segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Smashing Pumpkins no Planeta Terra


O renovado Smashing Pumpkins salva uma noite fadada a decepções no Planeta Terra; Billy Corgan toca com os dentes, esmerilha a guitarra nas caixas e assume de vez sua face mais pesada e voltada para o rock de verdade.

por Marcos Bragatto
REG

Já era alta madrugada de domingo quando Billy Corgan voltou ao palco com sua nova banda, ainda chamada de Smashing Pumpkins, para arrematar uma apresentação absolutamente visceral. O público esperava por “Disarm”, um dos tantos hits que parece não caber mais no repertório da banda, mas a opção foi por “Heavy Metal Machine”, mais pesada que nunca, tocada num volume absurdo. Corgan sabia o que fazia, na tradução do “soco na cara” que prometera numa entrevista publicada durante a semana. Não teve pra ninguém: o renovado Smashing Pumpkins fez – e de longe - o melhor show da edição desse ano do Planeta Terra, que aconteceu ontem, no Playcenter, em São Paulo.

Não parecia que seria assim, de início, com a recepção fria causada por “The Fellowship” – há milhões de músicas melhores para uma abertura -, mas logo a coisa engrenou. “Today”, o primeiro sucesso a ser tocado, foi a senha para que o rock de verdade, ausente até então no afamado parque de diversões, tomasse conta do lugar. Já em “Astral Planes”, uma das novas que a banda vem jogando na web, o guitarrista Jeff Schroeder desanda a aplicar solos e ofusca – vejam vocês – o próprio Corgan. A música, aparentemente inofensiva e cadenciada, cativa por belos e discretos riffs, numa prova de que não é preciso a canção ser consagrada para arrebatar o ouvinte, basta ser boa e ter os ingredientes certos.

Billy Corgan não deixaria barato. Já na seguinte, “Ava Adore”, protagonizou um duelo daqueles com Schroeder, como se iniciasse ali uma virada de jogo para mostrar – com vantagem – quem é o dono da boca. Dali em diante, ele tocou com os dentes, esmerilhou a guitarra nas caixas próximas à plateia (só não a destruiu porque teve humildade em gol), distorceu cada acorde e finalizou um improvável solo de bateria (numa noite indie) com citações a “Moby Dick”, do Led Zeppelin, antes de o gongo (!) à Emerson, Lake And Palmer ser percutido cinco vezes. Tá bom pra vocês? O prodígio batera Mike Byrne, 20 aninhos, oriundo da desconhecida banda Moses, Smell The Roses, mostrou ter sido a escolha certa que contribui para o processo de renovação do Smashing Pumpkins.

Ainda que mantenha um temperamento irritadiço, Billy Corgan, 43, amadureceu muito. Nos últimos tempos, tem assumido abertamente suas influências de bandas como Black Sabbath e Rush, entre outras, coisa inimaginável no nicho do alternativo, onde a banda surgiu. E mostra isso, ao vivo, como um rocker de verdade, como se fosse ele um de seus próprios ícones. De comunicação em geral meramente protocolar com a plateia, Corgan até que se soltou, ao apresentar a banda e se autodenominar “Billy Ronaldinho”, numa referência ao centroavante de careca idêntica à dele. Teve bom humor para chamar “Spangled” de música triste, cutucando de forma sutil a apatia do Pavement no show anterior.

A primeira parte do set teve ainda a inesquecível “Bullet With Butterfly Wings” e outras “das antigas” incluídas foram “Tonight, Tonight”, que encerrou a primeira parte do show, e “Cherub Rock”. Poderia ter mais (“Disarm”, claro), mas como reclamar de uma hora e quarenta minutos de um show que salvou uma noite, até então, fadada a decepções? Nem mesmo o cansaço generalizado na alta madrugada retira da apresentação a pecha de redentora.

Set list completo (a conferir):

1- The Fellowship
2- Lonely is the name
3- Today
4- Astral Planes
5- Ava Adore
6- Song For a Son
7- Bullet With Butterfly Wings
8- Tarantula
9- United States
10- Splangled
11- Drown
12- Shame
13- Cherub Rock
14- Zero
15- Stand Inside Your Love
16– Tonight, Tonight
Bis
17- Heavy Metal Machine

Tom Morello para o "Brasil de Fato"

Após passagem pela América do Sul, o guitarrista do RATM, Tom Morello, fala sobre política e música ao jornal Brasil de Fato.

Nascida em 1991 na Califórnia, EUA, a banda Rage Against The Machine (RATM) se consolidou no cenário mundial da música com uma rara mescla de rap, variantes do rock and roll pesado e crítica política furiosa e constante.

Na trajetória da banda, pedradas ao capitalismo, ao belicismo estadunidense, ao racismo, ao etnocídio dos nativos da América, à violência machista. Homenagens aos zapatistas, à Liga Anti-Fascista da Europa, à organização Women Alive, aos presos políticos Leonard Peltier e Múmia Abu-Jamal.

Para todos estes, a banda realizou shows, revertendo todo o dinheiro para a defesa das causas. O RATM também tocou em protestos contra o Nafta (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio) e a Alca (Área de Livre Comércio das Américas), fez dois shows contra à guerra (2000 e 2008) às portas da Convenção Nacional do Partido Democrata, provocou o fechamento da Bolsa de Valores de Nova York por algumas horas ao tentarem gravar um clipe, dirigido por Michael Moore, em frente à instituição, e, também, foi censurado pela emissora NBC por exibirem a bandeira dos EUA de cabeça para baixo em uma apresentação.

Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, a emissora Clear Channel criou a lista de “músicas com letras questionáveis”, na qual o RATM foi a única banda a ter todas as suas músicas incluídas.

De 2000 a 2007, a banda esteve separada, mas, em outubro deste ano, aterrissou e “aterrorizou” pela primeira vez em solo sul-americano, passando por Brasil, Argentina e Chile, homenageando o MST, as Mães da Praça de Maio, Víctor Jara e Salvador Allende. Passada a turnê, o guitarrista do RATM, Tom Morello, concedeu uma entrevista exclusiva ao Brasil de Fato.

Brasil de Fato – Os fãs da América do Sul esperaram muito tempo por uma apresentação do RATM. Vocês gostaram da recepção do público?

Tom Morello – Nós ficamos muito extasiados com o público brasileiro. Nós temos grandes fãs no Brasil e é uma vergonha termos demorado 19 anos para tocar no país. Mas valeu a espera. Foi realmente uma noite para ser lembrada.

O RATM é uma banda claramente anticapitalista. Porém, percebemos, no show do Brasil, que parte considerável dos seus fãs não se interessa pelo conteúdo político ou até mesmo tem aversão a posicionamentos de esquerda. Como vocês interpretam isso?

O RATM é uma banda que se preocupa em agir amplamente. Tocamos nossa música para atingir uma ampla variedade de pessoas, independentemente de suas inclinações ideológicas. Estou tranquilo com isso. Nós não somos uma banda elitista que toca exclusivamente para pessoas que compartilham exatamente nossa pauta política. O que nós percebemos ao longo destes anos é que muitos jovens que antes eram apáticos ou possuíam opiniões políticas diferentes foram expostos a um novo conjunto de ideias através de nossa música e, em alguns casos, isso os ajudou a mudar sua forma de pensar.

Um jornalista chegou a publicar que vocês foram usados pelo MST no Brasil, colocando-os como “gringos bonzinhos nas mãos de pessoas más”. O que você tem a dizer sobre isso?

Minha hipótese é que o jornalista que diz sermos marionetes nas mãos do MST possivelmente discorda da postura política do movimento. Isto é uma crítica comum que encontramos aqui nos Estados Unidos. Quando a mídia de direita critica artistas por se posicionarem politicamente é geralmente porque eles discordam do ponto de vista dos artistas. Eu aprendi sobre o MST com o Zack, que conhece bastante sobre os movimentos políticos de toda a América Latina e nós temos orgulho de prestar solidariedade ao MST na sua luta por justiça no Brasil.

Você faz parte de algum movimento político?

Sou cofundador, junto com Serj Tankian, da banda System of a Down, da Axis of Justices, uma organização sem fins lucrativos determinada a reunir músicos, fãs de música e organizações políticas de base para lutar por paz, direitos humanos e justiça econômica. Também sou membro do IWW (Trabalhadores Industriais do Mundo, por sua sigla em inglês), uma organização de trabalhadores radical, fundada no início do século 20 e que engloba trabalhadores de todos os tipos. Trabalhadores da indústria do sexo, estudantes, músicos, metalúrgicos, camponeses etc.

Qual a importância para vocês que os jovens apoiem movimentos sociais, como o MST? No Brasil, atualmente, a juventude raramente se engaja em lutas sociais. Como ela se comporta nos EUA?

É a juventude que muda o mundo e eu acredito ser de crucial importância que eles ganhem perspectiva numa larga variedade de ideias e movimentos políticos que estão abertos para a participação deles em seus próprios países. Nos Estados Unidos, a juventude foi muito energizada pela campanha presidencial do Obama e muitos se desiludiram com suas ações desde que ele foi eleito. Existe muito descontentamento nos Estados Unidos com a economia e com o prosseguimento das guerras no Oriente Médio e, infelizmente, os semideuses da direita têm manipulado esse descontentamento para os seus próprios propósitos.

A vitória dos republicanos nas últimas eleições nos parece um fiel exemplo disso. Existem movimentos populares nos Estados Unidos capazes de reverter esse quadro?

Durante a administração Bush, houve um fortíssimo movimento antiguerra. Muito da energia desse movimento foi canalizada para a campanha do Obama, quem eu considero uma pessoa decente. Mas acredito que a alta cúpula do governo está repleta de compromissos. A política nos Estados Unidos é dominada e operada pelo grande capital e não me surpreende este giro à direita que tivemos depois de dois anos com Obama. E não é porque sua política ameaçava a elite em qualquer aspecto. Seu apoio contínuo à guerra do Afeganistão e o resgate criminoso oferecido aos bancos e à indústria financeira são uma clara indicação de sua fidelidade de classe. Mas o que sublinhou o movimento da extrema direita na política estadunidense foi o desafio às convenções culturais que o Obama representa. Existem muitos racistas nos Estados Unidos que sequer podem dormir bem sabendo que existe um presidente negro na Casa Branca. A extrema direita usou temas como raça, sentimentos antigay e anti-imigrantes para reavivar a animosidade para com o centrista Partido Democrata, deixando sua pauta econômica e de poder por detrás e, assim, convencendo a maioria da classe trabalhadora branca a votar contra os seus próprios interesses.

Que visão vocês tem sobre o recente processo político latino-americano?

Parece-me que, enquanto os Estados Unidos focaram sua atenção em nossas guerras imorais e ilegais no Oriente Médio, a América Latina foi deixada para seguir seu próprio destino. Eu estou muito satisfeito que, ao longo do curso da última década, movimentos realmente populares tenham começado a influenciar a política do Estado e, eventualmente, tenham ascendido ao poder na América Latina. Governos que explicitamente estão ao lado dos pobres e da classe trabalhadora, ao mesmo tempo em que a população de qualquer país deve estar atenta contra a corrupção. Eu acredito que é um sinal encorajador que os oprimidos tenham, mais do que nunca, voz na política latino-americana.

Entrando na música, mas sem sair tanto da política, como uma banda como o RATM lida com a indústria cultural?

Bom, é bem possível que ninguém no Brasil jamais tivesse escutado o RATM ou que ninguém se interessasse em ler esta entrevista se não fosse o fato da música do RATM ser veiculada pela Sony Music. Logo no início da banda, nós tomamos uma decisão de forma extremamente consciente sobre como tentaríamos divulgar nossa mensagem revolucionária para o maior número de pessoas possíveis ao redor do mundo. E, ainda que eu respeite as decisões de outros artistas em lidar exclusivamente com gravadoras independentes, nossos objetivos políticos são muito maiores. Nós queremos que nossa música tenha um impacto mundial.

A influência musical de vocês é bastante vasta. Do RAP ao Rock, passando pela música negra e até o heavy metal. Ela sempre se pautou pela atividade política?

Minhas preferências musicais são muito amplas e certamente nem sempre existe um componente político nelas. Eu adoro heavy metal, como Black Sabbath, Iron Maiden e Rush, assim como o hip-hop contemporâneo de DMX e Jay-Z e, obviamente, também gosto de grupos políticos, como Public Enemy e The Clash. No RATM, nós sempre sintetizamos nossas várias influências musicais para então preencher com o nosso compromisso político.

Algo na música sul-americana é referência para você?

Um dos meus maiores heróis musicais é Víctor Jara, o tremendamente talentoso mártir do golpe de 1973 no Chile. Sua vida como músico e ativista é muito inspiradora, especialmente no meu projeto solo, que leva o nome de The Nightwatchman.

Você apontaria novos talentos na música?

Eu sou um grande fã de Gogol Bordello, The Arcade Fire, Bright Eyes e de uma banda pouco conhecida fora da cidade de Nova York, que se chama Outernational.

O RATM voltou para ficar? Há previsão para novos trabalhos?

Bem, nós estamos juntos de verdade, como nosso show no Brasil demonstrou. Atualmente, não existem planos para um novo disco, mas nós continuamos amigos e fazendo shows. Mas o futuro não está escrito.

Vocês têm planos para retornar à América do Sul?

Eu adoraria voltar em breve para tocar mais vezes e explorar o continente. Nessa viagem, nós estivemos na América do Sul por menos de dez dias, o que não foi nem de longe suficiente. Eu fui inspirado pelo público daí, pelo encontro com o MST, pelo ensaio que nós vimos da escola de samba Vai Vai, por visitar os túmulos de Víctor Jara e Allende no Chile, por marchar com as Mães da Praça de Maio em Buenos Aires. Essas coisas serão absorvidas por minha música no futuro. Finalmente, gostaria de agradecer muito aos fãs do Brasil. Levamos dezenove anos para ir pela primeira vez, mas garanto que não levaremos outros dezenove anos para voltar. Nos veremos em breve.

QUEM É

Nascido em 1964 no Harlem, em Nova York, formado em ciências políticas na Universidade de Harvard, Tom Morello foi incluído pela revista Rolling Stone como um dos 100 maiores guitarristas de todos os tempos.

por:

Ana Maria Straube, Rodrigo Salgado

e Vinicius Mansur (de São Paulo)

MM3 no Brasil - como foi ...



Sabia-se muito bem que a passagem de Lou Reed pelo Brasil seria ruidosa, bem ruidosa. O cantor norte-americano trouxe ao Sesc Pinheiros neste sábado e domingo, em São Paulo, a turnê do Metal Machine Trio, inspirada em "Metal Machine Music", seu álbum de 1975, considerado por muitos, como se divulgou a exaustão, o pior de todos os tempos. A experiência extrema do disco, ruídos e distorção pura, felizmente só serviu de inspiração – o show, ufa, tem momentos de melodia para afastar o desconforto.

Mas ele está lá, quase o tempo todo. Sentado, Reed fica na guitarra e diante de uma mesa de efeitos, orientando o nova-iorquino Sarth Calhoun, nos computadores, e o alemão Ulrich Krieger, saxofone, com gestos e meneios de cabeça: ele é o maestro. Ao fundo, sons em loop parte hipnóticos, parte enlouquecedores, numa apresentação de uma hora e meia de improvisações. Não foram poucas as pessoas que deixaram o teatro ontem, inclusive pais desavisados (inexplicavelmente) com crianças e um engraçadinho que se filmou dando tchau para o palco, como que desaprovando o som do trio.

Na verdade, não há o que desaprovar. A proposta do espetáculo é, desde o início, um flerte forte de Reed com a música experimental, o noise, que encontra abrigo na arte avant-garde, onde conceitos como "estética do ruído", como diz um folheto do Sesc, são aceitáveis. Entra no jogo quem quer. Só é preciso deixar claro que o Metal Machine Trio, justamente por trazer paz vez ou outra – em especial quando Ulrich para as notas agudas no sax e arrisca uma melodia –, é um representante "amigável" do noise. Há gente muito mais engajada por aí, que faz dos shows um experiência sensorial, auxiliada por protetores auriculares.

Não foi assim com Reed, ainda bem. No final, quando ele estava de pé, com a guitarra nos braços, o silêncio e a cara amarrada durante todo o show deram lugar a um sorriso. "Muito obrigado por terem vindo. Espero que vocês tenham se divertido tanto quanto a gente", disse ele, pouco depois de levar um susto ao ver um fã invadir o palco para pegar uma palheta a seus pés.

Talvez pela recepção da plateia, que aplaudia sem parar, ele voltou sozinho dos bastidores, pegou a guitarra e não só tocou, como cantou. Abrindo uma brecha no rigor das apresentações do Metal Machine Trio, Reed deu de presente aos brasileiros "I'll Be Your Mirror", do álbum "The Velvet Underground & Nico" (1967). Um bálsamo para curar os ouvidos da barulheira, a música nunca soou melhor (assista a um vídeo aqui). Ao terminar, Reed foi apertar a mão de quem se espremia para vê-lo mais de perto. E saiu, a tempo de não ver a turba saquear o palco atrás de uma recordação.

Marco Tomazzoni

iG

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Em 1975, Lou Reed lançou Metal Music Machine. O disco trazia distorções e barulhos esquisitos que arrepiaram até os cabelos dos críticos mais vanguardistas.

Dizem que, na época, Reed estava se desligando de sua gravadora e entregou a tortura sonora só como obrigação contratual.

Por outro lado, o cantor rebate a história e afirma que o trabalho é importante e influenciou estilos como o punk e o eletrônico.

O fato é que este ano o polêmico álbum foi relançado em vinil e CD. Além disso, o cantor de 68 anos montou o Metal Machine Trio (MM3), para excursionar mostrando improvisos baseados na obra.

Sendo assim, a terceira vinda de Lou Reed ao Brasil foi marcada pelos barulhos infernais do Metal Machine na Mostra Sesc das Artes 2010.

Com ingressos esgotados para dois dias (20 e 21) no Sesc Pinheiros, em São Paulo, a trinca barulhenta matou a curiosidade dos fãs e assustou alguns desavisados que achavam que veriam um show “normal” do ex-líder do Velvet Underground.

Neste sábado (20), Reed subiu ao palco ao lado de quatro guitarras ligadas e encostadas em um pequeno muro de amplificadores. Enquanto a microfonia desentupia os ouvidos da plateia, o avô do punk sentou em torno de máquinas com efeitos sonoros, empunhou uma outra guitarra e seguiu viagem acompanhado pelo saxofonista Ulrich Krieger e pelo tecladista e programador Sarth Calhoun.

Desta forma, passaram-se cerca de 40 minutos de pandemônio sonoro, com pouquíssimas intervenções do compositor balbuciando algumas palavras.

Uma fã perdeu a paciência e xingou o ídolo antes de abandonar o local, depois de uns 15 minutos “de espera”. Mas os incomodados foram poucos, porque a maioria dos pagantes sabia o que esperava.

No final, Lou Reed caminhou até a beira do palco, agradeceu a todos e chegou a arriscar um som do Velvet Underground, I'll Be Your Mirror.

Um show surreal.

Daniel Vaughan

R7

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SÃO PAULO - Ruídos, microfonias, distorções e demais efeitos sonoros que passam ao largo do que se convencionou se chamar música. Por quase uma hora e meia, sem intervalo algum, na noite de sábado, Lou Reed (guitarra e eletrônica) e seus dois copilotos no Metal Machine Trio - Ulrich Krieger (sax tenor e eletrônica em tempo real) e Sarth Calhoun (processamento ao vivo) - apresentaram aos paulistanos a nova versão do controverso e radical projeto "Metal machine music", lançado em disco em 1975 pelo músico americano.

O concerto - que terá uma segunda dose neste domingo - lotou os cerca de mil lugares do Sesc Pinheiros, na capital paulista, abrindo a série "Barulho", que, até sábado, também contará com apresentações de grupos da Itália (Splinter vs Stalin e Crash Trio), da Dinamarca (The Raveonettes) e do Brasil (o coletivo carioca Chelpa Ferro e a banda paulistana Patife Band).

Ruídos que invadiram o teatro de ótima acústica antes mesmo de os três músicos tomarem seus lugares no palco. Até Reed se instalar numa cadeira, de onde só se levantaria perto do fim, passaram-se quase dez minutos de zoeira vinda das caixas de som, e que prosseguiria com o Metal Machine Trio em ação. Com uma guitarra e rodeado por um painel de computadores e demais geringonças eletrônicas, Reed, quase sempre cabisbaixo, disparava rajadas sonoras, que, encorpadas pelas contribuições dos companheiros, alternaram cacofonia, próxima do estilo free jazz, e momentos de algum descanso, beirando mantras. Após algum tempo, a receita se torna previsível, mas ainda incômoda, sem resquício de melodia, sem letras - em poucos trechos, ele murmura algo, algumas frases, mas que passam longe do canto.

No mínimo também é coerente com as intenções deste que já foi considerado o "pior álbum de todos os tempos", ao ser editado, há 35 anos, e que, com o passar do tempo, ganhou status de precursor ou referência de diferentes gêneros, do heavy metal ao grunge, passando pelo rock industrial, pelo techno e pelo trance.

Recuperado pelo artista no início do ano, que lançou uma versão remasterizada do disco, "Metal machine music" tem uma história bem mais interessante e curiosa do que seu resultado. Editado como um álbum duplo, ele teria sido feito para encerrar o contrato de Reed com a gravadora RCA. Num texto que escreveu para o encarte dessa primeira edição, Reed dizia que como o inventor do heavy metal estava fazendo o trabalho definitivo do gênero. Para muitos aquilo era uma piada, mais uma provocação do iconoclasta artista em briga com sua gravadora. Ao chegar às lojas, foi inicialmente recusado pelo público - muitos, ao não encontrarem as habituais canções do ex-líder do grupo Velvet Underground, devolveram o disco, alegando que estaria com defeitos.

Reed montou o Metal Machine Trio, ou MM3, em 2008, e desde então já tinha gravado um disco inédito, "The creation of the Universe", e também a trilha de um documentário "Red Shirley" , sobre sua tia de 102 anos, Shirley Novik, judia-polonesa que, em 1938, conseguiu fugir dos nazistas e emigrar para os EUA. Aos 68 anos, o cantor e compositor parece fisicamente debilitado, movendo-se com alguma dificuldade nos raros momentos em que se levanta. No fim, aplaudido calorosamente pela plateia - foram poucos os que abandonaram o concerto no meio - Reed retornou ao palco sozinho e fez no bis a única concessão da noite, apresentando "I'll be your mirror", canção do Velvet Underground. Mas, a voz cavernosa que saía de sua garganta pouco diferia dos raros espasmos guturais que ele tinha emitido momentos antes em sua Metal Machine Music.

Antonio Carlos Miguel

O Globo

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Imaginem como seria se hoje, em pleno ano de 2010, Marcel Duchamp enviasse a sua obra Fountain (um urinol, vaso sanitário, assinado com pseudônimo) para a Bienal de São Paulo. Haveria escândalo? O público fugiria? A crítica se enfureceria, como em 1917?

Lou Reed propôs algo parecido na noite de anteontem no Sesc Pinheiros com o seu Metal Machine Trio, com um efeito final curioso. Passou um espanador numa obra de impacto antiestético, o disco Metal Machine Music - An Electronic Instrumental Composition (RCA, 1975). Aquele álbum, hoje com 35 anos, era feito somente de música aleatória, álbum duplo com quatro faixas contínuas sem picos dramáticos, sem manipulação de emoções. Um manifesto de vanguarda ("Isso não tem significado para o mercado", advertia o cantor, nas notas do álbum).

Metal Machine Music, portanto, prestava-se a um questionamento ético - o que significa fazer música para entreter plateias? "Esse disco não é para festas, dança, música de fundo ou romance", escreveu Lou Reed. Quando foi anunciado seu novo projeto com o Metal Machine Trio, ficou no ar a questão: como ele retomaria aquela ideia, sem parecer déjà-vu, extemporâneo e, pior ainda, exibicionista?

A resposta, para os brasileiros, veio no show do Sesc, com todas as implicações de respeito e rejeição que a resolução da charada traria. Lou, tocando na penumbra, cercou-se de dois parceiros aplicados, que davam pinta de ter escapado de alguma banda extinta de metal melódico: o saxofonista Ulrich Krieger e o piloto de botões Sarth Calhoun, que também operava uma percussão eletrônica.

Livre improvisação num território eletrônico, um jazz de serralheria. Feedback, realimentação contínua dos sons, alternância de velocidades da guitarra (Lou Reed, sentado no centro do palco, parecia uma velha costureira do purgatório) e rasantes de saxofone. O efeito, na maioria do tempo, era de que o Metal Machine Trio tinha enfiado 1.000 pessoas (a lotação do teatro) numa espécie de máquina de ressonância magnética coletiva.

Os desavisados saíam às dezenas do teatro do Sesc Pinheiros após uns 20 minutos de show. Surpreendidos por uma música abstrata, cheia de distorções, sem melodias, sem padrões, sem canto, assaltos de urros e restos de sons urbanoides, como sirenes e metrôs, alguns sentiam-se lesados. "Está insuportável", dizia a educadora Ísis de Palma. "É um desconforto que dá, é um incômodo", definia a professora.

Como cães metálicos ganindo, a guitarra de Lou Reed gemia e o saxofone de Ulrich Krieger ignoravam a movimentação apressada no escuro do teatro, em direção à porta de saída. Seus "solos" lembravam serras elétricas desgovernadas na noite de São Paulo, e só de vez em quando se intuía alguma melodia no meio de tudo aquilo. Na frente do saxofonista, haviam falsas partituras - não é o tipo de música que se escreve.

Lou trabalhou a criação eletrônica ao vivo, com instrumentos eletrônicos e eletroacústicos, criando música em progresso. A referência ao álbum clássico só foi dada somente 10 minutos antes do início do show - enquanto a plateia ainda se sentava, o sistema de som tocava faixas do mais odiado disco do rock. De vez em quando, as vozes eram usadas para criar mantras soltos, que eram repetidos pelos laptops e juntavam-se a novos mantras.

Somente na metade do show é que Lou soltou algumas frases soltas ("O que você pensa? O que você vê?"), sob uma base que lembrava uma improvisação jazzística, mas um primo bem remoto desta. Com gestos enérgicos com as mãos, como um maestro da improbabilidade, Lou ordenava ao outro parceiro da noite, Sarth Calhoun, que operava os laptops ao vivo, para que castigasse a percussão eletrônica, ou estendesse efeitos.

Nos anos 1950, a música eletroacústica de Pierre Henry e Pierre Schaeffer utilizava-se de um banco de sons que armazenava desde gritos de animais a barulhos industriais editados. O alemão Stockhausen chegou a fazer um concerto com um quarteto de cordas tocando dentro de um helicóptero. Lou Reed parece concordar com Pierre Henry, que hoje em dia coloca os computadores na "categoria acidente de trabalho", preferindo sempre enfatizar os sistemas analógicos.

É preciso salientar que o show do Metal Machine Trio não seguiu de forma alguma o script daquele disco de 1975. Lou Reed fez música dessa vez, mas igualmente perturbadora quanto os ruídos do álbum. Naquela época, o artista escreveu no álbum que se sentia forçado, devido à capacidade de estimulação sensorial do seu trabalho, a advertir que poderia ter contraindicações - salientava que era delicado para hipertensos, pessoas com possibilidade de ataques epiléticos, disfunções motoras, etc.

No saguão fora do teatro do Sesc Pinheiros, a plateia que fugia gargalhava aliviada. Mas quem ficou tinha motivos fortes. Ao final, a plateia que resistiu pediu e Lou voltou. Ciente de que submetera seu público a uma provação, encerrou com uma do Velvet Underground, I"ll Be Your Mirror (a música é de 1967, do álbum The Velvet Underground & Nico, composta por Lou a partir de uma frase da cantora alemã Nico). "Com o Velvet Underground, a ideia sempre foi assumidamente lírica, verbalmente orientada para a cabeça, rock cabeça, com a exploração de vários temas tabu, como drogas, sexo e violência", disse Reed. Ao retornar a esse mundo das coisas naturais, tocando uma canção convencional no apagar das luzes, Lou Reed acabou cometendo um solitário ato de generosidade de um eterno enfant terrible do rock. Depois, foi comer numa cantina italiana.

Fonte: O Estado de S.Paulo

por Jotabê Medeiros

sábado, 20 de novembro de 2010

# 170 - 19/11/2010

LOU REED defendeu seu controverso "Metal Machine Music" que, para os não-iniciados, se trata de um álbum composto apenas por uma monótona repetição de guitarra tocada em velocidades diferentes.

No seu lançamento em 1975, "Metal Machine Music" decepcionou muitos críticos e fãs do ex-frontman do VELVET UNDERGROUND, com a revista Roling Stone descrevendo sua sonoridade como a de "um bárbaro grunhido de uma geladeira galática", e uma experiência tão terrível quanto "uma noite no terminal de ônibus". Muitos o consideraram uma piada, ou apenas cumprimento com má vontade de obrigações contratuais com a gravadora de LOU REED, RCA - e de fato, apenas alguns meses depois, o álbum foi recolhido.

Mas o poeta de Nova York decidiu remasterizar e relançar seu álbum, e coincidindo com este acontecimento, ele está em turnê com o Metal Machine Music Trio.

Antes de subir ao palco no Royal Festival Hall em Londres na segunda feira do dia 19 de abril, Reed defendeu o álbum, que ele chamou de crucial para o nascimento do punk, heavy metal, grunge até para o trance e techno, mesmo que seja, para muitos, o pior disco de todos os tempos.

Em uma entrevista à BBC ele diz: "Eu acredito que seja uma música realmente profunda e eu me apaixonei por ela por um longo tempo. Eu fiz esse álbum para mim. E eu estou tentando fazer algo que eu tenha vontade de escutar".

Fonte: We Will Rock you

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Algum trabalho musical mereceria ser apontado como o pior disco de todos os tempos? Em 1975, diversas revistas acharam que sim e deram tal prêmio a Metal Machine Music, disco conceitual de noise rock lançado por Lou Reed.

Ele mesmo, Lou Reed. O afeminado, esquisito e afetado líder do Velvet Underground, banda que foi catapultada ao “jet set artístico” da Nova York dos anos 60 pelo seu produtor, o artista Andy Warhol. Foi com o Velvet que Lou Reed se consagrou como um poeta/cronista do submundo e de seus seres marginais.

Depois de sair da banda, a consagração de Reed veio em 1972, com seu segundo disco, Transformer, que eternizou músicas como Walk on the Wild Side, Perfect Day e Satellite of Love.

Aí, vieram mais alguns álbuns e, então, ele lançou Metal Machine Music. Muitos não entenderam. Alguns acharam piada. O disco trazia apenas quatro músicas. Cada uma com 15 ou 16 minutos. Não há vocais, apenas distorções de guitarras, texturas e camadas sonoras. Em três meses, o disco foi retirado das lojas. Muito se disse que Metal Machine Music foi um disco feito para cumprir contrato com a RCA. Reed nega isso, apontando o disco como antecessor dos estilos noise e industrial.
“Metal Machine Music é dedicado à proposta da guitarra como o maior instrumento conhecido ao homem (…). Você não precisa de um vocalista ou um baterista (…). É uma reflexão sobre a glória do rock” disse Reed, em entrevista à BBC.

Em 2002, Reed se espantou ao ver o saxofonista alemão Ulrich Krieger interpretar o álbum. Acabou convidando-o para formar o grupo Metal Machine Trio, que revisita Metal Machine Music em performances cheias de improvisos. Esse show virá ao Brasil. Reed e seu grupo tocam nos dias 20 e 21 de novembro em São Paulo.

por Francisco Dalcol

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Lou Reed - Berlin (1973) (Revista Bizz, Edição 20, Março de 1987)

Discos conceituais já não eram novidade no início da década de 70. Eles funcionam como trilhas-sonoras de idéias, de conceitos - daí o nome. O LP conceitual é um todo orgânico, um corpo constituído por vários elementos (cada um exercendo uma função em prol da idéia central): a capa, o título, as letras, a ordem das músicas e até (nos países civilizados) a divulgação.
"Berlin", terceiro LP solo de Lou Reed, é talvez o exemplo mais bem acabado de um disco conceitual. É uma viagem pelo cotidiano do underground, da marginália dos centros urbanos, tudo contado num tom de poesia cruelmente direta e fria.

A produção e os arranjos são de Bob Ezrin (que tinha acabado de produzir os melhores LPs de Alice Cooper). Ezrin escolheu a dedo músicos, estúdios de gravação, fez a mixagem e ainda uma edição brilhante: transformou as duas horas de material gravado, através de cortes e emendas, numa matriz de cinqüenta minutos.

O LP abre com o teipe de uma voz que anuncia: "Eins, zwei, drei..." e pronto, estamos em Berlim (a música em questão é a faixa-título). Bons tempos aqueles, conclui Lou. Mas a realidade é outra - e os climas que se seguem não são indicados para suicidas em potencial.

A segunda faixa do disco é "Lady Day", um clássico de Reed, e, para quem está ouvindo o disco, a certeza de que dificilmente um produtor conseguirá reunir de novo um naipe de instrumentistas desse nível. São músicos vindos de formações diversas: Steve Winwood, Jack Bruce, Aynsley Dunbar, os irmãos Brecker e Steve Hunter - só para citar os mais famosos.

Com "Men of Good Fortune" as coisas vão ficando amargas ("homens afortunados/ muitas vezes causam quedas de impérios/ enquanto homens de pobres começos/ muitas vezes não podem fazer nada").

Com "Caroline Says I" Lou começa a contar histórias sobre as pessoas que o cercam ("ela me trata como se eu fosse um imbecil/ mas para mim ela ainda é uma rainha germânica"). Em "How Do You Think it Feels" e "Oh, Jim" o assunto é drogas, solidão e desespero, tudo contado num tom isento e desleixado pela primeira pessoa (são comuns, ao longo do LP, frases como "mas eu não ligo" ou "pra mim tanto faz").

No lado B, Lou, cantando sempre com voz baixa e triste, retrata o caráter violento do narrador - o próprio Lou - na continuação "Caroline Says II": "Caroline diz - enquanto ela se ergue do chão/ você pode me bater o quanto quiser/ mas eu não te amo mais". Daí pra frente a barra pesa mesmo. Em "The Kids", em meio às dissonâncias do baixo, a melodias atonais de uma flauta doce e aos gritos desesperados e autênticos de "mamãe!" feitos por crianças, Lou conta a história de uma mulher que perdeu a custódia dos filhos. Só que, dessa vez, a postura do narrador não é tão neutra: "E desde que ela perdeu sua filha/ são seus os olhos que se enchem de água/ e dessa maneira eu fico mais feliz".

A letra de "The Bed" fala por si: "Esse é o lugar onde ela pegou a lâmina/ e cortou seus pulsos naquela noite estranha e malfadada/ e eu disse oh, oh, oh, que barato". E encerrando o disco com chave de ouro, outro clássico deprê de Lou Reed, "Sad Song", com um brilhante arranjo orquestral de Ezrin.

Todas as faixas de Berlin são lentas, mas isto, de fato, não importa muito. Este disco não é menos emocionante, impressionante e influenciador por causa disso. E tampouco deixa de ser o primeiro LP conceitualmente "deprê" do rock'n'roll. Uma visão que rompeu tabus e abriu novos caminhos na música pop: a realidade das ruas dos grandes centros pode ser cantada e transformada em música. Não é à toa que o Berlin é disco de cabeceira de gente como Siouxsie, Budgie, Iggy Pop e o pessoal do New Order.

Thomas Pappon

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Julho/2010 - O Poeta do Rock - Lou Reed

No universo da canção, não foi o jazz nem o blues que elevou as letras ao estado da arte. ''Atravessar o Fogo'', livro com versos de Lou Reed, traz alguns momentos de destaque da fascinante história de como a música pop se transformou em poesia

Por Arthur Dapieve

Fonte: Revista Bravo

A história da transformação da letra num item tão importante quanto a música na canção popular tem um herói insuspeitado. Nos Estados Unidos do século 20, de onde muitos gêneros foram exportados para o resto do mundo, o blues chegou a intercambiar versos entre uma composição e outra, pois o essencial era o sentimento. Seu afilhado jazz quase sempre prescindiu das palavras e, quando as criou ou as foi buscar no cancioneiro popular, usou-as mais como outro suporte para a sonoridade geral do que como elemento em si. No caso do cancioneiro, nem a presença de um requintado Cole Porter, por exemplo, conseguiu de imediato destacar a dimensão intelectual - literária - do trabalho de se pôr certas sílabas em determinadas ordens. Coube, quem diria, ao bastardo rock transformar a letra numa arte independente, autônoma, digna de estudo e apreciação em si mesma.

O nome central dessa revolução foi Bob Dylan. Desde então, vários jovens letristas, não necessariamente seus discípulos estéticos, reafirmaram que havia literatura, alta literatura, aliás, a ser perseguida por entre três ou quatro acordes de guitarra. Um dos mais importantes poetas "libertados" por Dylan foi Lou Reed. Às vésperas de seu retorno ao Brasil, Reed tem 310 letras lançadas em livro no país. Atravessar o Fogo, editado pela Companhia das Letras, em boa tradução em versos livres e brancos de Christian Schwartz e Caetano W. Galindo, ajuda a entender não apenas por que Reed é Reed mas por que a letra virou um fetiche, uma arte à parte dentro do cancioneiro ocidental.

No clássico livro Rock, o Grito e o Mito, publicado pela Vozes em 1973, reeditado em 1981 e hoje infelizmente fora de catálogo, o jornalista, crítico e tradutor brasileiro Roberto Muggiati escreveu: "O rock nasceu de um grito, o primeiro grito do escravo negro ao pisar em sua nova terra, a América." A partir daí, Muggiati desenvolveu com brilho a tese de que o rock foi uma espécie de grito primal represado por séculos de opressão, grito que restituiu a voz verdadeira ao homem. Se, em si, a terapia do grito primal de Arthur Janov resultou no constrangimento musical que é a obra de Yoko Ono, a metáfora ainda se aplica à perfeição. O gênero mulato surgido do affair entre o blues negro e o country branco rompeu os grilhões que prendiam a letra à melodia, à harmonia, ao ritmo. Ela pôde, enfim, ser lida em silêncio. Como poesia. Isso ajudou a constituir uma cultura pop a partir da década de 1960.

Logo, o bardo fanho americano, ano que vem setentão, assinalou um momento chave na história da arte, ao estabelecer o antes - o rock'n'roll despreocupado - e o depois - os letristas que se valeram de referências literárias, seus "filhos". Ao mesmo tempo, Dylan forneceu o grande parâmetro ao qual uma nova sensibilidade pôde se contrapor e ser compreendida. Expressada pela turma da fragmentação, essa nova sensibilidade quebra a linearidade da canção pop tradicional - no Brasil bem representada tanto por um Caetano Veloso quanto por um Renato Russo - como num espelho partido em múltiplas personalidades, mídias e redes sociais na internet.

Garotas, garotas, garotas - Nos primórdios, o rock tinha pouco cérebro e muito coração e sexo

O rock não teria tido o mesmo impacto sociocultural entre os jovens da segunda metade da década de 1950 e da primeira metade da década de 1960 se já tivesse nascido sob o signo da pretensão poética. Se os filhos ficavam excitados e os pais, amedrontados, era porque Elvis Presley sacudia a pélvis daquela lasciva maneira africana, Little Richard urrava "A-wop bop-a loo-bop, a-wop bam-boom! Tutti Frutti, al-rudy" como se fosse uma bateria desenfreada, e Chuck Berry louvava o rock'n'roll acima do jazz, das sinfonias, do country, do tango, do mambo. Como antes acontecera com o jazz e depois aconteceria com o funk e o rap, o racismo americano se manifestaria na forma de uma cruzada moral, de repulsa ao sexo.

"Muitos pais imaginam suas filhas, que saem para os dates - até então considerados encontros inconsequentes de namoradinhos - sendo violadas pelos namorados no banco traseiro de um Cadillac rabo-de-peixe enquanto o rádio toca uma canção de rock a todo volume", ilustra Muggiati em Rock, o Grito e o Mito. Na reprimidíssima década de 1950, não era necessário ser sexualmente explícito para suscitar a antevisão de prazeres proibidos. A combinação entre carrões envenenados e romances infelizes aparecia, por exemplo, em Maybellene, de Chuck Berry, cuja refrão dizia: "Maybellene, por que você não pode ser fiel? Você voltou a fazer as coisas que costumava fazer." Essas coisas, à época, não precisavam ser ditas para serem censuráveis. A batida frenética dizia tudo. O meio era a mensagem.

A imagem de rebeldia associada ao rock em filmes como Sementes de Violência (1955) ou No Balanço das Horas (1956) tornou-se tão forte que resistia ao evidente bom-mocismo de Bill Haley e Seus Cometas, presentes em ambos. As canções entoadas por Elvis também não eram especialmente selvagens. O que perturbava a ordem era a boa aparência, o rebolado, a voz de negro num branco. As letras, portanto, não iam além de garotas, garotas, garotas. Isso fez alguns observadores confundirem o rock com outros modismos musicais que, em décadas anteriores, haviam cutucado os hormônios da América branca e, de carona em sua poderosa indústria cultural, os hormônios de todo o Ocidente cristão. Quando Elvis foi enquadrado no serviço militar, então, o bicho parecia domado.

Nem mesmo ao final da primeira fase dos Beatles, com o já musicalmente brilhante álbum Revolver (1966), as letras possuíam a capacidade de funcionar sem a companhia da música. Qualidade que conquistariam conforme, "desafiados" por seu ídolo Dylan, John Lennon e Paul McCartney se dedicassem a torná-las mais significativas, casos de She's Leaving Home ou Blackbird. O repertório inicial dos Fab Four fazia cândidas declarações de amor, externando o desejo de pegar na mão da menina ou, no máximo da ousadia, se tornar o homem dela. Fosse como fosse, o rock'n'roll era sobre coração e sexo, não cérebro. Até hoje há compositores bons na pregação de que a música deve ser, antes de tudo, diversão. Certas bandas de hard rock ou heavy metal, como o AC/DC, eternizam em poucas linhas o sentimento de que a vida é curta, e é preciso vivê-la rapidamente. Parafraseando Lobão, os livros na estante - com antologias de letras de canções - não teriam tanta importância.

Política, religião, morte e arte - Bob Dylan mostrou que a música pop poderia falar de qualquer assunto.

Em seu primeiro filme como diretor, Ricardo III - Um Ensaio (1996), o ator Al Pacino a certa altura conjecturava se Shakespeare já não havia pensado tudo o que o homem poderia pensar. Em relação a Bob Dylan o sentimento é mais ou menos o mesmo. Abrir ao acaso o calhamaço que é Lyrics 1962-2001, nunca editado no Brasil, se assemelha a jogar I Ching. A poesia de Dylan funciona tanto como arte divinatória como gotas espessas de sabedoria. Em meio século de carreira, ele se pronunciou sobre virtualmente tudo o que há para se pronunciar: política, amor, guerra, ecologia, religião, morte, arte. E, quando o fez, fê-lo com a autoridade moral de profeta que atravessou várias crenças e descrenças.

Dylan despontou para Nova York e para o mundo como um trovador folk. Nesta condição, participou do comício de 28 de agosto de 1963, em Washington, no qual Martin Luther King Jr. contou a 200 mil manifestantes pelos Direitos Civis o seu célebre sonho: "Um dia meus quatro filhos pequenos viverão num país em que não serão julgados pela cor de suas peles, mas pelo conteúdo de seu caráter." De alguma forma, a poderosa retórica batista de Luther King Jr. já ressoava pela obra deste judeu de Duluth, Minnesota, que dois anos antes largara a universidade ainda como calouro e fora pregar o próprio evangelho pelos bares do Greenwich Village. Esta, porém, não seria sua influência mais óbvia. Dylan idolatrava Woody Guthrie, que escavara a canivete no tampo de seu violão a frase "Esta máquina mata fascistas", e com certeza lera com atenção poetas beat como Allen Ginsberg.

Havia ainda, é claro, o fascínio primeiro por Dylan Thomas, tão intenso que lhe fornecera o sobrenome artístico. Diferentemente da impenetrabilidade da poesia do galês, entretanto, o pulo do gato de Bob Dylan foi unir uma erudição instintiva à capacidade de comunicá-la de forma eficiente, pop. As letras de Dylan ofereciam - e oferecem - inúmeras camadas de interpretação e permitiam ao rock, gênero pelo qual ele se interessara ainda antes de virar o cantor folk por excelência, a autoconsciência da própria complexidade e importância. Dylan abandonou a universidade, certo, mas sua obra voltou a ela pela porta da frente. Existe uma anedota daquelas que se não for verdadeira é bem achada. Dizem que Dylan entrou incógnito num grupo de discussões sobre suas letras na internet. Diante de um despautério, contudo, ele não pôde deixar de se manifestar e afirmar que não quisera dizer nada daquilo que lhe era atribuído. Foi expulso do grupo como impostor, óbvio.

O impacto de centenas de letras como as de Blowin' In the Wind, The Times They're a-Changin', Don't Think Twice it's All Right ou Hurricane ultrapassou as fronteiras artísticas e conquistou para o rock o respeito de exegetas que antes consideravam aquela música sem nenhuma relevância cultural. No Brasil, papel análogo foi desempenhado por Vinicius de Moraes. Embora obviamente já existissem ótimas letras no nosso cancioneiro, foi apenas quando o diplomata e poeta tornou-se também letrista - sob a desconfiança e o desprezo de muitos de seus pares - que se reavaliou com a devida correção as possibilidades intelectuais da música popular. De certa forma, então, Dylan foi o Vinicius dos anglófonos.

Lord Byron, Oscar Wilde e Delmore Schwartz - Inspirados por Dylan, letristas como Lou Reed beberam poesia nas melhores fontes

Dylan tem um filho cantor, Jakob. O líder dos Wallflowers, porém, está longe de ser o melhor exemplar de rebento intelectual. Este talvez seja Lewis Allan Reed, ou Lou Reed. Tanto no Velvet Underground - grupo apadrinhado pelo artista plástico Andy Warhol que dividia com outra boa cabeça do rock, John Cale - quanto na sua carreira solo, Reed atraiu atenção e escândalo porque se propôs a falar do lado selvagem da vida. Sua música mais famosa, aliás, Walk on The Wild Side, de 1972, habitava um universo de travestis e sexo oral. Tempos depois, num documentário sobre essa canção, David Byrne dizia se indagar a cada vez que ouvia pessoas cantarolando o refrão: "Será que elas sabem do que se fala?!"

Ainda a bordo do Velvet Underground, Reed havia feito polaróides da sujeira sob o tapete dos anos 60. Quando os Beatles decretaram ao final da década que o sonho tinha acabado, ele deve ter dado um sorrisinho sarcástico e dito "ah, é, não diga..." Em 1967, no famoso "disco da banana", cuja capa fora desenhada por Warhol, Reed falou desabridamente sobre drogas em Heroin, música que emulava a gangorra de excitação e prostração do vício. I'm Waiting for The Man tratava de prostituição e Venus in Furs, de sadomasoquismo: "Falem os chicotes, a cinta que espera por você/ Castigue-o minha senhora, para que seu coração seja curado" (a tradução é a do livro Atravessar o Fogo).

O choque não era dado só pela temática pesada, pouco usual na música da época, mas pelo tratamento musical e poético. Havia um fascinante contraste entre a vida baixa retratada e a alta cultura do retrato. A derradeira faixa daquele LP, European Son, era um réquiem cacofônico para o poeta Delmore Schwartz, ex-professor de Reed na faculdade de artes e ciências de Syracuse que morrera de ataque cardíaco no ano anterior. Seu corpo ficara dias à espera de identificação num necrotério. O lado selvagem. No prefácio a Atravessar o Fogo, Reed reconhece: "Delmore Schwartz, meu professor, me apresentou à beleza da frase simples, e foi o que tentei seguir ao longo de uma vida escrevendo."

Na Inglaterra, entre muitos exemplos dessa elaborada oralidade, presente também nos beats ou em Dylan, está Steven Patrick Morrissey. Sua poética está enraizada em Lord Byron ou Mary Shelley, enquanto suas tiradas ácidas remetem a Oscar Wilde. Quando os Smiths acabaram, em 1987, Morrissey partiu para uma carreira solo de achados funcionais como "eu nunca pretendi matar/ eu não sou naturalmente mau/ fiz tais coisas/ apenas para me fazer/ mais atraente para você/ terei falhado?" (The Last of The Famous International Playboys).

No Brasil, Caetano Veloso admitiu no livro Verdade Tropical que, mesmo preferindo os Beatles e não entendendo direito o inglês de Dylan, este talvez lhe tenha sugerido frases e ideias para suas próprias canções. A afinidade com o americano fica evidente na felicidade da versão em português para It's All Over Now, Baby Blue (Negro Amor). Influências menos oblíquas de Dylan estão no fã declarado Renato Russo. Como Trovador Solitário, no hiato entre o Aborto Elétrico e a Legião Urbana, ele se apresentava só, ao violão, cantando uma saga como Faroeste Caboclo, de 159 versos sem repetição. Afinal, Dylan dera um ultimato aos letristas: se eles queriam escrever algo bom, teriam de pular mais alto. O sarrafo subira.

Com o indicador no mouse e o polegar no controle remoto - A geração dos anos 90 para cá não é influenciada pelos livros, e sim pela televisão e pela internet

Até a chegada da década de 1990, os garotos e garotas com maturidade intelectual para escrever boas letras de música tinham tido uma formação baseada em textos, não em imagens. Sua cultura ainda era basicamente literária, linear. Isso criava uma certa continuidade estética entre os poetas pré-rock'n'roll e as novas gerações, como no caso dos escritores de beats e de Dylan, ou Delmore Schwartz e de Reed. Porém, com a entrada em cena de letristas nascidos diante do aparelho de televisão, os versos passaram a funcionar quase como epigramas, reveladores de um estado de espírito mais inquieto que o polegar na tecla do controle remoto, em vez de constituir histórias com início, meio e fim.

A primeira cabeça representativa da turma da fragmentação foi a de Kurt Cobain, de Seattle, o líder do Nirvana que se suicidaria em 1994, no ponto mais baixo de uma espiral de drogadição e insegurança. Na biografia Come As You Are, de Michael Azerrad, são abundantes os testemunhos de como Cobain deixava para escrever as letras em cima da hora, num canto de estúdio. O seu desespero era transmitido pela alternância entre agitação e calmaria nos instrumentos do grupo, entre gritos e sussurros nas próprias cordas vocais. A letra era quase secundária, mas não desprezível, na sua arte.

Na época em que música Smells Like Teen Spirit explodiu na MTV americana, a emissora fez uma enquete entre seus espectadores: "O que diz a letra?" As pessoas ouviram as coisas mais disparatadas. Inclusive porque Cobain lhes oferecia, sim, imagens disparatadas, como "um mulato/ um albino/ um mosquito/ minha libido/ yeah". E assim, para seu terror, Cobain descobriu-se porta-voz de uma geração que achava não ter nada a dizer. O que nem era verdade: ela não tinha a dizer à moda antiga. Leia-se a tristíssima Pennyroyal Tea, ou "Chá de erva poejo", de supostas características abortivas. Nela, Cobain escreveu: "Sente-se e beba chá de poejo/ Destile a vida que está dentro de mim." Imagem forte e bonita.

Outros talentos burilaram a nova estética, à medida que a fragmentação audiovisual era radicalizada pela digital como fonte de educação sentimental da rapaziada. E o inglês Thom Yorke, do cultuado Radiohead, acabou herdando o bastão de intérprete das angústias geracionais após a morte de Cobain. Seu grande hit - agora raramente executado ao vivo - expressa de forma simples a inadequação da juventude. "Você flutua como uma pena/ Num mundo maravilhoso/ Eu queria ter sido especial/ Tão especial/ Mas eu sou um verme/ Eu sou esquisitão/ Que diabos faço aqui?/ Eu não pertenço a este lugar", avisa Creep.

No país onde alguns se apressaram a decretar a morte da canção apenas porque ela já não se apresenta da velha forma, os expoentes dessa sensibilidade fragmentada, concisa, são os dois letristas oriundos do grupo Los Hermanos, hoje desativado: Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante. Praticamente orados pelas plateias, com um fervor que não se via desde o auge da idolatria à Legião Urbana, seus versos ora se agrupam na obscuridade ora no nonsense mesmo, como em Do Sétimo Andar: "Parece que foi ontem, eu fiz/ Aquele chá de habu/ Pra te curar da tosse e do chulé/ Pra te botar de pé." A estrofe foi escrita por Amarante em 2003, antes do advento do Twitter, mas dá e sobra em 140 toques.

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Atravessar o Fogo, de Lou Reed. Tradução: Caetano W. Galindo e Christian Schawrtz. Companhia das Letras, 794 págs. Preço a definir.

Olhos azuis-claros (1969), ainda dos tempos do Velvet, ajuda a lembrar que, embora
Reed seja conhecido e admirado pela crueza, também é capaz de praticar um lirismo
arrebatador. Aliás, a velha versao em ingles de Marisa Monte ficou muito boa.

Olhos azuis-claros (Pale blue eyes)

As vezes me sinto tao feliz
As vezes me sinto tao triste
As vezes me sinto tao feliz
Mas quase sempre voce simplesmente me deixa maluco
Baby, voce simplesmente me deixa maluco
Nao esqueço teus olhos azuis-claros
Nao esqueço teus olhos azuis-claros
Para mim voce foi o topo da montanha
Para mim voce foi o ápice
Para mim voce foi tudo
Que um dia eu tive mas nao soube guardar
Que um dia eu tive mas nao soube guardar
Se o mundo pudesse me tornar puro e estranho como o vejo
Eu poria voce no espelho que ponho a minha frente
Que ponho a minha frente
Desperdiçar uma vida inteira, socá-la numa xícara
Ela disse que dinheiro é como o tempo que passa
Promete mas nao cumpre
Para voce, dívida é promessa
Foi bom o que a gente fez ontem
E eu faria de novo
O fato de ser uma mulher casada
Só prova que voce é minha melhor amiga
Mas isso é um pecado muito, muito feio
Nao esqueço teus olhos azuis-claros
Nao esqueço teus olhos azuis-claros

Vamos fazer uma loucura (1972) é a cançao-assinatura de Reed. Se a memória coletiva pifasse um dia, e ele tivesse direito a manter um único poema vivo, seria este. Pela descriçao do submundo dos travestis e prostitutos de Nova York e pelo refrão irresistível.

Venha fazer uma loucura (Walk on the wild side)

Holly veio de Miami, Flórida
Peregrinou pelos Estados Unidos
Fez as sobrancelhas no caminho
Depilou as pernas, e entao ele virou ela
Ela diz: Ei, babe, venha fazer uma loucura
Disse Ei, meu bem, venha fazer uma loucura
Candy era forasteira na Ilha
No quartinho dos fundos ela dava pra todo mundo
Mas nunca, nem durante um boquete, ela perdeu a cabeça
Ela diz: Ei, babe, venha fazer uma loucura
Disse: Ei, babe, venha fazer uma loucura
E as garotas de cor cantam
Doo da doo da doo
Doo da doo
Doo da doo da doo
Doo da doo
Doo da doo da doo
Doo da doo
Doo
Little Joe nunca desistiu, nem uma vez
Todo mundo tinha que pagar sempre
Um safanao aqui, outro ali
Nova York é o lugar onde dizem
Ei, babe, venha fazer uma loucura
Eu disse: Ei, Joe, venha fazer uma loucura
Sugar Plum Fairy desceu as ruas
Atrás de alimento espiritual e um lugar para comer
Foi ao Apollo
Voce precisava ter visto ele ir lá lá lá
Disseram: Ei, Sugar, venha fazer uma loucura
Eu disse: Ei, babe, venha fazer uma loucura
Jackie está simplesmente a mil
Pensou que era James Dean por um dia
E aí, penso eu, só podia se arrebentar
Um Valium teria evitado a pancada
Ela disse: Ei, babe, venha fazer uma loucura
Eu disse: Ei, doçura, venha fazer uma loucura

Desta seleçao, Os sinos (1979) talvez seja o item mais obscuro. O disco homônimo é
um dos mais sombrios e, sem trocadilho, menos badalados de Reed. No entanto, a imagem do profeta-suicida urrando para as ruas lá embaixo talvez pudesse se aplicar ao próprio autor do poema, caso ele nao tivesse sobrevivido existencial e artisticamente a décadas de loucuras. Nas loucuras de Reed, aliás, o artista plástico Andy Warhol, o papa da Pop Art, teve participaçao de destaque.

Os sinos (The bells)

E as atrizes se dao
Com o ator que volta tarde pra casa
Depois que as peças terminaram
E as plateias se dispersaram
Em meio as luzes da cidade e as ruas
Nao havia ingresso que pagasse
O maravilhoso espetáculo dos espetáculos
Ah, só a Broadway sabe
Que a Grande e Branca Via Láctea
Tinha algo a dizer
Quando ele caiu de joelhos
Depois de se elevar no ar
Sem nada que o sustentasse
Nao foi mesmo muito bonito
Brincar daquilo sem paraquedas
Parado a beira do abismo
Olhando, ele achou que viu um riacho
E gritou: "Veja! Lá estao os sinos!"
E cantou: "Lá vem os sinos!"
"Lá vem os sinos!"
"Lá vem os sinos!"
"Lá vem os sinos!"
"Lá vem os sinos!"

Oi, sou eu (1990) é uma despedida incomum, que apenas ratifica o genio de Reed: ele nao perdoa o falecido Warhol, mas justamente por isso faz uma bela e honesta homenagem.

Oi, sou eu (Hello, it's me)

Andy, sou eu, faz tempo que nao te vejo
Queria ter falado mais com voce quando voce estava vivo
Eu achava que voce era seguro quando dava uma de tímido
Oi, sou eu
Sinto muita saudade de voce, muita saudade de sua inteligencia
Faz tanto tempo que nao ouço ideias como aquelas
Eu adorava ver voce desenhar e ver voce pintar
Mas quando te vi pela última vez, dei as costas
Quando Billy Name estava doente e trancado no quarto
Voce me pediu umas bolinhas, achei que era pra voce
Desculpa se eu duvidei do seu bom coraçao
As coisas parecem sempre terminar antes de começar
Oi, sou eu, aquela sua exposiçao foi genial
O seu papel de parede de vacas e os travesseiros prateados flutuantes
Queria ter prestado mais atençao quando riram de voce
Oi, sou eu
"Artista pop dança", dizia a manchete
"O tiro é encenaçao, ou o Warhol está mesmo morto?"
A pena por roubo de carros é maior
Lembro de pensar enquanto ouvia o meu próprio disco em um bar
Eles te odiavam de verdade, agora tudo aquilo mudou
Mas tenho alguns ressentimentos que jamais poderao ser desfeitos
Voce me bateu bem onde doía, eu nao ri
Teus diários nao sao um epitáfio digno
Mas agora entao, Andy - acho que está na hora de ir
Espero que um dia, de algum jeito, voce goste desse showzinho
Sei que chegou tarde, mas só sei fazer assim
Oi, sou eu - Boa noite, Andy
Adeus, Andy

Por fim, aqui, mas nao na ordem cronológica mantida por Atravessar o Fogo, Boulevard Barra-pesada (1989) ilustra o quanto de crítica social há no supostamente hedonista e altamente pessoal Reed. A imagem do garoto latino sem-teto que sonha aprender uma mágica que o faça voar de sua vida miserável é inesquecível.

Boulevard barra-pesada (Dirty Blvd.)

Pedro mora do lado de fora do Hotel Wilshire
Ele olha por uma janela sem vidro
As paredes sao de papelao
O chao, de jornal
E ele apanha do pai porque está cansado demais para ir pedir esmola
Ele tem nove irmaos e irmas
Eles sao criados de joelhos
É difícil correr quando suas coxas sao espancadas com um cabide
Pedro sonha em crescer e matar o velho
Mas a chance é mínima, ele está indo pro boulevard
Este quarto custa dois mil dólares por mes
Podes crer, cara, é verdade
Em algum lugar o proprietário está rindo de se mijar nas calças
Ninguém aqui sonha ser médico ou advogado ou o que quer que seja
Sonham em traficar no boulevard barra-pesada
Me traz teus famintos, teus exauridos, teus pobres, vou mijar em cima deles
É isso que diz a Estátua da Intolerância
Tuas pobres massas em desordem _ vamos matá-las a pauladas
E acabar logo com isso e simplesmente desová-las no boulevard
Está uma bela noite lá fora, tem ópera no Lincoln Center
E estrelas de cinema chegam de limusine
Os refletores lançam seu facho sobre a silhueta de Manhattan
Mas as luzes passeiam pelas ruas miseráveis
Um garotinho está perto do Lincoln Tunnel
Ele está vendendo rosas de plástico por um dólar
O tráfico está todo na rua 39
As putas da TV convidam os tiras para um boquete
E, de volta ao Wilshire, Pedro fica a sonhar
Ele achou um livro de mágica numa lata de lixo
Ele olha as figuras e mira o teto rachado
"Quando contar até tres", ele diz, "quero poder desaparecer"
E voar, voar para longe

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The Jimi Hendrix Experience – Crosstown traffic
Nantes – Here, there and everywhere

Titãs – Lugar Nenhum
Os Replicantes – O Futuro é vortex
Plebe Rude – Seu jogo
Camisa de Vênus – Só o fim
Ira – Núcleo Base (instrumental)

Giovanni Caruso – Acontece nas melhores famílias
Mordida – Festa Jovem
( Drop Loaded )

Pós-Guerra – Ravachola
Walls of Jericho – Revival never goes out of style
Yeah Yeah Yeahs – Art Star
Cansei de ser sexy – off the Hook
Sonic Youth – Bull in the Heather
Jefferson Airplane – Somebody to Love
Mutantes – Hey Boy
(por Lauro Francis)

Undertones – The True confessions
Eddie & The Hot Rods – Teenage depression
The Heartbreakers – Born to loose
The Dictators – Two tub man

Lou Reed – “Berlim” + “Metal Machine Music”
# The Bed
# How do you think it feels
# Sad song
# MMM I

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Indie on The Run: bandas brasileiras homenageiam Paul McCartney em coletânea


Você gosta de música? Se a resposta for sim, e é possível imaginar que a enorme maioria da população mundial responda afirmativamente, vamos propor uma brincadeira: pense nos Beatles. Pensou? Discos, histórias, canções. Várias coisas devem ter passado por sua cabeça neste fragmento de tempo, mas a brincadeira (de tons negros) segue pela via contrária: imagine um mundo sem os Beatles. Seria possível?

Sim, seria possível, claro, mas com certeza seria bem mais triste, menos inventivo e não seria nada estranho acreditar que ainda vivêssemos na idade das pedras da música pop. Buddy Holly, Chuck Berry, Carl Perkins e Phil Spector (para citar quatro nomes presentes nas famigeradas Decca Tapes) vieram antes, mas John, Paul, George e Ringo conseguiram absorver a História (com H maíusculo) e mudar o mundo tendo em mãos apenas guitarra, baixo, bateria e vocais. Parece sonho.

E não é a toa que, para milhares de pessoas, a passagem de Paul McCartney pelo Brasil seja encarada como sonho. Paul, um dos dois beatles vivos, era o melodista, o baixista canhoto objeto de inúmeras histórias surreais (a mais famosa diz que ele morreu em 1966) capaz de construir delicadas canções como “Yesterday”, melodias orquestrais como “Eleanor Rigby” ou explosões roqueiras como “Helter Skelter”.

Paul chega ao Brasil em um momento histórico que remete muito ao começo dos anos 60. A derrocada da indústria aliada ao boom da internet está desenhando um novo cenário do qual ninguém tem idéia de onde vai parar. Assim como quando os Beatles começaram, ninguém sabe o que vai acontecer. Daqui pra frente é tudo novidade. Pode soar assustador, mas também é instigante.

Não deixa de ser sintomático, então, ver a nova geração brasileira deitar-se sobre o repertório de Paul para uma revisão especial. Gente como Tulipa Ruiz e Apanhador Só, donos de dois dos grandes álbuns da música brasileira do ano, mais Vivendo do Ócio, The Name, Monique Maion, Sabonetes, Instiga, Seychelles e muitos outros que mostram nesta seleção organizada pelo Rock ‘n’ Beats que, apesar de estarmos em 2010, ainda é possível sonhar.

Voltando a questão inicial, caro leitor, você gosta de música? Se sim, divirta-se.

Texto de apresentação por: Marcelo Costa (Editor do Scream & Yell)

Arte por: Téo Brito

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Get Back

Antes de ser uma música, é um marco. Em cima de um telhado, ela anunciava aquela que era a última apresentação da carreira dos Beatles. Só foi lançada posteriormente, em 1970, no álbum Let It Be, que, depois de muita história envolvida, saiu pelas mãos do produtor Phil Spector.

Reza a lenda que, durante os ensaios, Paul McCartney cantava o refrão (Get back to where you once belonged) olhando para Yoko Ono, a semente da discórdia do Fab Four.

Temporary Secretary

Temporary Secretary é um dos singles de McCartney II (1980), primeiro álbum de Paul depois do fim do Wings. Talvez esta seja uma das músicas mais peculiares já lançadas em todos os cinquenta anos de carreira do Sir, já que faz uso de sintetizadores abusados e de letra e voz cheias de deboche que a transformam em algo irritantemente convidativo.

Quando lançada, teve como B-side a também curiosa Secret Friend, uma viagem de impressionantes dez minutos.

All My Loving

Um dos grandes pontapés para a fase mais desesperadora da beatlemania. Transbordando juventude, Paul criou a carta que todas as mocinhas dos anos sessenta gostariam de receber de seus pretendentes que iriam passar um tempinho fora, combinada com uma melodia simples e radiofônica. Carro-chefe de With The Beatles (1969), foi uma das únicas composições para a qual Macca fez a letra antes da melodia.

Here, There And Everywhere

Se Yesterday não existisse, talvez Here, There And Everywhere ganhasse mais destaque e fosse uma das canções mais regravadas da história. Macca já declarou ser esta uma de suas composições preferidas na fase beatle, e assim pensava também John Lennon. Presente no impecável Revolver (1966), é mais um ode ao amor direto, sincero e profundo tão pregado em várias de suas composições, e que é um dos principais elementos que o qualificam como um dos melhores compositores de todos os tempos.

Dance Tonight

Dance Tonight é uma composição simples, quase bobinha, que se estivesse nas mãos de Lady Gaga, ou algo assim, seria trabalhada de uma maneira chiclete para as pistas de dança. Mas a graça vem de um bandolim, que lhe dá um ar de celebração tranquilizante. Foi a última música a entrar em Memory Almost Full (2007), último álbum lançado por McCartney, e nasceu depois de um momento gracinha-de-bebê de sua filha caçula Beatrice, que dançou ao som do instrumento.

Blackbird

Blackbird é daquelas músicas que nunca saem da mente. Presente no álbum The Beatles (Álbum Branco) de 1968, a faixa tem acompanhamento de violão inspirado em “Bourée em mi menor”, de Bach, e revela uma estrutura não usual, mas que encontra perfeito espaço. Segundo o próprio Paul, a canção é uma manifestação em relação aos conflitos sociais e direitos civis na América efervescente com as palavras de Martin Luther King, mas sobretudo à figura da mulher negra envolvida na questão.

Ram On

Lançada em Ram (1971), segundo álbum solo de Paul, a música, em seus menos de três minutos, tal como um mantra, mostra o beatle em sua forma minimalista. Verdadeiramente, a canção retrata um Paul apaixonado entregando seu coração a Linda embalado somente por voz e violão, marcando a fase pós-Wings.

Fine Line

Fine Line é o primeiro single de Chaos and Creation in the Backyard, álbum de 2005. A música mostra a boa performance de Paul ao piano e demonstra que será o instrumento dominante da faixa. Lembrando muito a fase Wings, Fine Line carrega como no álbum anterior, Driving Rain (2001), a grande marca de Paul: o contrabaixo que vibra e que até hoje se mostra influente na música pop.

She’s Leaving Home

“She’s Leaving Home” é uma das tantas pérolas do álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band de 1967, e surgiu de de uma notícia publicada no Daily Mail que narrava a história de uma jovem de dezessete anos que fugira de casa sem que seus pais soubessem. Embora pouco objetiva, a matéria foi suficiente para que Paul trabalhasse algumas melodias para depois ganhar o refrão característico, feito por John. Curiosamente, nesta canção nenhum beatle toca um instrumento: apenas a marcante orquestra de cordas confere a musicalidade necessária para que a canção tivesse a pureza daquele relato de jornal.

Good Day Sunshine

Good Day Sunshine é a canção ensolarada de Revolver (1969). Para escrevê-la, Paul contou com uma ajudinha de John Lennon, que faz os coros no refrão na companhia de Geroge Harrison. É tão repleta de boas vibrações que constantemente é utilizada como despertador nas missões do Ônibus Espacial da NASA.

Coming Up

“Eu estou crescendo, crescendo como uma flor”. É assim que Paul inicia McCartney II (1980). Com todos os instrumentos gravados por ele e sua esposa, Linda, a música agradou até mesmo a John Lennon, mas não era de todo novidade: ela já vinha sendo executada em algumas apresentações ao vivo do Wings.

Junk

Junk foi feita originalmente para The Beatles/White Album (1968), depois entraria em Abbey Road (1969), mas acabou em McCartney (1970), primeiro álbum solo de Paul. Escrita durante a lendária viagem do Fab Four à India, é um jogo de palavras que segue uma linha de raciocínio -- a dele, é claro. Possui uma versão instrumental, Singalong Junk, também inclusa no álbum.

I’m looking through you

I’m looking through you é uma das canções que marca a separação entre as duas fases mais marcantes dos Beatles: a beatlemania e as experimentações e instrumentos diferentes, entre as canções de amor e as mais sofisticadas musicalmente. Nela, Paul avalia o seu relacionamento com Jane Asher e mostra a maturidade que vinha a crescer nos garotos, ainda na época do Rubber Soul (1965).

You Wont See Me

You Won’t See Me, mais uma música sobre Jane Asher, nunca fez parte do repertorio de shows dos Beatles, mas a canção de Rubber Soul (1965) já foi tocada em muitas vezes por Paul, principalmente na turnê de 2005/06. A música mais longa dos Beatles até então, conta com Mal Evans, o gerente de turnê, tocando orgão.

Teddy Boy

“Essa é a história sobre um garoto chamado Ted” -- a melhor maneira de se explicar a música é justamente os primeiros versos dessa canção. Originalmente escrita para os Beatles, a música chegou a ser gravada algumas vezes, mas por causa das tensões na época de Let It Be, não havia sido finalizada. Com o fim da banda, Paul a regravou, e essa faz parte de seu primeiro disco solo, McCartney (1971)

Check My Machine

A primeira música gravada do McCartney II (1980) era para ser apenas um teste de equipamentos, mas acabou sendo lançada como lado b de Waterfalls. Assim como grande parte do álbum e diferentemente do resto do trabalho de Paul solo, a música tem uma pegada bem eletrônica, e é possível se ouvir um sample com a voz do Eufrazinho (sim, o desenho da Warner Bross) no íncio.

Say Say Say

Say Say Say é uma lembrança de tempos felizes quando dois gênios da música, Paul McCartney e Michael Jackson, ainda eram amigos e compunham juntos, antes do Rei do Pop resolver comprar os direitos autorais dos Beatles. A canção checou ao topo das paradas de sucessos, mesmo tendo seu clipe censurado na televisão americana. O divertido vídeo conta ainda com a participação de Linda McCartney e LaToya Jackson.

Drive my car

“Yes I’m gonna be a star, and maybe I love you” disse Paul em Drive My Car, mas a verdade é que ele já era um rockstar amado em 1965. No entando, a canção do Rubber Soul, como o músico já descreveu era um número de comédia inpirado em um “eufenismo para sexo vindo do blues”. A música teve a participação de Lennon em sua letra, que criou o título e queria lhe deixar um pouco mais apimentada, ou pelo menos o tanto que se era possível nos anos 60.

Every Night

Composta durante uma viagem para a Grécia, Every Night está em McCartney (1970). A belíssima música consegue ser sofisticada usando instrumentos simples e ser romântica fugindo do clichê. É uma ruptura com os Beatles para o ínicio do trabalho solo de Paul. Conta com o backing vocal de Linda, que caí perfeitamente bem com a estrutura da canção


quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Sepultura Weissbier

Em 2009 o Sepultura completou 25 anos de existência. Não são muitos que completam um quarto de século e ainda tem muita inspiração para se aventurar em novos terrenos. Depois de 12 discos, mais de 15 milhões de cópias vendidas, shows nos 5 continentes, o Sepultura se reúne para um trabalho diferente. Não é mais um álbum, não é mais um show. O Sepultura desenvolveu sua própria cerveja para brindar os 25 anos de estrada junto com seus fãs! A primeira cerveja de uma banda brasileira é produzida pela Fábrica do Chopp, microcervejaria de São Paulo. A cerveja Weiss do Sepultura foi selecionada entre distintas fórmulas, chegando a um sabor e aroma que agradasse os quatro membros da banda. Com o aval de Andreas, Derrick, Jean e Paulo, os fãs podem ouvir as músicas do grupo acompanhadas com a cerveja do Sepultura.

A cerveja de trigo, original da Bavária na Alemanha, já foi privilégio de reis e príncipes. A partir da década de 80, os fãs de cerveja redescobriram seu sabor e espalharam desde a Bavária para todo o mundo uma onda de Weissbier, que instigou cervejeiros de todos os cantos do planeta. O seu apelo internacional tomou de assalto o Reino Unido, os Estados Unidos e muito outros países que hoje produzem a cerveja de trigo, seguindo a tradição da Weissbier Bávara. Geralmente a cerveja de trigo não é filtrada, conferindo uma aparência opaca, mas muito clara, com espuma branca e sempre efervecente.

INFORMAÇÕES

Fabricado e engarrafado por RPM Industria e Comércio de bebidas LTDA Composição: Água, malte de trigo e ceveda. Lúpulo e leveduras.

PRIMEIROS PONTOS DE VENDA

Melograno / Kia Ora / O´Malleys / All Black / Rhino Pub / Fã Clube Sepultura (Galeria do Rock) / Retro Pub / Privileggio: Shopping Parque Dom Pedro / Metal Mania / Fabrica do Chopp / D´Nices Café / Sal Gastronomia / Grainnes

Preço sugerido para o kit: 2 garrafas + copo especial + bolachas exclusivas: R$60

Cerveja avulsa: R$18

Cerveja de trigo, de alta fermentação, não filtrada
Apresenta aroma frutado de maçã e cravo
Fermentação método champagnose
Elaborado com matérias primas importadas.
100% de malte de trigo, conforme a lei de pureza alemã
Teor alcóolico: 4,5%
Volume: 600m





quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Gothic pelourinho

Há um bom numero de anos atrás, na segunda metade da década de 90 do século passado, lembro-me de estar no show de lançamento do primeiro disco ao vivo do brincando de deus no pelourinho, em Salvador. Ao ver no telão um vídeo de Morrissey, comentei como era inusitado assistir o bardo de Manchester em pleno centro Histórico da Bahia, coração da cultura afro-brasileira. Não havia, evidentemente, nenhuma conotação pejorativa em minha observação, mas ela despertou uma lembrança em meu camarada Rogério Big Brother, que estava ao meu lado, e ele retrucou: “Que nada, aqui no Pelourinho se vê de tudo. Tempo desses a gente tava voltando pra casa de madrugada quando vê um gringo bêbado sendo “escoltado” por duas putas. A fisionomia do cara nos pareceu conhecida, quando chegamos perto, era Jimmy Page! Ao ver nossa cara de assombro, as putas perguntaram se a gente conhecia aquele gringo e sabia onde ele estava hospedado”.

Igualmente inusitado foi viajar à Bahia, novamente ao Pelourinho, para ver um evento de música gótica “underground”. De alguns anos pra cá tenho sentido que Salvador está se tornando mais cosmopolita, mais aberta a uma maior diversidade cultural, muito provavelmente por conta de uma nova política pública mais democrática e pluralista advinda com o fim do “carlismo” e sua “máfia do dendê” – não por acaso, o evento tinha o patrocínio do Governo do Estado. Fico feliz com isso, até porque a capital baiana fica perto de Aracaju e nós poderemos também, a princípio, desfrutar desses novos tempos.

Chegamos à Praça Teresa Batista por volta das 18:30. A primeira banda a se apresentar na noite já estava no palco – não sei qual era o nome da mesma, mas a julgar pelo que estava no cartaz, era “Inominável”. Uma sonoridade calcada no punk rock que se fazia por aqui no início da década de 80, ou seja: tosco, simples, direto, cru. Uma coisa curiosa sobre as bandas de Salvador é que elas, quando não estão entre as melhores em seu estilo (vide Dead Billies, Retrofoguetes, Headhunter DC, Mystifier, Vendo 147 e a já citada brincando de deus), tendem a ser extremamente caricatas, beirando o bizarro. Era o caso da Inominável, que tinha como “frontman” um figuraça esquisito trajando um vestido horrível (não sei de onde aquele cara tirou a idéia de que ele iria ficar legal daquele jeito). Não teria sido nada demais se a falta de bom senso não tivesse feito com que o show se arrastasse por um tempo mais do que o razoável para o tipo de som que eles fazem, numa interminável sucessão de sons que mais pareciam esboços de musicas - algumas, inclusive, instrumentais, o que é ridículo em se tratando de uma banda que, assumidamente, não sabe tocar.

No intervalo, discotecagem. Não é a minha praia, definitivamente, mas uma DJ simpática mandou bem nuns EBMs pesadões que colocaram a galera pra dançar. Enquanto isso, no palco, a segunda banda, Latromoden, se preparava. Tratava-se, na verdade, de uma dupla, um vocalista + um guitarrista acompanhados por bases pré-gravadas. Depois de uma interminável introdução, começa a musica propriamente dita, e mais uma vez minha teoria de botequim sobre o rock baiano se confirma: tratava-se de um pastiche de pós-punk, com clima etéreo e andamento extremamente lento, além daquelas letras pseudo-poéticas e depressivas típicas das bandas “dark” brasileiras da década de 80. O visual e os trejeitos do vocalista, no palco, eram tão caricatos que chegava a ser involuntariamente cômicos, ainda mais quando levamos em conta o figurino da criatura, com seu cabelo “lambido” de gel terminando num minúsculo “rabo de cavalo”, blusa vermelha e calça e luvas de couro pretas. Parecia uma espécie de “Wando gótico”. Aliás, acho que foi a banda mais “gótica” que eu já ouvi em toda a minha vida, com frases do tipo “não há remédio para o caos ou para o tédio, somente o suicídio” proferidas numa expressão desesperada por Robson “Sinistro” (sim, é esta a alcunha do rapaz), que até que tem um vozeirão legal, assim como o som deles não é de todo ruim, tem belos climas, bons arranjos e guitarras poderosas, mas “viajam” demais no “darkismo”. Fiquei até imaginando: seria realmente impressionante se um cara desses se matasse pra valer no palco. Todo mundo lá distraído de repente se ouviria um pipoco e pá, tá ele lá, morto, estendido no chão. Aí, sim, ia passar a levar a sério todo aquele discurso enfadonho (antes que alguém me acuse de desejar a morte do rapaz, é brincadeira, ok ? Apenas um devaneio besta de uma mente entediada tentando se distrair, e se ele pode – fez questão de ressaltar para a platéia que era brincadeira o papo de suicídio na letra – eu também posso). Mas não, muito pelo contrário, o cara (e parte do público) estava era se divertindo, alguns com a banda, outros RINDO da banda, como um figura ao meu lado que exclamou “ih, então o problema é esse, o cara é brocha” ao ouvir a letra de “Elizabeth”, outra desesperada canção de amor depressiva que dizia a certa altura: “ás vezes eu tento FODER você e não consigo”. A julgar pela reação de alguns fãs entusiasmados e do que tenho lido na net, tem quem goste, mas eu, de minha parte, só consegui ficar espantado com o “goticismo” das criaturas. Fiquei no meu canto comendo meu churrasquinho de gato com guaraná, apreciando mentalmente o espetáculo de imagens de cadáveres frios de musas repousando entre rosas e espinhos que saía da boca do vocalista. A partir daquela noite, “latromoden” virou sinônimo de depressão, algo do tipo “nossa, você acordou meio latromoden hoje, heim”. Ah, Salvador ...

Mas enfim, o motivo de nossa presença (minha e dos que me acompanhavam) era ver, finalmente, um show decente dos cearenses da plastique noir, já que o que tinha visto em Recife, no Abril pro rock, foi tumultuado e cheio de falhas técnicas. Não me decepcionei, felizmente. Antes deles, no intervalo, mais um DJ na pista, só que desta vez mandando uma discotecagem totalmente voltada para o rock brasileiro, especialmente o dos anos 80, com direito, inclusive, a algumas pérolas da new wave brasuca que há tempos não ouvia, como “Beat acelerado”, do Metrô. Poderia ter sido legal, mas o cara não era bom, não tinha a menor noção de como enfileirar musicas que seguissem um padrão sonoro coerente ou uma unidade conceitual, o que resultou numa sopa indigesta que misturava Nação Zumbi (???!!!) com Camisa de Vênus e Hard core no mesmo caldo. Resultado: pista vazia.

Plastique Noir é a melhor banda do estilo (gótico/Darkwave) no Brasil. Não são nem um pouco originais, mas conseguem emular o som que era feito por grupos como Clan of Xymox e Sisters of mercy nos anos 80 de forma extremamente competente e com boas composições, o que é importante para que não se tornem uma cópia mal-acabada de tudo o que veio antes. Muito pelo contrário, são daquelas bandas que você ouve e pensa “isso parece muito com Joy Division, mas não é Joy Division. E é bom”. É como se você estivesse ouvindo uma música do Joy Division que nunca tinha ouvido antes – o que é o caso da primeira composição mais nova que eles executaram – e eu não consigo imaginar um elogio maior que este. Grande som, assim como muito boa também foi a segunda das três inéditas que pontuaram o show. Só não gostei muito da última, que encerrou a apresentação, um tanto quanto arrastada e com um ritmo meio “truncado”. Mas nada que pudesse estragar a apresentação como um todo, que foi excelente, com direito, evidentemente, a verdadeiros “clássicos” como “Those Who walk by the night”, “Imaginary walls” e “Creepshow”. Daniel estava lá cavucando seu baixo, mazela mandando muito bem nos dedilhados e nas “caras e bocas” e Airton S. perfeito, disparando programações e batidas poderosas entre vocais cavernosos, emoldurado por um belíssimo topete “à La Morrissey”. O som estava muito bom e desta vez tudo correu bem, beirando a perfeição. Só o público eu achei meio perdido no espaço, mas Mazela agradeceu no microfone a presença de todos e falou que público de lá “agitava muito” – então tá, ou ele estava sendo “político” ou realmente estava sendo bom para eles, e se estava bom para eles e bom para mim e para as pessoas que vieram comigo, que se divertiam a olhos vistos, o resto que se foda. Foi excelente.

É isso. Espero que as coisas REALMENTE mudem na “cidade do axé e do amor” e eu tenha mais e mais motivos para me deslocar para lá, já que aqui em Aracaju, do jeito que as coisas estão, está difícil de ver ao vivo uma banda como a plastique noir, que tem um público tão, digamos, “específico”. O resto da viagem transcorreu numa boa, mas com direito a alguns episódios pitorescos, afinal estávamos em Salvador – em um deles um de meus companheiros de jornada foi ingenuamente ludibriado por uma cigana que o “tocaiou” num canto em frente ao Mercado Modelo, pediu para que ele colocasse a nota que tinha no bolso (20 reais) na mão e soprasse, só para vê-la sumir misteriosamente. “Onde está meu dinheiro?”, perguntou ele – “tá com o Senhor do Bomfim”, respondeu ela.

Ah, Salvador ...

por Adelvan