quarta-feira, 13 de outubro de 2010

SWU - A Batalha de Itu

Dois palcos e pontualidade - Qualquer fã que esteja acostumado com festivais sabe que pontualidade e deslocamento entre palcos e tendas nunca é o que parece quando se chega num evento do porte do SWU. Nesse caso, a organização surpreendeu positivamente. A montagem dos Palcos Água e Ar lado a lado facilitou tanto o deslocamento do público quanto a pontualidade das apresentações. Quase nada atrasou e, uma vez na arena principal, não era difícil andar de um palco a outra para conferir os shows. A exceção foi a apresentação do Queens Of The Stone Age na segunda que sofreu atraso de uma hora.

E quanto ao deslocamento, os problemas só apareciam quando o show acontecia no palco Oi Novo Som e Heineken Greenspace que ficavam mais distantes da arena principal até por conta da acústica. Subir o terreno até a parte alta da Fazenda Maeda era bastante cansativo às vezes. Por outro lado, o próprio terreno acidentado facilitava para o público. A distância de certos locais da pista comum para os palcos principais eram compensada pela inclinação do terreno que facilitava a visualização dos shows.

Nada de chuva, mas caos e pó - A previsão estimava, dias antes da abertura do SWU, até 80% de chances de chuva na região de Itu no fim de semana do festival. São Pedro errou feio e a chuva nunca deu as caras apesar de certa nebulosidade no início da tarde dos dois primeiros dias. Em compensação, o frio deu as caras no SWU. O pôr do sol derrubava muito a temperatura e o descampado era prato cheio para um vento gelado. Só o moleton não dava conta do frio, e quem estava só de camiseta padeceu. Além, é claro, das dezenas de ambulantes que tentavam vender capas de chuva.

A chuva não veio. Mas vieram caos e pó. A entrada e saída do público nos dois primeiros dias só pode ser traduzida assim. Entradas mal sinalizadas, funcionários desinformados, muito pó, filas e espera de até 3 horas para se conseguir um ônibus que levasse o público ao estacionamento foram os relatos mais comuns de quem foi ao festival nos primeiros dois dias. A lição que fica é que, levar 150 mil pessoas em três dias para Itu não é tarefa fácil. Mas quem sabe, com um pouco mais de capricho nesses serviços essenciais para quem paga um ingresso tão caro, um eventual SWU 2011 poderia arrastar para o interior um número ainda maior.

O Cavalera Conspiracy, dos irmãos Igor e Max Cavalera, provaram, no fim da tarde desta segunda (11), no Festival SWU, que, não importa quanto tempo fiquem longe dos palcos brasileiros, seguem como nomes sagrados do metal brasileiro. E mantém uma legião de fãs. O grupo fez a primeira grande apresentação do último dia do festival que acontece na Fazenda Maeda em Itu, interior de São Paulo.

Em 50 minutos de apresentação, e com o sol ainda dando as caras na arena do evento, o Cavalera Conspiracy tocou músicas de seu único álbum, Inflikted, clássicos do Sepultura e ainda uma inédita que, segundo Max, deve sair no segundo registro da banda, programado para chegar aos fãs no ano que vem. Na plateia, rodas pipocaram na pista premium e na pista comum, fazendo levantar poeira, literalmente.

A apresentação começou com a trica que abre o disco da banda: Inflikted, Sanctuary e Terrorize. Na seqüência, a primeira para emocionar os órfãos do Sepultura: Refuse/Resist, do disco Chaos A.D. de 1993. Sem tempo para deixar alguém recuperar o fôlego, Max e Igor voltaram ao repertório mais recente e emendaram The Doom of All Fires, Hex e Hearts of Darkness, apelidada pelo vocalista como "Iron Maiden".

Dava tempo de mais Sepultura, e a banda então apelou: voltou quase 25 anos no tempo e tocaram os primeiros acordes de Troops Of Doom, do disco Morbid Visions (1986). O setlist ainda abriu espaço para mais uma do Cavalera Conspiracy e prosseguiu com Ultra-Violent, Attitude (do disco Roots, de 1996) além de uma inédita: Who Are Lord?, prometida por Max para o próximo disco do clã.

Para fechar, o prato predileto dos Cavalera para encerrar as apresentações: Roots, Bloody Roots. Apresentação memorável, principalmente para o guitarrista Andreas Kisser e o baixista Paulo Jr., ambos ainda no Sepultura e que acompanharam a apresentação de seus ex-companheiros da pista. Difícil adivinhar que tipo de sensação passou pela cabeça deles.

Renato Beolchi

Terra

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O Cavalera Conspiracy apresentou-se no Palco Água do Festival SWU nesta segunda-feira (11) numa das apresentações mais pesadas deste último dia de festival. O show começou com “Inflikted”, faixa-título do álbum homônio lançado em 2008, e marcou a primeira apresentação de Max e Iggor Cavalera no Brasil desde que o primeiro deixou o Sepultura em 1996

Apesar de 2/3 do repertório ter sido dedicado às faixas do Cavalera Conspiracy, mais recente projeto da dupla, o show teve faixas do Sepultura, incluindo “Refuse, resist”, “Troops of doom”, “Attitude” e “Roots bloody roots”. O repertório de cerca de 50 minutos teve ainda a faixa “Hearts of darkness”, do Cavalera Conspiracy, que Max disse ter apelidado de “Iron Maiden”, e uma inédita do projeto dos Cavalera chamada “Warlords”. Segundo o vocalista, o segundo álbum do grupo deve sair no próximo ano.

O Cavalera Conspiracy é um dos padrinhos da nova geração de metaleiros que passa pelos palcos do festival nesta segunda-feira.

Max Cavalera fez as vezes de animador do público desde o início, pedindo palmas e inclusive "dirigindo" os fãs à beira do palco.

Yo La Tengo - Os fãs do trio de indie rock americano Yo La Tengo sofreram com o som baixo durante a apresentação do grupo às 17h desta segunda no Palco Ar do SWU.

Tocando clássicos cult como “Tom Courtenay” e “Sugarcube”, o grupo fez uma apresentação de 40 minutos, com direito a uma jam cheia de microfonias do final que incluiu o vocalista e guitarrista Ira Kaplan destruindo as cordas de uma de suas guitarras. Apesar da promessa de deixar as faixas mais lentas de fora, o repertório contou com a balada-kraut "Autumn sweater”, só com bateria e teclados.

Lucas Medina, que carregava uma placa de papelão com o nome da banda ao lado de um coração, disse que “esperava esse show há dez anos”, reclamou do som baixo e da hostilidade de alguns fãs do Linkin Park que já se concentram na frente do palco, que chegaram a vaiar o Yo La Tengo. “Eu era o único que estava curtindo”, lamentou.

g1

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Depois da porrada dada pelo Queens of the Stone Age no festival SWU, em Itu, o Pixies deu uma acalmada nos ânimos do público e um toque alternativo na sequência de shows desta segunda-feira (11), último dia do evento.

Cultuada por muitos fãs do rock alternativo, o Pixies possui um repertório eficaz, mas não muito garantido quando falamos de públicos grandes, caso do SWU. Mesmo assim, a trupe de Black Francis e Kim Deal conseguiu seus seguidores, que não eram poucos, contando sua escalação em um dia com Linkin Park, Incubus e Avenged Sevenfold.

Nitidamente, a briga entre os integrantes não é algo superado. A interação no palco é mínima e a execução das músicas é quase desleixada, lembrando um ensaio. Mesmo assim, cada um faz sua parte.

No baixo, Kim Deal fica com a responsabilidade de conversar com a plateia. "Obrigado", disse em português. Aproveitando a deixa, apresentou o baterista Dave Lovering, que cantou a música La La Love, um momento mais tranquilo depois de tantos grupos de rock pesado.

Seguindo com o show sem praticamente nenhuma interrupção, o Pixies tocou canções como Here Comes Your Man, Wave of Multilation, Monkey Gone to Heaven, Caribou, Mr. Grieves, Crackit Jones e Caribou. A execução de Where Is My Mind também marcou um outro ponto alto.

Assim como aconteceu com o Yo La Tengo, a escalação do Pixies nesta segunda-feira parecia um pouco perigosa para a banda, que enfrentaria fãs de Linkin Park, Queens of the Stone Age, Incubus e outros. A experiência dos músicos parece ter superado esse sentimento de estar fora de contexto, mas, se o grupo estivesse plenamente unido, poderia ter se saído melhor. No final das contas, o fato de ter uma bagagem grande em sua carreira e um repertório cheio fizeram com que eles saíssem aplaudidos do SWU.

Terra

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PETARDO CERTEIRO - Movido a decibéis e distorções e com sonoridade única, Queens Of The Stone Age promove encontro do rock de verdade com as massas; show do último dia do SWU foi o melhor do festival.

Quando uma banda demora cerca de 50 minutos para entrar no palco e começa o show com uma música que cita um sem número de drogas “legais”, não é preciso ser muito esperto para saber o porquê do atraso. Foi o que aconteceu quando o chefão Josh Homme detonou “Feel Good Hit Of The Summer”, dando o cartão de visitas do Queens Of The Stone Age, ausente no Brasil desde o Rock In Rio de 2001. A partir dali ninguém mais se lembrou daquele tempão marcado por empurra-empurra de parte a parte: a festa havia começado. Era uma das atrações principais da última noite do SWU Music And Arts Festival, ontem, em Itu, no interior de São Paulo.

Mesmo ainda se adaptando a ajustes do som - uma terrível constante no festival - o grupo mandou logo de cara outras duas porradas, num início matador: “Lost Art Of Keeping a Secret” e a sensacional “3’s & 7’s”. O que se vê (se sente) é uma muralha de guitarras turbinadas por efeitos de teclados e eletrônicos “do bem” guiados pelo batera mãos de aço Joey Castillo. Cada pancada que os tambores recebiam parecia reverberar ainda mais as distorções de guitarra altíssimas, até para quem não estava tão perto do palco assim. Imagine para os abastados da fila do gargarejo na Pista Premium. Foi só antes da quinta música que Josh Homme se dirigiu à platéia. “Desculpas de novo”, se referia ele ao atraso, ao detonar o riff poderoso de “Misfit Love”, elevado à enésima potência do esporro quando tocado ao vivo. O QOTSA é uma das poucas bandas da atualidade que demonstra um poder de fogo extraordinário sobre um palco, potencializando ainda mais um repertório que já é, por si só, um achado.

Mesmo quando o ritmo cai um pouco em função de músicas de andamentos menos nervosos, estão lá o peso lento que faz lembrar Black Sabbath, a eletrônica suja, porém discreta de um Nine Inch Nails e a porrada de um Motörhead atualizado numa sonoridade especial que é marca registrada do Queens Of The Stone Age e em tudo que Josh Homme mete a mão. Ouça a superbanda Them Crooked Vultures ou a produção do guitarrista no segundo disco do Arctic Monkeys e tire suas conclusões. Ao vivo, realça um poder de fogo ainda maior, a custa de uma amplificação absurda e de muito, muito esporro. “In My Head” fecha o período razoavelmente calmo para “Little Sister”, hit nato, enlouquecer o público com o riffzinho colante e quebrado e um refrão que é pura nitroglicerina.

Quando não está destruindo a guitarra em músicas de forte apelo, Josh Homme tem um semblante taciturno e pouco conversa com o público. Embora tenha arriscado alguns “obrigado”, em português mesmo, sacou a frase da noite, “A melhor maneira e agradecer é tocar pra vocês uma música que todos conhecem”, reconheceu, fazendo um trocadilho, antes de iniciar “No One Knows”, parceria com Mark Lanegan, uma das mais esperadas da noite. Precedida pela extraordinária “Go With The Flow”, de longe a melhor música da década, incendiou a plateia de vez. No meio da música, com o baixo marcando, braços erguidos batiam palmas até onde não se podia mais ver onde acabava aquele mar de gente, num dos momentos inesquecíveis do festival, mesmo para uma banda hoje rodada como o Queens Of The Stone Age.

Em cerca de uma hora as 15 músicas do grupo levaram o público a uma experiência única, movida, antes de tudo, a muito bom gosto. Não é preciso o sujeito conhecer todas as músicas para se deixar levar por guitarras colantes, refrões fáceis e riffs de alto poder de combustão. É tudo isso que faz do show do Queens Of The Stone Age um encontro com a contemporaneidade, uma visita de peito aberto ao bom rock produzido nos últimos tempos. E, por tudo isso, o melhor show do agraciado Woodstock de Itu. Rage Against The Machine em segundo.

Set list completo:

1- Feel Good Hit Of The Summer
2- Lost Art Of Keeping a Secret
3- 3’s & 7’s
4- Sick, Sick, Sick
5- Misfit Love
6- Monsters In The Parasol
7- Burn The Witch
8- Long Slow Goodbye
9- In My Head
10- Little Sister
11- Do It Again
12- I Think I Lost My Headache
13- Go With The Flow
14- No One Knows
15- Song For The Dead

A Batalha de Itu - Em noite histórica e de correções do passado, Rage Against The Machine supera problemas e convence com o rock furioso, técnico e contagiante; banda encerrou a primeira noite do SWU sabado, em Itu.

Era pressão demais. Quase duas décadas de ansiedade acumuladas pelos fãs do Rage Against The Machine tinham que explodir de uma vez só e de maneira que beirou o descontrole. O show marcou o encerramento da primeira noite do SWU Music and Arts Festival, ontem, em Itu, no interior de São Paulo. Queda do sistema de som, tentativa de invasão das grades de controle do público, interrupção dos shows para acalmar os ânimos e muitos atendimentos médicos. O que esperar de uma banda que sugere, já no nome, raiva contra (preencha você próprio)?

Mesmo já cascudos, os integrantes da banda mostraram uma disposição incrível. O vocalista (e ativista) Zack de la Rocha continua com o carisma na ponta dos cascos, cantando cada sílaba de suas letras/protestos come se fosse pela primeira vez. Preparo físico também não lhe falta. No momento crítico do show, justamente após ter dedicado “People Of The Sun” ao MST, coube a ele pedir que o público desse um “passo bem pequeno para trás e que cada um cuidasse do outro”, para que eles continuassem. O show havia sido interrompido por uma ameaça de queda da grade que separa o palco da Pista Premium, que, a essa altura, de VIP não tinha mais nada. Sabe-se que, curiosamente, nessas ocasiões o melhor a se fazer é continuar o show, e foi o que aconteceu.

Zack de La Rocha é acompanhado por um Tom Morello que, além de exímio guitarrista, atua como se fosse um técnico de manutenção guitarras, extraindo sons extraordinários e ambíguos de seu instrumento, utilizando os controles de timbre e volume. Ora parecia um theremin, ora uma turbinada pick up de um raro DJ interessado no verdadeiro peso de uma guitarra. Muitas vezes ofuscado pelo saliente groove da retaguarda formada por Tim Commenford (baixo) e Brad Wilk (bateria), ele tirou a prova dos nove com sobras, fazendo a necessária correção da história justamente em cima do palco. Enquanto isso a massa saltitante – público total estimado em 50 mil pessoas – se acabava. Os problemas aconteciam mais por causa do leiaute infeliz da área dos palcos principais - com a torre de som espremendo o público na grade da Pista Premium - do que pelo show em si.

Ainda na primeira metade do set, o som do PA caiu completamente, mas a banda, abastecida pelas caixas de retorno do palco e pelos fones, não percebeu e continuou cantado. Enquanto isso, vaias do público para a produção do festival, no previsível coro “hey, SWU, vai tomar no…”. A situação se repetiu uma vez e teve gente jurando de pés juntos que o desligamento era proposital, a fim de acalmar os ânimos. Apesar de tudo, o domínio da situação era total por parte da banda. Quando o som voltou, de la Rocha improvisou uma jam em ritmo de reggae que serviu para esfriar a situação e, ao mesmo tempo, testar os equipamentos. Num legítimo free style, o vocalista, claro, soltou o recorrente discurso, citando mais uma vez o MST para os abastados que podem frequentar festivais de rock de ingressos caros como o SWU.

Não se sabe se, em meio a esses altos e baixos, o grupo acabou encurtando o repertório, que resultou num show de cerca de 1h40min, incluindo as paralisações. Sabiamente, as músicas escolhida foram, em sua maioria, as do primeiro álbum. “Bombtrack”, a segunda da noite, “Bullet In The Head”, logo depois das paralisações para conter os ânimos, e “Guerrilla Radio” foram as que mais fizeram o público vibrar, saltitando como fazem Zack e Morello o tempo todo, ou com o punho esquerdo erguido – “para trazer esperança para a América do Sul”, dizia o vocalista. No bis, depois do Hino da Internacional Socialista ao fundo, o RATM arrematou a noite nervosa com “Freedom” e “Killing In The Name”, o maior sucesso deles e um dos belos retratos da década de 90. No fim, pairou no ar a sensação de alívio e de que todos saíram vencedores daquilo que, doravante, vai ficar conhecido como a Batalha de Itu.

A Arte do exagero - Mars Volta transforma músicas que já eram experimentais em inesgotáveis viagens no palco do SWU.

O sujeito que se dirige a um show do Mars Volta esperando ver uma banda tocando as músicas que fazem parte da discografia quebra a cara. Não que grupo só toque músicas inéditas – o que seria ridículo -, mas cada uma das versões ao vivo passa a ser algo completamente diferente. O quinteto, comandado pelo porto-riquenho Omar Rodriguez-Lopez (guitarra) e Cedric Bixler-Zavala (vocal), enverada por surpreendentes improvisações que não têm fim, para o bem ou para o mal. Para se ter uma ideia, “Cotopaxi”, a primeira da noite, chegou a incríveis 15 minutos, enquanto no álbum “Octahedron”, o mais recente deles, o registro é de pouco mais dos convencionais três minutinhos adorados pelas FMs. E o que fazem os caras nesse tempo todo? De tudo um pouco: é baterista surrando os tambores e pratos sem dó, é solo de guitarra, é baixo cavernoso, é uma gritaria só.

Se tal performance experimental passa pela virtuose dos músicos, é inegável a pegada punk que eles trazem do At The Drive In, grupo do qual a dupla saiu, e que já se diferenciava pela forma com que os integrantes evoluíam técnica e musicalmente. Sabe quando punk sujo começa a aprender a tocar um instrumento de verdade, um pouco além dos três acordes, mas prossegue sendo punk? É mais ou menos por aí. Ou, por outra, vai além, porque quem esteve no sábado no Palco Água do SWU viu (e ouviu) psicodelia, fusion, jazz, música latina e o escambau. Em “Eriatarka” (não repare nos títulos, eles são assim mesmo), por exemplo, o minimalismo quase punk, mas fruto de técnica rebuscada, recebe doses cavalares de efeitos por conta de Rodriguez-Lopez , que consegue distorcer a guitarra em meio a texturas sem cair em solos infindáveis – muito embora eles também tenham vez, só que acompanhados, quase sempre, por uma barulheira geral.

Quando não acompanha com gritos esganiçados, Bixler-Zavala também faz das suas. Até demais. Além de se apoiar no pedestal de microfone branco, personalizado, ele desanda a fazer passos de funk de raiz como se fosse um James Brown doidaço, numa configuração das mais desconexas. Não que ele ele faça isso timidamente; o sujeito parte para a frente do palco numa exibição sensacional, caso a música de fundo fosse “Sex Machine”. Mas é apenas “Goliath”, outra viagem musical que tem de tudo, menos funk. E isso com um look à The Experience, a banda psicodélica que serviu de apoio para Jimi Hendrix ganhar o mundo. Aliás, se ele e o baterista interpretassem Noel Redding e Mitch Mitchell numa cinebiografia do guitarrista ninguém acharia estranho. Enquanto isso, do outro lado do palco, Omar Rodriguez-Lopez curte a onda com um terninho verde musgo de doer. Que punk sujo que nada.

É a política do exagero de tudo que ultrapassa a veia musical dessa turma de malucos, e que, certamente, fez boa parte do público ir saindo de fininho para o show do Rage Against The Machine, que começaria em seguida, no Palco Ar. Porque, o que tem de experimental, o som do Mars Volta tem também de indigesto: é duro curtir por mais de 40, 50 minutos seguidos.

por Marcos Bragatto

REG

sábado, 9 de outubro de 2010

# 164 - 08/10/2010

( Na foto, Gee-O-Die ) O Programa de rock da última sexta-feira esteve integrado ao projeto "Sergipanidade", da Fundação Aperipê. Contou com a presença ao vivo nos estudios de Rick Maia e Kal Di Leon, respectivamente guitarrista e vocalista da banda Mamutes, que acaba de lançar uma prévia de seu futuro primeiro disco "oficial" num single de 3 músicas que pode ser baixado aqui mesmo no Blog do programa de rock (ver link ao lado). Tocamos duas das faixas deste single, e mais faixas novas do Nantes (uma regravação de "tempo", que já constava do primeiro EP, quando ainda atendiam por "Daysleepers") e do Bicicletas de Atalaia, novo projeto paulista dos sergipanos Bruno e Leo Matos, ex-Rockassetes. Depois de um bloco dedicado ao metal sergipano, incluindo a inusitada presença do THE END, um "combo" Hard rock/Heavy metal vindo diretamente do Poço Redondo, sertão sergipano (terra onde Lampião e seu bando perdeu, literalmente, a cabeça), tivemos um compacto com os melhores momentos do Debate sobre o Movimento Punk em Sergipe, um importante documento sobre uma das ramificações de nossa multifacetada (embora pequena) cena "roqueira". Os arquivos dessa segunda parte do programa estão disponíveis para download AQUI.

+ Sobre BICICLETAS DE ATALAIA:

“Com letra em Inglês, Insomnia tem levada bem brasileira, principalmente por conta da batida do violão e da harmonia sofisticada. As canções da banda são muito originais e agradarão aos ouvintes que procuram novidades.”

Ciro Visconti –Guitar Player, Março)

"Uma grata descoberta que me foi apresentada no último sábado corresponde à banda paulistana – ou seja lá de onde realmente ela for – Bicicletas de Atalaia. A cada instante que eu vasculho o universo das bandas independentes do meu querido Brasil, eu percebo que a criatividade – capaz de fundir simplicidade e algo mais – se manifesta em sua magnitude pelos cantos, pelas vielas, nos detalhes, nas vírgulas, nos acentos e menos nas orações complexas e rebuscadas da gramática tradicional. Com o perdão da ousadia de tentar decifrar o som da banda, os/as Bicicletas de Atalaia se apóiam em traços clássicos da mpb brasileira mesclados a elementos da música pop. A pegada acústica do samba e da bossa nova, aliada a sutis e determinantes viagens experimentais estabelecem uma sonoridade que por ser difícil de classificar a torna tão promissora – mas todas essas minhas palavras no fundo no fundo não valem de nada.

Os parágrafos anteriores serviram primordialmente para quem gosta de classificações e para alegrar aqueles que gostam das discriminações e nomenclaturas que cercam a nossa música. Também não vou compará-los a nenhuma outra banda, mas no myspace dos caras é possível sacar quais são as influências dos integrantes do grupo, além de – ao ouvir as músicas – estabelecer aquelas que estão mais embutidas na sonoridade “bibicletana”. (...). Bons músicos, é possível manjar que eles são, mas será que todos sabem andar de bicicleta? Sei lá viu, mas pouco importa! (...) Para “tira gosto” e “aperitivo” eu deixo o belo clipe da canção “Alcoholic Dreams” . Agora tirem as suas conclusões e bons sonhos. "

(Por Marcos Oliveira – Blog Sandália e Meia)

Saiba mais: http://www.myspace.com/bicicletasdeatalaia

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Mamutes – A dama de branco
Bicicletas de Atalaia – probabilidade
Nantes – tempo

Entrevista com os Mamutes Rick Maia e Kal Di Leon
+ “Noturna”

The End – 1000 Evils
Tchandala – Beyond the Power
Finitude – Ruins to the ground

DEBATE: Punk Rock Sergipano – compacto com os melhores momentos +

Karne Krua – Animais indefesos
Words Guerrilla – Chiapas
Logorreia – Polícia Bastarda
The Renegades of punk – cópias
Cessar Fogo – Conflitos Mundanos
Gee-O-Die – Marcha para a morte
Olho por Olho – ( ... ) ( várias )
Sublevação – sublevação

plastique noir em Salvador


É sabido de todos os que acompanham o programa de rock que o plastique noir, banda Gótica/Dark Wave de Fortaleza, Ceará, é uma das "fovoritas da casa" por aqui. Mês que vem eles estarão se apresentando ali do lado, em Salvador, no "Darktronic", um festival totalmente dedicado à cultura "das sombras". Fico feliz em saber que as coisas estão mudando por lá, e aos poucos "a cidade do axé" vai se abrindo a uma maior diversidade cultural - que o diga os que, como eu, presenciaram o sensacional show que o Dinosaur jr. fez na Concha Acústica do Teatro Castro Alves há cerca de 15 dias.

Abaixo, tudo o que você precisa saber sobre o evento.

Nos vemos lá, dia 13 de novembro.

A.

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DARKTRONIC DEIXA O PELOURINHO MAIS SOMBRIO A PARTIR DE HOJE

por Franchico - ROCK LOCO

Uma rapaziada no mínimo incomum vai invadir o Pelourinho neste sábado – e durante outros três: no próximo sábado e nos dias 6 e 13 de novembro. Trata-se do Darktronic Live, um evento dedicado às manifestações artísticas da vertente gótica na cultura pop.

Pode até causar espanto em uma cidade ensolarada e de povo aparentemente “feliz” como Salvador, mas sim, essa estética também marca presença no underground da Soterópolis.

E desde os anos 1980, quando eram conhecidos como “darks” e tinham em bandas de rock como Ramal 12 e Treblinka suas representações mais visíveis (ainda que o termo, adotado na época pela mídia, causasse risos entre os adeptos).

Hoje, com um entendimento mais amplo do significado do termo “gótico”, oriundo de um estilo arquitetônico medieval, mas que veio se reciclando e se renovando ao longo dos séculos em diversas formas de manifestação artística, os organizadores do Darktronic Live se utilizam com inteligência desse caráter multifacetado do estilo, inserindo no festival não apenas bandas de rock, mas também mostra de cinema, recitais de poesia, exposição de artes etc.

“Nossa ideia inicial era um evento multimídia sobre o pós-punk e o goth rock em todas as suas vertentes. Mas como o próprio estilo musical envolve outras formas de artes, abrimos o leque para tudo isso”, explica David Giassi, organizador e vocalista da banda Modus Operandi, que se apresenta no dia 6 de novembro.

O Darktronic Live é a evolução natural de um evento que já percorreu diversos pontos do underground local: o Darkfair.

“Isso acontecia na Quixabeira (bar nos Barris), foi tipo uma prévia do Darktronic. Nosso sonho era juntar dinheiro para fazer do jeito que queríamos”, conta David.

Para conseguir o intento, o grupo de David começou a promover festas de música eletrônica: a Darktronic.

“Só que nunca conseguimos. No máximo, empatávamos os custos. Vai daí que surgem os editais do IPAC e o Fundo de Cultura. Fomos aprovados e é maravilhoso ter a oportunidade de finalmente podermos fazer o evento da forma como o idealizamos”, agradece David.

“Sabe aqueles eventos do Andy Warhol com várias coisas acontecendo ao mesmo tempo? Então, queríamos chegar perto disso: um legitimo evento multimídia”, demarca.

SERVIÇÃO COMPLETO:

DATA/LOCAL: 9 e 16/10 (Praça Pedro Arcanjo), 6 e 13/11/2010 (Praça Tereza Batista) – Pelourinho, Salvador/BA.

HORÁRIO: 14h.

PALCO PRINCIPAL:

9/10/2010: Jardim do Silêncio, Almadória e Incrédula;
16/10/2010: Célulamekanika, Desrroche e Orquídeas Francesas (PB);
6/11/2010: Aborym, Modus Operandi e Days Are Nights (SP);
13/11/2010: Inominável, Latromodem, Plastique Noir (CE).

ARENA ELETRÔNICA:
9/10/2010: DJ Deniac, DJ Chaveirinho, DJ Filho do Lobo;
16/10/2010: DJ Sub, DJ Magharin, DJ Vertigo;
6/11/2010: DJ Lohak, Dj Mxyzptlk, Dj Bacana (SP);
13/11/2010: DJ Denival Shadow, DJ Devilla, DJ Letárgico.

Obs.: Os shows na Arena Eletrônica e no Palco principal começam as 18h30.

LOUNGE MULTIMÍDIA:

Mostra de cinema expressionista alemão(início às 14h):

9/10/2010 – O Estudante de Praga (1913) de Stellan Ray e Paul Wegener
O Gabinete do Dr. Caligari (1919) de Robert Wiene;
16/10/2010 – O Golem (1920) De Paul Wegener;
Dr. Mabuse, o Jogador (1922) de Fritz Lang
06/11/2010 – Nosferatu (1922) de F.W. Murnau;
Metrópolis (1927) de Fritz Lang
13/11/2010 – Fausto (1926) de F.W. Murnau.
M, O vampiro de Dusseldorf (1931) de Fritz Lang

Obs.: Ao final das sessões haverá palestra e debates com o Dr. em Letras e Linguística Sérgio Ricardo Lima do Goethe-Institut.

Palestras temáticas (início às 16h30):

09/10/2010 – “A rebelião das formas. Vanguarda, experimentação e abstração no cinema francês e alemão da década de vinte” – palestra com o Dr. em Letras e Linguística Sérgio Ricardo Lima do Goethe-Institut;
16/10/2010 – “O que é Arte Sincrética?” – palestra com o grupo AS- Artistas Sincréticos;
06/11/2010 – “O gótico na música: do pós-punk ao gothic-metal”- palestra com a equipe da Raven Produções;
13/11/2010 – “Uma década de poesia marginal em Salvador – os poetas dos Barris” – palestra com integrantes do grupo as Flores Mortas do Palhaço.

PERFORMANCES: Todos os dias.

As Flores Mortas do Palhaço (Poesia);
AS – Artistas Sincréticos (Artes Plásticas);
Zombie Walk – edição especial no Darktronic, caminhando pelo centro histórico de Salvador;

Obs.: Para estão edição não serão cobrado pelos ingressos, os mesmo serão trocados por uma mídia musical ORIGINAL (CD, DVD, VINIL), de qualquer estilo musical, nos seguintes locais a partir do dia 30/09:

Casa de Cinema: (71) 3334-4409 – R. Odilon Santos, 205, Rio Vermelho.
Mutantes: (71) 3012-3313 – R. da Forca 121, Largo 2 de julho.
Urbanorama: (71) 3335-3639 – Rua Oswaldo Cruz, 222, Rio vermelho.
Fúria Tattoo: (71) 3495-1836 – Travessa dos Barris, 45
Midialouca: (71)3334-2077 – Rua Fonte do Boi, 81, Rio vermelho.
Smile Stamps: (71)3322-1907 – Rua nova de São bento, nº 200, Centro.
Point do Rock: (71)3328-1624 – Shop Piedade 3º piso
Underground : (71)3328-5307 – Rua Carlos Gomes, 859, Centro.

SWU - Tudo o que você precisa saber ...

Home DestaqueSWU: tudo sobre o festival de Itu - Ao todo, 74 atrações musicais irão se apresentar neste final de semana na Fazenda Maeda, no interior de São Paulo, incluindo Rage Against The Machine, que vem ao Brasil pela primeira vez, Kings Of Leon, Pixies, The Mars Volta e Queens Of The Stone Age; expectativa de público é de 50 mil pessoas por noite.

Fonte: REG

Começa HOJE, na cidade de Itu, no Interior de São Paulo, a primeira edição do SWU Music and Arts Festival. Ao todo, 74 atrações musicais irão se apresentar na Fazenda Maeda, entre sábado, sábado, dia 9, e segunda, dia 11. Entre as atrações principais estão Rage Against The Machine, que vem ao Brasil pela primeira vez, Kings Of Leon, Pixies, Regina Spektor, Infectious Groove, The Crystal Method, Cavalera Conspiracy, Avenged Sevenfold, The Mars Volta, Queens Of The Stone Age e Linkin Park. As bandas principais irão se apresentar em dois palcos idênticos, montados lado a lado, o Palco Água e o Palco Ar, de modo que os shows não terão intervalos. O Palco Oi Novo Som é reservado às bandas do novo rock brasileiro, e a Tenda Heineken Greenspace aos DJs.

A expectaiva da produção é que o evento atraia cerca de 50 mil pessoas por dia, e para isso o investimento total foi de aproximadamente R$ 45 milhões. Por isso o público reclamou muito do preço dos ingressos, do acesso à área de camping e até do estacionamento, que pode chegar a R$ 100 por veículo. O festival quer passar uma mensagem de sustentabilidade, e na áera do evento haverá laboratórios de reciclagem e fóruns de debate sobre o tema.

Aqueles que não forem a Itu poderão acompanhar o festival pela TV. As transmissões acontecem diariamente na TV Globo, que exibirá compactos ao final de cada dia, e pelo canal à cabo Multishow, que ira passar alguns shows na íntegra - clique aqui e veja quais. Veja abaixo a escalação completa das bandas e artistas e outras informações úteis sobre o festival, e clique aqui para outros detalhes:

Estrutura
74 atrações musicais
700 músicos
Mais de 50 horas de música
100 toneladas de equipamentos de som
175 mil watts de potência apenas nos palcos principais
3300 pessoas envolvidas diretamente na produção e organização
39 geradores à base de biodiesel - totalizando 12.290 KVAs em energia
25 km de cabeamento para distribuição de energia.
70 km de cabeamento de rede elétrica para energização de tendas, galpões e outros
400 toneladas de equipamentos de montagem (palcos, pisos e rampas)

Restaurantes/bares:
24 restaurantes, equivalentes a 900m2
5 bares, equivalentes a 600 m2
300 ambulantes cadastrados

Atendimento médico
15 postos médicos
Pronto atendimento 24h
1 helicóptero UTI
11 ambulâncias
270 profissionais da área médica durante os três dias de festival

Equipes de segurança
Seguranças: 1500 na arena, 600 nos acessos e 500 nos campings
Policiais militares: 280
Polícia Rodoviária: 50 nas proximidades do evento
GCM (Guarda Civil Municipal): 30
Brigadistas: 150

Site oficial: www.swu.com.br

Atrações Musicais:

Dia 9, sábado
Palco Água

15h45 – Brothers of Brazil
16h50 – Macaco Bong
18h40 – Mutantes
20h55 – The Mars Volta

Palco Ar
16h15 – Black Drawing Chalks
17h35 – Infectious Grooves
19h50 – Los Hermanos
22h05 – Rage Against the Machine

Tenda Heineken Greenspace
15h – Glocal
16h – Killer on the Dance Floor
17h – The Twelves
18h – Switch
19h15 – MSTRKRFT
20h45 – The Crystal Method
23h59 – DJ Marky
01h15 – Steve Angelo

Palco Oi Novo Som
14h40 – Banda Batalha das Bandas
15h20 – Letuce + qinhO
16h10 – Sobrado 112
17h – Superguidis
17h50 – Curumin & The Aipins
18h45 – Mallu Magalhães
19h45 – Cidadão Instigado
20h50 – The Apples in stereo

Dia 10, domingo
Palco Água

14h – Ilo Ferreira
15h40 – Jota Quest
17h45 – Sublime with Rome
19h55 – Joss Stone
22h55 – Kings of Leon

Palco Ar
14h50 – Teatro Mágico
16h40 – Capital Inicial
18h45 – Regina Spektor
21h – Dave Matthews Band

Tenda Heineken Greenspace
16h30 – Mario Fischetti
17h45 – Nike Warren
19h – Life is a Loop
20h15 – Sander Kleinenberg
21h30 – Roger Sanchez
22h45 – Sharam
00h15 – Markus Schulz

Palco Oi Novo Som
14h40 – Banda Batalha das Bandas
15h20 – Luisa Maita
16h20 – Volver
17h20 – Lucas Santtana
18h30 – Tulipa Ruiz
19h40 – Rubinho e a Força Bruta
20h50 – Bomba Estéreo
22h10 – Otto

Dia 11, segunda
Palco Água
15h05 – Gloria
16h10 – Rahzel
17h45 – Cavalera Conspiracy
19h55 – Incubus
22h20 – Pixies
01h35 – Tiesto

Palco Ar
14h30 – Alan Johanes
15h35 – Crashdiet
17h – Yo La Tengo
18h50 – Avenged Sevenfold
20h55 – Queens of the Stone Age
23h25 – Linkin Park

Tenda Heineken Greenspace
15h30 – Anderson Noise
16h45 – Anthony Rother
18h – Aeroplane
19h15 – Mix Hell
20h30 – Gui Boratto
21h45 – Erol Alkan

Palco Oi Novo Som
14h40 – Banda Batalha das Bandas
15h30 – Tono
16h30 – Fino Coletivo
17h30 – Mombojó
18h35 – Autoramas
19h40 – BNegão & Seletores de Frequência
20h50 – Josh Rouse
22h10 – Cansei de Ser Sexy


terça-feira, 5 de outubro de 2010

Steve Albini, uma entrevista

O nome de Steve Albini é praticamente sinônimo de rock alternativo, barulhento e sem concessões. Mesmo á frente de duas bandas cultuadas no "underground", o Big Black e o Shellac, se destaca mesmo como produtor, inclusive de alguns dos maiores clássicos da história do rock, como "Surfer Rosa" do Pixies e "In Utero", o último disco do Nirvana. Elson Barbosa, que toca baixo no Herod Layne, sintetizadores no Labirinto e é um dos capos do selo virtual Sinewave, fez uma entrevista com "o cara" para seu podcast que foi transcrita no site Scream & Yell. Reproduzo-a abaixo:

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Entrevista: Steve Albini - por Elson Barbosa

Fonte: Scream & Yell

A primeira vez que ouvi falar de Steve Albini foi em abril de 1992, na terceira reportagem de André Barcinski sobre a cena underground americana publicada em três edições da revista Bizz. Essa série viraria o imperdível livro “Barulho!”, editado alguns meses mais tarde. A parte de Albini, no entanto, ficou só na revista, uma página inteira em que o então desconhecido produtor mostrava a acidez de suas opiniões chamando o Pixies de “medíocre” e um Nirvana iniciante pré-caos de “lixo da pior espécie”.

Steve Albini produziu a estréia do Pixies (‘Surfer Rosa”) e iria trabalhar com o Nirvana alguns anos depois (nas conturbadas gravações de “In Utero”). Naquela reportagem da Bizz, André Barcinski apresentava Steve Albini assim após um almoço com o produtor em Chicago: “Cara de CDF: magro, óculos grossos. Poderia ser um físico nuclear ou um intelectual. Na verdade, ele é um intelectual, mas um pensador do submundo, do esporro. Sempre primou pelo experimentalismo anticonvencional”. 1992.

Corta para 2010. A primeira coisa que se pensa quando se entra na sala principal do Electrical Áudio, estúdio do produtor em Chicago, é: essa é a casa do Steve Albini. Um sofá enorme e desarrumado ocupa o espaço em frente a uma TV com uma estante repleta de centenas de DVDs e VHS (onde é possível perceber um exemplar de “City of Men - From the Makers of City of God”, de uma tal de Globo Films).

Restos de comida delivery, copos sujos e gatos – três ao todo – são vistos pelos cantos. Uma enorme mesa de bilhar, outra de pôquer, um computador e diversos equipamentos de áudio completam a mobília. A banda brasileira Labirinto está mixando e masterizando “Anatema”, seu novo álbum, no Electrical Áudio, com o produtor Greg Norman, o que permitiu acompanhar o cotidiano de Steve Albini, um dos maiores engenheiros de som do planeta, por uma semana.

Os dias são agitados – diversos músicos e funcionários do estúdio andam pela sala com fitas e CDs em mãos. As noites são mais tranqüilas. É quando o anfitrião aproveita para assistir a programas de pôquer e seriados gravados pelo TiVo com os pés em cima da mesa de centro. Steve Albini mora aqui.

A reportagem da Bizz, de 1992, passava uma imagem de um homem ácido e mal-humorado (e não só ela: diversas outras entrevistas ao longo dos anos corroboraram isso), mas não foi esse Albini que conversou comigo. Durante quase uma hora, ele foi atencioso e bem humorado, respondendo pacientemente a qualquer pergunta. E ele tem tanta história que valia um livro. Alguns possíveis capítulos podem ser lidos abaixo.

Você esteve no Brasil em 2008 para uma pequena turnê com o Shellac. Como foi?

Foi fantástico. As pessoas foram muito legais conosco. Países na América do Sul têm uma reputação, em termos de negócios e detalhes, de não serem muito seguros, das coisas mudarem a cada dia. Você pode organizar um show e ter certos parâmetros, tipo como “o show será nesse lugar nessa data para tantas pessoas pelo preço tal”, e a impressão geral é que essas coisas mudam o tempo inteiro na América do Sul. Nunca é realmente certo. Mas não tivemos essa experiência no Brasil. Tudo foi muito estável e bem organizado.

Teve um show que vocês fizeram em um lugar bem pequeno chamado Votorantim, perto de Sorocaba. Um show gratuito no meio de uma praça.

Ah sim. Foi bem legal. Nós gostamos de tocar em lugares inusitados, mas, mais importante, a banda para nós é uma forma de fazer coisas que nos divertem. Foi uma oportunidade de ir até a América do Sul. Nós provavelmente não iríamos por nossa conta, individualmente. Muitas bandas tentam maximizar o retorno financeiro, como só tocar nas grandes cidades e fazer os grandes shows, mas nós não nos preocupamos muito com isso. Para nós a banda é uma experiência de vida, e nós queremos uma boa experiência de vida. Ajuda se fizermos algum dinheiro, mas isso não é crítico.

É por isso que vocês gravam tão raramente com o Shellac? O último álbum é de 2007.

Nós gravamos quando temos algo para gravar. E nós trabalhamos bem lentamente para criar novo material. Muitas bandas têm uma agenda regular onde eles ensaiam duas vezes por semana ou algo assim, mas nosso ensaio é baseado na disponibilidade do nosso tempo. Por exemplo, nós vamos ensaiar nesse fim-de-semana, durante uns dois ou três dias de uma vez, e para nós isso é uma oportunidade bem rara. Talvez nós não toquemos juntos de novo por mais um ou dois meses.

Vocês acabaram de tocar no Primavera Sound, na Espanha, certo?

Sim. Acho que aquela foi a última vez que tocamos juntos. Não fizemos mais nada desde então, e já faz uns dois meses. Talvez tenha mais um ou dois meses até que nos encontremos de novo.

Eu vi vocês ao vivo no ATP New York 2008. Foi um grande show.

Obrigado.

Uma coisa que achei sensacional foram as sessões de pôquer que você organizou lá.

Sim, esse é um lance legal. O lugar do festival tem um salão de jogos que existe desde que construíram o prédio, sei lá cinqüenta anos atrás, e eles deixam disponíveis para nós. Por que não? “Vamos lá jogar pôquer, vai ser engraçado”.

E qual é a sua conexão com o pessoal do ATP? Você é algum tipo de conselheiro?

Não exatamente. Sou amigo há bastante tempo do Barry e da Debbie, as pessoas que organizam o ATP, e temos uma antiga associação com o festival. Tocamos no segundo ano, e depois fomos curadores de outra edição. Nós tocamos basicamente todas as vezes que eles nos convidam. O ATP é de fato notável. Eles mudaram a maneira como os festivais funcionam, no mundo inteiro. Antes do ATP os festivais eram desses eventos deploráveis só voltados para o lucro, e todas as bandas associadas que tocavam o faziam por alguma razão estranha voltada para o lucro. Ninguém realmente achava que os festivais tinham alguma personalidade. Era somente um caminho para fazer dinheiro fácil durante uma turnê. Ou bandas menores que não eram muito conhecidas usavam os festivais como uma forma de gerar algum interesse na banda, e eles ainda eram obrigados a pagar para tocar em alguns desses festivais. A coisa toda era institucionalizada e bastante desagradável. O ATP de fato mudou tudo. Ter uma banda escolhendo outras bandas, como curadores endossando as outras bandas, e tendo o dinheiro distribuído de uma maneira igualitária entre as bandas, e tendo as bandas e os patrocinadores convivendo juntos de uma maneira mais social… é totalmente único. Isso realmente mudou a maneira como os festivais são organizados. Como o ATP teve sucesso fazendo isso, todos os outros festivais tiveram que melhorar e providenciar uma maior variedade de artistas. Tiveram que tratar melhor as bandas, serem mais igualitários na maneira como as bandas e os patrocinadores são tratados. Eles realmente forçaram outras pessoas a competirem com eles. Tenho muito respeito por isso.

Notei que a vibe era bem diferente de outros festivais que fui.

Sim, é como sair com seus amigos. Isso que é legal no ATP. Não é como gastar dinheiro para ver algum tipo de circo. É como sair de férias com seus amigos. E é essa atmosfera a razão do ATP dar tão certo.

Você mencionou algo sobre bandas pagarem para tocar em festivais. Nós temos uma grande discussão no Brasil, de bandas que bancam para tocar em festivais, enquanto outras acham isso errado.

Isso é utópico. Um festival deve ser organizado de uma forma que bandas que as pessoas gostariam de ver são apresentadas para as pessoas que gostariam de ver as bandas. Se alguém está pagando para tocar significa que existe um critério diferente envolvido, e instantaneamente me faz suspeitar do festival. Me faz achar que há algo fundamentalmente errado. Não necessariamente acho que as bandas que estão pagando para tocar estão fazendo algo errado, só estão fazendo algo tolo. Mas não coloco alguma consideração moral ou ética nisso. Acho que elas estão fazendo algo tolo porque elas estão pagando por algo que elas deveriam estar recebendo. E elas também estão se apresentando para um público que não gosta delas o suficiente para pagar. Então elas estão fazendo um show que talvez não valha a pena fazer, gastando dinheiro pelo privilégio de fazer um show que não vale à pena. É tolo, mas não necessariamente algo eticamente ou moralmente errado. Quem promove, o pessoal que está aceitando esse dinheiro, estes sim estão fazendo algo eticamente errado.

Na verdade existem festivais que ganham dinheiro do governo e, em alguns casos, não repassam o dinheiro para as bandas. Eles dizem não ter dinheiro suficiente. O argumento é de que: “é bom para a sua banda tocar no meu festival, mas infelizmente eu não tenho dinheiro para pagá-lo”.

Se você recebe dinheiro de alguém de fora do festival, e ainda assim perde dinheiro, então você é realmente ruim em organizar um festival e não deveria mais trabalhar com isso. Para fazer lucro com um show na verdade é bem simples. Você organiza o show, estima o seu público, e então organiza o show para que o público pague por isso. E se você fizer de alguma outra forma, então você provavelmente está sendo irresponsável. Não posso respeitar alguém que organiza um festival dessa maneira.

O que você acha de jornalismo musical? Eu estava lendo o fórum do Electrical Audio e vi um post seu com opiniões bem fortes sobre o tema.

Bem, o problema com jornalismo musical é que ele é publicado em um jornal como se fosse jornalismo de verdade, mas no qual os padrões profissionais do jornalismo não se aplicam. Em um artigo normal, se um repórter publica algo fundamentalmente incorreto, como o nome do prefeito ou de um esportista famoso, ele é demitido. Não é aceitável no jornalismo convencional encontrar fatos simples apresentados de maneira errada. No jornalismo musical, ninguém se importa. Você pode publicar um monte de coisas erradas e só rola um: “ok, não tem problema, não importa”. Não é levado a sério. Jornalismo musical não é levado a sério como jornalismo nem pelas pessoas que o praticam, nem pelas publicações que o usam. Então, um monte de informação errada é publicada e acaba virando registro histórico. Se alguém escreve algo incorreto em um jornal ou em um website e depois dez outros jornais ou websites fazem referência a essa informação errada, isso se transforma em algo inconcreto, e dali para frente vira história. E eu acho isso terrível, porque existe jornalismo de verdade que poderia ser feito. Tem um monte de assuntos que tem a ver com música. Por exemplo, o que você descreveu, de bandas pagarem para tocar em festivais, ou festivais aceitando dinheiro do governo e sendo tão ineficientes que não podem pagar as bandas, isso são pautas para jornalismo de verdade. Alguém deveria escrever sobre isso. O público de música se interessaria por isso. Poderia ser jornalismo de verdade. Mas ninguém está escrevendo esses artigos. Ao invés disso eles estão escrevendo coisas como o que essa pessoa está vestindo, ou que tipo de maquiagem esse outro está usando, quem está namorando com quem ou quem usa drogas, essas coisas. Isso é merda, pura merda. E mesmo nessa área limitada de merda, jornalistas musicais podem publicar erros fundamentais que ninguém se importa.

Eu tenho amigos jornalistas e o que eles dizem de publicar artigos estúpidos, como o que as pessoas vestem, acabam tendo mais leituras. Eles acompanham os links nos sites e portais e esses artigos são sempre os mais lidos. As pessoas realmente querem saber o que os outros estão vestindo.

Não existe nenhuma lei que diz que jornalismo deve ser feito para as pessoas mais estúpidas do mundo. Se o seu jornalismo é feito para atrair o máximo de pessoas de algum tipo para lerem o que você escreve, então não há razão para fazer algo específico em música. Porque se você escrever sobre outra coisa, então mais pessoas vão ler. Se você escrever sobre a Copa do Mundo, mais pessoas vão ler do que sobre música, então por que você está escrevendo sobre música? Se você decidiu que quer escrever sobre música, essa é uma decisão sua não baseada no que é mais popular. Então você tem uma obrigação de levar isso a sério, porque você escolheu escrever sobre música. O argumento de que isso é mais popular, “é isso que as pessoas gostam”, não significa nada para mim. Porque o que é popular, o que as pessoas gostam, é de McDonald’s, Coca-Cola. Isso é popular. Mas não é necessariamente a melhor coisa para comer ou beber. E se você escrever sobre comida, talvez você deva escrever sobre as melhores comidas que as pessoas podem comer ou beber, ou dizer que tipo de problema elas teriam se elas só comessem McDonald’s e tomassem Coca-Cola.

Vou listar nomes de algumas bandas com quem você trabalhou, e gostaria que você dissesse algumas palavras de como foi trabalhar com elas.

Claro.

Começando com o Mono. O que você lembra deles?

Mono é uma banda muito especial. Taka, o principal compositor, tem uma visão bem pura de como a sua música deve soar. Ele tem uma idéia completa do som na sua cabeça. A realização disso acaba sendo quase uma formalidade, porque ele já tem a música pronta. A banda é extremamente bem ensaiada, e músicos muito, muito bons. Então gravar as sessões do Mono é na verdade muito fácil. Eles são excelentes músicos, tocam bem, eles entendem bem a música, e Taka tem uma ideia muito clara de como a música deve soar. Eu tenho muito respeito por essa banda.

Eu vi umas fotos no Myspace deles gravando aqui, todas aquelas sessões de cordas, bem bonito.

A mulher que fez os arranjos é de Chicago, seu nome é Susan Vells. Ela é uma excelente violinista, e ela e Taka têm um bom relacionamento. Ele pôde explicar coisas para ela sobre orquestração das cordas, e ela pôde fazer de uma forma bastante natural e fácil. O relacionamento deles é uma parte importante do porquê os discos soam tão bem.

Slint.

Eles eram uma banda incomum. Na época da gravação eles eram bem novos, mas eram amigos desde criança, e tinham o seu próprio vocabulário, sua própria linguagem. Sabe, grupos de amigos próximos desenvolvem essa forma interna de comunicação que é realmente única para esse grupo de amigos, e a banda é bem isso. Acho que eles melhoraram com o tempo. Vi os caras ao vivo várias vezes, e eles eram fantásticos. E vi os shows da volta, e achei que a maneira como a banda recriou o som dos discos foi muito boa. Mas foi uma experiência diferente vê-los ao vivo quando eles eram uma banda ativa. Porque era algo menor e mais próximo, mais informal.

Mogwai.

Caras muito engraçados. O bom humor dentro da banda era bem alto. Eles também têm uma idéia bem clara de como a música deve soar. Eu só trabalhei em uma ou duas coisas com eles, mas gostei da companhia. Já encontrei com eles várias vezes em festivais. E eles nos ajudaram pessoalmente no passado, quando fizemos um show em Edimburgo, na Escócia, e não levamos equipamento, e eles nos emprestaram todo o equipamento deles. São caras muito legais.

Lembro que vocês gravaram só uma música, “My Father My King”. Existem outras?

Acho que naquela sessão eles gravaram uma ou duas coisas, mas não lembro exatamente. Não sei se alguma outra coisa foi usada.

Godspeed You! Black Emperor.

Havia um monte deles. Tinha uns nove ou dez da banda. Nós não terminamos o disco, só gravamos aqui e eles mesmos mixaram no Canadá. Deu muito trabalho. Lembro de dias longos em que a banda fazia um take, e cada um fazia algo adicional. Quando eu fechava com um cara, ele saía para comer ou dormir e outro cara vinha, e quando eu fechava com ele, outro cara aparecia. Então tinha um ciclo de pessoas aparecendo no estúdio, saindo e entrando. E eu basicamente não fiz nada além de sentar na técnica, dormir, acordar e voltar a trabalhar. Então teve muito trabalho. Mas eu acho sensacional o fato de como uma banda pode ter tanta gente e conseguir chegar a algum resultado. Chegar a um consenso ou acordo com tantas pessoas envolvidas é incrivelmente difícil, então tenho muito respeito por eles. Desde que trabalhei naquele disco, Morrow, o baixista, abriu uma casa de shows em Montreal, o La Sala Rossa, onde o Shellac tocou, e foi uma ótima experiência. Um cara muito legal e uma ótima casa de shows.

Eles estão voltando, você viu?

Sim, eles estão fazendo um All Tomorrow’s Parties. E o line-up parece ótimo, bem interessante.

Você sabe se eles têm planos de gravar algum material novo?

Não ouvi falar nada, não sei.

Om.

Om é uma banda bastante contemplativa. Eles pensam no que fazem de uma forma bastante séria. Mesmo se for algo bastante simples, eles querem que seja tudo perfeito e bem específico. E às vezes é ilusório ter algo realmente simples. O seu primeiro instinto é que se é simples então deve ser fácil fazer. Mas sendo simples, as menores imperfeições se tornam aparentes, e se essas imperfeições incomodam isso pode se tornar um grande problema. Eles levam a música muito a sério e acho que é ilusoriamente simples. Parece muito simples e minimalista, mas na verdade existe muito esforço para chegar nessa simplicidade.

Eu fiz um top 5 de melhores discos de 2009 para um website [Scream & Yell], e notei que nesse top 5, três deles foram gravado por você – “God Is Good”, do Om, “Hymn To The Immortal Wind”, do Mono, e o terceiro foi “Further Complications”, do Jarvis Cocker.

Um disco diferente dos outros.

Sim. Como foi trabalhar com ele?

Jarvis é um cara muito engraçado. Muito esperto e genuíno. Tenho muito respeito por ele. Tenho que admitir: eu não tinha nenhuma familiaridade com a sua banda, o Pulp. Acho que ouvi algo deles talvez uns vinte anos atrás. Mas não conhecia nada da sua música. Então quando ele veio gravar foi como conhecer alguém sem nenhuma expectativa. E a gente se deu muito bem, tanto que o considero um amigo. A banda era muito calibrada, excelentes músicos. E ele tinha um ótimo relacionamento dentro da banda, dando muito espaço para que todos se expressassem. Ele nunca criticou algo, “não faça isso, você tem que fazer dessa forma”. Ele era mais gentil e indulgente, e acho que trabalhava muito bem com a banda.

The Jesus Lizard.

Eu trabalhei com eles há muito tempo (entre 1989 e 1994, quando a banda lançava discos pelo selo Touch and Go). Eles voltaram recentemente para uma turnê, e fiquei totalmente satisfeito com a reunião. Percebi que eles ainda eram dignos de confiança. Vê-los em 2009 era praticamente o mesmo que vê-los em 1994 ou 1995, basicamente a mesma experiência. Com a exceção de que o público não estava surpreso. Nos primeiros anos, eles às vezes abriam para alguma outra banda – o Sonic Youth, por exemplo – e encontravam um público inesperado. E esse público algumas vezes era inicialmente insultado, e logo depois eventualmente convencido. Vi isso acontecendo noite após noite nos anos 90. E depois eles se tornaram algo como uma banda heróica, com seu próprio público. Foi legal vê-los voltando e tocando para um público 100% compreensivo e a favor da banda. E acho que fizeram um grande trabalho na reunião. A escolha das músicas, a execução, tudo foi muito legal.

Fugazi.

Fugazi era uma grande banda. E eram também pessoas tremendas, muito generosas com as bandas com quem eles tocavam. Nós fizemos alguns shows juntos pelos EUA, Austrália e Inglaterra e eles eram sempre generosos, super divertidos e legais para andar junto. Eles tinham uma reputação de serem sérios e frios, mas em um nível pessoal eles não são assim. Na verdade são muito divertidos e calorosos. Me diverti muito tocando junto com eles. Pessoas muito legais.

O disco acabou não saindo?

Eu fiz uma sessão com eles… eles estavam trabalhando em músicas que acabaram virando o “In On The Kill Taker”. Eles tinham acabado de compor algumas faixas do disco e gravaram tudo imediatamente. Depois de alguns meses eles fizeram algumas mudanças nas músicas, tomaram algumas decisões de como elas deveriam ser gravadas, e então regravaram o álbum. Eu fiquei bem contente com o álbum regravado, não tenho nenhuma reserva deles não terem usado as sessões que fizemos. Eles melhoraram o material e melhoraram a própria banda durante esse período de alguns meses, então achei legal. Foi uma grande experiência. Eles aprenderam algo com isso, e também se tornaram mais auto-suficientes. Acho que foi uma grande coisa.

Pixies.

Devo admitir que nunca fui um grande fã dos Pixies. E quando ouço a música deles hoje, continuo não achando grande coisa. Acho que eles são uma boa banda, não tem nada de errado com eles. São genuínos, bons músicos e etc. Mas a música deles não me diz nada. Sou meio surdo para isso. Mas eu tive uma boa experiência trabalhando com eles (no “Surfer Rosa”), estou feliz que eles se tornaram um sucesso.

Eu estava lendo aquele livreto do ATP Nightmare Before Christmas e tinha uma história engraçada sobre a Kim Deal ter botado fogo em um roupão que você deu a ela.

Ela estava passando por um período no qual bebia e se drogava muito. Ela estava meio que dando uma festa para ela mesma, e acabou botando fogo no chalé (risos). Eu não sei os detalhes, mas foi só um episódio e acho que não deu em nada. Ela certamente não se comporta dessa forma hoje.

Mas então foi uma história séria? Lendo pareceu uma história engraçada.

Foi engraçado! Digo, ela botou fogo no apartamento. Foi engraçado.

Ela mencionou que ela botou fogo no roupão que você deu a ela.

Sim. Eu não lembro mesmo dos detalhes. Mas enfim… Pixies era uma boa banda. Fico contente que as pessoas gostem deles. Uma das coisas legais de ter feito esse disco com eles é que desenvolvi uma relação com a Kim (Deal), e desde então trabalhei em vários discos do Breeders (entre eles “Pod”, “Title TK” e “Mountain Battles”). Acho esses discos incríveis. São discos muito estranhos, e são produtos do processo de raciocínio dela, que é único. Ela realmente pensa como ninguém mais que eu conheço na música. Acho que existe um paralelo entre ela e o Slint. O som específico da música deles é familiar, mas a organização, a apresentação, os detalhes, as pequenas diferenças entre eles e as bandas que soam como eles, fazem a música do Breeders e da Kim única, assim como a do Slint. Não acho que existe necessariamente uma correlação do fato de que Britt (Walford), do Slint, tocou num breve período com o Breeders. Digo que a percepção musical e a execução da Kim é única, e o mesmo acontece com o Slint.

Jimmy Page & Robert Plant.

Trabalhar em um disco com esses dois caras foi uma experiência sensacional. Porque eles são superstars famosos, e sair com superstars famosos por quatro ou cinco meses é algo louco. Porque você ouve grandes histórias todos os dias, e poder ver como esse mundo é – mesmo por um curto período – é muito legal. Por uma perspectiva de fã mesmo. Eu fiquei bastante feliz com o disco que eles gravaram (“Walking into Clarksdale”, de 1998). Acho que é um bom disco e tem qualidade. Fiquei contente de vê-los trabalhando juntos em algo, porque teve um período em que Robert Plant foi meio que um funcionário do Jimmy Page. O Led Zeppelin dava essa impressão. E quando o Led Zeppelin terminou, Jimmy Page se tornou meio recluso e trabalhou pouco com música, enquanto Robert Plant se tornou um vocalista solo de sucesso. Então ver que eles conseguiram botar essa história de lado para trabalhar novamente juntos foi uma coisa muito legal. Para eles e para o legado de sua música. O disco que eles fizeram será inevitavelmente comparado com os discos do Led Zeppelin, e quase todos os discos diminuem comparados aos discos do Led Zeppelin. Inevitavelmente existirá alguma crítica comparativa, então não deveria ser surpresa que as pessoas não achem o disco do Page-Plant melhor que os discos do Led Zeppelin. Mas eu ainda acho que é um grande disco. Fiquei contente com ele.

E o último deles, Nirvana. Talvez seja um dos mais polêmicos que você gravou.

Quando eu trabalhei com eles, eles eram uma banda totalmente normal. Caras da minha idade, mesmo grupo, fãs do Killdozer – e eu era um fã do Killdozer. Não tinha mesmo uma diferença muito grande entre nós. Mas eles tinham ficado super famosos por mais ou menos um ano, e suas vidas mudaram completamente. Acho que eles ainda estavam se acostumando com o quanto eles estavam famosos, e ainda se sentiam desconfortáveis isso. Acho que consegui me comunicar com eles no estilo deles, da maneira como eles viviam dois ou três anos antes, quando eles eram somente uma banda qualquer. Acho que eles gostaram de eu não tratá-los como uma pessoa da indústria da música os tratava. Eu os estava tratando como um cara de uma banda os trataria. Eu não era um grande fã do Nirvana quando começamos o disco, mas com o tempo comecei a ser mais complacente com a música deles. Acho que eles eram totalmente honestos e genuínos, e os respeito.

Tem algum disco que você gostaria de ter gravado? Você ouve o disco e pensa “eu gostaria de ter feito isso”?

Bem, tem discos que foram importantes para mim, e seria legal ter estado envolvido para ver como foram feitos. Como os primeiros do Ramones. São grandes discos, e eu teria adorado estar lá enquanto tudo aquilo estava acontecendo. Não muito pelos discos em si, mas mais por fazer parte daquele mundo, quando os Ramones eram uma banda iniciante, e eram a primeira e única banda daquele jeito. Teria sido bem legal ver isso. Eu ouço muitos discos de classic rock, e acho que deve ter sido uma grande experiência estar por ali enquanto estavam trabalhando neles. Como os discos do AC/DC, Alice Cooper, ZZ Top, Neil Young & Crazy Horse, qualquer um desses discos clássicos. Você consegue imaginar a banda tocando algumas dessas músicas e vindo para a técnica para ouvir a gravação e todo mundo achando muito bom. Além de tudo você está próximo do Neil Young, você está sentado próximo do Neil Young, isso seria muito legal. Mas eu não fantasio muito sobre isso. Não penso muito em coisas desse tipo. Estou bastante contente com as bandas com quem trabalho. Sou bastante complacente com as bandas que vem aqui e fico feliz que eles querem que eu trabalhe nos discos deles.

Você recusa bandas? “Eu não gosto da sua banda, eu não deveria fazer o seu disco”?

Basicamente não. Acho que já recusei uns dois discos na minha vida, mas isso aconteceu há muito tempo. Hoje eu acho que não recusaria ninguém (risos). Acho que meu trabalho é mais ou menos como um barbeiro, ou algo parecido. Se você entra em uma barbearia, “eu gostaria que você cortasse o meu cabelo”, e o barbeiro dissesse: “não, eu não gosto do formato da sua cabeça”, isso seria um insulto. Acho que não seria uma boa conduta profissional do barbeiro. Eu sinto da mesma maneira sendo um engenheiro de gravação. Se alguém quer vir aqui e gravar a sua música e quer que eu o ajude, eu devo fazê-lo. É simples assim.

Esses dois discos que você recusou foram por razões artísticas ou de negócios?

Principalmente por questões malucas de negócios. E como eu disse, faz muito tempo e não me sinto confortável falando disso.

Você conhece algo sobre música brasileira?

Não tenho muita familiaridade com música brasileira, para ser honesto. Minha namorada é uma grande fã do CSS, e é só o que eu conheço. Alguma outra coisa sobre música brasileira contemporânea… Tom Cary gravou aqui.

Quem?

Uma banda chamada Tom Cary.

Do Brasil? Não conheço essa.

Acho que são do Brasil.

Teve uma banda do Brasil chamada Debate.

Teve o Debate. Mas tenho que checar para ver se não estou confundindo. [Verifica no Myspace]. Desculpe, é da Espanha. Confundi-os com alguma banda da América do Sul. Não tenho familiaridade com música brasileira.

Uma última pergunta - você mencionou que vai ensaiar com o Shellac. Vão gravar material novo?

Eventualmente, sim. Nós temos algumas músicas que não foram gravadas que queremos gravar.

Legal, obrigado pela conversa, foi muito legal.

Sem problema. Como eu digo “goodbye” em português?

“Tchau”, “obrigado”.

sábado, 2 de outubro de 2010

# 163 - 01/10/2010


A dois dias da eleição presidencial, o Programa de rock promoveu ontem um debate sobre o Movimento punk em Sergipe no qual, além de se discutir a experiência pessoal de cada um dos presentes, todos envolvidos de alguma forma e/ou em algum momento de sua vida com a cultura punk, foi feita uma verdadeira convocação ao voto nulo. Acho justo, é uma opção legítima, por isso repito aqui uma informação que foi passada e é pouco divulgada: para votar nulo, basta digitar um numero que não está veiculado a nenhum partido político, como 00 ou 99, e apertar a tecla CONFIRMAR. Agradeço a todos que participaram e à Direção da Aperipê FM por ter liberado o corte de um dos intervalos para dar mais espaço ao debate. Antes, falamos com Vicente Coda, veterano do cenário musical e artístico sergipano, tendo sido inclusive um dos fundadores da Karne Krua, a banda punk em atividade mais antiga do nordeste, sobre seu novo projeto, um disco solo experimental calcado na música eletronica. Tocamos com exclusividade uma faixa deste disco, "BeBop". Ainda antes tivemos um bloco inteiro retirado da trilha sonora do filme "A Prova de morte", de Quentin Tarantino, em cartaz no cinema em Aracaju e, abrindo o programa, o primeiro single do novo disco do Halford, banda de Rob Halford, vocalista do Judas Priest.

Até a próxima sexta-feira.

A.

* * *

Halford - The Mower
Andralls - Rage Empire
Inrisório - Jesus Cristo comeu meu cu

DDDBMT (Dave Dee, Dozy, Beaky, Mick & Tich) - Hold Tight
T- Rex - Jeepster
April March - Chicken Habbit
Eddie Beram - Riot in thunder allen
Joe Tex - The Love You Save (May Be Your Own)

Vicente Coda - Bebop
Mamutes - Noturna

Vicente Coda
Entrevista

The Jezebels - Rage control
Cessar Fogo - Na contramão

Debate: O Movimento Punk em Sergipe
participaram:

Silvio Campos (Karne Krua/Words Guerrilla/A Casca Grossa/Logorreia)
Vicente Coda (Ex-Karne Krua)
Marcio Prata (Psichodelic Down)
Marcelo Prata (Olho por Olho)
Dani (The Jezebels/The Renegades of punk)
Ivo (The Renegades of punk)
Cicero "Mago" (PH/Logorréia)
Nininho (Logorréia)
Luiz (Cessar Fogo)

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Um estranho no ninho

II Brutal Zone no Espaço Cultiva - por Rian Santos

riansantos@jornaldodiase.com.br

Troquei meus ouvidos por uma matéria. A culpa é de Fúria, o único intelectual que eu respeito. O rapaz se envolveu na produção do II Brutal Zone – que reúne meia dúzia de bandas do mal, amanhã à noite, no Espaço Cultiva – e me convenceu da importância de dedicar alguma atenção ao segmento. Os argumentos utilizados foram poderosos. O público local de música extrema vem crescendo de maneira espantosa, por conta própria, à revelia dos meios de comunicação e de qualquer atenção do poder público. Fúria não disse, mas eu deduzi. Metaleiro é gente que faz!

Poucas vezes fiquei tão à vontade durante o ensaio de uma banda. Ninguém sabia quem eu era, ou o que fazia no estúdio. Ninguém estava ligando pra isso. O negócio dos caras da Singn of Hate é fazer barulho, e eles se dedicam com uma devoção monstruosa a isso.

Não se enganem. Devoção, aqui, é a palavra. A banda respeita todos os dogmas da música extrema. Volume, velocidade, ruído. Não consegui entender uma única palavra berrada pelo vocalista Marcio Túlio, mas a julgar pela postura beligerante do negão e pela impostação gutural de sua voz, desconfio que a filosofia da banda tem mais afinidade com os propósitos escuros do coisa ruim do que com os sentimentos etéreos e harmoniosos da maioria das religiões.

Claro que eu não estou municiado, de nenhuma forma, para realizar uma avaliação crítica do que presenciei. Faltam-me parâmetros. Deu pra perceber, no entanto, que os caras são músicos competentes, que encaram o ofício com a paixão necessária para emprestar verdade e personalidade ao que fazem.

Talvez o release da banda seja mais esclarecedor. Segundo ele, a Singn of Hate se dedica a espalhar o caos profano em forma de metal da morte. A banda acumula mais de dez anos de atividade, durante o qual lançou alguns discos, entre Demos, Promos e EPs. Segundo pessoas mais qualificadas para emitir opinião a esse respeito do que este escriba, a Singn of Hate é uma das bandas locais mais importantes e queridas do meio.

Como o texto deixa claro, essa não é minha praia. No final das contas, contudo, a experiência se revelou enriquecedora. Do meio pro fim do ensaio, praticamente surdo, quase acordo meus demônios e começar a bater cabeça como faria no fim do mundo.

II Brutal Zone – Com as bandas Andralls (SP), Goreslave (AL), Sign of Hate, Inrisorio e MDV (AL)

Local: Espaço Cultiva
Data: 01 de outubro
Hora: 21 horas

Ainda "À Prova de Morte"


Death Proof ***** - Realização: Quentin Tarantino. Elenco: Kurt Russell, Rosario Dawson, Vanessa Ferlito, Jordan Ladd, Rose McGowan, Sydney Poitier, Tracie Thoms, Mary Elizabeth Winstead, Zoë Bell, Michael Parks, James Parks, Quentin Tarantino, Monica Staggs. Nacionalidade: EUA, 2007.

A cicatriz que marca a cara de Stuntman Mike (Kurt Russell) é o que ele tem de menos inquietante. Dublê de filmes e séries de televisão dos anos 70, ele distrai-se a utilizar o seu carro Chevy Nova “à prova de morte” para matar belas jovens. “Death Proof” é um slasher movie misturado com o típico filme de perseguições. Uma homenagem, tal como “Kill Bill” o tinha sido para os filmes de kung-fu.

Aqui existem mulheres bonitas (uma especial nota para quem tenha um foot fetish) e carros cheios de estilo. As referências aos anos 70 são inúmeras, quer as estéticas, como a fotografia de Brigitte Bardot cuja pose é emulada por Jungle Julia, quer as cinematográficas, como o evidente “Vanishing Point” (1971). Mas, ao mesmo tempo, Tarantino faz questão de se descolar de um tempo fixo, e dá-nos telefones celulares e carros figurantes totalmente atuais.

A estrutura do filme divide-se em duas partes, separadas cronologicamente por alguns meses e por dois grupos diferentes de jovens mulheres. O primeiro é composto por Jungle Julia (Sydney Poitier, filha do actor Sidney Poitier), Arlene (Vanessa Ferlito), Shanna (Jordan Ladd, filha da Charlie’s Angel Cheryl Ladd) e Lanna Frank (Monica Staggs), jovens arrogantes com vontade de beber uns copos, fumar alguma erva e divertirem-se. Do segundo grupo fazem parte Kim (Tracie Thoms), Abernathy (Rosario Dawson), Lee (Mary Elizabeth Winstead) e Zoë (Zoë Bell, a dupla de The Bride em “Kill Bill”, aqui interpretando-se a si mesma), mulheres temperamentais decididas a experimentar as potencialidades de um Dodge Challenger R/T de 1970, o mesmo modelo usado em “Vanishing Point”.

Ainda à semelhança de “Kill Bill”, “Death Proof” é também um filme sobre a vingança. Mas em contraste com exploração sexual típica deste género de filmes, Tarantino dá uma unusual força às mulheres, estabelecendo um ritmo crescente, que vai desde os intensos diálogos (tarantinescos) da primeira parte à intensa acção física da parte final. A violência e o gore assumem aqui um deliberado estilo anos 70, com fotografia granulada, cores gastas, película com riscos, mudanças de bobine e cortes propositados na montagem.

Tarantino rodeia-se de elementos familiares, desde o toque do celular, "Twisted Nerve", de Bernard Herrmann, que acompanhou a arrepiante caminhada de Daryl Hannah em “Kill Bill Vol.1”, até ao carro amarelo com barras pretas, “vestido” exatamente igual a Uma Thurman. Também de “Kill Bill Vol.1” vêm os agentes McGraw, pai e filho interpretados, respectivamente, por Michael e James Parks. As paredes estão repletas de posters, e apetece parar cada frame e analisar com atenção todos os detalhes, sabendo de antemão que todos eles foram pensados com extrema minúcia.

E para quem se canse do carácter ‘self-conscious’ das excessivas referências, ou ache insuficiente a moralidade subjacente do “cá se fazem cá se pagam”, basta deixar-se inebriar pelo sentimento de perigo real providenciado pela incrível perseguição final, onde o CGI não tem lugar e onde Zoë Bell é simplesmente impressionante.

Uma nota ainda para a sempre boa selecção de banda sonora, de onde destaco JEEPSTER dos T-Rex, HOLD TIGHT dos Dave Dee Dozy Beaky Mick and Titch e, para terminar, a viciante CHICK HABIT de April March (versão da música de Serge Gainsbourg “Laisser Tomber les Filles” popularizada por France Gall).

por Rita Almeida

CINERAMA

* * *

É um povo extremamente verborrágico, este que habita os filmes de Quentin Tarantino. A depender de seu estágio mental inicial, se você está pouco disposto a prestar atenção, por exemplo, chega a cansar. Mas se prestar atenção e começar a se deixar envolver pelo clima “nonsense” da coisa, invariavelmente será fisgado. “A Prova de morte” não foge à regra: começa com um longo diálogo entre 4 amigas num carro a caminho de um bar. No bar, mais diálogos, mas aí já notamos que elas estão sendo seguidas, e o “perseguidor” é ninguém menos que Kurt Russel, que também entra no bar e protagoniza mais alguns diálogos impagáveis, especialmente aquele com o qual ele consegue convencer a personagem de Vanessa Ferlito a proporcionar-lhe uma dança sensual exclusiva. E que dança, senhoras e senhores ! Certamente um dos pontos altos do filme e que estava ausente do corte inicial quando em conjunto com “Planeta Terror”, de Robert Rodriguez, para compor o combo “Grindhouse”. “Stuntman” Mike, o personagem de Kurt Russel, consegue convencer uma das freqüentadoras do bar a aceitar uma carona e aí suas reais intenções, antes apenas sugeridas, vêm à tona: “Stuntman” (Dublê) usa um carro adaptado, “à prova de morte”, para matar suas vítimas - ao que tudo indica, sempre garotas gostosas, bem resolvidas e de personalidade forte, daquele tipo que costuma assustar homens inseguros. Depois de matar a moça de forma bem criativa, numa sequencia de dar inveja aos melhores “slash movies”, Mike parte para o ataque às 4 garotas do bar, o que rende uma das melhores cenas de acidente automobilística que meus olhos já tiveram o prazer sádico de presenciar, tudo mostrado nos mais diversos ângulos e em câmera lenta, com direita a pedaços que compunham os outrora deliciosos corpos das beldades se espatifando no chão entre cacos de vidro e metal contorcido. Absolutamente memorável.

Corta! Segunda parte, lado B. Mike sobreviveu (lembre-se que seu carro é “a prova de morte”) e já está na caça de novas vítimas. Mas desta vez as meninas (ou pelo menos 3 delas) não são tão inofensivas quanto ele imaginava, o que gera um final inesperado e caricato ao extremo, capaz de arrancar gargalhadas até mesmo do mais carrancudo dos cinéfilos apreciadores de Jean Luc Godard. De quebra, mais uma cena para ficar nos anais da sétima arte, a da longa perseguição final. Destaque para a presença de Zoë Bell, atriz e dublê neozelandesa que já havia trabalhado com Tarantino em Kill Bill justamente como dublê de Uma Thurman, fazendo o papel dela mesma.

“Death Proof” ganhou muito com o novo corte, e não apenas por conta da cena de “slap dance”, embora esta, por si só, já valesse uma nova “versão do diretor”, caso não tenha sido esta a intenção se por acaso o projeto “grindhouse” não houvesse fracassado. Eu tinha visto apenas a versão em conjunto com “planeta terror”, no computador, e posso atestar que vale muito a pena assitir no cinema e com os tais 17 minutos a mais, que eu diria que são indispensáveis. Vale notar que, apesar do fetiche escancarado em cada frame, Tarantino não trata suas personagens femininas de forma misógina, muito pelo contrário: elas têm personalidade, são espertas e divertidas. É o tipo de mulher que você baba e quer muito comer já no primeiro encontro, mas caso não role e não haja perspectiva de rolar, ainda assim vale a pena ter apenas como amiga.

O filme foi exibido em Aracaju na última (última mesmo*) Sessão Notívagos e vai estrear amanhã no “Cine Cult”, onde deve permanecer em exibição por 15 dias, sempre às 14:00h. Não deixe de ver.

Por falar em Sessão Notívagos, a da noite de 24 de setembro contou com as presenças da Cabedal, excelente combo “samba rock” local, e da banda Do Amor, do Rio de Janeiro. O show da Cabedal foi, como de costume, redondinho e pontuado por excelentes composições próprias complementadas por covers bem sacados. Já a Do Amor surpreendeu os incautos com uma música dançante porém permeada de experimentalismos, chegando a lembrar as bandas pós-punk nacionais dos anos 80 (do tipo Patife Band) em determinados momentos. Para dançar e para pensar, sem perder a ternura e muito menos o bom humor, jamais. Grandes músicas, como “chalé”, “Pepeu baixou em mim”, “Isto é Carimbo” e “shop Chop”, executadas com precisão por um quarteto pra lá de competente, capaz de driblar, inclusive, a única deficiência “apontável” no grupo, a falta de um bom vocalista, no sentido técnico da palavra – porque artisticamente falando eles tiram de letra, adaptando muito bem a estrutura das canções às suas vozes e revezando os vocais entre todos os componentes.

* Será? Espero que não ...

por Adelvan