quarta-feira, 13 de julho de 2011

Da Fúria à melancolia ...

O livro “Da Fúria à Melancolia” (Editora UFS, 2010, 377 páginas) é uma publicação de teor acadêmico (uma tese de doutorado) realizada pelo professor e músico sergipano Hugo Leonardo Ribeiro. Apesar do enfoque, tangencia do lugar comum por abordar um gênero musical – Metal – mantendo o caráter didático e cultural, numa linguagem acessível. Hugo é músico, professor universitário na UnB com doutorado em Etnomusicologia. Foi guitarrista do Warlord, conhecida banda sergipana de heavy metal dos anos 90. Sua tese livro é sobre o gênero Metal, apresentando três casos de subgêneros surgidas na cena underground de Aracaju (CRUA) – as bandas The Warlord, Sign of Hate e Scarlet Peace. É um estudo de cunho universal, pois serve de referência para outros cenários de mesma linguagem. O livro apresenta detalhes técnicos sobre composições, estudos de comportamento, além do contexto histórico com registros fotográficos e até partituras de músicas. Um trabalho precioso de pesquisa, bem produzido e recomendável para pesquisadores, músicos e demais interessados pelo Metal. Conversei com o autor sobre a importância desse trabalho:

A tese deu origem ao livro ou essa publicação estava projetada assim mesmo?

Hugo: Sim, o livro é uma reprodução da tese. Com pequenas modificações somente.

Era pensamento seu registrar algo histórico como a cena rock em Aracaju?

Hugo: Após ter feito, durante o mestrado, uma pesquisa sobre os chamados grupos “folclóricos” (também publicado em livro sob o título “As Taieiras”), me ensinando bastante sobre o necessário distanciamento para uma visão científica do objeto de estudo, resolvi que, para o doutorado, gostaria de trabalhar com um repertório musical que me agradasse mais. Que fosse mais próximo do meu gosto pessoal. Escrevi um pequeno texto sobre a cena underground em Aracaju, que apresentei num congresso em 2003 e daí veio a idéia. A intenção sempre foi a de identificar essas fronteiras estilísticas que os insiders conhecem tão bem, mas que os outsiders desconhecem. E o pior é que eu pensei que conhecia até começar a fazer a pesquisa. Até então, nunca tinha ouvido Death ou Black Metal. Fiquei encantado. Logo, como iria trabalhar com essa cena, uma perspectiva histórica seria necessário. Sei que ainda está longe do ideal, mas já é alguma informação sobre como foi à cena há algumas décadas atrás. Logo depois de ter escrito a tese, minha intenção foi a de organizar um livro coletivo sobre a história da CRUA, sob a perspectiva dos participantes de cada época. Seria um livro com mais ou menos dezesseis capítulos organizados em décadas: 1970, 1980, 1990, 2000. Daí eu convidaria quatro pessoas que participaram ativamente em cada uma dessas décadas para escrever sobre suas experiências e fatos interessantes. A idéia continua viva, só estou muito ocupado no momento para pô-la em prática…

Você concorda que somos carentes em publicações à respeito da música underground em todo país?

Hugo: Sim, mas isso está mudando aos poucos. O problema é que, só temos revistas que fornecem informações sobre o que acontece no Rio e São Paulo. Outras cenas ficam sem voz. O que é muito interessante, pois viramos o underground do underground, hehehe. Isso muda um pouco se levarmos em consideração os fanzines locais ou regionais, mas que têm pouca projeção nacional, o que não agrega legitimação ao seu conteúdo. No entanto, os metaleiros de ontem estão se tornando os pós-graduados de hoje, e nada mais natural que eles procurem fazer pesquisa nessa área obscura por natureza (ou por ideologia). Logo, algumas áreas chave já estão produzindo diversos textos sobre as mais diversas cenas underground no Brasil: Comunicação, Literatura, Sociologia e Antropologia. Tem até um trabalho em Geografia sobre a cena punk em Londrina-PR. Só recentemente que a música tem aberto espaço para esse tipo de pesquisa. O mundo acadêmico da música é muito conservador. A minha foi a primeira tese de doutorado (quiçá de pós-graduação) em música a abordar Metal. Logo em seguida veio a da Cláudia Azevedo, sobre o Black Metal, da qual tive a honra de ser convidado para a banca. E o mais legal é que aos poucos esse material vai sendo publicado.

Qual a tiragem do livro e de que forma você está comercializando?

Hugo: O livro teve tiragem inicial de 500 cópias e foi publicado pela Editora da Universidade Federal de Sergipe. Eles me deram 100 cópias, que já foram quase todas distribuídas entre colegas, participantes da cena e outros. O livro pode ser adquirido diretamente pela Editora da UFS no site <> ou pelo email <>. Também está sendo vendido pela livraria e editora Musimed através do site <>.

Como você se sente em ter realizado esse trabalho?

Hugo: Gostei muito do resultado. Aprendi muito conversando com todos os envolvidos na pesquisa, e abri muito mais minha cabeça para sons que eu não ouvia/entendia. Hoje ouço muito metal extremo como Carcass, Napalm Death e Dying Fetus. Espero que, os poucos que se aventurem a ler esse texto, mesmo que pulem as partes muito técnicas da análise musical, consigam ter uma visão mais abrangente do que é uma cena metal. Creio que esse deva ser o objetivo de toda pesquisa científica, mudar o estado das coisas. Estou feliz

Quais os comentários que tem recebido sobre ele?

Hugo: Na verdade, poucas pessoas tiveram a oportunidade de ler com calma e na íntegra o livro. É um lançamento recente e, como disse anteriormente, existe uma parte muito específica de análise musical que afasta os leigos. Mas os poucos que me deram um retorno disseram que gostaram muito do livro. Principalmente porque a escrita é leve e fácil de ser entendida. Em 2009 fui até Colônia, na Alemanha, apresentar uma comunicação num congresso sobre Metal e Gênero. Foi um pequeno resumo das análises musicais da tese. E a turma lá gostou muito do trabalho, e das bandas. Principalmente da Scarlet Peace. A Deena Weistein, autora do livro “Heavy Metal: its music and its culture”, publicado em 1991, uma das primeiras pessoas a escrever sobre Metal no mundo, gostou muito da banda The Warlord. Ela disse que seria natural, já que adora o Manowar e que ambas têm muito em comum. Logo, ao tempo que estou disseminando um pouco mais de informação sobre a cultura metal em geral, estou levando um pouco das bandas sergipanas para um público maior. E isso em si já é gratificante. São bandas sérias que estão em constante melhora, e merecem serem conhecidas.

Você vivenciou esse cenário underground tocando numa banda de metal. Poderia fazer uma abordagem do que é ter uma banda e ser músico no meio independente?

Hugo: É ter amor à música. Só tem banda nessa cena, e que permanece ativa por anos ou décadas (como as estudadas) é quem toca por prazer. Obviamente existem aqueles que fazem bandas ou entram em bandas somente para obter algum tipo de reconhecimento local ou factual. Mas esses rapidamente desistem, pois essa noção de sucesso é efêmera nesse contexto. Uma banda como a Scarlet Peace, por exemplo, não faz música para ganhar dinheiro. Muito ao contrário. O gasto pessoal e financeiro que é exigido para manter uma banda com um nível de qualidade razoável é muito alto. Logo, pagamos para tocar. Essa é a verdade. Mas fazemos com prazer. Quando o prazer acaba, fica insustentável manter uma banda desse tipo. Foi o que aconteceu com a The Warlord. Boa parte dos músicos perdeu o prazer de tocar como diversão, como o hobby do final de semana. E por isso a banda não conseguiu se manter. Nessas horas, é sempre possível trocar os integrantes, mas é muito desgastante para um membro, como Otávio, segurar a onda toda nas costas. Ter banda é dividir responsabilidade. É diferente de projetos solos. E nós vemos muito poucos projetos solos na cena underground. É caro manter e muito desgastante. Tenho vivido com músicos profissionais (de música Pop ou de orquestras) e são os piores para se fazer uma banda, pois são muito mercenários. Só querem formar uma banda ou tocar em algum evento se houver retorno financeiro. Muitos deles se esqueceram de fazer boa música (seja lá o que isso for) somente pelo prazer de fazer e se sentir capaz de fazê-la. Sei que o músico precisa comer. (ver poesia de André Agui em: http://andreagui-livros.blogspot.com/2009_12_01_archive.html). Mas e a diversão, onde fica? Fico triste de não conseguir voltar a tocar o que quero e gosto. Seja por que os bons músicos só querem tocar por dinheiro, ou não tem tempo. Seja por que quem quer tocar por diversão é muito novo, sem qualidade técnica ou responsabilidade. Hoje me sinto deslocado. Terei que me adaptar para fazer música de alguma forma. Ou então, fazer como um amigo e excelente guitarrista: ficar tocando com playback no quarto.

O gênero Metal vem mantendo uma linha sonora ao longo dessas décadas sem perder a essência, apesar de incrementos adicionados durante esse tempo. Existe algo especifico que possa definir essa verdade?

Hugo: Como descrevo no livro, o Metal vem se transformando muito durante todo esse tempo e, atualmente, existem pouquíssimas coisas que você reconheça como comum a todos os estilos. Por exemplo, não é velocidade (vide o Doom Metal), nem virtuosismo. Não é a presença ou ausência de um instrumento como o teclado. Nem a qualidade vocal agressiva (vide bandas de Metal com vocais femininos líricos, ou o próprio Helloween na fase do Michael Kiske). Diria que, o único elemento que caracteriza uma banda de metal é o fato da maioria das músicas serem baseadas em riffs de guitarra distorcida. Digo maioria, pois ainda assim, existem as baladas a la Scorpions, que são importantíssimas na cena.

Contato: hugoleo75@gmail.com

Fonte: Yellow Domain

por Jesuino André

terça-feira, 12 de julho de 2011

Do Sol Latente Ao Cinza das Ruas

"Inanição", o terceiro disco da Karne Krua, saiu, finalmente. Encontra-se à venda a partir de hoje, 13 de julho de 2011 ( Dia Internacional do rock ) na loja Freedom, que fica na Rua Santa Luzia, 151, no centro de Aracaju, próximo à catedral Metropolitana. Na próxima sexta-feira os caras da banda estarão ao vivo nos estúdios da Aperipê FM para contar como foi esta saga no programa de rock.

Abaixo, um texto de Alexandre Gandhi, o guitarrista da banda, sobre o disco:

Voltando um pouco no tempo acho que dá para se localizar melhor. Lembro claramente que quando eu tocava na Gee-o-Die eu andava muito na Freedom quando a loja era na Galeria Cortês, na Rua São Cristovão, em frente ao Edifício Futuro. Tudo nessa cidade, para quem vive nela, é tão parte de si, que acaba por se lembrar de muitos momentos em certos lugares da cidade, para não dizer em quase todos. Anos depois tive uma experiência artística fora do comum, já cursando Artes Visuais pela UFS, naquele edifício. Aquela área da cidade já era muito comum para mim, mesmo antes de andar na galeria com Thiago Stress, fumando Malboro vermelho e trocando idéias com Silvio sobre Rock. Era o tempo todo ali, sentado na escadaria, fumando cigarro e ouvindo rock. O Rock-SE já havia passado e quem tinha ido, principalmente os mais iniciantes no mundo do rock, se sentiam mais rockeiros depois daquele evento. Sim, havia visto a Karne Krua lá no Batistão e não tinha gostado tanto assim. Mas as idéias estavam mudando, o hardcore estava tomando conta da cabeça quando antes só era ocupada pelo metal e algumas outras bandas, as coisas estavam mudando. Sim, estavam mudando tanto que a minha banda tinha saído dos tempos de covers e começava a tocar musicas próprias, o que era bastante legal. Meio que lá, meio que cá do hardcore melódico, mais puxado pra o HC Oldschool, os sons saiam e a banda ia tomando forma. Silvio gostava bastante da Gee-O-Die e começou a distribuir fitinhas de "Fúria, Revolta e Dor" para o Braisl inteiro junto com suas correspondências. Virava e mexia eu recebia uma carta de alguém de algum recanto escondido nos submundos anarcopunks querendo saber do som da Gee-O-Die. E eu mandava mais fitas para fora, muito mais fitas...

E foi assim que minha amizade com Silvio começou. Foi ali na Galeria Cortês que eu conheci quase tudo da Karne Krua. Acho que o trabalho mais fresco era o "Máscaras para o Caos", mas me lembro de ter gostado bastante de "Instantes Irreversíveis". Musica visceral naquela fita K7. E eu me borrava todo quando ouvia "As Crianças da Usina Nuclear", assim como me borrava quando ouvia "Animal Boy" dos Ramones. Interessante, não havia gostado do Ramones de primeira, nem tão pouco da Karne... agora me borrava todo ouvindo. E foi assim que virei um aficcionado por ambas. Muito mais pela Karne Krua. E em pouco tempo eu já tinha o maior número possível de material e já sabia quase tudo de trás pra frente e de frente pra trás. E minha amizade com Silvio crescia e a minha estadia no rock sergipano parecia duradoura.

E no passar do tempo a Gee-O-Die acabou. Os motivos: não sei se dá para listá-los. Acho que o gosto já não era comum, cada um da banda estava gostando de uma coisa, e naquela imaturidade onde Tennage Fan Club ou Belle e Sebastian nunca rimará com Agathocles a banda acabou. Mas eu tinha entrado pra a Merda di Mendigo e aquilo sim me manteria no rock - na verdade ali foi uma grande escola pra mim... não é a toa que a parada foi parar na Da Boca Ao Reto, pra mim, o som perfeito, nada a dever a meio mundo de banda que pago pau. Enfim, aqui o assunto é Karne Krua...

Quando comprei minha primeira guitarra, a qual toco até hoje, Wendell foi quem deu uma tocada nela antes que eu a levasse. Eu era um pivete que não sabia tocar nada e Wendell estava na loja. Pegou a guitarra e começou a tirar um som. Senti que a guitarra tinha timbre, tinha potencial, só faltava eu saber tocar. Ele confirmou que era uma boa guitarra e realmente hoje acho ela uma ótima guitarra, está comigo até hoje. E muito tempo passou até eu sacar que Wendell tocava na Karne Krua naquela época... parece coisa de destino traçado, viagem... e muitas formações passaram pela Karne e naquele Rock-SE a formação era Dejair no baixo, Valdeleno na bateria e Wendell na guitarra, e mesmo naquele show eu ainda não sabia que era Wendell que tinha tocado na minha guitarra quando eu a comprei... isso não importava, a banda não tinha me agradado mesmo.

Mas o tempo passou e como eu havia dito fiquei fã da banda, um pouco depois do Rock-SE, quando conheci Silvio. E Valdeleno saiu da bateria. Rony entrou rapidamente e a Karne Krua não era mais a mesma. Tinha algo de errado. Senti vergonha de um show que eles fizeram no antigo Tequila Café. Um show horrível. Sendo amigo de Silvio, acabei comentando sobre o show e a opinião foi igual. Show horrível. Algum tempo depois, Max Alberto, que estava participando da Karne como uma espécie de ajudante ideológico (a Karne Krua, com Instantes Irreversíveis, se aprofundou no tema do êxodo rural, seca nordestina e miséria do homem do campo), começou a cantar junto com Silvio. "Máscaras para o Caos" foi lançada e, provavelmente, já havia sido lançado o embrião para o disco Em Carne Viva. A banda tava sem baterista... e agora?

Eu: Silvio, porque você não chama Thiago Babalu pra tocar na Karne?

Porra, ele é um bom baterista, será que ele toparia tocar?

Vou falar com ele, se ele aceitar eu já passo algumas músicas pra ele. Gravo em K7 das fitas que tenho e passo pra ele, ok?

Tranqüilo, depois você me diz o que ele disse.

E Babalu aceitou tocar na Karne Krua. Passei uma fitinha de 90 minutos com meio mundo de som da Karne. Nem sei se foi fita de noventa minutos, só sei que a fita tinha som pra burro, a Karne Krua tem bem mais que 70 composições, tirem por ai... e Babalu caiu direto em estúdio pra gravar o "Em Carne Viva". Tava lá acompanhando as gravações de perto.

Eu: Babalu, a bateria é assim, pára no prato de ataque, trá tun tun tum. Sacou?

E o fi-da-peste pegou tudo certinho e gravou o disco. Esgotado por sinal... e ficou tocando na Karne por um bom tempo... e fez show de lançamento do cd e meio mundo de show por ai...

Certa vez, na antiga Casa Laranja, me encontrei com Max Alberto. Nos víamos direto nos shows e começávamos a conversar. E sempre o assunto era a Karne Krua, era o lirismo, era a força do hardcore da Karne. Eu, entrão todo, disse: cara, queria ver um ensaio da Karne, quem sabe tirar um som com vocês. Max disse: apareça no estúdio tal do Augusto Franco. Nesse tempo a Karne era Mazinho na guitarra (que havia gravado baixo no Em Carne Viva), Jamesson no baixo, Silvio, Max e Babalu. E Lá fui eu, para o ensaio, com minha guitarra. E como já era muito amigo de todos, fui incorporado ao ensaio tranquilamente. E como já sabia as músicas todas, tocar algumas delas não foi problema, e como o entrosamento com Sílvio já era grande, nasceu a partir de uma idéia dele "Infinitivos", um dos primeiros sons do pretenso "Do Sol Latente Ao Cinza das Ruas".

Esse era o nome do disco: Do Sol Latente Ao Cinza das Ruas. A formação seria: eu estabelecido na guitarra da Karne Krua, Mazinho na outra guitarra, Jamesson no baixo, Silvio e Max cantando e Babalu na bateria. Essa formação tava mais afiada que punhal de cangaceiro, mais amolado que espada de samurai. Fizemos muitos shows com essa formação, cada um mais destruidor que o outro. Até o dia em que fomos tocar com Marcelo Nova no Mercado Central. Evento bacana, inusitado, como foi inusitada uma mega discussão entre alguns integrantes da banda e produtores do evento (que eram envolvidos com a banda) em pleno palco, durante o show. Coisa de doido! "Vá se fuder!", "Vá tomar no cu" e outras frases delicadas foram trocadas. E essa formação da Karne começou a passar.

Max já saiu do palco desse show sem ser integrante da banda. Mazinho saiu logo depois, por motivo de trabalho. Restaram eu, Silvio, Jamessom e Babalu e algumas músicas do disco que iria ser feito.

Fizemos muitos shows. A banda continuava afiada e cada vez mais pesada. Cada show era uma porradaria só. Parece que as dificuldades estavam deixando a Karne mais revoltada. E vários show foram feitos com essa formação. Já não sabia ao certo quanto tempo estava na Karne Krua. É como se entrasse num lapso temporário que não importava, só a força dos fatos.

Eu e Babalu estávamos tocando na Da Boca Ao Reto e estávamos esbagaçando por lá. Arregaçando caixa de bateria e cubos de guitarra. Uma gritaria dos infernos. Uma doidera literalmente. E isso veio parar na Karne Krua. Musicas mais complexas, mais trabalhadas e mais destruidoras.

Estávamos com quase tudo pronto para o novo disco quando nas carreiras Babalu teve que ir pra São Paulo. E Jamesson também. Um corre corre danado para deixar registradas as baterias do novo disco. Babalu gravou e poucos dias depois partiu para a cidade grande para iniciar o ciclo do êxodo rural. Para Jamesson nem deu tempo de gravar os baixos, algumas músicas não estavam realmente acabadas.

E a Karne Krua secou. Secou como rio intermitente. E sobrou eu e Silvio e uma gravação de bateria.

"Meu irmão, o que vamos fazer?", indagou Silvio.

É Silvio. Vamos gravar o disco. Nem que eu banque essa gravação, vamos terminar esse disco, temos a bateria gravada. Vamos chamar outras pessoas pra tocar na banda, mas essa gravação é da nossa obrigação acabar, vamos acabar nós dois.

E foi desse jeito que "Do Sol Latente Ao Cinza Das Ruas" foi gravado. Eu acabei gravando baixos, guitarras e backing vocals. E de tão seco que foi gravar, acabou por virar "Inanição", música que quando gravada se destacou dentre as outras, pois sintetizava tudo que o disco queria dizer. Inanição. E desde que a bateria foi gravada até a ultima etapa do disco passou-se tempo suficiente para maturar uma nova formação, novas composições surgiram, mas um foco lá atrás, naquele disco que ainda não estava nas ruas, aquele disco que nasceu ideologicamente em outro tempo, juntamente com outras pessoas, que não mais participam do grupo, mas emanaram as suas energias para as composições e o fundamento teórico. "Inanição" é um disco que a Karne Krua não mais lançará, não mais conseguirá compor. É um disco que já nasce velho, mas como todo velho é cheio de sabedoria, cheio de história para contar. Sem sombra de dúvidas é um disco que considero um dos melhores do rock sergipano (falo como fã, antes mesmo de ser integrante da banda, e antes mesmo de ter gravado o disco, porque o disco não me pertence, ele pertence a uma banda que tem quase a minha idade, e não consideraria uma pessoa dois anos mais nova inferior a mim).

Lembro das palavras de Walter Benjamin sobre a autonomia da obra de arte. Ele dizia que a peça, quando finalizada, adquire a aura da obra de arte. E é essa aura que faz com que saibamos, mesmo sem saber ao certo, que ali está uma obra de arte. Esqueçam as abordagens sobre reprodução do teórico da Escola de Frankfurt. Disco é isso, é reprodução, mas a música tem o poder da mais perfeita das manifestações artísticas: o poder de seduzir por sons, algo perfeitamente abstrato. E eu nunca imaginaria naquele dia, naquela loja localizada lá na Praça da Catedral, que aquela guitarra um dia ia gravar um disco da mesma banda do cara que testou a guitarra pra mim, quando eu arranhava meus primeiros acordes...

segunda-feira, 11 de julho de 2011

(*) Celebrate good times, c´mon ...

Não poderia deixar de fazer aqui o registro da verdadeira celebração que foi a noite de lançamento do primeiro CD da The Baggios sexta-feira passada na Rua da Cultura. Quem não foi, perdeu uma das melhores noitadas “rock” que esta cidade já viu ...

Cheguei por volta das 23:00H (o show estava marcado para as 21) e tive dificuldade para estacionar o carro. De longe já via a multidão na praça Camerino, até pensei que por algum motivo o show havia sido transferido para o meio da praça, o que seria uma espécie de reedição dos festivais “clandestinos”, que aconteciam no final dos anos 80, mas ledo engano: ainda não havia começado, como suspeitava. Ok, normal, esta cultura de atrasos vai ser mesmo difícil de mudar, já que entramos, há bastante tempo, num círculo vicioso: as bandas atrasam o início do show porque o público demora a chegar, e o público demora a chegar porque os shows sempre demoram pra começar.

Me parece que já estava rolando a peça de teatro que abriria a noite, “cabaret dos insensatos”, mas eu não vi porque acabei me distraindo com o bom e velho bate-papo de porta de show, desta vez “turbinado” pelo fato de que o evento tirou de suas tocas inúmeras almas avessas ao feijão com arroz da noite “roqueira” aracajuana. Como eu também sou um recluso assumido e incorrigível, tenho que aproveitar estes momentos para colocar o papo em dia.

Enfim, entramos. Bem legal o espaço da Casa Rua da Cultura, muito bem estruturado, e nem tão pequeno a ponto de causar desconforto nem grande o suficiente para provocar a dispersão do público, que compareceu em massa. O local em que aconteceu a apresentação em si, um galpão onde são encenadas as peças de teatro da Stultifera Navis, também é bem legal – um pouco quente, mas nada absurdo. A acústica é ok, com um pouco de eco, mas que não chega a provocar grandes problemas.

Na primeira parte do show a dupla tocou todas as musicas do disco. Foi lindo. Julico e Perninha, como era de se esperar, estavam com o diabo no corpo, e a resposta do publico apenas contibuía para que o espírito travesso que fez aquele bendito (sic) pacto com Robert Johnson se apossasse de todos. Bateria devidamente espancada e guitarras no talo, como deve ser, com riffs matadores penetrando deliciosamente em nossos ouvidos masoquistas em alto e bom som. Destaque para as participações especiais das teclas sempre ácidas de Leo Airplane; dos metais, que deram um “mojo” e um balanço soul em “quanto mais eu rezo” (e algumas outras), e de Arthur, da Nantes, que subiu ao palco para uma belíssima versão de uma música do disco “Harvest”, de Neil Young (obrigado a Fabinho por informar este pobre herege de que se tratava). A noite teve direito, inclusive, a um solo de bateria de nosso camarada Perninha – muito bom, enxuto, sem excessos. Legal também a forma como a bateria foi armada no palco, na frente, do lado, no mesmo nível de onde estava Julico. Baterias geralmente ficam atrás, supõe-se, para economizar espaço no palco, algo desnecessário quando se trata de uma dupla.

Após cerca de 40/50 minutos de show Julico agradece a todos, especialmente a sua família e a seus amigos de São Cristóvão, que estavam presentes, e anuncia um pequeno intervalo ao fim do qual eles voltariam para uma segunda parte da apresentação, tirando o foco do disco em si. Legal, mais tempo pra colocar a conversa em dia e relembrar as memoráveis noites de rock que aconteciam no antigo DCE da praça camerino. Fomos e voltamos – e tome mais blues/rock na cachola. Um dos únicos pontos negativos, fora o atraso (que no meu caso nem foi assim tão negativo, já que era dia de pdrock e eu só saio da rádio às 22:00H mesmo), foi o abastecimento precário do bar. Acho que eles não contavam com um publico tão grande e a cerveja acabou várias vezes. Acabava mas chegava em novas remessas e as pessoas se reabasteciam e todos continuavam felizes. Foi tanto rock que deu tempo de levar uns amigos num ponto de taxi lotação do centro, voltar e ainda pegar o finalzinho de tudo, com os já tradicionais covers de Ramones e Raul Seixas executados em doses maciças para tentar saciar o apetite dos que se recusavam a dar a noite por encerrada.

Foi praticamente perfeito. Tenho até pena de quem não pôde comparecer ...

Fotos por Snapic e Marcelinho Hora

* yeah! Kool & The Gang!

por Adelvan

"Viva La Brasa" entrevista Edu K.

Punk, gótico, hardcore, headbanger, rapper, romântico, funkeiro, sadomasô e até emo. Mais camaleônico que David Bowie, mais esquizofrênico que Mike Patton, mais sonso do que o Latino... Estou falando do monstro mutante do rock gaúcho... Não, não é o Humberto Gessinger... Tudo bem, ele também é sem-noção, mas não vamos exagerar. Afinal de contas, Edu K é um cara legal.

Nascido em 1969 no lado paraguaio de Foz do Iguaçu, Eduardo Dornelles descobriu o que queria ainda criança, ao assistir James Brown na TV. No início da adolescência foi morar em Porto Alegre e conheceu Carlos Eduardo Miranda, famoso produtor musical e jurado do programa Qual É o Seu Talento?, na época apenas um gordinho cabeludo que tocava numa banda chamada Urubu Rei – de onde sairiam os integrantes do seu futuro grupo, o Fluxo, que ficaria mais conhecido como Defalla.

“Já fazia um tempo que eu estava com a idéia de fazer uma banda free jam maluca, tipo Grateful Dead, Mothers of Invention e Miles Davis na época do Miles Runs the Voodoo Down”, lembra Edu. “Quando eu conheci o Miranda, todo mês ele inventava versões novas das músicas do Urubu Rei e era sempre uma mais legal que a outra. Mal sabia ele, coitado, que ia me criar uma obsessão. O Miranda é o pai da neurose toda que gerou o Defalla. Mesmo que criássemos um molde, nós mesmos quebrávamos depois.”

Lançaram o 1º álbum pelo Plug, selo da BMG, e emplacaram uma canção no rádio, Não Me Mande Flores, só p/ abandonar o pós-punk e se jogar no hip-hop no disco seguinte, transformando Como Vovó Já Dizia de Raul num rap. Edu, metamorfose ambulante, passou a adotar acessórios de skate e peças femininas em seu visual. Perucas na fase hard rock, cabelão e roupas rasgadas na fase heavy metal. No Hollywood Rock em 93, abriu p/ o Red Hot parodiando Anthony Kieds, nu c/ um meião cobrindo os genitais, e raspou seus dreads cor-de-rosa em pleno show.

A banda estava no auge, havia recém-lançado um dos discos mais experimentais da música brasileira, KINGZOBULLSHIT BACKINFULLEFFECT92, que não só unia rap & rock como acrescentava samba à mistura – muito antes de Marcelo D2, Edu K já estava à procura da batida perfeita. Produziu faixas e álbuns inteiros p/ Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Pavilhão 9, Câmbio Negro, Funk Fuckers, Comunidade Nin-Jitsu, P.U.S. e até Tiazinha. É tão malandro que emplacou um hit no funk carioca mesmo sendo sulista: Popozuda Rock’n’Roll, a trilha sonora da Feiticeira.

Participou de vários projetos como Cyco, Elektra, Vernon Walters, Groo Brothers e Teenage Disco Hell, e em 95 lançou MEU NOME É EDU K, trabalho solo em que tirava onda de galã pop romântico, terninho e tudo. Canta como um negão do soul e berra feito uma diva do trash. Sua extensão vocal lhe valeu o convite de Allan Sieber p/ ser a voz de Jesus na animação Deus É Pai, premiada em Gramado em 99. No curta seguinte, Os Idiotas Mesmo, Edu dublou quase todos os personagens.

11 anos depois de sua estréia solo, lança FRENÉTIKO pelo selo Man Recordings do DJ Daniel Haaksman. O alemão não acreditou na fusão de Miami bass c/ funk do Brasil quando ouviu o disco MIAMI ROCK 2000, do Defalla. “Punk rocker Edu K’s combination of the brazilian hip-hop style known as baile funk and high energy rapping makes a sound that’s not a million miles away from vintage 1980s Beastie Boys, remodeled for the 21st century with generous helpings of sensuous reggaeton and electroclash”, disse Daniel. Eu poderia traduzir, mas soa melhor no original.

O novo álbum deu início a uma surpreendente carreira internacional. A música Gatas Gatas Gatas – clara referência a Girls Girls Girls do Mötley Crüe – ganhou clip dirigido por Bryan Barber, o mesmo de Hey Ya! do Outkast, e entrou na trilha de campanhas publicitárias da Nike, Coca-Cola e Sony Ericsson. Edu já botou som em festas na Europa, Austrália e Israel, remixou faixas de artistas gringos da nova geração como Cowgun, Don Omar e Act Yo Age, e lançou 2 EPs em 2009 pelo selo australiano Sweat It Out: RAVER LOVIN' e HEADBANGER.

Em maio, retornou c/ a formação clássica do Defalla. Ao lado de Biba, Castor e Flu, tocou o repertório do 1º disco em duas apresentações seguidas no Beco 203, em POA, e já se apresentou 2 vezes em SP, a última delas ontem, no festival Gig Rock. “Tu percebes que eles têm um tema da música e na hora do show meio que ‘ah vamos pirar e ver o que acontece’...”, diz o andrógino, que continua desafiando a semiótica e fazendo sucesso c/ a mulherada. Atualmente, Edu namora uma morena catarinense linda.

Conversei c/ ele logo após a primeira noite de shows e só terminei de entrevistá-lo esta sexta-feira. O processo foi lento mas o barato foi louco, espero que vocês se divirtam lendo tanto quanto eu me diverti fazendo. Artista de vanguarda, músico de ouvido, gênio da chinelagem, nascido p/ ser palhaço; Edu K é o cara... de pau.

Clique AQUI para ler a entrevista.

por Adolfo Sá.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

"Eletrokarma"

Após uma longa espera iniciada em fevereiro de 2010, quando começaram as sessões de gravação, finalmente será lançado o primeiro disco da Mamutes.

A banda surgiu em meados de 2006 e nesses cinco anos de existência coleciona algumas histórias e façanhas que valem a pena ser relatadas: foi, por exemplo, a primeira banda de rock de Sergipe a se reunir para morar numa mesma casa, a lendária Mamutes House. O lugar serviu para ensaios e composições, intercambio entre artistas, hospedagem solidária de inúmeros músicos nacionais, além de local de reuniões do Virote Coletivo e do circuito Fora do Eixo em Sergipe. O grupo já se apresentou nos principais festivais sergipanos, lançou um EP, um single, gravou um especial acústico para a Fundação Aperipê e no próximo dia 13 de Julho lançará o seu primeiro disco através do site www.mamutesmusic.com

O grupo adotará uma estratégia parecida com a do lançamento do EP em 2008, onde quase mil cópias foram distribuídas gratuitamente. Dessa vez, a diferença é que o disco estará inteiramente disponível para baixar na internet.

No atual cenário da música independente é mais importante a divulgação da banda do que a venda de CDs. A Mamutes veio do underground e se tornou mais conhecida principalmente pela estratégia de promoção: distribuía os EPs gratuitamente e passava as músicas pelo celular ou pela internet. Com o disco, a banda objetiva a consolidação local e uma repercussão maior fora das fronteiras sergipanas. O novo trabalho será o cartão de visitas e a aposta para uma divulgação mais abrangente. Os colecionadores mais fervorosos que não abrem mão da versão palpável do disco, no entanto, não precisam se preocupar, pois ainda no segundo semestre ele será lançado no formato digipack.

"Eletrokarma", a faixa-título, será executada hoje, pela primeira vez, no programa de rock.

Para o futuro a banda promete o lançamento de vídeo clipes e muitos shows em Sergipe e no Brasil.

Informações técnicas:

O disco é composto por 10 faixas , 7 inéditas e 3 regravações do EP, levou em torno de um ano juntando as gravações e mixagens. Foi gravado no Estúdio Caranguejo Records e teve a produção de Rick Maia, co-produção da Mamutes, mixagem de Leo Airplane e o técnico de gravação foi Anselmo. A concepção visual é de Thiago Neumann. Foi gravado por Karl Dy Lion (vozes, castanholas em Noturna), Rick Maia (guitarra, violão em Noturna), Thiago Sandez (baixo), Marcos Odara, (bateria , gobel em Tudo No Seu Tempo), Aroldo Sax (sax em Tudo No Seu Tempo), Alexandre Abraham (trompete em Noturna e Tudo No Seu Tempo), Leo Airplane (teclados em Te Deixando o Meu Bye Bye) e Dog (vocal gultural em Cabeça de Mamute).

Mamutes hoje é:

Karl di Lyon (voz)
Rick Maia (guitarra)
Thiago Sandez (Baixo)
Danuza Corumba (bateria)

Redes sociais:

http://www.facebook.com/mamutesmusic

http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=9542562594153526387

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quinta-feira, 7 de julho de 2011

# 191 - 08/07/2011


Television de volta ao Brasil varonil - boa oportunidade pra tocar mais uma vez a clássica "Marquee Moon", desta vez em uma versão alternativa que saiu como bonus numa edição comemorativa do disco. Na sequencia, Second Come e 4 bandas "indie" brasileiras tocando Second Come. Dentre elas uma sergipana, a Snooze - gente, Luiz Oliva ar-ra-sou nas distorções! Iradíssimo.

Segunda meia hora, Drop loaded com outra banda indie brasileira clássica, o Grenade, e então madeira: novas do Vader, Death metal da Polônia, e Lock up, projeto paralelo originalmente composto por Shane Embury (Napalm Death, Venomous Concept), Nicholas Barker (ex-Cradle Of Filth, Dimmu Borgir) e Jesse Pintado (Napalm Death, Terrorizer), com a ajuda de Peter Tägtgren (Hypocrisy) no primeiro álbum. Jesse Pintado, como se sabe, morreu. Completa a banda, atualmente, Tomas Lindberg, nos vocais, e Anton Reisenegger na guitarra. O novo disco, Necropolis Transparent, teve ainda as participações especiais de Peter Tägtgren e Jeff Walker (Carcass, Brujeria).

O rock sergipano, vivo e ativo, dominará a primeira meia-hora da segunda parte do programa: tocaremos mais duas do primeiro disco da The Baggios e "Eletrokarma", faixa-título do CD que os Mamutes lançarão virtualmente no dia 13 de julho, Dia Mundial do rock. Reza a lenda que vai rolar também o novo single da plástico lunar, mas eu não sei, ninguém me mandou nada ainda ...

Fechando a noite, mais rock, porra !!! ROCK, CARALHO !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Bloco do ouvinte especial com Nashville Pussy!

Fui !

PS: Curioso, programa # 191, e hoje Sergipe faz 191 anos de emancipação política ...
* * *

Television: "Não somos uma banda punk"

Foram dois discos nos anos 70. Mais um duas décadas depois. Duas separações, duas voltas. Um baixista que pulou fora em 75. Um guitarrista que saiu em 2007. Desde o começo da banda, são 38 anos entre tantas idas e vindas – e poucas passagens pelo estúdio, diga-se.

Mas nem o próprio líder, vocalista e guitarrista do Television, Tom Verlaine, sabe explicar o motivo da legião de fãs que ainda se reúnem para assistir aos seus shows. “Eu não sei como é isso. Mas fico muito grato. E é também muito divertido”, diz Verlaine, hoje um senhor de 61 anos.

A banda é considerada, na cronologia do rock, uma precursora de todo o movimento punk que invadiu Nova York e Inglaterra no começo dos anos 70. Mas o Television é tão precursor, tão precursor, que qualquer desavisado que ouça alguma faixa dos três discos – Marquee Moon (1977), Adventure (1978) e Television (1992) – nunca o colocaria num mesmo grupo que os Ramones, só para citar uma banda contemporânea a Verlaine e companhia. “Exato. Nunca fomos punk!”, exclama o vocalista ao JT, por telefone.

“Os Ramones tinham praticamente um uniforme, usavam todos as mesmas roupas. Todos são diferentes, sabe? As pessoas são muito superficiais e dizem um monte de m…”, continua. “O que acontece é que, independentemente da década, anos 70, 80 ou 90, o Televison sempre soou diferente”.

A banda que se apresenta amanhã no Beco 203, na Rua Augusta, pontualmente às 22h30 (como eles fizeram questão de frisar), perdeu um dos seus principais alicerces com a saída, em 2007, do guitarrista Richard Lloyd. Ele, ao lado de Verlaine, criou uma sonoridade muito baseada em duas camadas de boas linhas de guitarra – algo que, em certos momentos, pode ser encontrado em bandas como o Strokes, no terceiro disco, First Impressions of Earth, de 2006.

É totalmente oposto ao minimalismo musical do punk. Verlaine desconversa quando o assunto é Lloyd. “Hoje, tocamos com o Jimmy Ripp. E, sinceramente, eu toquei mais em shows com ele, de 1981 até agora”. E sobre Lloyd ter dito, à revista inglesa News Music Express, que teve de ficar invisível para que Verlaine brilhasse? “Esqueça isso”.

Um ano após lançar Adventure, em 77, o Televison se separou pela primeira vez. Verlaine seguiu em carreira solo. E, sem a companhia dos outros parceiros de banda, ele produziu muito mais: foram dez discos, sendo o último, Songs and Other Things, lançado em 2006. Desde 1981, o novo guitarrista do Television, Jimmy Ribb, já estava ao seu lado, inclusive na regravação da música Cold Irons Bound, de Bob Dylan, para o filme I’m Not There, de 2007.

A pequena discografia do Television pode ganhar mais um capítulo – o quarto – ainda este ano. Segundo contou Verlaine, o quarteto tem um punhado de músicas prontas. O que falta para o lançamento? “As gravadoras estão todas quebradas. Estamos pensando ainda no que fazer com nosso material. Até o fim deste ano, daremos um jeito”, diz. É quase como uma volta ao sonho do garoto de Nova Jersey, que se mudou para Nova York em 1968, aos 19 anos, sonhando em lançar um disco.

Fonte: Combate rock

por Pedro Antunes

#

Television - Marquee Moon (Alternative version)

Second Come - My cancer
Loomer - I Feel like I don´t know what I´m doing
Snooze - 704
Luiza Mandou Um Beijo - Cinco e vinte e seis
Leela - Defeanig sounds in my mind

Grenade - Simple life, simple days
Grenade - Good day
(Drop Loaded)

Vader - Come and see my sacrifice
Lock Up:
# Accelarated Mutation
# Tartarus

The Baggios:
# Oh! Cigana
# Quanto mais eu rezo

Entrevista com os Mamutes
Mamutes - Eletrokarma

Bloco produzido por Max "Diatribe":
Nashville Pussy:
# Pussy Time
# She´s got the drugs
# Snake eyes
# Go motherfucker go
# I´m the man


Anderson "Foca" só queria ser músico ...

Eu só queria ser músico. Tocar rock por aí, ser uma estrela da música e viver como num clip do Van Halen nos anos 80. Em 95 ser como os Raimundos já me bastava, vida na estrada, rock todo dia e coisas do tipo. Tentava sem sucesso ter uma banda que tinha como equipamentos uma caixa onde ligávamos todos os instrumentos e uma bateria surrada. Não havia escritório de familiares que não ocupássemos nos fins de semana com nossa “equipe”.

Em 97 dei um salto qualitativo. Passei a estar numa banda em que cada integrante tinha o seu equipamento. Quase não acreditei quando nos primeiros ensaios consegui finalmente ouvir minha voz minimamente depois de dois longos anos “cantando”. Formávamos um grupo chamado Jam97. Nome horroroso por sinal, mas que nos orgulhava muito na época. A tentativa de seguir carreira era uma só para quem estava no Nordeste. Tínhamos que ir ao Abril Pro Rock, ficar na porta do backstage, esperar Paulo André – produtor do festival – sair, dar uma fita cassete para ele e pronto, todo um sonho se realizaria: tocaríamos no evento, uma gravadora nos contrataria e no ano seguinte voltaríamos lá de novo com um disco e uma tour.

Eu só queria ser músico. Só que logo percebi que meu sonho morreria se eu esperasse a sorte bater na minha porta. O engraçado é que o universo conspira durante nossas elocubrações e acabei encontrando muita gente que vivia realidades (e sonhos) parecidas com a minha. Eram zineiros, roqueiros, indies, jovens jornalistas numa fauna imensa de desacreditados, totalmente à parte do universo das gravadoras, mas que acreditavam na música como condutora de suas vidas. Começamos a trocar cartazes, zines, fitas e nos conhecemos presencialmente em alguns festivais como o SuperDemo, Abril Pro rock, Porão do Rock, RecBeat, MADA, entre outros.

Eu só queria ser músico, mas em Natal tocar rock era impossível. Na angústia dos ensaios sem show, já fora da faculdade e com a carreira voltada só para a música, comecei a perder a esperança de ser contratado. Mais que isso, comecei a ter nojo da ideia de ter que entregar minha criação para outras pessoas editarem, gravarem e afins. Queria ser dono do meu nariz e responsável direto pelo sucesso ou fracasso da minha empreitada. Não me restava nenhuma alternativa a não ser seguir o caminho alternativo, onde shows autorais eram raros e tours de bandas de fora da cidade eram mais raras ainda. Começamos do zero produzindo shows para o Jam97, nessa época já com um nome um pouco melhor, o Ravengar. Lembro de comemorar como um gol uma nota de cinco frases publicada na Tribuna do Norte sobre o primeiro show. Era garantia de sucesso porque sem internet e redes sociais, o único jeito de informar as pessoas sobre uma atividade artística era via TV ou jornal. Assim comecei a me tornar um produtor cultural.

Como eu, centenas de jovens no Brasil inteiro passaram a ter as mesmas ideias, produzir os próprios shows, criar os próprios cartazes, seguir o lema punk do eterno “do it yourself” e empreender em atividades inéditas dentro de suas cidades, muitas delas inclusive ridicularizadas pelo poder público. Em Brasília, capital dos playboys, em Goiânia, capital da música sertaneja ou em Natal, capital do forró e em várias cidades Brasil afora a chama do rock independente permaneceu acesa, e mesmo nas mais toscas produções e nos piores espaços que nos abriram portas permanecemos ativos, mantendo a tradição dos nossos antecessores do punk, do começo do rock 80 e de muitos outros que vieram antes de nós.

No final dos anos 90 já fazíamos coisas bem relevantes. Começamos a lançar nossos primeiros discos, e a minha geração foi a que popularizou o CD como mídia. Ficamos mais perto de registrar nossos trabalhos, já que lançar vinil por conta própria era algo fora da nossa realidade pelos custos de estúdio e prensagem. Começamos a nos digitalizar e a internet apareceu. Lembro de tentar gravar meu primeiro cd com o Ravengar, mas era tão caro que a banda acabou antes de terminarmos o disco completo (a dívida do estúdio só foi paga quase três anos depois com os mesmos caras que mixamos hoje, o Megafone). Continuei em bandas e continuei produzindo shows e bandas. Meus companheiros fora daqui começaram a ter vitórias parecidas, alguns foram absorvidos pelo mercado mainstream, outros foram protagonizando cenas em suas cidades como a Monstro em Goiânia, Tamborete no Rio de Janeiro e uma infinidade de labels em São Paulo, só para servir de exemplo.

Com a internet, a troca de informações entre a minha geração ficou mais dinâmica. Fomos capazes de utilizar isso ao nosso favor enquanto assistíamos “de camarote” a derrocada das grandes gravadoras como conhecemos, engolidas pelo período digital. Nossas atividades foram ganhando alguma visibilidade, já não éramos os patinhos feios da sociedade, muito de nós estavam começando nas redações de jornais e revistas, aos poucos fomos começando a produzir artistas que eram nossos contemporâneos e que tinham atingido o grande público e fomos aprendendo a atuar mais profissionalmente.

Eu só queria ser músico, mas já fazia mais de dez atividades ligadas à música que não tinham a ver com ensaiar, compor e se apresentar. Meus trinta minutos em cima do palco eram um prêmio pelo meu esforço de fazer o rock acontecer diariamente na minha vida, na minha cidade e no meu país. Sabia que o que eu fazia era parte de algo muito maior e que tinha alguém bem longe de mim que estava fazendo o mesmo. Pela internet trocamos tecnologia e encurtamos caminhos uns dos outros. Nossa geração sabia que precisávamos de força conjunta, meu grupo nunca iria para São Paulo se eu não fosse capaz de receber um grupo de São Paulo por aqui. Criamos intercâmbio mínimo, médio e máximo.

Não queríamos mais espaços ruins pros nossos shows e resolvemos abrir nossos próprios espaços, adequados à nossa realidade. Não queríamos mais estúdios que não entendiam nossa linguagem e compramos nossos próprios computadores. Não queríamos mais festivais com bandas que não nos agradavam e criamos nossos próprios festivais. Sou capaz de contar nos dedos das mãos quantos festivais de música independente existentes até hoje no Brasil que são geridos por caras que não são músicos ou não vieram de alguma banda. Perdemos editais e projetos por mais de dez anos para corporações culturais instaladas nas grandes cidades e aprendemos sozinhos a competir por melhorias para as nossas atividades. Ninguém nos ensinou, ninguém deu dica, não havia palestras. Atiramos no escuro até começar a acertar e replicamos as coordenadas para que mais de nós pudessem fazer o mesmo. Minha geração não ficou num bunker atirando pedra no inimigo oculto. Foi lá e cavou seu espaço com muito trabalho e dedicação que só o extremo amor pela música foi capaz de nos fazer aguentar. Isso pode soar piegas, mas é real.

Muitos de nós se organizaram em associações e movimentos culturais para ter força política e defender nossos direitos como classe culturalmente ativa. Vieram ABRAFIN, Fora do Eixo, Associação de Produtores, Fóruns de Músicos, Redes, Casas de shows, Cine Clubes, sites, entre outras centenas de atividades, todas no intuito de se manter viva a chama da música nas mais variadas esferas da sociedade. Nossas responsabilidades aumentaram mas nunca corremos com medo desses novos desafios. Nunca corremos com medo de nada.

Por isso que é fácil entender porque caras como eu produzem festivais, têm banda, estúdio, fazem seus próprios clips, sua própria assessoria de imprensa e ainda saem para dividir experiências Brasil afora com quer tentar fazer o mesmo. Estamos acostumados. É o que fizemos ontem, fazemos hoje e vamos continuar fazendo amanhã. E eu só queria ser músico.

Para essa geração que se forma agora no meio do caos mercadológico em que se configurou a música no Brasil é compreensível que ao invés de heróis da resistência (título que não queremos para nós) sejamos vistos por alguns como o “mercadão a ser combatido”. O contra-ponto, o “inimigo” a se combater parecem ser uma espécie de pólvora propulsora. Sabemos disso, já fomos assim. A minha geração tinha um oceano para atravessar a nado para poder colher alguma vitória. E essa geração de agora? Qual é a briga boa a se comprar? Existe um oceano para ela atravessar?

Eu ouvia fita fora de rotação para conhecer meus ídolos da música e a nova geração clica num streaming e ouve qualquer coisa em altíssima qualidade. Eu via filmes dropados e com áudio fora de fase para assistir meus ídolos e hoje tudo está disponível no youtube em alta definição em tempo real. Só vi um estúdio ao vivo quase seis anos depois de começar minha carreira com música; hoje, em cada computador tem o que os Beatles jamais tiveram para gravar. Essa geração tem a sorte de não ter o que combater, porque não somos os inimigos inacessíveis com os quais eles nunca dialogarão como foi para gente quando começamos nossa atividade com música. Qualquer pessoa de qualquer lugar do mundo fala com qualquer um dos caras da nossa geração com um único clique e correspondemos a esse contato dentro do limite do possível (e às vezes do impossível).

Sobra tempo para essa geração empreender, se dedicar e realizar. Tempo que nenhum dos caras da minha geração ou dos que vieram antes jamais tiveram para se manter em atividade com música. Hoje temos uma super população de artistas que termina sendo um crivo muito mais difícil para quem quer ter uma carreira. Temos muito mais quantidade e dessa quantidade aumentou também a qualidade de registros, áudios e perfomances mundo afora. Cada período tem suas dificuldades e vocês da nova geração têm que arrumar soluções inteligentes para vencer esses novos obstáculos.

Dedico esse texto, que pretende ser o começo dos meus relatos para um livro de 10 anos de atividade do Dosol, para todos os meus amigos advogados, promotores, médicos, fiscais da natureza, e doutores que tentaram ter alguma carreira na música e por uma contingência do destino não conseguiram. Se hoje ainda continuo aqui empreendo na música devo isso a todos eles.

Essa é a única e real história sobre a minha geração, aquela que disse não ao mercado como ele existia e criou o seu próprio (e ainda muito pequeno) espaço. O mais legal disso tudo é que descrevi resumidamente acima apenas o começo de uma longa caminhada. Podemos acumular conhecimentos e continuar a caminhada juntos. Quem se habilita?

por Anderson Foca

Camarones Orquestra Guitarrística
www.myspace.com/camaronesorquestraguitarristica
Associação Cultural Dosol
www.dosol.com.br

A Balada dos loucos

Plástico Lunar é a melhor banda de Sergipe. Ponto. No próximo sábado eles estarão lançando seu novo single, "mar de leite azedo", no Capitão Cook. A partir das 23:00H. Custa R$10,00, e as primeiras 50 pessoas que comprarem o ingresso levarão para casa uma cópia do single. No dia 14 de julho de 2011, uma quinta-feira, eles tocarão em São Paulo, no Studio SP, na Rua Augusta, como convidados da banda Cérebro Eletrônico. A renda do show de sábado será revertida para a viabilização desta viagem.

Abaixo, foto promocional produzida pela Snapic. O cartaz do show reproduz a capa do single, com arte de Thiago Cachorrão.

ponto final.

É coisa nossa.

Julico, no Facebook, sugeriu que a gente parasse de choramingar e ele está certo, mas é mais forte do que eu, então tenho que comentar, mais uma vez, esta injustiça: amanhã a Praça São Francisco, em São Cristóvão, receberá oficialmente o título de Patrimonio Histórica da Humanidade, concedido pela UNESCO, com a presença da Excelentíssima Senhora Ministra da Cultura Anna de Holanda. Segundo material promocional divulgado pela Secult, "grupos folclóricos, bandas filarmônicas e a Orquesta Sanfônica de Aracaju representarão a diversidade cultural do estado neste evento". Diversidade cultural, é bom frisar. Então porque diabos a The Baggios, provavelmente a banda de rock sergipana com maior projeção nacional no momento, que nasceu em São Cristóvão e vive cantando as coisas da cidade em suas músicas, não foi chamada para se apresentar ? "Mistérios da meia noite", já dizia aquele cara de voz cavernosa lá da Paraíba. Mas não tem nada não: fazendo juz ao clássico lema "faça você mesmo" que tem impulsionado as cenas roqueiras mundo afora, The Baggios lançará seu primeiro disco amanhã, na Casa Rua da Cultura, em Aracaju. Estarei lá e depois conto como foi.

Abaixo, uma entrevista com o cabra conduzida por nosso parceiro Rian Santos para o Jornal do Dia:

Sete anos dando murro em ponta de faca não foi suficiente para arrefecer o ânimo dos meninos. Calejado e casca dura, o frontman Julio Andrade pode até ter desanimado em algum momento, mas nunca abriu mão de usufruir da vida à sua maneira – as pontas dos dedos esfoladas na guitarra; o berro comendo solto, madrugada a dentro. A perseverança acaba de frutificar no primeiro disco da Baggios – Uma experiência sensorial comparável somente com uma aparição dos caras nos Cooks e festivais da vida. Esta semana, Júlio Andrade (guitarra) e Gabriel Perninha (bateria) convidam a galera para comemorar o rebento e voltam a fazer barulho para alegria da gente. Era a deixa que esse diário precisava para rasgar seda e jogar confete num dos nomes mais talentosos da música independente de nossos dias.

Jornal do Dia – Antes de mais nada, vocês ficaram satisfeitos com o resultado do disco? E a reação da galera?

Julico – Em se tratando das gravações, não tenho do que reclamar. Acho que se eu bulinasse mais nele, o disco ganharia outro rumo ou eu estaria vagando pelas ruas de São Cristóvão, cheio de pindobas amarrada nas pernas. Até agora, a reação das pessoas tem me deixado mais contente ainda. Todos chegam falando bem da arte gráfica, das composições e da qualidade das gravações. Não tenho do que reclamar, isso tem abastecido ainda mais minha alma.

JD – Os registros anteriores pecavam por não conseguir reproduzir a energia dos shows (exceção feita ao single O azar me consome). Nesse primeiro disco, entretanto, parece que vocês finalmente conseguiram alcançar o equilíbrio necessário para traduzir o som que arrasta a galera pros Cooks da vida dentro do estúdio. O que foi que mudou nesse meio tempo?

Julico – Eu sempre busquei isso. Queria que nossa energia de show fosse nítida nas gravações. Finalmente, chegamos nesse resultado, mas demorou um pouco, precisou que justássemos alguns cachês, investíssemos numa viajem para São Paulo, e que a gente finalmente encarasse a tarefa de gravar boa parte do disco ao vivo e torrar uma graninha num bom estúdio.

O que mudou dos EPs pra cá foi que estamos com os ouvidos mais afiados, calejados, estamos mais chatos e sabendo o que queremos de verdade. Agora, temos uma direção a seguir. Além disso, conseguimos ganhar algum dinheiro nesse tempo. Maturidade também conta, afinal são sete anos de Baggios.

JD – O que a banda espera conseguir com o disco em mãos? Em outras palavras, qual o destino da Baggios daqui pra frente?

Julico – Cara, espero que a gente toque ainda mais em festivais, mais turnês, resenhas em blogs, clipes bem produzidos, revistas e afins. Estou apostando nesse trabalho. Suamos bastante para ver esse “filhinho” nascer. Quando abri a primeira caixa, veio um arrepio e uma frase na cabeça: “agora sim, temos um disco para distribuir sem medo nas mãos de qualquer produtor”. Meu filhinho me deixou mais otimista.

JD – Ao longo dos sete anos de atividade da banda, muita coisa aconteceu em nossa cena. Como vocês comparam o cenário que encontraram quando se atreveram a meter as caras pra mostrar o que aprontavam lá em São Cristóvão e o quadro que observam hoje, depois de comer a poeira de tanta estrada com a viola nas costas?

Julico – Guardo ótimas recordações da era “ATPN”, sinto falta daquilo. Queria realmente ter uma banda naquela época. Tudo aquilo que aconteceu entre 2000 e 2003 me colocou muita pilha pra montar minha primeira banda. Eu tinha muita secura de subir naquele palco. Também me ligava muito na Casa Laranja. Infelizmente, só consegui tocar na ATPN em 2007, nem sei que fim teve aquele espaço foderoso…

Acho que em termos de bandas, estamos bem representados. Existe um ceninha acontecendo. O problema é: Tem muita banda – bandas ótimas, por sinal. Poderia citar pelo menos seis das quais sou fã – pra pouco espaço. Falta lugar pra tocar. Pelo que me recordo, na época em que eu não passava de um simples expectador dava pra escolher entre Tequila, Cachaçaria, ATPN, Casa Laranja e Malibú para tocar. Isso, pra não mencionar o picos dos quais eu só ouvia falar. Hoje em dia temos somente o velho de guerra, Capitão Cook (ai, ai, se não fosse ele… O que seria de nós?).

Ah! Já estava esquecendo! Precisamos urgentemente de um festival independente! Já me divertir pra carálio nos PUNKAS.

JD – Qual a importância dessas andanças? Como elas interferem no processo criativo da banda?

Julico – Acho que desde quando toquei na minha primeira banda, em 2001, só quis compor, tocar com uma turma legal, viajar por aí, matando minha secura, e quem sabe fazer parte de uma cena. Se eu fosse seguir o ritmo dessas mudanças, estaria muito mais frustrado, desistiria de tocar há um tempão. Eu escolhi viver tocando Rock n’ Roll, e o sonho só está começando. Não deixo de me preocupar com a cena local, mas não me prendo a isso. Deixo rolar, e torço pra que toda essa turma que eu gosto tanto não seja fraca a ponto de se afastar dos próprios sonhos, e não acabem com suas bandas de maneira prematura, como já aconteceu tantas vezes.

JD – Os Baggios já cogitaram tentar a sorte no sul maravilha, mudar de mala e cuia pra ver se fazem a cabeça daquele povo acostumado com o frio? Com a propalada implosão das fronteiras pela tecnologia, essa aproximação com os grandes centros urbanos continua tão necessária quanto já foi um dia?

Julico – Cara, isso tudo é ilusão no meu ponto de vista. Eu posso muito bem ir lá passar um mês, fazer vários shows, e voltar pra minha pacata São Cristóvão respirando ar fresco. Não tenho essa moral (R$), nem coragem de encarar morar numa São Paulo da vida, por enquanto não. Eu estou ligado que tudo acontece por lá, facilita em algumas coisas, mas é uma aventura pela qual não quero passar no momento. Não estou psicologicamente preparado pra um passo tão grande (sorrindo).

JD – Pra terminar de maneira bem safada, quando sai o primeiro DVD da Baggios?

Julico – Está nos planos viu! Vivo pensando nessa possibilidade. Quem sabe em 2012, na Praça São Francisco, São Cristóvão, Sergipe, cheia de gente dançando e cantando nossas músicas… Peraí… Deixa eu acordar…

riansantos@jornaldodiase.com.br

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Rock crocante ...

Gabriel Thomaz, vocalista e guitarrista do Autoramas, falou à Rolling Stone Brasil sobre a mais nova empreitada da banda para finalizar o novo disco, Música Crocante. Por meio do crowdfunding - método que consiste em angariar fundos com ajuda dos fãs -, o Autoramas iniciou as gravações do álbum.

A ideia é que, com um programa de cotas, o fã auxilie o trio e seja recompensado de acordo com o tamanho da doação. Prêmios incluem até mesmo a própria guitarra de Gabriel, uma Danelectro (por R$ 5.000).

Quem se interessar em ajudar Gabriel Thomaz, Bacalhau e Flávia Couri pode acessar o site do disco Música Crocante até o dia 14 de agosto, clicando aqui. A doação mínima é de R$ 20, que inclui o download das músicas antes de elas serem lançadas e um e-mail pessoal de agradecimento pela colaboração.

Confira a entrevista com Gabriel Thomaz abaixo:

Como surgiu a ideia do crowdfunding?
Conversamos com a empresa que trouxe o Misfits [a MobSocial trouxe a banda de punk gótico em abril deste ano] e vimos as várias possibilidades do crowdfunding, além de ver algumas pessoas que a gente gosta e admira nesse mesmo esquema. A gente viu que era uma coisa bem viável. Nunca tivemos gravadora ou patrocínio. Sempre tivemos que colocar uma grana na frente, pra depois recuperar com as vendas. Agora, é tipo um empreendimento imobiliário: estamos vendendo o apartamento na planta, entendeu? [risos].

Você acha que a ajuda do público na produção é uma tendência?
Eu lutarei sempre para que essa tendência seja duradoura. Vivemos muitos anos sob uma coisa meio ditatorial, de que sucesso é o que a rádio ou uma cúpula determina que vai chegar no ouvido de todo mundo. Agora vivemos em uma época extremamente democrática: você pode entrar na internet e escolher o que você quer ouvir e o que não quer. Por muito tempo tivemos que aceitar o que foi enfiado goela abaixo, sem ter como chegar a outra coisa que não tivemos alcance.

MTV Apresenta Autoramas Desplugado, de 2009, tem alguma influência sobre Música Crocante?
Música Crocante é elétrico. Estamos pensando em colocar um bônus, uma canção acústica que não entrou no Desplugado. O legal do Desplugado é que aprendemos a dar valor a melodia, backing vocals... coisas que para nós não são primordiais e que a gente deixa pra depois, sabe? Com o Desplugado reaprendemos a valorizar isso. Quanto ao Música Crocante, vai ser um disco do Autoramas total. A gente tem feito viagens pelo mundo, e temos escutado muitas coisas por aí: psicodelia francesa, rock turco, músicas de protesto libanesas, cumbia psicodélica do Peru. Mas isso tudo é só um tempero no som, nosso estilo continua o mesmo de sempre: rock.

A guitarra Danelectro que você está colocando a prêmio tem algum valor sentimental?
Tem, e muito, cara! Estou torcendo pra que ninguém compre. Já estou arrependido desse negócio aí. Se alguém comprar vou ter que abrir mão. Eu não sei porque eu fiz isso, e agora? [risos] É uma guitarra que já usei muito, colocamos ela justamente porque é um instrumento que tem muito a minha cara. Mas espero que ninguém precise comprar essa cota!

Ringo Starr no Brasil, pela primeira vez

Timothy Leary, figura emblemática dos anos 1960 que estudou e defendeu supostos benefícios terapêuticos do LSD, dizia que os Beatles eram como mutantes. Nada mais do que agentes da evolução enviados por Deus, dotados de uma força misteriosa que impulsionava a criação de uma nova espécie, uma jovem raça de homens livres e sorridentes.

Ringo Starr é certamente uma dessas criaturas. Como dizem, foi o cara que estava no lugar certo, na hora certa – tipo de virtude fundamental para quem passa a maior parte da vida batendo em tambores. O lugar em que estará dias 12 e 13 de novembro será no palco do Credicard Hall, em São Paulo, ao lado de sua All Starr Band.

Será a primeira vez deste beatle no País para shows em que toca Beatles mas também rocks clássicos dos anos 60 e 70. As vendas de ingressos começam em 18 de julho. A turnê passará ainda por Porto Alegre, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e Recife.

O dia mais importante da vida de Ringo Starr foi 18 de agosto de 1962, data de seu primeiro show como integrante dos Beatles. Havia aparado a barba e trocado o topete rocker pela franja.

Estava pronto para os terninhos impecáveis, apesar de ser flagrado sempre à época com uma aparência tensa. Não era por menos. Ringo foi rejeitado pelas fãs do baterista que substituiu, Pete Best. “As fãs adoram Pete. Se você tem um cara boa pinta na banda, por que trocá-lo por um feioso?”, ironizou.

As fãs se acostumaram. Logo estavam implorando para Ringo cantar algo nos shows enquanto penduravam botons com a inscrição ‘Ringo para presidente’ ou ‘Eu sou uma fã dos Beatles, em caso de emergência ligue para o Ringo’.

Quando saiu o primeiro LP da banda, com Ringo cantando Boys, muitas garotas já estavam conquistadas. Mas o golpe definitivo veio no álbum seguinte, With The Beatles, em que Ringo cantava uma intimação sexual de nome I Wanna Be Your Man.

A New Musical Express estampou: “Ringo segura o ritmo insistente de um jeito mais polido e mostra sinais de que está se tornando um vocalista beat de primeira.” Na legendária capa de With The Beatles, lá estava ele, um patamar abaixo dos outros três. Tinha que ser assim.

A partir daí veio o estigma de ‘beatle sortudo’, menos competente e, portanto, aquele que deveria orar todos os dias por estar com Lennon e McCartney. O que ninguém esperava é que ele também fosse descambar para o lado criativo da força com contribuições inquestionáveis.

Subestimado, a gozação ao ‘beatle narigudo’ acaba por ofuscar a profundidade percussiva em levadas de canções como A Day In The Life, She Said She Said e Tomorrow Never Knows, além de seus vocais divertidos para Yellow Submarine ou With A Little Help From My Friends.

Quando os Beatles começaram a se aventurar no cinema, Ringo despontou curiosamente como o personagem mais hilário e promissor. Fazia careta e agia com naturalidade. Sem desejar, roubou a cena, segundo o amigo Peter Sellers: “Ringo falava com os olhos.”

A imagem de beatle fanfarrão foi usada com maestria pelo próprio. Se McCartney era o compositor virtuoso, Lennon o mártir contestador e Harrison a força espiritual, cabia a Ringo abater o maior número possível de lebres, torrar sua fortuna pelo mundo e se divertir. Quando dizem que é um cara de sorte, responde: “Os Beatles é que tiveram sorte de ter um baterista como eu.”

Nas raras entrevistas, frustra-se com a quantidade de perguntas sobre seu antigo grupo. “É difícil, as pessoas não querem que você cresça, querem te manter naquele mundo. Olham para o cara de A Hard Day’s Night e dizem: ‘Ainda é ele!’”, disse recentemente ao Daily Mail.

Em 1969, antes de os Beatles anunciarem o fim, Ringo Starr mostrou ser o mais pragmático dos Fab Four ao gravar seu primeiro solo, Sentimental Journey. Não importava que o timbre de voz saísse envergonhado, deprimido, levemente desafinado nos standards dos anos 40 imortalizados por Sinatra, Bing Crosby e Matt Monro.

Ainda hoje há um restrito séquito de admiradores do álbum, tal qual Two Virgins, de Lennon e Yoko. Segundo Ringo, Sentimental Journey “foi a primeira pá de carvão jogada na fornalha que fez o trem ir adiante”. E só agora, 42 anos depois que o maior grupo de rock anunciou seu fim, esse trem chega ao Brasil.

Fonte: O ESTADO DE S. PAULO

por Bento Araujo

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Aí vão eles ...

Confesso que fiquei um tanto quanto decepcionado quando os Baggios divulgaram, já há algum tempo, a capa de seu tão aguardado primeiro disco - uma foto "trabalhada" com dois caras vestidos de branco "trabalhando" em algo indefinido, mas que produz uma explosão de luzes cósmico/psicodélicas. Achei uma imagem meio vaga, muito embora seja explícita a referência ao fato de que se trata de uma dupla às voltas com a concepção de um disco - mais que isso, uma obra de arte. Mas porque eles estão de branco? Para isto não há nenhum significado especial, me disse Julico.

Toda esta primeira impressão negativa, provavelmente motivada pelo fato de que eles já há algum tempo vêm sendo trabalhados iconograficamente pela competentíssima dupla de fotógrafos da Snapic (daí ficar meio que subentendido que a capa seria deles) se desfez ao pegar o material gráfico nas mãos. Impressa, a arte da capa ganha vida e adquire consistencia. Ou é isto ou fui eu que simplesmente me acostumei com a imagem, pura e simplesmente. Além disso, as fotos da snapic, sempre excelentes, estão lá, espalhadas pelo encarte e na contracapa, abrilhantando o material que é, como um todo, bem acabado e de muito bom gosto. Se é verdade que a primeira impressão é a que fica, o disquinho dos Baggios, embalado no elegante formato digipack, já chega "chegando".

Feitas as devidas loas e ressalvas ao conceito e apresentação do material gráfico - e ele é importante, especialmente num disco lançado em formato "físico" nestes tempos de download gratuito e fragmentado - vamos ao som em si. As duas primeiras já são velhas conhecidas: "o azar me consome" foi lançada previamente como single e "em outras" venceu o Festival da Arpub e, por conta disto, foi executada à exaustão pela Aperipê FM. As versões registradas no disco são bastante fièis ao que conhecemos, com exceção de alguns detalhezinhos aqui e ali nos arranjos, imperceptíveis à maioria das pessoas (e à mim também, só sei disso porque Julio me falou antecipadamente). Uma vinheta separa as duas músicas, que são ótimas e extremamente apropriadas como cartões de visita. Mas o bicho começa a pegar pra valer a partir da terceira faixa - para todos os fins, a primeira "inédita". Na verdade é uma música antiga, que já constava da primeira demo, mas aparece aqui numa gravação novinha e "turbinada" pelas intervenções do órgão de Leo Airplane, por um novo solo de guitarra e por alguns trechos que surgiram de improviso nas execuções ao vivo e foram incorporados à canção. Destaque para o "lodento" duelo vocal/guitarra/bateria do final, que remete à boa e velha tradição do blues "puro", "de raiz". O timbre da voz de Julico ajuda: ele parece ter nascido no delta do Missisipi, apesar da letra em português e em alto e bom som. É uma das melhores composições do Baggios, velha conhecida de quem frequenta seus shows, e é muito bom ouvi-la em versão tão "encorpada".

A faixa seguinte, "pare e repare", já é mais nova, mas é igualmente redonda e tem um ótimo refrão, além de também ser conhecida dos shows. "Não estou aqui", a quarta, é mais "obscura". Ótima letra, ótimos riffs e mais Leo Airplane nos teclados.

Aí chegamos a "Oh! Cigana" (seria uma letra autobiográfica? Em caso positivo, por onde andará esta cigana que despertou tamanha paixão em nosso "rei do blues" sergipano?) e seus excelentes arranjos de sopros, que não são exatamente novidade, já que a versão demo também os tinha, só que aqui eles aparecem numa "versão estendida". A novidade é um novo solo, na verdade um duelo entre duas guitarras. Muito bom. É seguida por "quanto mais eu rezo" e mais metais que dão ao disco uma pitada de rythm´n´blues.

A próxima é "Seu Cristóvão", muito boa (não existe musica ruim da The Baggios), seguida de "Morro da saudade", que abre com uma gaita muito bem colocada, cortesia do colaborador de longa data Mateus Santana, e conta também com a participação especial de Helio Flanders, do Vanguart. Na sequencia, a primeira cantada em inglês, "get out now", com uma introdução em "crescendo" que culmina em mais um excelente riff de guitarra, sempre pontuado pela potente e martelada bateria de Perninha. Prefiro Julico cantando em português, mas a sonoridade da língua de Shakespeare (e dos grandes mestres do blues, evidentemente) aqui ficou perfeita.

"Meu eu" é uma balada "bluesy" de bom tamanho a esta altura do campeonato - nos dá a oportunidade de tomar fôlego para o petardo seguinte, a já clássica "candango´s bar", mais uma homenagem às "coisas de São Cristóvão", a cidade histórica vizinha à Aracaju onde tudo começou, há aproximadamente 7 anos. Depois de "Josie magnolia", o disco acaba com "you never walk alone", cuja introdução lembra o Led Zeppelin.

Este disco é um marco e já nasceu clássico, porque é o resultado de um trabalho maturado, testado e aprovado por incontáveis apresentações antológicas por todo o Brasil - a maioria delas, certamente, no bom e velho Capitão Cook, em Aracaju. É certamente uma das melhores manifestações desta entidade viva e ativa porém ainda obscura, o rock sergipano.

Ouça no volume máximo, compareça aos shows dos caras, fique bêbado (ou não), cante junto (sempre), faça "air guitar" e ajude a divulgar você também esta pequena pérola do cancioneito independente nacional.

Vida longa e próspera (que o azar pare de os consumir).

por Adelvan

# 190 - 01/07/2011

O programa de rock da última sexta-feira começou com uma homenagem aos 25 anos de lançamento do disco "The Queen is dead", dos Smiths, completados no dia 16 de junho último. Prosseguiu com outra homenagem, desta vez a recém-falecido Seth Putnann, frontman do infame Anal Cunt, com a execução de uma faixa de seu último disco, "The Fucking A", do ano passado.

Depois do Drop Loaded, vanguarda paulistana dos anos 80: uma faixa do primeiro EP da Patife Band, de 1985, outra do último do Smack, espécie de "supergrupo" formado por Pamps (Isca de Polícia), Edgard Scandurra (Ira!), Sandra Coutinho (Mercenárias) e Thomas Pappon (Voluntários da Pátria, Fellini e The Gilbertos). "3", o EP, foi lançado pelo selo carioca "Midsummer Madness" em 2008. Finalizando o bloco tivemos a bela voz de Cadão Volpato em 2 momentos: com o Fellini e com o projeto paralelo "Funziona Senza vapore".

No "Bloco do ouvinte", rock independente feito em Maringá, Paraná, trazido ao dial sergipano pelo agitador Cultural Andhye Iore, do projeto Zombilly. A partir daí, só novidades: novas do Autopsy, banda pioneira do death metal norte-americano, do Anthrax, do Cansei de Ser Sexy, de Bjork, e uma das três faixas novas que Morrissey apresentou no programa de rádio de Janice Long, na BBC de Londres. Mais uma nova do mais novo disco de Bonifrate, principal cantor e compositor da célebre banda brasiliense Supercordas, do jason (a primeira em que Leonardo Panço não toca as guitarras), do Holydays, banda sergipana que quer manter acesa a chama do hard Core californiano, e do The Baggios, que lançará seu primeiro disco na próxima sexta-feira na Casa Rua da Cultura, em Aracaju.

Pra encerrar, o primeiro single de "Godofredo", da Vendo 147.

É isso. Voltamos. Até a próxima sexta.

Adelvan

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Discoteca Básica: The Smiths - The Queen Is Dead (1986)

TaIvez ainda seja cedo demais para avaliar o verdadeiro impacto dos Smiths na história do rock' n 'roIl e da cultura pop. Poucas vezes foi tão rápido e fácil conquistar a adulação simultânea de público e crítica, pelo menos na velha Grã-Bretanha. E as primeiras manifestações mágicas da parceria Morrissey/Marr - singles preciosos como "Hand In Glove" e "What Difference Does It Make?" - já chegaram com sabor de clássicos instantâneos. Por outro lado, não é nada fácil encontrar traços de suas influências na atual geração de bandas ...

Os Smiths foram o último suspiro de originalidade no rock britânico, a última banda relevante da explosão indie e o último legado da linhagem de Manchester que havia dado Buzzcocks e Joy Division. Seus verdadeiros trunfos estavam em suas excentricidades: conseguiram soar ao mesmo tempo extremamente punk e pop, sem contar o homoerotismo celibatário, sem plumas ou paetês, desconcertante para os padrões da usina de entretenimento infanto-juvenil.

O grupo estava mais que estabelecido no Olimpo do estrelato quando atingiu a maturidade e a perfeição em The Queen ls Dead. O disco implodia de maneira grandiloqüente a enxuta estrutura musical da banda. Uma orquestra de cordas transformando algumas das canções em verdadeiros épicos era o gesto de maior risco. tornando o som dos Smiths mais deslocado no tempo do que nunca. Este era o caso da ultradebochada faixa-título, do romantismo suicida de "There Is A Light That Never Goes Out” e da quase patológica "I Know It"s Over", certamente o momento mais ousado de Morrissey, compondo uma dilacerante canção de amor e adeus para a própria mãe.

A grande surpresa do disco estava, porém, no humor desenfreado, trazendo leveza de alma e os confortos do ceticismo à artilharia pesada que avacalhava a família real sem misericórdia em "The Queen Is Dead": imaginava mortes sádicas para Margaret Thatcher em "Bigmouth Strikes Again"; ridicularizava todos os medíocres do planeta em "Franky Mr. Shankly" e extraía boas gargalhadas da obsessão pelo sexo com a impagável "Some Girls Are Bigger Than Others". Nem um amigo como Howard Devoto - outro grande letrista de Manchester, líder do Magazine - escapou ileso da febre zombeteira que tomou o vocalista dos Smiths. Em "Cemetery Gates", ele compõe um hilariante manifesto narrando um passeio dos dois entre lápides e exibições de erudição, para concluir: "Você tem Keats e Yeats ao seu lado, mas perde/ Porque Oscar Wilde está no meu." A mensagem é fechada, para quem desconhece a literatura inglesa de século passado, mas basta dizer que, celebrando a vitória do mais leviano senso de humor sobre a sisudez, o idealismo e o classicismo, Morrissey resumia em uma cápsula o espírito do disco. Tentando sacudir seus conterrâneos para acordarem de seu "passado glorioso" antes que McDonalds, Pizza Hut, Tom Cruise e Demi Moore tomassem conta, o bufão da agonia fracassou de maneira retumbante. Como popstar. porém, não se deu mal: seus discos solos podem ser irregulares mas nunca entediantes (mesmo perdendo as insuperáveis melodias de Johnny Marr) e suas tumês americanas atraem multidões de adolescentes histéricas. O mesmo não se pode dizer do parceiro-guitarrista que hoje se dedica no derivativo duo Electronic, em que ele e Barney Summer sujam a reputação de Smiths, Joy Division e New Order - isto é, pelo menos 80% do melhor rock de Manchester.

É realmente intrigante para a geração que deixou a adolescência pela chamada idade adulta nos anos 80 (ouvindo coisas como Echo & The Bunnymen e Smiths) estar representada hoje, no megaestrelato, por baba diluída como REM (afinal, Michael Stipe tietou Morrissey incansavelmente!) e U2 (provando que Brian Eno realmente transforma água em vinho!). Mas, assim como o Oasis xeroca os Beatles, ainda podem surgir alguns moleques ingleses para refrescar a memória coletiva bebendo na fonte de Morrissey e Marr.

por José Augusto Lemos

Fonte: Revista Bizz - Edição 141, Abril de 1997

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Não lembro quando ouvi The Smiths pela primeira vez, mas na metade dos anos 80, não era difícil dar de cara com o quarteto inglês na TV, no rádio ou em revistas. As mídias “oficiais” da época eram muito mais abertas a boas novidades, e poucas coisas andavam tão bombadas quanto Morrissey, Johnny Marr, Andy Rourke e Mike Joyce. Nos quatro cantos do planeta, quem não tinha sido consumido pelo pop esfuziante de Michael Jackson, Madonna e a turma da new wave voltava os olhos para o rock alternativo feito na Inglaterra, onde os Smiths dominavam os corações e as mentes dos jovens.
No dia 16 de junho de 1986, eles caíram definitivamente de joelhos e levantaram as mãos para o céu, em sinal de idolatria, quando The Queen is Dead, o terceiro álbum da banda, chegou às lojas levantando polêmica, a começar pelo título que decretava “a rainha está morta”. Seguia a morbidez da capa (com Alain Delon) e as provocações da faixa-título (“Querido, Charles, você não anseia aparecer na frente do Daily Mail vestido com o véu de noiva de sua mãe?”), algo que não se via desde que o Sex Pistols lançou God Save the Queen. O tom das letras de Morrissey, em geral, é mesmo amargo e até raivoso, como em Frankly, Mr. Shankly e Bigmouth Strikes Again, um dos maiores hits smithianos. Por outro lado, o grupo atingiu o apogeu em termos de de melodias e riffs, extrapolando o lirismo em The Boy with the Thorn in His Side, Cemetry Gates, There is a Light that Never Goes out e Some Girls are Bigger than Others.
A proximidade da perfeição levou The Queen is Dead pras paradas nos dois lados do oceano, confirmou Marr como herói da guitarra e sua parceria com Morrissey, uma das mais aclamadas da história do rock. Pra além disso, é o trabalho que fará os Smiths permanecer eternamente na lista dos melhores álbuns de todos os tempos. Nesta quinta (16), quando tiverem se passados 25 anos, ficará ainda mais claro que ele não perdeu um grama de seu peso e importância.

http://wp.clicrbs.com.br/orelhada/2011/06/15/25-anos-the-queen-is-dead-envelheceu-bem/?topo=84,2,18,,,84

Com este álbum os Smiths atingiram sua maturidade artística. Foi seu terceiro álbum e é certamente o melhor trabalho da banda. Um conjunto fabuloso, cujo álbum debut The Smiths, em 1984, já demonstrava que estávamos diante um super grupo. Uma combinação de tensão pop (Morrissey dizia sempre que era apenas um grupo pop) e rock (Marr dizia que era um grupo de rock), adicionando algumas letras incomuns do poeta Morrissey. Temas que falavam de suicídio, abuso de menores e assassinato de crianças. Além das melodias impecáveis de Marr, fizeram dessa banda uma das mais importantes da década de 1980.

The Queen Is Dead – que quase se chamaria Margaret On The Guillotine – produzido pela própria banda foi lançado em 16 de junho de 1986 no Reino Unido pela Rough Trade Records. A Sire Records lançou o álbum nos Estados Unidos em 23 de junho de 1986. A capa traz o ator francês Alain Delon ainda jovem no filme L’insoumis, de 1965, e as canções traziam texturas sonoras mais refinadas do que seus trabalhos anteriores, sem perder a intensa carga emocional.

O álbum abre com a canção “The Queen is Dead”, comandada pelas guitarras sobrepostas de Marr que assustou pelo peso incomum nas músicas da banda, apenas um pretexto para um ataque sarcástico e bem humorado a família real britânica. Já em “Vicar in a Tutu” a vítima dos ataques de Moz é a igreja. “I Know It’s Over”, uma triste balada de adeus que Morrisey fez para sua mãe.

“The Boy With The Thorn In His Side”, que foi lançada anteriormente como singles, tornou-se sucesso instantâneo, inclusive no Brasil – o que ajudou a popularizar a banda no país. “Bigmouth Strikes Again” também foi single e contém uma curiosa participação no backing vocal de uma tal de Ann Coates, mas que na verdade é a voz do próprio Morrissey alterada de forma proposital. “Cemetry Gates”, obviamente uma homenagem a um dos vários heróis de Morrissey, no caso, Oscar Wilde.

The Queen is Dead é uma trabalho de canções impecáveis, que fica difícil de destacar alguma. No entanto, não podemos deixar de render louvores para “There Is A Light That Never Goes Out”, uma das melhores letras de Morrissey e ainda por cima acompanhados por uma melodia à altura.

A dupla Morrissey e Marr em tão pouco tempo de carreira (1982-1987) fizeram uma quantidade enorme de prolíficas canções – espalhados em álbuns e incontáveis singles – que só pode ser comparada à verve criativa de Lennon e McCartney à época dos Beatles. E todo sucesso alcançado pelos Smiths foi graças a uma única particularidade: talento. E é interessante lembrar que toda obra da banda foi lançada de forma independente pelo selo Rough Trade. Isto que é ser indie!

http://bagarai.com.br/the-queen-is-dead-classico-da-banda-the-smiths-comemora-seu-aniversario-de-25-anos.html

Ex-guitarrista dos Smiths fala sobre o álbum The Queen Is Dead que hoje completa 25 anos.

Como não existe mais a Bizz, o Blog do Marcelo Fialho resolveu furar a Billboard e a Rolling Stone (mas não a New Musical Express) e entrevistar com exclusividade o legendário compositor sobre o álbum fundamental da banda de Manchester

Durante a composição de The Queen Is Dead que artistas você estava ouvindo principalmente ?
Sente que tiveram influência direta no som do álbum?

Johnny Marr: Velvet Underground, também acho que há influência de Stooges em “Never Had No One Ever”.

As coisas aconteceram tão rápido para os Smiths.. quando produziam o The Queen Is Dead você sentiu que ele era tão especial para permanecer tanto tempo como um dos maiores álbuns de todos os tempos ?

J. M: Estava apenas tentando fazer o disco certo para nós no momento. O que foi um trabalho grande o suficiente, só achei que era um grande álbum quando foi acabado, mas você não imagina
coisas como “melhor de todos os tempos” ou coisa assim.

Você já sentiu, com os compositores que trabalhou mais tarde, uma espécie de “sincronicidade” próxima da que havia entre você e Morrissey?

J.M.: Não sei se houve “sincronicidade”, éramos muito muito próximos e trabalhavamos muito bem juntos.

Pode citar artistas atuais que mostram influência dos Smiths? Não só musicalmente, mas no discurso, com a mistura de ironia e crítica ? Ainda há rebeldes no rock ou só bandas de videoclipe?

J.M.: Não acho que é trabalho de músicos fazer crítica de artistas em público. Não sou um crítico. Acho que há rebeldes no meio, mas talvez não no mainstream. Isaac Brock do Modest Mouse Modest é um dos poucos. Ele é um artista.

Você ouviu alguns desses vários álbuns tributo vários (incluindo Smiths Is Dead)? O que gostou neles?

J.M.: Ouvi algumas versões cover ao longo dos anos. Não sei se estão nestes álbuns. Gosto da versão do Low de “Last Night I Dreamt that Somebody Loved Me”, também a versão de TheTreePeople para “Bigmouth Strikes Again” era boa quando a ouvia.

Os Smiths eram tipo uma gangue. Você sentiu algum medo ou solidão para encarar o início na carreira solo ?

J.M.: Tá brincando? Estou sempre rodeado de pessoas. Muitas pessoas às vezes.

Você veio para o Brasil com Pretenders para um grande festival (1988). Que lembranças tem ?Conhece/gosta de música brasileira? Uma volta ao Brasil está em seus planos ?

J.M.: Minha viagem ao Brasil foi muito divertida. Conheci algumas pessoas legais e ouvi boa música. Definitivamente voltarei.

Na minha opinião, seu estilo de tocar tem como marca registrada a oposição à distorção. Como você o descreve brevemente ?

J.M.: Acho que o som pelo qual sou mais conhecido é claro e de toque melódico. Tento expressar uma emoção forte e às vezes é alegre e, às vezes triste e muitas vezes, as duas coisas. Gosto quando é assim porque é como a vida é.. tento tocar o que sinto na vida.

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The Smiths - The Queen is dead 25 Anos
# The Queen is dead
# There´s a light that never goes out
# I know it´s over

Anal Cunt - Fuck yeah

Unfactory - Sex & Fight
(Drop Loaded)

Patife Band - Pregador Maldito
Smack - Excomungado
Funziona Senza Vapore - flor da espera
Fellini - Amanhã é tarde

Salamanders – “Reverse on the road”
Professor Astromar & Os Criadores de Lobisomem – “1952”
A Sexta Geração da Familia Palim do Norte da Turquia – “Quero jogar sinuca na casa do Inri”
Brian Oblivion & Seus Raios Catódicos – “Espectro de Plank”
(por Andhye Iore)

Autopsy - Dirty gore whore
Anthrax - Fight then ´till you can´t
Morrissey - The kid´s a looker
Bjork - Crystalline

CSS - Hits me like a rock
Bonifrate - A farsa do futuro enquanto agora

Jason - A incrível arte de errar em tudo
Hollydays - Go back to my home (intro for destruction)
The Baggios - Aqui vou eu
Vendo 147 - vingador