terça-feira, 15 de maio de 2012

Jello Biafra über alles



Jello Biafra esteve no Brasil pela primeira vez durante a Eco 92. O período daquela conferência mundial sobre meio ambiente coincidiu com o do lançamento do livro “Barulho”, do jornalista André Barcinski. Foi por obra daquele escriba que o vocalista dos Dead Kennedys desembarcou, finalmente, em solo carioca – onde participou de eventos de lançamento do livro e, sorte da cariocada, acabou subindo em palcos aqui e ali. Cerca de dois anos atrás, quando o legendário DK já representava um passado beeem distante, Biafra deu de novo o ar da graça. Foi para apresentar-se com a Guantanamo School Of Medicine, sua banda atual. A brincadeira funcionou tão bem que o cara voltou uma terceira vez. Foi agorinha, há pouco, no fim de março, quando o “Sambapunk” o cercou para uma entrevista. Depois de uma refeição no miolo de Ipanema, antes de uma cerveja no calçadão, Biafra topou falar. E como falou. Na lista de condenações, políticos, claro. Entre eles, Hillary, Obama…

O que mudou ao longo dessas décadas? “Aos 54 anos”, observa, “você precisa exercitar-se bem mais. Quando começamos, era eu quem tinha a melhor forma física entre todos do grupo. Mas, agora, sou o que está pior. Todo mundo começou a nadar, correr ou algo do tipo. O que espero sempre poder fazer é um show em que eu, como fã, gostaria de estar. Não gosto de ver velhas músicas punks sendo mal tocadas. Você tem que se apresentar direito! Não engulo cantores sem presença de palco, que não fazem um pouco de teatro. E ainda vou a muitos shows.”

 Jello revela que o padrão a ser seguido é o de uma velha banda punk australiana, a Radio Birdman, que ele define como “estilo-Detroit-rock-garage”: “Vieram a São Francisco 30 anos depois de terem começado a tocar e explodiram o teto da casa de espetáculos. O baixista parecia ter 18 anos e era como se estivesse num grupo de hardcore. Não perdeu uma nota. É assim que quero trabalhar!”

 Não perder o horário do avião também é um padrão a ser seguido. E é um sujeito alemão, uma espécie de tour-manager, quem lembra desse detalhe. Todos concordam: aquela conversa deverá ser rápida. Um smart-phone como gravador, para garantir que detalhes importantes da entrevista não sejam perdidos, e, de repente, Jello Biafra, vestido como muitos dos gringos que passeiam pela Zona Sul da cidade (isto é, destoando da média), vira uma verdadeira atração naquela calçada de gente meio fresca. Foi onde começou a entrevista, ali em frente ao Delírio Tropical.

 Hillary Clinton, Barack Obama, Arnold Schwarzenegger, Jeb Bush… Foram esses os nomes ouvidos pelo pessoal que fazia fila para comer frango grelhado, saladas e coisas do tipo. Para o entrevistado, aquela era a lista dos atuais vilões da História; papel que ele já atribuiu certa vez  a Jerry Brown, então governador da California. Mas será que daqui a pouco Jello não vai pedir desculpas também a Obama e cia, como fez com Brown – pintado de nazi na clássica “California über alles”?

A pergunta não parece incomodá-lo. “Não acho que vou pedir desculpas aos Clinton e a Obama. Vamos deixar Arnold Schwarzenegger fora dessa conversa”, sugere o cara, dando pouca importância ao poder de destruição do eterno exterminador do futuro. “Talvez eu naquela época estivesse um pouco irritado com Jerry Brown, que é agora por acaso de novo governador da Califórnia! Esse homem estava na faixa dos 40. Agora, está nos 70 e está de volta”, comenta, fazendo um ar teatral de surpresa-e-medo! “As coisas por lá estão caindo aos pedaços. E Brown acha que pode consertar a Califórnia. Mas… Os republicanos decidiram não aumentar impostos, porque querem que o poder público fique sem dinheiro e, assim, todas as coisas passem a ser feitas por corporações. Isso inclui escolas, hospitais, guerras, manutenção de ruas. Tudo! Essa é a visão deles. Um país completamente controlado pelas corporações. É o que tentam nos impor. É assim que eles fazem. Não perguntaram o que queriam os iraquianos. Apenas foram lá e…”

E créu. O atual presidente estadunidense é definido por Jello Biafra como “uma criação das corporações e de Wall Street”. O cantor diz que acompanhou a atuação de Obama no Senado e que ficou preocupado ao ver o político apoiando questões como “prisões secretas” e assuntos parecidos. Para JB, Obama basicamente seguiu a política Bush. “As pessoas estavam perdendo suas casas, com dívidas feitas em cima de dinheiro que não existia. E os bancos começaram a receber verba para cobrir um buraco imaginário, feito em cima de dinheiro que na verdade era um amontoado de certificados. E Obama foi parte disso. Eles não deram recursos para quem morava nas casas, para que pagassem as dívidas e ficassem com os imóveis. Ele deu aos bancos. E estas instituições continuaram donas de tudo”, martela Jello, dizendo crer que por trás dos panos o sorridente ocupante da Casa Branca está trabalhando por leis ainda piores. “Isso é algo que a gente espera de um regime como o do general Geisel”, compara.

Após citar o militar, parece “natural” que viesse mesmo em seguida um papo que tivesse a ver com “revolução”. O velho punk-showman faz uma alusão a quem viveu os anos 60 e 70, quando se falava de “revolução”. Assim, prepara o terreno para pregar a “evolução”. Jello é um pregador.

“Hoje, temos mais direitos humanos, mais conhecimento. Não tanto quanto precisamos, mas mais do que antigamente. Gosto da evolução. Digo sempre às pessoas que estejam atentas ao que consomem, aos produtos que compram das multinacionais. Sugiro que reduzam ao máximo a compra de artigos com essa origem. E se você tem que dar sua energia, seu tempo e sua inteligência trabalhando para estas companhias, lembre-se de que há hoje em dia na era digital uma imensa possibilidade de sabotagem no emprego”, provoca-prega mais. E mais: “Barack Obama, John Kerry ou até mesmo Bill Clinton… Talvez tenham pensado em coisas boas, em algum momento do passado. Mas hoje em dia algo diferente está acontecendo. Algo que acontece com muita gente que envelhece, tem filhos e uma casa. De repente, essas pessoas querem proteger alguma coisa, a qualquer preço. ‘Ah, precisamos de mais polícia nas ruas…’ ‘Ah, não queremos por perto essas pessoas pobres…’ Não queremos que nossos filhos façam as merdas que fizemos quando éramos jovens…”

Se a internet pode ajudar em alguma coisa? A resposta que vem dele parece meio boba, pra não dizer “descrente”: “Sim, desde que as pessoas usem a internet da maneira certa… A era digital criou essa coisa estúpida de que tudo é verdade. Já morri algumas vezes. A grande coisa a fazer com a internet hoje é saber o que pegar. As pessoas não investigam as coisas porque estão ocupadas demais recebendo mais e mais informações. E agora temos esse comportamento, esse novo problema: pensamentos do tamanho de um tweet.”

Jello finge espantar um mosquito para mostrar o que acredita ser o modo como as pessoas em geral lidam hoje com a informação. Abanam, espalham, sem na verdade dar muita atenção. “Acho que parte disso acontece porque as pessoas estão recebendo tanto lixo por e-mail que a única maneira de lidar com tudo é como que espantando um mosquito. Há estudos que dizem que as pessoas, nos seus trabalhos, quando interrompem alguma tarefa para ver e-mails, levam até 25 minutos para conseguir se concentrar de novo naquilo que estavam fazendo. Questione a mim, questione aos blogueiros. Faça o mesmo que você faz com a informação que vem das corporações. Questione! Desenvolva suas antenas detetoras de bosta…”

“Aquela mulher que pula para falar sobre o detergente não está tão excitada… Sabão não é algo excitante. Ela é uma atriz contratada para te vender aquilo. Usei as antenas para detectar bosta também com os meus pais, e na escola, e… Quando aconteceu o 11 de Setembro, as pessoas se perguntaram quando deveriam falar sobre aquilo com seus filhos. A resposta só pode ser uma: imediatamente. Quando eles ouvirem sobre sexo, conte a eles… Se você ajuda seus filhos a detetar bosta, você ajuda a formar adultos mais conscientes.”

Quando finalmente o assunto passa mais para o universo da música, Britney Spears é esculachada por uns cinco minutos. Horas antes, Jello gravara umas cenas para um documentário sobre a Gangrena Gasosa, banda que ele lembra ter conhecido em 92. Alguém naquela época me deu uma fita cassete. Foi no lugar em que estavam os caras do Mano Negra. Diziam que misturava Metal com Macumba. Só agora fiquei sabendo que nos shows há uma parte teatral. E fiquei com muita vontade de tocar com a Gangrena Gasosa, na próxima vez em que eu estiver aqui. Isso seria cool. Eu nem sabia que eles ainda estavam juntos. Uma banda de metal que não faz a mesma coisa que outras dez mil bandas de metal.”

 Falar do que aconteceu em sua primeira passagem pela cidade fez Jello lembrar de Renato Russo, na casa de quem ficou alguns dias hospedado. “Eu tinha sido enfiado numa sessão de autógrafos e estava meio chateato. E aí chegou alguém dizendo que eu deveria tratar bem os fãs. Depois… Ele ficou louco, num restaurante, com Shirley MacLaine. Porque ela se recusou a dar um autógrafo para a mãe dele. ‘É pra minha mãe! Como você pode fazer isso com a minha mãe?’ Um jornalista americano, na época, havia me falado que aquela noite seria como num filme de Fellini… Quando voltei, dois anos atrás, foi um choque perceber que Renato não estava mais aqui. Seu passado punk deve ter lhe dado força para que se posicionasse como um openly-gay-artist”.

Jello conta que tenta “ser legal” com os fãs. Lembra de como foi importante pra ele, mais jovem, ganhar um autógrafo de Joey Ramone: “Significa muito para mim ouvir de um cara como o Angelo, da Gangrena Gasosa, que servi de inspiração pra ele. Não é revolução, pode nem ser evolução, mas é espalhar algo positivo. E você nunca sabe como as pessoas serão tocadas por isso.”

P.S.: Esta entrevista foi possível graças a Monica Pan (produtora do escritório A Grande Roubada) e Angelo Arede (vocalista da Gangrena Gasosa). Todos os agradecimentos a esses dois.

por Adilson Pereira

Samba punk 


 

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Mopho, uma entrevista

Mopho, de Maceió, Alagoas, é uma das melhores bandas de rock de todos os tempos. Ponto. Ano passado eles lançaram seu terceiro disco, volume 3. Abaixo, uma entrevista respondida pelo baterista, Hélio Pisca. Dois pontos:

programa de rock – Já faz um tempinho desde o lançamento do vol. 3 – como tem sido a repercussão do disco para vocês, ta dentro do esperado, superou ou frustrou as expectativas ? Ou não tinham expectativas ?

Pisca: Nós não havíamos criado expectativa com relação à repercussão, na verdade, quando lançamos o primeiro disco também não tínhamos essa expectativa. O que acontece é que ficamos tão concentrados na produção de um disco que nos satisfaça que acabamos esquecendo até da divulgação. O Bocão é o que fica mais ligado nessa parte.

pdrock  – E em termos técnicos e artísticos, de composição, arranjos e produção, vocês ficaram satisfeitos com o novo disco? Como vocês vêem este disco em relação aos outros 2 – e às demos ?

Pisca: Este disco teve uma pré-produção mais rápida que a dos dois anteriores. Tudo foi feito em 4 dias. Nós apresentamos as músicas uns para os outros no primeiro dia. Nesse mesmo dia começamos a ensaiar, e foi assim até o querto dia. No quinto fomos até um estúdio e já “matamos” todas as baterias e baixos. Lembro que tudo começou numa segunda e finalizamos a primeira etapa numa sexta. Ou seja, a base de tudo estava pronta, não dava pra mudar muita coisa. Os outros instrumentos e vozes foram gravados em horários vagos nos estúdios de amigos. É um disco que nos agrada bastante.

pdrock – Por onde tocaram desde o lançamento do disco? Quais os melhores shows, e por onde planejam tocar ainda divulgando o lançamento ?

Pisca: Nós fizemos o show de lançamento em Maceió, no Teatro Deodoro. Fizemos também um show em Curitiba, que foi muito bom. Alguns pocket shows. Estamos com planos de fazer vários shows pelo sudeste. Várias pessoas que curtem o nosso som tem mandado mensagens através de redes sociais, e através de vídeos do youtube, perguntando quando faremos shows em São Paulo, Rio, Vitória/ES (que é uma cidade que nunca tocamos), Salvador ... vamos fazer o maior número de shows possível, porque funcionamos melhor no palco. Vamos nos organizar pra tentar levar este novo show para outras capitais.

pdrock – Quantas vezes, exatamente, o Mopho já tocou em Sergipe? E quais foram as impressões deixadas em vocês por estes shows ?

Pisca: O Mopho já fez show em Aracaju, mas eu não estava nesta formação.

pdrock – Mopho formou-se em Maceió, mas as sementes da banda estão em Arapiraca (um conhecido meu, Ranildo, que morava lá, sempre me falava de vocês e de como eram talentosos já naquela época). Conte um pouco dessas origens: como vocês conheceram o rock and roll, e como era a relação de vocês com a cidade em que moravam? Havia uma “cena” rock por lá?

Pisca: Eu conheci o João quando ele já estava morando em Maceió. Eu tocava numa banda de blues chamada Água Mineral. Vi ele tocando em outra banda de blues, e achei ele um grande guitarrista e vocalista. Então chamei ele pra tocar conosco. Ele nos mostrou algumas canções dele e nós começamos a trabalhar nelas. A banda era um quinteto e se transformou num trio: Eu, João e o baixista Alessandro Arú (hoje baixista do Messias Elétrico). O João tocava numa banda cover dos Beatles – onde o Bocão era o baixista –  antes de sair de Arapiraca para morar em Maceió.

pdrock – E como foram os primeiros anos da banda em Maceió, como eram os shows, a “cena”, principalmente se comparada a hoje – melhorou ?

Pisca: O cenário musical em Maceió naquela época estava fervendo. Tinha um monte de bandas querendo fazer as próprias música. Mas havia uma grande influência do Manguebit, que nós adorávamos também, mas não tinha nada haver com o nosso som. Lembro que uma vez alguém comentou que nós “mofaríamos” se continuassem tocando Led Zeppelin, Deep Purple, Mutantes e todas essas coisas velhas que gostamos. Esse foi um dos motivos pra colocarmos o nome Mopho, o outro foi que o João tinha ouvido um disco do U2 que tinha uma música chamada “Mofo”.

pdrock – Calanca, proprietário da legendária Baratos Afins, foi uma espécie de “padrinho” de vocês no primeiro e segundo disco (me corrijam se eu estiver errado quanto a isto). Sabem dizer se ele ouviu este novo disco? Emitiu algum tipo de opinião a respeito?

Pisca: O Calanca continua sendo um grande amigo nosso. Como eu moro em São Paulo, de vez em quando eu faço uma visita a ele. Mas depois do lançamento do disco eu ainda não conversei com ele não.

pdrock – Qual a relação da banda com as novas tecnologias – acreditam ainda no conceito de álbum lançado em mídia física ou acham que o futuro é mesmo digital e “virtual”? O que o Mopho planeja para o futuro neste sentido – haverá um Vol. 4 ?

Pisca: Nós acreditamos, principalmente, no poder da canção. Acreditamos que uma boa canção soa linda quando tocada com apenas um violão ou piano, ou o que for, mas tocada da maneira mais simples. Pode parecer um ponto de vista velho e ultrapassado, mas é por onde começamos a compor. Depois colocamos tudo aquilo que achamos legal. O formato na qual onde esta canção vai ser divulgada, comercializada, distribuída, não importa muito pra nós. Mas adoramos um bom disco de vinil.

pdrock – Vocês, como músicos/artistas, dedicam-se, hoje, exclusivamente ao Mopho ou há projetos paralelos ? Se sim, fale-nos do que se trata.

Pisca: Eu moro em São Paulo e trabalho num estúdio. Atualmente tenho vários projetos como músico, um dele com minha esposa que é flautista e pianista. Tocamos muita música brasileira e cubana (pois ela é de Cuba). Mas minha prioridade é o Mopho.

pdrock – Espaço aberto para as considerações finais e para falar algo que considerem importante e sobre o qual não foram questionados.

Pisca: Queremos fazer um grande show em Aracaju! Estamos devendo isto pra uma turma muito boa que conhecemos lá e para todos que curtem a banda.

Adelvan perguntou
Pisca respondeu

# 225 - 12/05/2012


“You´re now entering a pil song”, avisa aquela velha conhecida (embora, agora, já apresentando sinais de cansaço) voz anasalada de John Lydon, o traidor-mor do punk, na abertura de mais uma edição do programa de rock. Trata-se de “This is pil”, faixa-título do novo álbum do Public Image Ltd., o primeiro com músicas inéditas desde 1992! Seja ou não um bom disco (achei mais ou menos, mas ouvi apenas uma vez e os discos do PIL não costumam ser fáceis de digerir numa primeira audição), é um acontecimento que não poderia passar em branco. A maioria das músicas segue aquela mesma linha de ritmos e frases circulares repetidas ad infinitum sobre uma base levemente funkeada, ou seja: quem já gosta deve seguir gostando, quem odeia terá mais um motivo para odiar.

Na sequencia, nova do Gossip. Boa faixa de um disco também apenas razoável – mas, assim como o do PIL, preciso ouvir mais para ter uma opinião definitiva (falta tempo pra tanta opção, como é de praxe nos dias atuais). Fechando o primeiro bloco, valeu a pena ouvir de novo Anneke Van Giesbergen e The Gathering, repectivamente a ex-vocalista e a banda da qual fazia parte, que segue em frente com uma nova “frontwoman”.

Na volta do intervalo, punk rock e hardcore sergipano, começando com uma banda que merecia mais atenção dos (poucos) produtores de shows locais, a Holidays, e terminando com um dos projetos de nosso camarada Alessandro “Cabelo” de seus tempos de punk rock, o Los Repugnantes. No recheio, Robot Wars, Casca Grossa e uma banda nova formada em São Cristóvão, a Útero Kaos.

Pausa pra respirar, e tome Big 4 – com o Exodus substituindo o Anthrax, como muitos acham que deveria ser. Depois de ser surpreendido com sua própria morte decretada pelo Faith No More dos velhos tempos, com o grande Jim Martin ainda nas guitarras, e ouvir alguns rocks pesados e “tortos” (no caso do Melvins), o ouvinte é presenteado (ou não), no encerramento, com um megabloco inteiramente dedicado aos Beastie Boys. Homenagem ao recentemente falecido Adam Yauch, evidentemente. Sobre eles, com a palavra, André Barcisnki:

“Musicalmente, o Beastie Boys foi um dos grupos mais influentes e importantes do pop nos últimos 30 anos. Eles foram, para o hip hop, o que Elvis foi para o rock nos anos 50: alguém que chegou para os brancos e disse: “pode ouvir que isso é legal”. Eles não foram pioneiros do hip hop. O que eles fizeram foi levar o gênero para o “mainstream” e apresentá-lo a um público cheio de preconceitos. Lembro bem do choque que foi ver Kerry King, do Slayer, no clipe de “No Sleep Till Brooklyn”, em 1986: “Que p… ele tá fazendo num clipe de rap?”. Os Beastie Boys não estavam nem aí. Enxergaram, antes de todo mundo, o que ligava o Bad Brains ao Public Enemy, as conexões entre a guitarra de Kerry King e os “scratches” de Grandmaster Flash.

Assim que estouraram, com “Licensed to Ill”, obra-prima da velhacaria e uma genial fusão de metal e rap, a primeira coisa que fizeram foi levar seus ídolos em turnê. O line-up era Beastie Boys, Murphy’s Law e Public Enemy. Ao juntar duas grandes influências – o rap do Public Enemy e o punk do Murphy’s Law – os Beasties pareciam dizer: “punk e rap são farinha do mesmo saco”. E eram mesmo. Especialmente no caldeirão musical da Nova York do fim dos anos 70, onde o punk, o rap, o “no wave”, a música latina, a discoteca e tantos outros sons se misturavam nas calçadas. Os Beastie Boys só poderiam ter nascido ali.

Ao longo dos anos, o trio começou a explorar outros elementos em sua música, como o soul, o funk e até trilhas sonoras de cinema, criando uma sonoridade única e inconfundível. Mas não foi só na música que os Beastie Boys deixaram sua marca. Seus videoclipes foram muito copiados em filmes e comerciais de TV.

Dos três Beasties, Yauch (a pronúncia correta é “Yawk”) era o mais preocupado com a criação de uma identidade estética para a banda. Ele sempre foi ligado em cinema. Usando o pseudônimo Nathaniel Hornblower, dirigiu vários videoclipes do grupo, como “Intergalactic”, “Shake Your Rump”, “Body Movin’”, “So What’cha Want”, “Shadrach”, “Three MC’s & One DJ” e “Pass the Mic”, entre outros.

Os clipes dos Beastie Boys sempre trouxeram surpresas. “Gratitude”, dirigido por David Perez, homenageava o cultuado filme-concerto “Pink Floyd: Live at Pompeii”, de 1972. “Body Movin’”, dirigido por Yauch, trazia referências a “Danger: Diabolik”, filme de terror que o italiano Mario Bava dirigiu em 1968 (para quem quiser saber mais sobre as referências cinéfilas dos Beasties, sugiro ler esse artigo sensacional no blog do selo de DVDs Criterion).

E finalizo com duas dicas de DVDs: “Beastie Boys Video Anthology” (Criterion, 2000), com 18 videoclipes, entrevistas, storyboards, etc., e “Awesome! I Fuckin’ Shot That” (2006), que traz um concerto em Nova York, em 2004, em que os Beasties distribuíram 50 camcorders para fãs e usaram as imagens na edição final. Bonito demais.”

Sem mais, é isso.

Tchau.

A.

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PIL - This is pil
The Gossip - Melody Emergency
Anneke Van Giesbergen - Everything is changing
The Gathering - Heroes for ghosts

Holidays - In the past
Rotten Horror - We are rotten boys
Robot Wars - Escuridão
Casca Grossa - Casca Grossa
Útero Kaos - Desabafo
Los Repugnantes - Laços de dor

Exodus - Piranha
Megadeth - Take no prisioners (Demo)
Metallica - Ride the lightning
Slayer - Seasons in the abyss (alternative mix)

Faith No More - Surprise! You´re dead
Danzig - Rebel Spirits
Fu Manchu - Hang out to dry
Melvins - Evil new war God

Beastie Boys:
# Gratitude
# Time for livin´
# Fight for your right
# Sabotage
# Ch-Check it out
# Shake your ramp
# Root Down (Free zone mix)
# Intergalactic
# Namasté

#

sábado, 12 de maio de 2012

Kraftwerk no Sónar

Show do Kraftwerk no Sónar é espetáculo para olhos e ouvidos

Grupo alemão retorna ao Brasil com performance em 3D; saiba como foi a apresentação

Augusto Gomes, iG São Paulo | - Atualizada às 12/05/2012 10:37:5

Poucas semanas após estrear seu tão falado show 3D em Nova York, o Kraftwerk trouxe seu espetáculo ao Brasil. O quarteto se apresentou em São Paulo nesta sexta-feira (11), dentro do festival Sónar. Os alemães eram sem dúvida a atração mais esperada do evento - foram confirmados em cima da hora, após Björk cancelar sua vinda - e não desapontaram. Em sua quarta vinda ao país, fizeram um show que superou os anteriores.

O grupo iniciou a apresentação com "The Robots", clássico do disco "The Man-Machine", de 1978. No palco, os quatro integrantes liderados por Ralf Hutter (único remanescente da formação original) permaneciam imóveis, atrás de mesas com seus equipamentos. Movimento, só no telão no fundo do palco, que trazia imagens de figuras robóticas imitando os membros da banda deslizando pelo ar. Essas imagens, como foi amplamente anunciado, eram em 3D e, para que o público pudesse vê-las, foram distribuídos 15 mil óculos a todos que entrassem no festival. Já em "The Robots", foi possível perceber que o efeito funcionava muito bem. Mas só se o espectador se posicionasse exatamente em frente ao palco. Quanto mais para os lados a pessoa estivesse, pior ficaria a imagem.

Se na primeira música o 3D já causou boa impressão, na segunda ele arrancou aplausos. Para acompanhar "Spacelab", foram projetadas imagens de satélites flutuando no espaço. Quando o primeiro deles pareceu ir em direção ao público, as palmas e gritos vieram fortes - 3D definitivamente aprovado. A reação repetiu-se em outros momentos do show, como a chuva de números de "Numbers" e os grafismos de "The Man-Machine". Mas, na maior parte da apresentação, a principal responsável por arrebatar o público foi mesmo a música. Seja nas longas viagens sonoras de "Autobahn" e "Trans Europe Express", seja no peso de "Radioactivity", seja nas batidas dançantes (e precursoras de ritmos como o funk carioca) de "Numbers" e "Music Non Stop", a última música do show. O grupo não voltou para o bis, apesar dos pedidos do público.

"Good night. Auf Wiedersehen", disse Ralf Hutter ao deixar ao palco. Parece pouco, mas é mais do que ele costuma falar em qualquer show. Mais do que as palavras, o que marcou foi o sorriso nos lábios do normalmente sisudo músico. Sorriso que, antes, já havia aparecido quando a plateia acompanhou com palmas as batidas de "Autobahn" e o 3D de "Spacelab". Plateia satisfeita, músicos satisfeitos - um dos melhores shows de 2012.

Veja abaixo o repertório do show do Kraftwerk no Sonar São Paulo:

"The Robots"
"Spacelab"
"Metropolis"
"The Man-Machine"
"Numbers"
"Computer World"
"Planet of Visions"
"Autobahn"
"Tour de France 1983"
"Tour de France 2003"
"Computerlove"
"Radioactivity"
"Trans Europe Express / Metal on Metal"
"Home Computer"
"Aero Dynamik"
"Boing Boom Tschak / Musique Non Stop"

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Ralf Hütter, uma entrevista

Em entrevista ao jornal O GLOBO, único integrante da formação original do mitológico grupo alemão comenta substituição a Björk

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/ralf-hutter-do-kraftwerk-fala-sobre-participacao-de-ultima-hora-no-festival-sonar-4824915#ixzz1uVsZNrU8
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RIO - A relação não é de homem/máquina e sim de entrevistador/entrevistado. Mesmo assim, Ralf Hütter, do Krafwerk — que se apresenta no Sónar São Paulo, no próximo dia 11 —, parece disposto a inverter os circuitos e faz a primeira pergunta ao repórter, assim que a assessora de imprensa do grupo faz a conexão Rio-Berlim por telefone.— Olá. Nós nos conhecemos? Já conversamos antes? — quer saber ele.

Negativo. Afinal, entrevistas com o Kraftwerk — principalmente com o único integrante da formação original do mitológico grupo alemão — são eventos raros.

— E você já viu algum show do Kraftwerk? — emenda.

Positivo. Dois shows no Brasil — no TIM Festival de 2004, no Rio, e na Praça da Apoteose, em 2009, abrindo para o Radiohead — e um na Inglaterra, em 1997, no festival Tribal Gathering.

— Ah, foi ótimo tocar naquela praça desenhada por Oscar Niemeyer. Cheguei a estudar arquitetura, e ele foi uma grande inspiração — diz ele. — E aquele show no Tribal Gathering foi especial, marcou nossa volta aos palcos britânicos depois de uma longa ausência.

Sem telefone no estúdio

Cinco anos de ausência, mais precisamente. Antes disso, o Kraftwerk — que se apresentou recentemente, por oito dias, no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), dentro da instalação "Retrospective 12345678" — vivia uma relação conflituosa com os palcos, sumindo deles com razoável frequência, por $sempre conseguir traduzir ao vivo, em alto nível, o som dos discos e a estética visual pensada pelo grupo. Só a partir do fim dos anos 1990, com o avanço da tecnologia, é que os shows do Kraftwerk passaram a ser menos esparsos.

— Nossa relação com a tecnologia sempre foi intensa, e sofríamos muito quando não conseguíamos levar as ideias para o palco do modo como queríamos. Era frustrante não ter o equipamento adequado — conta Hütter. — Mas hoje a tecnologia está no padrão que sempre pensávamos. É quase um sonho.

Um sonho que inclui, diz ele, o formato 3D que marcou os concorridos shows em NY.

— Os shows em 3D são um marco na nossa evolução. É perfeito para a nossa linguagem visual e deu um toque especial nas apresentações no MoMA. A exposição e aqueles shows representaram uma espécie de ciclo que se completou para a banda, que nasceu num ambiente de arte em conexão com a música. Diferentemente de outras bandas, museus não são habitats estranhos para nós.

Mas como o Sónar São Paulo não é o MoMA e o Parque do Anhembi não é o seu átrio, o show do Kraftwerk no Brasil vai ser um pouco diferente daquele apresentado em NY.

— Vamos fazer um resumo daquela retrospectiva, tocando músicas de diversos álbuns. Mas o 3D está garantido. Vamos levar todo o equipamento, inclusive os óculos.

Ironicamente para uma banda tão ligada em tecnologia, seu estúdio, o famoso Kling Klang, não possui telefones. Ao menos é o que diz a lenda em torno do robótico grupo, que evita esses aparelhos para não quebrar o estado de imersão completa quando seus integrantes estão trabalhando.

— Não há mesmo telefones no estúdio. Telefones eram muito intrusivos, você nunca sabia quem estava ligando. Isso mudou hoje, claro, mas mantivemos essa postura. Precisamos de concentração total para trabalhar. Depois que saímos dali, tudo volta ao normal.

Essa reclusão não parece significar uma produção intensa. Afinal, disco novo, o Kraftwerk não lança um desde "Tour de France soundtracks", de 2003.

— Mas estamos sempre trabalhando em novas ideias, inclusive para o próximo disco. É um processo contínuo, não há pressa — garante.

Parte desse processo contínuo gerou, pelo menos, o recém-lançado aplicativo Kling Klang Machine (para iPhone e iPad), que permite que o usuário produza sons sequenciados como se estivesse dentro do estúdio da banda.

— Ele gera sons que vão se modificando à medida que a pessoa vai interagindo com eles. É um trabalho mais atmosférico do que explosivo — conta ele, que diz ter um iPad "apenas para funções tradicionais". — Não o uso para fazer música. Seria excessivo. É bom ficar um pouco desconectado.

Paixão por bicicleta

Para se desconectar ainda mais, Hütter gosta de andar de bicicleta, uma notória paixão dele e da banda, que inspirou o hit "Tour de France", de 1983.

— Sou o único da banda que ainda leva essa atividade a sério. Ando sempre que posso. É um prazer incrível e um ótimo exercício — conta ele, que teve um sério acidente nos anos 1980, sofrendo traumatismo craniano após cair da bicicleta. — Mas aquilo foi há muito tempo, numa época em que íamos de bicicleta atrás do ônibus da turnê quando nos aproximávamos de uma cidade. Hoje, não consigo mais fazer isso. Não consegui nem andar no Central Park durante nossa temporada em Nova York. Em São Paulo também não vai dar tempo, já que vamos viajar de volta no dia seguinte ao show.

Antes de a entrevista ser encerrada pela atenta assessora do grupo, Hütter faz mais uma pergunta:

— Você é do Rio, não?

Positivo.

— Adoro a energia e o ritmo da cidade. Apesar de estarmos distantes e virmos de outro contexto, sinto uma afinidade do Rio com o Kraftwerk. O som do baile funk é um exemplo disso. É uma combinação de ritmos muito interessante.


por Carlos Albuquerque

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NOVA YORK - Kraftwerk é música de museu, e a afirmativa não é anacronismo gratuito. A banda que melhor soube prever o futuro do pop apresentou, por uma semana, seu repertório completo no átrio do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). Criadores do synth-pop e avôs da eletrônica, eles se tornaram o primeiro grupo de música popular a receber de uma instituição artística de prestígio planetário o tratamento dado a medalhões das artes plásticas em mostras definitivas. "Retrospectiva 12345678" se tornou o evento da primavera, com os ingressos mais disputados da atual temporada cultural da cidade.

Para a derradeira apresentação, na noite de terça-feira, cambistas vendiam por US$ 500 entradas que, em fevereiro, a US$ 25, esgotaram-se em menos de uma semana. Além da possibilidade de revisitar clássicos como "Autobahn" e "Trans-Europe Express", o curador Klaus Biesenbach, diretor do PS1, espaço de arte contemporânea do MoMA, providenciou um luxuoso acompanhamento visual em 3-D. O público, 450 felizardos por noite, foi convidado a se imaginar no mitológico estúdio Kling Klang — localizado na parte industrial de Düsseldorf, na Alemanha, onde a banda gravou seus oito trabalhos principais, entre 1974 e 2003 — enquanto se deliciava com uma pequena rave em um dos mais nobres endereços de Manhattan.

"A ideia é que você esteja no MoMA, junto com o artista, fazendo arte", afirmou Biesenbach ao anunciar a retrospectiva. Se não chegou a tanto, o público de terça-feira dançou por duas horas, ensaiou coreografias, brincou com os datados óculos 3D de cartolina branca e ocupou, para desespero dos seguranças, as passarelas do terceiro e do quarto andares, com vista privilegiada para o átrio. Uma das principais novidades da expansão do museu, idealizada pelo japonês Yoshio Ta$. O espaço, com pé-direito de 33,5 metros, nunca foi ocupado de maneira tão plena. Um DJ do Brooklyn definiu a noite como "uma grande instalação artístico-musical":

— Vi o espetáculo da boca do palco, depois fui para a lateral, na esquina da lojinha do segundo andar, e, por fim, observei tudo de cima, nas passarelas. A única coisa que não fiz foi deixar o gravador de meu celular desligado. Esta música, quero guardar para sempre — contou, imaginando usar um dia um sample dos alemães, como já fizeram, com mais ou menos sucesso, gente como Afrika Bambaataa, Big Audio Dynamite, Devo, Depeche Mode, Fatboy Slim, Chemical Brothers, DJ Shadow, Jay-Z, LCD Soundsystem e Fergie, entre muitos outros.

A primeira parte da instalação musical de terça-feira foi dedicada a "Tour de France", as 12 faixas do disco apresentadas na íntegra sob a batuta do ciclista Ralf Hütter, 65 anos, o único remanescente da formação original do Kraftwerk. Ele dividiu o palco com o careca Henning Schmitz, 59, o grisalho Fritz Hilpert, 55, e o louro Stefan Pfaffe, 32. Desde o primeiro som os quatro foram acompanhados por sombras em tamanho gigante de si mesmos, projetadas na tela.

Os efeitos gráficos as transformavam em fantasmas sacolejantes, contrapostas aos corpos robóticos e quase mudos dos músicos de carne e osso. Além dos poucos efeitos vocais e de imagem criados pelos quatro "operadores" (como preferem ser chamados) a partir dos enormes consoles localizados à frente dos artistas, o público recebeu um "até breve" de Hütter ao fim da maratona eletrônica. E só. O resto foi música.

Na expressão cunhada por Biesenbach, compatriota de Hütter e fundador do Instituto de Arte Contemporânea de Berlim, o som do Kraftwerk é uma "pintura musical" criada a partir de sugestões melódicas, vocábulos oriundos de diversas raízes linguísticas, ritmos robóticos e o uso originalíssimo de sintetizadores vocais. No MoMA, tal pintura se traduziu em trilha sonora de um indisfarçado saudosismo pela modernidade. Faixas dos outros discos do Kraftwerk — "Autobahn" (1974), "Radio-Activity" (1975), "Trans-Europe Express" (1977), "The Man-Machine" (1978), "Computer world" (1981), "Electric Café/Techno pop" (1986) e "The mix" (1991) — foram apresentadas na ordem e levaram o público a expressões de êxtase que contrastavam com a fleuma dos músicos. Um Fusca cinza apareceu na tela que tomou forma de um gigantesco videogame a guiar o público por uma estrada em "Autobahn". À viagem por campos e parques industriais seguiram-se o trem de "Trans-Europe Express", em que as únicas luzes estão nas cabines dos vagões, o sol negro do gerador nuclear de "Radio-Activity" e as notas musicais em tamanho gigante que voavam sobre a plateia em "Techno pop".

KGB, Hiroshima, robôs, o bate-estaca industrial, arcaicos computadores pessoais. O mundo ocidental do século passado atravessou a passarela no museu das grandes novidades da "Retrospectiva 12345678". A vanguarda que ele um dia representou é hoje o lugar-comum da música popular. Enquanto o novo disco, prometido para este ano, não sai do alto-forno de Kling Klang, quem passar por Nova York até maio ainda pode aproveitar os oito vídeos selecionados por Biesenbach em exposição no PS1, no Queens. É música de museu, no melhor dos sentidos.

por Eduardo Graça


para O Globo


segunda-feira, 7 de maio de 2012

# 224 - 05/05/2012

Maureen Tucker é uma daquelas figuras secundárias frequentemente esquecidas do rock. Baterista do Velvet Underground nos três primeiros álbuns, numa época em que era bem raro (ainda é) uma banda ter uma mulher como baterista, ela lançou vários e pouco conhecidos discos solo. Gostamos de personagens "periféricos" e/ou "outsiders", então abrimos o programa de sábado com uma pequena homenagem a Mo - via "I´m sticking with you", faixa do Velvet cantada por ela em dueto com Lou Reed, e uma versão de "pale blue eyes" (que já foi regravada até por Marisa Monte!) retirada de seu álbum solo de 1989, "Life in exile after abdication".

No segundo bloco, Hardcore brasileiro, incluindo o Ação Direta, que estará comemorando 25 anos de banda no próximo dia 11 com um show intitulado "Fora do Eixo ao extremo" na simpática casa de shows "Cidadão do mundo", em São Caetano, São Paulo. Encerrando a primeira parte do programa, a faixa título do novo disco do Garbage.

Voltamos do intervalo abrindo as portas do inferno pro capeta reinar via 3 nomes do Black metal nacional: Enterro, banda que tem, em sua formação, o guitarrista Donida, mentor do bem mais popular(esco) Matanza; Litania Ater, daqui de Aracaju; e Mystifier, de Salvador, com uma faixa extraída de seu disco de estréia "Wicca" - um clássico da musica extrema obscura e underground. Com direiro, inclusive, a uma oração para o demônio declamada em português!

Mundando de pau pra cacete, como de costume, continuamos com rock feito no Brasil, mas com uma matriz sonora totalmente diferente: Crove Horrorshow com um "hit" do underground sergipano dos anos 80; um lado A da banda do cara do Lado C, Marcelo Larrosa; e mais uma faixa épica extraída do sensacional disco "Uhuuu", do Cidadão Instigado.

Depois do Kraftwerk, que se apresentará com seu show 3D pela primeira vez fora de Nova Iorque em São Paulo no próximo dia 11, uma sequencia de covers e, fechando tudo, gothic rock clássico safra anos 80 seguido de uma hilária edição sobre o tema cometida pelos caras que faziam o e-zine Loaded em seu podcast A Gente em 86.

Fui!

A.

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The Velvet Underground - I´m sticking with you
Maureen Tucker - Pale Blue eyes

Lobotomia - Faces da morte
Karne Krua - Dois cumes
Ação Direta - Amém
I Shot Cyrus - use su rabia

Garbage - Not your kind of people

Enterro - Nunc Scio Tenebris lux
Litania Ater - último suspiro
Mystifier - (invocatione) The Almighty Sathanas

Crove Horrorshow - Sem grana
Hojerizah - Pros que estão em casa
Cidadão Instigado - O Cabeção

Kraftwerk - Music Non Stop (single edit)

Nei Lisboa - Ruby tuesday
Patti Smith - Within you without you
Joe Cocker - Don´t Let me be misunderstood

Siouxsie & The Banshees - Dazzle
The Cure - Shake dog shake
The Sisters of Mercy - Something fast

A Gente em 86 - Góticos

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sexta-feira, 4 de maio de 2012

RIP Adam Yauch, do Beastie Boys

MCA, como também era conhecido, se tratava desde 2009 de um câncer em uma glândula salivar e de um linfoma. Ao lado de Mike "Mike D" Diamond e Adam "Ad-Rock" Horowitz, co-fundou o Beastie Boys, primeiro grupo de rap feito por brancos a ter destaque na media, em 1981. Antes disso, em 1979, D e Ad-Rock formaram a banda de punk-rock The Young Aborigines. Vencedor de três Grammys, o grupo chamou a atenção na música norte-americana por misturar o ritmo com elementos do hardcore, diferenciando-se das batidas sampleadas de outros artistas do gênero.

Com a descoberta da doença e tratamento de Yauch, o trio não faz apresentações desde 2009. Porém, no ano passado, o Beastie Boys lançou o disco Hot Sauce Committee Part Two, depois de dois anos de atraso. O projeto previa dois discos, mas com o hiato do grupo, e agora, como a morte de MCA, não se sabe se haverá sequência. O rapper também não estava presente na introdução do Beastie Boys ao Hall da Fama do Rock, em abril.

O trio alcançou a fama logo no primeiro álbum, Licensed to Ill (1986), com faixas como (You Gotta) Fight for Your Right (To Party), No Sleep Till Brooklyn, Hold It Now, Hit It. Os três trabalhos seguintes, Paul's Boutique (1989),Check Your Head (1992) e Ill Communication (1994) mantiveram o Beastie Boys como um dos atores mais importantes da música norte-americana.

Ao todo, o grupo gravou oito discos de estúdio, e também venceu três MTV Video Music Awards e um MTV Europe Music Awards.

Paralelamente a tudo isto, Adam tornou-se um devoto budista e defensor da causa tibetana, o que fez com que lhe dessem a alcunha de "O Beastie Boy tranquilo". Criou o Fundo Milarepa, uma organização centrada na luta pela independência do Tibete que organizou, em 1996, o Festival Tibetan Freedom Concert, que contou com a participação de bandas como Red Hot Chili Peppers, Smashing Pumpkins e Rage Against the Machine.

Já na década passada, Adam Yauch inaugurou um estúdio de gravações e criou uma companhia de produção de cinema em Nova Iorque sob a designação de Oscilloscope. Através da companhia, deu vazão à sua veia de realizador e assinou o filme concerto dos Beasties  Awesome; I Fuckin' Shot That!  Através do seu estúdio, teve ainda envolvimento direto no regresso dos históricos do hardcore americano Bad Brains, em 2007.

O músico e cineasta deixa uma mulher, Dechen Wangdu, e uma filha, Tensin Losel, nascida em 1998. Deixa igualmente uma irrepreensível carreira e alguns dos mais entusiasmantes discos do último quarto de século

Descanse em paz.


quarta-feira, 2 de maio de 2012

# 223 - 28/04/2012

A imprensa abutre, como sempre, se focou tanto no lado negativo (que realmente predominou) do malfadado festival Metal Open Air do Maranhão que a gente até esquece que, no final das contas, algumas bandas clássicas acabaram se apresentando por lá, e com uma qualidade de som aceitável (pelo menos para o público, segundo relatos. Parece que haviam problemas maiores com o retorno no palco). Foi o caso do Korzus, Destruction, Exciter e Anvil – os reis da roubada, estes últimos. Abrimos o pdrock do último sábado focando três nomes que ajudaram a salvar pelo menos parte da viagem de quem se aventurou nesta barca furada – O Korzus, seminal banda thrash brasileira na ativa desde os anos 80, com uma faixa de seu último e excelente disco, “Discipline of hate”, os Deuses do metal alemão oitentista do Destructio (faixa de “The Antichrist”) e o Orphaned Land, interessante grupo israelense que mescla metal com ritmos folclóricos locais.

Na sequencia, punk britânico safra 1976/77 (a original). Com exceção do Undertones, que é irlandês, todos os outros foram formados em Londres. Depois, novidades: novas do Fear Factory e do Demented are GO, além de uma nova banda sergipana de Hard rock/heavy metal, o Stucks – eles mandaram uma musica pra gente via e-mail, e você pode fazer o mesmo. programaderock@hotmail.com – mas é bom, ao enviar qualquer coisa para este e-mail, me avisar através da conta do programa no facebook: www.facebook.com/programaderock
 
No Bloco do ouvinte, mais um produzido pelo camarada Hansenharryebm, de Santos, São Paulo. Por fim, indie rock e, fechando a noite, psicodelia brasileira com as melhores bandas do estilo, ontem e hoje.

Fui – mas volto. Próximo sábado, às 19:00H. 104,9 FM em Aracaju e região. No mundo, www.aperipe.se.gov.br
 
A.

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o festival de rock mais fracassado de todos os tempos


Quem quase entrou em pânico por não conseguir ir embora por 3 intermináveis horas devido ao caos e à desorganização da primeira edição do SWU pode achar que foi péssimo. Mas nem dá para comparar com o perrengue enfrentado pelos leais seguidores do Deus Metal do Maranhão no festival que polemizou semana passada. Os caras comeram o pão que o Dio amassou.  Foi difícil encontrar um evento tão fracassado. Até mesmo aquele seu aniversário de 13 anos, todo inspirado em Fear of the Dark, sem nenhuma presença feminina, foi mais agitado.

Mas temos um forte concorrente: o Erie Canal Soda Pop Festival, que aconteceu em Bull Island, nos Estados Unidos, em 1972. Várias bandas sequer apareceram para tocar. E, entre elas, não estavam Fiuk ou Jota Quest. Estavam Black Sabbath e Joe Cocker. Só para contextualizar as mentes não amaldiçoadas por Tony Iommi: naquele ano da graça de 1972 – eu sei porque estava lá – o Sabbath vinha na sequência dos lançamentos dos seus 4 primeiros discos (a saber: Black Sabbath, Paranoid, Master of Reality e Vol. 4. Apenas isso). E o Joe Cocker era um dos cantores mais maneiros da época, emendando sucessos como Cry me a River e Feelin’ Alright. Agora, imagine a expectativa da molecada de nuca vermelha no meio dos EUA para ver esses malucos ingleses ao vivo?

E o Black Sabbath e o Joe Cocker não apareceram. A banda Giant até marcou presença, mas deu o show por encerrado após as primeiras músicas em virtude da má qualidade do som. Podia piorar? Podia.

Em meio aos 32km de congestionamento nas duas únicas vias de acesso ao festival, ficaram presos não só os quase 300 mil espectadores (bem mais que os 55 mil comportados pela estrutura), mas também músicos e fornecedores de comida e bebida. Um caminhão de mantimentos foi sequestrado e incendiado no caminho, fazendo os preços subirem estratosfericamente dentro do complexo do festival.

E choveu. O leito do rio Wabash, vizinho à festa, encheu e levou consigo a vida de pelo menos um fã (pelo menos!). Um segundo foi atropelado enquanto descansava em seu saco de dormir. Os poucos remanescentes, ao final dos 3 dias de desastre, puseram o palco em chamas antes de sair. A justiça foi feita, afinal.

Por tudo isso, o evento acabou sendo chamado de “o pior festival de música de todos os tempos”. E quem deu o nada nobre título foi Gibson, não aquele ator estranho e maníaco, mas a famosa fabricante de guitarras.

Lembre-se, sempre pode ficar pior.

por Fernando Antunes

Superinteressante
 
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Korzus - Truth
Destruction - Thrash ´till death
Orphaned Land - Mabool (the fool)

Undertones - The emergency cases
Wire - 1 2 X U
The Boys - First time
The Motors - Dancing the night away
Alternative TV - Action time vision

Demented Are go - Intro/Welcome back to insanity hall
Fear Factory - Recharger
Stucks - Dragged down

The Records - Girl in gonden disc
Shoes - Get my message
Icehouse - We can get together
The Photos - Barbarellas
Big Country - Chance
- por Hansenharryebm

Jack White - Blunderbuss

PJ Harvey - A place called home
Peter, Bjorn and John featuring Victoria Bergsman - Young folks
The Flaming Lips - Pompeii Am Gotterdammerung
Air - la Femme Dargent

Os Mutantes - Dia 36
Arnaldo Baptista - Sitting on the road side
Casa Flutuante - Olha o tempo
Mopho - A música que fiz pra você
Supercordas - mofo

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quarta-feira, 25 de abril de 2012

20 Anos depois ...

Paradoxo: enquanto o sonho ruía para os headbangers que fizeram a infeliz escolha de ir ao megalomaníaco e malfadado Metal Open Air em São Luiz do Maranhão, Paulo André, em Olinda, comemorava o recorde de público da noite de sexta, dia 20 de abril de 2012, no Abril pro rock: 15.000 pessoas lotaram o Chevrolet Hall para ver, principalmente, a volta do Los Hermanos.  Para o dia seguinte ele nos disse, resignado, em um encontro informal na porta da pousada em que estávamos hospedados, que esperava 5.000 almas no máximo – era a média de público na chamada “noite das camisas pretas”. Estava enganado. Cerca de 7.000 “rockeros locos” (como diria o pessoal do Brujeria) compareceram para conferir aquela que foi, provavelmente, a noite mais pesada e ensandecida de toda a história do evento, que completava 20 anos.

Cheguei cedo porque não queria perder Leptospirose nem Test. Não perdi, e não me arrependi: o Test, uma dupla jazzy/grind de São Paulo que ficou célebre por tocar na rua na porta de shows de bandas como DRI e Slayer, tocou no chão. Ficou difícil de ver, mas deu pra curtir – e muito! Excelente perfomance de João “Kombi” e, principalmente, do baterista, Thiago Barata. Entre caras (feias) e bocas (escancaradas) e descidas de madeira na pele dos bumbos e caixas, um som híbrido, pesado, rápido e alucinante porém com passagens lentas e climáticas, beirando o experimentalismo. O publico reagiu muito bem, agitando ao ponto de quase impossibilitar a apresentação.

Já o Leptospirose tocou bem mais tarde, num dos palcos – na verdade um dividido em dois. Antes deles, Hellbenders, de Goiânia. Fazem aquele “stoner” rock garageiro já característico da capital de Goiás, com bons riffs, ritmo cadenciado (às vezes lembrava o Helmet) e vocais gritados vociferando letras em inglês. Mas mesmo assim ficaram deslocadas naquela noite quase que inteiramente dedicada aos extremos do rock. Não colaborou, também, o visível nervosismo dos caras, que parecem não estar acostumados a encarar públicos daquele tamanho. Se tivesse que dar uma nota de zero a dez, tascava-lhes um 6,5.

Nota 9,9689 (a la Igor Matheus) para o Leptospirose. Hardcore rápido, curto e grosso, muito original e bem humorado. Quique Brown é uma figura impar, com seus cabelos encaracolados emoldurados por um boné colorido e engraçado e seu bigodinho de cafajeste que só não o deixa com cara de cafajeste porque ele não é um cafajeste. Muito pelo contrário, é um cara muitíssimo gente boa, e você não precisa conviver com ele pra saber disso, basta observar sua postura no palco, sempre muito vibrante e comunicativa. Interviu de forma bem humorada até quando chamou a atenção de um dos seguranças que, segundo ele, estava agredindo o público. “Amigo, sossega aí, deixa a molecada se divertir. Os caras trabalharam a semana inteira, isso aqui é a novelinha deles. Aliás, deixa eu apresentar a banda: eu sou a Eva Wilma, aquela é a Gloria Meneses e lá atrás, o Tarcisio Meira. Nós somos o Leptospirose” – ele disse (isso ou algo muito parecido). Antológico.

Mas veja bem: comunicação, no caso, é figura de linguagem. Na verdade Quique parece ter um um olhar bastante próprio e diferenciado sobre o mundo e por isso seu discurso (assim como suas letras) é carregado de nonsense. Ele geralmente fala umas coisas meio sem sentido, aumenta o volume da guitarra para produzir microfonia e, por cima do ruído, anuncia o nome da próxima música, que geralmente não faz sentido também. Foi assim com “Aqua Mad Max”, em que ele lembrou que quando chove em Recife tudo fica alagado (ok, isso faz sentido), "Em maio todo mundo janta pipoca na minha cidade" (essa tem um clipe fantástico, veja aqui), "mula poney" (what?), "Um dia realmente feliz em nossas vidas será aquele em que receberemos uma notificação de nossa empresa favorita nos convidando para ir a um hotel ( com a gente pagando é claro)"  e “O instrumental dessa musica vai para o I Shot Cyrus e a letra que se foda pra quem é, nem vale a pena tocar nesse assunto”, dedicada a um cara lá que eu não sei quem é nem entendi a explicação que ele deu, mas segundo relatos de pessoas com o ouvido menos danificdo, foi para o Boka, do Ratos de Porão - e do I Shot Cyrus.

Muito bom o show da Lepto. Mas a verdadeira destruição sonora da noite viria a seguir, num clima totalmente oposto: sério, pesado e compenetrado. O olhar do vocalista da Cripple Bastards, Giulio The Bastard, é assustador, e sua postura de palco, sempre erguendo o microfone com as duas mãos acima da cabeça, ajuda a criar a impressão de que o mundo está prestes a desabar a qualquer momento. E desaba, várias vezes. E quando desaba ele apenas estica um dos braços, torce a cabeça para o lado e vocifera no microfone. O publico acompanhou de perto a insanidade produzida no palco, o que eu pude comprovar pessoalmente ao cismar de chegar o mais próximo possível da grade de proteção e, para isso, ter que atravessar uma roda de pogo bem mais violenta qua a tradicional “ciranda cirandinha vamos todos cirandar” que costuma vigorar por lá e ser esmagado contra uma parede humana. Foram os cinco minutos mais intensos da noite pra mim, que logo em seguida bati em retirada, quase sem ar – sou asmático.

Me chamou a atenção no show da Cripple Bastards que Giulio apresentou a banda em inglês. Não entendi. Mas entendi quando ele avisou que a próxima seria Ratos de Porão. Eles estavam lá para comemorar os 30 anos da banda e 20 do LP “Anarkophobia” – também não entendi, é de 1990! Mas FODA-SE, vamos nessa! Por conta deste enfoque em seu disco mais “metaleiro”, foi uma apresentação diferente, com musicas que eles não costumam tocar em shows, a exemplo de “Morte ao rei” e “sofrer”, que na época foi “hit” mas hoje em dia está meio esquecida. O Gordo estava, como sempre, com o capeta no corpo, e já foi logo disparando impropérios contra a produção do Metal Open Air do Maranhão, falando que eles “têm que ir pra cadeia, devem ter embolsado a grana e ainda fuderam com a história de 30 anos que nós fizemos com os gringos”. No meio do show, ele reclama por várias vezes de um suposto excesso de reverb que persistia apesar de seus apelos. Quando foi informado que era por conta da acústica da casa falou “que se foda então” e tome mais cacete no pé do ouvido, agora já com músicas mais conhecidas como “Aids, Pop, Repressão”, “Beber Até Morrer” e “Crucificados pelo Sistema”.

Num dado momento, o Gordo pergunta ao público o que eles queriam ouvir. Não deu pra entender a resposta, mas nem precisava: “Commando”, do Ramones. Deduzi (e acertei) que a seguinte seria outra que eles tocam sempre, “Work for never”, do Extreme Noise Terror, mas fui surpreendido com outra igualmente clássica d“os mais punks do mundo”, segundo o gordo: “Bullshit propaganda”. Dobradinha do ENT num show do RDP, nada mal. Excelente, eu diria. Quase tão bom quanto o que eu tinha visto deles dois anos antes, no mesmo Abril pro rock, que eu considero o melhor show do Ratos que eu já vi na vida – e olha que vi muitos!

Duas bandas gringas fechariam a noite, mas as cortinas demoravam a se abrir. Uma voz anuncia nos alto-falantes que, por conta de um atraso no vôo, Exodus e Brujeria teriam que passar o som lá mesmo, no meio do evento. E aí foram os chatíssimos sons de baquetas martelando peles de bateria e irritantes testes de guitarra e microfone. Não demorou muito, no entanto: sem nenhum aviso (as bandas normalmente eram apresentadas no telão, entre anúncios dos patrocinadores), as cortinas se abriram e lá estavam eles, os “pendejos cabrones marijuanos locos de México”, com os braços direitos cruzados acima do peito e em posição de sentido. Esperava ver a cabeleira de Bozo de Shane Embury, do Napalm Death, no baixo, mas ele não estava lá. Em seu lugar, um cara torto, sem camisa, empunhando o instumento numa alça de cinto de balas - ouvi dizer que era Jeff Walker, do Carcass. Na guitarra, um novato desconhecido – soube disso depois das apresentações, já que estavam todos usando máscaras, com exceção de Pinche Peache, o gnomo chicano que é “a cara publica” do Brujeria, segundo o próprio Brujo, um dos vocalistas – que estavam mais pra MCs do capeta. Completando o trio, “Fantasma”.

O show começa um tanto quanto caótico, com o áudio embolado e quase inaudível, conseqüência óbvia da falta de tempo para a passagem de som, mas aos poucos as coisas vão se ajustando e logo já dava pra ouvir melhor, apesar de ainda um tanto quanto abafada, o som da guitarra, que soava numa afinação parecida com a dos discos, mas com uma pegada diferente, mais solta – normal esta diferença, já que nas gravações as seis cordas eram comandadas por Dino Cazares, do Fear Factory, um mestre na precisão monolítica dos riffs. No mais, quem esperava alguma explosão de violência e agressividade deve ter se decepcionado, pois o clima era mais para uma celebração “chapada” regada a musicas pesadas mas em sua maioria lentas e cadenciadas. “Colas de rata”, uma das exceções, embalou a parte do publico mais “apressadinha”. Destaque para as expressões corporais e faciais de Pinche Peache, sempre inquieto. Foi ele quem trouxe lá de trás do palco o mascote da banda, uma cabeça decepada que foi devidamente fincada num pedestal ao lado da bateria e lá ficou, impassível.

“Como vão ustedes cabrones locos de Brasil?”, pergunta Brujo em portunhol impecável. Mesma “língua” usada por Peache para apresentar seus camaradas, notadamente Fantasma, “compañero de muchas maconhadas, y otras cositas mas”, e o literalmente pesado Nicholas Barker, considerado um dos bateristas mais rápidos da cena e que,  além do Brujeria, já tocou com Cradle of Filth, Dimmu Borgir, Old Man's Child, Lock Up, Monolith e Driven By Suffering.

O show prossegue e em “La migra” chamam o Gordo do Ratos ao palco. Antológico. A ideologia (se é que ela existe) por trás dos temas das musicas da banda é, no entanto, meio confusa: ao mesmo tempo em que enaltecem traficantes sanguinários como o colombiano Pablo Escobar (este, quero crer, por ironia) e o revolucionário mexicano Emiliano Zapata (aqui falando sério, eu acho), têm uma musica chamada “Anti Castro”, que defenesta o líder da revolução cubana. Se dizem, também, anticomunistas, chegando a sentenciar que “comunismo/satanismo/PRI es lo mismo” – o PRI é o Partido Revolucionário Institucional, “cria” da mesma revolução mexicana liderada por Zapata e que esteve no poder por décadas no México. Vai entender ... 


Aliás, não, não precisa entender: é porralouquice assumida mesmo, “duela a quiem duela”. Os caras são malucos. Num dado momento, ensaiam uma dancinha escrota que beira o ridículo, com um atrás do outro segurando os microfones como se fossem seus membros genitais; durante a execução de “División del Norte”, enquanto um mar de sete mil braços se ergue no ar, o pequerrucho Pinche Peache, sempre inquieto, desce à grade para agitar com o público, assustando os seguranças; e já perto do final da apresentação, com a banda executando “Matando Güeros” (quase um hino para eles), Brujo espanca as caixas de retorno com um facão enquanto Pinche exibe o tal mascote da cabeça decepada. Daí pra frente, o show vira uma rave ao som de uma versão pervertida de “Macarena” com o refrão modificado para um enstusiasmado “êêê, Marijuana, hay!”. Gostei. Foi divertido, e diversão é solução, sim. É solução pra mim.

Por fim, os “headliners” da noite: Exodus! Um dos fundadores do thrash metal na “Bay Área” de San Francisco dos anos 80. Há quem diga, inclusive, que eles, e não o Anthrax, deveriam estar na turnê Big 4. Concordo. São de 1980, os novaiorquinos começaram no ano seguinte. Vai ver não queriam deixar tudo 100% californiano ...

Mas vamos ao show: Começou muito bem e seguiu num bom ritmo até o final – que demorou pra cacete! Quase duas horas de porrada no pé do ouvido! Eu, particularmente, não sou um grande fã da banda, da qual conheço muito pouca coisa, mas reconheço, evidentemente, seu talento. É uma verdadeira locomotiva thrash comandada pelo guitarrista Gary Holt e muito bem encarnada no energético, apesar de fora de forma, vocalista, Rob Dukes, que terminou a apresentação com a camisa literalmente ensopada de suor – ele a espremia e o caldo escorria abundante. Não sem antes, ainda no comecinho do show, dar um senhor esporro em um dos seguranças, que estava, em suas palavras, “beating the guys” da platéia. Na verdade o cara não sossegou enquanto o espancador não foi retirado, sob vaias do público e irônicos “bye byes” proferidos por ele ao microfone. Bela atitude – demonstra respeito pelos fãs.

De minha parte, a festa já estava quase encerrada. Meus ouvidos, devo confessar, já estavam saturadas de tanta guitarra distorcido. Ta bom, ok, valeu, Exodus, missão cumprida ... mas que nada, os caras simplesmente se recusavam a parar de tocar. Os fãs devem ter saído completamente saciados, o que é justo, pois com isso eles compensaram sua primeira e tumultuada passagem pelo Recife há algum tempo, num show curtíssimo feito às pressas.

A cereja do bolo foi mais uma apresentação do Test na porta do Chevrolet Hall no final da noite. Eu havia sido avisado que aconteceria, mas acabei esquecendo e perdi por ter ficado batendo papo com uns amigos. Nada demais, especialmente se comparado ao drama de dois "brothers" que haviam viajado de Aracaju pra lá quase que exclusivamente para ver o Cripple Bastards mas se atrasaram e perderam o som dos italianos malditos. Era de dar pena a desolação expressa em suas faces ...

Saldo final pra lá de positivo. De fraco, mesmo, só as duas bandas pernambucanas que abriram a noite – não são ruins, mas são pouco criativas. Sinceramente, não dá mais pra agüentar musicas formulaicas recheadas de clichês, como a pra lá de batida sequencia guitarra numa só caixa, depois noutra e, por fim, nos demais canais. Isso pra não falar da pose de headbanger milimetricamente desleixado dos vocalistas, com seus cabelos esvoaçantes e bem cuidados do tipo que deixa as caçadoras de escalpo com as calcinhas em brasa. Um deles, acho que do Pandemmy, parecia o vocalista do Capim Cubano, uma banda brega de pseudocalipso que fez (não sei se ainda faz, espero que não) sucesso por aqui ...

E foi isso. Ano que vem tem mais, se Deus quiser e o capeta permitir.

Fotos: Snapic e Marcelinho Hora.

Texto: Adelvan Kenobi

A relevância do Abril Pro Rock

Se deixasse de existir hoje, o festival já teria feito bastante para a música brasileira. Mas, como persiste, ainda vai se mostrar muito útil, divertido e interessante.

 

Meus amigos, o tempo, passa, o tempo voa, e a poupança Bamerindus continua numa boa. Mentira. Não continua, não. Nos últimos 20 anos, muita coisa que existia, de repente, deixou de existir. Não sei se vocês se lembram onde estavam há 20 anos, mas era o que eu pensava quando me divertia ao ver, num telão, entre um show e outro do Abril Pro Rock desse ano, cenas da primeira edição, que acontecia há exatos 20 anos. Para o ser humano é engraçado rir de si próprio, ao se deparar com os costumes de outros tempos: roupas, corte de cabelo, trejeitos. E repito. Muita coisa mudou e muita coisa deixou de existir nesses 20 anos.

Não o Abril Pro Rock. O festival teve lá seus dias de glória, e não foram poucos. Primeiro, revelou aquela que é última grande revolução na música brasileira: o mangue beat. Depois, teve a vocação de apontar artistas novos para o mercadão. Numa época em que olheiros de gravadoras perseguiam novos artistas, era para o Abril Pro Rock que eles eram mandados. E foi de lá que saíram, de contrato assinado, Penélope Charmosa e Los Hermanos, dois nomes que me lembro de cabeça, mas sabemos que são muito mais. Ok, a Penélope primeiro perdeu o charme e depois acabou. O Los Hermanos, aliás, também acabou. E o Abril Pro Rock continua, sempre no mês de abril, há 20 anos. Pode parecer pouco, mas já reparam como tem festival que não consegue se fixar numa data? E que, em 20 anos, bandas e festivais começaram e acabaram e o APR continua lá?

Outro dia ouvimos, ao vivo, em rede nacional da internet, gente que, há 20 anos talvez ainda usasse calças curtas, questionando a relevância do Abril Pro Rock. É bom o questionamento. Faz parte do processo. Eu próprio já fui a outras edições do festival e de lá saí com a pulga atrás da orelha. Achava que estava faltando alguma coisa (e estava mesmo), que o festival estava sem rumo, que era preciso se reinventar, que a falta de um “novo mangue beat” estava matando o Abril Pro Rock e blábláblá. Questionamentos de quem foi e viu o evento acontecer em fases e lugares diferentes, e de quem há 20 anos já andava por aí em porta de show com os olhos bem abertos. E o Abril Pro Rock, acontecendo, ano após anos, todo mês de abril.
Não, não sou um especialista em Abril Pro Rock. Tive a oportunidade de ir ao Recife cobrir algumas edições e sou grato à produção pelo interesse da cobertura de todos os veículos em que trabalhei e foram escolhidos para tal. Este velho homem da imprensa ainda não completou 20 anos de jornalismo, mas tem, sim, mais de 30 de rock. Na parte desses 20 anos do APR que pude acompanhar, aprendi muita coisa. A admirar uma roda de pogo que não tem igual por onde passei; a ver o mesmo sujeito pular com Ratos de Porão e com Lia de Itamaracá; a ver de perto uma cultura que a gente aqui de baixo chama de folclore, saltitar vivinha da Silva. E a respeitar tudo isso.

Há, sim, baixas nesses 20 anos. Outro dia, o baixista do Megadeth me disse que, numa banda que dura tanto tempo como a dele, é natural mudanças de formação e idas e vindas de integrantes. Pois, em 20 anos, é melhor ser senóide do que curva de Gauss. Imaginem se, em 20 primaveras, surgissem exatos 20 Chicos Science? E 20 Marcelos Camelos então? Repito que já escrevi, aqui e acolá, que o festival andou perdido, em meio ao passar do tempo, e que precisava se reinventar. De certa forma, é o que tem acontecido. De uma hora para outra, vi a equipe do festival, sempre liderada por Paulo André, renovada. Repórteres de veículos locais surgiram, com rádios e microfones colados nos ouvidos e com a mão na massa, na equipe da produção. Até gente de festivais vizinhos contribuíram nessa reinvenção. Demora, mas as coisas se ajeitam, quando se dá o tempo para os resultados aparecerem, como se diz no futebol. E está aí o festival, firme e forte, com 20 anos de história.

Digo isso para atestar que a edição desse ano do Abril Pro Rock – por assim dizer – foi como uma das antigas. O início da turnê de retorno do Los Hermanos, na sexta (veja como foi), grande sacada, fez o Brasil inteiro voltar os olhos para o festival, como nos velhos tempos. Jornalões que há tempos não se interessavam pelo festival, como “O Globo” e “Folha”, lá estavam com representantes maiorais. Sites líderes de acessos tinham lá figuras da maior importância para a crônica musical. E o show dos Hermanos teve ingressos esgotados e o recorde de público em 20 anos de festival. No sábado, os camisas pretas deram de ombros para Paul McCartney, que lotou o Mundão do Arruda na mesma data, e colocaram 7 mil cabeças – 2 mil a mais que em 2011 – no Chevrolet Hall. E o domingo só não repetiu o feito porque ousou numa programação com pratas da casa que sempre tocam no Recife (às vezes em eventos gratuitos) e não conseguiu um nome internacional de peso para encabeçar a programação. Nada que tenha tirado o brilho da edição de 20 anos.

Dito isso, dou-me o direito de responder o sujeito que, há 20 anos, devia usar calças curtas. A relevância do Abril Pro Rock está em existir, perseverar, não deixar um abril sequer, em 20 anos, passar em branco. Se deixasse de existir hoje, o festival já teria feito bastante para a música brasileira. Mas, como persiste, ainda vai se mostrar muito útil, divertido e interessante. Dois mil e treze certamente será apenas um novo marco para Paulo André e sua renovada equipe. O ano em que irá marcar o recomeço e, ao mesmo tempo, a manutenção de uma ideia que jamais deixou de existir. Eis aí a relevância do Abril Pro Rock. Parabéns aos envolvidos.

Fotos: Snapic e Rafael Passos
Texto: Marcos Bragatto
reg

sábado, 21 de abril de 2012

Hoje não tem programa de rock

Pessoas, hoje não farei o programa de rock. Como sabem (ou não), faço Ao Vivo, e hoje estou em Recife - Olinda, mais precisamente - para onde vim para mais uma edição do Abril pro rock. Mas se você ligar seu radio na frequencia 104,9 FM em Aracaju e região ou acessar via net o portal www.aperipe.gov.br, provavelmente, ouvirá rock - a direção de programação da rádio ficou encarregada disso.

Até próximo sábado, às 19H.

Adelvan

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ABRIL PRO ROCK CHEGA A VIGÉSIMA EDIÇÃO


As vezes não precisa ser santo para operar milagres. Paulo André, idealizador / produtor do festival recifense Abril Pro Rock,  que o diga. Ontem, o evento chegou à sua (inacreditável) vigésima edição, com Los Hermanos fechando a primeira noite (de três), que ainda terá bandas como as norte-americanas Antibalas, Nada Surf, e Exodus.


O line up globalizado ainda conta com a revelação paranaense A Banda Mais Bonita da Cidade, os mexicanos do Brujeria, os portugueses do Buraka Som Sistema, os italianos do Cripple Bastards e, fechando um ciclo, dois artíficies do manguebeat que estiveram na primeira edição, em 1993: Mundo Livre SA e Otto.

“Tudo isso, lutando contra dois grandes gargalos que, aliás, são os mesmos de 20 anos atrás”, ressalva Paulo André. “Primeiro, as rádios. As privadas, que são bem apelativas, para pegar leve. Isso  quando não são de uma rede e já vem com a programação fechada do Sudeste”, observa.

“Já as rádios públicas estão mofadas e atrasadas. Um exemplo: em 2010, a BBC3 de Londres veio pela terceira vez cobrir o festival. Gravaram alguns shows e depois veicularam o áudio por lá”, relata PA.

“Já a rádio da UFPE age como se estivéssemos em 1982. Só toca frevo ancestral pra ninguém, dá traço no Ibope. Ou seja,  é mais fácil fazer uma parceria com a rádio pública britânica do que com a pernambucana”, dispara.

"É uma rádio inoperante e ineficente. Se Mundo Livre e Chico Science já não tocavam na primeira edição, agora com o disco novo continuam não tocando. E novos nomes, como Tibério Azul e Ska Maria Pastora, esses também não tem oportunidade de tocar em lugar nenhum em Recife. Mas se você pegar qualquer novo nome brasileiro, é um problema gerneralizado. Acho que é mais agravado aqui em Recife por que temos uma produção cultural intensa e produtiva, que encontra essa barreira na própria casa. Ai deles se não fosse o exterior. Ou seja, nada mudou", resigna-se.

O segundo gargalo é a falta de espaços em Recife para as bandas tocarem. “Isso não é ser pessimista, é ser realista, e essa realidade, essa falta de estrutura atrasa muito a ascensão de novos artistas, até por que  falta um filtro na internet. Por que a juventude alienada do axé e o caralho não está na rede para descobrir novas bandas, só para ouvir mais do mesmo”, constata.

"Os bares da moda não contam,  já que nem todo mundo vai nele atrás de uma coias nova, né? Vai atrás de banda cover e tal", observa.



"Na verdade, o poder público ainda é o grande contratante, com cinco grandes ciclos de shows gratuitos pela cidade (Carnaval, São João, Virada, Natal e mais uma que esqueci agora). No entanto, ainda não tem uma rádio para tocar essas bandas”, contemporiza.


“Mas foi mesmo uma estrada árdua”, admite Paulo Andre. “Lá atrás não existia um calendário de festivais independentes. Com essa situação das rádios e das gravadoras inexistindo, os festivais são a principal plataforma para artistas novos. Tanto para o conhecimento do publico, quanto para a critica”, vê.

“Essa evolução se deu por que houve  uma interação com cenas musicais de lugares do país que não dialogavam antes. Valeu a pena. E eu acredito muito numa nova geração”, encerra.

Enquanto isso, em Salvador... 

NOTA: E Aracaju ...

por Franchico

Rock loco