sábado, 12 de março de 2011

# 180 - 11/03/2011

No programa de rock de ontem recebemos a visita inesperada porém muito bem vinda de Rian Santos, parceiro deste blog e responsábel pela página de cultura do Jornal do Dia. Batemos um papo sobre os sabores e dissabores da crônica jornalística e rolamos um bloco bem bacana produzido por ele, um entusiasta assumido da música sergipana. Antes rolou o bom e velho bloco de punk rock clássico como é de praxe por aqui, faixas dos ultimos discos do Arcade Fire (ganhadores do grammy!), Smashing Pumpkins e Massive Attack, e um retorno aos anos 90, com um bloco extraido da sensacional coletânea "FIM DE SÉCULO VOL. I", já devassada em um post anterior aqui mesmo, neste blog. Rolou Squonks, banda de Simone do Vale anterior ao Dash e ao Autoramas, Disk Putas, legendária banda paulistana que tinha a jornalista Priscila Farias tocando guitarra e influenciou o Cansei de Ser Sexy, Primeira Pedra, goianos de uma era pré-Monstro Discos e No Class, da Campinas do tempo do juntatribo. Abrindo o programa, Cinemerne, novo projeto de Paulinho, ex-vocalista e "batedor de latas" da Lacertae, com a bela canção-título de seu disco de estréia, que tem o mesmo nome de um grande filme dirigido por Stephen Frears.

É isso. Até a próxima sexta.

A.

Cinemerne - Coisas belas e sujas

Arcade Fire - Empty room
The Smashing Pumpkins - A Stytch-in-time
Massive Attack - Pray for rain

Squonks - Rio/São Paulo
Disk Putas - Vai comer ou quer que embrulhe ...
Primeira Pedra - Ainda estou vivo
No Class - Chevrolet '79

The Salad Makers Ao vivo no Sala Especial Loaded
(Drop Loaded)

The Ramones - Blitzkrieg Bop
Buzzcocks - Time´s up
The Damned - Neat Neat Neat
Dead Boys - 3rd Generation Nation
The Clash - Jimmy Jazz

Entrevista com Rian Santos
Bloco produzido por Rian Santos:

PJ Harvey - The last living rose
Daniel Norgren - lovedog
Radiohead - Lotus Flower
Elvis Boamorte - Satisfação
Elisa - Retour
The Baggios - o azar me consome

Nucleador - Municipal Wasted
DRI - Tear it down
Misfits - 20 eys

quinta-feira, 10 de março de 2011

PSYCHO CARNIVAL 2011

A primeira noite ...

A banda goiana Graboids abriu a primeira noite do Psycho Carnival 2011, no último sábado, por volta das 22h20, e mostrou seu psychobilly com punk. Em seguida veio a australiana The Working Horse Irons que apesar de não ser conhecida no Brasil, fez muita gente acompanhar o show mesmo tocando no começo pela simpatia da banda nos bastidores e divulgação de shows pré-festival em São Paulo.

O Big Nitrons voltou a Curitiba na fase “mais leve” da banda e fez a tradicional zona no palco. O Phantom Rockers voltou ao Psycho Carnival depois de ter tocado no ano passado e já ganhou muitos fãs. A coisa esquentou mesmo por volta da 1h40 quando os maloqueiros do Ovos Presley começaram a tocar. O wrecking pegou fogo e as músicas foram cantadas em coro pelo público, como se fossem hinos. Eles mostraram duas músicas novas que caíram na graça dos fãs: “A prostituta preferida” e “A casal mal assombrada”. Mais uma das bandas brasileiras que deixam os gringos de boca aberta no Psycho Carnival.

O encerramento foi com o The Griswalds, que fez um show de 1h10 de duração e, mesmo com a banda cansada, atenderam os pedidos do público para mais músicas depois do fim do set. Em “Hoocker”, uma das pin ups que se apresentam no festival esse ano foi ao palco e interagiu com o vocalista Gary. O público cantou junto “Who´s crying now” e curtiu a nova “Bustin my balls”. Em “Psychobilly in love”, Gary cantou segurando a mão de uma menina na plateia e “Fright night” teve a participação especial de Kofte (do Mad Sin) nos vocais. O The Griswalds encerrou com a cover de “Happy hour”, do Housemartins, que reesquentou o wrecking mesmo com o público cansado depois das 4h da madrugada.

A segunda noite ...

A segunda noite era de grande expectativa pela volta dos alemães do Mad Sin. Depois de fazer um show em 2008 cheio de problemas, prometiam compensar os fãs. A primeira banda da noite foi a argentina Jinetes Fantasmas que viria para o Psycho Carnival de qualquer jeito, mesmo que como público, e acabou sendo convidada pela organização para tocar. O quarteto surpreendeu com um bom show, cheio de energia, deixando a sensação que mereceriam tocar mais tarde para mais pessoas. Com certeza os veremos de volta em turnê. A segunda foi a local Chernobillies, que mostrou suas músicas sobre bebedeiras e sexo já conhecidas do público curitibano. A terceira foram os holandeses do The Bodybags, com o músico mais ativo do festival: Ramon também tocou com outras três bandas e fez a moral com o público falando algumas frases em português. A banda alterna o som entre o psychobilly mais pesado e o tradicional e ganhou muitos aplausos após o clássico “TNT”, do AC/DC.

Eis que acontece uma surpresa: O Mad Sin antecipou sua apresentação porque não queria tocar após o Sick Sick Sinners, sabendo que o trio curitibano botaria fogo no público. Escolha acertada de Kofte e cia, mas que fez com que muita gente perdesse a nova “Cursed”, que abriu o show. Fizeram uma ótimo apresentação mesmo sem seu guitarrista, que teve problemas com o visto e não conseguiu entrar no Brasil. O brasileiro Cox e Ramon seguraram a onda muito bem e não comprometeram. Entre as mais cantadas pelo público estavam “Sell your soul” e “Comunication breakdown”. Depois de agitar a audiência com uma versão para “Brand new cadillac”, do Clash, a banda fez outra homenagem tocando “Mad daddy”, do Cramps, em meio a “Psychotic night”.

Depois do furor do Mad Sin, o revival dos mineiros Baratas Tontas ficou um pouco prejudicado. A banda fez um show simpático contando coma força de vários amigos na platéia. Apesar do Mad Sin tocar antes, a noite foi fechada com uma banda que é headliner de qualquer maneira. Os curitibanos do Sick Sick Sinners desfilaram seu set já conhecido pelo público do festival e apresentou músicas novas, entre elas “Diabólica sed”, cantada pelo baterista Nery. A banda fez um bloco com três covers: “Pot belly Bill” (Toy Dolls), “The hammer” (Motörhead) e “Cadillac podreira” (Ovos Presley). Essa última teve a participação no palco de três músicos do Ovos Presley, o que deixou o wrecking ainda mais animal. O show foi encerrado com “Curitiba Rotterdan Psycho” e nem parecia que era quase 4h da madrugada, com o público pedindo mais e se recusando a ir embora. Todo esse destaque para o Sick Sick Sinners podia ser confirmado com a aglomeração de músicos das bandas gringas atrás do palco que se espremeram para verem admirados o show do trio curitibano.

por Andye Iore, de Curitiba - via Maringá.
Fonte: Zombilly

Psycho Carnival – sábado, 4 de março (horário aproximado)
• Graboids – 22h20 às 22h50
• The Working Horse Irons – 23h05 às 23h35
• Big Nitrons – 23h50 às 0h25
• Phantom Rockers – 0h50 às 1h25
• Ovos Presley – 1h40 às 2h25
• The Griswalds – 2h50 às 4h

Psycho Carnival – domingo, 5 de março (horário aproximado)
• Jinetes Fantasmas – 22h às 22h30
• Chernobillies – 22h50 às 23h15
• The Bodybags – 23h30 às 0h10
• Mad Sin – 0h35 às 1h40
• Baratas Tontas – 2h05 às 2h30
• Sick Sick Sinners – 2h55 às 3h55

sexta-feira, 4 de março de 2011

# 179 - 04/03/2011

É sempre bom quando é possível juntar a fome com a vontade de comer. Eu sou fã do Judas priest desde os primórdios dos meus dias de “roqueiro”, na segunda metade da década de oitenta do século passado. Mais precisamente desde que comprei, das mãos de Roberto Aquino, na loja Disturbios sonoros, o LP “Screaming for vengeance” – em vinil, claro, CD já existia mas era coisa que a gente via apenas no “núcleo rico” da novela das 8. Tão fã que adotei a alcunha de “The Hellion” (o desordeiro), nome da faixa instrumental que abre este disco. Apesar disso,toquei pouco a banda nestes quase 4 anos de programa de rock. Isso muda hoje: atendendo a pedidos de ouvintes via Facebook, preparei um bloquinho especial para o Judas – banda que, a meu ver, definiu o Heavy Metal, visual e sonoramente, de uma vez por todas, seguindo os passos do Black Sabbath e demais pioneiros.

Fora isto, a diversidade de sempre: o programa abre com Asterdom, banda “stoner” de São Paulo que nos enviou 5 cópias de seu EP “It starts” para sortearmos entre nossos ouvintes, um bloco psicodélico alternativo contemporâneo brasileiro: Astronauta Pinguim com seu novo single, “Klaato Barada Nitko” (clássica e enigmática frase do igualmente clássico da ficção científica “O Dia em que a terra parou”), Plástico Lunar com mais uma pérola esquecida de seu início de carreira e Anjo Gabriel, sensacional combo vianjandão pernambucano (ver resenha do disco abaixo).

No Bloco do ouvinte, Classic rock, cortesia de um “amigo de facebook”. Fechando o pacote, um especial com 3 Blocos de “Drop Loaded” para tirar o atraso provocado pelos dias em que o programa não foi ao ar devido às transmissões ao vivo de eventos pela Aperipê FM.

Alalaô – ôôô – ôôô – Mas que calor – ôôô – ôôô

Feliz carnaval.

A.

# # #

Janeiro de 1991. Há exatos 20 anos, acontecia o Rock in Rio 2. Eu era repórter e fui entrevistar Rob Halford, vocalista do Judas Priest, sobre o show que a banda faria no festival. Naquela época pré-Internet, pré-Youtube e pré-histórica, o jornalista muitas vezes não tinha a menor idéia de como era a cara do entrevistado. A gente só conhecia os artistas de capas de discos ou fotos em revistas. E as revistas sempre chegavam aqui com meses – ou até anos – de atraso. Bastava um corte de cabelo para você não distinguir quem era quem numa banda. Por isso era comum, em coletivas, que os integrantes iniciassem a entrevista se apresentando, para evitar confusões.

Cheguei ao hotel e fui falar com o assessor do Judas Priest. Ele disse que Halford estava na piscina e queria fazer a entrevista enquanto tomava um banho de sol. Cheguei à piscina, que estava abarrotada. Famílias inteiras de europeus tostados de sol, correndo pelo lugar. Uma barulheira infernal. Como achar Halford? Não foi difícil: Ele era o único que usava um fio dental.

Rob Halford era inconfundível: careca, branco como uma vela, cheio de tatuagens e com uma sunga preta de couro do tamanho de um tapa-olho. Estava deitado numa espreguiçadeira e tomava drinks coloridos, daqueles decorados com um guarda-chuva pequenininho.

O cara foi uma simpatia. Falou da origem da banda e da expectativa de tocar pela primeira vez no Brasil. Só se irritou quando alguns integrantes do Megadeth começaram a dar bombas na piscina e espirraram água em nós. Halford reclamou e foi repreendido com insinuações homofóbicas dignas de caminhoneiro.

A verdade é que, em 1991, poucos fãs do Priest sabiam que Rob Halford era gay. Para os fanáticos, todo aquele couro preto e tachinhas era coisa do demo, não do Village People. Halford só sairia do armário em 1998, numa corajosa entrevista para a MTV americana. O baixista Ian Hill resumiu: “era o segredo mais mal guardado da história do metal!”

Mas, de qualquer forma, o intérprete da entrevista coletiva no Rock in Rio tratou de se antecipar. E quando Halford pediu licença para que os músicos se apresentassem: “Please, let us introduce ourselves”, o sujeito traduziu por:

“O Sr. Halford pede licença para que os membros do Judas Priest possam se introduzir uns aos outros!”

por André Barcinski

Fonte: Blog

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O Ministério da Saúde adverte: se você é impaciente, mantenha distância deste disco. Caso paciência seja uma de suas virtudes, prepare-se para uma viagem sem volta ao lado mais obscuro e sombrio de Jimmy Page, do seu ocultimo e de seu flerte com a magia negra. É trilha sonora para viagens, sejam elas de carro, navio, avião ou psicodélicas. Mais de uma hora e seis minutos percorridos na sinuosa estrada de seis músicas instrumentais, com um vocalzinho ou outro aqui e acolá no meio do caminho. Chato? Depede de você. Do seu estado de espírito e de seu grau de entrega. Pode ir do fascínio ao tédio. De minha parte, a sensação é de tremendo bem estar ao ouvir cada nota de guitarra, cada teclado viajado, cada acompanhamento de baixo e bateria.

O Anjo Gabriel parece congelado nos ano 1970. Eis o seu charme. Principalmente ao vivo, pois seus integrantes parecem saídos de outro planeta. Absolutamente fora de contato com a realidade. E, careta do jeito que a realidade se impõe, é um alento que, em plenos 2010, ainda existam bandas como o Anjo Gabriel.

Se você quiser uma definição curta e grossa, ela é mais ou menos assim: pegue o Led Zeppelin e o deixe ainda mais chapado. Componha faixas com mais de dez minutos de duração. E, em cada uma delas, visite os pontos extremos de uma viagem musical: suavidade e agressividade. Leveza e densidade. Calmaria e turbulência.

O Anjo Gabriel havia lançado um álbum cujo título entregava tudo: Manual Prático de Psicodelia. Aqui, não há manual, guia, norteamento. O ouvinte que se vire e que se perca a cada segundo de O Culto Secreto do Anjo Gabriel. E, quer saber? Nunca foi tão bom se perder por aí.

cotação – ótimo

por Hugo Montarroyos

Reciferock

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Asterdom – Castration, Double castration

Astronauta Pingüim – Klaato Barada Nikto
Plástico Lunar – Lágrimas azuis (garota da árvore)
Anjo Gabriel – peace karma

George Thorogood – Bad to the bone
Rock´n´roll Racing – Higway Star (Deep Purple)
Black Sabbath – paranoid
Henry Mancini – Peter Gun
Mars Bonfire – Born to be wild
Golden Earring – Radar Love
(produzido por “torpedo”)

Judas Priest:
• The Calm Before the storm
• The Hellion
• Electric Eye
• Rapid Fire (c/Ripper Owens)
• Night Crowler (single Edit)
• Turbo Lover (Hi-Octane mix)

Especial Drop Loaded:

Souvenirs – conselhos
Graforréia Xilarmônica – A técnica do baixo acústico

Pastel de Miolos:
• Não se engane
• Desespero

Watson:
• Tupanzine
• Itumbiara

terça-feira, 1 de março de 2011

Sérgio Dias, uma entrevista

Fonte: Rock Loco
por Franchico

Os céticos vão ter que engolir essa: Haih ou Amortecedor, o disco novo d’Os Mutantes, honra o legado da maior banda do rock nacional. Mesmo sem contar com 2/3 dos membros fundadores (Arnaldo Baptista e Rita Lee), o grupo arregimentado pelo remanescente Sérgio Dias (ao lado do baterista original Dinho Leme) se provou apto a levar adiante o nome e o legado do combo roqueiro / tropicalista surgido em 1966.

Lançado no exterior em 2009, Haih ou Amortecedor só agora chegou ao mercado nacional, via Coqueiro Verde, o selo independente presidido por Léo Esteves, filho caçula de Erasmo Carlos e atual gravadora do Tremendão – um motivo de orgulho para Sérgio.

A espera valeu a pena. Em Haih estão conservadas – não em formol – todas as características que tornaram os Mutantes famosos: a experimentação, o humor irreverente, a excelência instrumental, as referências à cultura popular brasileira, os arranjos caleidoscópicos.

Certamente, a assinatura do Mutante honorário Tom Zé em sete das 13 canções do disco ajudou bastante nisso. Jorge Benjor, outro antigo parceiro da banda, também marca presença na (hilária) faixa O Careca.

Ultra-viajandão, mas muito divertido e de som bastante heterogêneo, graças à variedade de vozes e ritmos apresentados, o disco é de audição fácil para quem se dispuser a embarcar na viagem neo-Mutante.

Curiosamente, o conceito central do álbum é um tanto obscuro. Ele abre com o presidente russo Vladimir Putin discursando. E termina com os hinos do Brasil, da Rússia e dos Estados Unidos misturados, em uma mixagem meio confusa. Mas o miolo, as canções entre um extremo e outro, deverão satisfazer até o mais desconfiado fã das antigas.

As faixas de Tom Zé em parceria com Sérgio, especialmente Amortecedor, 2000 e Agarrum, Anagrama e Bagdad Blues poderiam estar facilmente em qualquer álbum antigo da banda (ou até do próprio Zé). Já O Mensageiro, balada folk escrita e cantada por Sérgio Dias, é a faixa mais acessível do disco e poderia até tocar em rádios – se estas ainda tocassem música e não apenas jingles.

Outro destaque é Singin’ The Blues, da cantora neo-Mutante Bia Mendes, em parceria com Erasmo, um divertido rock no estilo da Jovem Guarda.

Haih... Ou Amortecedor / Mutantes / Coqueiro Verde / R$ 24,80

A ENTREVISTA

Sérgio Dias, 60 anos em 1º de dezembro, está numa boa, bicho. Sem se incomodar com os que o criticam por tocar adiante sua própria versão d’Os Mutantes – para muitos, um sacrilégio sem o irmão Arnaldo e Rita Lee – ele conseguiu, de qualquer forma, lançar um disco bastante elogiado pela imprensa internacional desde o lançamento, em 2009. O bom disco, as críticas favoráveis e a coesão do grupo atual – após as saídas de Zélia Duncan e Arnaldo – o deixaram confiante para seguir adiante, sem se intimidar com o peso do legado que o nome Mutantes carrega. Nesta entrevista por telefone, de sua casa em Henderson (cidade vizinha a Las Vegas), ele se emociona ao falar de Tom Zé, Gal Costa e do último show da banda por aqui, em 1972. Dica: vale buscar na internet o vívido relato do grafiteiro local Miguel Cordeiro sobre este show (leia aqui: http://www.miguelcordeiroarquivos.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html).

Sérgio, você ficou satisfeito com o resultado final do álbum? Pretende continuar gravando discos d'Os Mutantes com essa formação atual?

Sérgio Dias: Fiquei muito feliz pois fizemos do jeito que queríamos, livres, sem olhar para trás, do jeito que tinha que tinha que ser, quase todo em português. Eu não esperava uma reação tão forte no estrangeiro. Estamos com 4, 5 estrelas em todos os grandes veículos, como Mojo, Village Voice, Uncut, The Guardian, New York Times. Com certeza, vamos continuar. Em maio ou junho estamos entrando em estúdio aí no Brasil para gravar disco novo . E vai ser no meu estúdio em São Paulo, o Zorg.

Mesmo sem Rita e Arnaldo, o CD soa muito Mutantes. Foi uma consequência do trabalho com antigos colaboradores, como Tom Zé e Jorge Ben Jor?

SD: O Tom Zé foi o melhor parceiro que eu já tive na minha vida. Gênio é pouco, não tem palavra para descrever. Ele me chama de baraúna e ele é pau ferro. Uma preciosidade do Brasil, e ter tido a sorte de encontra-lo agora... Por que antigamente, não tinha bagagem intelectual nem para dizer bom-dia e agora nossa parceria ficou tão bonita! É um tamanho amor, tamanho amor, é uma coisa que estava escrita nas estrelas, como diria Tetê Espíndola. E acho que vai durar por muito tempo. Ele é um Mutante também, assim como somos todos um pouco Tom Zés.

Por que o disco demorou tanto de sair no Brasil? Lá fora saiu em 2009, não foi isso?

SD: Num sei, bicho. O Brasil é um pouco difícil de entender nessas coisas. Na época (2009) estávamos sob contrato com a Sony, mas na hora H, deu para trás. E eu num ia perder tempo de ficar batendo em porta de gravadora. Então nos direcionamos para cá (para os EUA), aonde tínhamos uns 4 ou 5 selos interessados, aí eu tive de passar para um advogado. Por que era gente amiga, como Mike Patton, Sean Lennon... No Brasil eles não acreditaram no disco por causa da saída do Arnaldo e da Zélia. Mas Os Mutantes é uma coisa maior do que as pessoas, é mais sério do que eu, Arnaldo, Rita ou qualquer coisa do gênero. Acredito que (a mudança de gravadora) foi para melhor. Saindo pelo Coqueiro Verde, para começar, estamos na companhia do Erasmo, que é uma das pessoas que eu mais respeito em termos de integridade, constância e pedigree. Estamos em casa.

O disco começa com Vladimir Putin discursando e termina com os hinos da Russia e do Brasil misturados. Haih é um disco conceitual? Faz parte do conceito? Por que Putin? Por que o hino russo?

SD: Na verdade, no fim do disco, tem os hinos do Brasil, da Rússia e dos Estados Unidos misturados. Foi uma coisa que a gente que viveu na Guerra Fria, da rivalidade entre a União Soviética e os EUA. Diante de tudo que está acontecendo no mundo, achamos que seria legal lembrar aos americanos como era interessante ter um adversário a altura no tabuleiro de xadrez. O que eles tem agora? Chavez? Naquele época, com o Khrushchov (Nikita Serguêievitch Khrushchov, líder da União Soviética entre 1953 e 1964) aconteceram coisas muito interessantes. Acho que os americanos estão dando uma importância excessiva ao Taleban, em termos históricos, não tem mais ninguém com o peso de uma União Soviética. Quando eles estavam competindo, era lindo, a corrida espacial a trouxe muitas coisas positivas.

Na capa de Haih há um corvo fotografado por você e no encarte você aparece com um traje que lembra um corvo. E na música O Mensageiro você canta: "Eu sou o corvo negro".

SD: Mas eu sou o corvo negro mesmo, entende? Todo mundo esperava que a gente viesse em tecnicolor, muita corzinha, paz & amor. Mas as coisas não são mais assim. O corvo bica seu olho, mas também é um elemento mágico, tem toda uma aura de mistério. Desde Edgar Allan Poe, né? O corvo fala! É um bicho da pesada! Não ia rolar um periquito! É muito porrada esse disco, é muito forte para ser outra coisa. E eu sou o corvo negro, por que fui o arauto dessa situação nova, uma coisa muito boa. Jogaram os Mutantes de novo na minha vida e agora não dá mais para tirar.

Além da experiência natural de 40 anos de carreira, o que mais diferencia o Sérgio Dias da primeira encarnação dos Mutantes do Sergio Dias de hoje?

SD: Num sei, cara, é difícil dizer, eu me vejo como a mesma pessoa, exatamente igual. Meus ideais, minha luta de ser honesto com o que faço, me sinto o mesmo garoto. Às vezes fico dormindo aqui, me sinto cansado, mas o tesão e o sonho são a mesma coisa. Minha mãe, quando já tava com 80 e tantos, me falava que o corpo parava, mas a cabeça continuava igual. Eu sinto exatamente isso, por isso é um grande barato encontrar o Tom Zé, ele é uma criança. Tom Zé é a fonte da juventude.

Quando veremos um show dos Mutantes em Salvador?

SD: Cara, que saudades da Bahia! Com certeza estamos loucos para tocar aí! Agora as pessoas ai tem que ser um pouco mais ativas para que possamos fazer isso. Não dá para entrar num carro e ir. Mas a vontade é imensa! No que depender da nossa vontade... Bicho, nunca esqueço do nosso último show em Salvador, na Concha Acústica (28 de fevereiro de 1972)! Eu não lembro do show no Barbican, mas lembro desse! Ficamos hospedados em Itaparica e ainda vimos um show do Luiz Gonzaga! Uma coisa que não tem parâmetro! Quando a gente vê o que sai daí hoje em dia... Coitado do Brasil.

Qual foi a última coisa boa que você ouviu do Brasil?

SD: Pô, tem tanta coisa, mas sou meio ruim de nomes. Tenho a maior vergonha disso. A Zélia Duncan é maravilhosa. Tanta gente cheia de potencial para a música. O Brasil ainda é maior manancial do mundo, musicalmente. A gente só precisa retomar de onde paramos desde o maldito golpe de estado que arrasou com nossa cultura. Você tem o Lula Queiroga... Tanta banda que tá começando com a atitude completamente livre, assim que acabaram as majors – graças a deus. A liberdade retornou, então eu vejo a garotada se libertando dos formatos de verso-bridge-refrão, essa coisa idiota. Vi muita coisa interessante, mas minha memória não funciona, cara, foi muito LSD! Só sobrou o (neurônio) Tico. O Teco foi embora! (Risos)

Depois de vocês, em termos de influência, uma das bandas que mais marcou a garotada atual foi o Los Hermanos. Conhece?

SD: Não tive tempo de ouvir tão profundamente Los Hermanos, por que eu tava ocupado para ouvir tudo. Agora mesmo, estou gravando uma música para uma obra do meu irmão Claudio, chama Gea. Tô tratando como se fosse um filme. Ando sempre muito ocupado, é difícil de parar, pesquisar, não dá tempo.

Vocês estão fazendo shows em Las Vegas? E depois?

SD: Não, eu moro aqui em Henderson, Nevada, na pontinha de Las Vegas. Toda a nossa estrutura se centrou aqui. Agora estamos indo para a Austrália e Indonésia, uma turnê grande por lá. Nunca pensei em tocar lá na vida. Depois disso, em julho, vamos para a Europa. Já tem show marcado na Inglaterra. Em maio e junho vamos ao Brasil, e em 2012, no Rock in Rio Madri. Ah! E em setembro, tocamos com Tom Zé no Rock in Rio do Rio!

Será que numa dessas não rola uma passagem pela Bahia? (Nota: O Blog "Rock Loco" é pilotado por um jornalista baiano).

SD: A Bahia é a terra onde nascemos! Caetano, Gil, Gal... Meu Deus, que saudade louca que eu tenho da Gal! A gente precisa ir aí de qualquer jeito! Diga isso na matéria!

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Sepultura, uma entrevista.

Contrato com gravadora alemã e turnê gigante por Estados Unidos/Europa recolocam o Sepultura mais próximo do primeiro mundo e longe da reunião da formação clássica acalentada por boa parte dos fãs.

Texto por Marcos Bragatto

Foto por Estevam Romera
Fonte Rock Em Geral

Esse ano não tem pra ninguém. O Sepultura está concluindo um novo álbum, o primeiro a ser lançado dentro do contrato com a gravadora alemã Nuclear Blast, a número um entre as independentes segmentadas no heavy metal. A partir de abril o grupo embarca numa turnê com mais de 40 datas nos Estados Unidos e Canadá, passando por cidades onde nunca esteve, e segue depois para os festivais europeus, incluindo a estreia no Wacken Open Air, na Alemanha, hoje o maior evento de heavy metal do mundo.

É certo que o Sepultura nunca jogou a tolha, mas não é um exagero reconhecer que o momento é de retomada na fase pós Max Cavalera, que já dura 14 anos. Enquanto Max desanda a clamar por uma sonhada turnê de reunião, incluindo farpas aqui e acolá em diversos veículos da imprensa em todo o mundo, a formação atual, liderada por Andreas Kisser dá de ombros. Porque, a bem da verdade, a banda está “fazendo outras coisas”, embora o guitarrista admita que “abriu uma porta que estava fechada”. Completam o time Derrick Green (vocais), Paulo Jr. (baixo) e Jean Dolabela (bateria).

Andreas descolou um tempinho entre uma gravação de guitarra e outra para falar do novo álbum, cujas gravações se encerram na segunda (28/2). O título não pôde ser revelado, mas, segundo Andreas, o disco é uma espécie de autobiografia do Sepultura e busca um formato “old school”. São 11 músicas inéditas e dois covers que talvez só entrem como bônus em versões especiais. O lançamento do CD deve acontecer antes de a turnê americana começar, mas os brasileiros só vão ver as músicas novas, ao vivo, no Rock In Rio, onde o Sepultura, dessa vez, toca junto com o grupo de percussão francês Tambours du Bronx (dia 25/9). Veja tudo isso e muito mais nessa entrevista exclusiva com Andreas Kisser:

Rock em Geral: Vocês estão terminando a gravação do novo disco, qual é a avaliação do trabalho?

Andreas Kisser: Eu tô super feliz com o resultado, estamos trabalhando desde 20 de janeiro, fizemos umas demos de pré produção no ano passado. A participação do Roy Z. (produtor) está sendo fundamental, ele tá conseguindo traduzir a sonoridade que a banda estava querendo, aquela coisa de trazer o som do palco para o estúdio, deixar o mais ao vivo possível. Estamos super felizes com o resultado, tá ficado muito foda.

REG: O Roy Z. não tinha experiência com bandas mais pesadas, mais thrash. Houve algum problema, em princípio?

Andreas: Não, nada a ver, ele tem a sensibilidade de perceber aquilo que a banda precisa. Ele tem muito know-how dos sons em geral, de utilizar microfones, de fazer testes, de pedais. Ele tá no mundo do metal, apesar de não ter trabalhado com nada tão extremo, mas tá funcionando bem pra caralho.

REG: Como rolou de chamá-lo para produzir o disco?

Andreas: Nós conhecemos o Roy há um tempo, eu conheço o trabalho dele com o Bruce Dickinson, com o Rob Halford, com o Judas e outras bandas, principalmente tocando. Nós já tínhamos conversado, ele sempre curtiu a banda e agora rolou essa oportunidade, porque ele vem bastante ao Brasil, tem mulher aqui, e arranha o português bem. Tudo facilitou para ele vir trabalhar conosco. O estúdio da Trama tem uma condição muito boa, ele curtiu pra caralho a mesa, toda a situação. A gente tava a procura de um cara com um know-how de fora. Nos últimos discos trabalhamos com o Stanley Soares, que é o nosso técnico de PA, que viaja com a banda, fez um puta trabalho no “Dante” (“Dante XXI”, de 2006) e no “A-Lex” (de 2009). Mas resolvemos mudar, trazer um cara de fora, com outro ponto de vista, outras idéias, e o Roy foi o cara perfeito para o que tínhamos para fazer.

REG: O disco já tem título, tá com as faixas definidas?

Andreas: O disco tem nome, mas não estamos anunciando ainda. Estamos segurando, mas tá tudo definido. Alguns nomes de algumas músicas ainda têm que acertar, mas tá 80, 90% definido.

REG: São quantas faixas?

Andreas: Gravamos 13 faixas, incluindo dois covers, um do Ministry e outro do Prodigy. Do Ministry é “Just One Fix” e do Prodigy é “Firestarter”. As músicas ficaram boas pra caralho, fizemos para ficar de bônus, fazer lançamento de “box set”, se o Japão precisar de coisas extras, mas tá rolando a pressão da gente mesmo para colocar tudo no disco. Talvez vamos guardar essas faixas para um lançamento oficial. Fora elas, são onze faixas, que foi nosso objetivo fazer um disco tipo o “Arise”, que tem nove faixas, o “Master Of Puppets” (do Metallica), que tem oito, nove (tem oito).

REG: Tipo LP…

Andreas: É, old school mesmo, não tinha espaço para fazer nessa época e se focava dentro daquele espaço, com criatividade. No “Roots” chegamos a fazer 16 faixas, era aquela coisa do CD, “ah, agora cabe”. Nós fechamos nesse limite, eram 10, mas aí acabamos fazendo mais uma e foi 11, mais esses dois covers. Ao mixar tudo vamos ter uma ideia melhor de todas as músicas, como elas vão se assentando, e vamos escolher a ordem, se vamos cortar alguma ou não.

REG: Então não é um disco temático, que obedece a uma ordem previamente estabelecida entre as músicas…

Andreas: Não é como foi o “Dante” e o “A-Lex”, mas é um disco inspirado em nós mesmos, como se fosse um livro, uma biografia do Sepultura. Nossas próprias experiências, as mudanças, as viagens, as turnês que fizemos com tantas bandas, essa carreira que a gente tem. Então pode se considerar temático, mas uma coisa não tão fechada dentro de uma história, mas a nossa própria história.

REG: As letras devem ser todas bem pessoais…

Andreas: Acho que as letras são mais pessoais, íntimas, porque não tem uma história permeando a mensagem que queremos passar. É uma coisa mais das nossas experiências. Por exemplo, tem uma música que se chama “Born Strong”, em que falamos da nossa família, de pai, mãe, mulher, filho, da paciência, da força e do equilíbrio de estar na estrada e voltar para a casa. Aquela coisa de ter a educação do berço, coisas nossas que foram fundamentais para que a banda fosse possível. Também falamos da experiência de palco, das nossas relações com gravadoras, empresários. São as nossas experiências como banda, como músicos e como pessoas. Ficou uma coisa mais pessoal, mais íntima.

REG: E em termos de som, tá mais old school também ou tem coisas novas?

Andreas: Acho que tá os dois, tem esse espírito de old school, de ter tocado o “Arise” inteiro no Manifesto (show realizado no bar/casa de shows paulistano, em que a banda tocou a íntegra do álbum “Arise”, em dezembro de 2010). No começo da turnê do “A-Lex” nós colocamos as opções no site, para a galera escolher uma fase da banda para nós tocarmos. Nos preparamos bastante para isso e tocamos muita coisa velha. E ao mesmo tempo é uma coisa nova, é o Sepultura novo com as influências que escutamos desde sempre, com as coisas mais recentes, e com essa pegada de hoje. Não importa se estamos tocando música de 15, 30 anos atrás, estamos tocando hoje. Então eu acho que tem esse clima de coisa nova, mas dá para sentir a influência da história da banda nas músicas.

REG: Você pode citar mais alguns títulos, falar de uma música ou outra?

Andreas: Deixa eu ver… tem a “Born Strong”, que fala da família… Por exemplo, essa que eu falei de estarmos no palco. Fazendo uma analogia, é como se estivéssemos na frente de batalha mesmo, porque todo dia é uma batalha, sair e encarar o mundo. Então tem uma música que se chama “No One Will Stand”. É tipo isso, depois de um show do Sepultura, cabeças rolam… Damos o máximo, é aquela coisa de passar o sentimento de estar no palco, a coisa mais espetacular na vida de um músico. Passar um pouco desse sentimento de tocar na Índia, em Cingapura, nas Filipinas, encarando como uma batalha, no bom sentido.

REG: Você disse que de participações só tem o Tambours du Bronx. Eles gravaram a parte deles em enviaram para vocês?

Andreas: Eu mandei a música que escolhemos para fazermos juntos, ela já fazia parte do repertório do Sepultura. Escolhemos aquela que poderia combinar mais com o estilão dos caras.

REG: Qual o nome dessa música?

Andreas: Ela tá sem nome ainda, estamos fazendo ela agora nesses últimos estágios, e a idéia é misturar inglês, português e francês na letra, uma coisa que nunca fizemos antes. Eu mandei a música, eles fizeram um rascunho, mandaram para cá, nós curtimos pra caralho e mandamos de volta. Eles fizeram na França e mandaram de volta, tá ficando muito bom.

REG: E o show do Rock in Rio com eles, como vai ser?

Andreas: Vamos ensaiar muito, vai ser o primeiro show que vamos fazer juntos. A ideia era fazer os festivais na Europa já nesse ano, mas deixamos para fazer a estreia no Rock in Rio e fazer a Europa com eles em 2012, principalmente na França.

REG: Eles vão tocar no show todo ou em uma música ou outra?

Andreas: É uma parceria, vai ser um show atípico, porque vai ser uma mistura de duas bandas. Vamos fazer temas antigos do Sepultura e juntar algumas coisas deles. Estamos definindo algumas músicas. Eu sei que vamos fazer o “Roots” com eles e umas outras, mas vamos chegar um pouco mais cedo no Rio para definir, vamos ter que ensaiar bastante.

REG: Você ficou chateado por não ter sido chamado para tocar no palco principal do Rock In Rio?

Andreas: Não, pelo contrário, esse Palco Sunset vai ser muito mais legal que o principal.

REG: É que é mais cedo…

Andreas: Mas isso na Europa é a coisa mais tradicional do mundo. Público vai ter, esse é o estilo do festival. E o Rock in Rio tá fazendo isso justamente com o Sunset para dar esse valor, não ficar aquela coisa de palco b, palco c. É um palco importante, fantástico, que vai ter grandes nomes, acho que é até mais fodido que o palco principal. Tem Milton Nascimento com Esperanza Spalding… Vai ser o diferencial desse festival ou até em festival do mundo inteiro. E eu tô muito feliz de fazer parte disso, por ter essa chance de fazer um show diferente, especial e exclusivo, praticamente. E os outros shows têm o Korzus com os caras do Destruction, com o Gary Holt (guitarrista do Exodus). É legal esse desafio, e é mais um pioneirismo do Sepultura, participar de uma coisa nova como essa.

REG: Você participa de shows de muitos artistas que não têm nada a ver com o heavy metal, o que gera reclamações por parte dos fãs. Isso te incomoda? Você é cobrado pelos fãs?

Andreas: Ah, não importa o que você fizer vai ter sempre gente reclamando. Então vou fazer o que eu curto, e é um privilegio. Primeiro que eu tenho capacidade para fazer, não é só querer. Quem não quer tocar com o Jorge Benjor? Fora o currículo é uma puta honra, e mais do que isso é levar o heavy metal para isso. O heavy metal se coloca numa posição fechada, achando que é melhor do que tudo, uma posição meio arrogante. “Ah, não, não toco com isso porque não gosto, porque o heavy metal é mais foda”. Nada a ver. O heavy metal pode permear tudo quanto é coisa. Aliás, o heavy metal só sobrevive por causa das misturas, é um dos estilos mais camaleões.

REG: Vocês transmitiram diariamente, na internet, a gravação do disco. Foi bom? Atrapalhou ou ajudou?

Andreas: É a primeira vez que abrimos um canal assim, sem censura ou edição, com som e a imagem. Foi legal, para a galera que não tem a mínima noção de como se faz um disco. A maioria das pessoas estava esperando um videoclipe das músicas. É engraçado ver a galera sem paciência ou achando que aquilo tudo era uma palhaçada. Mas muita gente também aprendeu que o processo é lento, cheio de detalhes. No estúdio tudo aparece, defeitos, barulhinhos. Troca microfone, testa isso, testa aquilo, é demorado, mas foi uma experiência muito legal, tanto para nós quanto para quem estava assistindo.

REG: Vocês não ficaram intimidados?

Andreas: No começo, sim, mas depois você acaba acostumando. Na hora em que a câmera tá ligada você pensa mais naquilo que vai falar, porque no estúdio você conversa de tudo, fala mal de todo mundo, fala de futebol. A gente se autocensura, mas nada que mude o ritmo de gravação. Foi legal porque deu para mostrar todas as fases, a gravação da bateria, guitarra, baixo, vocal, agora os solos. Foi muito interessante, acho que o Sepultura foi a segunda banda a fazer isso, o Blur fez isso há um tempo. O Sepultura nunca teve medo de se expor, não tem nada para esconder. Os segredos a gente guardou. É a ponta do iceberg: quem pensa que tá vendo tudo não tá vendo nada.

REG: Vocês estão com uma agenda de 40 datas nos Estados Unidos e em vários festivais na Europa. Faz tempo que não havia uma turnê do Sepultura grande assim no exterior…

Andreas: Não, no ano passado nós ficamos quatro meses direto, mais pela Europa. Faz tempo que não vamos para os Estados Unidos, essa é a primeira tour em quatro anos, eu acho. E é uma turnê com uma nova gravadora, estamos com a Nuclear Blast e também tem a promoção desse disco novo. Voltamos para o Canadá, tem umas datas lá nessa turnê, então tá legal, vai ser um começo, e depois vamos para a Europa de novo, para os festivais. Vamos tocar no Wacken pela primeira vez, estamos chegando numa boa hora lá.

REG: Gravadora nova, disco novo e essa turnê… É como se fosse uma retomada de carreira, né?

Andreas: Para quem está de fora eu acho que sim, mas nós nunca paramos. É lógico que saímos do eixo principal de Estados Unidos e Europa, mas o mundo é muito maior que isso. As pessoas ficam muito fechadas nesse circuito e acham que o mundo é isso. Mas a gente foi para Índia, Filipinas, Ilhas Reunião, Cuba, Emirados Árabes, Turquia. E o público ama, o público é fantástico, muito melhor do que lugares na Europa em que o público é totalmente mimado com as coisas, acha que já sabe tudo de tudo. Isso mantém a banda viva e com ideias novas, conhecendo culturas diferentes. Todo ano o Sepultura visita um país que nunca foi antes, isso é muito importante. Mesmo agora, estamos indo para shows no Canadá em lugares em nunca fomos, na carreira inteira. O ritmo é o mesmo, ritmo pesado, muita viagem, muito show. Mas é bom voltar para esse circuito, com a estrutura da Nuclear Blast, com o disco novo e com uma formação super estabilizada e afinada no palco. O momento é muito positivo.

REG: O que houve de conversas entre você e o Max para fazer uma turnê de reunião que tanto o Max fica falando que vocês não quiseram? O Max tá louco?

Andreas: Ah, eu não sei, parece que sim, né? Ele tá batendo na mesma tecla, mas não houve nada de específico. Foi legal que abriu uma porta que estava fechada. O Sepultura tocou com o Soulfly, acho que há dois anos, na Alemanha (Devilside Festival, em junho de 2009, na Alemanha), e acabei encontrando a Glória (Cavalera, esposa de Max e um dois pivôs da separação, em 1996), a empresária…

REG: Vocês conversaram normalmente…

Andreas: Eu conversei com a Glória um pouquinho e depois começamos a abrir um contato e tudo…

REG: Você e a Glória…

Andreas: E o Max também, até, mas muito pouco. Conversei com ele no telefone, sobre futebol, mais nada, uns dois minutos. Mas essas viagens dele eu nem sei como falar porque eu tô aqui fazendo outras coisas e é meio triste ver a situação em que o cara tá… enfim, não tem nada rolando, estamos fazendo o nosso projeto. Essa coisa de reunião desde que ele saiu da banda rola, principalmente por parte dele, mas cada um com sua doideira.

REG: Mas chegou a ter uma conversa de reunião ou não teve nada?

Andreas: Não.

REG: Você e o Paulo estiveram lá no SWU e assistiram ao Cavalera Conspiracy. O que você achou?

Andreas: Achei legal, vi o Iggor tocando com vontade, coisa que eu não via há muito tempo. Mas foi legal, eu já tinha assistido ao Soulfly umas duas vezes, nos Estados Unidos. É legal, eu curto, não tem nada a ver essa coisa de “ah, não vou lá ver”. É palhaçada isso, música é música, os caras tão fazendo o som deles.

REG: Com o Iggor não tem nenhum problema, não, né?

Andreas: Acho que não tem nenhum problema com ninguém, eles escolheram sair da banda e escolheram o caminho que tinham que seguir. O Iggor parece bem mais tranquilo e feliz fazendo o Mix Hell (projeto de música eletrônica de Iggor Cavalera), tá curtindo outra fase. Inclusive eu vi o Iggor no Rock in Rio Madri no ano passado com o Mix Hell, é classe A, super positivo.

REG: E o Musica Diablo (banda paralela do vocalista Derrik Green), você curte?

Andreas: Acho legal, thrashão. É legal ele ter uma banda, o lance é organizar datas, esses negócios. Mas é válido todo mundo com alguma coisa. Eu tenho o trabalho solo, o Jean tem as coisas deles, o Paulo tem um lance em BH. A prioridade todo mundo sabe qual é, que é o que fez possível todos esses projetos. É até saudável musicalmente, tentar coisas que não entram no Sepultura em outros lados. O cara volta com ideias novas para o Sepultura.

REG: Está gostando de ter uma coluna no Yahoo?

Andreas: Eu curto, é um canal legal de opinião em que você chega a várias pessoas e dá para falar de música de tudo o que é jeito, não fico preso no heavy metal. Mas tem também essa experiência de viajar o mundo, tocar com outros músicos e gravar com outras pessoas. É um canal legal para tirar um pouco essa coisa do preconceito, do radicalismo. É legal trocar uma ideia com a galera e ver a posição de cada um.


sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Dobradinha sergipana

The Baggios e Café Pequeno acabam de vencer, nas categorias vocal e instrumental, o Festival de musica da ARPUB - Associação das Rádios Públicas do Brasil. As bandas concorreram depois de terem vencido a etapa local, o Festival Aperipê de Música.

Julio Andrade, via Facebook: "Um 25 de fevereiro para ninguém botar defeito. Dia lindo, namorada, grandes amigos, família e uma grande surpresa. Isso tudo devo a essa galera de bom coração e que realmente aposta no meu trampo. Estou muito feliz e emocionado com isso tudo que vem acontecendo. Surreal. Thanxs"

Gabriel Carvalho, via Facebook: "valeu a todo mundo! café pequeno ganhou tb na categoria instrumental!"

Indira Amaral, presidente da Fundação Aperipê, via Facebook: "Tá difícil até de escrever, mas Sergipe sagrou-se campeão pela segunda vez no Festival Nacional de Música das Rádios Públicas. É tanto significado q isso carrega q eu nem sei se consigo dizer tdo. Primeiro pela excelente qualidade do trabalho dos meninos de São Cristóvão, a The Baggios, e pela musica do Café Pequeno. Segundo porque somos o menor estado do país, de uma emissora pequena mas atrevida."

Edezio Aragão, diretor da Aperipê FM, via Facebook: "To orgulhoso pra#$%$#&*ˆ(ˆ(($%@@ˆ... merecidíssimo... Felicidade demais vivenciar esse momento da música em SE... contrariar esse tal do serigy... o que é bom tem que aparecer... espero que sirva de estímulo para continuarmos nesse bom caminho que a música de SE já vem se colocando... PARABËNS de novo para os dois grupos."

Congratulações a todos os envolvidos.


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Patton Strikes again

Mike Patton/ Mondo Cane + Orquestra Sinfônica de Heliópolis !!! - O vocalista do Faith No More, Mike Patton, apresenta pela primeira vez no Brasil seu projeto paralelo Mondo Cane, que traz releituras orquestradas de clássicos da música pop italiana dos anos 1950 e 60 como “Che Notte!”, de Fred Buscaglione, “Urlo Negro”, da banda The Blackmen, e “Deep Down”, de Ennio Morricone. No Sunset Rock in Rio, Mike Patton contará com a Sinfônica Heliópolis, orquestra formada por jovens instrumentistas da maior favela de São Paulo.

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Em um eveto realizado ontem à tarde (22/2) no Hotel Fasano, na zona sul do Rio, o Rock In Rio definiu as traçãoes que irão se apresentar no Palco Sunset, o espaço do festival destinado a encontros de uma ou mais bandas e/ou artistas. Dentre os destaques, estão o ex-vocalista do Faith No More, Mike Patton, com o projeto Mondo Cane (foto), adicionado de uma orquesta brasileira; a ex-vocalista do Nightwish, Tarja Turunen, cuja turnê passa pelo Brasil em maio, como convidada do Angra; o grupo indie dinamarquês The Asteroiods Galaxy Tour, cujo convidado ainda não foi definido; e a fusão de Cidadão Instigado com Júpiter Maçã - ambos já tocaram juntos, mas em shows individuais.

O evento, apresentado pela vice-presidente do Rock In Rio, Roberta Medina, aproveitou a excelente localização da cobertura do hotel - no Arpoador, com o pôr do sol de Ipanema e Leblon ao fundo - para realizar pequenas apresentações, no clima de jam session do Palco Sunset. Tocaram Ed Motta, Andreas Kisser, João Donato, Tulipa Ruiz, Zeca Baleiro e Monobloco, entre outros. Antes, fizeram breves discursos a Secretária de Turismo Esporte e Lazer do Estado do Rio de Janeiro, Márcia Lins; o Secretário Municipal de Turismo, Antonio Pedro; o curador do Palco Sunset, Zé Ricardo; e os representates das empresas Líder e Wizard, patrocinadoras do Palco Sunset.

Ao todo, serão quatro shows por dia, com início às 14h45, o que, segundo a produção, garante o término das apresentações antes das 19h, sem que os shows do Palco Mundo (o principal) sejam prejudicados. A capacacidade aproximada do Palco Sunset é de 25 mil pessoas. Embora a produção dissesse que hoje seriam anunciadas todas as atrações, ainda falta confirmar os convidados de Ed Motta e Rui Veloso, do Asteroids Galaxy Tour e de Marcelo Camelo. Veja abaixo a programação (quase) completa do Palco Sunset Rock In Rio:

Dia 23/9, sexta
Móveis Coloniais de Acaju + Orkestra Rumpilezz + Mariana Aydar
Ed Motta + Rui Veloso + convidado
Bebel Gilberto + Sandra de Sá
The Asteroids Galaxy Tour + convidado

Dia 24/9, sábado
Marcelo Yuka + Cibelle + Karina Buhr + Amora Pêra
Tulipa Ruiz + Nação Zumbi
Milton Nascimento + Esperanza Spalding
Mike Patton/Mondo Cane + orquestra

Dia 25/9, domingo
Matanza + BNegão
Korzus + The Punk Metal Allstars
Angra + Tarja Turunen
Sepultura + Tambours du Bronx

Dia 30/9, sexta
Buraka Som Sistema + Mixhell
João Donato + Céu
Cidade Negra + Martinho da Vila + Emicida
Monobloco + Macaco

Dia 1/10, sábado
Cidadão Instigado + Júpiter Maçã
Tiê + Jorge Drexler
Zeca Baleiro + Concha Buika
Erasmo Carlos + Arnaldo Antunes

Dia 2/10, domingo
The Monomes + David Fonseca
Mutantes + Tom Zé
Titãs + Xutos & Pontapés
Marcelo Camelo + Convidado

Fonte: reg

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Iron Maiden em Encontro de Motoclubes ...

Vendo esta notícia não pude resistir a fazer uma comparação com os encontros de motoclube que acontecem por aqui, onde rola de tudo, menos rock de verdade. Interessante como, ao contrário do resto do mundo, o motociclismo no Brasil (ou pelo menos nesta parte do país) não está necessariamente ligada à cultura "rocker". Uma pena.

# # #

Iron Maiden é a atação principal da 30ª Concentração Motard de Faro.

Este encontro, que é a maior convenção de Motos na Europa é realizado anualmente pelo Moto Clube de Faro e este ano ocorre entre 14-17 julho, com a Donzela de Ferro como headline da noite do dia 14 de julho de 2011.

A presença do Maiden em Faro homenageia uma grande amizade de muitos anos, tanto da banda e do Moto Clube de Faro - com o falecido Manu da Silva, amigo pessoal de Steve Harris e gerente do "Eddie's Bar", em Santa Bárbara de Nexe, Faro.

Steve Harris comentou a notícia: "Temos tentado agendar nosso show neste incrível evento por muitos anos e é fantástico que tenhamos finalmente a oportunidade de tocar lá. Eu conheci e fiz amizade com os caras do Moto Clube de Faro há muito tempo, através de um amigo em comum do Eddie's Bar, o gerente Manu Da Silva, que morreu tragicamente há cinco anos. Manu foi durante muitos anos um bom amigo muito próximo de mim e da banda, assim podemos dizer que vamos tocar em um tributo à sua memória. Estamos todos muito ansiosos para isto."

A última vez que o Iron Maiden tocou no Algarve foi em Março de 1993, durante a Real Live Tour, então este retorno está bem atrasado! Além do Maiden também estão confirmados no evento: Xutos e Pontapés (PT); Mago de Oz (ES); Hells Bells - Tribute to AC/DC (UK); Los Inhumanos (ES) e IRIS(PT)

Karne Krua - "Massacre Of Innocence (Air Attack)"

(wikipedia) Discharge é uma influente banda punk inglesa, criadora do D-beat. Foi formada em 1977 por Terry 'Tezz' Roberts nos vocais, Tony 'Bones' Roberts e Roy 'Rainy' Wainwright nas guitarras, Nigel Bamford no baixo e Akko na bateria. Nigel sai da banda em seguida e Roy entra no baixo. Essa formação soava mais como um Sex Pistols e grava apenas uma demo tape. A formação e o som mudaram em 1979. A banda contava apenas com Tony e Roy da formação original, agora com Kelvin 'Cal' Morris nos vocais e Tez na bateria. Para muitos, é a formação clássica do Discharge.

O som pesado, rápido e extremamente cru da nova formação despertou a atenção dos fãs. Suas letras falavam sobre o anarquismo, o pacifismo e temas enfatizando uma possível guerra nuclear, além do mal social causado pelo capitalismo. Em 1980, assinaram com a gravadora Clay Records e lançaram o single Realities Of War, que alcançou certo destaque nas paradas musicais independentes do Reino Unido. Depos disso, a banda passou por mais uma mudança na formação com a saída de Tez e a entrada de Dave 'Bambi' Ellesmere (ex-The Insane), antes do single Why ser lançado. Em 1982 lançam o álbum Hear Nothing, See Nothing, Say Nothing, que chegou a entrar nas paradas de sucesso do Reino Unido.

No EP Never Again houve uma nova mudança na formação, com a entrada de Gary Maloney, do The Varukers, na bateria. Bones saiu antes da gravação de Warning. Foi quando a banda começou a mudar o som para o Crossover. Com essa proposta, lançam Ignorance em 1985, já com uma nova formação. Houveram várias mudanças na formação até 2002, quando lançaram o álbum Discharge com a formação clássica.

Em 2004 fizeram uma turnê brasileira e chegaram a tocar na tradicional casa de shows de punk/hardcore Hangar 110, em São Paulo, com Ratos de Porão e Calibre 12. Com a formação original (exceto o vocalista, que na ocasião era Anthony "Rat" Martin do The Varukers) tocaram ao vivo em horário nobre no programa Gordo Pop Show do vocalista do Ratos de Porão, João Gordo, na MTV Brasil. A banda está na ativa até hoje.

Clique aqui para ver o clip de um cover do Discharge gravado recentemente pela Karne Krua.

São Pedro Sodomita

“Torce contra que é melhor”, já dizia uma musica do Poindexter, extinta banda de “funk metal” da Baixada fluminense. Não digo que estava “torcendo contra”, não mesmo, não é do meu feitio, felizmente, mas não botavas muita fé, e é gratificante quando você tem uma surpresa positiva vinda de algo no qual não botava fé. Não botava fé no “Trimorfia” porque não gosto do nome (falo do som da palavra em si, o significado até que é ok: adj (gr trímorphos) 1 Miner Diz-se de uma substância que se pode cristalizar de três formas diversas. 2 Bot Diz-se das flores que têm estames de três tamanhos diferentes) e porque a esmagadora maioria das bandas que têm surgido nos últimos tempos não têm absolutamente nada a dizer.

Fiquei positivamente surpreendido com a banda já na sexta, quando eles apareceram para um bate-papo vapt vupt no programa de rock. Têm potencial. Não se apegam a fórmulas fáceis e possuem aquela velha e boa energia tão cara ao bom e velho rock and roll. No sábado, haveria um show promovido pelos rapazes. Fui, apesar de São Pedro não ter dado trégua. Muita chuva e show de banda underground na Casa Cultiva, que fica onde Judas perdeu as botas, é quase sempre sinal de pouco público e muito prejuízo, e foi o que, infelizmente, parece ter acontecido.

Mas normal: “Quem ta no rock é pra se foder”, já dizia Irmã Dulce, e é bom que a garotada aprenda logo isso pra saber por onde pisam nesse terreno pantanoso, “onde os fracos não têm vez”. O rock rolou, e é isso que importa. Anéis de Vento foi a primeira, e foi mais uma surpresa positiva. Fazia tempo que não via um show dos caras e tive a impressão de que estão crescendo bastante no palco, o que é ótimo. O ponto fraco ainda é o vocal do baixista e principal vocalista, mas há algumas músicas cantadas por um dos guitarristas que, se não tem lá uma grande voz, compensa com garra e vontade – o outro deveria seguir seu exemplo, fica a dica.

Na sequencia, The Renegades of punk. Nada a dizer que já não tenha sido dito: show energético, som no talo, excelente perfomance de todos – e olha que eles estavam apenas ensaiando ao vivo, segundo confidenciaram a todos os presentes. Grande banda.

Trimorfia foi ok. Na passagem de som tiraram um trechinho de “Black Magic”, clássico do slayer. Deveriam incorporá-la ao set list, ficou ótimo. O vocalista é muito bom, e toca guitarra também. O baterista descontou a raiva pelo preju na produção em suas peles e isso foi ótimo, imprimiu uma dinâmica excelente à apresentação. O baixista é ok. É uma banda relativamente nova, um tanto quanto “verde” ainda, mas tem muito potencial. Espero que sigam em frente.

E foi isso. Em tempo: o título deste post é uma referêcia a uma frase dita por um dos produtores, algo do tipo: “nunca pensei que uma chuva pudesse comer tão violentamente o cu de alguém como essa de hoje”.

Até a próxima, se Deus (?) quiser.

A.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Capturados em transição

O Jason "voltou", mas Leonardo "Panço" saiu. Seria apenas mais uma mudança de formação nesta banda que é, antes de tudo, um grupo de amigos unidos em torno de uma (uma? Várias!) idéia. Seria, caso Panço não tivesse se convertido, "quase sem querer", na "cara" da banda, ao manter o grupo em circulação pelo Brasil e pelo mundo - passando várias vezes, inclusive, pelo nordeste brasileiro, outrora sempre esquecido. E se o nordeste já não é mais tão esquecido pelas bandas "underground" em turnê, boa parte da "culpa" é justamente deles, que sempre nos incluíram sistematicamente em seus "gigs". O Jason sempre se arriscou "fora do eixo", muito antes deste termo cair "na boca do povo", o que é apenas mais um entre os muitos méritos que esses caras têm. Merecem, no mínimo, respeito (eu, particularmente, tenho muito mais do que isso), por isso é uma honra para o Blog de meu humilde programinha de rádio veiculado aqui em nosso cantinho do mundo poder capturá-los num momento tão especial. Desde já desejo-lhes toda a sorte do mundo, estarei atento às novidades. E valeu pela dica dos downloads disponíveis no Trama Virtual - preciso mesmo tocar MAIS Jason no programa de rock!

Abaixo, uma entrevista inédita e fresquinha, materializada há apenas alguns minutos em minha página de recados do Facebook:

programa de rock: Fui recentemente surpreendido pela notícia de que o Jason tinha voltado com a formação “quase” original, com Vital e Floq, o que me fez notar que eu não sei qual foi, afinal, a formação “original” do Jason, a primeira, a que começou tudo, as primeiras composições e tal. Qual foi ? Rafael Ramos era um membro “oficial” do Jason ? Ele foi o primeiro baterista ou era apenas um “convidado”?

Flock: Você tem razão em chamar de formação "quase" original, pois o Rafael foi da banda e gravou os dois primeiros discos comigo, Vital e Panço. Só que o atual baterista, de Souza, está há tanto tempo no Jason que o efeito foi de "retomada" mesmo.

programa de rock: Em todo caso, digam aí vocês: como foi que surgiu essa idéia de voltar ao trio dos princípios, Panço, Flock e Vital? Foi o que, saudade, mais tempo disponível ou apenas uma conjunção astral favorável?

Flock: Eu já estava falando aos quatro ventos que queria voltar a compôr, estava muito a fim de voltar a fazer música e tal. Um belo dia encontrei numa mesa de bar o Panço e o Carlos Fialho - que estava no Rio e parece mesmo gostar do Jason -, quando o assunto surgiu. Não lembro exatamente o que o Fialho disse, mas quando soube que o Vital também estava a fim, saí daquela mesa certo de que voltaria à banda.

de Souza: O Vital e o Flock, mesmo fora da banda, sempre estiveram fortemente ligados ao Jason. Eu entrei na banda em 2002, e em grande parte deste tempo até hoje, já não tinha nenhum dos dois oficialmente. Saí em 2007, e fiquei mais ou menos um ano fora. Depois voltei, mas rolaram apenas alguns poucos shows esporádicos, ainda com uma outra formação. Não tínhamos ritmo de banda ativa, e também nenhuma perspectiva pra que esse ritmo voltasse. A volta dos dois é que alavancou novamente as minhas pretensões de voltar a fazer música.

programa de rock:Quais shows fizeram recentemente, e como foi ? Foi bom pra vocês ? parece ter sido bom para o público ?

de Souza: Desde que retomamos, estabelecemos o foco na criação em detrimento das apresentações ao vivo. Todos nós temos nossos compromissos extra-banda, e fica difícil querer fazer tudo ao mesmo tempo. Portanto foram poucos shows nesse período. Abrimos pro RDP no Teatro Odisséia, tocamos no Circo Voador, Resende e Barra Mansa, no interior do RJ, São José dos Campos (SP) e gravamos o Estúdio Oi Novo Som. Todos eles foram muito bons pra todas as partes envolvidas.

programa de rock: Mais surpreso ainda fiquei com a saída do Panço, ele deu alguma explicação que possa ser compartilhada com o público ? Se propôs a continuar colaborando com a banda sempre que solicitado, assim como Vital e Flock sempre colaboraram ?

Vital: Assim que a gente começou a fazer músicas novas, ele saiu. Ele alegou estar se aposentando desse lance de banda. Então pressupomos que futuras colaborações dele não façam muito sentido.

Flock: A situação agora é totalmente diferente da época do "Regressão", quando o Vital cantou e eu fiz as letras. Agora somos uma banda de volta ao estúdio, discutindo música diariamente, compartilhando arquivos, enfim, criando. Somos auto-suficientes.

De Souza: Exceto pelos que estiveram envolvidos nos discos, o Jason sempre teve uma certa rotatividade de integrantes, e os que optavam por sair, eram substituídos. Dessa vez será da mesma forma. Mas no momento estamos preocupados apenas em continuarmos os 3 compondo, que era o que já vinha acontecendo há algum tempo.

programa de rock: Quem de vocês se dispõe a assumir as funções, digamos, “burocráticas” (marcar show, manter contato, dar entrevista) que geralmente era o panço que fazia ?

Vital: A única coisa que estamos nos preocupando agora é seguir compondo. Não paramos de ensaiar, nossa rotina seguiu normalmente. Calhou que somos três caras muito a fim de criar, de fazer música. Isso afinal é a única coisa que importa de verdade. Depois que o material estiver pronto, vamos ver como rola todo o resto. Sem atropelos.

Flock: Eu não incluiria dar entrevistas como burocracia, sempre fiz com prazer enquanto tive banda, inclusive o Jason. Acho irônico eu e o Vital sermos os autores de "Imagem É Tudo, Sua Cabeça Não Tem Nada" e agora precisarmos vincular nossa imagem à nossa própria banda - não é fascinante? Mas isso vai acontecer naturalmente com o passar do tempo, inclusive criamos o email jasonoficial@gmail.com e reativamos os perfis da banda (facebook, twitter, orkut etc) para suprir todas as necessidades de comunicação. Está funcionando muito bem, aposto que foi fácil nos achar para responder essas perguntas, por exemplo :) (NOTA: foi facílimo)

De Souza: A gente tem procurado dividir todas as tarefas que pintam (como esta entrevista), e tentamos fazer tudo da forma mais democrática possível. Ter banda é isso aí.

programa de rock: Estão Procurando um novo guitarrista fixo ? Quais os planos de vocês para o futuro, lançar algo novo, fazer alguma turnê ? Já têm idéias para um novo disco – aliás, pretendem fazer um novo disco, um álbum (coleção de musicas) como no “passado”? Caso positivo, como pretendem lançá-lo ? O suporte físico ainda é valido ? Em que sentido ?

Vital: Como a saída do Panço pegou a gente no processo de composição, resolvemos seguir por ora como trio e continuar compondo. Os três compoem, essa parte tá indo muito bem. Se fóssemos parar agora pra procurar guitarrista, teríamos que ficar marcando ensaios-teste, tocando as músicas antigas, e isso iria mandar o processor criativo pras picas. A gente vai ver isso de guitarrista com o material novo já adiantado.

Flock: Acho que só a indicação de alguém de confiança ou o destino ser muito benevolente fará com que um guitarrista entre na banda agora. Nossa intenção é voltar a ser um quarteto em algum momento, mas sem desespero.

Vital: Esse lance de disco físico realmente tá complicado, mas eu particularmente ainda gosto de fazer. Mais uma vez, vamos primeiro fazer as músicas e depois decidir. A gente tá tipo zen, sabe? Estamos imersos nesse lance de criar e todo o resto vai vir depois mesmo. Mas, te respondendo, claro que vamos lançar, independente do formato.

programa de rock: Como vocês vêem o cenário atual do circuito “alternativo” brasileiro e como vocês pretendem (se vão continuar, devo deduzir que pretendem) se inserir nele ? O circuito de festivais, por exemplo, noto que o jason sempre ficou um pouco à margem, especialmente neste novo momento depois da Fundação da Abrafin – pretendem tentar algum contato neste sentido ?

Vital: Quando nós estivermos prontos de pra cair na estrada de novo, vamos fazer o feijão-com-arroz normal de qualquer banda pra divulgar, espalhar, viajar, tocar. Na real eu e Flock ja fazíamos isso no Poindexter. E vou te contar um segredo: eu só voltei a ter banda pelo rock pela arte. Não tenho mais nenhuma urgência de assinar, fazer social, tirar onda, sair em jornal, ou participar de um evento "porque vai dar status", nada disso. É uma sensação de liberdade muito grande cagar solenemente pra esse tipo de coisa. Vamos fazer nossa parte, o que pintar será bem-vindo.

programa de rock: Fazendo um retrospecto da carreira da banda: Qual o melhor disco na opinião de cada um ? o que ficou de boas (e más) lembranças das muitas turnês que vocês fizeram pelo Brasil e pelo mundo?

de Souza: Gosto muito dos dois últimos, Eu Tu Denis e Regressão. Gosto também das faixas gravadas com o Glerm de vocalista, ali entre 2003 e 2006. Elas foram lançadas num split com uma banda alemã. Não estão em nenhum outro álbum nosso. Estamos tentando dar uma organizada nisso e acabamos de disponibilizar essas músicas como se fosse um EP virtual, chamado Verde, que pode ser ouvido/baixado em http://tramavirtual.uol.com.br/artistas/jason

Flock: Cada disco foi feito com uma intenção e todos foram bem-sucedidos dentro da sua lógica interna. Esbarramos em questões de produção em algum momento, mas a maioria das músicas que hoje ainda me dizem algo estão no Eu Tu Denis. Sobre as turnês, eu generalizo assim: quanto mais distante fui, mais boas lembranças trouxe.

programa de rock: Qual o legado que vocês acreditam que o Jason está deixando para esta entidade estranha chamada “rock brasileiro” ?

Flock: Legado é um termo bem forte, né? Sei que já estamos na história do roque pelas nossas realizações, inclusive as que estão por vir, e gosto de acreditar que a gente sirva de inspiração pra uma galera. Isso basta.

programa de rock: Algo a acrescentar ?

de Souza: Estamos sempre no jasonoficial@gmail.com e em breve lançaremos uma música inédita, com divulgação especialmente no facebook.com/jasonoficial e twitter.com/jasonoficial

Flock: Espero que a gente coma uma macaxeira de forno com você novamente. Abraço!

As fotos são de Carlos Fernando Castro

Adelvan Kenobi perguntou
Jason respondeu

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Clive Burr: Uma tragédia pessoal.

Quando o baterista CLIVE BURR foi chutado do IRON MAIDEN, em 1982, ele achou que as coisas não poderiam piorar muito. Daí ele foi diagnosticado com esclerose múltipla e sua vida virou de pernas pro ar...

Por LEE MARLOW, traduzido por Nacho Belgrande

Começou primeiramente em suas mãos. De todos os lugares, suas mãos – as ferramentas de seu comércio. Era apenas uma sensação de formigamento a princípio, nada de mais ou muito preocupante; inconveniente ao invés de doloroso. Mas não passava. E, ao invés de piorar, foi ficando continuamente, preocupantemente pior. A dedução de CLIVE BURR sobre o formigamento em suas mãos era simples: era por causa da bateria. A culpada deve ser toda aquela bateria que ele tocou por anos.

‘Bata nelas com força’, ele tinha imprimido em suas baquetas feitas por encomenda. “E eu sempre bati”, ele diz. “Então eu continuei. Eu guardei aquilo no fundo da minha cabeça, tentei não pensar nisso”.

Isso foi no fim dos anos 80, ele acha. 1988 ou talvez 89. Um longo tempo depois de ele ter deixado o IRON MAIDEN. Ele tinha ocupado o banquinho de uma meia dúzia de bandas desde o Maiden.

Por volta de 1994, estava tão ruim que ele não podia continuar ignorando. “Eu vivia deixando as coisas caírem”, ele diz. “Eu não conseguia segurar nada direito. Eu mal podia segurar minhas baquetas”. Quando ele não conseguia mais rodar as baquetas entre seus dedos – o tipo de truque que ele conseguia fazer com os olhos fechados dois anos antes – tinha chegado a hora de consultar um médico.

O diagnóstico levou meses. Houve testes e exames, mais testes, até que eventualmente tudo culminou no consultório de um clínico, um homem de cara fechada com notícias muito ruins. Pior, impossível. Os exames revelaram esclerose múltipla, e duma variação particularmente virulenta e agressiva da doença, e por isso chamada de EM Inicial Agressiva. A vida do Sr. Clive Burr estava prestes a mudar para sempre.

Hoje em dia, o homem que fornecia a frenética, porém sempre distinta e original espinha dorsal rítmica dos três primeiros discos do Iron Maiden, está numa cadeira de rodas. Algumas vezes, apenas sair da cama para encarar um novo dia é uma luta. “Eu fico muito cansado”, ele diz. Eu nem sempre consigo fazer o que quero.”

A bateria dele está numa garagem em sua casa especialmente adaptada, em Wanstead, zona leste de Londres, que ele divide com sua parceira Mimi, uma ex-professora de catecismo que também tem EM. “Meeeeeeeeemes”, ele grita, repetidamente ao longo de nossa entrevista. “Onde está o meu Rosie?” [Rosie Lee = marca de chá]. “Eu só tiro a bateria quando meus sobrinhos veem agora”, ele diz. “Eles parecem gostar”. Para Clive, agora com 53 anos de idade, é só até aí que a coisa vai hoje em dia.

Em outro aglomerado de tralhas está uma pilha de pratos Paiste danificados, quebrados em vários shows da turnê Beast On The Road em 1982; um lembrete contundente, se fosse preciso, do baterista poderoso que ele uma vez foi. Seus dias de baterista estão acabados.

Nas raras ocasiões que a EM o abate, ele vai ao DVD player e assiste a um antigo show do Maiden. “Eu gosto disso”, ele ri. “Eu sento lá com a Meemes, com os pés pra cima, e eu volto praquela época. Eu fico sorrindo por todo o vídeo. A gente era uma banda boa, sabe.”

Antes que a gente comece a falar do Maiden, e como eles eram bons com Clive junto, talvez seja mais pertinente abordar como isso acabou. Isso é algo que tem sido negado a Clive pela maior parte dos últimos 30 anos. Muito tem sido escrito sobre sua saída do Maiden, durante uma exaustiva turnê no verão de 1982. A maioria disso tudo, ele diz firmemente, é asneira.

“Eu ouvi as histórias – que foi por causa de drogas ou por muita bebida”, ele diz. “Não foi nada parecido com isso”.
A verdade, como é muitas vezes em casos de cadeiras musicais do heavy metal, é um pouco mais sórdida, um pouco mais acrimoniosa. Começou com uma ligação. Ele não lembra onde ele estava quando recebeu a ligação, ele só lembra que ele tinha que ir pra casa em Londres. O pai dele, Ronald, tinha morrido repentinamente de um infarto. Ele tinha apenas 57 anos.

Um mapa dos EUA ponteado com shows está à frente do Maiden, mas, naquele momento, isso não importava, ele diz. “Eu tinha que ir pra casa”. Todo mundo pareceu concordar com isso, ele lembra. Vai pra casa, eles disseram. Fique com sua família. Clive voou de volta pra casa num Concorde.

O Maiden trouxe o ex-baterista do TRUST, Nicko McBrain, como substituto para que a turnê continuasse, o show pudesse continuar. Clive e Nicko eram amigos. Sem problema. Tudo estava beleza. “Eu conhecia o Nicko”, Clive diz. Cara legal. Bom baterista. Num número dos primeiros shows, Nicko tinha se caracterizado de Eddie para assustar a plateia. “Ele amava a banda, ele amava ser parte de tudo aquilo. E o resto da banda gostava dele”. Clive estava prestes a descobrir o quanto gostavam.

Então Clive foi pra casa, foi ao funeral de seu pai, passou algum tempo com sua família, e duas semanas depois, voou de volta para os EUA para se juntar ao Maiden, que estava cruzando a América, abrindo pro Rainbow, Scorpions, .38 Special e Judas Priest. “Eu voltei e podia sentir que algo não estava certo”, Clive lembra. Houve uma reunião. A atmosfera estava tensa. Havia mudança no ar, e Clive, ainda dormente pela perda do pai, podia farejá-la. “Achamos que está na hora de uma pausa”, eles disseram a Clive. E foi isso. Depois da melhor parte de quatro anos, três discos – não apenas qualquer disco velho, tampouco, mas os três discos que muitos fãs do Maiden dirão a você que permanecem sendo o melhor trabalho da banda – e de repente o sonho tinha acabado, logo quando estava começando a virar realidade.

Todos sabem o que aconteceu com o Maiden depois. O que aconteceu a seguir com Clive Burr foi um caso de sacudir a poeira e começar tudo de novo. Ele estava de luto por seu pai. Agora ele também estava de luto por sua banda e pelo trabalho com o qual ele tinha sonhado desde que viu Ian Paice tocando "Highway Star", com o Deep Purple, pela primeira vez. Em casa, no Reino Unido, os rumores eram díspares: eram as drogas as culpadas por sua demissão; era a cachaça; que Clive gostava da cerveja, sexo e rock n’ roll apenas um pouco mais do que os outros; que algumas vezes ele tinha que tocar nos shows com um balde do lado de sua bateria pra quando as ressacas fossem demais... as mazelas do rock n’ roll estavam entrando no caminho da banda, todo mundo concordava. Todos exceto por Clive.

Trinta anos depois, ele diz que ainda incomoda ouvir isso. Ele nunca foi muito de beber. Claro, ele tomava brandy com Coca-Cola – um Curvoisier e uma Coca-Cola. “Meu roadie costumava me arrumar um antes de entrarmos no palco”, ele ri – mas nada muito exagerado. Não mais ou menos do que qualquer um da banda. “Éramos como garotos de escola nos EUA”, ele diz. “Nunca havíamos estado lá antes e nossos olhos se abriram. Havia muitas festas, e as garotas estavam se jogando em cima de nós. Nós nunca tínhamos vivido qualquer coisa como aquilo.”

Clive – o cara que tinha sido eleito ‘Gostosão do Mês’ de julho pela revista para adolescentes Oh Boy – mandou ver. “Claro que mandei. Todos nós mandamos.” E daí acabou. Clive voou para Londres novamente, e daí para a Alemanha com sua mãe, e ficou na dele. “Eu estava muito chateado para sentir raiva disso”, ele diz. “Houve um período de luto – eu senti pelo meu pai e eu senti pela minha banda – e daí eu me levantei e continuei”.

Simples assim?

“Bem assim, sim. Não teve nenhuma mágoa. A vida é curta demais. É bom esclarecer os fatos, contar meu lado da história”, ele diz, “porque ele não é muito conhecido. Eu acho que se você vai despedir alguém, despedir essa pessoa logo depois dela ter perdido o pai não é o melhor momento pra fazê-lo... eu acho que eles tinham as razões deles. E foi isso.”

Depois do Maiden, Clive tocou com um número de bandas em seqüência rápida: Graham Bonnet’s Alcatrazz (isso durou uma semana), Stratus, o assim chamado supergrupo da NWOBHM Gogmagog, Elxir, Dee Snider’s Desperados. Nenhuma delas chegou perto de obter o que ele tinha alcançado com o Maiden. E ainda assim, para Clive, isso não fazia diferença. “Eu só queria toca. Quando eu vim pra casa da Alemanha,depois do Maiden, eu costumava prender meu cabelo num chapéu, pôr um par de óculos escuros e tocar com qualquer pessoa que me quisesse, nos bares por Londres”, ele ri. “Eu só queria tocar bateria”.

Era como era quando ele era garoto. Os Burr moravam num apartamento em Manor Park, no coração da zona Leste de Londres. Enquanto estava na escola, Clive construiu uma bateria artesanal. “Tudo que tínhamos pela casa, ele estava batendo com baquetas”, sua mãe Kiara lembra.

Quando ele descobriu Ian Paice e o Deep Purple, sua obsessão pareceu tomar uma nova dimensão. A família de Kiara comprou seu primeiro kit da bateria pra Clive quando ele tinha 15 anos. Foi tanto uma benção como uma praga. “Era legal pra eles, mas eles não tinham que ouvir aquilo”, diz Kiara. “Eu costumava sair do apartamento com medo de olhar os vizinhos na cara por causa do barulho que ele estava fazendo.”

Mesmo para os ouvidos leigos de Kiara, ela conseguia ver que era bom. Muito bom. Ele nunca teve uma aula propriamente dita, ele aprendeu vendo outros bateristas e tocando constantemente.

Clive entrou pro Maiden saindo do Samson em 1979, substituindo Doug Sampson, logo quando o Maiden estava prestes a assinar com a gingante EMI Records. Era um baita passo, ele lembra, do rock tradicional calcado no blues do Samson. Os ensaios do Maiden eram sérios, e eles tinham que ser. As canções eram mais rápidas e intrínsecas, com muitas mudanças de tempo. Tocar bateria com essa banda não era emprego pra novato. Mais –e melhores – shows começaram a vir, e também o interessa na banda de gravadoras. Logo que a EMI contratou o Maiden, Clive saiu de seu emprego diurno como entregador na cidade.

O sucesso da banda devia-se quase todo ao baixista, Steve Harris, Clive diz, “Steve era o líder, com certeza. Ele escrevia as músicas, ele agendava os shows, ele arrumava os ensaios. Ele era muito centrado. Ele sabia pra onde ele queria que a coisa fosse. E a gente seguia.”

A sessão rítmica naqueles três primeiros discos não podia ser mais entrosada. “Nem sempre foi assim, Clive lembra. “Steve costumava dizer que eu tocava as músicas de maneira muito rápida, ele estava sempre me dizendo pra desacelerar. Minha memória marcante de gravar 'The Number of the Beast' é Steve me dizendo pra diminuir”.

Havia rusgas, ele diz, mas nada sério, nada grande. “A gente se dava bem, e havia muita camaradagem”. Mesmo depois da racha, Clive se encontrava com o guitarrista do Maiden, Adrian Smith e iam pescar.

Quando a banda soube da esclerose múltipla de Clive, eles interferiram e ajudaram-no da melhor maneira que eles podiam – tocando por ele. A ajuda deles transformou sua vida.
“Eles me deram um carro...” Ele pausa. “Meeeeeeemes, que carro é aquele mesmo?” ele grita. “Nós os chamamos de Clivemóvel. É um Volkswagen Caddy com vidro fumê. É como um carro de gângster americano. Eles organizaram shows para angariar dinheiro, não só pra mim, mas pra outras pessoas com EM. Eles colocaram um elevador nas escadas de nossa casa. Algumas vezes eu subo as escadas olhando pros discos de ouro e platina na parede, ha ha ha”.

Melhor do que isso, e o que ele mais aprecia em tudo, Mimi diz que quando Clive está sumido, eles se lembram dele. “Eles dizem que se você precisar de qualquer coisa, apenas ligue, telefone,” ela diz. “Toda vez que eles tocam em Londres, Clive sabe que tudo que ele tem a fazer é pegar o fone e ele tem os dois melhores ingressos do lugar. Pode não parecer muito, mas pra Clive, é. No fim das contas, pra ele, é como seus feitos – quem ele é e o que ele fez – estão sendo reconhecidos.

Fonte: Whiplash