sexta-feira, 23 de março de 2012

“A Boy From Brazil”

Parece que aquela história de reunião com a formação clássica do Sepultura esfriou, mas Max Cavalera prossegue com uma saudade danada do passado. Talvez por causa das mil entrevistas que concedeu ao jornalista inglês Joel McIver, que revirou a história do músico para a biografia “A Boy From Brazil”, a ser lançada até o final do ano. Ou por conta de uma mini turnê que fez com o Soulfly em fevereiro, que passou por Goiânia, São Paulo e Rio (veja como foi), superando uma inesperada paralisia facial. O grupo não vinha ao Brasil desde 2000, quando fez um único show no Abril Pro Rock, no Recife. Ou ainda por ter voltado a trabalhar com o irmão Iggor no Cavalera Conspiracy. O projeto marcou a reaproximação depois do desentendimento na separação do Sepultura, em 1996.

Max sente saudades, mas não pára. Com o Soulfly, lança este mês o oitavo álbum, “Enslaved”, e sai numa turnê “carregada” mundo afora; ele acredita fazer uns 200 shows por ano. Inspirado na volta às raízes do Cavalera Conspiracy, o disco é pau puro, death metal de raiz como ele fazia no iniciozinho do Sepultura, só que bem produzido. Para matar o tempo livre, Max está desenrolando um projeto paralelo com o vocalista do Dillinger Escape Plan, Greg Pucciato, ainda sem nome, mas que já tem quatro músicas prontas. Um EP com o CC está nos planos, além de (viva!) uma turnê mais extensa pelo Brasil; o grupo tocou no País em 2010, no SWU (veja como foi), e abriu para o Iron Maiden, em São Paulo, no ano passado.

Mas o projeto que faz os olhos de Max brilhar com mais intensidade – mesmo que esta entrevista tenha sido feita por telefone – é a gravação de um disco no Brasil, quem sabe até no Estúdio Nas Nuvens, no Rio, de onde, com o Sepultura, ele saiu com o álbum “Beneath The Remains”. O disco, lançado em 1989, arrombou as portas do mercado internacional para o grupo. São essas e outras histórias que você lê logo abaixo, numa conversa exclusiva com o “garoto do Brasil” publicada originalmente pelo site Rock Em Geral, de Marcos Bragatto:

Rock em Geral: Como foi a turnê pelo Brasil, você curtiu? Matou a saudade do Circo Voador?

Max Cavalera: Muito, foi muito legal. Todos os shows da turnê foram legais, especialmente os do Rio e de São Paulo, que foram os melhores da turnê. Eu achei que o público estava muito legal, conectado com a gente. Era aquela coisa de saudade mesmo, de tocar com o público que você sente falta, onde não toca há muito tempo. Cantaram as músicas junto, foi uma coisa muito emocionante. No Circo foi muito legal mesmo. O Circo tá novo, tá mudado, tem camarim novo, mas é o mesmo Circo e isso continua. Vi amigos que eu não via há 20 anos, vi o Marcelo Vasco, que pintou a capa da gente, ele mora no Rio.

REG: E a biografia, Max? Conta como rolou:

Max: Estamos fazendo eu e o Joel McIver, que é inglês. Ele fez um livro para o Metallica que foi bem legal (“Justice For All: The Truth About Metallica”, 2004), os caras do Metallica adoraram. Fez do Cliff Burton (baixista do Metallica, falecido), do Randy Rhoads (guitarrista da banda de Ozzy, falecido), do Glenn Hughes. Ele é um cara que escreve para um monte de revista, é um nome legal. Ele me procurou e quis fazer esse livro. Eu achei bem legal, é um profissional, sabe fazer essa coisa bem. Aí comecei a fazer bastante entrevistas com ele, fiz umas mil entrevistas, falando sobre tudo, do passado, do que aconteceu, como eu cresci no Brasil, como foi a morte do meu pai, como foi começar o Sepultura. Como consegui o contrato com a Roadrunnner. Tive que viajar para os Estados Unidos de terno e gravata, com cabelo amarrado, como se fosse um executivo da Pan Am, que nem existe mais. Vai ter tudo isso no livro. A introdução vai ser feita pelo Dave Grohl, que é um músico que eu respeito e gosto muito. Ele é hoje um dos músicos mais famosos no mundo e ficou honrado de eu ter pedido a ele para fazer a introdução do livro. Ele é muito fã, de mim e do Sepultura, do Soulfly. Nós trabalhamos juntos no Probot (projeto heavy metal de Dave Grohl). Foi legal ele fazer a introdução e vai ter entrevistas com Sean Lennon, Tom Araya, Sharon Osbourne, essas pessoas fizeram entrevistas também e vai ficar um livro bem legal, é uma jornada nem legal.

REG: Ele ouviu o pessoal da época em que você estava no Sepultura ou preferiu fazer só com você?

Max: (pausa) Eu não tenho muito contato com os caras, então o Iggor vai estar no livro, um pouco com o Jairo também, que é o guitarrista das antigas. Mas como eu não tenho muito contato com o Paulo e com o Andreas (baixista e guitarrista do Sepultura, respectivamente), eu deixei meio de lado.

REG: Com relação ao disco novo, “Enslaved”, como estão as músicas? Parece algo bem do metal de raiz…

Max: Tá mais death metal (mesmo morando no exterior há muitos anos, Max continua pronunciando “détimetal”), tá mais estranho. É o espírito do som do Sepultura do inicio, só que bem gravado, porque a produção do “Morbid Visions” (disco do Sepultura de 1986) é muito tosca. Já o espírito das músicas é aquela coisa que eu adoro, que é o death metal bem tocado, com dois bumbos, e vem de muita coisa que eu escuto ainda, daquela época. Eu vi que tinha um lado meu me chamando para esse lado, para fazer o som mais animal, mais pesado, mais agressivo. E já que eu abandonei qualquer esperança de ter um hit single no rádio, já mandei tudo isso se fuder, então para mim é melhor ir para o lado mais extremo mesmo e botar pra fuder.

REG: Os discos do Cavalera Conspiracy já são um pouco assim…

Max: Eu acho que o Cavalera começou nessa coisa de metal mais extremo porque eu fiz com Iggor, e tem umas músicas de dois minutos, até meio hardcore, para o lado do metal hardcore, meio Minor Threat. Eu acho que o Cavalera influenciou o trabalho do Soulfly, mas esse lance de ir mais para o lado death metal foi uma ideia minha mesmo. Ouvindo essas coisas que eu ouvia no fim dos anos 80, no inicio dos 90, tipo Morbid Angel, Massacre, Death e Cannibal Corpse, essas bandas que eu gosto pra caramba, deu a ideia de fazer um disco desse tipo. E com as letras sobre a escravidão, a maioria delas fala sobre isso. É um tema meio que único no metal, não tem muitas bandas que põem a mão esse tema. Ficou uma coisa bem original, death metal com temas sobre a escravidão.

REG: Tem uma música sobre tráfico de drogas, que você canta em português…

Max: É sobre o Pablo Escobar. É a “Plata o Plomo”, que é uma gíria de drug dealer (traficante de drogas), que eles falam no México e na Colômbia. Ela foi feita por mim e pelo Tony (Campos, baixista). Ele toca numa banda de death metal chamada Asesino, com o Dino (Cazares, guitarrista), do Fear Factory, e ele tem um vocal bem animal, bem death metal, em espanhol. Eu tive a ideia de fazer uma música com ele cantando em português e ele em espanhol, misturando tudo, e fizemos sobre o Pablo Escobar, o rei da droga da Colômbia. Fala sobre a vida inteira dele, o cara quase virou presidente e matava todo mundo, era fora da lei desde moleque. Controlava o cartel de Medelín e muita gente o via como santo, mas tem gente que acha que ele era o diabo também. Eu li o livro que o irmão dele escreveu e tirei bastante ideia para fazer essa letra.

REG: Você já pensou em fazer um disco com mais letras em português?

Max: Já pensei, seria legal fazer um disco inteiro em português. Dá para cantar que fica legal, eu gosto das coisas em português, tipo Dorsal Atlântica, Ratos de Porão. Eu acho o português uma língua legal para o hardcore e para o metal, funciona bem a língua com a música, fica bem animal. Uma coisa que eu queria fazer no futuro é gravar um disco no Brasil. Eu até falei com o Iggor, que poderia ser um disco do Cavalera ou um do Soulfly, talvez uma volta ao som tribal, com muita percussão. Seria gravado no Brasil, com a percussão. É um dos planos que eu tenho para o futuro.

REG: O Soulfly tá no oitavo álbum, mas você sempre coloca músicas do Sepultura nos shows. Não dá para fazer um set só com músicas do Soulfly?

Max: Nós até já fizemos isso, na Europa. Teve alguns shows que eram um lance especial, para gravar, e era uma coisa só Soulfly, foi legal pra caramba. O lance de tocar coisas do Sepultura é um lance mais pessoal mesmo, uma coisa minha, porque eu sei que tem muita gente que quer ouvir clássicos tipo “Roots”, “Refuse/Resist”, “Troops of Doom”… o cara quer ouvir com a minha voz, é uma coisa entre eu e os fãs. Os mais velhos cresceram com essa música, eles querem ouvir com a voz original. Então eu faço isso para eles, para matar a saudade. É uma fase da minha carreira e isso me leva de volta a esse tempo que eu era do Sepultura, que eu gostava também. Eu curtia esse tempo que eu passei no Sepultura, acho que é por isso que continuo tocando essas músicas, uma mistura dessas coisas nos shows.

REG: O Zyon (filho de Max, que tocou bateria na turnê da América do Sul) vai continuar tocando com o Soulfly ou foi só essa turnê pela America do Sul?

Max: Ele tem a banda dele mesmo, que tá até no estúdio hoje, gravando uma demo, com o irmão dele, o Igor. O Zyon toca bateria e o Igor toca guitarra, e é bem legal, meio punk rock, parece um Nirvana mais pesado. Eles têm um som original, que é diferente, bem deles mesmos. Eles tão procurando o caminho deles. O Zyon é bom pra caramba, baterista fera, mostrou para mim, segurou a balada e levou a sério, tocou bem pra caramba na turnê da America do Sul. Mas agora é pegar o caminho dele, com a banda dele. Quero dar a força que eu puder dar para eles, mas eles têm que fazer a história deles, o caminho deles. Agora o Dave (Kinkade) volta para a banda, o baterista que gravou o disco, e vamos sair em turnê daqui a uma semana, para o México, e depois começa a turnê americana, é turnê até o fim do ano, Europa e o resto do mundo.

REG: Max, você toca pra cacete com o Soulfly. Quantos shows vocês fazem por ano?

Max: Bastante, acho que mais ou menos uns 200 shows, é turnê bastante carregada mesmo.

REG: Você viu que o Sepultura agora tá com um baterista bem mais novo?

Max: Eu ouvi dizer…

REG: Curioso que tanto o Sepultura quanto o Soulfly tenham um baterista mais novo no mesmo momento…

Max: O Dave nem é tão novo, tem quase 30 anos. (pausa) Mas o Zyon, que é novo, só tocou com a gente na América do Sul, não vai ficar na banda. O Dave vai ficar ao menos até o final do ciclo desse CD.

REG: O Soulfly já mudou muito de formação, mas o guitarrista Marc Rizzo vai completar dez anos de banda. Podemos chamá-lo de integrante fixo?

Max: O Marc é um cara que eu não queria mudar. Acho que ele é um cara muito fera, toca bem pra caramba, consegue tocar as coisas antigas, nota por nota e faz coisas novas comigo. Adoro os solos que ele faz com a banda, é bem criativo, é um guitarrista sólido e é um dos caras que é meio parceiro. Acho que o Soulfly é meio a banda minha e do Marc, e é uma coisa que eu não queria mudar. Os outros membros podem mudar, bateria e baixo pra mim é uma coisa que pode mudar de novo, mas o Mark é um cara que eu gostaria que continuasse.

REG: O projeto com o Greg Pucciato, do Dillinger Escape Plan, como anda?

Max: Tá saindo, já fizemos quatro musicas, ensaiamos lá em Los Angeles, com o baterista do Mars Volta, que é um baterista fudido, bom pra caramba. As quatro ficaram legais e agora a gente tá vendo quando vai ensaiar de novo para fazer outras músicas, até fazer o disco inteiro e entrar num estúdio no futuro para gravar, com alguns convidados. Tem que achar um baixista, outro guitarrista para fazer uns solos, juntar esse povo inteiro. É um projeto meio Nailbomb, que eu fiz com o Alex. Eu vou dividir o vocal com o Greg, cada um faz uma parte, misturando. Muita gente me pergunta se vou fazer alguma coisa tipo Nailbomb de novo e veio essa ideia de fazer o projeto com o Greg.

REG: O som é tipo Nailbomb?

Max: É meio baseado no Nailbomb, vai ter coisa industrial, coisa de bateria eletrônica com samplers. Umas coisas que não se ouve hoje em dia no metal. E o meu vocal com o do Greg tem um lance bem legal que é o contraste. Minha voz é de um jeito e a dele é totalmente diferente, é mais “high pit”, mais aguda, e combina com a minha voz. A música “Rise of the Falling”, que fizemos no “Omem” (disco de 2010), do Soulfly, somos eu e o Greg cantando juntos. Ficou muito legal, é uma das músicas mais legais que eu já fiz. Eu pensei num CD inteiro com a vibração dessa música, seria um lance bem forte. E eu gosto do Dillinger, do Greg, ele tem uma vibe legal, é bem agressivo ao vivo, pula no público. Os caras ao vivo são a maior destruição. Temos que achar um nome e deve rolar o CD, gravado esse ano ainda para sair no ano que vem.

REG: Algum outro projeto agulhado? Disco novo do Cavalera Conspiracy?

Max: Agora tenho que terminar essas turnês para poder achar um tempinho para fechar esse lance com o Greg. Para o Cavalera ainda tá meio cedo. O Igor teve uma ideia de fazer um EP só com quatro músicas, bem hardcore, bem animal, só eu e ele, tocando tudo, todos os baixos e guitarras. Estamos vendo se vamos elaborar mais, e, se for rolar, talvez vamos gravar no Brasil, no estúdio Nas Nuvens.

REG: Lá onde vocês gravaram o “Beneath The Remains”, com o Sepultura…

Max: Isso! O clima é muito legal. A gente gravou num horário ruim, que era de meia noite às sete da manhã. E o sol do verão do Rio matando a gente, num hotel sem ar condicionado. Ficávamos suando no hotel o dia inteiro e depois ia gravar de noite, metal a noite inteira. Muito legal as lembranças desse tempo.

REG: Pelo jeito vocês devem voltar ao Brasil mais vezes para tocar…

Max: Tem inclusive uma proposta para tocar com o Cavalera em agosto, vamos ver se rola com uns dez shows.

por Marcos Bragatto

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quinta-feira, 22 de março de 2012

Morrissey pode

E eis que, meio que do nada, depois de muita especulação e boatos não confirmados, surge a notícia bomba: Morrissey vem mesmo ao Brasil! 12 anos de espera iriam, finalmente, chegar ao fim. Não havia muito o que pensar, já que, há algum tempo, eu havia elegido 3 nomes de bandas/artistas que, se dessem as caras por aqui, eu iria ver de qualquer jeito, fosse onde fosse, custasse o que custasse: Kraftwerk, Slayer e Morrissey.

Sim, eu sei, eu sou eclético. Mas acabei desistindo do Kraftwerk por medo de que fosse um show muito curto, já que eles viriam como banda de abertura do Radiohead. E também porque Florian Schneider, até então um dos dois últimos remanescentes da formação original, tinha acabado de deixar o grupo. Dos fundadores, restou apenas Ralf Hütter. Aí não dá, né. É muita descaracterização. A única banda totalmente descaracterizada que ainda vale a pena é o Napalm Death, mas é outra história, um processo gradual que acabou por legitimar as formações mais recentes. Quanto ao Kraftwerk, tudo bem, eles são os "homens máquina" e podem muito bem ser substituídos sem que se perca a qualidade do espetáculo (é só apertar os botõezinhos!), mas convenhamos, o legal mesmo é ver ao vivo, pessoalmente, na sua frente, aqueles caras que criaram aquelas musicas que mudaram a sua vida. Por isso desisti e não me arrependi, mesmo sabendo através de quem foi que foi ótimo, um show completo, com toda a parafernália sonora e visual a que os pais da música pop eletrônica têm direito. Ponto para o Radiohead, que soube compartilhar as glórias da noite, dando a César o que é de César - e a Deus o que é de Deus.

Já o Slayer eu vi ano passado, num show bom, apesar de alguns problemas sérios de produção - mais detalhes aqui. As coisas parecem estar mesmo mudando no cenário do "Show Bizz" brasileiro: não esparava para tão cedo a oportunidade de fechar minha trinca de "ases". Me pegou desprevenido, endividado, mas não teve choro nem vela: Morrissey, minha fatura de cartão de crédito, este mês, é toda sua!

Ao contrário da Via Funchal, onde o Slayer tocou e eu, para chegar lá, peguei um ônibus que parecia que não ia chegar nunca (por causa disso perdi a apresentação na porta do Test), o Espaço das Américas fica num local de fácil acesso, ao lado da Estação Barra Funda do Metrô. Tão fácil que me dei ao luxo de ir lá um dia antes pegar meus ingressos, comprados via net. Estava em reforma, o local - terminavam de montar a marquise da fachada. Mal sabia eu que nessa reforma, ao que parece, esqueceram de instalar um sistema de ar-condicionado que desse conta da multidão que compareceria no dia seguinte ...

No dia seguinte, chegamos por volta das 6 da tarde, debaixo de chuva. Identificamos a fila destinada à Área Vip e, inadvertidamente, minha patroinha furou a "bicha"! Foi sem querer, ela só notou depois, mas já que ninguém reclamou, ficamos por lá mesmo e, por conta disso, conseguimos um lugar a cerca de 10 metros (ou menos) do palco! Nada mal, especialmente se levarmos em conta que a tal pista "vip" ocupava quase a metade do espaço, ou seja: os que estavam na "geral", mais barata, ficariam, forçosamente, a uma distancia considerável, e com dois agravantes: o palco era baixo e os telões não funcionaram, segundo postou Lorena Calabria em seu blog, por ordem do próprio Morrissey. O mundo é injusto, fazer o que ...

Nos posicionamos em nossos lugares e de lá não arredamos o pé pelas próximas 4 horas e meia - duas delas gastas numa espera interminável em um ambiente cada vez mais quente e apertado. Achei o espaço pequeno para o porte do show. Não por acaso, apesar dos preços pra lá de salgados, os ingressos estavam esgotados há dias. Pelo menos a decoração do ambiente era bonita, elegante, o som que saía dos auto-falantes era de boa qualidade e minha camiseta da The Baggios acabou atraindo um sergipano que nos fez companhia. Um não, dois: Chico Pitanga me achou por lá e foi me comprimentar.

Tinha esperança de que 20:00, a hora marcada para o início do show, seria a hora da atração principal (foi assim com o Iron Maiden), mas ledo engano: às 8 da noite quem surgiu por trás das cortinas foi a tal da Kristeen Young. Bem vestida (gostei do figurino), bonitinha, mas ordinária! O grande mistério da noite era o porque de Morrissey ter escalado para a abertura de sua "south american tour" aquele refugo de Bjork misturado ao que de pior existe em Nina Hagen, Kate Bush e Cindy Lauper! Se existe algo de aproveitável no repertório da moçoila, pra mim, passou batido. Péssimas composições interpretadas numa perfomance esquizofrenica que não empolgou ninguém. E olha que o público até que foi educado, aplaudindo ao final de cada "música". Ok, não era nenhuma ovação, claro, mas eram aplausos, ora! E ela, também educadamente, agradecia, para logo em seguida voltar a martelar um teclado ou se dirigir sozinha ao centro do palco, na frente de uma imensa tela que projetava seu nome, e soltar mais alguns trinados irritantes ao som de batidas pré-programadas. Corajosa - e cara de pau ...

Passado o suplício, começam os vídeos. Já tinha lido a respeito: antes do show são projetados alguns vídeos selecionados pelo proprio Morrissey. Começa com um em que um Shoking Blue pouco à vontade com as câmeras interpreta "Mighty Joe" passeando pela neve. Bonito, elegante, mas eles têm musicas melhores - "Never merry a railroad man" ou "love buzz", que o Nirvana celebrizou, por exemplo. A seleção prossegue com, dentre outros, Nico, Sparks (uma banda new wave obscura e bacana da qual só Morrissey parece lembrar ), um "rocker" não identificado (por mim, pelo menos) com uma bonita jaqueta de couro dançando "twist" com uma fogosa moçoila e, claro, New York Dolls. No final, uma mulher gritando desesperadamente em close no telão, cujo pano cai e é rapidamente recolhido ao som de sinos dobrando para a entrada triunfal do profeta da dor em pessoa e sua trupe - ele, com uma camisa dourada de peito aberto, eles, vestidos de vermelho com camisetas ostentando a frase "Assad is shit". O público, claro, foi à loucura: fui subitamente projetado para a frente pela multidão ensandecida que tentava desesperadamente chegar mais perto de seu ídolo. Ótimo, fiquei ainda mais perto do palco.

Ele olha para as palmas de suas mãos, solta um "olá, Sampa" e a banda começa a executar os primeiros acordes de "First of the gang to die", logo emendada com a ótima "you have killed me", do excelente e subestimado penúltimo disco, "ringleader of the tormentors". Melhor impossivel. A emoção toma conta de todos e eu sinto a presença, mesmo que apenas em meus pensamentos, de um grande e velho amigo que me apresentou aos Smiths ainda nos anos 80. Eu era um típico moleque adolescente deslumbrado com a descoberta do rock "pauleira", do Heavy Metal, e não entendi muito bem a proposta daquela banda que para mim soava, paradoxalmente, muito bem, mas de forma esquisita. Sentia que ali havia algo especial, afinal eram muitos os que, assim como aquele meu amigo, alegavam ter sua vida sido salva por aquelas canções. "The band that saved your life", literalmente falando. Não era pra mim naquele momento, mas assim que minha mente foi se abrindo para novas possibilidades, novos sons, batidas e pulsações, os Smiths passaram a ser uma de minhas bandas favoritas, e segue sendo até hoje. Nunca me canso de ouvir - eles e o Black Sabbath. Eu sei, eu sou eclético ...

Seguem-se duas que eu acho mais ou menos, "Black Cloud" e "When Last I Spoke To Carol", e então "Still ill", dos Silva. É uma musica tipicamente "smithiana", com sua levada meio rockabilly, seus vocais chorosos entoando versos sofridos e os dedilhados geniais de Johnny Marr reproduzidos à perfeição pelo guitarrista mexicano Jesse Tobias, que já tocou, por um mês apenas, no Red Hot Chilli Peppers! Mais catarse, mais marmanjo chorando pra todo lado. Mas o melhor estava por vir: nunca se viu tanta gente cantando com tanta empolgação uma letra tão triste quanto a de "Everyday is like sunday". Parecia que todos estavam preparados para morrer ali mesmo, vitimados por um ataque nuclear ("Come! Come! nuclear bomb!") ou algo do tipo, e morreríamos felizes, abraçados, pois o prazer e o privilégio de partir de forma tão gloriosa seriam nossos. Dramático, né ? É Smiths, é Morrissey, porra ! Foda-se tudo, é drama mesmo, é voltar pra casa, chorar e ter vontade de morrer, e é lindo!

O show segue em frente com "Speedway", do seminal "Vauxhall and I ", e "you´re the one for me, Fatty", a única de "your arsenal", meu disco favorito, que muitos consideram fraquinha, mas eu gosto muito. A esta altura parece que o fervor emanado do publico contagiou o bardo e ele parece genuinamente feliz por estar ali, coisa que ele tenta a todo custo demonstrar, mas de forma um tanto quanto desajeitada - não esqueçamos que ele é herdeiro de uma "shyness that is criminally vulgar". Num dado momento ele declara estar tão feliz que nem sabia o que fazer. Cantar, ora! E ganhar presentes - a moça das flores não conseguiu dar o seu, mas o rapaz do vinil dos NY Dolls (a princípio confundido com Ramones) sim. E passar seus recados - porque não? Acho justo. Lembrou da passagem do Príncipe Harry pelo Brasil e nos exortou a não entregar nosso suado dinheiro a eles, a monarquia britânica, comparando-a a ditaduras - "no more dictatorships". Emendou com "Meat is murder", certamente o momento mais dramático e, para muitos, anticlimático, da noite. Não concordo. A letra, a melodia e as imagens explícitas mostradas no telão convidam à reflexão, e talvez seja isto que incomode tanto a tantos que se manifestaram contrários a um suposto panfletarismo "de mal gosto" em resenhas e comentários pela net. Não sou vegetariano, mas se um dia me tornar um, esta música será, certamente, uma das principais responsáveis.

"Meat is murder" aparece em uma nova roupagem, com arranjos "viajantes" e pesados, o que chama a atenção para a competencia da banda de apoio, composta por jovens - á exceção de um gordo e aparentemente acomodado Boz Boorer que pouco lembra a energia dos tempos do vídeo "Live in Dallas". Ele parece estar deixando o trabalho pesado para a rapaziada, e eles, felizmente, não deixam a peteca cair. Todos são muito bons, com destaque para o tecladista, que cria climas envolventes para os novos arranjos de musicas já bastante conhecidas. Neste quesito, o destaque vai para "please please please let me get what I want", tocada de forma ainda mais lenta. Funcionou maravilhosamente bem, apesar do vexame do som "pipocando".

Também lentíssima é "I know it´s over", do clássico "The queen is dead", dos Smiths. Particularmente preferia outra de andamento parecido e letra igualmente desesperada, "I Know It's Gonna Happen Someday", mas ok, não estou reclamando - seria ridículo. "Oh Mother, I can feel The soil falling over my head", cantamos todos a plenos pulmões. Mas nada se comparou ao grande momento da noite, quando ele disse que "agora que já nos conhecemos melhor, podemos chegar até aqui": "There´s a light that never goes out", provavelmente a letra de musica mais romântica já escrita. Nem sei muito bem como descrever o que aconteceu naquela hora, pois tudo o que eu disser vai soar clichê. Só quem tava lá mesmo pra saber. Arrepiante.

O show vai chegando ao final e novos grandes sons se sucedem, dentre eles "I’m Throwing My Arms Around Paris", single de "years of refusal", o último disco, que é bom, mas inferior aos dois anteriores. Nova catarse com "How soon is now", talvez minha música favorita dos smiths, e é isso. Ele volta para o bis com a bandeira do Brasil enrolada na cintura, formando uma espécie de saia, e canta apenas mais uma, a apropriada "One Day Goodbye Will Be Farewell". Sacode a bandeira, se enrola nela, coloca-a na cara e diz que nos ama. Parece sincero - até por que Morrissey não costuma ter muito pudor em demonstrar insatisfação, que o digam os argentinos, que, segundo relatos, o pegaram macambuzio e de mal humor.

Missão cumprida, saldo pra lá de positivo. Pra não dizer que tudo isso é coisa de fã deslumbrado e cego (embora seja isso mesmo), posso afirmar que o único momento que eu achei realmente exagerado, tolo e gratuito, no show, foi aquele em que ele abre a camisa feito um Clark Kent revelando-se o superman, enxuga com ela seu suor e a joga para a platéia. Mas note bem: o exagero, pra mim, foi apenas o jogo de cena de enxugar o suor. O resto tá perdoado.

Porque ele é Morrissey. Ele pode.

As fotos, de Stephan Solon, foram tiradas do site omelete.

texto por Adelvan Kenobi

Veja tudo aqui.

O Set list:

1- First Of The Gang To Die
2- You Have Killed Me
3- Black Cloud
4- When Last I Spoke To Carol
5- Alma Matters
6- Still Ill
7- Everyday Is Like Sunday
8- Speedway
9- You’re The One For Me, Fatty
10- I Will See You In Far Off Places
11- Meat Is Murder
12- Ouija Board, Ouija Board
13- I Know It’s Over
14- Let Me Kiss You
15- There Is A Light That Never Goes Out
16- I’m Throwing My Arms Around Paris
17- Please, Please, Please Let Me Get What I Want
18- How Soon Is Now?
Bis
19- One Day Goodbye Will Be Farewell

quarta-feira, 21 de março de 2012

Paul McCartney: confirmado show em Recife

A produtora Planmusic Entretenimento confirmou a realização de um show de Paul McCartney em Recife, no dia 21 de abril. A organização não se pronuncia sobre uma suposta segunda data na cidade, como havia sido noticiado anteriormente.

O primeiro show de Paul McCartney na capital pernambucana acontecerá no Estádio José do Rego Maciel (Estádio do Arruda). As informações sobre ingressos serão divulgadas em uma entrevista coletiva de imprensa na próxima sexta, 23. Desta vez, o ex-beatle vem ao Brasil com a turnê On the Run, que deve ter faixas do último disco solo do músico, Kisses on the Bottom. Ele também fará um show em Florianópolis, em 25 de abril.

É o terceiro ano consecutivo de McCartney no país. Ele veio em 2010 e 2011 com a turnê Up and Coming, com shows em São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro.

Ontem & Hoje: Durante o tempo em que você levou para ler isto, Paul McCartney acabou de compor uma nova música. O que motiva um beatle à beira dos 70 anos?

No caminho para o trabalho nesta manhã, Paul McCartney teve de esperar algumas pessoas em um cruzamento de faixas para pedestres. Estavam em grupos, de câmeras na mão, bloqueando uma rua ladeada por árvores em Londres. Enquanto McCartney esperava pacientemente em seu carro, nenhum deles olhou na direção dele – os turistas estavam ocupados demais tirando fotos de si mesmos atravessando a famosa Abbey Road. “Já aconteceu comigo algumas vezes”, conta McCartney mais tarde, rindo. “É um momento do qual gosto muito. Há uma metáfora boa e forte ali. Só que há muitas metáforas na minha vida – não as procuro. A vida de um beatle é cheia de metáforas.” Resistindo à tentação de sair do carro e posar com os fãs, ele vai direto para um lugar sagrado, embora com um cheiro distinto de mofo: o Estúdio 2 da Abbey Road.

“Bem-vindo ao meu mundo”, diz McCartney, atravessando as portas duplas nos fundos de uma sala que se parece com um ginásio, com teto alto e retangular. Ele está mastigando um chiclete. “Antigo e moderno. Toda vez que venho aqui, relembro toda a história. É aqui onde tudo aconteceu.”

Os Beatles gravaram a maioria de suas músicas, de “Love Me Do” a “The End”, neste espaço no porão de paredes brancas e nada glamoroso – e foram aprovados em seu teste inicial para a EMI aqui, há quase 50 anos. Apesar de alguns relativamente novos isoladores acústicos e um relógio diferente, pouca coisa mudou. Em um canto, McCartney gritava “Um, dois, três, quatro!” para começar “I Saw Her Standing There”; em outro, martelou um acorde em mi maior em um dos muitos pianos ouvidos no final de “A Day in the Life”. Agora, sem nenhum motivo em particular, ele está tocando bateria. Poucos momentos depois de sua chegada, McCartney corre até o instrumento, pega um par de baquetas e toca algumas batidas rápidas, com bastante chimbau. Soa notavelmente parecida com os Beatles – ou pelo menos com o Wings. Ele aponta para a escada no canto, que leva à sala de controle com janela onde George Martin e os engenheiros trabalhavam. “Era onde os adultos viviam”, diz. “Aquela escada era muito icônica, ficou gravada na memória como um sonho.”

É um dia no final de janeiro e venta muito, mas, mantendo sua eterna juventude aos 69 anos, Paul não está usando uma jaqueta – só um colete preto North Face sobre uma camisa jeans bem passada e enfiada para dentro do jeans escuro. Nos pés, tênis pretos com uma faixa branca: se uma cena de multidão de Os Reis do Iê-Iê-Iê irromper, ele estará pronto para correr. Seu sempre fabuloso cabelo está mais desgrenhado do que de costume e ele parece um pouco pálido hoje – está trabalhando demais. “Isto me traz tantas lembranças que você não imagina”, conta McCartney. “É inacreditável.” Ele aponta para um canto no fundo. “John em pé ali cantando ‘Girl’. ” Ele canta o gancho, imitando a inspiração de Lennon e uma tragada forte em um baseado. “As pessoas acharam que era aquilo – não era! Só gostávamos do sibilar do som. Todas as histórias lendárias que foram criadas não são verdadeiras. Vi um programa sobre os Beatles outro dia, e nos primeiros cinco minutos houve quatro erros. É por isso que não sabemos quem foi Shakespeare, ou o que realmente aconteceu na Batalha de Hastings.”

Como o incidente do cruzamento da Abbey Road sugere, uma sombra mítica de quatro cabeças às vezes ameaça obscurecer Paul McCartney, um ser vivo real – recém-casado, quase bilionário, vegetariano convicto, pai de uma menina de 8 anos (e de quatro adultos), artista que não envelhece e faz shows de três horas, compositor e músico de gravações freneticamente ativo, compositor de balés e sinfonias, cavaleiro do reino. Com seu novo álbum, Kisses on the Bottom, McCartney adiciona “intérprete de standards” à lista – o trabalho é uma coletânea jazzística de músicas pré-rock, com dois novos originais de McCartney. Ele adiou este disco durante anos, em parte porque outras pessoas – de Ringo Starr, em 1970, a Harry Nilsson, em 1973, e Rod Stewart no que parece ser os últimos mil anos – sempre faziam algo semelhante. Também ficou hesitante em reforçar sua imagem dominante de mero baladeiro sentimental, o suposto oposto ao roqueiro cru de John Lennon. “Superei isso”, afirma McCartney. “Se as pessoas ainda não conhecem meu outro lado, é tarde demais.” Mesmo assim, Kisses é algo único. Uma semana antes do lançamento, McCartney já está trabalhando em um novo disco de rock. Até agora, tocou todos os instrumentos sozinho. Baixo, guitarras, teclados e a bateria montada no Estúdio 2 são seus. “O plano era fazer o que estou fazendo agora, que é começar quase imediatamente outro álbum de estúdio para que as pessoas não pensem que acabou, que agora estou no jazz.”

Você continua lendo esta matéria na edição 66 da revista Rolling Stone Brasil, já nas bancas.

terça-feira, 20 de março de 2012

# 218 - 17/03/2012

3 novos sons de 3 bandas consagradas abriram o programa de rock do último sábado, como de praxe: "Hordes of Zombies", faixa-título do primeiro disco do Terrorizer depois da morte de Jesse Pintado, "Double Tap", do Ministry, que anunciou que ia acabar mas continua por aí, fazendo barulho, e "Noctourniquet", do The Mars Volta. Sem pausa para respirar, seguimos em frente com os pioneiros do punk rock britânico Anti-Nowhere League, The Dwarves, the Chicago, Illinois, os irlandeses do Stiff Little Fingers e os californianos do Suicidal Tendencies.

Na volta do intervalo, uma nova versão inédita e exclusiva de "Stickbacked", que a banda sergipana Penny Mocks gentilmente nos enviou. Os caras são perfeccionistas, vivem gravando e regravando suas músicas, e fazem um som bastante híbrido e interessante, com influencias de funk, metal e rock progressivo. Vale uma conferida! Na sequencia, direto do Hellcife, um clássico do Mundo livre S/A, seguido de uma faixa do Câmbio Negro HC, banda pioneira do Hard Core Nordestino, que está voltando à atividade, Devotos, Eddie e Siba, ex-Mestre Ambrósio e A Fuloresta, que acaba de lançar um disco solo.

A segunda parte do programa foi aberta pelo indie rock minimalista do Head Without Head, projeto paralelo de nosso camarada Cabelo, ex-colaborador da Aperipê FM - ele produzia e apresentava o mais radical e extremo programa de rádio já ouvido neste cantinho do mundo, o "Vanguarda" - snooze e Pelvs, do Rio de Janeiro. Já o bloco seguinte trouxe Black Sabbath com "she´s gone", uma baladaça de "Technical Ecstasy", penúltimo (e injustiçado) disco com a formação original, Apocalyptica e Cathedral - ver entrevista abaixo.

Encerrando a noite, Hard rock setentista com o power trio alemão Jeronimo, o glam rock do Sweet - com uma faixa de seu clássico "sweet fanny adams" - Cactus e Free.

Sábado foi, também, aniversário de Aracaju. 157 anos. A prefeitura comemorou com um show de Zezé di Camargo e Luciano e Capital Inicial no Mercado Central. Eu não fui, claro. Você também não, imagino. Não fomos só nós os ausentes: nenhuma banda ou artista sergipano foi convidado(a) para a festa. Sobre isto, reproduzo abaixo uma materia de Rian Santos para seu blog Spleen e Charutos:

O couro de nosso tambor não carece de sopapo. Se o cacique da tribo desconhece o tum tum insistente que a constelação dos Serigys faz ecoar por obra e graça dos próprios calos, pior pra ele. Sem as palmas de nossas mãos, não tem parabéns certo.

A inteligência aboletada na Funcaju que me perdoe, mas convidar os filhos de Francisco para soprar as 157 velinhas de nosso bolo foi a gota d’água. Como Henrique Teles (leia-se Maria Scombona) faz questão de declarar sempre que a oportunidade se apresenta, “não foi com essa revolução que nós sonhamos”.

Bate, coração – A propaganda encomendada a peso de ouro pela Secretaria de Comunicação do Governo de Sergipe, parabenizando a capital do Estado pelo seu aniversário, poderia sugerir uma mudança de mentalidade no âmbito da administração pública. Na peça divulgada por meio das redes sociais, alguns dos principais nomes de nossa música declaram seu amor pela cidade. Já no palco montado para presentear a população, como afirma o hot site do evento, Aline Barros e Capital Inicial, além das lamúrias de Zezé de Camargo e Luciano. Artista local que é bom, nada!

“Fiz parte de um vídeo lindo em homenagem aos 157 anos de Aracaju. Fiz porque achei a ideia ótima e os músicos que participariam tinham (e tem) meu respeito. Mas saber que no show em que será comemorado o aniversário da cidade não tem sequer um artista local é um fato duro de aceitar”, lamenta Julio Andrade, frontman da banda The Baggios, citada em todas as listas de melhores discos lançados em 2011.

Para o baixista Fábio Oliveira, o descaso demonstrado com a produção cultural sergipana não é nenhuma novidade. Segundo ele, os artistas engolem esse sapo há muito tempo.

“Toquei no Projeto Freguesia, recentemente. Fiquei impressionado com o descaso da Funcaju, que mandou a sonorização para “voz e violão”, quando desde sempre havia se passado o formato banda, na contratação. Não há sequer um praticável, quiçá um palco, e isso não é porque eles não têm, eu imagino. Sem contar a falta de divulgação, ou seja, independente de quem toque o público é o espontâneo. Não se agrega valor ao projeto porque o artista para esse órgão não tem valor algum, ele é “só” um prestador de serviço. Se o artista quiser divulgar sua apresentação porconta própria – um evento do calendário oficial da prefeitura – o problema é dele. Junte-se essa constatação com o que tem se dito sobre o desaniversário da capital, adicione o atraso dos cachês da Arena Multicultural do governo e uma pitadinha do atraso dos cachês do Festival de Laranjeiras e a receita está pronta. Serve-se morto”.

A cantora Patrícia Polayne vai ainda mais longe, e acusa a desnaturação da Funcaju. “Vamos cobrar transparência nos gastos, apurar fatos. Uma fundação de cultura recebe fundos de apoio e incentivo para iniciativas como as nossas: a de produzir, divulgar, formar platéia e pensamento. Nós já funcionamos como agenciadores de nós mesmos há algum tempo. Agora, só precisamos ter acesso ao investimento, o que na Fundação não só é negado, como, na maioria das vezes, é arrancado de nós para outros fins”.

Eu, que adoro meter o bedelho onde não sou chamado, gostaria de perguntar ao prefeito de Aracaju quanto foi retirado dos cofres do município pra bancar essa gracinha. Afinal de contas, a transparência é um dos pilares fundamentais da administração pública. Ou não?

Chegou a hora de apagar a velinha

por Rian Santos

* * *

Lee Dorian é referência mundial em Metal. O músico atuou no Napalm Death até o EP “Mentally Murderer”e, depois, fundou a banda que seria uma das maiores no estilo Doom Metal: Cathedral! A trajetória do Cathedral iniciou com o EP “In Memorian”, de 1990, e seguiu por mais de 20 anos de atividade, com o grupo lançando pérolas como “The Ethereal Mirror”, “The Carnival Bizarre” e o atual “The Guessing Game”. Com 20 lançamentos, entre álbuns e EPs, no currículo, o grupo resolveu encerrar as atividades em 2011, mas antes eles passaram pelo Brasil e fizeram seu último grande show no festival Roça ‘n’ Roll. Bruno Maia, organizador do evento, conversou com Lee Dorian sobre a vinda ao Brasil e fatos importantes da carreira da banda em matéria publicada originalmente no site do festival. Confira:

Roça ‘n’ Roll - Lee, em primeiro lugar, é uma honra falar com você. O público brasileiro espera há décadas a vinda do Cathedral ao país. O que você conhece do Brasil? Musicalmente e em qualquer aspecto, e quais suas expectativas para essa primeira vinda da banda ao país?
Lee Dorian
- Bem, até onde minha memória alcança, o Brasil sempre esteve no topo de minha lista de locais para o Cathedral visitar e tocar. É de algum modo irônico que finalmente nossa ida ao Brasil está acontecendo justamente quando a banda vai encerrar suas atividades. Nossos dois shows no Brasil serão dois dos últimos de nossas carreiras, então estamos maravilhados por estarmos indo depois de tanto tempo. Eu tenho uma noção da interessante história política brasileira e sei também do alto nível da desigualdade social do país, o que é muito triste. Mas eu também tenho certeza que é um país muito bonito e nós não podemos mais esperar para chegar aí. Claro, em termos de Metal, o Brasil tinha uma cena thrash que estava muito a frente de seu tempo nos meados dos anos 80. Bandas como Sarcófago, o antigo Sepultura, Vulcano, Mutilator etc estavam lançando discos que escutávamos bastante, tanto como bandas hardcore como Olho Seco, Cólera, o antigo RDP etc...Recentemente eu descobri algumas fantásticas bandas underground brasileiras de prog e psych dos fins dos anos 60 e começo dos 70. Eu espero que possa encontrar uma cópia original em LP do Modulo 1000 enquanto estiver aí.

Roça ‘n’ Roll - Acho que podemos de dizer que você, Lee, é uma das figuras mais vanguardistas da cena Metal. Sendo que foi o frontman da banda pioneira do mais insano, extremo e barulhento que o mundo já viu, o Grindcore, no Napalm Death e logo após sair do grupo, formou o Cathedral, talvez a banda mais arrastada e lenta de sua época. Pode se dizer que você fez parte de uma das bandas mais rápidas do mundo e também de uma das mais lentas. Você também é creditado como um dos criadores dos vocais grunhidos, guturais e rasgados do Death Metal. Como você enxerga isso e o papel que atuou na história da música extrema?
Lee Dorian - Primeiramente, obrigado pelos comentários. Vejo este passado com muita afeição. Tenho sorte em ser apreciado por pessoas legais e inteligentes ao redor do mundo, e isso é algo que me deixa bem feliz. Isso prova que você não precisa tocar músicas comerciais sem sentido para ter “aliados” por aí. É fantástica, a inteligência de pessoas que escolhem a música e arte por elas mesmas, como negação ao lixo geral que a mídia tenta forçar a digerir por propagandas e outras bobagem do tipo. Eu não poderia dizer qual meu papel efetivo na história da música extrema. Isso é para outras pessoas dizerem. Eu só fiz o que fiz.

Roça ‘n’ Roll - Durante seu tempo no Napalm Death, vocês estavam no olho do furacão: o período de formação do Death Metal, do Grindcore, a aura de loucura que marca a juventude, visto que todos vocês eram muito jovens e tudo mais. Você, Bill Steer (Carcass), Shane Emburry e Mick Harris, hoje, todos ícones do Metal, com músicas ultra rápidas, blast beats, vocais vomitados, um peso descomunal, letras políticas e muita doidera mudaram a cena metal. Você deve estar cansado de responder isso, mas diga ao público brasileiro como foram àqueles dias e porque você decidiu deixar a banda?
Lee Dorian - Foram vários motivos que me levaram a deixar o Napalm Death, alguns pessoais e outros musicais. Acho que não preciso dizer os motivos pessoais, nós éramos todos moleques naquela época e hoje em dia, somos adultos, amigos e respeitamos uns aos outros. Musicalmente, Mick e Shane queriam seguir por um caminho mais Death Metal, o que não era o único caminho que eu queria trilhar. Eu queria adicionar à banda algumas partes extremas de Doom Metal para forjar um som que passava do ultra-rápido para o ultra-lento, algo totalmente diferente. Os outros caras não estavam nessa onda Doom como eu, então optei por sair e, finalmente, montei o Cathedral, o que era o que realmente queria fazer. Não me entenda a mal, eu adoro todas as formas de música extrema, rápidas ou lentas, mas após gravar o EP “Mentally Murdered” eu não via aonde mais poderia chegar com a banda. Era hora de fazer algo diferente.

Roça ‘n’ Roll - No começo dos anos 90, a cena metal inglesa era fervilhante em termos de Doom Metal. Os grandes medalhões da nova onda Doom que assolou o metal mundial são todos seus conterrâneos e contemporâneos: Anathema, Paradise Lost, My Dying Bride. Essas bandas forjaram sua música sobre a influência de bandas como Candlemass, Trouble e Black Sabbath. O que você pode nos dizer sobre essa época? Havia uma relação de amizade e cooperativismo entre as bandas?
Lee Dorian - Sim, nós todos nos conhecíamos e ainda nos vemos vez ou outra. Nós somos amigos de todas essas bandas e já tocamos juntos muitas vezes. Mas eu acho que o Cathedral era diferente em muitos aspectos, mas principalmente porque éramos grandes fãs do Hard Rock e Psycho Rock setentista enquanto essas bandas não. Nós éramos fãs massivos do Black Sabbath e não tínhamos vergonha de admitir isso. Eu acho que essas outras bandas eram e são mais góticas.

Roça ‘n’ Roll - Podemos ver uma clara evolução de “Forest of Equilibrium” para o EP “Soul Sacrifice”. Já deste para “The Ethereal Mirror”, parece que o Cathedral se tornou uma das bandas mais originais da cena. Vocês mantiveram a atmosfera Doom em canções como a assombrosa “Phantasmagoria” e “Enter the Worms”, mas também trouxeram muitas músicas diferentes como “Midnight Mountain” e “Fountain of Innocence”(ambas fantásticas), e creio que podemos dizer que com “Ride” vocês tipo criaram ou resignificaram o que hoje é chamado de Stoner Metal. Para o Cathedral não existem fronteiras musicais?
Lee Dorian - Bem, essencialmente somos uma banda de Metal, então, claro, já existem fronteiras, de algum modo. Acho que após termos nos sentido, de certa forma, restritos em nossas bandas anteriores, eu e Garry estávamos determinados em não ser uma banda unidimensional apenas nos repetindo a cada lançamento. E nós temos um gosto musical muito diverso e ainda descobrimos coisas novas a toda hora. Porque não fazer o que queremos com nossa música? Pessoas e bandas são muito sufocadas por leis e regulamentos. Antigamente tinha-se mais liberdade para fazer música, mas eu acho que a coisa começou a ficar chata e obsoleta recentemente.

Roça ‘n’ Roll - “The Ethereal Mirror” foi lançado por uma grande gravadora. Quanto pode se dizer que a Columbia Records influenciou na transição ou evolução de estilos e visual da banda? Posso ilustrar a pergunta assim: há um abismo entre o tenebroso clipe de “Ebony Tears” e o cômico vídeo de “Midnight Mountain” onde um membro da banda se veste de chef de cozinha, o lance do tapete mágico e você interpreta um tipo de John Travolta dos “Embalos de Sábado a noite”?
Lee Dorian - Sim, a situação na Columbia foi louca. Eles tentaram nos transformar em uma banda com visual hippie, então dissemos: “Ok, vamos fazer um vídeo setentão muito louco, se é isso que vocês querem”. Óbvio que forçamos total no clipe de “Midnight Mountain”, mas aquilo foi tipo a gente dizendo “foda-se vocês”. Claro que as pessoas que compram nossos discos não têm idéia do que rola pros trás das cenas, então, provavelmente, eles pensaram que nós endoidamos de vez ou algo do tipo, eles queriam nos transformar numa banda mainstream o que instantaneamente alienava a carga underground que tínhamos, e claro, nossa música continuava muito pesada para um público mainstream. Essa situação nos deixou meio deslocados.

Roça ‘n’ Roll - Com “The Carnival Bizarre” vocês finalmente definiram a linha que o Cathedral seguiria dali pra frente: uma banda muito pesada, com um monumental som de guitarra e riffs ‘capinadores’, e linhas vocais sui generis. Vocês meio que deixaram a aura Doom de lado e passaram a ser uma banda mais mid-tempo, né? Coincidentemente, este é o primeiro trabalho sem Adam Leham, que contribuiu muito nos álbuns anteriores como compositor com canções muito lentas e Doom como “Frozen Rapture”, “A Funeral Request” e “Enter the Worms”. Essa mudança foi planejada, ou talvez Lehan estava mais nessa onda Doom que o resto da banda na época?
Lee Dorian - Não, Adam estava muito ligado em bandas blues rock como Free & Bad COmpany, Zeppelin,etc. Se alguém queria manter o Cathedral mais Doom esse era eu, tanto que eu escolhi essas canções do Adam para os discos. Eu estava um pouco confuso com o caminho que estávamos tomando, mas quando as composições finalizaram e fomos gravar o “Carnival...” eu fiquei super empolgado com o que estávamos produzindo.

Roça ‘n’ Roll - Falando de guitarras, Garry Jennings é, em minha humilde opinião, o dono de um dos sons mais pesados e poderosos neste instrumento. Além disso ele é uma espécie de Tony Iommi moderno, que despeja riffs fantásticos e solos muito bonitos. Você acha que ele é um guitarrista subestimado na cena Metal?
Lee Dorian - Eu concordo absolutamente!!! Acho que o estilo de Garry reflete seu conhecimento musical, que é muito vasto. Tenho escutado várias bandas que vendem muitas cópias de seus disquinhos que não têm riffs e levadas de guitarra,o que me faz rir, se não eu choraria. É claro que há uma influência de Iommi no estilo de Garry, mas quem não tem essa influência? Mas de qualquer forma eu o acho que ele é muito original e deveria ser mais reconhecido por seu talento.Talvez com o passar do tempo, as pessoas olharão pra trás e verão realmente o quão importante e subestimado ele foi como guitarrista.

Roça ‘n’ Roll - Suas letras são das mais loucas, psicodélicas, fantasiosas e estranhas entre as bandas de Metal, e continuam fantásticas. Às vezes ainda podemos fisgar algumas metáforas políticas, criticas sociais e comportamentais nelas. Mas o que aconteceu? Você se enjoou e cansou de falar desses assuntos como o fazia na época do Napalm Death? E qual suas influencias literárias?
Lee Dorian - Eu não me cansei desse viés politizado que lançava mão no Napalm, eu ainda acredito e tenho a mesma posição ante a maioria daquelas coisas que atacava. O Cathedral é só uma banda diferente, cada banda segue seu caminho. Eu não sinto que preciso estar puto e ficar de cara feia, bicudo 24 horas por dia. E eu ainda diria que as letras do Napalm Death são mais estranhas ao mundo Metal do que as minhas no Cathedral. As letras do Napalm são geralmente anarquistas e de retratação social, o que não é um assunto comum ao Heavy Metal - que tende a ser mais escapista. Eu não tenho nenhuma influência literária direta, eu só uso minha mente e escolho o que é conveniente sobre o que me cerca para criar meus textos.

Roça ‘n’ Roll - Seu último trabalho, “The Guessing Game”, é o único disco duplo da banda e acredito ser o melhor e mais dinâmico álbum do Cathedral em mais de uma década. Além das levadas típicas da banda, o peso de sempre, neste disco temos mais teclados, atmosferas diferentes , e a sempre erguida bandeira da “arte pela arte” que o Cathedral sempre defendeu. Uma obra prima! O que pode nos dizer sobre a concepção desse álbum?
Lee Dorian - Eu acho que isso tem uma relação com a obsessão das pessoas em encontrar algo além, encontrar outra coisa ao invés de simplesmente viver a vida que elas têm. As pessoas parecem continuamente a se sentir no dever de justificar sua existência, seja através da religião, da riqueza ou do poder. Eu não preciso pensar em um deus. Eu não preciso desses idiotas fazendo do mundo um lugar mais difícil de viver para mim e meus amigos. Eu não sou um santo, mas acho que no geral sou uma boa pessoa. Se eu cometer um erro, eu só tenho que culpar a mim mesmo e tentar a aprender algo com isso. Não tenho de pedir perdão a algo ou alguém por isso. Eles não sabem de nada, apenas acreditam. Nada pra eles é baseado em fatos e sim, em coisas que lhes foram contadas. Isso tudo é um jogo de achismo!

Roça ‘n’ Roll - A arte do último álbum, sempre desenvolvida pelo gênio David Patchett, é maravilhosa. Eu assisti ao DVD contido na edição de aniversário do “The Ethereal Mirror” e vi que vocês são vizinhos de porta. Quão forte é sua influência nos trabalhos que Dave faz para o Cathedral? Como se dá o processo? Você passa leitmotivs para ele e ele se vira ou vocês criam juntos?
Lee Dorian - Eu e Dave temos uma boa compreensão um do outro. Ele sabe que tenho posturas anárquicas e iconoclastas em relação a muitas coisas. E mesmo que ele não compartilhe de todas as minhas opiniões, ele sabe de onde eu venho e como sou. As proto idéias para as capas são sempre minhas. Quando tenho uma idéia eu me encontro com Dave, tomamos umas cervejas para chacoalar as idéias e rascunhar o conceito. Então ele parte para o seu trabalho e começa a fazer os esboços. Quando tem um rascunho bem definido, ele me apresenta e eu aponto as mudanças que julgo necessárias, quando acontece de algo ter de ser mudado. Então, ele vai me mantendo informado do progresso da arte.

Roça ‘n’ Roll Neste ano, os fãs do Cathedral foram assaltados com o anúncio do fim das atividades da banda. Algo determinante aconteceu? Ou acreditam que a banda já fez o que tinha de ser feito e continuar seria forçar?
Lee Dorian - Na verdade, é só a hora de mudar e fazer coisas diferentes. Não queremos apenas fazer álbuns “por fazer”, pois eles significam muito para nós. Acho que teremos feito tudo o que devemos quando lançarmos o ultimo álbum ano que vem. Eu sempre disse que seria legal lançar 10 discos e este será nosso décimo.

Roça ‘n’ Roll - São mais de 20 anos na estrada. Como você se comporta, hoje, em turnês? E o slogan “Disco, Doom, Dope I Love”? Qual o segredo para se manter bem na estrada?
Lee Dorian - Eu me viro procurando CDs, DVDs e lançamentos pelas cidades. Eu faço isso em todo lugar que passamos. É claro que tem noites que eu continuo ficando absolutamente bêbado, mas não como no passado quando isso era regra.

Roça ‘n’ Roll - Algum projeto novo em mente?
Lee Dorian - Apenas vagamente.

Roça ‘n’ Roll - Poderia nos dizer o que foi mais legal nesses anos com o Cathedral?
Lee Dorian - Sobreviver de sua arte apesar de todas as modas, tendências e besteiras que sempre vêm e vão por 21 anos é um grande feito pra mim. Gravar o “Forest of Equilibrium” foi um dos grandes momentos, Tony Iommi gravando conosco “Utopian Blaster” em “The Carnival Bizzare” foi outro. São muitos...

Roça ‘n’ Roll - Lee, muito obrigado pela entrevista. Espero que curta sua vinda ao Brasil e deixe uma mensagem para seus fãs brasileiros.
Lee Dorian - Muito obrigado, não agüentamos mais esperar para estar aí e tocar para vocês. Estamos realmente empolgados. Valeu pelo apoio e nos veremos em breve. Stay Heavy!!!

Lee.

# # #

Terrorizer - Hordes of zombies
Ministry - Double tap
The Mars Volta - Noctourniquet

Anti-Nowhere League - We are the league
The Dwarves - How it´s done
Stiff Little Fingers - At the edge
Suicidal Tendencies - Nobody hears

Penny Mocks - Stickbacked (2012)

Mundo Livre s/a - Édipo, o homem que virou veículo
Câmbio Negro HC - Marionetes
Devotos - Brincando do jeito que dá
Eddie - Casa de marimbondo
Siba - Avante!

HWH - Sadness, madness, I don´t know
Snooze - pathetic
Pelvs - Even if the sun goes down (I´ll surf)

Black Sabbath - She´s gone
Apocalyptica - Sacra
Cathedral - Death of an anarchist

Jeronimo - News
Sweet - Heartbreak today
Cactus - song for Aries
Free - Heartbreaker

#




sábado, 17 de março de 2012

APR20: programação completa

(release) APR20: A cidade do Recife, naquela já distante ano de 1993, era uma cidade que precisava de mudanças. Era uma época onde um pedaço fundamental da música brasileira começava ser escrita ali mesmo, em uma “das três piores cidades do mundo”, como brincava Chico Science no lançamento da Nação Zumbi. Dono de uma loja de disco que já movimentava timidamente as noites locais, Paulo André Pires canalizava essa sua necessidade por mais em um projeto: juntar as bandas em um festival, igual aqueles que ele tinha visto quando morou nos Estados Unidos.

Vinte edições se passaram e o potencial transformador do Abril Pro Rock é incontestável. O festival transformou a cena local, levou o nome do Recife para a boca de todo fã de música do país, serviu de plataforma para que artistas locais ganhassem visibilidade, assinassem contratos, percorressem o país. Transformou-se em um modelo, que mais tarde inspiraria eventos similares em capitais pelo Brasil. Sem nunca perder seu caráter inovador e contestador, acompanhou e sobreviveu a todas as transformações da indústria da música do mundo. Foi do K7 ao MP3 sempre atento ao novo.

Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Pato Fu, Planet Hemp, Paralamas do Sucesso, O Rappa, Skank, Los Hermanos, Sepultura, Ratos de Porão e centenas de outros nomes fizeram parte dessa história. Muitos em seu começo, outros retornando já como consagrados. O Abril Pro Rock se transformou em um símbolo da cultura de Pernambuco que hoje é reconhecido nacionalmente, atraindo público de todo país, interessados em conhecer música do mundo inteiro. São 20 edições, onde foi palco para um quase infinito de histórias envolvendo o público, os artistas e todos que tiveram oportunidade de viver essa experiência.

Em sua vigésima edição, o Abril Pro Rock contempla quem fez parte dessa história e quem ainda vive essa necessidade eterna da mudança e transformação, representando o novo. Estão presentes o Mundo Livre S/A e Otto, que tocaram naquela mesma primeira edição de 1993, quando ainda não eram artistas com porte nacional, assim como o Los Hermanos e Ratos de Porão, que viveram diversos momentos de sua carreira no palco do festival. Apresenta o novo, que vem do Pará, de São Paulo e, sempre, de Pernambuco.

Ainda encontra espaço para realizar sonhos – entre tantos passados, como o Motorhead e os Mutantes – e traz pela primeira vez ao Brasil um dos principais nomes do Afrobeat mundial, o Antibalas. Diversifica ainda a noite com a fusão entre electro e kuduro do Buraka Som Sistema, que vem com exclusividade para o Abril Pro Rock no Brasil. Na tradicional noite do sábado, outra vontade antiga contemplada, os hermanos mexicanos do Brujeria se juntam ao Exodus, que mostram porque a noite é conhecida como “a noite pesada”.

Tudo isso para celebrar não 20 edições, mas esses últimos 19 anos onde a música pernambucana e seu público se firmaram com fundamentais pelo país. Pela nossa cidade ser parada obrigatória do circuito internacional de shows, e pelas brechas para infinitas mudanças e transformações por muitos mais anos por vir. Que venham mais 20 edições do festival!

APR20 – Abril Pro Rock 2012

Dias 20, 21 e 22 de abril
Chevrolet Hall – Av. Agamenon Magalhães, s/n, Complexo de Salgadinho. Olinda – PE

Ingressos:
Sexta-feira: R$60 (meia entrada) / R$70 + 1kg de alimento não perecível (social) / R$120 (inteira)
Sábado e domingo: R$30 (meia entrada) / R$40 + 1kg de alimento não perecível (social) / R$60 (inteira)
Ingressos à venda no Chevrolet Hall e Lojas Renner a partir do dia 15/03 (quinta-feira)
Censura: 16 anos

PROGRAMAÇÃO

SEXTA-FEIRA (20/04)

Los Hermanos (RJ)
A Banda Mais Bonita da Cidade (PR)
Tibério Azul (PE)
Banda Bis Pro Rock

SÁBADO (21/04)

Exodus (EUA)
Brujeria (MEX)
Cripple Bastards (ITA)
Ratos de Porão (SP)
Hellbenders (GO)
Firetomb (PE)
Pandemmy (PE)
Leptospirose (SP)
Test (SP)

DOMINGO (22/04)

Antibalas (EUA)
Buraka Som Sistema (Portugal / Angola)
Nada Surf (EUA)
Otto (PE)
Mundo Livre S/A (PE)
Leo Cavalcanti (SP)
Ska Maria Pastora (PE)
Bande Dessineé (PE)
Strobo (PA)

quinta-feira, 8 de março de 2012

unnu

Maria Scombona lançou “oficialmente” na última terça-feira, dia 06 de março de 2012, seu terceiro disco, "unnu" - em vinil, CD, CDr, mp3 para download e, breve, fita cassete! Foi num evento informal e descontraído promovido no auditório do SESC Centro para convidados, notadamente pessoas da imprensa, músicos e chegados da banda. Com direito a pocket show e participações ao Vivo, via internet, de pessoas que fizeram parte da produção do álbum, dentre elas o representante da fábrica que prensou o vinil, Clênio Lemos, falando da Republica checa. Entre um e outro gole de vinho ele narrou sua saga em busca de parceiros para a empreitada de fazer ressurgir a cultura do vinil no Brasil, algo que, na Europa, nunca desapareceu. Provocado, deu também sua opinião sobre a banda, que ele não conhecia e o surpreendeu – fez, inclusive, um interessante paralelo com o trabalho do pernambucano Lenine, algo no qual eu nunca tinha pensado (é sempre interessante uma opinião de quem vê “de fora”), pela pegada “bluesy” condimentada com regionalismo mas, principalmente, pelo sotaque.

O sotaque, aliás, foi uma das principais pautas da entrevista coletiva que se seguiu, o que nos leva a questionar o porque deste estranhamento com o jeito sergipano de falar aqui mesmo, em Sergipe! A única explicação plausível remete à baixa auto-estima de nosso povo, que faz com que boa parte de nossos artistas, radialistas e comunicadores em geral tentem esconder suas origens com maneirismos “sulistas” no falar e no cantar. Algo que, para a alegria de todos e felicidade geral da nação serigy, creio que está mudando – um dos participantes via net, falando de São Paulo, fez uma observação perfeita: o sergipano parece ficar deslumbrado consigo mesmo ao se ver frente a frente com obras de qualidade feitas por gente que não esconde suas origens.

O bate-papo seguiu fluindo com desenvoltura, entre uma e outra apresentação ao vivo de musicas do disco - que eu não ouvi ainda por inteiro, mas cuja arte de capa e encarte está deslumbrante. Dentre outros assuntos, foi discutida a viabilidade mercadológica deste tipo de lançamento, numa midia dada como morta por alguns desavisados, nos dias de hoje - algo destinado, obviamente, a colecionadores - ; a hesitação de Henrique diante do tamanho da empreitada (“Rafael, vamos desistir, é muito caro!” “Teles, já era, vamos nessa”); a concepção musical do álbum, gravado ao vivo e sem overdubs; a evolução do som da banda depois de sua junção com o Ferraro Trio, hoje mais próxima ao rock justamente pelo teor “enxuto” dos arranjos e, principalmente, o fato de que a produção acabou destacando o talento de Henrique Teles como letrista e vocalista, mesmo numa sonoridade mais “roqueira”, que costuma colocar a voz na mesma amplitude dos demais instrumentos.

A Maria Scombona existe desde 1992. Eu me lembro de Silvio, da Karne Krua (que, por sinal, foi homenageado na noite do lançamento), me falando, numa época ainda pré-mangue beat, de um artista novo que estava aparecendo com a proposta de juntar o rock à musica regional, tendo como referência o que Alceu Valença (ídolo confesso de Henrique Teles), Zé Ramalho, Lula Côrtes e outros faziam nos anos 70. Mas a banda, segundo eles mesmos, só “aconteceu” de fato dez anos depois, com o lançamento de seu primeiro disco, “grão”, em 2002. De lá pra cá só tem crescido, sendo presença constante nos principais eventos culturais do estado e se apresentando em palcos importantes da cena musical brasileira, como o Festival de Verão de Salvador, o Festival de Inverno de Garanhuns e o Projeto Prata da Casa do Sesc Pompéia, em São Paulo.

No segundo álbum, ‘Mais de Um... Nós’, de 2007, já fica evidente a preocupação estética da banda, que apresenta uma arte primorosa de capa e encarte para emoldurar seu trabalho. Por esta época eles se lançaram em projetos de grande reconhecimento e alcance social e cultural, como o “Mundo rock interior”, através do qual percorreram 10 cidades sergipanas dividindo o palco com artistas locais e revertendo a renda dos shows para instituições filantrópicas, e o “Circuito Escolar Maria Scombona”, na capital, onde fizeram diversos “workshops” e oficinas de musica para estudantes de escolas públicas. Isso pra não falar das antológicas apresentações da série “Maria Scombona convida”, no Capitão Cook.

“ unnu ”, o disco, já está à venda e pode ser adquirido com a própria banda aqui ou em um dos vários pontos de venda da cidade, dentre eles a Freedom, única loja especializada no gênero (rock!) em Aracaju.

A Freedom fica na Rua Santa Luzia, 151, no centro, próximo à Catedral.

Eu recomendo. Maria Scombona é “gente que faz”.

Adelvan

sábado, 3 de março de 2012

pdrock, Hoje, só na net ...

Ao contrário da semana passada, hoje é a radio propriamente dita que está fora do ar, então o programa de rock vai rolar apenas via net, e só com musica, sem locução ao vivo. Tocarei 3 sons novos que já estavam programados (pra não perder o frescor da novidade) e depois chafurdarei na lama de nossos arquivos para fazer um programa retrospectivo. Os sons novos são "Hordes of zombies", do Terrorizer, "Double tap", do Ministry, e "Noctourniquet", do Mars Volta.

Grato pela pela audiência e pela atenção de todos ...

Adelvan.

PS: Abaixo, uma entrevista recente com o Terrorizer, publicada originalmente no site português "Misantropia extrema":

“Donos” de um dos discos que definem o que é o grindcore («World Downfall», de 1989), os Terrorizer protagonizaram um estrondoso regresso à cena em 2006 com «Darker Days Ahead» e o grupo parecia definitivamente lançado para retomar a carreira quando a tragédia se abateu sobre ele. O guitarrista Jesse Pintado falecia de doença hepática em 2006, deixando os Terrorizer com um enorme buraco por preencher na sua formação e um ponto de interrogação em relação ao futuro. Este é, no entanto, o ano de mais um regresso da banda: Pete Sandoval (bateria), Anthony “Wolf” Rezhawk (voz), a recrutada Katina Culture (guitarra) e um regressado David Vincent (baixo) gravaram um senhor petardo chamado «Hordes Of Zombies», que marca o ano em termos de grindcore e parecem mais motivados que nunca para recuperar o trono do estilo que em tempos lhes pertenceu. Wolf falou com a Misantropia Extrema.

Quando começaram a composição para este novo álbum e como decorreu o processo até terem o disco terminado?
A composição do disco começou no final de Setembro de 2008 e começámos a gravação em Janeiro de 2009. A Kat e eu escrevemos 13 músicas num fim-de-semana mais uma série de riffs extra para tocarmos em jams e possíveis ideias para quando o Pete chegasse para gravar a bateria, de modo a termos material extra se fosse necessário. Quando o Pete e eu discutimos a ideia de um possível novo disco o nosso plano era gravar uma demo de cinco faixas, mas uma vez que a providência nos deu um processo de composição suave, sentimos que tínhamos possibilidade de gravar a bateria para um álbum inteiro, especialmente porque o Pete ia ser submetido a uma cirurgia às costas. Pessoalmente achei que seria uma boa ideia, porque nos permitiria terminar o disco enquanto ele estivesse em recuperação. A princípio fizemos apenas a demo de cinco faixas. Quando a terminámos, na Primavera de 2009, enviei-a ao Leif Jensen da Clandestine Music, com quem tive o prazer de trabalhar no lançamento anterior dos Terrorizer, «Darker Days Ahead». Senti que ele seria a pessoa certa para trabalhar connosco no que dizia respeito a encontrar-nos uma editora. Quando lhe enviei a demo ele disse-me que gostava do material e que faria o que pudesse para nos encontrar uma “casa” para este novo lançamento. Infelizmente demorámos um pouco mais do que pensávamos inicialmente e não conseguimos que uma editora decente se interessasse pelo projecto até 2011. Mas somos pacientes e crentes firmes, tanto a nível físico como espiritual. Quando embarcámos nesta viagem sabia que tínhamos que ter o espírito da aranha, porque iríamos construir lentamente a nossa teia. Uma vez que já tínhamos a bateria gravada, assim que obtivemos luz verde da editora a Kat gravou as guitarras finais e eu gravei as vozes. Como a Season Of Mist estava envolvida no processo, pedimos ao David Vincent para nos ajudar na gravação. Já tínhamos pensado noutra pessoa, mas disseram-nos que faria sentido tê-lo a ele por causa do legado passado e concordámos em convidá-lo. O Pete falou com o David e disse-lhe que todo o material estava já composto e tudo o que precisávamos era que ele gravasse o baixo no disco. Ele concordou e o resto é história. Foi por essa altura que o Leif nos deu uma lista de possíveis produtores; quando vi o Dan Swanö na lista apareceu logo um sorriso na minha cara. E o facto do Leif nos ter dito que ele estava interessado fez uma grande diferença para mim. Depois de ouvir os últimos trabalhos dele e, claro, estando perfeitamente consciente do legado dele, acrescentado ao facto de ser fã do espírito musical da Escandinávia, tornou-se óbvio que não precisava de procurar mais. Ele é uma pessoa espantosa e achamos que fez um trabalho incrível com o «Hordes Of Zombies».

Foi difícil começar a falar num novo álbum dos Terorrizer depois da morte do Jesse?
Pessoalmente foi, mas para ser sincero era uma decisão que cabia ao Pete, porque ele é o único elemento original. Quando me perguntou se estava interessado em gravar uma demo conversámos sobre a ausência do Jesse e o ele disse-me que ele estava muito motivado e que a vontade dele seria dar continuidade ao legado. Disse-me que o Jesse quereria que continuássemos, o que para ser sincero fez todo o sentido para mim, porque quem conhecia o Jesse sabia que ele adorava música e que era uma das poucas pessoas sem uma ponta de ciúme pelo trabalho dos outros. Em vez disso, apoiava-os e incentivava-os. Durante as gravações do «Darker Days Ahead», a caminho do hotel em que estávamos hospedados, o Jesse disse-me que tinha ponderado a hipótese de se reformar como músico ao vivo mas que gostaria de continuar a compor para nós e connosco. O seu espírito vive com a música que escrevemos para este álbum.

A banda esteve, em alguma altura, em risco de não continuar?
Creio que não. Apenas precisámos de cumprir um período de luto, até para desanuviarmos os nossos corações e mentes e recomeçarmos frescos.

Como chegaram à Katina Culture para a posição de nova guitarrista da banda? Que contribuição criativa teve ela para o disco?
Essa questão leva-nos de volta a quando eu e o Pete falámos pela primeira vez em gravar uma nova demo. Ele perguntou-me quem poderíamos convidar para tocar guitarra. Sem hesitar disse-lhe que podia convidar a Kat se ele achasse bem, uma vez que eu e ela temos tocado juntos nos Resistant Culture há mais de uma década e ela tinha tocado com o Jesse quando ele se juntou à banda depois de sair dos Napalm Death, na altura em que gravou o álbum «Welcome To Reality» connosco. É óbvio que a Kat e o Jesse passaram muito tempo a fazer jams e que ele adorava tocar com ela. No que diz respeito a contribuição criativa, foi basicamente a Kat que escreveu todo o álbum. E há mais de onde este veio.

Ela tem uma grande responsabilidade em substituir o Jesse… Como se tem estado a adaptar?
Bem, a Kat tem formação clássica e toca guitarra desde os 12 anos, por isso sente-se muito confortável com uma guitarra na mão. Ele consegue ler e tocar música de uma pauta, o que a torna uma artista fantástica, por isso não é uma situação complicada, uma vez que ela está basicamente a fazer o que nasceu para fazer. Julgo que é mais a responsabilidade de cumprir o seu próprio destino.

Chegaram a pensar em outras possibilidades para o lugar?
Nem por isso. Se ela tivesse recusado, aí sim, pensaríamos noutra pessoa qualquer.

Este já é o teu segundo lançamento na banda. O trabalho que fizeste ficou mais facilitado porque já sabias basicamente o que te esperava ou as coisas correram de forma similar ao disco anterior «Darker Days Ahead»?
Desta vez foi muito mais fácil em vários aspectos. Primeiro, pude escrever todo o material com a Kat. Basicamente tinha todo o conceito na cabeça e ela ajudou-me a materializá-lo. Depois, assumi os papeis de produtor e director artístico, o que me ocupou bastante durante um bom tempo. Se tivesse havido mais gente envolvida o disco não seria o que é. Pessoalmente sinto-me satisfeito por ter desempenhado estas tarefas. O «Darker Days Ahead» não incluiu nenhuma das minhas ideias para além das letras e, para dizer a verdade, foi um pouco doloroso para mim porque estou habituado a estar envolvido no processo criativo de tudo aquilo em que me meto; seja na arte gráfica ou na música.

Queres revelar-nos um pouco do conceito em que as letras do disco se baseiam? Não é puro gore como o título sugere, pois não?
O único tema mais ligado ao gore desta vez é possivelmente o tema-título, que fala basicamente do papel que a humanidade está a desempenhar na destruição do ambiente, devido à falta de uma verdadeira perspectiva. A maioria dos humanos são zombies a passar pela vida, negligenciando a sua verdadeira natureza e destruindo tudo o que encontram pelo caminho. Na minha opinião, as motivações por detrás deste comportamento são a ganância e a religião, as duas principais filosofias da cultura – ou civilização – dominante, que mantém toda a gente cega e com medo. A maioria das canções fala dos assuntos sociais, políticos ou ambientais que afectam o mundo actualmente. Em alguns casos apontam um comportamento ou doença, mental ou espiritual. Se os títulos das faixas parecem ameaçadores não é porque estejamos a escrever temas gore só para serem gore; é, antes, o facto da própria vida ser, nesta altura, um pouco assustadora. Pessoas sem emprego, abrigo, comida saudável, água potável, ar puro, etc… São este tipo de coisas que fazem os “típicos” filmes de ficção científica tornarem-se realidade nas nossas vidas quotidianas. O facto de estarmos a espoliar o planeta de todas as suas reservas naturais também é assustador. Esta civilização depende dessas reservas e, como tudo o resto, uma vez que abusamos delas, vão eventualmente esgotar-se. Quando isso acontecer todos os zombies vão erguer-se à procura da nossa comida, água, combustível, etc. A não ser que corrijamos ou redireccionemos a nossa energia para algo mais auto-suficiente e levemos uma forma de vida menos consumista, temos um bilhete só de ida para a total aniquilação do ser humano.

Os Terrorizer têm na sua discografia um dos grandes clássicos do grindcore: o «World Downfall». Encaram-no como uma espécie de “adversário”, com que todos os vossos novos lançamentos vão sempre ser comparados?
Não o encaramos como adversário de forma nenhuma, mas obviamente como em qualquer banda queremos sempre fazer o melhor produto possível. E nesta altura não preciso de sublinhar que lançar um novo disco é sempre um enorme desafio. Acho que cada trabalho marca um tempo e espaço… O que é bom nesta banda é que todos carregamos o fogo sagrado da música extrema bem dentro dos nossos corações e almas.

Com o Pete e o David nos Morbid Angel, achas que vai haver possibilidade dos Terrorizer promoverem este novo disco ao vivo?
Vão com certeza existir concertos dos Terrorizer. O Pete não está a tocar nos Morbid Angel neste momento e já expressou a sua vontade e interesse em tocar ao vivo com os Terrorizer nesta fase. O David foi um baixista convidado para a gravação e, como sabes, ele está muito ocupado com os Morbid Angel, por isso o mais certo é que não vá para a estrada connosco.

Este é o segundo álbum que lançam num período de seis anos. Achas que este projecto se pode tornar numa banda “a sério” e lançar discos a um ritmo regular? Já existem, por exemplo, conversas sobre o próximo lançamento?
Oh sim! Já estamos a planear o próximo disco. Temos muitas ideias novas e estamos ansiosos por gravá-las em estúdio. Devemos começar a compor material novo muito em breve, porque gostaríamos de continuar a ter um fluxo contínuo de novos álbuns.

Como estão os Resistant Culture actualmente?
Os Resistant Culture estão bem, obrigado. Já temos um novo álbum pronto a gravar e posso dizer que contratámos os serviços de mistura do Dan Swanö. Já temos uma demo de quatro faixas pronta e soa muito bem! É brutal, com um cheiro de poder místico. Estamos mais que prontos para começarmos a procurar uma editora. Uma das coisas que nos define é que adoramos um bom desafio e não temos medo de trabalhar no duro.