. O Carlini é um dos nossos heróis vivos, tivemos a imensa sorte de dividir o palco com ele num show em São Paulo, em meados de 2001.

O que acharam do show do lançamento do disco em Maceió?

O show foi muito bom. Na verdade, superou nossas expectativas. O palco ficou muito bonito e o teatro ficou lotado, levando em consideração que o show aconteceu numa terça-feira e numa cidade que normalmente os shows desse tipo acontecem numa sexta ou sábado.

Faixa a Faixa do álbum “Volume 3″

Dani Rabiscou - É um country rock que fala sobre Dani, uma garota que o Bocão conheceu em São Paulo, uma história muito interessante que rendeu uma música divertida com um link de guitarra bem marcante.

Quanto Valeu um pensamento seu – Uma parceria do João Paulo com a Melina e o Wado, uma balada de ar melancólico de forte poesia. Ainda rola uma participação do Wado cantando junto com o João no refrão.

As Marias – A música é cantada pelo Bocão, de autoria do mesmo e traz memórias do clube da esquina em uma levada que lembra The Beatles no Magical Mystery Tour.

Pessoas são de vidro – A música de levada latina tem um clima psicodélico, colagens e arranjos quase surreais, destaque para os arranjos de guitarra. Música do baterista Hélio Pisca.

Prelúdio – Uma canção inspirada nos saloons, uma desilusão amorosa permeada pelo piano e clarinete do genial Billy Magno. Canção da dupla Pisca e Bocão.

Você sabe muito bem – Quase um tributo ao Pink Floyd, uma canção que tem uma bela interpretação do João Paulo, um passeio pelo progressivo e o folk de autoria do mesmo.

Caleidoscópio - Levada inspirada na banda Love com direito a palmas e solo de teclado. A poesia se refere a visão de um indivíduo sobre um outro. Música composta e cantada por Bocão e ainda conta com a participação de Marco Túlio souza.

A Malvada – Também cantada por Bocão, o blues que tem a participação do mestre Luiz Carllinni (tutti – Frutti). Ele toca Lap Steel Guitar enquanto João Paulo desfila seus fraseados na guitarra. A música tem um trabalho vocal da banda e tem em sua melodia uma parceria entre Júnior Bocão e Paulo pessoa.

Produto Ordinário Popular - Puxada por um riff de teclado e fraseados de guitarra, a música, é um irônico rock sobre o que é pop.

O infinito – Uma decolagem para algo mais pesado, um hard rock que tem em um momento, sua condução apenas executada por caixas sendo tocadas, instiga a reflexão: “olhe para cima, você será o universo”! última frase do disco.

www.sirvase.net perguntou

Hélio Pisca respondeu

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Adolfo Sá - Como começou seu envolvimento com o punk?

Silvio Karne Krua - Começou quando eu conheci Santana, em 73. Foi quando eu comecei a escutar o que se poderia chamar de rock, né? Foi em 79 que eu conheci bandas como Led Zeppelin, Black Sabbath... Porque era difícil ter loja por aqui que vendesse esse tipo de som, e quando vendiam era praticamente só os ícones do rock, The Who, Beatles... Aí na década de 80, junto com Vicente Coda, que participou da Karne Krua como guitarrista, a gente de tanto escutar, chegou um dia que falamos: ‘Cara, não! Não quero só ouvir! EU QUERO FAZER!’ A gente gostava tanto que passou a querer viver isso, né, cara? Daí eu formei com ele a Sem Freio na Língua, que já era uma banda com uma proposta anárquica, não política, tipo: ‘Tarde de domingo/ paranóia no ar/ soco na televisão/ que não tem nada pra mostrar’... [risos] Uma coisa do punk descompromissado, né? A Karne Krua se formou mesmo em 85, com um conteúdo anárquico e libertário, depois que eu comecei a ler os livros de Bakunin, Malatesta, material anarquista mesmo. E daí em diante não parou mais.

AS - O que existia de punk em Aracaju, nessa época?

SKK - Nada! Éramos quatro caras que tocavam numa banda e saíam pela rua com um carro de polícia acompanhando o tempo todo. Márlio usava coturno, eu usava soqueira e arrebite... Não no sentido de guerrear, era mais um visual. A gente sempre ficava perambulando, quando encontrava alguém com uma camisa de banda chamava pra conversar... [risos] Era uma coisa raríssima um cara com uma camisa de rock! Era como quatro pessoas perdidas numa floresta que acharam uma pessoa que tava ligada ao mundo, né? Às vezes não era tão ligada quanto a gente, mas a gente achava que aquela pessoa, por estar usando uma camisa do Led Zeppelin, do Sex Pistols, tinha uma conexão. Porque só existia a banda, mesmo. Naquela época éramos radicais, eu posso te mostrar material onde toda a postura da banda era radical, como é até hoje. Meu posicionamento não mudou, apenas adicionamos muito mais coisas... Hoje ao discursar eu tomo o maior cuidado com o que vou falar no microfone, talvez antes eu não tivesse tanto cuidado. Não me arrependo de nada do que falei, mas hoje quando a gente tá fazendo um show pra uma garotada eu quero passar um negócio bom pra aquelas pessoas, pra que elas passem uma idéia positiva depois, não uma coisa deturpada.

AS - Como você vê o movimento punk hoje em dia?

SKK - Hoje tem o movimento de consciência punk, que na década de 90 funcionou mais até, a gente via muito isso em São Paulo. Havia reuniões de pessoas que gostavam do movimento punk de uma maneira mais abrangente. Aí, cada vez mais a coisa foi fixando segmentada, apareceram revistas, aparecem os anarco-punks, apareceu não-sei-o-que-mais-lá... Ninguém sabe, um monte de siglas que só fazem fragmentar mais a coisa. Hoje você vai numa reunião, é uma coisa fechada, que determina o que você tem que fazer, porque você é punk, ou você não é... Acho que isso não é legal. Se você tem uma verdade, você pode mostrar. Porque não tem mais nenhum sistema militar oprimindo ninguém. Você pode chegar nas praças, fazer suas faixas, fazer seu protesto. Mas, porra, procurar a clausura? Ficar fechado dentro do próprio movimento punk? É só divergências, brigas, fofoquinhas... Já houve eventos em que, ao invés de se debater algum assunto interessante, socialmente, foram fazer lista de bandas a serem boicotadas!

Quer dizer, esses caras que não fazem porra nenhuma, nem estão mais envolvidos com movimento punk, nem com música, nem nada, atrasaram o lado de um monte de bandas. Caras que hoje ficam em casa... Eu também tenho minha casa, eu sou pai de família, mas eu vivo em caminhos alternativos. Eu trabalho desde os 18 anos e até hoje não tenho carteira assinada... Então, como é que um ‘punk’ com carteira assinada pode vir me peitar? EU MANDO TOMAR NO CU! Digo: ‘você tá falando merda’. Porque a minha vida toda eu construí em função das minhas próprias forças. Tem muita contradição no punk. Tem muita gente burra, tem muita gente legal também. A maioria das pessoas que têm algo a dar mesmo, às vezes se afastam exatamente pelo sectarismo que rola, pela coisa fechada que é, e lhe digo mais, pela coisa emergencial que é – e não dura muito. São punks fogo-de-palha, que começam a querer radicalizar, criam inimigos... Isso é mesquinho, cara, isso não existe. Disso aí eu tou fora. Punk de carteirinha, eu tou fora.

AS - Você acha que falta ao brasileiro um espírito ‘guerrilheiro’?

SKK - Em todas as épocas, sempre apareceu alguém, algum grupo, pra levantar a bandeira dos oprimidos e lutar contra o sistema. No Brasil, eu noto um conformismo geral. Não sei se o país por ser tão grande dificulta a organização, mas a gente vê na América Latina as pessoas se manifestando na rua, seja na Colômbia seja na Argentina... A gente, que tem envolvimento com cultura libertária, com outros movimentos, a gente sente isso, no Brasil a gente vê tantas falcatruas... Se botassem uma bomba lá em Brasília e explodisse um gabinete daqueles, num instante nego ia parar de roubar. Mas nada acontece, né? Eu não tou fazendo uma apologia à violência, mas tou me referindo ao conformismo das pessoas e à tranqüilidade das autoridades, que fazem o que querem, roubam, é comprovado que roubaram, e nada acontece. É uma coisa que você vê que realmente é o povo que dá margem pra que façam isso com ele.

VLB - Você vota?

SKK - Sempre votei. Mas desde que comecei a votar, só votei nulo.

http://vivalabrasa.blogspot.com/

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Unabomber Files - Buried in my bunker
Vicente Coda - Bukowski

Alice in chains - Down in a hole
Sonic Youth - Shoot
Faith No More - War Pigs

The pains of being pure at heart - Heart in your heartbreak
Lana Del Rey - Video games
( Drop Loaded )

Mopho - pessoas são de vidro
Anjo Gabriel - Sunshine in outer space

Invasores de Cérebro - 111 escombros
Karne Krua - Suicídio

Entrevista com Pedro De Luna, +
Blocos produzido por Pedro De Luna:

Dead Fish - Molotov

Social Distortion - Prison Bond
The Funk Fuckers - Na testa
Sex Noise - Franzino Costela
Kamundjangos - sopa de jornal

terça-feira, 8 de novembro de 2011

12/nov., no Capitão Cook

Um pub, duas bandas locais e um escritor carioca. Essa receita que mistura blues, rock sergipano e literatura underground acontecerá no próximo dia 12 de novembro, sábado, a partir das 23h, próximo ao farol da Coroa do Meio.

A Maria Scombona, depois de 15 anos de atividades, dois CDs lançados e shows por todo o país, além de projetos como “Mundo Rock Interior” e “Maria Scombona Convida”, deu um tempo para preparar o terceiro disco, que sairá até o fim do ano nos formatos vinil, CD e mp3 e se chamará “unnu”. A banda tem retornado os palcos gradativamente e lança um aperitivo do novo trabalho – um single virtual com as faixas “Mundo Interior” e “Super Zé”. O show trará um mix dos 3 discos do grupo liderado pelo compositor Henrique Teles, além de uma Jam session com os integrantes da Máquina Blues.

A Máquina Blues é a segunda atração da noite, contando com o carisma de seu frontman Silvio Campos (fundador da Karne Krua e um dos precursores do rock em Sergipe) e composições muito bem resolvidas que fundem a música do Nordeste brasileiro com a sonoridade característica do Mississipi. O grupo costuma também resgatar clássicos de John Lee Hooker, Celso Blues Boy, Muddy Waters e outros bluesman, em versões carregadas de lirismo e energia.

O carioca Pedro de Luna é gestor cultural e escritor, e desde que lançou seu primeiro livro, “Niterói Rock Underground (1990-2010)”, tem percorrido o Brasil divulgando e vendendo o trabalho em shows, livrarias e lojas de discos. A obra retrata fielmente duas décadas da cena independente brasileira, suas transformações tecnológicas, sociais e econômicas: da fita-cassete ao mp3, do correio e fax às redes sociais, a análise é feita cronologicamente por quem viveu de perto e intensamente todo esse processo. É a segunda vez que o escritor vem a Sergipe (cobriu o festival Rock-SE em 1998), e o mesmo estará vendendo e autografando o livro pessoalmente no Capitão Cook.

SERVIÇO:

Show com Maria Scombona – Lançamento do single virtual – e Máquina Blues
Lançamento do livro “Niterói Rock Underground (1990-2010)”, de Pedro de Luna (RJ)
12 de Novembro (Sábado), 23h, no Capitão Cook.
R$ 10

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

# 204 - 05/11/2011

Desde que eu comecei a me interessar mais a fundo e a ler sobre musica acompanho um movimento contínuo: os críticos tentando emplacar e os músicos fugir dos rótulos. Ambos com suas justificativas: os primeiros pela necessidade de definir para melhor comunicar, os segundos, buscando escapar das limitações e amarras. Foi assim também com tudo o que veio depois do furacão punk, num movimento renovador a principio denominado genericamente como pos-punk, para logo em seguida se ramificar em infinitas variações como new wave, new romantic, synthpop, industrial, cold wave, gótico, dark wave ou simplesmente “dark”, termo que foi comum por um certo período no Brasil para denominar toda a musica, digamos, “triste”, que fosse ligado ao rock.

Nosso bloco de “rock triste” do programa de rock de sábado começou com “Valsa da lua”, do Silverblood, faixa “espacial” e climática retirada do disco “imperfection”, lançado em 1995 pela Cri Du Chat, selo independente brasileiro especializado em música eletrônica. Silverblood era um duo formado em Juiz de Fora, Minas Gerais, por Paulo Beto (programações) e Ana Claudia Romano (vocais) e seu trabalho sofria forte influencia dos quadrinhos, notadamente do Sandman de Neil Gayman.

Do underground dos anos 90 fizemos um salto regressivo rumo ao “quase mainstrean” dos 80, época em que o rock brasileiro era a musica que tocava nas rádios graças a nomes como RPM, Titãs e Legião Urbana, de Brasília. Foi lá, na capital federal, que surgiu o Arte no Escuro, mais uma daquelas apostas abortadas de majors em grupos que se destacam na cena independente. Tinha nos vocais Marielle, ex Escola de Escândalo e posteriormente vocalista do Volkana, banda de thrash metal feminina. Seu disco foi lançado pela EMI em 1988. Não foi “sucesso”, mas tornou-se “cult”.

Também de 1988 é o segundo LP do Hojerizah, “pele”. A banda foi formada em 1983, no Rio de Janeiro, por Toni Platão, Flávio Murrah , Marcelo Larrosa e Álvaro Albuquerque e alcançou sucesso nacional com a música “pros que estão em casa”. Nunca “estouraram”, mas ocuparam pelo tempo em que existiram o posto de banda mais promissora do chamado “segundo escalão” do rock brasileiro daquela década. Toni Platão segue em carreira solo, tendo cantado recentemente no Tributo ao Legião Urbana realizado no Rock in rio, quando deixou evidente, pelo menos para mim, que se tem alguém com cacife para substituir Renato Russo numa hipotética e altamente improvável volta da banda brasiliense, seria ele. De quebra, ainda fez uma justa e decente homenagem a Redson, do Cólera, então recém- falecido.

Encerrando o bloco, duas faixas de bandas obscuras: Ocaso, de Duque de Caxias, baixada fluminense, e Pompas Fúnebres, de Brasília. Esta última, mesmo com uma técnica sofrível e não tendo gravado nenhum disco, apenas uma demo em k7 de 1990, adquiriu status de “Cult” na cena gótica nacional.

Estes e outros grupos, mais ou menos conhecidos, podem ser ouvidos na impressionante coletânea “under the southern Sun”, compilada pelo produtor musical Raniere Santana, que você encontra clicando aqui - http://musicaindiebr.blogspot.com/2008/06/under-southern-sun-chronology-of-post.html

O programa começou com um passeio pelos Estados Unidos da América através do Hard Core/crossover e terminou com uma imersão no disco “The Dark Side of the moon”, do Pink Floyd, que acaba de ser relançado em diversas versões, dentre elas uma chamada, justamente, “immersion”. Tocamos uma versão demo de “Money” gravada por Roger Waters com apenas um violão, duas faixas inéditas nunca antes lançadas oficialmente pela banda e algumas retiradas de um mix anterior do disco, de 1972, com curiosidades como os primeiros improvisos do saxofonista Dick Parry em “Us and then” e a ausência dos vocais de Clare Torry em “The Great gig in the Sky”.

No recheio, novidades do Autoramas, do Eddie, de Karina Buhr e dos sergipanos da Maria Scombona, que se preparam para lançar seu terceiro disco em vinil prensado na republica checa! “Mundo interior” é uma homenagem aos nomes de povoados da Terra Serigy, como Pé do veado e Cruz da Donzela.

Semana que vem tem mais.

A.

# # #

Minor Threat - Filler
Cryptic Slaughter - Money Talks
DRI - Acid Rain
Agnostic Front - We want the truth
Suicidal Tendencies - How will I laugh tomorrow

EQM - Outros dias

Pez - introducciondeclaracionadivinanza
Pez - Latigazo
( Drop Loaded )

Karina Buhr - Cara palavra
Autoramas - Abstrai
Eddie - Veraneio
Maria Scombona - Mundo interior

Morrissey - People are the same everywhere
Crove Horrorshow - Sem grana

Silverblood - Valsa da lua
Arte no escuro - Beije-me cowboy
Hojerizah - A pele
Ocaso - Somnium
Pompas Fúnebres - Ulalume

Pink Floyd - "The Dark Side of the moom immersion"
# The Hardway (Household objects project)
# The Travel sequence (previously unreleased)
# Money (Roger Waters demo)
# The Great gig in the sky (Early mix 1972)
# Us and then (Early mix 1972)
# Any colour you like (Early mix 1972)
# Brain Damage (Early mix 1972)
# Eclipse (Early mix 1972)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

# 203 - 29/10/2011

Sublevação é uma das bandas de Hardcore mais antigas de Aracaju. Foi fundada em 1992. Esteve parada por 5 ou 6 anos, aproximadamente, e voltou aos palcos no último sábado, durante o Primeiro Rock Underground de Socorro, realizado no Conjunto João Alves Filho, no municipio de Nossa Senhora do Socorro, que fica na região metropolitana de Aracaju. Periferia, meus caros. É sempre legal ver o rock ocupando espaços ainda não explorados, e o clima da noite me lembrou os tempos heróicos dos anos 80 e inicio da década de 90, quando as coisas eram mais difíceis e, talvez por isso mesmo, as pessoas pareciam menos acomodadas.

Fui lá especialmente para ver o show de retorno dos veteranos - sem querer desmerecer os demais participantes, evidentemente: é que eu estava meio "dopado" por uns remedios que tive de tomar por causa de uma crise de asma pela manhã e por isso indisposto para seguir no rock madugada adentro. Foi bem legal.
Silvio, da Karne krua, que está na nova formação, tem um estilo bem caracteristico de tocar guitarra e deu um um "mojo" diferente ao som dos caras. Gostei muito das musicas novas, com uma estrutura ritmica melhor trabalhada e letras mais "maduras". E a resposta do publico também foi ótima, com a molecada agitando muito ao lado dos veteranos resistentes remanescentes. Destaque para o "camarote" de Cana Brava (o maluco sentou numa cadeira no meio do pogo!) e pra um figura lá que estava dando chineladas na galera que agitava. "Doidjera".

Já o programa de rock foi aberto com a faixa título do mais novo disco do Lock UP e mais algumas extraídas da trilha sonora do já clássco deocumentário "Metal, e Headbangers Joruney", de Sam Dunn. Seguimos comemorando os 10 anos do primeiro EP dos Strokes, "The Modern Age", e mais: Los Porongas, do Acre, em uma edição especial do Drop Loaded, e uma entrevista ao vivo com Alapada, banda local que está lançando seu terceiro disco. Depois de duas novidades vindas diretamente do Recife, rolamos uma faixa de um compacto que o John Spencer Blues Explosion lançou em "split" com o Melvins. O disquinho, lançado pela lendária gravadora Anphetamine reptile, traz dois covers para a mesma musica, "Black Betty", de Leadbelly. Está fora de catálogo, mas você pode fazer o download dele aqui, no Blog "Canço! I Hate rock and roll, de nosso camarada Maicon "Stooge".

Finalizando, mais um "Bloco do ouvinte".

# # #

Lock up - Necropolis Transparent
Arch Enemy - Silent Wars
Cannibal Corpse - Decency Defied
Children of Bodon - Needled
Enslaved - Havenless

The Strokes, 10 anos do EP "The Modern Age"
# The Modern Age
# last nite
# Barely legal

Drop Loaded Edição Especial
# Los Porongas

Alapada - Zidane
+ Entrevista

Mundo Livre S/A - A Fumaça do pajé Miti Subitxxiii
Z-Man.NE - Caminho das cores

The John Spencer Blues Explosion - Black Betty

Porcas Borboletas - Menos
Instiga - Sabiá
Nomads & Skaetera - Kangourou nomade
Stevie Ray Vaughan - Testify
Superchunk - untied
- por
Alan Bidu Silva

"Bonus" Tracks:
# Sublevação
# Logorreia

terça-feira, 25 de outubro de 2011

(*) Leonardo Panço, testemunha ocular da escória

A primeira coisa que eu tenho para falar sobre o novo/velho (porque na verdade foi o primeiro que ele escreveu, apenas demorou “um pouco” – mais de uma década! – para lançar) livro de Leonardo Panço é que ele é cheiroso. Sim, cheiroso! Pra quem gosta de cheiro de tinta impressa em papel, claro. Eu gosto. Muito. Especialmente se o impresso for novo – e este é, está lá, na abertura: 1ª. Edição, outubro de 2011.

Gosto de sentir o cheiro dos livros, sempre gostei. Porque ? Não sei. Só sei que é assim, e na internet não é assim, embora imagine que qualquer dia inventam, também, a internet com cheiro. Deve ser amor, pois sempre cheirei os livros que lia, às vezes em público, para a surpresa dos desavisados, como Adolfo Sá no dia do lançamento do “Esporro” aqui em Aracaju. Dito isto, digo mais: o livro é bonito. Não sei se é gostoso, porque não como livros. Não com a boca, pelo menos. Com os olhos, talvez. A capa é ótima, a encadernação é boa e as páginas, ricamente ilustradas com inúmeras fotos e reproduções de cartazes de shows, fluem com facilidade ao serem manuseadas.

Agora o conteúdo: é divertido. Muito divertido. O que esperar, afinal, de um livro que se propõe a contar historias do underground carioca da primeira metade dos anos 90, principalmente, quando algumas das mais insanas formações do rock brazuca, como Gangrena Gasosa, Zumbi do Mato, Piu Piu e sua banda e chatos e chatolins estavam em plena atividade e com seus membros na fina flor da juventude descompromissada ? Loucura total, claro!

Temos encontros inusitados, por exemplo: você sabia que o Fugazi, uma das mais sérias (sério mesmo) e respeitadas bandas de rock alternativo do mundo, já tocou com a Gangrena Gasosa num pico suburbano tosco da baixada fluminense? E se eu te disser que houve um encontro pra lá de bizarro entre membros das duas “agremiações” no banheiro do local do show? Pois aconteceu, e está lá, contado em detalhes. Assim como estão inúmeros outros episódios curiosos e pitorescos, como a quase prisão dos membros do zumbi do mato por estarem cheirando balas garoto, os bastidores da entrevista da Gangrena (campeões de insanidade) no programa do Jô Soares, as tentativas de estupro e de shows pirotécnicos dos Chatos e Chatolins e as loucuras de Piu Piu, famoso por tocar fogo no próprio corpo e broxar recebendo um boquete em pleno palco – tudo isso e mais os perrengues comuns pelos quais todos, sem exceção, já passaram, e com os quais qualquer pessoa que já tenha se aventurado por um momento que seja no mundo do rock independente e alternativo vai se identificar.

Porque nem tudo é loucura total, claro – há algumas passagens bem ingênuas até. Mas tudo junto forma um impressionante mosaico e acaba ajudando, e muito, a contar uma história: a história de uma cena que fez história, para além dos que se projetaram na mídia, como o Planet Hemp, principalmente. Os que ficaram pelo caminho, como Poindexter, Soutien Xiita, Anarchy Solid Sound e Sex Noise, deixaram também um legado valioso que merece ser resgatado, e este livro o faz com louvor. Isto pra não mencionar os que continuam por aí, existindo e insistindo, como a Gangrena, o Zumbi e o próprio Jason, banda posterior do autor, que segue firme em nova formação preparando um novo disco.

O painel é, inclusive, bem mais amplo do que Panço deixa entender nas entrevistas, com suas compreensíveis ressalvas de que seu relato é incompleto. Está quase tudo lá – o que de mais relevante aconteceu no cenário da época está, senão esmiuçado, pelo menos citado, sempre. E satisfatoriamente retratadas estão as carreiras de inúmeras bandas, produtores, personalidades e casas de espetáculo: além das já citadas, temos pequenas biografias dos Beach Lizards, do Dash, de Simone e do Formigão, do Funk Fuckers, do B. Negão, de Skunk e Marcelo D2, do Cabeça, da coletânea paredão, lançada pela “major” EMI, do Garage, o “templo” de todos, e de Fabio, dono do Garage, de quem são, apropriadamente, algumas das últimas palavras escritas no livro.

Missão cumprida, Leonardo Panço. Pode descansar.

Sei que não ...

por Adelvan

Foto: Mauro Pimentel

* Expressão “ixpierta” cunhada por Adolfo Sá em seu blog, de onde surrupiei também a entrevista abaixo:

VLB - Quando eu te conheci vc tinha uma banda e dois zines. O que veio primeiro, a roqueiragem ou o zinismo?

LP - O rock, sempre. Sempre tive um único sonho, que foi o de ser guitarrista de uma banda de rock. Todas as outras coisas vieram depois, ao acaso, com o passar do tempo eu fui viajando em outras paradas, desenvolvendo novas ideias, e daí vieram os zines, os livros, a gravadora, as turnês de banda e livro, e tudo mais.

VLB - Pra quem não conheceu, poderíamos dizer que se a Soutien Xiita fosse uma pizza seria uma grande 3 sabores: Anthrax, Pantera e Faith No More?

LP - Acho que o Cabelada diria que faltou um Red Hot aí e eu diria que faltou Cólera, Replicantes e Garotos Podres em alguns momentos. Mas principalmente FNM e Pantera total. Anthrax também, mas acho que menos.

VLB - Vc trampava na EMI qdo nos conhecemos, tava no projeto PAREDÃO. Continuou lá depois que a coletânea saiu?

LP - Enquanto o PAREDÃO foi divulgado, eu estava lá sim, inclusive a festa de Curitiba eu ajudei com toques, a do Rio também, eles me consultavam para saber o que seria melhor, etc. Fui estagiário da EMI por pouco mais de um ano e hoje vejo que não deveria ter saído. Eu ficava ouvindo fitas demo o dia todo, de tudo que é estilo, e tentava indicar ao pai do Rafael o que eu gostava. Mas não sei identificar um pagode bom, um axé bom, e achava chato ficar lá fazendo aquilo. Saí da EMI porque me achava meio inútil lá.

VLB - Foi daí que vc e o Rafael começaram a Tamborete?

LP - Comecei a Tamborete com o Rafael nessa época e acho que teria dado para conciliar as duas coisas por um tempo, principalmente por causa do dinheiro que eu recebia e fazia muita falta.

VLB - Falando no Rafael, quando vcs e os 2 do Poindexter montaram o Jason, foi tipo uma superbanda do underground carioca né? Só figura carimbada... Vcs tinham essa idéia qdo começaram a tocar juntos?

LP - A ideia era fazer uma coisa que a gente não vinha conseguindo fazer nas nossas três bandas (apesar de que eu acho que o Soutien já tinha acabado), que era não se aborrecer, não ter pessoas que faltassem aos ensaios, que não fossem aos shows, e acima de tudo, fazer músicas de maneira mais rápida, sem muita firula. Então criamos uma regra de cada um levar as músicas prontas e o Flock levou o caderninho com letras, tanto que 'Marra de Cão' é 100% igual agora a primeira vez em que ela foi tocada. Tudo muito simples e rápido. Mas não tínhamos ideia de ser uma superbanda não. Essa é o Superheavy de Jagger, Marley, Stone...

VLB - O Soutien durou quase 10 anos, mas viajou pouco, tocou em poucos festivais e só lançou 1 disco, depois de muitas demos. Já c/ o Jason foi o contrário, as coisas sempre aconteceram mais rápido: discos, viagens e sei lá, festivais?! Além de vcs estarem mais experientes e espertos, a banda nova tinha um esquema mais redondinho que funcionava melhor?

LP - Se a gente pensar direitinho, o Soutien praticamente só durou 2 anos, que foram 92 e 93. Nesses anos a gente compôs acho que 99% das músicas que entraram no CD, foi quando não mudamos de formação, conseguimos tocar mais, etc. Depois o que eu considero foi o ano que tivemos com Pedro e Melvin na bateria e baixo. Tocamos em SP, interior, PR, SC, na Expo Alternative em 96. Em 99 a gente voltou com a formação das antigas para uns 4 ensaios e a gravação do disco, e encerramos para sempre no show de lançamento. Já realmente com o Jason foi ao contrário, porque as coisas eram mais diretas, cada um tinha uma área de atuação mais clara, Rafael na produção, eu nos shows, Flock com a arte, e toda semana tinha ensaio, a gente criava em casa, levava coisas prontas, era tudo mais interessante e produtivo. Depois coloquei pilha para começarmos a viajar e por aí foi.

VLB - O disco de estréia do Jason, ODEIA EU, é puro hardcore e só tem hit! Depois a banda seguiu numa direção mais... new metal? C/ umas letras mais... abstratas? Se bem que o REGRESSÃO tem uns HC nervosão...
LP - Eu ainda acho que o segundo é parecido com o disco de estreia de certo modo. Ele ainda é bem direto, as letras são mais diretas. Mas o terceiro realmente é bem mais viajante, rolou uma outra época na vida de todo mundo, é normal. E mais viagem ainda é a leva que gerou um CD split lá na Europa, com o Glerm (ex-Boi Mamão) no vocal. Capaz que nestas músicas estão minhas melhores guitarras, que inclusive gravei no nordeste, com a produção de Marcelo Gomão (Vamoz), na minha modesta opinião, um dos três melhores guitarristas do Brasil, sendo que diria o de melhor gosto.

VLB - Vcs fizeram mais alguma tour européia além da que tá no livro JASON 2001?

LP - Fizemos sim. Em 2003 foram 26 shows em 4 países. Tivemos um problema com o Glerm, ele teve que voltar para o Brasil, e perdemos uns 3 ou 4 shows e fizemos 19 como um trio. Em 2006 voltamos para 38 concertos em uns 6 países, eu acho.

VLB - Tocaram pela América do Sul tb?

LP - A gente esteve prestes a ir duas vezes, mas não aconteceu. Hoje eu vejo que foi melhor, seria muito mambembe e traria complicações muito maiores que os êxitos.

VLB - Esse livro que eu citei já tem 10 anos. Qdo vc tocou pela 1ª vez na Europa, uma coisa que te chamou atenção foi o esquema profissa c/ que os squats funcionam lá e a infra que as bandas têm, tipo vans, amps delas mesmas. Vc disse que ainda faltava muito pro Brasil chegar nesse nível. E agora, falta quanto?

LP - Agora a gente está diferente de uma maneira muito melhor, mas acho que nunca vamos ser como eles, porque nós somos nós, não eles. Acho que nunca vamos ter tantos squats como eles, nem tantos centros culturais, nem vans, etc. Seria legal que as bandas tivessem seus próprios amps, isso ainda acho que é viável, e que vamos ter ainda. Mas estamos melhorando.

VLB - Quais foram os shows mais memoráveis da sua vida? Quais as bandas c/ quem vc mais gostou de tocar junto na mesma noite?

LP - Pô, são quase 500 shows, difícil lembrar de tudo. Poderia falar de um monte, mas vou falar do mais emocionante na minha opinião. Provavelmente os outros têm outras opiniões. A gente passou por dificuldades gigantes, muito complexas mesmo, na tour de 2003 na Europa, coisas que o próprio Glerm explicou no blog dele na época. E numa segunda-feira tivemos que viajar uns 600km pra ir levar ele ao aeroporto de Frankfurt para ele voltar ao Brasil, foi tudo muito difícil. Tínhamos show nesse dia na Alemanha e ligamos para o promotor para dizer que a gente tava longe para caralho e não daria para chegar, uma segunda, já era tarde, etc. Isso com a gente já na estrada. Daí o cara falou 'mete bronca, vem para cá, que ninguém vai embora enquanto vocês não chegarem'. Marcelo meteu 190 na van e chegamos lá quase 11 da noite. Tinha umas 50 pessoas esperando, a gente fez o show como trio, sem saber nem quais músicas tocar, o que fazer, e foi fuderoso. As pessoas gritaram, deram muita força, pediram bis, mosh, pogo. Para mim é o meu dia mais emocionante.

VLB - Qdo vcs vieram tocar em Aracaju em 98, numa festa que eu tava ajudando a organizar, tu colecionava credenciais e o Flock cartões telefônicos [!!!]... Continuam as coleções?

LP - Eu não, Flock também não creio. Na verdade não sei se era uma coleção exatamente, mas eu guardava todas as credenciais. Na verdade guardo até hoje, mas agora não tenho mais credenciais. Era uma época em que eu estava muito mais envolvido com o show business, eu acho. Ia nas festas, recebia convites para festivais, ganhava camisetas, discos, as pessoas queriam que eu estivesse por lá por causa de reflexos da EMI, do começo da Tamborete, etc. Em algum momento da minha vida eu fiquei de saco cheio disso e me afastei um pouco, comecei a achar tudo chato, e na real, hoje acho que ainda acho, pouco apareço nos shows, eventos, a não ser que tenha bebida e comida liberada, aí dependendo do que for, eu até vou. Então não ganho mais muitas credenciais, ainda mais agora sem tocar no Jason, né.

VLB - Por que vc saiu do Jason e aposentou a guitarra?

LP - São mil motivos, mil razões, etc, mas acho que dá para resumir no último ensaio que eu fui. Não sei o que toquei, estava achando um saco estar ali, não via a hora de ir embora fazer o que eu tinha marcado para logo depois, não queria estar lá, simples assim. Acho que foi aos poucos, mas fui me enchendo de tocar, de pegar ônibus para ensaiar, uma outra fase na vida mesmo. Mas a guitarra eu sigo tocando em casa todos os dias de brincadeira, como deveria ser na verdade, sem obrigação. Quem sabe sai alguma música ali e eu dou para alguém gravar...

VLB - Vc manteve todas as suas guitarras?

LP - Eu sou, guardadas algumas proporções, como Tony Iommi do Black Sabbath. Um marshall, uma palheta, uma correia, um cabo e uma Gibson SG. Ele tem a vantagem de ter um dedo de metal e tocar mais pesado que eu. :) Mas é o que digo acima, toco todos os dias um pouquinho. Mas só tenho essa guitarra agora. A Finch Les Paul vendi quando estava sem emprego e a Washburn que usei para gravar o ODEIA EU, dei de presente para o filho da minha prima, o Matheus. Ele tinha três anos, agora cinco, e eu vi o talento dele com duas colheres de pau num tamborete, incrível mesmo. Daí minha prima disse que ele ficava brincando de raquete de tênis como se fosse uma guitarra e peguei a minha e dei de presente para ele. Ele surtou: 'Minha guirrata, minha guirrata!'... Acho que foi bem feito e espero que ele aproveite bastante.

VLB - Mesmo assim vc e os caras continuam parceirões né. O Flock fez a arte do livro novo e os cartazes da tour...

LP - Olha, para ser sincero, minha relação com o Marcelo sempre foi 100% ligada ao Jason, é possível contar nos dedos de uma única mão as vezes que nos vimos fora de algo relacionado à banda. Acho que temos uma relação boa, mas distante. Capaz que a gente é meio parecido, de ficar muito em casa, fazendo suas coisas, etc. O Vital não vejo desde janeiro e nem falei mais. Acredito que não haja nenhum problema, mas também a vida acaba levando cada um para lados diferentes. É uma cidade muito grande, temos empregos que já nos colocam muito ocupados e geograficamente distantes. Para ser sincero, acho que vejo poucas pessoas, sem ser as que trabalham comigo no dia-a-dia. Flock realmente eu encontrei agora para as coisas do ESPORRO e nos falamos bastante para resolver tudo da edição do livro, tomar milhões de decisões juntos. As fotos de divulgação foram feitas na minha casa. Aquela parede grafitada é a minha sala, que ele pintou na festa do meu aniversário de 2009. Não pude ir na exposição dele porque saio 22h do trabalho e não era compatível com os horários do café onde ele estava expondo.

VLB - Panço, essa sua tour de lançamento do ESPORRO é um negócio meio inédito no Brasil, mas nem tanto. Vc mesmo já tinha feito coisa parecida em 2009 qdo lançou o CARAS DESSA IDADE NÃO LÊEM MANUAIS...

LP - Tenho para mim que não é inédito porque eu mesmo inventei de fazer uma outra do segundo livro em 2008/2009, isso é mais comum nos EUA, acho que até na Europa não se faz muito, para ser honesto não sei. Sei que na 'América' é comum.

VLB - E agora, já passou por quantas cidades?
LP - Já lancei em Curitiba, Joinville, São José, Florianópolis, Porto Alegre, Campo Bom, Sapiranga, Sapucaia do Sul, Salvador, Aracaju, Maceió, Recife, João Pessoa e Natal. Agora tenho dois eventos em SP, Bauru, São Carlos, Bragança Paulista e Campinas. Daí volto para casa e estou fechando Rio, Nova Iguaçu, Resende e Volta Redonda, todas cidades no RJ. Espero que novos convites cheguem.

VLB - Quais as noitadas mais legais da tour até agora?

LP - Tenho uma noite preferida, mas não falaria qual é, soaria deselegante com as outras.

VLB - O livro tem vendido bem? Vale a pena esse esquema de pegar a estrada p/ lançar livro?

LP - Se vale a pena ou não, é sempre uma discussão grande. Se você vende 15 livros em uma cidade do outro lado do Brasil, pode achar que não foi grande coisa, e eu particularmente, acho pouco, mas as pessoas com quem eu converso dizem que foi bom. Eu sigo achando que poderia ser melhor, mas já é claramente melhor que a tour anterior.

VLB - Cara, as histórias do Gangrena Gasosa são as mais insanas do ESPORRO, terrorismo total. Ficou alguma coisa de fora, tipo impublicável?

LP - Ficou sim. Eu achei que hoje em dia algumas coisas não valem mais a pena, o povo tem filhos, empregos, casamentos. Não exatamente da Gangrena, mas no geral, espero ter tirado o que não cabia ali. Só se eu tivesse uma editora grande, que assumisse possíveis processos.

VLB - Por que o Fumê, vocalista mais louco do Zumbi do Mato, passa meio batido no livro? Não descolou nenhuma foto dele?

LP - Nunca vi um show do Zumbi com o Fumê, de repente pode ter sido um erro meu, mas não cogitei entrevistar ele, nem nunca falei com ele na verdade. Acho a gravação da demo com ele absolutamente genial, um espetáculo do mundo moderno, mas no final das contas não falei com ele.

VLB - Eu conheci ele em 96, de moicano e jaqueta de couro distribuindo sopa pros mendigos no centro. Só gosto do Zumbi do Mato c/ o Fumê, c/ o Löis é mais cabeça, o cara é músico, universitário, e o Fumê era mais demente, quando ele cantava “vai chupar cocô pra ver disco voador” vc sentia que o negócio era mais ameaçador... e engraçado! A última notícia que eu tive foi de um cartaz anarco-punk que é a foto dele beijando um cara, essa poderia entrar no livro hahah...

LP - Ele beijando um cara? Seria só mais um cara beijando outro cara, não há nada demais nisso.

VLB - Adelvan me falou que uma vez levou o Jason inteiro pra um puteiro aqui de Aracaju depois de um show de vcs...

LP - Já fui em puteiro com Adelvan umas duas vezes, eu acho, e essa noite a que ele se refere foi muito divertida. Um senhor, que era professor de uma Universidade do SE, ficou pelado e brochou. Foram horas divertidas e de cerveja barata, mas nada de conjunção carnal.

VLB - Vc é autêntico carioca suburbano... As zonas norte e oeste são tipo um outro Rio, comparadas à zona sul e Barra né. Como se fosse outra cidade. Eu nunca fui na sua casa, então diz aí: a Vila da Penha é legal de se morar? É sossegada ou rola aquelas fitas de tiroteio e tals?
LP - Eu acho tranquilaço de morar na Vila da Penha, é onde eu nasci e cresci e onde morei a vida inteira. Tem tiroteios de vez em quando, já caiu bala no meu quintal, mas eu sigo lá e gosto no geral. A parte ruim é ser tão longe do trabalho, na Barra da Tijuca. São quatro ônibus por dia, 90km ida e volta, 3h perdidas. Mas para eu sair de lá, numa casa com meus cachorros, árvores, etc, e ir morar mais perto, teria que morar num quitinete apertado, pagar aluguel, jogar meus cachorros nas ruas, de onde eles vieram, não faz muito meu estilo.

VLB - Vc trabalhou um tempo no globoesporte.com e agora tá na globo.com. Qual sua função e como vc começou a trabalhar lá?
LP - Fiquei 7 meses no globoesporte.com como TR, que é o mocambo que narra os jogos de futebol escrevendo, uma tortura chinesa. Além disso era redator quando não tinha jogos. Me demiti e fui para a Europa de bobeira por três meses. Longa história. Depois voltei para um contrato de quatro meses para o amador, ou seja, todos os esportes que não futebol. Era só um apoio para as Olimpíadas. Agora já estou há 3 anos como um dos editores da home, do portal da globo.com. Agora sim eu gosto, acho mais divertido, não precisa ver jogos de futebol o tempo todo. Apesar de entender, mais ou menos gostar, ter um time (Vasco), não gosto de ver jogos de futebol, muito menos por obrigação.

VLB - A Tamborete é um selo que começou como gravadora mas hj tb funciona como editora. Qual o futuro que vc vê pro mercado de música?

LP - Acho que a tendência é cada vez ser tudo mais gratuito do que já é agora, não creio que os CDs resistam por muito mais tempo. Ainda tem amantes do formato físico, pessoas que gostam de vinis também, mas as novas gerações não dão a mínima no geral.

VLB - E a cena do RJ, como tá hoje?

LP - Acho que está como sempre esteve, mas para ser sincero eu mal frequento shows, não conheço as bandas novas, não apareço muito nos lugares. Nova geração, seja bem-vinda.

VLB - A pergunta que não quer calar: O que é o 'meneghetti'?

LP - Essa só o Claudio do Soutien Xiita pode responder, já que ele é o criador.

por Adolfo Sá

Viva la brasa

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

# 202 - 22/10/2011

Rock “pauleira” com vocais femininos - foi assim que começamos o programa de rock do último sábado. 3 bandas com riffs pesados e 3 musas ocupando o front: Madame Saatan, de Belém do Pará, e Shadowside e No Sense, ambas de Santos, São Paulo. E já que estávamos por lá, pela baixada, fizemos um passeio pelos projetos do também santista Hansenharryebm, um pioneiro da mistura do rock com a eletrônica no Brasil. Dele, tocamos Harry, Bad Cock e H. A. R. R. Y. And the Addict.

Na segunda parte do programa, Lou Reed em dois tempos: “Pale blue eyes”, do Velvet Underground (valeu a lembrança, Priscila), e “Iced Honey”, uma das faixas mais “redondas”, quase pop, de “Lulu”, seu disco experimental com os veteranos do thrash metal do Metallica. Na sequencia, rock sergipano: "pare e repare", mais uma do celebrado disco da The Baggios; “sem grana” (com participação de Silvio, da Karne Krua), espécie de “hit” do rock alternativo sergipano dos anos 80 resgatado pela Crove Horrorshow em uma faixa inédita e exclusiva de um disco que já está gravado, dá uma geral na carreira da banda e tem previsão de lançamento para o ano que vem. Fechando o bloco, “100km com 1 sapato”, faixa-título da célebre primeira demo da banda lagartense lacertae, em nova versão do Cinemerne, projeto de Paulinho, o primeiro vocalista da banda, que eu reencontrei recentemente em Lagarto fazendo uma apresentação minimalista numa edição do “Ajuntatudo”, uma espécie de reunião cultural onde a juventude da cidade aproveita para beber, recitar poesias, tocar e ouvir musica.

Fechando o programa, um blocão “tapa-buraco” (a Reffer desmarcou uma entrevista) retirado a fórceps de nossos arquivos, com destaque para a Sublevação, banda histórica de hardcore que está para renascer das cinzas – vão tocar no próximo sábado em Nossa Senhora do Socorro depois de aproximadamente 5 anos parados. Estarei lá.

por Adelvan

Abaixo, uma belíssima resenha do disco do Cinemerne cometida por Patativa Moog no blog de sua banda, Madalena Moog.

HOJE, NO CIRCO: O FIM DO MUNDO!

Uma audição falada para o EP “Coisas belas e sujas”, do projeto Cinemerne

É um domingo, 13:20, e eu estou ouvindo, pela primeira vez – e praticamente em primeira-mão –, o EP “Coisas belas e sujas”, do projeto Cinemerne, encabeçado (e quase todo tocado e produzido) pelo sergipano (da cidade de Lagarto) e multi-instrumentista Paulo Henrique, ex-Lacertae (que ainda está na ativa). Nele, também Léo Airplane (tecladista da Plástico Lunar) põe sua assinatura, tocando vários instrumentos, fazendo arranjos e coproduzindo. Os dois são os culpados pelo resultado final. Cinemerne é o nome que, na língua dos utopianos (leia A Utopia, de Thomas Moore), significa “festa inicial”, celebrada nos primeiros e últimos dias dos meses lunares no ano revolucionário-solar.

É um domingo de ressaca, depois de uma sexta de estradas cruzadas e um sábado alcoolizado, e um resfriado mal vindo.

É um domingo e eu penso que, para falar sobre este trabalho incrivelmente bom do Paulinho, como os amigos mais próximos o chamam, eu precisava estar com a cabeça no lugar, e corpo também. Mas caio em mim e, “não!”, penso, “é justamente o contrário!” Por isso, continuo. Mas, antes, tenho que falar do sábado, que foi quando o amigo Jesuíno André me presenteou com um exemplar do referido EP.

“Pata, o Paulinho é um artista maravilhoso; e depois de muito tempo sem gravar alguma coisa voltou àtiva com este trabalho. Dá uma sacada e diz o que você achou.” Ele dizia, enquanto a gente deixava a tarde passar pela orla de Cabo Branco, entre uma cerveja, um ensopado de camarão e umas doses generosas de cachaça Serra Limpa.

E eis aqui o que eu acho:

As 5 canções de “Coisas belas e sujas” – nome de uma delas e também de um filme do diretor britânico Stephen Frears, lançado em 2010 – soam monocromáticas, monocórdicas e, por incrível que pareça, não deixam “a peteca cair”, mas mantêm-se como um enorme discurso poético-gritado, psicodélico-pirado, às vezes raivoso, às vezes delicioso, como no começo da música que dá nome ao projeto: “Uma flor se espreguiça ao sol, / Uma formiga carrega um grão. / Uma pobre mulher se sente só. / Um doente novamente se sente são. / E esses dias são tão tristes.” Trata-se, para quem sabe ouvir, de uma cadência experimental que, no que é possível, foge aos modelos estabelecidos, como fórmula para... Ouça-o inteiro, Helena; ouça-o inteiro.

Quem conhece P.H., sabe que que ele também já esteve assim: como a flor, a formiga, a mulher solitária, e o doente que fica bom. “Paulinho esteve ausente muito tempo, Pata; meio perdido em [...], e ele diz que foi a música que o salvou, lhe mantendo são...” São palavras de Jesuíno, falando de um amigo a outro amigo, sem juízos e sem clichês impressionantes, e a música aí, no meio da gente, no meio das conversas. Sim! Um bom delírio, às vezes, pode nos salvar da piração absoluta! E elas são muitas, e manifestam-se de muitas maneiras. E é por isso que, observando músicas e letras, começo a perceber que, sim – e somente o autor poderá dizer o contrário –, há muito da história de vida deste artista incrível, desse cara incrivelmente talentoso, mostrando seu mundo, suas referências, sua pródiga imaginação que voa mundo afora (China, Rússia, Atlântida, Índia, Alexandria, etc...), seus gostos pelo surrealismo multicolorido de Van Gogh, pela tensão imagética de Stephen Frears, que parece plastificar e amarrar todas as demais referências, como se, a não ser pela imaginação, não fosse coisa boa sair lá fora, onde está, o tempo todo “chovendo querosene”, e onde há “um idiota cantando na chuva... [e] esse aí sou eu...”, e que, por isso, e para ele, “hoje, no Circo, [poderá ser] o fim do mundo”. Quase todas as letras têm esse tom hora melancólico, hora sombrio, descrevendo imagens cinzentas (como o céu enegrecido pelos corvos que, na capa, desabam sobre o dourado trigal das/nas cores de Van Gogh), como quando se diz de “uma alma que sente suja”, ou “esse vazio que tanto insiste, como a solidão na vida deu um monge”, e, não por fim, quando é mencionada “uma criança que nunca sorriu”...

Não, não; melhor não! Melhor voltar atrás, fantasiar outros campos, pensar que “hoje não estou demente / [pensar que] a luz brilha no quarto / Vermelho sol poente / [pensar que] a tristeza tem fim / [pensar que] o dia sorri pra mim”. Sim, apesar de tudo, e por ser uma via catártica, a música, mesmo a mais triste e dolorosa, pode expurgar medos e raivas, desencantos e frustrações. A arte é, sim – e a música é sua mais acabada manifestação –, a grande saída contra o trágico que impera no mundo. E P. H. sabe disso, e sabe bem; e faz coro com os poetas gregos, e com Schopenhauer, e com Nietzsche, e com tantos outros que souberam ver o céu encarvoado de corvos famintos e, acima deles, um sol solitário... e sua luz. A arte é um escape do trágico!

Hoje é domingo, e agora são 14:20, e esta é a terceira vez que coloco o EP para tocar enquanto escrevo sobre ele, e estou resfriado, e sem almoço... e a fome vem me dizer que é hora de comer.

Talvez eu pudesse, noutra hora, reescrever tudo o que disse aqui, de modo mais cuidadoso e criterioso. Seja como for, e até aqui, esta foi uma fiel tentativa de descrever a minha primeira impressão sobre o “Coisas belas...”, e ela foi boa, e eu não costumo ouvir algo tantas vezes seguidamente, e gostar do mesmo jeito, seguidamente. Enfim... é apenas uma crítica, e bem pessoal. Bom mesmo é que você, Helena, ouça e tenha as suas próprias impressões. Por hora, vou ali no Hiper da Lagoa comprar algo que sirva de almoço, antes que chegue “a tempestade [que] está perto”, e enquanto “o dia sorri pra mim”. Talvez, depois, como disse, eu mude tudo o que escrevi aqui; talvez não – que é o mais provável.

E lá me vou, assim, cantarolando com voz gutural e simulando uma roda de pogo com os meus outros Eus: “Uma jaula dentro da cabeça! Todos têm medo que escureça! / E gira. E gira o mundo. Nobre vagabundo. / Hoje no circo! O fim do mundo!...”

(P.M.)

www.myspace.com/CINEMERNE

www.soundcloud.com/cinemerne

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e por falar em Velvet Underground ...

Se você perguntar a um crítico musical qual o grupo que mais influenciou o rock pós-1970, prepare-se para uma surpresa. Não são os Beatles, nem os Rolling Stones, nem qualquer outro figurão. Nove entre dez especialistas responderão instantaneamente: Velvet Underground.

Fruto do encontro entre o instinto “rocker” suburbano de Lou Reed e a formação erudita do galês John Cale em 1965, o VU é um dos poucos nomes do rock que realmente merece o pomposo status de “lenda”. A primeira razão para isso é a sua música – parte folk, parte atonal, parte barulho e extremamente intensa – e as letras de Reed, crônicas que passeiam pelo cotidiano da perversão e pela perversão do cotidiano.

Entre os temas prediletos, drogas pesadas (como em Heroin, Waiting for my Man, White Light/White Heat e Sister Ray), devassidão (Venus in Furs) e qualquer outra coisa que horrorizasse simultaneamente o establishment e a contracultura paz-e-amor.

A combinação de letra e música foi descrita na época como “o resultado do casamento secreto entre Bob Dylan e o marquês de Sade”. Faltou citar Lautreamont e as experiências eruditas de John Cage, de quem John Cale se considerava discípulo.

Outra razão para o mito: o Velvet foi o primeiro grupo de rock da história que encanou de fazer “grande arte” – e fez. Teve um papel fundamental na Exploding Plastic Inevitable, trupe multimídia chefiada pelo papa pop e mentor do grupo, Andy Warhol. Além do Velvet tocando ao vivo (e extremamente alto), os shows do E.P.I. incluíam apresentação de filmes, projeção de slides, iluminação psicodélica e dançarinos – e tudo acontecia ao mesmo tempo.

Um ataque aos sentidos sem nenhum precedente, cujo objetivo era, segundo Warhol, “não deixar nada para a imaginação”. Finalmente, há a imagem da banda. Reed, Cale, a diva germânica Nico (que só participou do primeiro disco), o guitarrista Sterling Morrison e a baterista unissex Maureen “Mo” Tucker fundaram um modelito imortal. Até hoje tem garoto por aí afetando o look roupa-preta-óculos-escuros-eternos-botinha-bico-fino-atitude-arrogante.

Se você é fã de artistas dos anos 80 como Nick Cave, Cure e Jesus and Mary Chain, conhecer o Velvet é indispensável. Os vinis básicos são os dois primeiros: The Velvet Underground and Nico (o “disco da banana”, absolutamente clássico) e White Light/White Heat. Eles fizeram outros LPs muito bons, mas a mágica se desfez em 1968, quando John Cale deixou o grupo. Vinte anos se passariam até que Cale e Reed trabalharem juntos novamente, em “Songs for Drella”, LP em homenagem a Andy Warhol.

***

Este texto foi publicado no mês do Rock in Rio 2, em janeiro de 1991. Songs for Drella, o último grande disco de Lou Reed, já tem duas décadas, portanto. Coroca, ele agora se dedica a um trabalho conjunto com o Metallica. Seu professor Andy Warhol felizmente morreu sem ver sua profecia hiper-realizada em pesadelo: todo mundo famoso por quinze segundos.

Este Rock in Rio de 2011, como todos os outros, escalou muitos dinossauros e umas poucas novidades, a maior parte das quais serão esquecidas. Como nenhuma outra edição, apostou no seguro, no entretenimento puro, no produto formatadinho para toda a família e sem risco para os patrocinadores. Rock, o conceito, exige algum elemento de perigo, e mais, de fascínio com o perigo - o que o Velvet Underground intuiu e encapsulou brilhantemente.

Tivemos um Pop in Rio. Boa festa para quem festejou, boa música ocasionalmente, bons negócios para todos. Este texto foi originalmente publicado na revista Playboy, que na época encomendou a diversos jornalistas artigos apresentando as bandas mais importantes do rock.

Escolhi o Velvet, porque acreditava que entretenimento e arte têm utilidades diversas, e que minha função fundamental era separar o fácil do difícil, o automático do refletido, e o bom do ótimo. De preferência, sem soar pomposo; sem medo de dar a cara para bater; e com ambiguidade. Os resultados do meu esforço são públicos e diminutos. Mas vinte anos depois, sigo a mesma estrela...

por André Forastieri
no Blog

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No Sense - Vendetta
Shadowside - Gag Order
Madame Saatan - Até o fim

Bad Cock - The Chosen
H.A.R.R.Y. And The Addict - Genebra
Harry - Lycantropia

Catarse - Certezas
The Sorry Chops - About kings and queens II
( Drop Loaded )

Atari Teenage Riot - Deustchland has got to die
Radiohead - Paranoid Android
The Smashing Pumpkins - zero
The Smiths - There´s a light that never goes out
- por Augusto Andrade

The Velvet Undergound - Pale Blue eyes ( Closet mix )
Metallica & Lou Reed - Iced Honey

The Baggios - Pare e repare
Crove Horrorshow - Sem grana
Cinemerne - 100km com 1 sapato

Rótulo – compre aqui o seu
Reffer – Shift

Sublevação – Tempo sinistro
Motorhead – Loui loui
Decomposed God – Decomposed God
Anti-Nowhere League – I Hate people
Soundgarden – Fell on Black days

terça-feira, 18 de outubro de 2011

No Sense, uma entrevista

No Sense é uma das bandas pioneiras do grindcore no Brasil. Foi formada em 1990 na cidade de Santos, São Paulo, e gravou uma demotape, "confused mind", um EP 7 polegadas chamado "out of reality" pela Fucker records, de São Paulo, e um LP em vinil, "cerebral cacophony", pela Cogumelo, de Belo Horizonte. Pararam em 1993 e voltaram em 2008 a todo vapor, tendo lançado, já, um novo EP, "obey", que além de ser uma prévia do novo disco traz, como bonus, o primeiro EP, fora de catálogo e nunca antes lançado em CD.

Abaixo, uma entrevista com Marly, a vocalista:

programa de rock – Por quanto tempo vocês ficaram separados ? Vocês conseguiriam lembrar, exatamente, quais e quando foram as últimas atividades (show, ensaio, reunião) que tiveram enquanto banda antes de se separar e depois, na reunião?

No Sense – Ficamos separados exatamente 15 anos…só lembro do último show, que foi em Santo André, e eu estava com um barrigão de 7 meses…já pra volta rolou um “telefone sem fio”….um encontrava o outro e ficávamos mandando recados porquê nunca calhava de encontrarmos os 4 de uma vez….até que calhou de combinarmos tudo por telefone e o reencontro se deu já no ensaio…dia 20 de julho de 2008, no dia do meu aniversário. Presentão!!!!!!

pdr – Como aconteceu esta volta da banda ? Foi algo planejado, amadurecido, ou simplesmente aconteceu, sem nenhum planejamento, tipo um “Big Bang” ?

ns – Então, como falei a vontade sempre esteve em algum lugar adormecida…

pdr – O que vocês fizeram no tempo em que estavam separados ? Se envolveram com algum projeto de cunho “artístico” ou simplesmente tocaram suas vidas pessoais ?

ns – Eu tive a minha adorada e amada Chesed Geburah, banda estilo black metal (não temática!) com muitos teclados, muito clima, vocais diferentes…algo também pioneiro pra época….mas fiquei só um ano na banda, depois parei com tudo e fui me dedicar aos estudos…os meninos se envolveram em vários projetos como:

Angelo: Abuso Sonoro e o selo Elephant Rec. que lançou várias bandas;

Morto: Abuso Sonoro, Toxic Freak, Leucopenia, Bones Erosion;

Paulinho: Violent Vision, Wrinkled Witch, Empire of Souls.

pdr – Como tem sido esta retomada, em termos de retorno do publico e satisfação pessoal de vocês como membros da banda – está tudo ocorrendo de acordo com o previsto (se é que previam algo) ou têm se surpreendido? Têm sentido algum tipo de retorno da galera mais jovem ? E os velhos “fãs”, como receberam a volta do No Sense ?

ns – Isso é muito louco! Porquê só depois da volta passamos a ter a real dimensão do que fomos e representamos diante da receptividade!!! Não tínhamos expectativa alguma, nem sabíamos se íamos um aguentar a cara do outro rsrs…mas foi melhor do que imaginamos……

Os “fãs” são os “olds”, um mais maluco que o outro!

pdr – Me falem dos shows que têm feito, como tem sido o clima em geral ?

ns – Fizemos poucos, mas foram muito bons! É que não demos muita sorte ainda de tocarmos com bandas só do gênero então o público fica meio sem reação…rsrs

pdr – Não tenho nada contra bandas que voltam apenas para matar a saudade e fazer shows tocando somente as mesmas musicas, mas respeito mais as que se preocupam em produzir algo novo, compor novos sons, portanto saúdo o No Sense por isso. Como surgiram essas novas composições ? Já tinham planos de lançar um disco novo ou aconteceu como consequencia ?

ns – Nos primeiros ensaios já saiu a “No More Hope”, de lá pra cá temos quase 30 músicas novas….é meio automático…parece que esses anos todos a inspiração ficou “encubada”….você não têm noção de como está o cd…já está quase todo gravado…músicas maravilhosas!!!!!!

pdr – Me falem do processo de gravação do novo EP e das diferenças que vocês sentiram em relação à experiência da primeira fase da banda, quando gravaram 1 demo, 1 compacto e 1 LP.

ns – Naquela fase não tinhamos experiência alguma….eu continuo sem..rsrs….os meninos já gravaram várias coisas com suas respectivas bandas….eu apanhei nesse cd da volta….se não fosse o aparato técnico de pessoas como o Claudio, nosso produtor (que agora é o baixista) e meu amigo Josh do Bode Preto, que mesmo de longe me ajudou pra caramba, eu não sei como teria finalizado!

pdr – Algum plano para o relançamento do LP “Cerebral cacophony” em CD ?

ns – Nenhum!!!! No máximo tocar as músicas ao vivo! A Cogumelo não se pronuncia, nem nós!

pdr – Como vocês vêem a “cena” hoje em comparação àquela na qual nasceram e foram gestados, no início dos anos 90? – o que melhorou, o que piorou, o que continua na mesma …

ns – Fraquinha né???? Mas os que restaram valem por 100 daquela época!

pdr – Já que entramos no tópico “recordar é viver”, façam uma retrospectiva da carreira da banda: como começou, quais os melhores shows, viagens, melhores (e piores, porque não?) momentos, enfim.

* MORTO: Bom, o inicio de tudo deu-se com a ideia de fazer alguma coisa que envolvesse barulho, com influências do que mais ouvíamos na época, Napalm, Terrorizer, Repulsion….a ideia de ter um mina como vocal surgiu do nosso grande amigo Angelo,e também a loucura de trocarmos de função pois na época eu tocava guitarra e ele baixo dai se já sabe , bom os shows sou meio lesado pra lembrar mas posso dizer q tivemos muitos bons e também muitas roubadas, em questão a viagens não fomos muito longe dos nosso estado um ou outro que não me recordo,mas dizer pior não dá pra dizer porque sempre tiramos proveito de tudo pois cada lugar uma experiência nova.

pdr – Porque parou ?

ns – Porquê engravidei..tivemos que dar um tempo..embora tenhamos feito shows até meus 7 meses de gestação. Nessa de “dar um tempo” foi cada um pro seu lado.

pdr – Me falem sobre a relação de vocês com as gravadoras que lançaram seus discos, antes e agora – alguma diferença significativa ?

ns – A Fücker não existe mais, mas a nossa relação é de extrema gratidão….o seu dono, Leandro, era uma pessoa espetacular e apostou na banda de forma surpreendente!

A Cogumelo deixou a desejar…péssimo estúdio, péssima produção, péssima divulgação, não tivemos muita voz ativa e sentimos que “queimamos” 20 músicas maravilhosas com isso.

Atualmente a Violent é nossa parceira, mas não 100%, o trabalho que estamos realizando agora, que só estará completo com o cd, pois na verdade Obey é uma promo comemorativa dos 20 anos do 7′ ep, é uma produção indepente de um grande fã nosso que prefere ficar no anonimato. É uma história curiosa. Ele se propôs a bancar tudo desde que ficasse no anonimato e que todas as fitas masters lhe fossem enviadas, sem quaisquer edições.

pdr – Marly, você foi meio que pioneira nessa história de garotas na formação de bandas com um som tão extremo. Como foi este processo, as pessoas estranhavam muito? Sua presença foi bem aceita ou você sofreu algum tipo de manifestação machista/sexista pelo fato de ser uma mulher “cantando” grindcore? Para situar um pouco o contexto da época, nos fale um pouco das outras bandas que tinham membros do sexo feminino, como o Purulence – como era, enfim, a participação feminina na cena da época e o que, na sua opinião, mudou (ou não), de lá pra cá.

ns – Na verdade quem sofreu preconceito foi a banda…cansei de ouvir de uns caras da região que tinham banda de thrash e afins que éramos uns retardados, que o som era um bosta….teve um cara que teve as manhas de chegar pra mim e dizer “Marly, sai disso, isso é ridículo”….ahahaha mas o castigo veio a cavalo….em poucos meses um dos selos mais legais nos contratou e gravamos o ep e deixamos todo mundo se remoendo de ódio….até hoje tem gente que nos odeia….por isso temos um pacto: Nunca tocaremos em Santos….aproveitando o espaço, posso dar um recado pra esse povo que está entalado em minha garganta esses anos todos???

PAU NO CU DE VOCÊS SEUS MERDAS!!!! VOCÊS SABEM QUEM VOCÊS SÃO!!!

Quanto à mim eu nunca recebi ou percebi manifestações machistas/sexistas…talvez pela minha postura…meio de moleque, bem maloqueira também…visual camiseta/calça/tênis….isso não dava mesmo muita margem à esse tipo de reação….só vim descobrir que causei uma espécie de “espanto”, digamos assim, e o que pensavam de mim com o advento da internet…pois li muitos comentários que eu nunca imaginei!!! Coisas surreais!!! Hoje eu dou risada, naquela época daria porrada!!!! De meu conhecimento, aqui no Brasil, de som extremo mesmo só o Purulence mesmo, que veio um pouco depois, e aquelas meninas eram demais!!!! SE eu abri alguma porta pra mulherada, foi o Purulence quem passou por ela primeiro, e elas são meu maior orgulho por ter aberto tal porta. Tinha outras bandas na época como Volkanas, Flammea, mas eram outro estilo, outra proposta…Hoje em dia tem o Necrose com minha amiga Angela que representa muito bem a cena!

pdr – Grindcore não é apenas “música” (há quem ache que nem isso é), o aspecto ideológico sempre foi forte no desenvolvimento do estilo. Como vocês se situam neste campo? Pensam o mundo, em geral, da mesma forma, com a mesma matriz ideológica, ou algo mudou ?

ns – Realmente tem grind que é uma corrida de velocistas que você não entende nada e nenhuma música te marca….Só que nós não fazemos esse grind….nossa linha é a linha Napalm, a linha que você escuta a música, sente o riff e tem vontade de chorar de tanto que te toca….essa é a minha relação com o grind….acho que é uma questão de alma mesmo…tem gente que ouve Sabbath e acha uma barulheira também…vou falar o quê? Só posso dizer que colocamos nossa alma quando estou “cantando” qualquer música do No Sense…se soa dissonante para a maioria…talvez nossa alma seja dissonante e não podemos fazer nada quanto à isso. Vejo os “meninos” comporem e vejo admirada todo o processo de criação…rola uma sinergia impressionante! E fazemos isso porquê gostamos, pois, orgulhosamente, admito que todos eles tocam muito e poderiam tocar outros estilos, como o fazem!

No passado tivemos uma postura mais ideológica..hoje queremos apenas falar o que sentimos em determinada situação que se apresente…sem dogmas…como em “Spilling the holly shit” em que eu canto como se fosse um cristão suplicando ao seu pastor (e ele respondendo), Vendetta, que fala de vingança pura e simples, ou da Guided, que é uma honemagem ao Dexter…rsrs..como pode ver….bem variado….

Eu nunca vou subir no palco e ficar pregando meu ideais!!!! Eu quero é subir no palco e me divertir!!! Eu quero é rock!!!!

pdr – Pra finalizar: “Haverá futuro”?

ns – Pra nós enquanto o Napalm Death e o Terrorizer tocarem em nossos corações, sim!

Adelvan perguntou

Marly respondeu

Exceto em *

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