quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O "Showmício" de Jello Biafra & The Guantánamo School of medicine


Em boa forma, Jello Biafra revive Dead Kennedys, mostra músicas do trabalho recente e aproveita para espalhar discurso de extrema esquerda ao público carioca.


por Marcos Bragatto
Fonte: REG

Era uma noite fadada a comparações com o longínquo ano de 1992, quando um Circo Voador lotado recebeu o eterno líder do Dead Kennedys, Jello Biafra. Na ocasião, ele tocou umas músicas com o combinado Ratos de Porão/Sepultura/Ministry e se jogou sobre o público, sendo resgatado com a camisa espatifada pela turba punk. Foi com essa visão que cerca de 800 punks e ex-punks de todas as idades foram ontem à noite ao Teatro Odisséia, no Rio. Jello veio à Eco 92 (conferência que reuniu líderes mundiais para discutir problemas ambientais em pleno governo Collor) só para protestar, e ontem, apesar de trazer o show completo de sua nova banda, a Guantanamo School of Medicine, fez o mesmo: aproveitou para pregar a ideologia de extrema esquerda do último dos punks de verdade.

Jello entra no palco vestido de médico e logo mostra uma camisa social com a bandeira americana em estampa gigante, só que de cabeça para baixo. Aos 52, mostra excelente forma, se mexendo sem parar e fazendo uma espécie de mímica que interpreta a letra de suas músicas. Em “Electronic Plantation”, por exemplo, que mira o extenuante trabalho em computadores, ele imita um digitador num teclado imaginário que trabalha demais, leva bronca do chefe e ganha pouco. Além disso, usa uns três minutos no início de cada música para explicar do que trata a letra, só que sempre em inglês. Em “New Feudalism”, denuncia que o ex-presidente George Bush queria implantar nos Estados Unidos o “sistema brasileiro, com poucos muito ricos e muitos muito pobres”. Entendendo o recado de uma forma ou de outra, o que vale é que o público agita sem parar, em apertadas rodas de pogo e moshs que faziam lembrar os tempos áureos do Dead Kennedys.

A coisa só esquentou pra valer com “California Über Alles”, clássico do hardcore mundial que levou a casa, de elam chique, a sucumbir ao punk rock de raiz. Foi a primeira das inúmeras vezes em que Jello se jogou sobre a platéia ensandecida. Outras seis músicas dos Kennedys foram incluídas no repertório, incluindo a esperadíssima “Holiday in Cambodia”, que fez um ensandecido fã despencar do mezanino de quase cinco metros de altura – consta que sobreviveu. Mas o público não reclama das novas, que formam a íntegra do único álbum do Guantanamo School Of Medicine, “Audacy Of Hype”, lançado no ano passado. Tampouco deixa de aplaudir a verdadeira pregação, afinal de contas é Jello Biafra, o maior ícone punk em todos os tempos, que está ali, a poucos metros de distância.

O som do grupo também contribui, já que boa parte das músicas lembra muito a pegada do Dead Kennedys, se é que isso é possível. O guitarrista Ralph Spight, por exemplo, emula East Bay Ray em várias músicas, como em “Pets Eat Their Master” e “Dot Com Monte Carlo”. Mas há boas novidades também: a pesada “Panic Land” e “The Cells That Will Not Die” ficam certamente entre as melhores da noite. Jello lembra da passagem da Eco 92 e diz que “nada aconteceu depois desse encontro de políticos, porque eles estão sempre bêbados demais”. Foi a deixa para outra dos Kennedys, “Too Drunk to Fuck”.

Jello dedicou a última música, “I Won’t Give Up”, ao amigo Renato Russo e a todos que – como diz o título - não se rendem. Outros temas recorrentes dele são a guerra, as grandes corporações, o cartel de drogas, a Coca-cola, o McDonald’s e blábláblá. Só vacilou ao elogiar o “partido verde brasileiro pelo desempenho histórico nas últimas eleições”. Mal sabe ele que, aqui, os verdes são tão comprometidos com as mazelas políticas com qualquer outro partido. Mas quem se importa? O que contou mesmo foram as duas horas de pogos e moshs desgovernados, sem, entretanto, uma briga sequer. Igualzinho ao show de 1992.

Set list completo:

1- The Terror of Tinytown

2- Clean as a Thistle

3- New Feudalism

4- Electronic Plantation

5- California Über Alles (Dead Kennedys)

6- Panic Land

7- Let’s Lynch the Landlord (Dead Kennedys)

8- Three Strikes

9- Strength Thru Shopping

10- Dot Com Monte Carlo

11- Pets Eat Their Master

Bis

12- The Cells That Will Not Die

13- Holiday in Cambodja (Dead Kennedys)

Bis

14- Police Truck (Dead Kennedys)

15- Too Drunk to Fuck (Dead Kennedys)

16- Bleed for Me (Dead Kennedys)

Bis

17- Moon Over Marin (Dead Kennedys)

18- I Won’t Give Up

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Gigante Animal em Aracaju

A apresentação de uma banda estranha aos domínios de nosso conhecimento sempre oferece oportunidade para o confronto de certezas estabelecidas. Temos todos pré-conceitos, inclinações, preferências. Temos afinidades inexplicáveis, que desobedecem a qualquer tentativa de racionalização. De vez em quando, no entanto, um forasteiro chega de outro mundo – um planeta vermelho ou o apartamento do vizinho –, só para abrir uma janela desmedida na parede sólida de nossa apreciação.

Esta semana, o Capitão Cook abriga a etapa sergipana da turnê que os paulistas da Gigante Animal realizam pelo Nordeste. A banda é competente, dá conta do recado e ainda conta com a presença de Babalu em seus quadros. O cabra é filho da terra, velho conhecido da cena sergipana. A energia empregada pelo batera em bandas como a Karne Krua e Triste Fim de Rosilene promete uma performance cheia de empolgação.

Para minha surpresa, entretanto, a principal atração da noite não é a mais digna de curiosidade. A ocasião que propicia a necessária aparição das locais Perdeu a Língua e Nautilus – que cometem verdadeira injustiça com o próprio trabalho, manifestando-se tão raramente – revela ainda a maturidade alcançada por nossos músicos mais jovens. Depois de conferir o Myspace das três bandas que fazem a festa no Cook, não tenho dúvidas de que a instrumental de nome sugestivo tem tudo pra roubar a cena.

Com a boca cheia – Reza o ditado que em boca fechada não entra mosca. Eu, que já me familiarizei com o sabor da iguaria, faço ouvidos moucos e insisto no impulso de emitir opinião. Não existe dúvida de que a grande atração da noite é mesmo a apresentação da Gigante Animal. Se fosse preciso apostar minha fortuna em um nome, contudo, a instrumental Perdeu a Língua correria o risco de voltar pra casa com os bolsos pesados.

A história do grupo é relativamente recente. A banda surgiu em meados de 2006, por iniciativa do baterista Tiago Babalu e dos guitarristas Luiz Oliva e Alex Prado, durante uma turnê da saudosa Triste Fim de Rosilene. Após o fim da caminhada pelo nordeste, os caras convidaram o baixista Maneu para tomar parte na empreitada. O resultado agradou, mas os caras se dividiram entre trabalhos paralelos (a exemplo da Snooze, Karne Krua e a paulista Debate) e acabou no que deu. Um projeto fantástico, encostado, sem atividade.

De qualquer modo, o som do quarteto é muito divertido. Com estrutura calcada no formato clássico do rock (Guitarra/Baixo/Bateria), o Perdeu a Língua agrega em sua sonoridade um espectro musical abrangente, tendo como resultante uma estrutura livre e sem amarras, que permeia desde o fraseado nordestino revisitado até o rock mais autêntico.

Para além do que informa o release da banda, é preciso mencionar ainda a habilidade de seus músicos. Não é qualquer neguinho que passeia por gêneros diversos, até mesmo antagônicos, com tanta desenvoltura.

Entronado no esforço de minhas peregrinações, eu julgava que conhecia tudo o que importava na música sergipana de nossos dias. Pra minha surpresa e felicidade, a banda Perdeu a Língua afastou o enfado dessa perspectiva e me provou que não.

Fonte: Spleen & Charutos

por Rian Santos


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Sobre a Gigante Animal:

O Gigante Animal é do tamanho da atual fase do rock independente nacional. Nem tão lá nem tão cá, o quarteto formado em 2006 demonstra cuidado e sofisticação tanto na produção como no resultado final, que por si só informam muito sobre suas virtudes. Em todos os quatro EPs gravados, cada um com três sons, a produção é esmerada. A cada passo, o grupo compartilha o processo de descobrimento das próprias potencialidades, como quem descobre o amor – ao vivo, o grupo é uma experiência passional de timbres, variações e harmonias.

O que é apenas sugerido nas letras um tanto vagas é preenchido pelos sons – tal qual o nome da banda, uma síntese de estranheza e retidão. A distribuição dos EPs é feita nos shows e com base na troca de e-mails: você manda uma mensagem e leva um dos EPs, acompanhado de um link pra baixar os que faltaram. Esse equilíbrio entre expor a procura pela musicalidade e se colocar criativamente no mercado, combinado com o já referido estranhamento, são a marca de um determinado segmento da música urbana jovem atual.

Tomemos trechos do último trabalho da banda, “Ténn”: “E esse cinza que não passa/ sem graça, passará!” (de “Cinza”), “depois pra sempre não há/ quem disse que pra sempre será?” (de “Ah, Tá Bom”) e “passa passa passará/ seus dias nunca vão voltar/ passa passa passará/ tenho medo de me arrepender/ a seco, acertos descontos” (de “Pelo Reflexo”), recortes que passeiam, ao fim e ao cabo, pela perda da inocência e por ritos de passagem à moda dos melhores romances de formação.

E, assim como o talento dos recifenses do Nuda, que em muito se irmana com o Gigante, a fórmula musical é o que poderíamos chamar de pós-Los Hermanos: romantismo jovem, um hibridismo que busca a amenização de temas locais e estrangeiros. Mas, enquanto o Nuda se vale de cores vibrantes e tropicais para alcançar tal empreitada, o Gigante se esmera no reaproveitamento do combalido indie rock saído do pós-hardcore estadunidense. E é nesse método de tentativa e erro tão abertamente exposto que reside o interesse em acompanhar o amadurecimento estético do grupo – ainda que tudo, por fim, fique cinza.

Por Arthur Dantas

Fonte: +Soma

O Iron Maiden vem aí ...


De novo ! E desta vez eu juro, em nome do adolescente espinhento que eu era ouvindo incansavelmente "live after death" no som de casa assim que meus pais saíam no domingo à noite para ir à missa, que eu vou (ano passado não fui porque tive que escolher, e escolhi o Motorhead).

A.

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Lançamento: Trupe metálica liderada há mais de 30 anos por Steve Harris, com mais um álbum de prog metal nas paradas, anuncia shows em 6 cidades brasileiras em 2011.

The Final Frontier / Iron Maiden / EMI Music / R$ 29,90 (edição simples) / R$ 39,90 (edição especial, na caixinha de lata)

Edward é um monstrinho danado. Desde que desencarnou, no Vietnã, tornou-se alma penada, serial killer, foi ao inferno, ao hospício, foi mumificado, viajou para o futuro, voltou, invadiu videogames, tornou-se rei e agora, novamente, aparece em um ambiente de FC, no novo álbum dos seus patrões do Iron Maiden, The Final Frontier.

Eddie, o mais famoso mascote do rock, criado pelo desenhista inglês Derek Riggs – inspirado em uma imagem da guerra do Vietnã que mostrava a cabeça em decomposição de um soldado sobre um tanque inimigo – é só a desculpa para a banda, com mais de 30 anos de atividades, escrever mais um capítulo dessa história.

A exemplo do AC/DC e Ramones, o Iron Maiden é uma daquelas bandas que, se mexer demais na receita original, estraga – sem contar a gritaria que poderia gerar entre os fãs.

Desta forma, The Final Frontier traz o grupo liderado pelo baixista Steve Harris em sua forma pura: são dez faixas do típico heavy metal britânico (estilo formatado por eles mesmos, 30 anos atrás), todas com aquela pegada épica, quase operística, com letras quilométricas, solos dobrados de guitarra e linhas de baixo galopante.

Apesar de soar como o Iron Maiden de sempre, é notável como o pendor para o rock progressivo – uma influência assumida de Steve Harris desde o início da banda – parece ter dominado o repertório mais recente. Todas as faixas são suítes: longas e cheias de fases.

Para dar uma ideia, o primeiro single do disco, El Dorado – possivelmente, a faixa mais legal e amigável do álbum –, tem mais de seis minutos. E é uma das menores músicas.

Satellite 15... The Final Frontier (com 8,41 minutos), que abre o disco, fica ótima depois da introdução, de 4 minutos. E assim, o CD vai. Os fãs de sempre vão curtir.

Já a molecada, deve estar ouvindo Avenged Sevenfold.

Volta ao Brasil em 2011

Como já virou tradição, a banda volta ao Brasil a cada turnê de CD novo, e a cada tour, a lista de cidades que recebem o Maiden só aumenta. Em 2011, eles tocam em São Paulo (dia 26 março), Rio de Janeiro (dia 27), Brasília (30), Belém (1º de abril), Recife (dia 3) e Curitiba (5).

por Franchico

Rock loco



terça-feira, 9 de novembro de 2010

FESTIVAL DOSOL 2010


Terminou na madrugada deste último sábado a festa de abertura da edição deste ano do Festival Dosol, e o batismo não poderia ter sido melhor. Amp, de Recife, e o misterioso Love Bazukas, ambos especializados em tocar o chamado “rock de verdade”, despejaram guitarras amplificadas em altos decibéis sobre o público. O Centro Cultural Dosol recebeu uma platéia formada, em sua maioria, por integrantes de outras bandas escaladas para o festival, convidados, patrocinadores e imprensa. Começa efetivamente hoje, no Largo da Ribeira, na Rua Chile, a sétima edição do Festival.

Quem conhece a música do Amp não tem dúvidas. O quarteto sempre bebeu na fonte do stoner rock consolidado nos final dos anos 90, mas fez isso de forma a criar uma marca própria para. Quem ainda não tinha visto os rapazes do Recife se apresentando sobre um palco, percebeu do que eles são capazes quando colocam as manguinhas de fora. Poucas bandas têm dois guitarristas/vocalistas que passam todo o tempo de um show um mostrando ser melhor que o outro, como fazem Djalma e Capivara. O equilíbrio foi tão grande que até os amplificadores dos dois, castigados por riffs porradas, às vezes irresistíveis, pifaram juntinhos, ao mesmo tempo – descobriu-se depois que o motivo era a falha de outro componente da instalação elétrica.

No repertório, a ênfase nas músicas do disco de estreia, o esporrento “Pharmako Dinâmica”, não impediu que músicas novas fossem apresentadas. Todas em sintonia com a pegada pesada do grupo, que só realça os bons riffs criados na maior parte do tempo. Não é por acaso que o grupo é contratado da Monstro Discos; o Amp se identifica muito mais com a Goiânia Rock City do que com o Recife que não consegue se livrar do passado apegado às inefáveis referências regionais – algo hoje completamente démodé. Por isso o público de Natal, que com a consolidação paulatina do Festival Dosol, não é mais bobo, percebeu a diferença e caiu no rock do Amp.

Goiânia marcaria presença na atração seguinte, que teve a participação de Fabrício Nobre, do MQN, cantando no cover de sua própria banda: “Burn Baby Burn”, tocado pelo Love Bazucas. A banda que não está no mapa nada mais é do que o Black Drawing Chalks reforçado por Chuck Hipolitho, que durante anos encabeçou o Forgotten Boys (espécie de tio avô precoce da sonoridade de Goiânia) e hoje segue no Vespas Mandarinas. Ou seja, são três guitarras ao vivo e a serviço do riff e do esporro. Imagine um incêndio de grandes proporções e um piromaníaco injetando gasolina em cima. É mais ou menos por aí.

Além de covers que todo mundo queria ouvir, o grupo mandou músicas que estão no split CD (quatro músicas pra cada um) com o chileno Bonzo. Acredite se quiser, além da mistura punk/hard rock que o Forgotten Boys propagou, e o stoner do BDC herdado do mesmo Forgotten Boys, o grupo manda até um funkão arrebenta assoalho, que abriu o show, a ótima “Destroy This Little Boy”. Victor Rocha assume boa parte dos vocais, mas a presença de Chuck e o apelo que o grupo mostra com o acréscimo de uma terceira guitarra é algo realmente sedutor. Pena o show ter durado tão pouco – cerca de meia hora -, mas o projeto teve sua principal serventia: dar o pontapé inicial num festival cuja edição, a julgar por sua festa de inauguração, promete.

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O cronômetro foi ligado às 15h30 em ponto no primeiro dia do Festival Dosol para que as dezoito (!) bandas programadas se mantivessem no padrão pré-estabelecido de meia hora para cada show. Uma exceção, no entanto, teve que ser aberta. Aos gritos de “Mais um! Mais um!” o público exigiu e conseguiu que o Autoramas voltasse ao palco para tocar outra música. O grupo protagonizou uma espécie de “momento Beatles” ao ser equivocadamente escalado para o palco menor do festival. O resultado foi uma superlotação do bem que resultou na maior interatividade conseguida por um artista na edição deste ano.

Quem esperava o show do álbum acústico não encontrou violões e se deparou com uma apresentação visceral. Na ótima “Você Sabe”, re-incluída no set, o público delirou cantando o refrão a plenos pulmões e pulando sem parar; na balada “A 300 Km Por Hora” coube ao líder do grupo, Gabriel Thomaz, puxar o coro; e até músicas como “Catchy Chorus” e “1, 2, 3, 4”, do Little Quail, foram resgatadas numa noite desde já histórica para o Dosol e que deve servir de marco para a retomada da trajetória do trio, interrompida pelo tal projeto acústico. Numa noite cercada de surf music por todos os lados, perigava o Autoramas perder o trem da história e ser atropelado pela “concorrência” que ele próprio ajudou a criar.

O local Camarones Orquestra Guitarrística que o diga. Aclamado com um dos destaques da cena local, mesmo sem ter um único álbum no mercado, já estava colhendo cenas para um DVD a ser lançado cobrindo a série de shows feito pelo Brasil este ano. Teve o público na mão e com o volume de som alto pacas dinamitou uma mistura de surf music de raiz e a do tipo “australiana”, tudo com muita pegada punk – um dos guitarristas parece ter saído do Ramones anteontem. Da Argentina, o Tormentos foi prejudicado ao tocar a clássica surf music depois da tsunami do Autoramas, e o trio paraibano Sex on the Beach mostrou virtuose típica do norte-americano The Mermen. Na abertura o instrumental do Hossegor deu mais sinais de classic rock do que e surf music ao público que ainda chegava à Rua Chile.

A produção apostou em nomes recorrentes em outros festivais espalhados pelo Brasil. Grupos como Móveis Coloniais de Acaju, que fez o último show da noite com grande participação do público (e olha que foi o segundo em Natal esse ano); Black Drawing Chalks, o distribuidor oficial de esporro à granel; Nevilton, que, uma vez escalado muito cedo, sofreu para animar uma platéia incipiente, mesmo com a usual boa performance; e Superguidis, incrivelmente melhor a cada novo show, são exemplos de que, na prática, um circuito nacional de festivais já está se estabelecendo. O brilho do quarteto é inegável, cada qual com segmento e “tamanho” bem definidos.

Mas surpresas ocorrem, mesmo com veteranos como o Mechanics. “Uma péssima noite pra vocês”, desejou o vocalista Márcio Jr. logo de cara. “Somos uma banda movida pelo ódio e pela vontade de morrer”, vociferou em seguida, num prenúncio do que estaria por vir. Depois de uma pá de tempo cantando em inglês, a banda goiana partiu para as letras em português no disco mais recente, “12 Arcanos”, de onde boa parte do repertório foi retirada. Conteúdo mais claro só nos temas, já que o som discorre livremente entre o stoner, doom metal e grunge pesadaço, num festival de riffs que desaguou na primeira abertura de roda no meio do público no sabadão, e isso antes das 18h!

Como novidade, o Vespas Mandarinas, que ainda não fez nem dez shows, se saiu muito bem. O grupo é formado por ex-integrantes e bandas como Forgotten Boys, Banzé e Ludov e aposta numa veia entre a pauleira e a canção colante, no que se sai muito bem em músicas como a ótima “Impróprio”. Três quartos dos membros canta – e muito bem – encorpando ainda mais o som. Pena que a banda não pode mostrar mais serviço, já que dividiu praticamente metade do tempo com Fábio Cascadura. Juntos, eles encerraram o show com “Rádio Blá”, do Lobão. O indie rock com um pé no pós/positive punk foi representado pelo Sweet Funny Adams. Só que o grupo, já no nome, é espécie de banda cover com músicas próprias. Cada uma das canções, quando é iniciada, parece com algo já conhecido. Exceção feita para “The Killing Moon”, porque essa é do Echo And The Bunnyman mesmo.

Afora o Camarones, que reúne a duplinha Anderson Foca & Ana Morena, responsáveis pelo Dosol, a cena de Natal deixou a desejar no primeiro dia do festival. Aposta vencida já na edição passada, o Calistoga praticamente repetiu o show de antes, esvaziado ainda mais pelo sanduíche do Tormentos com o Black Drawing Chalks. Bem inexperiente, embora formado por integrantes cascudos, o Decreto Final vai de metal, hardcore e classic rock, mas parece mais banda de amigos de final de semana. Já o Venice Under Water é até bem intencionada, mas precisa refinar referências e melhorar muito os vocais.

Banda chilena, a Humana vai de metal e suas tendências, mas a cantoria linear do vocalista não ajuda. Só não ficou mais deslocado que a Orquestra Contemporânea de Olinda, chamada para tocar o baile e deixar os numerosos fãs do Móveis Coloniais de Acaju num imerecido castigo. O Cabruera também teve a mesma função, mas não contou com um público tão grande assim; a essa altura o tráfico de cervejas era o objetivo para suprir uma inesperada falta do líquido precioso em temperatura adequada nos bares.

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A turistada pode partir para as famosas praias escondidas atrás de dunas fenomenais, mas no domingo do Festival Dosol, a juventude de Natal só quer saber é de esporro mesmo. E chega sedenta na tarde encalorada para ver o bicho pegar. É uma espécie de redenção da música pesada local – e de outras cidades do Nordeste – que vai fundo no metal extremo e no hardcore. Não é dizer que a Ribeira, na região portuária, seja transformada na filial do inferno, mas é como se a chave da cidade estivesse entregue ao Cão em forma de gente.

Quando o Claustrofobia entrou no palco principal, no Armazém Hall, o ambiente já fazia jus ao nome do grupo. Nascido thrash metal, o quarteto paulistano evolui a olhos vistos e hoje faz um som pesadíssimo e em sintonia com o que vem lá do outro lado do Atlântico. Das raízes, o grupo traz a manha de cadenciar trechos de uma mesma música, alternado com porradas impiedosas. A novidade é a gravação do próximo álbum, o primeiro com letras em português, de onde saiu “O Pino da Granada”, como boa amostra do que vem por aí. O vocalista/guitarrista Marcus d’Angelo se adapta muito bem – já tinha feito o cover bem sacado para “Filha da Puta”, do Ultraje a Rigor. Mas foi com “Arise”, do Sepultura, que o público veio abaixo em monumentais rodas que sumiam e surgiam sem parar. Para quem acha que o metal brasileiro parou no Sepultura, taí a continuação.

O Nordeste sempre foi pródigo no som pesado nacional, e esta edição do festival não deixou barato, com Facada , do Ceará; Desalma, de Pernambuco; e a local Kataphero. Local o modo de dizer, já que o quarteto investe com precisão no death metal comum aos pares europeus, como o Hypocrisy, só para citar um exemplo. As guitarras às vezes limpas, melódicas até, dão um interessante contraste com a porrada que sai das caixas do Centro Cultural Dosol, abarrotado e encalorado. Com poucos – mas eficientes – solos, o grupo só peca pelo excesso de sons pré-gravados, a menos que um tecladista estivesse malocado atrás do palco para não dar bandeira.

Na cadência do thrash, o Desalma vem de Recife como o ímpeto da destruição. O trio aposta em levadas sombrias que logo avançam para a velocidade cruel que faz doer os ouvidos mais sensíveis. O resultado é um som técnico, bem tocado, mas sobretudo com alto poder de combustão, faísca ideal para que todos se debatiam na beirada do palco. Quase não se percebe, mas as letras que saem do vocal gutural são cuspidas em bom português, o que faz do grupo uma grata revelação no metal nacional. Ao Facada coube fechar a noite no palco menor, e o trio não fez por menos. Em poucos minutos despejou um crust/grincore esporrento para arrematar a noite. “Estamos aqui para celebrar o prenúncio do fim”, disse o baixista James, num dos intervalos. Vacilou quem saiu antes para ver o show de Marky Ramone, cujo início atrasou em quase uma hora.

Mais cedo, entre a turma do hardcore, a tarde foi de altos e baixos. A ansiedade pelo show do Garage Fuzz fez a produção iniciar a apresentação um pouco mais cedo. Antes do vocalista Farofa e sua turma entrarem já tinha gente se jogando sobre os outros em pensamento no Armazém Hall. O grupo fez um show correto e lembrou os bons tempos do hardcore melódico, antes da contaminação emo que praticamente tirou o importante subgênero de cena.

Incorreto é Mozine, dono de bandas toscas que fazem sucesso em Natal: Mukeka di Rato (a maior delas), Os Pedrero (a preferida da casa) e o Merda, no qual faz as vezes de guitarrista. Como de hábito, o grupo agradou geral. Tocando uma guitarra de brinquedo (mas que sai som) adquirida num camelô japonês, ele desencadeou as maiores rodas da tarde, quando o público ainda chegava ao festival. De quebra, homenageou o capixaba (o grupo é do Espírito Santo) mais ilustre, ao tocar uma impagável versão para “Quando”.

Apresentado como uma banda de “surf e lombra”, o Mahatma Gangue, de Mossoró, é na verdade um trio, que tem Rafaum (Distro) e Pedro (Catarro) na formação. Com músicas a serem melhor arranjadas e tocadas mais vezes, sobra vontade ao grupo, mas falta repertório mais definido e ensaiado. Já o AK-47 mistura referências a vários segmentos do metal, mas aparece mais por conta do vocalista, que tem o corpo cravado de agulhas durante o show e se banha de “sangue”. Duas bandas que precisam evoluir. Em tempo: por questões logísticas o Homem Baile não pôde ver o show das bandas Pumping Engines, Burn My Heart At Sunset e Todos Contra Um, todas locais.

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Todos os camisetas pretas de Natal, Mossoró, Caicó e adjacências, vivos ou mortos, foram ao domingão from hell do Festival Dosol. Os vivos saíram de suas casas, e os mortos, de suas tumbas. Se estivesse vivo, Nelson Rodrigues começaria assim uma crônica sobre a segunda e última noite da sétima edição do festival, cuja primeira parte foi encerrada ontem com dois mil garotos se digladiando ao som de Ramones no talo. Como é imortal, o pensamento vivo do Mestre vaga por estas linhas assim como vagavam os de Joey, Johnny, Dee Dee e o do próprio Marky, espécie de morto-vivo que continua a espalhar o legado do grupo que inventou a música punk aos lugares onde os parceiros, agora, só aparecem como almas penadas.

A Marky Ramones Blitzkrieg, com o vocalista do Misfits, Michale Graves, de cara limpa, cumpre o que promete: 32 músicas tocadas no talo e num pique de fazer inveja a muito adolescente por aí. Vinte e duas delas coladas umas nas outras, até que Graves faça um set acústico de três canções para que o público para de se matar ali, a olhos vistos. Entre “Beat On The Breat” e “Commando”, os cestos de lixo antes usados par recolher latas de cerveja amassadas, são lançados ao ar no meio da multidão. Vestido como o protagonista do filme “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, Graves segura a onda muito bem, já que Marky não arrefece um minuto sequer, realçando a diferença ente um baterista de banda cover e um legítimo Ramone. O vocalista ganha camiseta jogada do público, tira foto para os fãs e se vê abraçado ao fantasma de Joey a cada nova porrada lançada sem dó sobre a garotada.

Não é que o público se divida naquelas rodas de pogo com um correndo atrás do outro como é comum nas praças nordestinas, e como aconteceu em boa parte do festival. Ontem, dentro de um Armazém Hall lotado, uma massa disforme se deslocava de um lado a outro, numa velocidade comandada pelos riffs manjados, porém eficientes depois de todos esses anos. Do meio do povo insurgiam body surfers lançados ao ar a todo o momento. Na falta do mosh de palco, controlado pela produção para que o caldo não desandasse, uns eram espremidos pelos outros e se jogavam sobre a multidão música após música. Enquanto no extremo Sul do País Sir Paul McCartney fazia chorar com canções de amor que embalaram gerações, no extremo Norte pérolas do cancioneiro ramônico como “Teenage Lobotomy”, “Pet Semetary”, “I Wanna Be Sedated” e “The KKK Took My Baby Away” mostravam outro panorama para a juventude disposta a tudo para se divertir. Como faziam os Ramones, aliás.

Antes, o show parecia que não iria acontecer. Marky Ramone decidiu que a bateria fosse desmontada do palco para ser afinada (!) no camarim, ocasionando um atraso de quase uma hora (coisa inédita nos dois dias de shows) e ele próprio ainda passou o som no palco, para delírio do público. A ansiedade era tanta que, o início, os organizadores cortaram um dobrado para que tudo funcionasse sem maiores problemas. Durante cerca de hora e meia, alucinações tomaram conta do local; teve gente que saiu de lá garantindo que viu, pairando sobre o palco, a trinca sagrada: Joey, Johnny e Dee Dee. Pode não dar para acreditar, mas a certeza unânime entre os garotos de Natal é uma só: Ramones vive.

Por Marcos Bragatto

Fonte: REG

08/11/2010, na Rua da Loucura

Noite Fora do Eixo na Rua da Cultura, desta vez com atração internacional, então vamos lá, mesmo sendo uma segunda-feira, o “Dia Internacional da preguiça” (A Rua da Cultura é um evento gratuito, Ponto de Cultura do Minc, e acontece às segundas-feiras para que seu horário não se choque com o de outros eventos culturais da cidade).

Nunca tinha ouvido falar de Falsos Conejos, a banda argentina que se apresentaria naquela noite. Baixei o disco, gostei, toquei no programa de rock. É o chamado “Math rock” que, segundo a Wikipédia, “é um gênero musical que surgiu em fins da década de 1980 com influências do Punk rock e do Rock progressivo. A composição musical é bastante complexa, incorporando métricas incomuns em seu ritmo, tido como matemático, daí o nome, Math rock (literalmente rock matemático). Os instrumentos geralmente sendo tocados em bases atonais ou politonais e nem sempre sincronizados. São acompanhados da voz, quando presente, alternando entre o ritmo calmo e gritado.”

No caso dos argentinos, não há voz, é uma banda instrumental. Como também é instrumental a outra banda convidada da noite, A Banda de Joseph Tourton, do Hellcife. Perdi, mas ok, já os tinha visto há pouco tempo na edição de Salvador do Festival No Ar: Coquetel Molotov.

Vi os Falsos Conejos, na íntegra. Bom, mas pra falar a verdade, esse tal de math rock, post rock, ou o que quer que seja isso, é chatinho pra cacete. Ok, você fica lá acompanhando as melodias, mas chega uma hora que se cansa e a musica passa a ser segundo plano, trilha sonora para o que está acontecendo à sua volta – no meu caso, os impagáveis diálogos nonsense de algumas das mais célebres criaturas que povoam a noite Aracajuana, RAS, Bilal, Doris, Cana Brava, Jason e Cia. Ltda.

Teve também a Mamutes, de quem eu gosto muito, mas nesta noite em especial a bruxa estava à solta e vários problemas técnicos interromperam a apresentação por diversas vezes, o que esfriou o público e me fez ir embora, já que terça-feira é “dia de branco” e a noite já estava avançada. Saí, no entanto, com a sensação de que, problemas à parte, os mastodontes mexerem um pouco demais nos arranjos de alguns de seus clássicos, que estão sendo executados num andamento diferente, mais cadenciado, com a guitarra mais “percussiva”, como bem observou meu amigo e conterrâneo Maicon “Stooge”. Curti muito não, mas boto fé na pegada dos caras, terei uma opinião melhor embasada em algum futuro show menos “tumultuado” – porque assistir a qualquer show do lado das criaturas que estavam ao meu lado é sempre complicado, os caras sempre roubam sua atenção. Ras, em especial, estava numa noite inspirada, berrando a plenos pulmões o que ele entendeu das letras das musicas do show da 120 Dias de Sodoma que ele tinha visto no youtube. Vou tentar reproduzir, abaixo, alguns dos brilhantes diálogos que foram travados naquela noite:

RAS, para mim: Adelvan, tava assitindo ontem lá em casa aquele show da banda de você, Bilal e Silvio no youtube. É massa, especialmente aquela que fala (berrando a plenos pulmões) “PEGA A MINHA R=#@, LAMBE O MEU SACO.

Bilal interfere: “que nada, massa é a letra de “Nas profundezas da b8%$# de Shera – Meretriz, mulher de putifar, meretriz, chupa p+*&# e bebe g@#*+/A suástica tatuada/no seu lindo pilão/foi melada de p&%$#+/da p@#$%* do negão!” – Bilal é co-autor da letra.

RAS, mudando de assunto: Adelvan, você ainda não assistiu “Lua Negra”? Porra, cara, como é que eu coloco em sua mão o melhor filme de todos os tempos e você não viu ainda? LUA NEGRA É DO CARALHO !!!!!!!!

NOTA: “Lua negra”, filme de 1975 de Louis Malle, uma releitura de Alice no país das Maravilhas, é a nova obsessão de RAS, ele só fala nisso.

Todos ao redor: “puta que pariu, filme ruim da porra, vai se f=*&#, RAS” – parece que todo mundo já assistiu, por livre e espontânea pressão, menos eu, que continuo a ser pressionado e cobrado a cada vez que encontro nosso camarada Renato.

RAS, mudando de assunto de novo: “você viu a ultima postagem do blog de Clark Bruno? Ele fala que aqui em Sergipe ta cheio de viado, porque aqui se tem a idéia de que o cara que come o viado não é viado, só o que recebe, quando na realidade os dois são viados, um passivo e o outro ativo. Como Já&$#*+, que um dia eu vi trepando com J@#&+

Já&$#*+, interrompendo: Vai se fuder, RAS, vc viu porra nenhum

RAS, a plenos pulmões: VI SIM, VOCÊ TREPANDO COM O NEGO J@#&+ VOCÊ É CROSSDRESSER !

Eu: e quem era o ativo ?

RAS: Já&$#*+,

Eu: Ah, menos mal, Já&$#*+,

Carol: quem é esse Nego J@#&+

RAS: Era um negão neonazista estuprador e caloteiro. Você é muito novinha, não é desse tempo não.

RAS, gritando: NÃO TEM NENHUMA MULHER SOLTEIRA A FIM DE F*&%$# HOJE NÃO ? TOU DISPONÍVEL !!!

Bilal, gritando para os Falsos Conejos: MUERTE A TODOS LOS ARGENTINOS. MUERTE A TODOS LOS ESPANHOLES.

Pouco depois lá estava ele tentando conversar com o baterista, e saem os dois juntos

RAS a plenos pulmões: VAI DAR PRO ARGENTINO, É, BILAL ?

Pouco depois volta Bilal com um CD dos Falsos Conejos.

“10 reais, quer comprar?”, oferece.

E assim segue, a noite inteira.

Patrocínio: Pitu.

A.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

# 168 - 05/11/2010


Mais que um “movimento” com ramificações políticas e/ou comportamentais em torno de uma “tribo” específica, o termo “grunge” é uma denominação genérica para as bandas de rock baseadas em Seattle que tinham forte influencia de Metal, do punk rock e do rock alternativo. Seu maior expoente foi o Nirvana, que já chegou a ser descrito como um meio termo entre os Beatles e o Black Sabbath e era identificado, principalmente antes do surgimento do “rótulo” em questão, com a cena independente das então chamadas “guitar bands”, especialmente o Sonic Youth, de quem eram amigos e que obteve uma maior projeção internacional na esteira do sucesso do trio liderado por Kurt Cobain, e o Pixies, que eles confessadamente tentaram emular em seu maior hit, “smells like teen spirit”. O Nirvana foi precedido pelo Green River, que pode ser considerado o útero onde foi gestado o “grunge”, já que de sua formação faziam parte Mark Arm, Jeff Ament e Stone Gossard. Os dois últimos fizeram parte posteriormente do Mother Love Bone, cujo som se caracterizava por ser uma mistura do peso e da levada do heavy metal e hard rock dos anos 1970 (de bandas como Led Zeppelin, Deep Purple e Aerosmith) com a melodia e a energia punk de Stooges e MC5. Dessa matriz sonora surgiria o estilo musical que dominou as paradas de sucesso de todo o mundo na primeira metade dos anos 90 com nomes como o Soundgarden, Alice In Chains e Pearl Jam, este último fundado por Gossard e Ament. Correndo por fora, havia o Screaming Trees, composto pelos amigos Mark Lanegan, Van Conner e Gary Lee Conner e vindos de Ellensburg, cidade próxima de Seattle, e o Mudhoney, de Mark Arm, em atividade até hoje.

Toda esta impressionante movimentação que levou o chamado “rock alternativo” ao mainstrean foi capitaneada pela gravadora Sub Pop, fundada en 1979 em Olympia, estado de Washington, por Bruce Pavitt, como um fanzine local especializado em rock alternativo batizado inicialmente como “subterranean pop”. Já na segunda edição a publicação passou a usar o nome que a tornaria célebre. Alternou edições de sua revista com fitas K-7 que continham compilações de bandas diversas da cena independente local. Foram publicadas nove edições ao todo: seis revistas e três fitas. Com o tempo, o fanzine parou de ser produzido e a empresa se concentrou na distribuição das fitas. Como não houve retorno financeiro, a publicação da Sub Pop passou a se resumir a uma coluna na The Rocket, revista de Seattle. Em 1986, Pavitt se mudou para a capital do estado e lançou o EP-compilação “Sub Pop 100” (onde há uma faixa do Sonic Youth). No ano seguinte grava o primeiro trabalho com uma banda exclusiva, o EP “Dry as a Bone”, do Green River. Também em 1987 Kim Thayil, do Soundgarden, o apresenta a Jonathan Poneman e os dois criam, enfim, o selo Sub Pop Records, cujo primeiro lançamento foi o EP “Screaming Life”, do Soundgarden. Seu maior sucesso comercial, no entanto, seria “Bleach”, primeiro álbum do Nirvana. O prestígio da grife era tamanho que o grupo exigiu que a marca da gravadora underground que os descobriu fosse impressa em seus discos posteriores, lançados pela gigante do mercado fononográfico Geffen. Com o fim da “era grunge” o selo de Pavitt (que deixou a gravadora em 1996) e Ponneman foi perdendo projeção, mas existe até hoje – e não sem antes lançar, em 1994, o primeiro disco do Sunny Day Real State, também de Seattle, um dos pilares a partir do qual se formou o que hoje se conhece como “emocore”.

A revolução provocada no dial das rádios e na programação da MTV pelo grunge foi tamanha que por um momento chegou-se a crer que o “mainstrean” havia se rendido, finalmente, ao “underground”, e passaria a ser povoado, dali pra frente, por musicas de qualidade e com conteúdo e não pastiche feito apenas para vender discos. Ledo engano. Como costuma acontecer em qualquer processo “revolucionário”, com o tempo a essência foi se diluindo e começaram a aparecer versões mais palatáveis às grandes massas, com nomes como Silverchair, Stone Temple Pilots (estes melhoraram com o passar do tempo, mas começaram como uma emulação diluída de clichês do grunge), Bush e Creed. Um processo de degradação que foi se acentuando à medida que os maiores ídolos da época iam sucumbindo à falta de estímulo e a problemas pessoais potencializados pelo uso excessivo de drogas. O suicídio de Kurt Cobain e a morte de Layne Stanley, vocalista do Alice In Chains, foram revezes difíceis de ser superados. A pá de cal foi colocada, no entanto, quando da dissolução do Soundgarden, em 1997. O Pearl Jam seguiu em frente, mas já como uma entidade à parte, enquanto as paradas de sucesso, na segunda metade da década, eram tomadas pelo “brit pop” de Oasis e Blur, pelo “punk pop” de Green Day e Offspring e pelo “New Metal” de Korn e “associados”.

O programa de rock da última sexta-feira prestou tributo a este último grande “movimento” do rock em sua abertura, com alguns dos maiores “hits” do Mudhoney, Soundgarden, Alice in Chains e Screaming Trees. Na sequencia, um novo “hype”alternativo, cortesia dos comparsas do Loaded E-zine em mais uma colaboração semanal exclusiva, e sons das três bandas que protagonizarão, logo mais à noite, mais uma “Noite Fora do Eixo”, na Rua da Cultura, os sergipanos da Mamutes, os pernambucanos d´A Banda de Joseph Tourton e os argentinos do Falsos Conejos.

A segunda metade do programa foi inteiramente dedicada à coletânea “Brazilian Guitar Fuzz Bananas”, um sensacional resgate de gravações obscuras de bandas psicodélicas brasileiras dos anos 60 e 70 que veiculamos na íntegra, em todo o esplendor e vigor criativo de suas 16 faixas.

See you later, alligators.

por Adelvan

* * *

Coletânea reúne faixas raras dos primórdios lisérgicos do rock brasileiro

MARCUS PRETO
DE SÃO PAULO

Illustrada

A bateria é quase sempre acelerada. Os vocais variam entre o etéreo e o esganiçado. O som das guitarras é distorcido. As letras, escritas sob puro delírio surrealista.

Primeiro lançamento do selo americano Tropicalia in Furs, a coletânea "Brazilian Guitar Fuzz Bananas" recolhe, em CD simples ou vinil duplo, 16 faixas da fase mais psicodélica do rock nacional. Raríssimo, o material é uma espécie de elo perdido da nossa história musical. Jamais foi reeditado por aqui. E, ironicamente, volta à tona em edição estrangeira.

As gravações foram feitas entre 1967 e 1976 e editadas originalmente em compactos. Já pelos nomes das bandas selecionadas --Loyce e os Gnomos e Tony e o Som Colorido, por exemplo-- pode-se ter ideia do teor lisérgico do som que faziam. Os títulos das músicas dão mais pistas: "LSD - Lindo Sonho Delirante", "As Turbinas Estão Ligadas", "Som Imaginário de Jimi Hendrix" etc.

A garimpagem de todo esse material foi feita pelo brasileiro Joel Stone, 38. Paulista, ele se mudou para Nova York há 12 anos e hoje é dono da loja de discos Tropicalia in Furs, no East Village. Joel conta que passou cerca de 4 anos para conseguir todos esses compactos. Em barganhas, chegou a trocar um único disco por 300 LPs americanos de funk e soul.

"Depois que consegui todos, fiz uma pesquisa sobre cada um e descobri que quase ninguém conhecia o que eu tinha, incluindo colecionadores", diz. "A partir daí, o que eu estava fazendo começou a fazer sentido." Como não conseguiu localizar todos os envolvidos nas gravações, Joel fez um esquema de "caderneta de poupança", em que reserva direitos autorais dos artistas que não foram encontrados.

LSD - "Lindo sonho delirante, hoje eu quero viajar, yeah, yeah/ Onde está o meu castelo?/ Meu tapete voador?" Parceira do cantor Fábio e do produtor musical Carlos Imperial, a faixa "Lindo Sonho Delirante" simboliza o que Joel quis reunir no disco. A música rouba a ideia de "Lucy in the Sky with Diamonds", dos Beatles, em que as iniciais do título resultam no termo LSD, o ácido mais famoso daquela geração.

"O pessoal do rock gostava dos alucinógenos", diz o cantor Tony Bizarro, 62, que está no disco com a faixa "O Carona". "A gente, do soul, preferia um 'baurets' [maconha], só queria fumar unzinho." "Tomava LSD quem queria se libertar", emenda o roqueiro Serguei, 76, intérprete da malucona "Ouriço". "Hoje em dia, as bandas de rock não estão atendendo nesse sentido. Os beatniks de agora são os emos", diz. "A revolução que a gente fez, da qual sou um dos únicos que restam, era outra coisa."

Músico ligado ao jazz, Célio Balona caiu na bacia dos psicodélicos por acaso. Seu "Tema de Batman" era uma brincadeira para os filhos. Disse aos meninos que era amigo do personagem dos quadrinhos e, para provar, criou sua própria versão para a música que tocava na série de TV --que soa um tanto lisérgica aos ouvidos adultos. "Fiz as vozes todas, os arranjos, interpretei o Batman e os marcianos", lembra.

Intérprete de "Cinturão de Fogo", Marisa Rossi, 60, afirma que foi a chegada de Roberto Carlos que modificou a relação dos músicos com a psicodelia. "Quando ele veio com a jovem guarda, a coisa amenizou. Era bom menino e não queria falar de drogas."

* * *

Mudhoney – Suck you dry
Soundgarden – Fell on Black days
Alice In Chains – Heaven Beside you
Screaming Trees – Dollar Bill

Homemade Blockbuster – Sweet boys sweet girls
Homemade Blockbuster – Dance Moves
(Drop Loaded)

Mamutes – Te deixando o meu bye bye
Falsos Conejos – Estrobos
A Banda de Joseph Tourton – 16 minutos

Célio Balona – Tema do Batman
Loyce e os Gnomes – Era uma nota de
The Youngsters – I wanna be your man
Serguei – Ouriço

Fabio – Lindo sonho delirante
Tony e o som colorido – o carona
14 Bis – God save the Queen
Banda de 7 léguas – Dia de chuva

Ton & Sergio – Vou sair do cativeiro
Ely – As turbinas estão ligadas
Com os Falcões Reais – Ele século xx
Marisa Rossi – Cinturão de fogo

Piry – Herói moderno
Marc Rybell – the lantern
The pops – som imaginário
Loyce e os gnomes – que é isso?