quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Ian Christe, uma Entrevista


A Bíblia do Heavy Metal - Na falta de um livro sobre a história da música pesada, Ian Christe arregaçou as mangas e hoje vê “Heavy Metal - A História Completa” ser lançada em vários países, incluindo o Brasil. Íntegra da matéria publicada na revista Billboard 11, de agosto de 2010.

por Marcos Bragatto

Fonte: REG

Não é só de bater cabeça que vive o fã de heavy metal. Foi isso que descobriu o jornalista e crítico de música pesada Ian Christe. “Heavy Metal – A História Completa”, seu principal livro, lançado agora no Brasil, é sucesso de vendas nos Estados Unidos e ganhou versões em outros dez países. Nas quase 500 páginas dessa verdadeira bíblia do metal, Christe explica as intrincadas subdivisões do gênero, incluindo uma linha do tempo que tem como marco inicial a sexta-feira, 13 de fevereiro de 1970, data do lançamento do álbum de estreia do Black Sabbath.

Recebido com frieza pela crítica, além de dar o pontapé inicial no heavy metal, o disco inaugurou o desprezo da mídia pelo gênero que permanece até hoje. O preconceito talvez tenha sido o motivo que levou a editora brasileira a mudar título e capa na versão nacional. “Som da Besta” (do original “Sound of the Beast: The Complete Headbanging History of Heavy Metal”), foi omitido na tradução e a imagem do cramunhão foi trocada por uma ilustração com um guitarrista tocando sobre uma cabeça de caveira. Além de noruegueses com rostos pintados e pregos cravados nos braços e pernas, o autor trata de temas menos sérios - como o glam rock - e inclui até grunge e nu-metal, subgêneros renegados pelos fãs.

Ian Christe virou referência, vive sendo chamado a opinar quando ao assunto é heavy metal em programas de rádio e TV, e criou sua própria editora, a Bazillion Points (www.bazillionpoints.com). Os próximos lançamentos? Um livro sobre black metal e heavy metal underground e outro com a história do metal progressivo. É assunto que não acaba mais. Confira abaixo esta entrevista exclusiva, feita por e-mail, com o autor da “bíblia do metal”:

Rock em Geral: O que te motivou a escrever um livro sobre heavy metal? Você não acha que os fãs de metal não estão interessados em ler sobre o assunto, mas apenas ouvir a música e bater cabeça?

Ian Christe: Essa é uma concepção errada, e provavelmente explica o porquê de ninguém ter escrito uma completa história do heavy metal antes de mim. Fãs de metal têm poucas opções no rádio e na TV, então revistas, fanzines e sites sempre foram muito importantes para achar informações sobre música. Fãs de metal têm o hábito de ler e eles provam isso com o sucesso do “Sound of the Beast”. E, ainda, fãs de metal são todo o tipo de gente – recebo cartas de bibliotecários, advogados, funcionários públicos, professores. Eles sempre falam: “não sou o típico headbanger…”, mas eu não acredito que exista essa coisa de “típico headbanger”.

REG: O livro foi lançado em 2004, e agora há uma versão brasileira disponível.Você acha que nesse meio tempo ocorreram mudanças significativas para acrescentar à versão original?

Ian: O heavy metal tem estado muito ativo em todo o mundo nos últimos anos, mas as crenças e estilos básicos explicados no “Sound of the Beast” ainda traduzem toda a história. Novas bandas ainda continuam aparecendo com os mestres do thrash metal, death metal, doom metal, e por aí vai. Eu diria que mais do que nunca novas bandas estão respeitando as tradições do metal — talvez até demais! Ao mesmo tempo, os grandes nomes como Black Sabbath, Iron Maiden e Slayer continuam em atividade.

REG: Que novos subgêneros nasceram/se desenvolveram nesse período?

Ian: Eu acho que, comercialmente, os estilos dominantes são o death metal melódico e o metalcore. Bandas como As I Lay Dying, Killswitch Engage e até mesmo o In Flames, que ajudou a criar este estilo. Já artisticamente eu acho que o que define a cena metálica nos anos 2000 são grupos como Sunno))) e Jesu. Ainda assim, essas duas cenas têm as raízes nos anos 90. Mas no geral eu acredito que os anos 2000 foram um período em que os subgêneros como black metal, death metal, thrash metal e doom metal foram desenvolvidos ao extremo. Foi uma década de refinamento, não de evolução. Por exemplo: a banda de thrash retrô Municipal Waste teve uma grande história, mas tudo que você precisa saber sobre eles vem direto de 1987!

REG: O livro teve boa aceitação nos Estados Unidos? E em outros países?

Ian: O “Sound of the Beast” foi lançado na Inglaterra, Alemanha, Japão, Croácia, Itália, República Tcheca, Finlândia, Espanha, França e uma edição na Sérvia está a caminho. Tem sido animador e também necessário, já que o heavy metal é uma música tão internacional. Espero que a edição brasileira vá bem! Estive na famosa Galeria do Rock, em São Paulo, para comprar camisetas do Sarcófago. Talvez alguém abra uma livraria lá!

REG: Você inclui o grunge e o nu metal como parte do heavy metal, mas a maioria dos fãs não percebe que essas bandas são identificadas com o “verdadeiro” (como eles chamam) heavy metal. O que te fez incluir esses estilos no livro? Recebeu críticas por isso?

Ian: Seria impossível contra a história do glam metal sem mencionar que no começo dos anos 90 bandas de pop metal como Ratt e Stryper foram completamente chupadas por bandas como Soundgarden e Mudhoney. E bandas grunge como essas influenciaram bandas de metal como Anthrax, Death Angel e Napalm Death - pode acreditar. Mas eu tenho cuidado ao falar que o verdadeiro heavy metal se fortaleceu nos anos 90. É um mito que um dia o metal tenha desaparecido. Quanto ao nu metal, não curto esse tipo de música, mas seria desonesto fingir que ele não existe.

REG: A maioria dos fãs de metal apontam os anos 80 como a melhor década para a cena metálica, você também acredita nisso?

Ian: Não. Eu adoro o metal dos anos 80, mas há bandas muito importantes nos anos 70 como Blue Oyster Cult e Pentagram, e nos 90, como Napalm Death, Entombed e Brutal Truth. O metal dos anos 80 é ótimo, mas - adivinhe – o bom heavy metal vem de todos os tempos e lugares, os mais inesperados.

REG: Na versão brasileira do livro, o guitarrista do Sepultura, Andreas Kisser, escreveu o texto de apresentação na orelha. Você participou do processo de lançamento?

Ian: Não participei muito, não. Eu conheço o Andreas, o respeito demais, não apenas como músico, mas com um líder de banda e um homem de família. Ele é um grande cara, e estou orgulhoso de o editor brasileiro tê-lo escolhido para apresentar o livro no Brasil.

REG: O título não foi traduzido corretamente, e a capa foi trocada por outra, assinada por um artista local, que fez algo menos agressivo. Você chegou a ver?

Ian: Honestamente, eu acho a capa estranha! Eu gosto da caveira desenhada, mas o guitarrista em cima soa estranho para mim. Eu creio que o editor sabe o que está fazendo. Talvez a capa original tenha sido um pouco forte para ele – as forças religiosas devem ter sido ultrajadas! O engraçado é que a pintura da capa da versão original do livro é da arte religiosa italiana.

REG: Depois de cerca de 40 anos de existência, você acredita que ainda há o que se criar dentro do heavy metal?

Ian: Sim, depois de 40 anos de renovações e inovações constantes, eu não tenho a menor dúvida de que novos tipos de metal vão continuar a emergir de fontes desconhecidas. Isso tem sido uma constante certa na história do metal. E com Índia, Cingapura, Tailândia e China apenas começando no metal, pode apostar que algo único no mundo do metal está prestes a surgir.

REG: Você compartilha da idéia de que a expressão “heavy metal” foi usada pela primeira vez no livro “Naked Lunch”, de William S. Burroughs, e na música “Born to Be Wild”, do Steppenwolf?

Ian: Muito antes disso “heavy metal” era o termo usado pelo exercito britânico para canhões de guerra, foi esse termo que usei como original no livro. Acho perfeito!

REG: O livro estabelece o lançamento do primeiro disco do Black Sabbath como o marco inicial do heavy metal, mas você não acha que há outras contribuições imprescindíveis, como o Led Zeppelin (com as raízes dom blues) e Deep Purple (com as partes progressiva e sinfônica)?

Ian: Sim, Led Zeppelin, Deep Purple, Blue Cheer e Sir Lord Baltimore, todos contribuíram à beça com o heavy metal. Mas o Black Sabbath é o pacote completo. Você ainda pode ouvir citações ao Black Sabbath na música do Slayer ou do Lamb of God. O Black Sabbath tem um gigante sentimento agourento que define o heavy metal melhor que qualquer riff ou velocidade em particular.

REG: Olhando para a linha do tempo estabelecida no início do livro, não há subgêneros como gothic metal, death metal melódico, math metal e outros…

Ian: Esses são assuntos tratados no livro. Alguns estilos eu não tive espaço suficiente para tratar com muita profundidade – como o death metal sueco ou o prog metal -, mas agora posso publicar livros inteiros cobrindo isso na minha própria editora, a Bazillion Points.

REG: Nos últimos anos Sam Dunn e Scot McFryden dirigiram alguns filmes e programas de TV sobre a história do heavy metal. Você acha que isso contribui com o seu trabalho como escritor e fã de metal?

Ian: Sim, eu fui entrevistado no primeiro filme de Sam e Scott, “Metal - A Headbanger’s Journey”, e acho que eles mostraram uma linha do tempo dos gêneros do metal baseada na organização do meu livro. Eu tenho me envolvido em muitos documentários e programas de nos Estados Unidos, e acho que isso ajuda a espalhar a palavra para os fãs mais novos. O metal tem sido subestimado por muito tempo, mas é um grande fenômeno, e não há razão alguma para, toda vez que aparece na TV, ser deturpado ou mal compreendido. Nenhum filme é tão bom quanto um bom livro, mas filmes transmitem a informação com muito mais rapidez.

REG: Como um jornalista que escreve em várias publicações, você acha que ainda há preconceito contra o heavy metal? No seu dia a dia, mesmo outros jornalistas consideram seu trabalho não tão importante quanto o deles, porque você escreve sobre metal, e eles (por exemplo) indie ou “novo rock”?

Ian: Sim, esses preconceitos existem, é triste. Essa foi uma das minhas motivações para escrever o livro, para ajudar a dignificar a música que centenas de milhares de fãs nunca puderam entrar numa livraria e encontrar algo com credibilidade sobre a música que eles adoram. Tenho lido sobre heavy metal desde muito tempo, mas era um jornalista de revistas grandes como Wired e Popular Mechanics, escrevendo sobre ciência e tecnologia. Eu voltei para o heavy metal porque não havia ninguém fazendo um bom trabalho no meio, e eu precisava ao menos tentar.

REG: Quais são os próximos lançamentos da sua editora?

Ian: Estamos trabalhando num livro cobrindo o black metal extremo e heavy metal underground, chamado “Metalion: The Slayer Mag Diaries”, e está sendo escrito por Jon Kristianson, da Noruega. Acabamos de lançar “Touch And Go: The Complete Hardcore Punk Zine ‘79-’83”, de Tesco Vee e Dave Stimson, com apresentações de Henry Rollins e Ian MacKaye. E logo vamos lançar “Mean Deviation”, de Jeff Wagner, com a história do metal progressivo, de Rush a Opeth. Estamos muito ocupados!

REG: Você nasceu no mesmo ano que o heavy metal… Coincidência ou destino?

Ian: Destino de muita sorte! Eu cresci ouvindo esse tipo de música, ouvindo AC/DC e Saxon na escola primária. Depois tive a experiência de conhecer o thrash metal quando adolescente, e entrei para a faculdade no momento em que a explosão do death metal e do grindcore aconteceu. Tem sido incrível experimentar este constante renascimento desse tipo de música.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Sessão Notívagos Cancelada/Adiada

A Sessão Notívagos que aconteceria próximo sábado, com o filme "A Prova de Morte", de quentin tarantino, e apresetanções das bandas Snooze e A Banda de Joseph Tourton, foi cancelada por questões operacionais. Uma nova data está sendo estudada. É possível que o filme seja exibido dia 24. Como fã de Cinema E de Tarantino, fico na torcida.

Maiores informações: sessaonotivagos@gmail.com

A.

* * *

À Prova de Morte - Dirigido por Quentin Tarantino. Com: Kurt Russell, Rosario Dawson, Zoë Bell, Vanessa Ferlito, Sydney Poitier, Tracie Thoms, Jordan Ladd, Rose McGowan, Mary Elizabeth Winstead, Quentin Tarantino, Eli Roth, Marley Shelton, Michael Parks.

Fonte: Cinema em Cena
por Pablo Vilaça

Três anos. Foi este o tempo que À Prova de Morte, que Quentin Tarantino dirigiu antes de Bastardos Inglórios, levou para chegar ao Brasil – e, ainda assim, chegou em uma versão diferente da original, já que foi concebido como parte do projeto Grindhouse, que, buscando resgatar as sessões duplas concebidas na década de 30 como resposta à Depressão, trazia também o fraco Planeta Terror, de Robert Rodriguez, e vários trailers falsos dirigidos por amigos da dupla. Inicialmente com uma duração de apenas 87 minutos, À Prova de Morte era a segunda parte de Grindhouse e se apresentava como um exercício de estilo descompromissado, divertido e – o mais importante – enxuto, trazendo Tarantino numa raríssima demonstração de auto-disciplina e se estabelecendo como um de seus trabalhos mais coesos.

Isto, é claro, mudou nesta versão que agora chega ao Brasil: com 17 minutos a mais, o “novo” À Prova de Morte perdeu parte de seu impacto justamente ao se alongar desnecessariamente em cenas de intermináveis diálogos (uma marca registrada do cineasta), além de, claro, ser prejudicado por não estar mais inserido no contexto das “sessões duplas” – e, assim, os “defeitos” da película, com riscos, manchas e saltos abruptos na imagem e no som acabam surgindo deslocados, soando como uma homenagem artificial que, mesmo divertida, não se encaixa organicamente na narrativa.

Estabelecendo-se como “um filme de Quentin Tarantino” já em seu plano inicial, quando vemos a podolatria do cineasta em ação com força total, o longa se entrega sem reservas ao conceito de exploitation que se estabelecia como parte fundamental da experiência “grindhouse” – e, neste sentido, ele se coloca firmemente, por exemplo, ao lado de obras como A Vingança de Jennifer (I Spit on Your Grave) ao mesmo tempo em que faz uma clara homenagem a Corrida Contra o Destino, criando um híbrido que poderia perfeitamente ser batizado de Corrida Contra a Vingança de Jennifer. Exibindo todas as marcas registradas de Tarantino (o plano do porta-malas, as marcas de bebida e cigarro fictícias, os personagens saídos de seus outros filmes, as abundantes referências a séries e filmes obscuros e a seleção musical), À Prova de Morte tampouco se acanha diante dos corpos de suas atrizes, explorando-os com uma curiosidade adolescente que beira a veneração.

Esta veneração pela mulher, aliás, é o que torna Tarantino tão diferente de canalhas sexistas como seu amigo demente Eli Roth ou Michael Bay, já que, ao mesmo tempo em que é capaz de conceber um plano com o único objetivo de enquadrar a bunda de Vanessa Ferlito, o diretor se mostra sempre reverente diante da força feminina. Não é à toa, diga-se de passagem, que Tarantino vem continuamente concentrando a força de seu Cinema nas mulheres: se Cães de Aluguel não trazia uma única mulher com diálogos, Pulp Fiction já conferia mais atenção a figuras como Mia Wallace ainda que os homens se mantivessem em destaque. A partir de Jackie Brown, porém, o foco do cineasta muda de vez, culminando em Kill Bill Volumes 1 e 2, neste À Prova de Morte e, claro, em Bastardos Inglórios e suas fortes heroínas Shosanna e Bridget von Hammersmark. Basta compreender esta trajetória, aliás, para perceber como é natural que, aqui, o diretor continuamente enfoque suas atrizes a partir de ângulos baixos que conferem uma dimensão de “criações maiores do que a vida” às personagens.

Fugindo da clássica divisão em três atos e adotando uma abordagem mais simétrica, À Prova de Morte pode ser dividido em dois atos de igual duração: a primeira metade do filme, que se concentra na DJ Jungle Julia (Poitier) e em suas amigas Arlene (Ferlito) e Shanna (Ladd), tem a clara intenção de introduzir o tom e a atmosfera da narrativa. Investindo com menos sutileza nos artefatos de técnica e “desgastes” da película, esta seqüência se torna quase metalingüística em seu esforço de soar como uma autêntica produção dos anos 70 (embora, claro, se passe nos dias atuais) – e, assim, o bar que abriga a maior parte da ação é concebido como um espaço antiquado, com seu interior de madeira, seus neons e cartazes e, claro, o imenso jukebox usado pelas personagens. Isto se contrapõe, claro, à fotografia mais limpa e menos “defeituosa” da segunda metade, que soa mais moderna e traz um minúsculo iPod como fonte das músicas ouvidas pelas mocinhas. Esta estratégia revela o brilhantismo de Tarantino, já que reflete tematicamente a própria natureza das personagens: vulneráveis e vitimizadas no passado, fortes e determinadas no presente.

Mas não é só: bom conhecedor da linguagem cinematográfica (e de sua evolução ao longo da História), Tarantino diverte, por exemplo, ao investir numa radical mudança na trilha sonora quando determinada personagem se concentra em mandar uma mensagem pelo celular, empregando acordes melosos que, justamente pela falta de sutileza típica de produções do tipo, soam apropriadamente incorretos. Além disso, percebam como o diretor coordena sua mise-en-scène com economia na cena em que Abernathy (Dawson) tenta convencer um sujeito a lhe emprestar um carro: ocultando a presença da bela Lee (Winstead) ao fundo, o cineasta a revela apenas ao levar Dawson a deslocar o corpo no momento preciso em que oferece a amiga como moeda de troca, resultando numa eficiente punchline visual. Como se não bastasse, Tarantino se sobressai de maneira espetacular ao enfocar uma violenta colisão entre dois carros, repetindo-a a partir de diversos ângulos que revelam de forma chocante as conseqüências do acidente.

Porém, talvez a maior surpresa de À Prova de Morte seja a longa seqüência de perseguição que marca o clímax da narrativa: durando cerca de 20 minutos, ela é orquestrada por Tarantino com a inesperada segurança de um William Friedkin em Operação França ou de um Peter Yates em Bullitt, aparentemente empregando um número mínimo de trucagens digitais e investindo apenas na capacidade de seus dublês e na montagem que ressalta a ação, além, claro, dos movimentos de câmera que jamais soam epiléticos como os de Michael Bay, permitindo que acompanhemos tudo sem surtos de labirintite (e mesmo ao mover seu quadro com mais rapidez Tarantino exibe um objetivo claro, como no instante em que parece perder o vilão numa nuvem de poeira apenas para “reencontrá-lo” em outro ponto). Para finalizar, o cineasta e sua montadora habitual, Sally Menke, demonstram segurança ao contrapor estes instantes de maior energia a outros em que a câmera simplesmente passeia em torno dos personagens – como no plano que, durando sete minutos, remete a Cães de Aluguel ao enfocar a conversa de quatro amigas em volta de uma mesa (e notem a presença discreta de Kurt Russell ao fundo, comprovando a confiança de Tarantino em seu espectador).

Ainda assim, esta versão de À Prova de Morte, como dito inicialmente, peca por abandonar a disciplina do corte original – algo que já pode ser constatado na interminável conversa que ocorre em um carro nos momentos iniciais, durando longuíssimos cinco minutos e pouco oferecendo quanto ao desenvolvimento das personagens e da narrativa (para piorar, Tarantino fica preso às limitações do “cenário” e pouco pode fazer com sua câmera). Da mesma maneira, a inclusão da cena do lap dance (cortada do original como uma gag sobre as péssimas condições de preservação do filme) pode até servir como um presente para os espectadores masculinos, mas em nada contribui para o filme ou para estabelecer a dinâmica entre aquelas figuras.

De todo modo, estes pecadilhos de auto-indulgência tão típicos de Tarantino não chegam a comprometer o filme como poderiam, já que a situação criada pelo cineasta é suficientemente interessante para manter nosso interesse – e, neste sentido, é fundamental constatar a natureza fascinante do vilão encarnado de maneira impecável por Kurt Russell: apresentando-se como um sujeito afável e discreto, Stuntman Mike é um serial killer intrigante, sendo perfeitamente capaz de revelar seu lado mais sombrio num piscar de olhos (aliás, o melhor momento do filme é aquele em que ele pergunta para sua primeira vítima a direção de sua casa e lamenta ter que amedrontá-la imediatamente, já que terá que seguir no sentido oposto). Enquanto isso, Michael Parks volta ao universo de Tarantino com seu velho xerife Earl McGraw, que, com seu jeito preguiçoso de falar (até suas piscadas são lentas), mostra-se sempre divertido e magnético - e é realmente uma pena que ele morra já no início de Um Drink no Inferno. No entanto, o grande destaque de À Prova de Morte é mesmo Zoë Bell, que, dublê profissional (ela foi a responsável pelas ações da Noiva em Kill Bill), aqui ganha a chance de realmente interpretar uma personagem, revelando um carisma natural que, num mundo justo, deveria lhe garantir uma invejável carreira como atriz.

Eficiente até em seu desfecho excessivamente abrupto, À Prova de Morte é a comprovação de que, nas mãos de um diretor que conhece a fundo a técnica e a história do Cinema, até mesmo um exercício de estilo sem grandes ambições pode representar uma experiência apaixonante para quem ama e respeita a Sétima Arte.

17 de Julho de 2010

Zeferina Bomba em Aracaju - por eles mesmos

Antes tarde do que nunca, eis aí o relato da passagem da banda Zeferina bomba por Aracaju, contada por eles mesmos em seu blog.

* * *

Chegamos em Aracaju no meio da tarde e fomos recebidos pelo pessoal do Renegades of Punk [dani e ivo]. Um rango vegetariano nos esperava numa casa muito agradável na praia de Atalaia. O dia tava meio chuvoso e ficamos naquela de que será que vai dá gente mais tarde?! o cartaz ficou muito foda e já virou quadro na sala em São Paulo. Edy tava com o pé bem inchado [não expliquei isso ainda neh?!] pois é, depois de uma década de existencia saudável [leia-se bebendo, fazendo shows e consciência corporal...] nosso amigo resolveu andar de skate… …no escritório… …e… …40 dias de gesso… …melhor voltar aquela existência saudável. pois bem depois de esclarecidos os fatos, o pé tava bem inchado das seis horas de estrada, então fomos até uma farmácia resolver isso, compramos gelo e umas cervejas que melhoraram nosso fim de tarde!!

um pouco mais tarde dê-mos um pulo na Aperipê FM pra falar com o grande Edelvan (NOTA:ops!) sobre mecânica de autos, energia nuclear, teflon e um pouco de música.

figuraça!!

edy e elmon ficaram na casa moendo e bebendo, e claro ouvindo a radio. andar em Aracaju é até fácil, de lá da casa até o bar era uma reta só. O bar Capitão Cook é de um argentino, que talvez seja torcedor do River Plate, não o da Argentina, o de Sergipe. Não sabia?! pois é, tem um River “de Sergipe” que é o atual campeão sergipano e está disputando a série D do brasileirão. Zefirina é cultura futibolistica!!

chegamos montamos a banquinha, trocamos uma idéia geral e não bebemos muito [isso realmente foi estranho!] o Renegades tocou primeiro, eu já tinha visto eles em São Caetano do Sul e realmente achei foda!! eles tão lançando um 7″ polegada. Muito do caralho, quero muito que eles toquem no BE.R.RO. em dezembro!! na sequencia rolou a The Baggios que também estavam botando trampo novo no mercado, assisti [na verdade ouvi mas do que assisti] da banquinha.

então chegou nossa vez, tocamos e sabe como é, não sei dizer bem como foi, a não ser pela bateria que queria pogar e por isso eu e edmundo ficamos na frente dela quase o show inteiro.

saldo final: estrada ruim pra encontrar gente legal, uma conversa no rádio, tocar e se divertir, Elmon com seus comentários abalizados, Gonzagão e os pés inchados, Thelma tomou todas e terminou na pracinha jogando dominó e diz a lenda que com o cachê deste show Elmon comprou um tênis novo!!

fonte: SUB FOLK


Uma Noite em 2010


“Ai meu Deus/o que foi que aconteceu/com a música popular brasileira?”, perguntava Rita Lee na virada da década de 70 para a de 80 do século passado. Eu diria que virou “Música PRA PULAR Brasileira”, como dizia, num trocadilho “ixpierto”, a banda independente recifense Dona Margarida Pereira e os Fulanos nos anos 90. Brincadeiras à parte, infinitas teorias podem ser levantadas, mas eu creio que tudo pode ser resumido numa única sentença: Comercialismo. Nivelamento por baixo fruto da massificação pasteurizada. Depois da axé music, do sertanejo de Chitãozinho e Xoróró e Cia. Ltda, do pagode romântico e do É O Tchan, a música popular brasileira como a conhecíamos, aquela criativa e combativa, com conteúdo, foi reduzida a pó. Simplesmente não existe mais, ou melhor, existe, mas deixou de ser, definitivamente, popular (ou popularesca, caso prefira).

Os melhores tempos de nossa MPB estão magistralmente retratados em “Uma Noite em 67”, documentário que registra o palco e os bastidores do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record . Foi exibido pela primeira (e talvez única) vez no cinema, em Aracaju, na última Sessão Notívagos, ocorrido na data “cabalística” de 11 de setembro de 2010. Grandes músicas, grandes imagens, grandes depoimentos de grandes nomes como Chico Buarque, MPB4, Edu Lobo e, evidentemente, Caetano e Gil, na época novidades, hoje “arrozes de festa”. Excelentes discussões sobre momentos brilhantes e constrangedores, como a celebremente ridícula “passeata contra a guitarra elétrica”, da qual nosso ex-ministro, por sinal, participou, “mais em solidariedade à Elis”, segundo ele, num “desdobro” típico do político no qual se transformou. Aliás, só são ruins mesmo as entrevistas com Gil, sempre com aquele discurso tergiversado e ininteligível ruminando sobre o sexo dos anjos, fazendo “cara de conteúdo”, como bem dizia aquele bordão comercial. Até Caetano, normalmente afetado e dado a “achismos”, aqui está muito bem – provavelmente porque o assunto era pertinente e focado no que realmente interessa, no caso, a ovação que sua “Alegria Alegria” recebeu naquela noite. Ele louva o fato de Chico Buarque ter se livrado de “A Banda”, ao passo que ele não consegue descartar “Alegria Alegria”, tido por muitos (eu inclusive) como A Música composta por ele (ok, exagero, há outras melhores ou tão boas quanto, mas “Alegria Alegria” é realmente um marco, com seu ritmo de marchinha brilhantemente emoldurado por um arranjo calcado em guitarras de rock que hoje soam “vintage”, mas na época certamente eram algo super moderno e ousado). Para a nossa sorte, a música defendida por Chico Buarque não foi “A Banda”, realmente chatinha e pueril, mas a obra-prima “Roda-Viva”. Excelentes depoimentos do próprio e do MPB4 explicando os arranjos e discutindo as peculiaridades da época, como a criação de uma suposta imagem de “bom-mociscmo” para o Chico em comparação à nascente anarquia estética e conceitual dos representantes do que viria a se tornar conhecido como “tropicalismo”. No momento mais engraçado, Chico fala algo como “pra eles eu era o bom moço, alinhado, de smoking, já o general reclamava de minhas letras, que não podia falar isso, não podia falar aquilo – difícil ser “certinho” nessas condições, heim”.

Outro grande momento é a interpretação de Gilberto Gil com Os Mutantes defendendo “Domingo no parque”, assim como a revelação de que foi preciso, duas horas antes de sua subida ao palco, literalmente arrastá-lo de sua cama para que ele se apresentasse. Igualmente antológicas as cenas de bastidores, com entrevistas bizarras conduzidas pelos repórteres Randal Juliano e Cidinha Campos - esta última, diga-se de passagem, afetadíssima - e seus questionamentos totalmente “non sense”. O Rei Roberto Carlos também dá o ar de sua graça, em imagens de época, contando uma piada meio sem graça e defendendo a bonita “Maria , Carnaval e cinzas”, além de numa descontraída e bem humorada entrevista mais recente, feita para o filme.

Depois do filme, como de praxe, música Ao Vivo no saguão do Cinemark. Seria a primeira vez que eu veria no “palco” (na verdade não havia palco, as bandas tocam no chão, cara-a-cara com o público, o que eu acho ótimo) a excelente banda “folk” sergipana Road To joy. Vi apenas 3 músicas, pois foi solicitada a minha ajuda para comprar mais bebida (um bom sinal, diga-se de passagem), mas gostei bastant. Boa postura de palco, boa execução de suas belas canções, especialmente o já quase “hit” “couple fighting song”.

O público não era uma multidão, mas era gente o suficiente para animar a festa. E foi realmente uma festa a apresentação da banda gaúcha “Apanhador Só”, que possui uma sonoridade bastante original. Às vezes lembra um pouco o Los Hermanos, mas ficam longe daquela chatice melosa deles. É um show bastante animado, diga-se de passagem – destaque para o alto astral de “Maria Augusta”, que inclusive foi pedida e inexplicavelmente não atendida no bis - o que não quer dizer que os caras tenham uma postura blasé e distante do público, muito pelo contrário: são acessíveis e solícitos, além de excelentes músicos – o baterista, em especial, me impressionou, com uma pegada ao mesmo tempo vigorosa e elegante.

Grandes shows, grande noite.

por Adelvan

* * *

+ sobre "Uma Noite em 67"

Fonte: Divulgaçao

Era 21 de outubro de 1967. No Teatro Paramount, centro de São Paulo, acontecia a final do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. Diante de uma plateia fervorosa - disposta a aplaudir ou vaiar com igual intensidade -, alguns dos artistas hoje considerados de importância fundamental para a MPB se revezavam no palco para competir entre si. As canções se tornariam emblemáticas, mas até aquele momento permaneciam inéditas. Entre os 12 finalistas, Chico Buarque e o MPB 4 vinham com “Roda Viva”; Caetano Veloso, com “Alegria, Alegria”’; Gilberto Gil e os Mutantes, com “Domingo no Parque”; Edu Lobo, com “Ponteio”; Roberto Carlos, com o samba “Maria, Carnaval e Cinzas”; e Sérgio Ricardo, com “Beto Bom de Bola”. A briga tinha tudo para ser boa. E foi. Entrou para a história dos festivais, da música popular e da cultura do País.

“É naquele momento que o Tropicalismo explode, a MPB racha, Caetano e Gil se tornam ídolos instantâneos, e se confrontam as diversas correntes musicais e políticas da época”, resume o produtor musical, escritor e compositor Nelson Motta. O Festival de 1967 teve o seu ápice naquela noite. Uma noite que se notabilizou não só pelas revoluções artísticas, mas também por alguns dramas bem peculiares, em um período de grandes tensões e expectativas. Foi naquele dia, por exemplo, que Sérgio Ricardo selou seu destino artístico ao quebrar o violão e atirá-lo à plateia depois de ser duramente vaiado pela canção “Beto Bom de Bola”.

O documentário Uma Noite em 67, dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, mostra os elementos que transformaram aquela final de festival no clímax da produção musical dos anos 60 no Brasil. Para tanto, o filme resgata imagens históricas e traz depoimentos inéditos dos principais personagens: Chico, Caetano, Roberto, Gil, Edu e Sérgio Ricardo. Além deles, algumas testemunhas privilegiadas da festa/batalha, como o jornalista Sérgio Cabral (um dos jurados) e o produtor Solano Ribeiro, partilham suas memórias de uma noite inesquecível.

Notas da imprensa

"Para quem viveu aqueles anos, trata-se de um passeio pela memória; para quem, daquelas canções, conhece apenas as lendas (...), o filme é um passeio pelo Brasil que fez manifestação contra a guitarra elétrica e, calado pela ditadura, parecia disposto a vaiar quem quer que fosse, de Roberto Carlos a Caetano Veloso" (Ana Paula Sousa – Folha de S. Paulo)

"Contra a azia e a má digestão causadas pelas recentes falas de dois generais, existe um antiácido. Trata-se do documentário "Uma Noite em 67", de Renato Terra e Ricardo Calil (...). É uma deliciosa viagem" (Zuenir Ventura – O Globo) .

"O filme faz uma excepcional prospecção de imagens da época e acerta ao preservar as apresentações completas dos concorrentes" (Luiz Zanin – O Estado de S. Paulo)inesquecível.

"O filme é mais do que ‘musical’. É político, ideológico. Foi, para mim, uma experiência visceral." (Luiz Carlos Merten – O Estado de S. Paulo)

"Um programa de TV? Um ringue de luta? Uma festinha doméstica de fim de ano? Ou um microcosmo da cultura em transformação? O festival foi tudo isso e muito mais. O filme o rememora mediante reflexões reveladoras, contradições expostas e informações inéditas de bastidores. Não precisa mais que isso para se ter um bom documentário." (Carlos Alberto Mattos)

"'Uma Noite em 67' é um documentário sobre seis canções. Simples assim. O complexo, na história do filme e do Brasil, é que em torno dessas apresentações giraram e ainda giram as questões mais essenciais da nossa cultura popular." (Carlos Nader, documentarista - Trip)

"Nos divertimos muito vendo o documentário Uma Noite em 67. O formato é simples, alternando imagens da época com depoimentos recentes dos cantores, mas generoso em detalhes." (Daniel Piza, O Estado de S. Paulo)

O Festival que Mudou Tudo - O ótimo documentário ''Uma Noite em 67'' não se limita a retratar o surgimento da mais talentosa geração da música brasileira. Ele mostra como um mundo novo soterrou um Brasil velho

Por André Nigri

Fonte: Bravo!


Existem momentos em que é preciso mudar tudo para que tudo continue igual." A famosa frase do Príncipe de Salina, protagonista do romance O Leopardo, do italiano Giuseppe di Lampedusa, expressa o desencanto do personagem em relação a uma área específica: a política. No mundo da cultura, no entanto, a máxima não se aplica. Existem momentos em que tudo muda, mas muda mesmo - um mundo novo surge e, com força devastadora, transforma o antigo numa pilha de escombros. Na área da cultura pop, isso vem acontecendo agora, em que todo um sistema calcado na atuação das gravadoras foi destruído pela internet, que alterou completamente as regras de produção e distribuição de música. Um marco dessa revolução ocorreu em 15 de junho de 2009, quando a maior loja de CDs do mundo, a Virgin de Nova York - que chegara a vender 785 milhões de cópias num único ano, 2000 -, fechou as portas por falta de compradores. Outro momento de mudança radical se deu na metade dos anos 60 do século 20. Mais uma vez, uma inovação tecnológica estava na raiz da mudança: a televisão. A caixa com imagens que se moviam, criada nos anos 40 nos Estados Unidos, atingiu o poder pleno nos anos 60 e alterou radicalmente as regras da música - engendrando um novo tipo de artista e um novo tipo de público.

Um documentário que entra em cartaz neste mês reconstitui o dia que se tornaria o marco dessa revolução no Brasil. Uma Noite em 67 traz imagens vibrantes de 21 de outubro de 1967, além de depoimentos inéditos. Nesta data, ocorreu a final do 3º Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, no Teatro Paramount, em São Paulo. O filme faz mais do que contar a história daquele que ficou famoso como o melhor festival de todos os tempos - para ter uma ideia da magnitude da nova geração que surgia, os cinco primeiros lugares ficaram com ninguém menos do que Edu Lobo (com Ponteio), Gilberto Gil e Mutantes (com Domingo no Parque), Chico Buarque (com Roda Viva), Caetano Veloso (com Alegria, Alegria) e Roberto Carlos (com Maria, Carnaval e Cinzas). Mais do que alinhavar fatos, o documentário dirigido por Ricardo Calil e Renato Terra dá a exata dimensão da revolução em curso. Pode dizer que o Festival de 1967 da TV Record dividiu a música brasileira em antes e depois. Ficaram para trás os cantores que usavam terno e smoking, os intérpretes que apenas cantavam o amor e os fãs que idolatravam seus ídolos a distância. Entraram em cena roupas coloridas, compositores que, seguindo Bob Dylan, queriam provar que era possível falar sobre qualquer assunto, e fãs que iam muito além da idolatria. Mais do que adorar seus ídolos, queriam saber o que eles pensavam e o que vestiam - para, em última análise, ser como eles.

Essa revolução fica patente no filme não apenas nas imagens dos músicos se apresentando, mas também nas entrevistas de bastidores, que mostram a estranheza que esse novo mundo causava nos repórteres Randal Juliano e Cidinha Campos - representantes do que, para usar uma gíria da época, seria o suprassumo do Brasil "careta". É hilário, e emblemático, o diálogo em que Randal pergunta a Caetano Veloso o que significa exatamente o termo "pop". Randal claramente não entendeu a resposta, mas nem precisaria fazer a pergunta se olhasse para o lado e prestasse atenção na explosão de cores à sua volta. Desobedecendo a tradição, Caetano se apresentou no festival com um terno xadrez marrom e uma camisa de gola rulê laranja-vivo. Os argentinos que o acompanhavam, integrantes do grupo Beat Boys, irromperam em cena de cabelos longos, roupas cor-de-rosa-choque e guitarras elétricas. Gilberto Gil, em Domingo no Parque, usava blazer marrom e camisa branca. Até Edu Lobo, representante do bloco mais comportado, ousou um pouco: camisa de gola rulê preta e casaco azulado.

Os fantásticos depoimentos obtidos pelos cineastas - todos os personagens importantes relembram o festival, a começar pelos cinco vencedores - também são fundamentais para enxergar a época com os olhos de hoje. BRAVO! pinçou três momentos do filme representativos das mudanças em curso e resolveu detalhá-los nesta reportagem, com o intuito de melhor entender a mudança de bastão pela qual passava a música brasileira. O primeiro foi uma inacreditável passeata contra a guitarra, da qual muitos artistas e intelectuais participaram - entre eles, o jornalista Sérgio Cabral, pai do atual governador do Rio de Janeiro, que no filme reconhece ter perdido o senso do ridículo. O segundo, uma crise de Gilberto Gil momentos antes de subir ao palco para defender seu Domingo no Parque. O terceiro, as imagens recorrentes das fãs na plateia, representadas aqui por uma moça que teve a divertida ideia de usar uma camiseta estampada com a letra U - vogal da vaia. O zoom sobre esses três momentos mostra os três principais elementos da revolução: o aumento do poder da TV, o surgimento de um novo tipo de ídolo e o fã participativo que lhe correspondia.

1 - Um "Big Brother" versão anos 60

Sérgio Cabral tinha razão em ficar envergonhado. Com tantas causas importantes para abraçar - entre elas a defesa da democracia, ameaçada por uma ditadura militar em vias de recrudescimento e por guerrilheiros que queriam chegar ao poder usando a luta armada -, artistas e intelectuais se reuniram no dia 26 de junho de 1967 para fazer passeata contra um inofensivo instrumento musical. O bizarro evento ocorreu na avenida Brigadeiro Luiz Antônio, em São Paulo. Numa janela do Hotel Danúbio, com vista para a avenida, Caetano Veloso e Nara Leão olhavam desolados o que ocorria, mortos de vergonha alheia.

O que parecia um evento de alto teor político - o pobre instrumento de seis cordas representaria a dominação da cultura estrangeira sobre a música brasileira - era, na verdade, uma jogada de marketing orquestrada pela televisão. Todos os artistas importantes da época eram contratados pela TV Record e tinham programas no ar. Entre eles, Jovem Guarda, com Roberto e Erasmo Carlos, O Fino da Bossa, com Elis Regina e Jair Rodrigues, e Esta Noite Se Improvisa, com Caetano Veloso e Chico Buarque. Antes da explosão das telenovelas, eles eram os verdadeiros campeões de audiência. A principal estrela da companhia era Elis Regina, conhecida como "pimentinha". Na metade dos 60, no entanto, sua audiência estava em baixa. Roberto Carlos, o líder na TV e representante da corrente que se opunha a Elis, tinha vários corpos de vantagem em relação a ela.

Para turbinar sua principal estrela, a direção da Record convocou o elenco da emissora para a abertura de um novo programa de TV ancorado por Elis, batizado de Frente Única - Noite da Música Popular Brasileira. Ficou combinado que todo mundo apareceria na estreia, cujos ingressos foram disputados a tapa pelos fãs que acorreram ao Teatro Record Centro, na noite de 26 de junho de 1967. O primeiro programa explodiu. Mas o fôlego da Frente Única mostrou-se curto. Depois de dois programas, a audiência já havia caído para índices irrisórios. Para mobilizar a opinião pública e reerguer a atração, Paulo Machado de Carvalho Filho, diretor da emissora, resolveu organizar a já referida passeata. Reuniu em seu escritório, entre outros, Elis Regina, Geraldo Vandré, Jair Rodrigues, Nara Leão e Gilberto Gil - que levou Caetano Veloso com a condição de que ele ficasse calado.

Assim, no dia 17 de julho, o elenco da emissora saiu às ruas seguido por algumas centenas de populares para um evento "de ares cívicos", como lembra Zuza Homem de Mello, técnico de som do festival e o principal historiador do período - ele é autor do fundamental A Era dos Festivais: Uma Parábola. Tendo à frente a banda da Força Pública e uma vistosa faixa onde se lia "Frente Única - Música Popular Brasileira", a turma integrada por Elis, Gil, Jair Rodrigues, Edu Lobo, Vandré, o sambista Zé Kéti e os integrantes do MPB-4 formava o pelotão de frente. Logo atrás, vinha uma multidão, que gritava: "Abaixo a guitarra elétrica!" A passeata só não repercutiu mais porque, na véspera, o general Castelo Branco, primeiro da fieira de ditadores da safra de 64, havia morrido. De todo modo, o protesto entrou para a história como um episódio patético.

A passeata, no entanto, tinha tudo a ver com o marketing que a emissora desenvolvia para os festivais. Em seu depoimento em Uma Noite em 67, Paulo Machado de Carvalho Filho diz que pensava na atração como uma espécie de arena ou novela, em que mocinhos - como Chico Buarque e Roberto Carlos - se digladiavam com vilões (talvez Sérgio Ricardo, que, vaiado enquanto tentava tocar sua música Beto Bom de Bola, irritou-se com o público e atirou o violão na plateia). De certo modo, a concepção do diretor da Record é a mesma dos reality shows dos dias de hoje, como o Big Brother. Talvez a comparação seja exagerada, mas foi justamente nessa época que a curiosidade do público pela vida íntima dos artistas começou a aumentar. Em meados da década de 1960, a Editora Abril lançou a revista Intervalo, dedicada às estrelas. Até o início dos anos 70 (que marca a inédita escalada da indústria de discos com artistas nacionais em vendagens altíssimas), a revista estampava na maioria de suas capas astros da música. Ou seja: eram os cantores e compositores as celebridades da época, e não os artistas de TV e de cinema, como hoje.

Voltando à passeata contra a guitarra: é no mínimo curioso que Gilberto Gil, que meses mais tarde iria escandalizar os puristas com as guitarras dos Mutantes em Domingo no Parque, estivesse ali. Isso ocorreu por duas razões: a convocação da TV Record e a amizade com vários dos artistas que participaram do evento, notadamente Elis Regina, com quem o cantor nutria um relacionamento especial e carinhoso. A proximidade com Elis, que precisava turbinar a audiência de seu programa, fez com que Gil ignorasse os conselhos de outro amigo, Caetano Veloso. O fato é que, num mundo dividido entre Jovem Guarda e música brasileira, Gil se encontrava igualmente cindido. Era uma época em que se esperava dos cantores algo mais do que fazer e interpretar músicas - como se verá no capítulo seguinte - e nem todos se sentiam preparados para isso.

2 - Cantores à beira de um ataque de nervos

Dois depoimentos chamam a atenção para esse aumento de responsabilidade dos artistas em Uma Noite em 67. Um deles é de Paulo Machado de Carvalho Filho, responsável pelos festivais. Ele narra um episódio ocorrido com Gilberto Gil momentos depois de ensaiar Domingo no Parque para apresentar a música na primeira eliminatória do festival. Gil deixou o teatro repentinamente (segundo Nana Caymmi, sua mulher na época, reclamando do pouco tempo para ensaiar) e voltou para seu quarto no Hotel Danúbio, onde se trancou com Nana. Paulo Machado de Carvalho Filho conta no filme que foi até o quarto e viu Gil deitado e apavorado na cama. Com a ajuda de Nana, segundo ele, levou o cantor para o chuveiro e o convenceu a participar da eliminatória. Solano Ribeiro, o homem que idealizou e dirigiu os festivais da emissora, corrobora o fato. Gil estaria, segundo eles, com algo parecido como um ataque de pânico.

No filme, o próprio Gil assume que estava apavorado. Provavelmente por razões que iam muito além de insatisfação com os ensaios. Ele simplesmente não sabia de que lado se posicionar. Gil havia inscrito a música Domingo no Parque no festival como uma canção meio regional. Foi aconselhado por Caetano Veloso, no entanto, a incluir no arranjo os até então desconhecidos Mutantes - os irmãos Arnaldo e Sérgio Baptista e Rita Lee -, antenadíssimos com o rock norte-americano e inglês. Com isso ele se viu dividido entre o mundo das canções de protesto, com o qual sua composição flertava, e o projeto colorido de Caetano - que entraria para a história com o nome de Tropicalismo. Pior ainda: levando ao palco várias das guitarras contra as quais, ao lado de Elis, havia protestado. Sem saber para que lado ia, Gil teve um estresse. Em Uma Noite em 67, ele diz: "Eu não queria brigar, não queria mexer com o que estava acontecendo. Sabe como é, eu sempre fui meio uuuoooooommm. Sempre quis compartilhar, somar, e não dividir".

O estresse de Gil é reflexo de uma época em que era exigido dos artistas, pela primeira vez, que se posicionassem. Isso começa com Bob Dylan, o genial poeta norte-americano que começou a cantar questões políticas inspirado por seu ídolo Woody Guthrie - o bardo country em cujo instrumento se lia o slogan "Essa guitarra mata fascistas". Essa nova postura do pop se cristalizou em 1966, o ano antológico em que, querendo alcançar o nível de Dylan, as duas maiores bandas da época lançaram obras-primas: os Beatles, com Revolver, e os Beach Boys, com Pet Sounds. Isso significa que a tendência do "músico pop pensante" chegou ao Brasil cedo, um ano depois, levando em consideração que o mundo era bem menos intercomunicado do que hoje. Parte disso ocorreu por causa da efervescência universitária. Em seu livro Verdade Tropical, Caetano Veloso resume o ambiente estudantil brasileiro como "altamente politizado". Lembrando o episódio do piripaque de Gil, ele escreveu que o cantor ficou sem falar sobre o assunto com ele nos meses seguintes, até que um dia se abriu e disse: "Eu sentia que nós estávamos mexendo em coisas perigosas".

3 - A moça da camiseta com a estampa em U

A jovem e bela Telé Cardim (cujo nome de batismo é Clélia) tinha 22 anos em 1967, estudava jornalismo na Faculdade Cásper Líbero de São Paulo, e assistira às três primeiras eliminatórias do Festival da TV Record (cada uma tinha 12 músicas e classificava quatro para a grande final, que apresentava as 12 melhores). Fazia um pouco de frio na manhã do dia 21 de outubro de 1967, um sábado. Telé acordou de uma noite maldormida no apartamento onde morava com a mãe no centro da cidade. Ela estava tensa, pois era persona non grata e precisava dar um jeito de entrar no Teatro Record e se misturar às 2 mil pessoas que o lugar comportava. Contou uma mentira ao se despedir da mãe no início da tarde - naquela época, nenhuma moça de boa família dizia que ia a festivais - e dirigiu-se para o Hotel Danúbio, onde encontrou Nara, Gil, Nana Caymmi, e outros artistas. Explicou a eles que o chefe de segurança contratado pela Record - o delegado Sérgio Paranhos Fleury, que nos anos seguintes lideraria o Esquadrão da Morte, um grupo de policiais assassinos - tinha vetado seu acesso por insubordinação. Seu delito: nas eliminatórias, em que havia comparecido com uma camiseta estampada com um U, ela havia espalhado bombinhas de são João no palco para fazer uma brincadeira com os artistas. Os cantores, no entanto, não estavam nem um pouco magoados. Nara emprestou uma peruca, o jornalista Carlos Gilberto Alves passou-lhe grandes óculos escuros e Gil encheu uma bexiga, que Nana colocou debaixo da blusa da moça. Disfarçada de grávida, a mais espevitada torcedora entrou no teatro lotado para ver a final ao lado de Nana.

Em sua determinação e proximidade com os artistas, Telé representa um novo tipo de fã surgido nos anos 60. Ele está interessado não apenas na música de seus ídolos mas também em suas opiniões. Não quer apenas vê-los no palco, mas privar da intimidade deles. Contribui para isso o fato de as apresentações, nos primórdios da era do pop, serem em clubes pequenos e não em grandes teatros. Um filme que flagra isso com perfeição é Blow Up - Depois daquele Beijo (1968), de Michelangelo Antonioni, na famosa cena em que os fãs praticamente dividem o palco com os integrantes da banda Yardbirds - público e plateia se esbarravam nos mesmos pubs da lendária "Swinging London". Da mesma forma, no Brasil de 1967, depois das apresentações dos festivais, parte do público - em sua maioria universitários - se encontrava para discutir os rumos da música brasileira em bares como o João Sebastião Bar, na rua Dr. Vila Nova, o Patachou, na rua Augusta, a Churrascaria Eduardo, na rua Nestor Pestana, e o Sand Churra, na Galeria Metrópole. Nesses pontos de encontro, os fãs chegavam a ouvir as canções antes mesmo de elas serem inscritas nos festivais.

O mundo mudou muito em relação a 1967. O ambiente musical que nasceu naquela época - que tinha as gravadoras e a TV como protagonistas - ruiu por completo. Hoje os selos da indústria do disco se concentram na divulgação dos grandes artistas. A televisão praticamente abandonou os musicais. O período em que eles eram a principal atração - que começou com os festivais e culminou com o programa do Chacrinha, grande patrono do rock brasileiro nos anos 80 - está enterrado.

Existem, no entanto, pelo menos duas semelhanças com aquela época. A primeira é que, na área da música popular, presenciamos o nascimento de um novo mundo, engendrado por uma nova tecnologia. Uma multidão de artistas jovens e talentosos busca seu espaço - é só conferir em vários sites da internet, entre eles o de BRAVO!, que abriga a seção Festival Permanente. Desse número, certamente serão depurados os Caetanos, Chicos e Mutantes da nova geração. A segunda semelhança é que os festivais, mesmo longe da televisão, se multiplicaram. Hoje são centenas do gênero espalhados pelo país, contemplando as mais variadas correntes. E também invadiram todos os terrenos da cultura. Existem festivais de teatro, cinema, literatura, artes plásticas... Pode-se dizer que o Brasil do século 21 se tornou o país dos festivais. Parafraseando o Príncipe de Salina, mudou tudo na cultura brasileira, mas uma coisa continua igual: a seara de talentos continua fértil - e produzindo.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

40 Anos sem Jimi Hendrix ...

A Morte de Jimi Hendrix - Há 40 anos, em meio a circunstâncias ainda obscuras, morria o maior guitarrista de todos os tempos

A exata causa da morte ainda é vaga e uma autópsia deverá ser realizada em Londres em 30 de setembro. Para a polícia, foi uma overdose de drogas, já que, segundo as autoridades, Jimi teria tomado nove tipos de soníferos, morrendo asfixiado em seu próprio vômito, em 18 de Setembro.

De acordo com o cantor Eric Burdon, Hendrix, que morreu no apartamento da namorada, Monika Dannemann, deixou um "bilhete de suicídio", um poema de várias páginas, que agora está em sua posse. Burdon foi o último músico com quem Hendrix tocou antes de morrer.

Burdon fala: "O poema tem coisas que Hendrix já vinha dizendo, mas que ninguém escutava. Foi um bilhete de 'adeus' e um de 'olá'. Não acho que Jimi tenha cometido suicídio do jeito convencional, só decidiu ir embora quando quis."

Burdon apareceu no canal BBC em 21 de setembro - três dias depois da morte de Hendrix - dizendo que Jimi "se matou". Naquele dia, não mencionou o poema que informou à Rolling Stone dois dias antes. A autópsia deveria ter sido feita em 23 de setembro, mas no dia seguinte à aparição de Burdon na TV foi adiada em uma semana (Burdon se recusa a mostrar o poema).

"Não acredito que tenha sido suicídio", afirma Michael Jeffery, empresário pessoal de Jimi. "Simplesmente não acredito que Jimi Hendrix tenha deixado seu legado para Eric Burdon continuar. Ele era uma pessoa muito peculiar."

Hendrix passou a noite de quinta-feira, 17 de setembro, no quarto de Monika Dannemann, uma pintora alemã, no Samarkand Hotel. Ela o encontrou em coma na manhã de sexta-feira e chamou uma ambulância, que chegou ao hotel na Landsdowne Crescent, no bairro de Notinghill Gate, e o levou para o Hospital St. Mary Abbot's, onde foi pronunciado morto na chegada, às 11h45, horário de Londres. A polícia afirma que estavam faltando soníferos em um frasco no quarto de Monika, alugado por ela em meados de agosto por seis semanas e que Hendrix havia tomado algumas pílulas antes de dormir na noite anterior. O restante foi levado como evidência.

Hendrix estava na Europa desde que tocou no Festival da Ilha de Wight, em 30 de agosto. Foi seu primeiro show britânico em dois anos, e a Jimi Hendrix Experience (com Billy Cox no baixo e Mitch Mitchell na bateria) começou quase imediatamente uma turnê no continente. A turnê deveria terminar em Roterdã em 14 de setembro, mas essa data foi cancelada quando Cox sofreu um colapso nervoso e teve de voltar para os Estados Unidos. Noel Redding, baixista original da Experience, estava para sair de Nova York e se juntar ao grupo em Londres quando soube da morte do guitarrista.

Jimi estava hospedado no Hotel Cumberland ao lado da Park Lane desde sua chegada, no mês passado. Deveria ter feito checkout depois da noite de quarta-feira, mas pediu para o gerente lhe reservar mais uma noite. No entanto, não voltou ao hotel na quinta-feira à noite. A última vez em que Hendrix apareceu em público foi na quarta-feira, quando se juntou a Burdon e ao War no palco do Ronnie Scott's Club, em Londres.

"Sabia que ele estava mal há um ano", afirma Burdon. "Ele veio ao clube e perguntou se poderia tocar com a gente na noite seguinte, dia 16. No começo tocou mal, como um amador, usando truques de palco para esconder as deficiências, mas depois fez um solo que foi bom, e a plateia gostou. Ele saiu do palco e voltou, fazendo base para ' Tobacco Road'." Essa foi sua última música.

Há algum tempo, Hendrix vinha tentando se tornar mais independente em relação a seus negócios. Via o estúdio Electric Lady como um passo em direção a esse objetivo. Burdon diz que, uma semana antes de morrer, Jimi lhe contou que arranjaria empresários novos. "Ele reclamou várias vezes dos empresários, reclamou mesmo", conta Buddy Miles, que tocou com Hendrix na Band of Gypsies. "Não vou mentir e dizer que não sei, porque fiquei bastante com ele e o entendia de um jeito que muitos não conseguiam." Ele acrescenta: "Jimi merecia as pouquíssimas coisas que conseguiu, até mais. Quando saí da Band of Gypsies, sei que ele estava extremamente infeliz".

"Ele nunca me disse que queria trocar de empresário", responde Jeffery a essas alegações. "O que aconteceu é que nós dois estávamos nos expandindo em outras áreas, e às vezes ele precisava de muita atenção. Houve uma época em que ele queria expandir o grupo, só que metade da minha energia estava no estúdio e em outras coisas, e eu não tinha tempo para dedicar toda a minha energia para ajudar a aumentar o grupo. Sentíamos que a função tripla de empresário/artista/agente provavelmente desmoronaria, porque os tempos mudaram no show business. Algumas pessoas fora do círculo confundiram isso com descontentamento, mas não era o caso. Jimi era suficientemente inteligente e brilhante. Se ele quisesse terminar, teria feito isso", afirmou Jeffery.

"Ele falava coisas diferentes para todo mundo. Era assim, sempre mudando de ideia", disse Burdon no fim de semana. "Hendrix estava em um poço tão profundo que o único jeito de sair era parar de tocar música e tentar arrumar a bagunça. Mas ele sabia que, sem a música, ficaria destruído de qualquer forma. Percebeu que a única coisa a fazer era continuar tocando e mesmo assim morreu, porque estava sendo tolhido criativamente", completou o cantor.

Você lê esta matéria na íntegra na edição 48, de setembro de 2010, da revista Rolling Stone.

Billy Corgan - outra entrevista

Jonathan Zwickel do The Seattle Times conduziu um entrevista com o líder do SMASHING PUMPKINS, Billy Corgan.

The Seattle Times: É difícil ouvir as músicas da sua infância sem a nostalgia ou o sentimentalismo atrapalharem a apreciação da mesma.

Billy Corgan: É. Uma coisa que eu aprendi com o passar dos anos é tocar no momento em que você se encontra. Você não pode voltar. Tem que tocar essas (velhas) músicas, quando você as tocar, com uma visão de 2010. Você não pode recriar o mosh pit de 1992. Simplesmente não vai acontecer.

Tem muito material que eu tentei tocar em ensaios e eu só digo para a banda, "Não, não soa certo." A banda soa muito contemporânea, esse é o melhor jeito de descreve-la. Nós estamos na corda bamba tentando soar contemporâneos sem ficar sentimental. Eu acho que sentimentalidade com música é a morte.

No fim do dia, não importa quais sejam minhas origens, eu estou basicamente tocando uma forma bastarda de música pop. E música pop e sentimentalismo são uma má mistura. Então, do jeito que eu vejo as coisas - por exemplo, nós estamos fazendo uma versão da minha música "Star." E o modo como eu abordo isso e como eu tento cantar a letra é diferente daquele menino de 25 anos que cantou sobre abuso infantil. Estou aqui como um homem de 43 anos que tem uma nova visão sobre o mundo. Então a letra soa diferente. E eu não trato isso como um momento especial na minha vida, eu trato isso como uma coisa muito relevane que tem um significado diferente para um cara de 43 anos, em contraste com o cara de 25 anos que eu era quando a escrevi. Eu aprendi muito com o Bob Dylan sobre essa abordagem.

TST: Parece que a audiência está acompanhando a mudança?

BC: Escuta amigo, quem sabe o que a audiência acompanha, você me entende? (risos) Eu aprendi há muito tempo a fazer o que eu gosto e deixar que as fichas caíssem onde deveriam. Estou frequentemente espantado pelo jeito que as pessoas interpretam o que eu faço, para melhor ou para pior. Nesse ponto, eles vêem fantasmas onde não existem fantasmas e ouvem vozes onde não existem vozes. Estou em um lugar feliz. Estou muito entusiasmado por tocar minha música. Na minha carreira, esse é um bom momento. Eu sinto uma sensação de realização só de estar em um lugar saudável, com uma banda saudável. Fãns se empolgam com os shows. Eu só não entro mais nessa porque é uma montanha russa.

Eu tive que chegar num ponto onde como um homem eu tenho que estar bem com meu sistema e não ser pego no de mais ninguém. Porque, acredite, eu ouvi isso por 25 anos, a (palavrão) do mundo indie dizendo como você deve ser, como deve se vestir, como deve pensar, como deve agir, seus shows, sem solos de guitarra, toda essa merda. Você se cansa de ouvir isso.

TST: O sentimento contemporâneo da banda que você mencionou - parece uma boa justificativa para continuar sobre o nome SMASHING PUMPKINS, tocando essas músicas, mesmo com as críticas.

BC: Vamos examinar essas coisas um pouco. Número um, o nome da banda. Bom, todo lugar que eu vou as pessoas dizem, "É aquele cara do SMASHING PUMPKINS" (risos) Então eu sou o SMASHING PUMPKINS quer eu queira ou não. Como um indivíduo, eu gosto de ser o SMASHING PUMPKINS. Então é minha escolha, é algo que eu escolhi fazer. E acredite em mim, ser o SMASHING PUMPKINS vem com muita bagagem. Não é um patrimônio limpo.

Então eu posso estar aqui e dizer com toda integridade que eu sou SMASHING PUMPKINS porque eu quero ser. E o fato de estar lançando nova música, estou sendo um artista progressivo, estou tocando novas músicas nos shows, estou lançando música de um jeito que muitas pessoas não teriam coragem de fazer - eu acho que isso é evidente. Para mim essas questões falam mais sobre a opnião sentimental das pessoas do que o que elas querem que eu seja, preso aos CDS dos anos 90 ou algo assim. Por que o SMASHING PUMPKINS não pode continuar?

Quando Michael Jordan saiu da aposentadoria, as pessoas pensaram, "Ele está arruinando um legado!" Bem, ele queria jogar basquete" Eu só não entendo isso. Por que eu não posso fazer o que eu quero? Você é criticado como um artista se você se rende às opiniões alheias e aqui eu estou, não me rendendo e ainda sendo criticado por isso. Eu não entendo a lógica que eles seguem, mas ele não entendem a lógica sobre a qual eu vivo.

Estou feliz! Essa é uma coisa que as pessoas deviam compreender. Não estou miserável, implorando por um cheque. Estou feliz! Estou tão feliz quanto eu estava em 1996 com o SMASHING PUMPKINS. Isso não é importante? Por que as pessoas não falam sobre isso? Para mim essa é a cultura de morte que quer tudo em uma caixa organizado. E não vivemos mais em um mundo organizado. Por que o U2 não se aposenta? Eles não fizeram dinheiro suficiente? Por que os Rolling Stones ainda saem em turnê? Só há Mick Jagger, Keith Richards e Charlie Watts. Por que eles não se aposentam? Eu não entendo. Se as pessoas querem tocar e querem ir, que (expletivo) de diferença faz?

Para melhor ou pior, eu fui uma força cultural, pelo menos no meu canto do mundo, por 20 anos. E eu ainda tenho um pouco desse poder, um pouco foi adquirido, outro pouco me foi dado e o resto só me segue no mito. Mas eu ainda estou aqui fazendo coisas boas. Quero dizer, estou andando por ai como um cara de 43 anos, não bebo ou uso drogas há 10 anos. Falo abertamente sobre Deus. Estou aqui feliz, sorrindo, as pessoas me verão feliz. Qual é o problema? Não há problema. Existe um problema sendo criado de uma necessidade intelectual de se explicar algo inexplicável.

TST: A implicação é que você nunca será tão bom quanto antigamente.

BC: Ouça, não há maior insulto pra mim como artista do que basicamente dizer implícito que você nunca será tão bom quanto você foi. Minha resposta para tudo isso é (palavrão)! Volte e viva na terra dos vídeos, leia (a revista) Rolling Stone de 94 e leia sobre integridade indie, veja Kurt de pé no morro com uma camiseta "Corporate Magazines Suck". Você pode viver isso para sempre. Pra mim já deu. Estou me mudando para a próxima cidade. Você sabe? Eu tenho um cavalo diferente e eu estou cavalgando para um novo horizonte. E as pessoas que estão em volta parecem estar se divertindo.

TST: Vamos falar sobre as coisas novas. Você ouviu sobre o movimento da 'slow food'?

BC: Não.

TST: É o contrário do fast food - da fazenda para a mesa, agricultura sustentável, uma abordagem meticulosa e pensada para a comida. O que você está fazendo online - demorando quatro anos para lançar um álbum, música por música - soa quase que um movimento da 'música lenta'.

BC: Eu gostei da sua observação. Há um ingrediente chave que irá fazer desse um trabalho de longo termo: A música tem que ser fantástica. Se a qualidade baixar na terceira ou quinta ou sétima música, já era, as pessoas não voltarão. Isso põe a pressão no máximo sobre minha cabeça para que eu eleve o nível.

Adoro estar de volta no momento da pressão. Veja, quando eu era mais novo pressão era, "Você pode me dar um hino do rock? Você pode me dar uma música que irá tocar na MTV?" Todas essa pressões se foram agora, então onde eu vou achar tal nível de estresse? Eu tive que criá-lo sozinho.

Coloquemos desse modo: Eu não vou ganhar uma crítica boa do Pitchfork. Eu não vou receber esse tipo de... apoio. Eu preciso descobrir um meio de sustentar meu próprio nível de integridade baseado no meu próprio sistema de autenticidade, e não no de outra pessoa. Porque todos esses sistemas estão quebrados, quer alguém perceba isso ou não. Porque a falta de alto nível na música que vem dos show alternativos está se tornando muito precoce. E a qualquer hora que qualquer artista se torna muito precoce ele se torna precioso sobre si mesmo e então basicamente agoniza e morre. Até que alguém venha atrás e descubra um jeito de fazer isso de um modo mais fácil e divertido. Porque eles estão se tornando muito intelectuais daquele lado da cerca. E quando a música vai pra lá, isso é o pior. Isso é realmente pior que hair metal quando você atinge isto.

Traduzido por Amanda Ribeiro

The Seattle Times

Whiplash

sábado, 11 de setembro de 2010

DEBATE EM ARACAJU

Não, não é um encontro entre candidatos para discutir o sexo dos anjos. É um show de rock que acontecerá no próximo dia 19, um domingo, no Capitão Cook. Na ocasião, a The Baggios estará lançando seu novo clipe, e os presentes poderão presenciar uma rara apresentação ao vivo da sensacional banda de música roque instrumental sergipana "perdeu a lingua".

Compareçam, animais.

Um pouco mais sobre o "Debate" abaixo:

Ele diz que chorou na apresentação da banda inglesa Gang of Four e descreve o show do grupo de Chicago Tortoise como “um procedimento cirúrgico”. Se essas pistas não forem suficientes para decifrar o tipo de som que o músico Sérgio Ugeda faz com sua banda, o Debate, melhor escutar o disco (sem título) do trio paulistano para tirar as próprias conclusões. Com vocais gritados e improvisações instrumentais, a banda explora o rock em suas diferentes possibilidades, fazendo as conexões mais improváveis: do pós-punk norte-americano ao jazz holandês.

“Acho que a nossa abordagem é diferente”, diz Sérgio. “O Richard (que também é integrante do São Paulo Underground, ao lado de Rob Mazurek e Mauricio Takara) está mais ligado à improvisação, já o Marcelo curte bandas norte-americanas como o Superchunk e o Channels, e o resultado é o Debate. A questão não é o que a banda faz, e sim o que cada música é”, despista.

Quanto aos vocais, em português e às vezes ininteligíveis, diz Sérgio: “Eu não sei cantar, e o recurso do grito é uma maneira de contornar isso. É mais fácil ver o vocal como mais um elemento na música. De qualquer forma, um dos nossos objetivos é capturar a atenção das pessoas pela identidade. Os bons discos são assim: cada vez que você escuta percebe algo de novo, soa fresco.”

Lígia Nogueira, do G1, em São Paulo

http://www.myspace.com/debatebate

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

# 160 - 10/09/2010


Jerry Lee Lewis – Mean old man
Manic Street preachers – postcards from a Young man
Blackmore´s night – Believe in me

Aerocirco (Ao vivo no Sala Especial Loaded)
• Última Estação
• Liquidificado
(Drop Loaded)

Dead Kennedys – Holliday in Cambodia (single version)
Jello Biafra & The Guantánamo School of medicine – New Feudalism
Jello Biafra & Mojo Nixon Whit the Toadliquors – Atomic Power
Melvins & Jello Biafra – Enchanted toughtfist (Enchanted al remix)
LARD – The Power of ...

Laibach - The Final Countdown
Big Black - The Model

Road To joy – Little old town
Apanhador Só – Maria Augusta
A Banda de Joseph Tourton - # 2

Bright Eyes – Four winds
Connor Oberst and The Mistic Valley Band – Moab
Neva Dinova – Funeral Home
Yodelice – Free
(por Gus Machado)

Casa das Máquinas - vou morar no ar

The Smashing Pumpkins – Bullet with Butterfly wings
Dinosaur jr. – What else is new
Radiohead – Karma Police

Discharge – Hear Nothing See Nothing Say Nothing
Bad Brains – Big Takeover
Vice Squad – Young Blood
Infa Riot – Catch 22

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Abaixo uma entrevista com jello Biafra dos Dead Kennedys originalmente publicada em 2006 na revista Trip, aqui numa versão mais completa.

Do Blog Fudeus

Vai estudar, punk!

Caros leitores, começando neste blog as comemorações que precedem a chegada do Imperador George II em terras brasileiras, abaixo vai uma entrevista exclusiva feita com o lendário Jello Biafra no meio do ano passado. Foi publicada em versão reduzida na Trip em uma edição especial dedicada à riqueza e dinheiro. Aqui em Fudeus, vem mais gordinha e saborosa, com figurinhas diferentes e links úteis para o leitor de tempo livre.
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Um telefonema brasileiro para os EUA gera dinheiro e tributos para este país. Até na ligação atendida pela secretária eletrônica de Jello Biafra, o governo americano ganha dinheiro. Dinheiro que, de acordo com a tal gravação de voz grave, ajuda a alimentar uma perversa máquina de guerra que está fadada a arruinar o império estadunidense. A voz gravada de Jello explica dois ou três fatos recentes que faz do gabinete de Bush um reduto nazista.

Beeeeeeeep.

- Alô, Jello? …. Jello?

- Alô! Sim, sim. Posso falar agora. Seu gravador está funcionando?

- Está sim.

- É melhor você checar. Confira e me ligue em seguida.

Jello Biafra hoje um homem de 48 anos que acha o dinheiro uma das drogas mais perigosas. Que não fala nada sem prensar, cita datas e sobrenomes de governantes com requintada precisão. Que articula cada silaba em andamento leve e ritmado para que seus interlocutores o entendam bem. O homem que é um dos mais cáusticos e influentes críticos da política de seu país natal, insuflando idéias socialistas e revolucionárias para centenas de milhares de jovens há mais de 20 anos. Que já se candidatou a prefeito de San Francisco há quase 27 anos. Um homem que passa seu dia lendo e escrevendo tanto que não tem tempo nem para usar computador. Nem tem computador ou e-mail. Que, pela descrição acima, não passaria de um arcaico professor de esquerda.

Acontece que é o mesmo homem que pode ser considerado o maior punk vivo.

Ele vive perto de San Francisco em uma casa própria sem muito luxo. Tem gravadores, tintas, cola, muito papel para um de seus passatempos favoritos: colagens. Tem também uma enorme biblioteca de livros de história e política. Política, aliás, sempre foi o assunto favorito de Jello. Até porque, para ele, política e música não são coisas lá muito diferentes. Desde que chegou à fama com os Dead Kennedys, suas letras, fúria e uma incendiária ironia estão à serviço da resistência. Resistência ao disfarçado totalitarismo que, segundo ele, fez dos EUA o triunfo do facismo.

Mais um telefonema que cai na secretária. A voz irônica, como se falasse com crianças, repete os fatos. Halliburton, a empresa que mais gerou executivos no gabinete Bush (incluindo o vice Dick Cheney, ex-presidente da corp.) , a que mais lucra com a “reconstrução do Iraque”, que ganha dinheiro com óleo, construção civil e militar, instalação de usinas nucleares e insumos para armas de alto poder, agora está tomando perigosas ações para um escrutínio genético em presos. Jello quer certificar-se de que meu gravador também entendeu o recado.

Beeeeeeep.

- Alô,.Bruno? Podemos?

Jello adora falar ao telefone. E adora falar. Mesmo quando enumera vitórias de seus desafetos ele parece sentir certa alegria vaidosa, comum nos homens coerentes. Como ao se referir aos próprios “colegas” dos Dead Kennedys, hoje inimigos declarados.

Ele ri ao contar como foi traído e usurpado de suas próprias composições depois que a banda promoveu uma caríssima batalha legal para reter o controle sobre a obra dos DK. Hoje ele não manda nos direitos, é obrigado a ver a banda em turnê em festivais pagos por corporações com seu rosto nos cartazes. E recomenda fortemente: não vá aos shows dos Dead Kennedys nem compre os discos.

Vez ou outra recebe alguma grana desses dividendos, que já tem destino certo: cobrir o inevitável saldo negativo de seu selo musical, Alternative Tentacle Records, que lança as bandas do underground americano que Jello e sua equipe apostam. Punks? Nem sempre. Música criativa, diz ele, que entre um livro e outro pode gastar tempo escutando country music, trilhas de filme, bluegrass, Mutantes ou uma nova descoberta – Dodô e Osmar.

O selo, como dito, nunca deu lucro. OK. Para um sujeito que pode ser tudo menos capitalista, seus debêntures vermelhos não passam de uma prazerosa despesa capaz de resgatar a felicidade de velhos músicos trajados de astronautas (é sério, vai lendo).

A ligação de uma hora chega ao fim. R$35,00 o custo, direto para a conta de uma grande corporação. Quanto disso vai para o governo americano não se sabe ao certo. O certo é que olhar para o chão e ver meus tênis americanos me fez suspirar. E certeza é de que Jello vai seguir firme, mesmo que a guerra já esteja perdida, lançando discos, discursando e esvaziando seus bolsos para convencer a molecada que o segue como um pastor humanista de que a última coisa que o dinheiro traz é felicidade.

Silêncio. Tomem tempo e tomem notas. A aula vai começar.

Você acredita em Deus, Jello?
Isso é da minha conta.

É uma pergunta pessoal demais?
Como eu disse… isso é da minha conta. Principalmente porque muita gente nos EUA com quem eu debati, até na TV, que queriam censurar músicas porque as consideravam satânicas, se recusam a escutar opiniões de pessoas que não acreditam no mesmo Deus que dos censores. Minha opinião agora é a de que crenças espirituais é algo pessoal demais.

Partindo desse ponto, você acha que o governo americano é realmente cristão ou é apenas uma desculpa para esconder outros interesses?
É uma combinação dos dois. Mussolini usava a igreja quando era conveniente, assim fez Geisel no Brasil nos anos 60… Mas depende da pessoa e do governo. Quer ver? O ex-secretário de justiça dos EUA, John Ashcroft, é um pentecostal fanático que acredita que assistir filmes e dançar em bailes é um pecado terrível. Ele teve o cargo mais alto da justiça americana, e nomeava juízes todo besuntado em óleo, pois era um ritual pentecostal de sua Assembléia de Deus. Ele tentou transformar o Greenpeace em uma organização criminosa nos EUA. O próprio presidente, Rei George II, era um alcóolatra e viciado em drogas. Quando ele largou isso se tornou um fundamentalista cristão, substituindo um opiácio pelo outro. Mas o que realmente assusta são os fanáticos no poder que acreditam no Juízo Final iminente. Por isso acham que as fronteiras de Israel devem ser expandidas para esperar a segunda vinda do Messias. Do meso jeito o presidente do Irã acredita que estamos perto do fim, e que o Messias dele está voltando também.

Eles estão contando com o Armagedom?
Quer um exemplo? Isso é assustador demais. Bob Woodward, o cara que desmascarou o escândalo de watergate, perguntou para Bush se ele imaginava como a história julgaria seu governo. Ele respondeu: “Que história? Nós todos estaremos mortos.” É um sujeito tão estúpido que nem percebe que não é o presidente, que Dick Cheney manda no mundo. E esse adora plantar na cabecinha burra de Bush que para Jesus voltar precisamos do Armagedom mesmo. De uma guerra final. Muita gente diz que parece uma coisa de Nero, do fim do império romano, mas eu me lembro realmente de Francisco Solano Lopez. Ele herdou o Paraguai do pai e fez tantas guerras megalomaníacas que arruinou seu país. Bush é assim.

Falando assim você parece dizer que estamos começando uma terceira guerra mundial.
Talvez sim, mas isso se diz há muito tempo.

Há pouco correu uma informação de que Hugo Chavez disse ao presidente do Irã que guardaria na América do Sul eventuais ogivas nucleares produzidas por lá.
Bem, eu acho que o mundo seria mais seguro se Hugo Chavez tivesse armas nucleares em vez do presidente do Irã. Porque acho que Chavez não as usaria. Mas se ele realmente disse isso, porque eu não creio em nada do que a imprensa fala em geral, acho que foi apenas para parecer legal e irritar o Bush. Se ele realmente fizer isso, eu acho que os EUA invadem a Venezuela e acabam com ele rapidinho. E eu odiaria ver isso.

Você então simpatiza com a esquerda da América do Sul?
Sim. Sei que Lula e Chavez são muito contra a ALCA. Isso é ótimo, porque se o primeiro mundo que tem todo o dinheiro e armas já foi dominado pelas coorporações, o terceiro mundo ainda carrega esperança para parar essas empresas de dominar o mundo todo e controlá-lo como uma ditadura feudal.

Os EUA estão à beira da ruína?
Acho que a grande questão agora vai ser se a queda do império americano será extrema e cruel como a queda de Roma ou a da União Soviética ou se será lenta como a do Império Inglês quando as pessoas sentiram alívio pelo fim da opressão sem uma grande tragédia econômica. Eu acho que é cedo demais para dizer. Acho que pode ser durante nossa vida ou pode ser lento e assustador como o próprio processo que fez as corporações tomarem o mundo.

Você vota?
Sempre voto no partido verde e em candidatos radicais para presidente e outros cargos. Mesmo que eles não ganhem, eu prefiro votar em algo que eu quero e não ganhar do que votar em algo que não quero e ganhar.

Então você acredita em democracia?
Eu acredito em democracia, mas não acho que vivemos em uma. Os EUA é uma democracia administrada por empresas, onde até a imprensa é domada. Muito parecido com a Rede Globo no Brasil. Significa que as pessoas têm uma ilusão de escolha entre partidos, mas não interessa em quem eles votem, o povo perde e as corporações ganham. E a imprensa nunca cobre as eleições locais, mesmo em noticiários pequenos. E pra mim as eleições locais acabam sendo as mais importantes porque é onde o dinheiro é gasto no fim das contas. Eu sempre digo para meu público que se a gente se organiza e vota maciçamente em candidatos bons, temos uma chance de ter boas leis novas.

Você pensa em se candidatar de novo?
Eu fui candidato há muito tempo, para a prefeitura de San Francisco em 1979. E nem naquela época eu planejei ser candidato, só veio a idéia na minha cabeça quando o baterista dos Dead Kennedys disse que eu falava tanto que deveria ser candidato à prefeitura e eu disse, “ok, sou candidato”. Depois o falatório foi tanto que eu não pude recuar. Escrevi minhas plataformas em um guardanapo em um backstage. Algumas eram bem boas: como a polícia deveria ser eleita nos distritos que ela patrulha. Assim elas seriam menos racistas e defenderiam sem muita injustiça suas jurisdições.

Você já pensou em deixar os EUA?
Minha resposta é não. Esse é um país tão estranho e bizarro que eu não gostaria de morar em outro lugar. Onde mais um fundamentalista cristão queima um coelho da páscoa gigante em uma praça alegando ser um ídolo profano e é preso porque e fumaça poluiu o ar? Isso aconteceu mesmo. Eu não me daria bem no Brasil sem falar português e não sei se há por aí boa comida mexicana. Mas me lembro bem de como a comida italiana era boa em São Paulo. Aliás, me impressionou muito como os brasileiros comem tanto!

Sério?
Eu fui em uma cantina e trouxeram pães, depois uma salada enorme, depois uma tigela gigantesca de massa e depois um prato principal. E todo mundo come tudo isso e não engorda. Apesar do João Gordo não ser exatamente assim…

Mas você sabe que o Gordo mudou bastante? Emagreceu, faz exercícios.
Isso é bom. Queria encontrar com ele novamente. Ficamos bem amigos em 1992 quando fui ao Brasil.

Recentemente o próprio Gordo foi patrocinado pela Nike para correr uma maratona. E as marcas parecem gostar cada vez mais de associar sua imagem ao punk e a comportamentos subversivos como forma de parecerem “cool”. Como você lida com isso?
Isso eu não sabia sobre o João. Eu acho que cada artista deve decidir como lidar com esse assalto das corporações, mas um dia eu recebi um disco de uma banda brasileira chamada Gangrena Gasosa e fiquei chocado com a quantidade de logotipos de empresas no encarte. Entendo que o Brasil é pobre e que as pessoas precisam arrumar dinheiro, mas, no meu caso sou radicalmente contra isso. [Nota de Fudeus: Na verdade Jello se enganou. Os logotipos no encarte do Gangrena na verdade são paródias aos logos reais das empresas, uma crítica ao patrocínio.] Minhas músicas e minha pessoa não são feitas para serem feitas de comercial. Por isso eu sou cruelmente punido pelos meus ex-colegas do Dead Kennedys.

Como assim?
Eles recorreram a grandes advogados e me processaram durante seis anos porque eu não deixei “Holiday in Camboja” servir de trilha para um comercial da Levi´s. Eu disse pra eles no tribunal: “se quiserem ser prostitutas das corporações tanto assim, escrevam vocês as músicas.” Mas eles deram um jeito de dizer que as músicas eram deles também e o júri engoliu. Os direitos agora pertencem aos Dead Kennedys e são controlados por uma firma que não respeita a posição original da banda. Eu não posso decidir onde minhas músicas e minha voz serão usadas. A banda virou republicana. Os caras tocaram em um festival patrocinado por uma cerveja que patrocina políticos de extrema direita. Agora eles ainda fazem turnês com um vocalista que parece o Vanilla Ice e colocam minha foto nos anúncios.

E você ganha dinheiro disso?
Ganho algum dinheiro. Mas não sei se é todo o dinheiro que eu deveria receber, já que não posso ver a contabilidade.

Você fica com a grana?
Se eu não ficar com esse dinheiro eles ficam com tudo. Não acho errado eu ganhar esse dinheiro, ainda assim me sinto roubado. Porque a coisa não está sendo administrada como os Dead Kennedys, mas sim como o Blink 182.

E como você gasta seu dinheiro “excedente”?
Eu gastei muito do que ganhei com meu selo, ajudando outros artistas. Algo que adoro fazer: dar ao público esse monte música legal que está sendo feita. Meu selo, Tentacle Records, nunca, nunca deu lucro. Todo mês eu coloco dinheiro no selo, pago aluguel, ajudo bandas… É o que mais gosto e tem muitas recompensas.

Tipo o que?
Por exemplo. Eu achei uma fita de uma banda dos anos 70 chamada Zolar X. Uma banda totalmente genial, bizarra, de uns caras que usavam roupas de astronautas mas nunca lançaram esse disco. Meu selo desenterrou esse álbum e eles voltaram à ativa, muita gente vai a seus shows, e estão gravando um disco novo. Mas o que me deixa feliz mesmo foi ver o guitarrista deles, que era um homem triste e quebrado morando no deserto, hoje feliz, compondo novas canções e usando novamente sua roupa de astronauta. Fazer isso por uma pessoa que tinha desistido da própria vida é demais. Isso me inspira muito.

Você é um homem rico?
Não (silêncio). Eu não nasci rico, meu pai era assistente social e minha mãe bibliotecária. Mas eram muito bons em lidar com dinheiro. A gente não gastava com coisas de luxo e brinquedos, mas guardaram dinheiro para viagens e faculdade. Hoje eu tenho mais dinheiro do que muita gente do underground e tento não guardar mais dinheiro do que o necessário.

Tem gente que se ressente disso?
Hoje eu sou cobrado pelo que tenho pela comunidade punk underground. Parte é ressentimento pela minha banda ter tido sucesso. Mas eu nunca tive mansão ou andei de limousine. Nunca foi esse o jeito que eu quis levar a vida. O curioso é que normalmente quem condena a grana e me acusa de vendido, são brancos de classe média. Enquanto isso as pessoas que fazem música vinda das partes realmente pobres da sociedade, como muito do hip hop, estão muito mais preocupados em ganhar muito dinheiro e exibir carros de luxo e correntes de ouro, coisas assim. Isso me confunde e me desaponta.

A cena punk é decadente?
Depende. Por um lado sim. Tem tanto punk diferente, estilos, modos de vida. E acho que muita gente prejudica a criatividade e a solidariedade do underground por rotular tantos gêneros e discriminá-los. Acho que as pessoas teriam mais a ganhar se escutassem e criassem músicas sem pensar a que categoria elas pertencem. Talvez por isso mesmo o punk brasileiro seja tão interessante. A primeira vez que escutei Ratos de Porão e Olho Seco eu fiquei chocado com aquele som de guitarra que parecia uma serra elétrica. A técnica de gravação era horrível, mas eles não tinham outro jeito de fazer. Hoje muita banda tente fazer aquele som e não consegue. Isso me cansa tanto, escutar tanto moleque tentando imitar o que já fizemos a tanto tempo e ignoram novos sons.

E o que você tem escutado de bom hoje em dia?
Fiquei muito feliz de ganhar o disco novo do Pupilas Dilatadas, de Porto Alegre. O baixista deles me apresentou também músicas de trio elétrico, Dodô e Osmar, coisas assim. Eu nunca escutei nada assim. É tão estranho e maluco. A única coisa que eu posso comparar é o bluegrass americano, mas só porque são pessoas tocando com instrumentos pequenos e muito, muito rápido. Cheguei até a combinar com o Max do Sepultura de montar um trio elétrico de metal. Seria demais, mas nunca tive tempo. Outro dia estava em Nova York e me deparei com uma placa anunciando show dos Mutantes. Eu tive que ir. E fiquei chocado com eles. Poderia ser aquelas turnês deprimentes de bandas velhas, mas eles estavam tão felizes e à vontade. Parecia música clássica de tão preciso e ao mesmo tempo tão natural e improvisado.

Você dedicou todo seu trabalho a instigar pessoas a reagir a um mundo injusto. Acha que as pessoas tem ânimo para mudar o mundo?
As pessoas pobres e os países menos favorecidos têm mais ânimo. Aí no Brasil mesmo vocês tem movimentos grandes como o MST, o Fórum de Porto Alegre que os EUA ignoram simplesmente. Por outro lado, aí mesmo no Brasil, eu vi uma pessoa jogando fora um monte de sacos plásticos quando chegou em casa e disse que fazia isso porque a economia estava indo bem e que agora o brasileiro já tinha o direito de desperdiçar. Eu procuro não pensar na humanidade como um todo e me inspirar e torcer pelos milhares que protestam no mundo inteiro para achar um jeito diferente de organizar o mundo.

Você se considera pessimista?
Todos esses rótulos eu tento evitar e pensar de assunto em assunto. Se eu sou anarquista? Não exatamente. Se eu sou socialista? Talvez sim, mas não em todas as áreas. Eu tento basear minhas opiniões, minhas crenças e meu voto no que faz sentido.

Você é um homem feliz?
Ás vezes.

Mas se tivesse que responder sim ou não…
Não sei. Todo mundo na minha família é inclinado à depressão e eu não sou diferente. Mas eu tenho orgulho das minhas conquistas. Às vezes eu encontro gente com quem estudei, velhos amigos, antigos companheiros de música e vejo o que eles fizeram com as vidas deles e olho para quantas fabulosas e bizarras aventuras eu tive minha própria vida e percebo que as coisas deram certo pra mim no fim das contas. Mas ainda sinto que falta muito para fazer ainda. Ainda gosto muito de surpresas.

Para saber mais de Jello, aliás, Eric Reed Boucher, entre em sua empresa: www.alternativetentacles.com