quinta-feira, 19 de maio de 2011

Entrevista com plastique noir

Faz tempo que não leio mais revistas de Heavy Metal (já fui assinante da Rock Brigade, nos anos oitenta), mas sempre folheio nas bancas. Numa destas "passadas de olho", certa feita, vi que a Roadie Crew estava lançando uma coletânea virtual dedicada ao gótico/dark brasileiro. Legal, nem sabia que existia uma cena gótica no Brasil para além do “gothic metal”, geralmente chato e repetitivo. Baixei o disco e uma banda, em especial, me chamou a atenção: plastique noir, de Fortaleza, Ceará. Em termos estritamente estilísticos não traziam nada de novo – era um som derivativo que emulava tudo o que de melhor foi feito na área nos anos de 1980, especialmente - mas se destacavam pela competência na composição e na execução da música presente na compilação, “Those Who walk by the night”. Fui atrás de mais material da banda e confirmei minha primeira impressão: havia realmente algo de especial ali. Tornei-me fã ao ponto de viajar para vê-los, em Recife, no Abril pro rock, e em Salvador. São também muito bons Ao Vivo, tanto que estão conseguindo furar o bloqueio que os deixava naturalmente confinados ao gueto e tocando em vários festivais alternativos Brasil afora, alguns bastante conceituados, como o próprio Abril pro rock.

O plastique noir acaba de lançar seu segundo disco, “Affects”*, o que me fez pensar que era o momento oportuno para uma entrevista com os caras. O resultado, respondido por Airton S., o vocalista, você confere logo abaixo ...

* “Affects”, o novo disco do plastique noir, é mais homogêneo e mais bem gravado que o anterior, “Dead pop”, de 2008. O baixo “cavucadão” de Daniel e as linhas de guitarra cortantes (com um pouco de peso e distorção em alguns momentos) de Marcio Mazela, somados às programações precisas e o vocal soturno de Airton S., passeiam por composições bem acabadas feitas por encomenda para animar “festas estranhas com gente esquisita”. Os teclados, gravados por convidados, também se destacam, criando belos climas em praticamente todas as faixas. Não há nenhum grande destaque: o disco começa muito bem, com a bela “Rose of Flesh And Blood”, e segue no mesmo nível até o fim, oscilando entre passagens abertamente sombrias, embora quase sempre dançantes, e o escracho de letras como a de “Mazela takes a walk”, que foca o comportamento excêntrico de seu já legendário guitarrista.

Grande lançamento! Corra atrás!

por Adelvan

* * *

Programa de Rock – De vez em quando vejo críticas ao trabalho do Plastique Noir chamando-o de “datado” num tom pejorativo, como se música tivesse prazo de validade ou tivesse que se guiar, necessariamente, pelas tendências da moda. Como a banda encara este tipo de questionamento? Há uma preocupação especial em se “atualizar” ou vocês simplesmente ligam o bom e velho botão “foda-se” e estão pouco se lixando se o tipo de som que fazem os empurrará, inevitavelmente, a um gueto?

Airton S – A questão é que o Plastique Noir nasceu como som de gueto e, até certo ponto, exatamente para ser som de gueto. A gente tem tentado se desvincular disso pra que a coisa não fique chata demais de ser feita, isso pra nós mesmos. Eu, Mäzela e Danyel escutamos som pra caralho, que vai desde Aldo Sena até black metal. No começo formamos a banda para que ela fosse estritamente gótica, mas hoje a gente percebe que esse coisa negra da música está presente em vários estilos e sempre foi nosso playground preferido. Dá pra encontrar referências interessantes no drama do tango, no samba escapista do Cartola, no piano de Beethoven e por aí vai. Se isso vai forçar uma identificação de nosso som com o público gótico, melhor! É uma massa numerosa, isso nos proporciona contatos e principalmente amigos. Quando a gente chega em São Paulo e Brasília, pra citar duas cidades em que tocamos com frequência, já saimos do avião direto para caírmos na palhaçada com os amigos! Vamos tomar umas, pôr o papo em dia, farrear e rir bastante. Mas claro que é sempre bom dar atenção ao universo fora do gótico também, se quisermos que nosso som tenha sempre uma sobrevida. O que era só diversão a princípio está chegando a um patamar de trabalho que gera uma responsabilidade de que nosso som se apresente da maneira mais profissional possível. E, para que ele se mantenha assim, é importante que busquemos diálogo com outras cenas, outros palcos, outras opiniões. Acho que se trata tudo de um grande esforço de equilíbrio.

Programa de Rock – Por falar em gueto, é possível escapar dele mesmo se mantendo fiel a uma proposta específica, sem se render a “misturebas” oportunistas? Vocês se sentem parte de um “gueto”? Em caso de resposta positiva, sentem-se bem, aconchegados, dentro dele?

Airton S – Acho que o Plastique Noir é também música de gueto, mas não só isso. Em cidades como Fortaleza e Recife, é comum de se ver uma parte do público de nosso show que não está vestida de preto. É minoria, mas rola. Não temos problema com a palavra “gótico”, que dá nome ao gueto de que estamos falando. E o que temos percebido, principalmente com o novo álbum, é que até mesmo os góticos tem encarado de coração aberto algumas licenças estilísticas a que nos permitimos nesse trabalho mais recente.

Programa de Rock – Existe uma cena dark/gótica estruturada e atuante atualmente no Brasil? Se existe, qual o seu real tamanho, onde ela é mais forte, e como ela dialoga, se é que dialoga, com o cenário independente em geral?

Airton S – Existe e está em fase de maturação, talvez mais perto de um profissionalismo que nunca houve antes. Algumas cidades e regiões tem cenas mais fortes e profissionais, como é o caso de Salvador, Brasília e principalmente São Paulo, que tem uma agenda semanal repleta de eventos simultâneos. Semestralmente rola lá o Projeto Ferro Velho, que traz sempre um grande nome mundial do estilo com a abertura obrigatória de uma banda nacional, o que favorece um intercâmbio inestimável em termos promocionais e de troca de know-how entre países. Existe até mesmo um festival nacional, o Woodgothic, que já conta com três edições e é organizado por uma das bandas mais prestigiadas do Brasil hoje, o Escarlatina Obsessiva. Rola bianualmente no alto da serra mineira, em São Thomé das Letras. A DDK, no Rio, põe brincando umas 500 cabeças pra dento da festa. Nada disso existia até dez anos atrás e olha que as primeiras bandas e eventos góticos no país datam de meados dos anos 80. Ou seja, nos últimos anos tá rolando um “boom” bem grande. Tivemos sorte de iniciar nossas atividades no meio disso tudo. Ou talvez não tenha sido coincidência, talvez o momento tenha favorecido nossa banda e nossa cena assim com tantas outras, com a expansão da internet, barateamento da produção musical etc. Agora, diálogo com o independente fora do gótico, acho que praticamente inexiste. Algumas bandas do selo em que estamos agora, a Wave Records, tem obtido vaga nos festivais de maior renome, mas não é sempre que rola.

Programa de Rock – Senti no “Affects”, o novo disco do Plastique Noir, uma maior homogeneidade nas composições, ao contrário do primeiro disco que, como é de praxe em estréias de bandas que atuam já algum tempo no cenário, funcionou mais como um apanhado de músicas que vêm sendo buriladas ao longo do tempo. Como foi o processo de composição do disco, as musicas são todas novas ou houve alguma retomada de trabalhos antigos nunca antes lançados?

Airton S – É tudo novo. O único reaproveitamento foi a faixa-tributo, “Never Look For People Like Us”, que era do Max e resgatamos do fundo do baú pra homenageá-lo. Todas as novas foram surgindo aos poucos, entre um ensaio e outro durante a tour do Dead Pop que durou, ainda que fragmentadamente, uns três anos e rodou boa parte do país. De volta à Fortaleza, vimos que tínhamos composto quase 20 músicas ao final do processo, muito embora durante ele nós já tínhamos uma noção de qual ia entrar na track list final e qual não ia. Ok, até que ainda chegou a rolar uma discussão por essa ou aquela faixa, no sentido de incluir ou limar, mas tentamos formar um consenso e acho que deu certo. Foi interessante trabalhar dessa forma - refiro-me a essa coisa de “criar um disco do nada”. Eu nunca tinha feito isso e talvez tenha sido o que justamente trouxe a coesão que você percebeu. Agora, não sabemos muito bem o que fazer com as sobras. Tem umas coisas que eu particularmente acho bem legais ali. No começo dos contatos com nosso novo selo, até rolou uma pilha mútua de fazer uma versão de luxo com disco extra, mas isso ficou inviável porque nossa verba pra gravar tinha acabado e daí resolvemos garantir o álbum full que já tínhamos em mãos. Talvez essa versão deluxe possa sair ainda. Não sei. Agora ninguém está mais pensando muito nisso, estamos tentando promover o que já tem.

Programa de Rock – Vocês ainda compõem pensando num álbum fechado, com um conceito, mesmo que vago e flexível, amarrando as faixas, ou vão compondo ao longo do tempo e apenas juntam o resultado?

Airton S – Um pouco dos dois. É que, nisso de compor ao longo do tempo sem neuras, coincidentemente ou não as músicas acabaram se mostrando “entrosadas” entre si, por si próprias, sem que tivéssemos que forçar a barra conceitualmente. Digo, conceito havia, mas não deu quase nenhum trabalho perceber depois que o material obtido se encaixava quase completamente nele.

Programa de Rock – Ainda existe espaço para o conceito de álbum, uma coleção de musicas representativas de um momento de uma banda embaladas por uma capa, contracapa e encarte? O Plastique Noir acredita que este conceito vai sobreviver? Em caso positivo, como conseguem resistir à tentação da urgência de nossos tempos hiperconectados para não lançar as musicas aos pedaços na net antes do resultado final acabado?

Airton S – Veja bem, nossa média de idade na banda é de 29 anos, mais ou menos. Não somos tão jovens. Alcançamos o vinil, tínhamos centenas de K7 em casa, já rebobinamos muitas delas na base do giro de caneta (risos) e só agora estamos tendo contato com o MP3, que foi o grande culpado por essa fragmentação no consumo de música. Eu, Danyel e Mäzela ainda trazemos um pouco dessa “cultura de álbum” nos nossos perfis musicais. E por uma questão igualmente cronológica, boa parte da imprensa musical também, já que os mais novos no meio têm o quê, 20 e poucos anos? Esse pessoal ainda leva a sério o formato de álbum assim como nós e é por isso mesmo que não rola conosco essa ansiedade de liberar material de qualquer forma. Penso ainda que, como prensar disco continua sendo uma parada cara e trabalhosa, o fato de a banda ter encontrado alguém que faça isso por elas, leia-se selo, ou mesmo ela ter reunido recursos para fazer por si mesma, denota que atingiu um nível legal de profissionalismo e por isso merece atenção do mercado e dos fãs.

Programa de Rock – O suporte físico ainda é realmente necessário? Pensam em, algum dia, lançar seus trabalhos apenas via internet? Como vocês administram este equilíbrio entre uma coisa e outra, o novo e o velho estilo de se “vender” música? Há espaço para os dois?

Airton S – Por enquanto, sim. E talvez mais ainda no nosso caso, já que somos freqüentemente identificados com uma cultura urbana como a gótica. Gente assim tem seus próprios hábitos de consumo, seus fetiches e seu mercado simbólico interno. Assim como punks, straight-edges, bangers etc, os góticos ainda valorizam o item material colecionável. Agora, como já falei antes, tudo é uma questão de equilíbrio. Também não faz sentido nego ser anacrônico e fazer vista grossa pro ambiente virtual. Tanto é que nossas músicas também são comercializadas em formato de download. Pra não falar no vazamento pirata, que nós nem achamos tão danoso assim. Haja vista o nosso primeiro álbum, cuja permissão de lançar free foi exigida por nós junto ao nosso selo na época. Era nossa estréia, queríamos aparecer legal. Já no caso do Affects, não sentimos a necessidade de tentar forçar uma interferência na maneira como o Alex da Wave acha melhor trabalhar, até porque confiamos demais na competência do cara em termos de distribuição.

Programa de Rock – Como é a relação da banda com os selos que lançam seus discos?

Airton S – A Pisces foi o primeiro selo em que entramos. O Ulysses é um cara muito gente boa, apesar de meio viajandão (risos). É foda conseguir falar com o cara, por exemplo. Mas o apoio que ele nos deu e continua dando é inestimável. Começamos a nos falar em 2007 e ele sempre se mostrou um cara muito honesto e sobretudo apaixonado pelo que faz. Quando resolvemos mandar o Affects pra Wave, não rolou nenhum tipo de mal-estar, até porque o Alex é quem distribui o Dead Pop, adquirido junto à própria Pisces. Inclusive aproveito pra avisar que esse disco já já vai acabar e quem não adquiriu, falou, um abraço. Não creio que ele vai voltar logo aos catálogos. Já sobre o trabalho com a Wave, sei lá, parece que foi um passo natural fechar com o selo. O Alex atua na cena gótica desde os anos 80, é figura carimbada nos principais eventos internacionais do estilo, tem contatos quentes, enfim, não tinha como não ser do jeito que está sendo. Botamos fé demais no trampo dele, musical inclusive. Eu e o Mazela já éramos fãs do 3 Cold Men antes mesmo de formar o Plastique (risos).

Programa de Rock – Vinil: há algum fetiche em especial da banda por este suporte ? Há alguma demanda dos fãs por lançamentos neste formato do Plastique Noir?

Airton S – Não sei, mas acho que deve existir. Confesso que a gente nunca pensou muito nisso até então. O Rafael, nosso produtor, às vezes bate nessa tecla. James, nosso amigo que toca no Facada, também de vez em quando tenta instigar a gente, falando das vantagens da prensagem em vinil, na questão do volume de cópias… Quem sabe um dia?

Programa de Rock – Como tem sido a divulgação de “Affects” no Brasil e no mundo, há algum plano em em ação neste sentido?

Airton S – Bom, felizmente a demanda por shows tá rolando sem que tenhamos a necessidade de sequer correr atrás deles. Algumas datas fora de Fortaleza foram fechadas e algumas até já foram cumpridas com sucesso. O pessoal parece estar curtindo bastante o disco. O promocional tem sido feito pela gente, por meio de nossa onipresença quase constante nas redes sociais e aqui cabem agradecimentos ao Rafael, em parceria com o Alex, que está colocando o disco nas lojas de São Paulo e da Europa, neste último acaso através da distro alemã Nova Media. O lançamento será em São Paulo também, numa festa do Via Underground. O Alex cuida mais da promoção no meio gótico e a gente está tentando colocar o disco evidente no meio independente nacional em geral, aproveitando os contatos que já fizemos em nossas passagens pelos festivais da Abrafin e eventos do Fora do Eixo.

Programa de Rock – A agenda de shows de vocês, como está? Tenho visto que a banda tem conseguido se inserir na agenda de festivais independentes e, com isto, se apresentado para um público mais amplo. Isto é fruto de um esforço em especial da banda neste sentido ou os convites vieram de forma “espontânea”? Pretendem seguir por este caminho? E como tem sido a recepção do público dos festivais à proposta do Plastique Noir?

Airton S – Olha, é meio que as duas coisas. Por aqui em Fortaleza a gente sempre foi alinhado com o coletivo local, a Rede Cem e daí eles nos servem de ponte pras curadorias. Mas acredito que nosso som acabe agradando, nego não ia pôr uma banda no line-up do festival dele que custou 90 mil pra acontecer, se houvesse o risco de, com a inclusão da tal banda, o negócio ficar feio. E o resultado acaba sendo bacana pros dois lados. A gente tem levado um público pros festivais que dificilmente iria pra ver as outras bandas. Nisso, acabam curtindo algo que não conheciam. E de forma semelhante, a gente acaba fisgando uma ou outra pessoa que estava ali, assistindo, sem botar muita fé na gente. Estamos tentando dar prosseguimento a essa via de trabalho. Esse ano já fizemos o Tendencies, em Palmas, e o resultado foi ótimo, travamos um contato amigável massa com a cena rockabilly de Curitiba por exemplo, que estava lá e de repente pode pintar algo disso…

Programa de Rock – Há uma faixa tributo a um antigo integrante da banda, falecido, no disco. Falem-nos um pouco de quem se tratava e qual foi sua contribuição para a construção da sonoridade do Plastique Noir.

Airton S – O Max integrou a banda desde o seu inicio até a metade de 2008, tendo definido muito de nossa identidade melódica e chegando a gravar o Dead Pop. Ele tocou na banda que pioneirizou esse estilo mais pós-punk gótico em Fortaleza, o Rebel Rockets, nos anos 90. A banda já estava extinta quando o convidamos a assumir os synths no Plastique Noir. O cara cativou todo mundo logo de cara com seu jeito amável de ser, sem falar em sua puta bagagem musical, quase enciclopédica. A chegada dele à formação foi, sem dúvida, o marco final para que nos sentíssemos prontos pra começar, como banda de verdade. Tinha ainda o folclore derivado de sua profissão como agente funerário (risos), era divertido mencionar isso em entrevistas. Infelizmente o cara foi se ocupando demais com atividades paralelas e teve que deixar a banda. Digo, deixou mesmo: ele não foi expulso e também nunca pediu pra sair. Foi estranho… simplesmente ele parou de comparecer a ensaios, shows… daí a gente ia se virando. Hoje, interpretamos essa atitude como uma maneira que ele encontrou de evitar de falar em saída por não querer de fato sair. Nosso contato foi ficando cada vez mais esparso desde então, sempre tínhamos notícias de sua vida por meio de um primo dele que é muito amigo nosso, quase irmão dele. Foi um choque quando recebemos a notícia de seu falecimento devido a complicações de saúde. Ele já estava há muitos dias em coma e o fato ocorreu quando estávamos numa reunião de amigos em razão do aniversário do Mäzela, que acabou sendo atingido de forma violenta naquele que era seu dia. O disco estava para começar a ser gravado, já tínhamos o material inteiro pronto. Somos caras bastante céticos, mas gostamos de pensar que ele estava presente posteriormente no processo, ajudando nem que fosse a partir da idéia que sua pessoa representa nos nossos corações de forma inspiradora.

Programa de Rock – Aproveitando o “gancho”: façam-nos um resumo do que tem sido a experiência da existência da banda até agora: os acontecimentos mais marcantes, as maiores dificuldades, as maiores alegrias …

Airton S – Cara, esse começo da minha resposta vai soar clichê, mas é foda: a gente passou por muita coisa nesses 5 anos. Eu juro que não consigo mais repassar minha vida durante esse tempo dissociando-a da banda. Acho que a melhor coisa que ficou são os amigos. As viagens sempre foram e são cansativas, mas eu diria sem pensar muito que elas são o melhor da festa. E é o que mais marca. E olha que eu não gosto de fazer show, meu lance é estúdio. A gente se divertiu muito por aí. Conhecemos gente de toda parte, vivemos momentos engraçados, encontramos freaks de toda espécie. A parte ruim, acho que foram os desentendimentos. A gente já brigou muito, de vez em quando ainda brigamos, aliás. Já fiquei sem falar com o Mäzela por semanas, já “rompi” até mesmo com o Babuê, que é uma moça (risos). Tivemos momentos em que tínhamos grana pra caramba pra investir nas nossas coisas, situações em que nos sentimos rockstars por causa de bobagens como, sei lá, estarmos pela primeira vez em um puta hotel aguardando a hora do show. Sabe, essa coisa meio de moleque sonhador? “Caralho, fodeu, estamos bombando!” (risos) Meio ridículo até… Ou ainda, estarmos ao lado de bandas gringas fodonas, na mesma van… Encontramos o Afrika Bambaataa no backstage do Abril Pro Rock, uma lenda viva, tocamos na mesma noite, o cara mó figuraça, divertidão, tirando sarro do Mäzela bêbado… Assim como também já rolaram momentos em que estávamos quebrados, sem ter nem o que comer esperando o ônibus de volta pra Fortaleza, bebendo cachaça e tocando violão na rodoviária pra passar o tempo. Já rolou de sermos saudados pessoalmente por jornalistas de certa envergadura e de sermos difamados e acusados levianamente por pseudo-produtor de evento. Sua primeira pergunta foi sobre “gueto”, tem um jornalista que você deve saber a quem me refiro, vive batendo verbalmente na gente… Mas é isso. Tudo faz parte e nós fazemos parte de tudo isso.

Programa de Rock – E para o futuro, há planos, metas ou é navegar ao sabor dos ventos?

Airton S – A gente nunca faz planos a longo prazo. Engraçado estar respondedo a essa entrevista logo agora, porque ontem mesmo eu estava tomando umas cervejas com o Babuê e começamos a retomar os planos pra shows no exterior, mas não convém divulgar nada ainda. O que dá pra adiantar é que já tem coisa concreta a esse respeito, mais detalhes em breve. Vamos tentar fazer as cidades que ainda não fizemos, principalmente na região sul. O norte já começamos a desbravar recentemente em Palmas, mas é a maior região do país, ainda tem muito lugar lá pra se ver e nos ver. Interrompemos quase que totalmente os shows durante os três meses de gravação e produção e agora queremos tocar bastante, o máximo, onde der e em quaisquer condições, desde que não seja muito inviável em termos de aparelhagem e deslocamento. Queremos corrigir algumas falhas nossas, como a escassez de merchandising. Gente de toda parte fica enchendo nosso saco por camisas, bottons, etc, e estão certos em vir encher. Vamos tentar tocar nos festivais em que ainda não tocamos e buscar mais visibilidade no geral, aproveitando que estamos com assunto novo. No caso, o álbum.

Programa de Rock – Espaço aberto para considerações finais.

Airton S – A gente queria agradecer de todo o coração por esse seu espaço e principalmente pela divulgação do trampo de bandas independentes como a nossa, que normalmente tem muita dificuldade pra produzir e circular dignamente. Muito obrigado por preencher essa lacuna preciosa. Somos muito a fim de tocar em Sergipe, quem sabe um dia. Abração pra todos que fazem seu programa e que o acompanham também!

+ em http://plastiquenoir.net

quarta-feira, 18 de maio de 2011

31 Anos hoje


A morte do compositor e cantor do Joy Division, o britânico Ian Curtis, completa 31 anos nesta quarta, 18.

O artista lançou somente um disco em vida, ao lado dos companheiros do Joy Division, o álbum Unknown Pleasures (1979). Em entrevista à Rolling Stone Brasil, que será publicada na edição de junho, Peter Hook, baixista do Joy Division, que virá se apresentar no Brasil mês que vem, declarou que "tocar o Unknown Pleasures na íntegra significa ter um pouco do Ian com a gente a cada noite".

A vida e a carreira foram curtas. Curtis tinha apenas 23 anos naquela noite de maio em que, no auge de sua depressão profunda, devastado com o fim de seu casamento com Deborah Curtis e sua epilepsia, cometeu suicídio. Dois meses após sua morte, os integrantes remanescentes do Joy Division lançaram o disco póstumo Closer (1980). "Ian Curtis permanece congelado no tempo, eternamente jovem e em nossa memórias", refletiu Hook.

Depois da morte de Ian, os outros músicos, Hook, Bernard Sumner (guitarrista e tecladista) e Stephen Morris (bateria e percussão), formaram o New Order.

Da Redação da Revista Rolling Stone.

Ian Curtis. 15 de julho de 1956 – 18 de maio de 1980.

Love Will Tear Us Apart


When routine bites hard
And ambitions are low
And resentment rides high
But emotions won't grow
And we're changing our ways
Taking different roads

Then love, love will tear us apart, again
Love, love will tear us apart, again

Why is the bedroom so cold?
You've turned away on your side
Is my timing that flawed?
Our respect runs so dry
Yet there's still this appeal
That we've kept through our lives

But love, love will tear us apart, again
Love, love will tear us apart, again

You cry out in your sleep
All my failings exposed
And there's taste in my mouth
As desperation takes hold
Just that something so good
Just can't function no more

But love, love wil tear us apart, again
Love, love will tear us apart, again
Love, love will tear us apart, again
Love, love will tear us apart, again


Dead Billies em Aracaju

Recordar é viver: (Adelvan) Um dos grandes arrependimentos de minha vida foi ter perdido os dois únicos shows que o Dead Billies, seminal banda psychobilly de Salvador, fez em Aracaju em início de carreira, na já longíquo década de 1990. Não botei muita fé, pra dizer a verdade. Hoje acho que eles são uma das melhores bandas do estilo que já existiram, no mundo ! Nunca mais subestimo o rock baiano ...

Abaixo, devidamente autorizado, publico um texto de Ricardo Cury, ex-brincando de deus, sobre aqueles dias loucos.

* * *

Em 1997, os Dead Billies foram fazer dois shows, no mesmo fim de semana, em Aracaju.

- Vocês ficam aqui em casa – disse o brother Gilmar, que foi baterista de uma banda chamada Zona Abissal.

Chegaram na casa de Gilmar (ele estava viajando), arrumaram as bagagens e foram para a varanda do AP. Os fumantes acenderam seus cigarros enquanto discutiam sobre o que fazer naquela tarde livre, antes do primeiro show. Resolveram ir para a praia. Deixaram a chave do apartamento na portaria, pois o amigo Rogério Big Brother chegaria de Salvador depois deles e também se hospedaria lá. Após duas horas de sol e cerveja, lembraram de ligar pro apartamento pra saber se Big Brother já tinha chegado. Foram até o orelhão mais próximo:

- Alô!

- Big? Já chegou?! – perguntou Rex, o baterista.

- Já. Cheguei tem uma meia hora...

- E aí, tudo beleza?

- Ta tudo beleza, mas... (pausa)... só tem um problema...

- Qual foi?

- O apartamento pegou fogo.

- Hein? Que apartamento?

- Esse aqui que eu estou e que a gente ia dormir... Ta tudo queimado.

A banda pegou um ônibus e voltou pra ver o que tinha acontecido. O apartamento do amigo Gilmar era novinho, estava todo pintado e limpinho quando eles o deixaram três horas atrás. Agora estava fedendo a fumaça e todo preto. Os instrumentos se salvaram, mas as roupas foram todas carbonizadas. Suspeitaram que foram os colchoes que estavam tomando sol na varanda... Cigarro + colchão...

Mas o show deveria continuar e com a roupa do corpo e ainda atordoados pelos acontecimentos foram tocar. Não tocaram. Na primeira música o som estourou e houve um principio de incêndio, rapidamente controlado.

- Porra, que urucubaca da porra é essa? – perguntou Morotó, o guitarrista.

Desanimados pelo show que não teve e mais atordoados ainda, se dirigiram à Universidade Federal. Era lá que fariam o segundo show (no dia seguinte) e conseguiram assim, com a produção do show, uma sala de aula para dormir. Deram a sala do DCE. Joe, o baixista, se adiantou e tomou posse da mesa de sinuca. Assim ele tinha uma pequena camada de feltro para as suas costas. O resto dormiu em cima dos biombos que eram usados para a exposição de fanzines.

No dia seguinte, de tarde, foram testar o som. Como uma passagem de som começa pela bateria, aproveitando o fato do show ser a dois andares de onde estavam hospedados e não suportando mais o próprio cheiro, usando a mesma roupa desde que saiu de Salvador, dois dias atrás, Morotó disse:

- Vão na frente que eu vou tomar um banho enquanto Rex monta a bateria...

Apenas uma toalha de banho se salvou e ainda assim, parcialmente. Era a única que estava fora da mala. Só dava pra se enxugar com as pontas, pois no meio havia um buraco enorme.

- Parecia que um míssil tinha passado pela toalha – lembrou Rex.

Todos usaram essa mesma toalha durante toda a viagem.

A banda foi montando o palco, ligando os amplificadores, os instrumentos, os microfones e Moska, o vocalista, não dando atenção para a urucubaca iminente, pegou a guitarra de Morotó pra ir testando o som, enquanto o amigo se banhava. Uma rara guitarra Snake, fabricada nos anos 60. Pendurou no pescoço, mas a correia não estava presa. Foi direto ao chão.

Morotó tomou um susto. Enquanto passava o sabão Phebo para fixar o seu topete, Moska entrou no banheiro desesperado.

- O que foi, rapaz? – perguntou Morotó.

- Aconteceu uma tragédia... – respondeu Moska, sentado no vaso, passando a mão na cabeça, nervoso...

- Mais uma? O que foi dessa vez?

- Uma tragédia...

- Pelamordedeus, diga logo o que foi? Rex morreu?

- Pior...

- Joe morreu?

- Pior...

- Diga logo...

Aquela guitarra nunca mais foi a mesma, mas, contrariando todas as expectativas, o show foi tranquilo. Ou melhor, intranquilo, no bom sentido, se tratando dos Dead Billies.

Dez anos depois, em uma pizzaria, Rex se encontrou com Gilmar, o brother que emprestou o apartamento. Gilmar morava na Europa desde aquela época e a banda nunca conseguiu se desculpar pessoalmente com ele.

- Porra, man, queria te pedir desculpas mais uma vez... – disse Rex.

- Que nada, já passou... depois eu até dei risada... Você soube da nota que saiu no jornal de Aracaju?

- Nota? Que nota?

- Sobre o incêndio...

- Não, ninguém sabe de nada, que nota é essa?

A banda, em seus shows, usava um material cênico composto por, entre outras coisas, uma capa de vampiro, velas e uma caveira. E, assim como os intrumentos, esse material, milagrosamente, também se salvou. Gilmar contou que quando os bombeiros arrombaram o apartamento e encontraram a capa, as velas e a caveira junto dos instrumentos, tiraram diversas fotos. No dia seguinte, uma dessas fotos estampava o jornal com a seguinte manchete:

“Banda de rock incendeia apartamento em ritual satânico”.

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Assista Dead Billies tocando Vampire, ao vivo: http://www.youtube.com/watch?v=KhZ2KP00Huo

Clip da música "Invasion of the Body Snatchers": http://www.youtube.com/watch?v=TukftR-P4MY

Clip da música "I Can't Help Myself From Gettin' It On": http://www.youtube.com/watch?v=-dBjy296QaY

por Ricardo Cury

via Facebook

terça-feira, 17 de maio de 2011

Kerry King, uma entrevista

Os veteranos do thrash americano do Slayer passarão pelo Brasil, como parte da turnê de divulgação de seu último álbum “World Painted Blood”, para duas apresentações no mês de junho, uma em São Paulo, e outra em Curitiba. Antes de desembarcar por aqui, o guitarrista Kerry King falou com a equipe do site Whiplash por telefone, em uma entrevista curta porém bem completa. Esbanjando simpatia, falou sobre seu disco mais recente, sobre o Big Four e a escolha de Gary Holt do Exodus para substituir o guitarrista Jeff Hanemann, além de comentar suas expectativas para os shows no Brasil.

Vocês virão para o Brasil exatamente no mesmo ano em que a banda completa trinta anos de carreira. Teremos algo de especial nesse show?

Kerry King: Olha, para te falar a verdade nós nem incorporamos esse espírito de aniversário ainda! (risos) Nesse mesmo ano estamos completando trinta anos de carreira e vinte e cinco anos de lançamento do “Reign in Blood”, um dos nossos maiores lançamentos, mas mesmo assim ainda não pensamos em nada para celebrar essa marca. Há um tempo, pensamos em até lançar um disco, mas vimos que não teríamos tempo, uma vez que ainda estamos trabalhando intensivamente na turnê de divulgação de “World Painted Blood”. Talvez mais pra frente pensemos em algo como um show ou algo do tipo, mas, sinceramente, por enquanto não fazemos idéia e nem planejamos nada!

Falando no disco, como você o compararia com o seu antecessor, “Christ Illusion”, em termos de composição, gravação e divulgação?

Kerry: Bom, logo de cara posso te dizer que ao vivo estamos tocando bastante músicas dele. Pela primeira vez, se não me engano, estamos tocando quatro músicas de um disco recém-lançado, isso porque estamos ouvindo muitos elogios relacionados a algumas das músicas deste álbum. Então, como gostamos de tocar aquilo que os fãs querem ouvir, estamos executando esses sons, que têm tido uma boa receptividade ao vivo. Quanto às composições, eu compus mais canções neste disco! Eu sei que é melhor para o Slayer quando eu e Jeff (Hanemann) nos juntamos e criamos juntos, mas neste disco naturalmente eu pude compor mais, ele tem mais idéias minhas.

Em termos de conteúdo lírico, “Christ Illusion” continha uma temática bem voltada ao ataque à religião, enquanto em “World Painted Blood” apenas ‘Hate Worldwide’ e ‘Not of this God’ abordam isso o que dá espaço para outros assuntos, como o petróleo em ‘Americon’. Como surgiu a decisão de deixar de lado essa opção de composição já típica na banda?

Kerry: Para mim é sempre muito fácil escrever sobre religião porque isso nada mais é do que comédia para mim. Mas acho legal escrever sobre coisas que sejam mais relevantes para as pessoas que lerão e ouvirão as letras. Temas como política, guerras e outras coisas são legais de se trabalhar nas letras e também podem ajudar o fã a se interar sobre alguns assuntos. Resumindo, eu poderia escrever mal sobre a religião todos os dias, mas se tornaria chato. É legal variar.

Quando o “World Painted Blood” saiu, eu li você comentando em uma entrevista que as pessoas o comparariam com o “Seasons in the Abyss”. Por que você acha que eles são parecidos?

Kerry: Na verdade eu não sei por que eu falei aquilo! (risos) Digo isso porque não gosto de rotular um disco antes que ele saia e as pessoas possam opinar sobre ele. Mesmo porque isso pode causar uma expectativa errada nos fãs. Imagine, por exemplo, se eu rotular um álbum como sendo parecido com o Reign in Blood! Muita responsabilidade! (risos) Mas o “World”, eu acho que ele é mais equilibrado entre músicas cadenciadas e levadas mais thrash, por isso talvez o tenha comparado com o “Seasons in the Abyss”.

Falando agora sobre o Big Four, quais foram as impressões que você teve dessa ambiciosa turnê?

Kerry: Foi muito legal se encontrar com todo o pessoal das bandas! Fazer alguns shows ao lado do (Robert) Trujillo foi muito especial, ele é um grande amigo. Foi uma pena não podermos levar esse show para todos os lugares que gostaríamos. Acho que todo fã de metal deveria ter tido a oportunidade de nos ver ao vivo com aquelas outras três bandas de thrash.

Este ano aqui no Brasil teremos o Rock In Rio, onde o Metallica vai tocar. Bem que o Big Four poderia fazer parte do cast, não?

Kerry: Seria maravilhoso, mas infelizmente é quase improvável de acontecer. As quatro bandas precisariam ter as agendas livres na mesma época, o que já foi hiper difícil de conseguir durante a turnê que fizemos com o projeto há um tempo. E na época que o festival vai acontecer, o Metallica é o único que estaria disponível mesmo! Todas as outras bandas já têm compromissos agendados para cumprir as turnês de divulgação de seus álbuns.

Ainda sobre o Big Four, quando estava assistindo à transmissão simultânea da apresentação em Sofia, na Bulgária, pude perceber que nem todos os membros do Slayer subiram ao palco para fazer a jam com as outras banda em ‘Am I Evil?’ durante o show do Metallica, incluindo você. Por que você decidiu não se juntar?

Kerry: Olha, eu vou ser bem sincero com você e vai ser muito legal que os fãs possam ler isso. Muita gente tentou achar uma grande história, ou um motivo bombástico para a minha ausência ali, mas não há nada demais. Não foi porque eu não quis, ou porque estava brigado com alguém, eu juro! (risos) Tanto que em alguns shows, como em um na Califórnia, eu estava lá no palco, tocando com todo mundo. O que aconteceu aquele dia foi que eu estava totalmente ocupado. Tinha muito pouco tempo para trabalhar na edição do nosso show em Sofia, que seria transmitido para o mundo todo dentro de algumas horas. Como nenhum outro integrante da banda pôde fazer esse trabalho, eu me ocupei disso. Então até depois da uma da manhã eu ainda estava lá, ocupado com a edição. Eu gosto da ‘Am I Evil?’ e o James foi lá me chamar pra tocar, mas simplesmente não foi possível. Muitos tentaram achar um motivo ‘oculto’ na minha decisão, mas, pelo menos da minha parte, não houve!

Agora partindo para um tema mais recente, gostaria de saber como foi o processo de escolha para o guitarrista que substituiria o Jeff Hanemann em alguns shows, enquanto ele se recupera do problema de saúde que teve, após ser picado por uma aranha, e o por quê da escolha de Gary Holt, do Exodus, para ocupar o posto, seguido de Pat O`Brien, do Cannibal Corpse.

Kerry: De primeiro, pensamos em fazer a turnê sem o Jeff até que ele se recuperasse. Mas eu reparei um dia desses que se Gary recusasse o convite não teríamos idéia do que fazer, pois não sabemos se sem um outro guitarrista as coisas funcionariam de uma forma legal. Mas a escolha foi bem fácil: sou amigo do Gary há vinte e cinco anos! Ele é um cara muito legal, engraçado e, acima de tudo, é um puta guitarrista! Quando liguei para ele, ele mal me deixou terminar a frase e já me cortou com um ‘sim’ muito entusiasmado! (risos) Foi algo do tipo ‘Ei Gary, eu estava pensando se você gostaria de..’ ‘É CLARO QUE SIM, KERRY!’ (risos) Ele se deu muito bem no posto e ficou super à vontade durante os shows. Infelizmente ele não pôde realizar mais shows conosco porque tinha que cumprir agenda com a sua banda! Mas sou muito grato a ele pelo tempo que nos apoiou. Quanto ao Pat, foi uma indicação do próprio Gary. Ele também já me conhece há algum tempo, então também não houve problemas.

Sabemos que aqui no Brasil Jeff já estará de volta ao cargo. Quais as expectativas para esse show por aqui?

Kerry: Nem preciso dizer que é sempre maravilhoso tocar em seu país! Maravilhoso e louco ao mesmo tempo! Os fãs de metal brasileiros são incrivelmente selvagens e apaixonados pela música. Não digo isso somente em relação a um show do Slayer, mas em todos os shows. Acho que devido ao fato de eles não poderem ver todas as suas bandas favoritas sempre, devido a pouca freqüência com que elas vão ao Brasil, eles se emocionam e expressam isso da melhor forma a cada show de um ídolo que se realiza. É incrível, mal posso esperar!

A banda de abertura do show do Slayer por aqui será realizada pela banda brasileira Korzus. Você já conferiu o som deles ou esta a par de quaisquer outras bandas de metal daqui?

Kerry: Olha, tenho que ser sincero que se não fosse o Cavalera, eu não saberia de muita coisa sobre o metal brasileiro! (risos) É uma vergonha, mas infelizmente não conheço quase nada! Vou pegar para ouvir o Korzus!

Bom, para finalizar gostaria de agradecer pela entrevista. Engraçado que sempre que leio uma matéria sua na Internet me parece que as pessoas sempre tentam ‘polemizar’ suas respostas, fazendo com que você se pareça um cara de poucos amigos. Em minha opinião aconteceu exatamente o contrário aqui!

Kerry: Sem dúvida! (risos) Mas você sabe o por quê? Porque há uma diferença básica entre jornalista que quer informação, que é o seu caso, e jornalista que quer uma grande notícia bombástica. Muitos jornalistas, especialmente na Europa, ficam me perguntando coisas sobre as quais eu não quero e não vou responder e vez ou outra, acabo me irritando mesmo! Mas também, de vez em quando dou uma resposta bem simples, que não é bem aquela que eles gostariam de ouvir e, numa tentativa de tornar a matéria deles melhor, eles interpretam de uma maneira diferente o que eu disse, e transformam em uma frase de impacto ou polêmica. Isso acontece com jornalistas sensacionalistas, que, infelizmente, não são poucos. Eu é que agradeço pela entrevista!

Fonte: Whiplash

GLÓRIA !

A programação de shows da 9ª edição do Rock Sertão foi aberta pelo Karranca, veterana banda de rock com influencias de mangue beat de Itabaiana. Um show energético, com uma boa movimentação de palco e uma interessante mistura de ritmos sob a batuta da guitarra endiabrada de Ferdinando, também da Urublues. É uma banda de personalidade que tem alguns verdadeiros “hits” underground, como “Homem tambor” e “Sangue na feira”. O som estava um pouco embolado e mal equalizado, agudo demais, mas deu pra rolar numa boa.

Naurêa na sequência. Odiada por uns, amada por outros, o que ninguém consegue negar é que os caras fazem um show muito competente e que costuma levantar a galera. Mas nesta noite, em especial, não empolgou, talvez porque não estivesse tocando para seu público habitual. O mesmo pode-se dizer do samba-rock competente porém um tanto quanto arrastado e “malemolente” de Elvis Boamorte e os Boas vidas, que veio a seguir - um mérito do festival, aliás, trazer musica independente das mais variadas vertentes para o palco e dar às pessoas a oportunidade de ter contato com sons e ritmos os mais diversos. Às vezes pode não funcionar num primeiro momento, mas é saudável para a formação musical de qualquer um.

O erro, a meu ver, nesta primeira noite, estava na ordem das bandas. Os shows ficaram meio que divididos em duas partes, a primeira com pouco ou nenhum rock e muita diversidade, do forró estilizado da naurêa ao jazz instrumental do Ferraro Trio, a quarta a se apresentar. Muito bons, mas o público só esboçou reação mesmo nos covers de Jimi Hendrix e, principalmente, de “Beat it”, de Michael Jackson – aquela que conta, na gravação original, com a presença poderosa de Eddie Van Halen nas guitarras. Não deixa de ser válido, no entanto, já que a versão dos caras é bastante diferenciada e adaptada ao estilo deles. Grande show.

O rock, rock mesmo, duro, pesado e distorcido, foi deixado incompreensivelmente para o final. Jezebels foi a primeira banda do estilo a se apresentar, e mandaram muito bem. Estão se reformulando com uma nova formação, já que a baixista/vocalista original, Paula, precisou deixar a banda para morar na Europa. Dani comanda o trio com sua pegada nervosa na guitarra e seus vocais estilosos, cheios de cacoetes bem característicos. Paloma, a baterista, lá atrás, tocando e batendo cabeça (!). Já o baixo, infelizmente, pouco se ouvia, na frente, mas a movimentação de palco de Fabio era muito boa, o que ajudava a criar um clima de empolgação que sacudiu o publico - a esta altura, provavelmente, sedento por rock ! O fato não escapou à observação de Marcelo Larrosa, que entrevistou a(o)s menina(o)s Ao Vivo para a TV Aperipê depois do show e sapecou uma pergunta que deixou Dani com um novo apelido, “vegetariana selvagem”. Foi divertido.

TV Aperipê que repetiu a dose e transmitiu Ao Vivo os shows do Rock Sertão, das 22:00H às 1 da manhã. Muito bom ver a musica independente sergipana ter tanto espaço numa emissora de televisão. A FM também estava presente, registrando todos os shows na íntegra, ao vivo. A noite se encerrou com Fator RH, os anfitriões, e Dark Visions, de Tobias Barreto, que ficou em segundo lugar na votação do público via internet.

No sábado os trabalhos foram abertos, de forma relutante, pelo Lacertae. Deon, o guitarrista/vocalista, não estava se entendendo muito bem com os operadores de som e resolveu improvisar longos números instrumentais até que os problemas, notadamente uma microfonia insistente, fossem resolvidos. Ou parcialmente resolvidos, vá lá. Parecia que o show iria ser abortado, já que ele largou a guitarra e se retirou do palco numa determinada altura, mas o batera continuou tocando e parece tê-lo convencido a começar, finalmente, o show propriamente dito. Não chegou a ser ruim, mas foi esquisito.

Nucleador no palco. Outro clima, mais descontraído. Cenas de filmes de horror trash clássicos no telão, thrash metal crossover no talo no som. Murillo Viana e sua palhetada rápida e precisa comandou o espetáculo de energia e descontração. Diversão parece ser a solução para estes caras, que tocaram com uma empolgação contagiante – tudo registrado pelas câmeras da TV Aperipê, que àquela altura já tinha começado a transmissão. Muito bom ver um som tão “underground” e geralmente desprestigiado ter um espaço como este.

Já os Baggios, que veio a seguir, estão mais acostumados aos “holofotes”, o que não se reflete, felizmente, em estrelismo ou acomodação, muito pelo contrário: Julico e Perninha não deixaram a peteca cair e sentaram a mão no blues garageiro e “brejeiro” com sotaque sergipano que lhes é característico. É blues “do delta do Rio Sergipe”, e dos bons. Show pequeno, infelizmente (“por mim a gente ficava tocando aqui a noite inteira”, falou Julico ao microfone), mas encerrado em grande estilo, com Perninha espancando sem dó a bateria e Julico tendo espasmos no chão.

Depois dA Lapada, Jesse Monroe, a suposta “atração internacional” da noite. Logo no início já deu pra notar que aquela coca-cola era fanta ... Ela abre o show falando em inglês com o público, para logo em seguida emendar: “vejo que vocês não entendem inglês por aqui. Que bom que eu falo português!”. E pôs-se a tagarelar sem parar. Nunca vi uma inglesa tão baiana, “espevitada”. A maior parte do repertório foi, infelizmente, de covers, mas foi divertido. A loira é muito presepeira e meio sem noção – chegou a dançar “descendo até o chão” no melhor estilo “cachorra” ao som de “Summertime”, de Gershwin ! Hilário. Tocou também Luiz Gonzaga e Zeca Baleiro, para encerrar com sua “musica de trabalho”, “famous”. É um soul meio pasteurizado com cara de hit. Boa musica – para as FMs comerciais, não para um festival de rock, assim como o show da “gringaiana” cairia muito bom numa Boate F1 da vida. “Gloria, amo vocês! Pede pra gente voltar que a gente volta, ogayyy ???!!!”. Ok. Pensei tê-la visto em cima de um trio elétrico na “Festa do homem galinha”*, uma micareta que tava rolando em Ribeirópolis na volta, mas deve ter sido uma alucinação ...

Desta vez a programação foi melhor mesclada e, na sequencia do pop local e internacional dA Lapada e Jesse Monroe, Hatend, thrash metal de Paulo Afonso, Bahia. Esta alternância de estilos tão distintos deve ter dado um tilt na cabeça do cara que toma conta da mesa, porque estava tudo muito esquisito no palco. Som embolado e com uma equalização absolutamente nada a ver para uma banda de metal – só se ouviam teclados e baixo, este com um som muito estranho, parecia o estampido de uma metralhadora. As guitarras estavam inaudíveis. Esperei para ver se as coisas se ajeitavam mas não teve jeito não: “desinstiguei” e resolvi começar o longo caminho de volta pra casa sem ver o Ladrão, a banda do Formigão, ex-Dash e Planet Hemp. Gente finíssima, por sinal – em todos os sentidos.

Ano que vem o Rock Sertão fará 10 anos. Estaremos lá.

* No caminho para o show, em Ribeirópolis, cidade geralmente pacata (até demais), fomos surpreendidos por uma movimentação fora do comum. Tivemos, inclusive, que esperar pacientemente para que um cidadão parasse de ciscar feito uma galinha, bêbado, no meio da pista, e finalmente nos desse passagem. Bizarro. Pena que ninguém tinha uma câmera à mão na hora, se fizéssemos um video para o youtube iria bombar.

por Adelvan

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Ao Vivo em lugar nenhum ...

Recordar é viver: (por Adelvan) Há uns 10 anos, aproximadamente, um grupo de amigos Headbangers totalmente from hell, os caras da Mystical Fire, me chamou para o que viria a ser o programa de índio da minha vida: um show de Heavy Metal undergound no sertão da Bahia, numa cidade da qual eu só tinha ouvido falar remotamente. Tanto que, para chegar ao lugar com segurança, precisei comprar um mapa rodoviário (na época não havia o Google maps).

Lá fomos nós, sob um sol escaldante e ao som de Black metal tosco undergound a viagem inteira, evidentemente. Já da estrada, chegando ao destino, um enorme edifício chamava a atenção, destoando completamente do resto da cidade, feita de casas simples. Era um Hotel gigantesco, abandonado, mais um daqueles monumentos ao desperdício que povoam nossa nação. Quis saber mais sobre a História daquilo mas ninguém soube me informar direito. Consegui descobrir apenas, através das informações esparsas que recebia, que ali havia funcionado, há muitos anos atrás, uma estância Hidromineral de águas termais muito famosa que, no entanto, encontrava-se já há muito tempo em decadência. E, realmente, o lugar à noite parecia uma cidade fantasma.

Falei que foi um programa de índio, e foi, mas foi também divertido. Especialmente quando os caras da Mystical resolveram dar um role à noite pela cidade já devidamente paramentados para a apresentação, com roupas pretas, botas militares, spikes de prego e “corpse painting”. Sem exagero: as pessoas, na praça central da cidade (que até que era ajeitadinha), saiam correndo apavoradas. E os caras foram rangar numa churrascaria, por conta da produção do show, daquele jeito, travestidos de zumbis do inferno. Muito engraçado.

Não lembro muito bem quais bandas tocaram no show, mas eram algumas de Salvador (Deformity BR, se não me engano) e mais a Scarlet Peace, também de Aracaju. Uma das exigências da Mystical Fire foi que a produção arranjasse uma cabeça de porco para ornamentar o palco, e puta que pariu, os caras apareceram com um negócio enorme, gigantesco! Tanto que Bilal, ao final da noite, foi tirar uma onda chutando o “artefato” e quase quebra o pé. Lembro também que havia um fã de Bilal por lá, um cara que fazia um fanzine em Cícero Dantas, outra cidade do interior da Bahia, no qual eu vi uma foto hilária, com chamada de capa e as porra: “pôster de Gabbirin Nagal Giborin AKA Villas Parakas”. O tal pôster era, na verdade, uma foto de Bilal bêbado em pé num ônibus em Aracaju. Inacreditável. E o cara tava lá, fotografando tudo, tanto que foi apelidado de “clic clic”. Outro fato notório: no meio do show os caras são chamados na porta porque havia um brother deles de Aracaju que havia chegado naquele momento! Era Dackson “Deathrow”, que foi ao show de ônibus! Veja bem, o cara pegou vários ônibus para ir num show de Black metal totalmente obscuro há uns bons 500km (ou mais) de distância no sertão da Bahia! Vai ser underground assim no inferno!

A noite terminou com um banho de água termal quente no meio da praça em plena madrugada. Legal. Haviam algumas garotas de Ribeira do pombal, a cidade vizinha que era uma espécie de “metrópole” local, tomando banho também, o que instigou os instintos animais da galera, mas ninguém comeu ninguém, pelo menos que eu saiba, e foi todo mundo dormir para se preparar para a jornada de cerca de 3 horas de viagem de volta.

Lembrei dessa passagem inusitada de minha vida ao ler recentemente, na revista Carta Capital, uma matéria que finalmente me deixou por dentro do que aconteceu com aquela cidade, Cipó, e seu Hotel/elefante branco perdido no meio do nada. Reproduzo-a abaixo:

Notícias de lugar nenhum

Por Cynara Menezes, de Cipó (BA)

Fonte: Carta Capital

Eram 10 da manhã de 24 de junho de 1952, véspera de São João. O então senador Assis Chateaubriand e o escritor Guimarães Rosa, vestidos como boiadeiros nordestinos, deixaram a galope a praça principal da pequena Caldas de Cipó, na Bahia, à frente de centenas de cavaleiros. Iam até o campo de pouso da cidade recepcionar o DC-3 presidencial que trazia a bordo Getúlio Vargas e o governador do estado, Régis Pacheco. O avião aterrissou tranquilamente na pista de terra batida cercada de cajueiros e mandacarus. Sob sol escaldante, o gaúcho Vargas seria, pouco depois, condecorado com a Ordem do Vaqueiro e paramentado, ele mesmo, com o gibão e o chapéu de couro de boiadeiro sertanejo.

Rosa acabara de chegar da célebre viagem a cavalo por Minas Gerais, levando 198 cabeças de gado, que lhe inspiraria Grande Sertão: Veredas. E assim descreveu a cena: “Em Caldas do Cipó, pude ver reunidos – espetáculo inédito, nos anais sertanejos e creio mesmo que em qualquer parte – cerca de 600 vaqueiros autênticos dos ‘encourados’: chapéu, guarda-peito, jaleco, gibão, calças, polainas, tudo de couro, couro de veado-mateiro, cor de suçuarana. Fui com Assis Chateaubriand, que é o rei dos entusiastas, e tive de vestir também o uniforme de couro e montar a cavalo (num esplêndido cavalo paraibano), formando na ‘guarda vaqueira’ que foi ao campo de aviação receber o presidente Getúlio Vargas. A mim coube ‘comandar’ os vaqueiros de Soure (Nova Soure, cidade vizinha) e de Cipó”.

Aos improváveis visitantes àquelas paragens se juntariam ainda o vice-presidente Café Filho, ministros, governadores e outras autoridades convidados a prestigiar a inauguração de -“um dos mais belos e -luxuosos” hotéis de todo o País, o Grande Hotel Caldas de Cipó, com 80 quartos mobiliados “com o mais absoluto bom gosto, conforto e luxo, nada ficando a dever aos melhores do gênero de toda a América do Sul”. Quem conta é o jornalista Odorico Tavares (1912-1980), em reportagem de sete páginas, publicada na extinta revista O Cruzeiro, dias depois do acontecimento histórico. A hoje esquecida Cipó possuía então “as mais famosas águas termais do Brasil”.

Dona de um quiosque de sorvete ao lado das “cascatas” artificiais na atual Praça das Águas da cidade, Maria José Silva Reis, a Menininha, de 69 anos, lembra como se fosse agora. “Eu tinha 10 anos, era magrinha, parecia um ‘belisco’. Todas nós, estudantes, de camisa de algodão branca de botão e sainha plissada azul-marinho, estávamos em fila, esperando o presidente, que chegou andando no meio do povo, ao lado dos cavaleiros e das charretes. Me arrepio só de falar, olha.”

À noite, com as ruas iluminadas pelas fogueiras de São João, e as luzes dos fogos de artifício refletindo nas águas do Rio Itapicuru, a festança continuou, com um jantar servido por negras baianas de torço e saia brancos, que serviram vatapá e outras iguarias – nada a ver com a região, onde se comem carne de bode e aipim. Um baile caipira nos salões do Grande Hotel durou até a manhã do dia seguinte.

Festas acabadas, a glória de Cipó duraria pouco. A estância termal tinha vivido o seu auge nos anos 1930 e 1940, quando o cassino da cidade atraía os usineiros ricos de Alagoas e de Pernambuco. Famílias inteiras vinham de todos os cantos do País para banhar-se nas águas sulfurosas radiativas, com propriedades terapêuticas, exploradas durante 30 anos pelo médico Genésio Salles, especializado na França. O tratamento durava 21 dias e, reza a lenda, até leprosos foram curados ali. Ricas em cálcio, magnésio, lítio e outras substâncias, as águas de Cipó têm fama de ser eficazes contra problemas de pele a reumatismo, arteriosclerose, doenças do estômago e “fraqueza genital”. “A água só não é boa para quem tem doença do coração e para mulher grávida, que perde o neném”, adverte a dona de casa Ilma Góes. Os efeitos curativos devem compensar o paladar terrível da bebida, tomada aos litros por quem acredita nela.

Sem o jogo, proibido no Brasil por Eurico Gaspar Dutra em 1946, o Grande Hotel não iria adiante: Getúlio, Chatô, Rosa e companhia abrilhantaram, na verdade, a inauguração de um dos maiores elefantes brancos da história nacional. Quem percorre os 242 quilômetros de estrada da capital Salvador até Cipó avista, de longe, pouco depois da placa que anuncia a chegada à cidade, o prédio gigante, destacado entre as construções baixas do município de pouco mais de 15 mil habitantes. “O hotel funcionou a pleno vapor, mesmo, só durante um ano”, conta o professor Evandro de Araújo Goes, o “sábio” do lugar, que pesquisou a história de Cipó desde a descoberta de suas águas, no século XVIII, quando se chamava Vila do Cipó e, mais tarde, Mãe d’Água do Cipó. Em 1935, transformada em estância hidromineral, passou a ser Caldas do Cipó, hoje apenas Cipó.

Em 1928, o médico Salles, um aventureiro que fez a primeira viagem de automóvel pelo Sertão de que se tem notícia, havia inaugurado o Radium Hotel, atualmente em ruínas, com árvores crescendo pelas paredes. Bem ao lado do Radium e seu cassino, foi erguido o Grande Hotel que, volta e meia, seria restaurado, mas que ficou a maior parte de sua existência vazio, despertando o saudosismo da população. O clube balneário, com seus banheiros e piscinas termais, foi inteiramente alagado pelas cheias do Rio Itapicuru, em 1969.

O abandono dos prédios dá ao lugar um ar de cidade fantasma, em que o tempo se esqueceu de passar. Até a década de 1980, quando foi reinaugurado com estardalhaço, mas sem nenhum sucesso, pelo governador Antonio Carlos Magalhães, o Grande Hotel ainda ostentava um piano de cauda e o mobiliário original. Atualmente, só os andares térreos são ocupados, por órgãos da prefeitura. Os demais cinco andares foram lacrados. “Ao longo dos anos, maus cipoenses foram roubando lustres, mobília. A suíte presidencial, onde dormiu Getúlio Vargas, foi inteiramente depredada”, conta o professor Goes. Não sobrou nada da suíte, nem mesmo os vasos sanitários. Em 2009, um funcionário da prefeitura, ao tentar atear fogo a uma colmeia de abelhas nos andares superiores, incendiou parte do telhado do hotel. Os “bons” cipoenses choravam copiosamente diante do edifício em chamas, a quem se apegaram nessas seis décadas como a uma joia de família. Foi preciso vir um carro de bombeiros da vizinha Paulo Afonso para que fossem domados o fogo e a tristeza da população, eternamente crédula de que o velho hotel voltará um dia aos tempos áureos.

Dos dias de fausto, ficou nos habitantes da cidade um curioso sentimento de que tudo aconteceu ontem, como se a água termal tivesse um efeito mágico sobre a memória. Nos jardins do velho Radium, com as janelas inteiramente lacradas, o vendedor de refrigerantes explica que as rodas de jogo no cassino, proibidas 40 anos antes, “aconteceram até os anos 1980”. Na praça, a senhora que vende sorvetes jura que “pouco tempo atrás” a cidade vivia lotada de turistas, a quem os locais chamavam “banhistas”. Nos folhetos turísticos, a Cipó dos edifícios históricos abandonados é descrita como “uma das cidades mais belas do interior da Bahia”.

O velho aeroporto onde pousaram Vargas e sua comitiva foi substituído por outro, inaugurado também pelo finado ACM, na década de 1990, sempre com a esperança (ou a promessa) de ressuscitar o turismo em Cipó. Nada feito. “Às vezes eu penso que a construção desse hotel foi ruim para nós”, especula o vigilante do Aeroporto Bento Macedo, queixando-se da solidão do campo de pouso, onde mora, à espera de aeronaves que nunca descem. Como o turismo ficou na lembrança, de cada três habitantes da cidade, dois vivem do comércio de artesanato – redes e cortinas –, que vendem inclusive em países vizinhos. Uma via de Cipó é conhecida como “rua dos argentinos”, porque seus moradores construíram as casas depois de sucessivas idas e vindas à terra de Cristina Kirchner. “Eles falam um portunhol retado”, conta Bento.

“O Grande Hotel não foi um bom presente para Cipó”, concorda Noure Cruz, professor de História e ex-secretário de Cultura do município. “O governo, dono do hotel, não investiu em atrair turistas como fazia Genésio Salles, que possuía até agência no Rio de Janeiro para trazer gente para cá.” Segundo Cruz, a cidade não prosperou porque não foi construída para os próprios habitantes, e sim para os que vinham de fora. “Os moradores ficavam à margem e os turistas ficavam no centro. A população não se sentia bem no meio daquela elite.” Na época do médico Salles, os banheiros termais eram separados por “doenças de pele”, “doenças internas” e por classe social: somente um dos dez chalés de madeira podia ser utilizado pelos “pobres”. Hoje, ao menos, as cascatas são de uso público.

A tragicomédia da cidade está às vésperas de ter, quem diria, mais um capítulo. No ano passado, por meio do PAC das Cidades Históricas, o Ministério da Cultura assinou um convênio com a prefeitura que prevê a liberação de 35 milhões de reais para restauração do Grande Hotel, do clube balneário, do Radium Hotel e do prédio da prefeitura, que formam um dos maiores conjuntos urbanísticos em estilo art déco do Brasil. A ideia é transformar parte do monumental edifício em um hotel-escola, administrado pelo Senac. A outra metade do prédio seria utilizada pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb) como campus no Semi-Árido. Para o Radium Hotel, os planos são transformá-lo em centro de convenções.

“Vamos tentar algo novo”, promete o atual secretário de Cultura e Turismo, Dernival Santana. A 100 quilômetros dali, a estância hidromineral de Caldas do Jorro tem ocupação turística constante, mas Santana torce o nariz para “o turismo farofeiro” de lá. “Queremos o turismo de saúde de volta a Cipó”, sonha. “Com a popularização dos antibióticos, as pessoas abandonaram as águas medicinais, não foi só em Cipó, não. Mas os tempos mudaram e hoje tem um renascimento das terapias alternativas”, aposta o prefeito Jailton Macedo. “Nosso projeto tem tudo para dar certo, porque não basta revitalizar o prédio, tem de movimentar a cidade. Isso vamos conseguir com a vinda dos universitários”, diz. Às voltas com o Tribunal de Contas, Macedo precisa provar que, ao contrário dos antecessores, não dará outro destino às verbas para restauração e que não deixará o Grande Hotel de Cipó continuar à espera da glória.

1 Ano sem Ronnie James Dio

Ha exatamente um ano, num domingo pela manhã, chegava a notícia da morte de Ronnie James Dio. Dono de uma das maiores vozes do rock, o baixinho deixou inconsoláveis fãs às 7h45 da manhã, depois de perder a batalha contra um câncer de estômago, diagnosticado meses antes. A nota dirigida à mídia foi redigida pela viúva do cantor, Wendy Dio, que, durante a madrugada, negara o falecimeto. Dio tinha 67 anos, e estava se submentendo a um tratamento quimioterápico.

Nesse ano, vários tributos foram feitos em homenagem a Dio. Aconteceram alguns relançamentos em CD e DVD, e a banda Dio promete seguir em frente com Tim “Ripper” Owens nos vocais, com o aval de Wendy Dio. Na Bulgária, uma estátua chegou a ser inaugurada, com a o aval das autoridades, em um parque público.

Ronnie James Dio nasceu em Portsmouth, New Hampshire, Estados Unidos, em 10 de julho de 1942. Foi vocalista das bandas seminais para o rock e o heavy metal, como Elf, Rainbow e Black Sabbath, onde conseguiu o improvável, substituir Ozzy Osbourne, e de seu próprio grupo. Nos últimos tempos atuava com o Heaven & Hell, versão do Black Sabbath com outro nome, junto com Tony Iommi, Geezer Butler e Vinny Appice.

Dio foi o responspável pela propagação de um dos maiores símbolos do heavy metal, o “Moloch”, feito com todos os dedos da mão fechada, exceto o indicador e o mínimo. O cantor dizia ter aprendido a fazer o gesto com a avó, de origem italiana, para espantar os “maus espíritos”. Com o tempo, o “Moloch” virou símbolo do heavy metal e hoje é feito por toda a juventude fã de rock, além de artistas do gênero.

Clique aqui para ler um texto sobre a morte de Dio publicado na Revista Billboard

por Marcos Bragatto

sábado, 14 de maio de 2011

Me diga o que não foi legal ...

Um carro bonito, possante e seguramente caro (só não me pergunte que carro era porque não entendo nada disso) dá voltas em círculos em alta velocidade num descampado. Várias voltas. Pára e de dentro sai Johnny Marco, personagem vivido por Stephen Dorff, com cara de tédio. Corta. O mesmo Dorff está agora deitado na cama de um quarto de hotel, ainda com cara de tédio, mesmo diante de um espetáculo de pole dance protagonizado por duas gêmeas loiras deliciosas ao som de “My Hero”, do Foo Fighters. Corta. Mais cara de tédio, mais imagens do dia-a-dia de uma estrela de Hollywood em crise existencial. Corta, corta e corta.

O novo filme de Sofia Coppola, “Somewhere – um lugar qualquer”, é basicamente isso. Deve ter a ver com a trajetória pessoal dela mesma essa fixação por retratar celebridades entediadas em busca de um sentido para a vida à qual ela se dedicou em suas três últimas realizações para o cinema. No caso de Johnny Marco, esta busca poderia muito bem se encerrar caso ele dedicasse mais atenção à sua filha pré-adolescente, que o visita esporadicamente. Mas para isso ele teria que abdicar, pelo menos em parte, de sua rotina de superstar mimado, algo que, parece, ele não consegue fazer, mesmo que visivelmente não veja mais muita graça na coisa como um todo.

O filme é bom ? Mais ou menos. Mais pra menos. É muito bem dirigido e interpretado, e tem situações divertidas, como a do massagista que precisa “entrar no clima” do cliente para realizar suas tarefas. Mas no geral é chato e tedioso. Propositalmente, é claro, já que se propõe a retratar o dia-a-dia de uma pessoa chateada e entediada.

Já não botava muita fé no filme, pois pelo que tinha lido a respeito dava pra notar que ele seguia a linha de “Encontros e Desencontros”, espécie de “clássico Cult” no qual eu não vi, sinceramente, a menor graça. O que mais me surpreendeu, na verdade, foi a lotação da maior sala do Cinemark do shopping jardins naquela noite em que aconteceriam também apresentações das bandas Eddie, de Olinda, e Mamutes, local. Era uma espécie de ensaio para uma possível ressurreição da Sessão Notívagos, série de shows musicais acompanhados de exibições de filmes que acontecia regularmente até meados do ano passado. Se dependesse unicamente da presença do público e da perfomance das bandas escaladas, estaria tudo perfeito – mas não, não dependia.

Carnaval no inferno: O ar-condicionado do saguão do cinema, onde aconteceriam os shows, estava quebrado! Isso, somado à insistência das pessoas em fumar num recinto fechado, criou um ambiente bastante desagradável. Mais desagradável ainda para os que se arriscavam a entrar na enorme fila para comprar uma cerveja a 4,00. Detalhe: não eram vendidos tickets, ou seja, quem quisesse tomar outra cerveja, teria que entrar na fila novamente, segundo me foi relatado pelos que bebem (eu não bebo). Pelo menos a marca era boa. O calor, devo dizer, nem era tanto, muito embora o ar-condicionado tenha feito falta, sem sombra de dúvidas. Desconfortável porém não insuportável. O problema maior para mim, asmático e fumante passivo involuntário, era mesmo o desagradável cheiro de fumaça de cigarro no ar. Veja bem: defendo o direito dos fumantes fumarem, mas enquanto não inventarem um dispositivo, algo como uma redoma de vidro para as pessoas colocariam na cabeça que mantenha a fumaça que produzem exclusivamente para si, acho que tenho o direito de reclamar. E quem achar ruim, “pegue o gato e se azuin”, já dizia a minha vó.

Mas vamos ao show. Som fraquinho – mal sinal. Fabio Trummer fala no microfone que aquele era o primeiro contato da banda com a aparelhagem, já que não tiveram tempo de passar o som, e pergunta ao povo se tava legal. O povo responde que sim, mas eu diria que não. Vai ver eu sou chato, né ? E olha que eu nem entendo dessas coisas, tecnicamente falando. Só sei que, aos meus ouvidos, a voz tava baixa e abafada e a guitarra praticamente inaudível. Mas a banda é boa, muito boa, e foi aos poucos criando um clima propício à celebração. Um verdadeiro desfile de “hits” alternativos logo de cara, com “Desequilibrio”, “lealdade” e “me diga o que não foi legal”, dentre outras. Aos poucos vão se acertando os ponteiros e pronto: está criada a alquimia, na base de um suingue “roqueiro” tipicamente brasileiro com um sotaque que só o Eddie é capaz de produzir. Uma banda com excepecional personalidade que seduz inclusive não-adeptos do tal “samba-rock”, como eu. Até porque o Eddie é muito mais que “samba-rock”: é rock, é pop, é frevo, é o diabo! Rock legitimamente brasileiro. "Nunca fomos tão brasileiros", eu diria ...

Os papos descontraídos entre os membros da banda, notadamente Fabio e “Urêia”, o percussionista, ajudaram a criar o clima de festa e descontração. Fabio é um grande frontman, ao seu estilo, sem grandes arroubos estelares, contido porém sincero e desencanando. Fala de times pernambucanos, saúda a todos, inclusive aos que vendem a cerveja cara, e saúda o Lacertae, que segundo ele tinha as melhores músicas da lendária coletânea “Brasil compacto”, dos anos 90, da qual também fizeram parte. Lembrou disso, provavelmente, devido à presença, no público, de Deon, guitarrista e vocalista do grupo sergipano. Até dei uma instigada para que ele fosse até lá dar uma canja, mas sem sucesso.

O show prossegue, com a banda afiada e o público na mão. Tocam, inclusive, a primeira música de seu primeiro disco, “videogamesongs”, do Sonic Mambo. Um clássico – mas esta é uma que precisava de um som de guitarra mais potente, algo que, infelizmente, não tivemos. Poderia ter sido O ponto alto da noite, mas não foi. O ponto alto foi uma espécie de pout-pourri de musicas de carnaval e Hinos de blocos de frevo de Olinda, puxados pelo do “segura a coisa” e emendado com o do “segura o cu”, onde Fabio faz todos se agacharem (tava com uma preguiça da porra, mas entrei no clima também, claro) e se levantarem ao fim de uma rima que terminava na singela frase “segura o cu senão eu meto o dedo”. Muito bom. Já o ponto fraco foi um cover esquisto que me disseram que era do Beirute – não sei, não conheço.

E foi isso. Uma hora e meia, aproximadamente, de show, e um abraço. Ainda fiquei mais uns bons 20 e tantos minutos esperando pelos Mamutes, mas quando vi eles finalmente chegando ao palco e notei que ainda teriam que montar um monte de coisas, inclusive a bateria, desisti e fui embora. Uma pena, já que não vi ainda a nova baterista em ação num show ao vivo, apenas na gravação de um especial acústico que será veiculado pela TV Aperipê - no qual ela mandou bem, por sinal.

Saldo pra lá de positivo, apesar dos pesares.

Fotos: Rafa Aragao, Divulgação e Snapic

Texto: Adelvan

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Fala, rock sertão

O slogan do festival diz tudo. A partir de hoje, Nossa Senhora da glória se transforma na capital sergipana do rock e abriga a nona edição do maior festival de música do Estado. No palco do Rock Sertão, os maiores valores de nossa música independente, além de bandas ainda pouco conhecidas e convidados de outras paragens – tem até banda gringa na parada! Para celebrar a ousadia, o Jornal do Dia conversou com um dos organizadores do evento, na tentativa temerária de entender como alguém se presta a um trabalho desses. É muito rock na veia e amor no coração!

Jornal do Dia – Antes de mais nada, qual a importância de um festival como o Rock Sertão? Num estado onde existem tão poucos festivais desse porte, é possível vislumbrar um ambiente musical produtivo e satisfatório?

Danilo Santana – O Rock Sertão é importante porque foi o que restou de festivais deste porte no estado. Podemos colocar nesta soma a Rua da Cultura, que também sobreviveu a todos estes anos. Estes dois espaços são as vitrines da música de sergipana independente. Não falo isso com orgulho, mas com uma certa tristeza de achar que dá pra fazer mais. De uns dois anos para cá (eu acho), vejo alguns coletivos se organizando, alguma movimentação, mas falta tempo para maturar. Até porque muita coisa começa e termina e a gente nem percebe. O Rock Sertão e a Rua da Cultura são, em suas especificidades, eventos consolidados dentro e fora do estado, e isso é importante.

Fechando mais na nossa realidade, acho que o Rock Sertão é importante por ser um Festival, ser gratuito e ainda por cima no interior, ou pior, no sertão. E sabemos que boa parte do público se concentra na capital. Ao mesmo tempo, quando somado, o público do interior faz muito volume no festival. O Rock Sertão nasce em Glória, mas já enraizado em outros municípios do estado, o que dá um caráter de unidade da cena sergipana. Isso em termos significativos.

Não gostamos de ser exemplo de nada, porque meio entramos como os “bons moços”. Mas acho que o Rock Sertão pode ser uma boa experiência para o nascimento de outros festivais. Se o espaço não é o ideal, então deve ser criado, reinventado. É preciso ter coragem, agir com os pés no chão e gostar do que faz. Ou então não dá certo. Temos muitas bandas boas no estado. Pra mim, isso já é garantia de uma ambiente musical produtivo e satisfatório. Infelizmente, a verdade é que não temos uma cena tão consolidada como em Recife e João Pessoa, por exemplo. Ainda não há esse feedback do público, principalmente em Aracaju. É um processo lento, estamos desde 2001 na luta, alternamos muitos altos e baixos pra garantir tudo que temos hoje.

Jornal do Dia – Como vocês chegaram às bandas selecionadas pela programação? É possível afirmar que elas reproduzem as feições da música da terrinha, em nosso dias?

Danilo – Abrimos um site especialmente para que as bandas pudessem se cadastrar. Queremos sempre conhecer novas bandas. A surpresa foi o aparecimento bandas de outros estados. Não sabíamos do alcance do Rock Sertão, até então.

Pra selecionar estas bandas, convidamos uma curadoria formada por 6 pessoas, entre jornalistas, músicos, produtores, enfim, pessoas ligadas à cena. Essa curadoria tentou se equilibrar entre os diversos estilos musicais, entre bandas novas e bandas mais conhecias e entre bandas da capital e do interior. Também queríamos evitar que o festival fosse visto como uma “panelinha”, como alguns afirmam. O Rock Sertão é um festival aberto, muitas bandas que vão tocar a gente nem conhece. Nosso compromisso é com a música, com a cena independente. Os nossos critérios para seleção de bandas vislumbra um pouco disso, tentar apresentar um mosaico, um recorte da música produzida no estado dentro de um determinado seguimento, afinal não temos a pretensão de abarcar tudo.

Jornal do Dia – É no mínimo inusitado ver um evento como o Rock Sertão durar tanto tempo, com tantas respostas positivas, longe das capitais. Como vocês venceram as limitações impostas pela geografia? Onde foi que o Rock Sertão acertou, e outros eventos, a exemplo do Punka, só pra citar outro festival que faz parte da história da cena local, errou?

Danilo – Por incrível que pareça, temos a clareza de que o Rock Sertão deu certo por ter nascido em Glória, ou melhor, no interior. Isso chama a atenção e soubemos usar isso a nosso favor. A distância de Aracaju fui suprida com a presença do público e bandas do interior do estado. O Festival começa através de contatos que foram feitos pela Fator RH (banda de Nossa Senhora da Glória, na qual eu e Binho tocamos, e atua como anfitriã do festival). A gente tocou muito pelo interior e isso foi agregando parcerias e contatos que duram até hoje. O Rock Sertão é um esforço coletivo, da gente que organiza, do pessoal que dá apoio e das bandas que tocam. No início, muitas bandas buscavam seu próprio patrocínio pra poder vir tocar, pra garantir pelo menos o transporte. Não é o ideal, mas foi o que aconteceu. Persistimos, principalmente Binho, na busca de apoio para o festival. Não foi fácil. Mas a concepção do festival e a divulgação que fomos alcançando possibilitou novas parcerias.

Quanto ao Punka, fica difícil dizer o que aconteceu. Existem muitas questões internas que fazem com que um festival como esses termine. Isso vai desde divergências internas a questões financeiras. Não sei se foi o caso deles, não dá para ficar especulando. Só nos resta lamentar.

Jornal do Dia – Além das bandas locais, o festival ofereceu espaço na programação para bandas de outros estados. Qual a importância desse diálogo?

Danilo – Primeiro, é bom para o público, que pode ter contato com bandas de outros estados, principalmente no interior, onde essas bandas não chegam. Levar uma atração internacional para Nossa Senhora da Glória é, no mínimo, uma ousadia nossa. A presença destas bandas acrescenta em muito em termos de divulgação, dá um caráter para além da música sergipana, mas sem perder esta de vista. Faz com que a gente conheça outras realidades. Faz parte da própria dinâmica da música independente, hoje, esse movimento de troca.

Jornal do Dia – Ao longo das nove edições de Rock Sertão, parece que vocês conseguiram sensibilizar os órgãos públicos e a iniciativa privada, que chegaram junto e compraram a idéia. Como vocês conseguiram essa façanha? O empresário sergipano é mesmo burro como todo mundo comenta?

Danilo – Antes de mais nada, acho que é um espaço conquistado, de anos de luta, mas claro que também tem que haver o interesse. O Festival está consolidado. Este ano completamos nove edições. Fazemos “barulho” e isso deve ter chamado a atenção. Pegue o Brasil e veja quantos festivais conseguem viabilizar esse fluxo de bandas da capital pro interior. São pouquíssimos. Se você levar somente os festivais gratuitos em consideração, o número é mais reduzido ainda. O Rock Sertão é feito com seriedade e com um projeto que acreditamos ser bem construído e coerente. Gastamos até o último centavo, tiramos do próprio bolso, como várias vezes foi necessário, tudo para que dê certo. Como disse antes, foi preciso alguma perseverança, antes de conseguir estes apoios. Mas pode ser que um dia não os tenhamos mais e mesmo assim o festival não vai deixar de existir. Tenho certeza disso!

Não sei se a questão é só o empresário sergipano, acho que é uma questão mais profunda. É difícil conseguir alguma coisa na música. A lógica de mercado é perversa! Por trás de uma banda de axé que faz sucesso, quantas outras estão ralando pra conseguir alguma coisa, para sobreviver? O problema não é só do rock, é preciso vencer preconceitos. A música, os festivais não estão fora de uma análise social mais profunda.

Jornal do Dia – Qual a expectativa dos organizadores em relação ao Rock Sertão 2011?

Danilo – Queremos ter um bom retorno do público. Esperamos que o público do se divirta, conheça a música sergipana, a música independente, saiba apreciar a música que não é veiculada na grande mídia. Queremos mais um ano sem briga. Para quem já curte a música independente, fica o convite. Ver diferentes estilos agregados num único festival. A programação está diversificada e tem pra todos os gostos. É pegar a mochila, não esquecer o casaco e ir para Nossa Senhora da Glória, para o Rock Sertão 2011.

riansantos@jornaldodiase.com.br

Spleen e Charutos