segunda-feira, 27 de setembro de 2010

paulistas, protejam seus ouvidos ...

No último domingo eu vi um dos melhores shows de minha vida: Dinosaur jr. Ao Vivo na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, na Bahia. Dá pra acreditar que eu nunca tinha ido na Concha acústica do TCA ? Encravado no Campo Grande, centro da cidade, além de amplo, espaçoso, bonito e com uma excelente estrutura, o local é lendário, um dos melhores e mais democráticos espaços culturais da região. Por lá já passou de tudo, como por exemplo um show do Sepultura em formação "clássica", com Max Cavalera, no início dos anos 90, que alguns de meus amigos Headbangers daqui que foram não cansam de lembrar. Me bati com um brother das antigas, o vocalista da banda punk baiana Injuria, por lá, mencionei que era minha primeira vez na Concha e ele já foi lembrando da primeira vez dele, em 1989, show do Cólera com o Taurus ! Por aí dá pra notar a diversidade e a importancia desses espaço para o cenário não apenas soteropolitano, mas também de todo o nordeste.

Era também a primeira vez do Cidadão Instigado, e Fernando Catatau estava emocionado por isso. Ele já tinha tocada por lá com outros músicos, como Otto, há poucos dias, mas não com a SUA banda, o Cidadão. E foi um show excelente, como não poderia deixar de ser, já que a estrutura era de primeira. Aquele mesmo desfile de pequenas pérolas psicodelicas pontuadas por uma originalíssima sonoridade influenciada pela musica REALMENTE popular brasileira dos anos 70 e 80 - sim, não há como negar, Cidadão Instigado É influenciado por aquele brega clássico (que Catatau prefere chamar de musica romantica), e é sensacional. É como se Odair José tivesse tomado um ácido e tirado uns sons com alguma banda psicodelico/progressiva virtuosa. Destaque para "Deus é uma viagem", com seu clima num "crescendo" que culmina numa espécie de louvação. Acho essa música uma obra-prima - aliás, acho o disco "Uhuu" um dos melhores (senão o melhor) do rock brasileiro dos últimos tempos. Rock mesmo, brasileiro, mas ROCK - "Viva a resistencia roqueira no Brasil", gritou Catatau numa certa altura. Excelente.

Antes do Cidadão teve A BANDA DE JOSEPH TOURTON. Legal. Bons musicos, boas intenções (musica instrumental experimental), mas falta composição. Não me ofendeu, mas também não empolgou.

Mas a gente estava lá para ver o Dinosaur jr. Vimos, e ouvimos. Ouvimos muito. Muito alto. Foram precedidos pela montagem de duas paredes de amplificadores, com a mítica marca "Marshall" reluzindo na maioria deles. Isso num pequeno intervalo pontuado pela versão reggae do Dark side of the moon cometida pelo Easy Star All-Stars nos alto-falantes e algumas entrevistas pessimamente conduzidas por um entrevistador ridiculo que parecia ter caido de para-quedas no evento nos telões. Mas quando entraram no palco, entraram "com gosto de gás", como costumamos dizer por aqui. Quer dizer, não entraram correndo, nem saudando a galera aos gritos de "Huhuu" ou coisas do tipo. Apenas entraram, ligaram seus instrumentos e começaram a triturar, sem dó nem piedade, nossos tímpanos. E nós gostamos, muito. O ritual de sado-masoquismo sonoro começou com uma faixa de "Green mind", aquela que no disco tem uma flautinha bacana criando um clima (acho que é "thumb" - perdão por não saber o nome com precisão, sou apenas um "jornalista amador"). Perfeito. Deu o tom do que seria o restante da apresentação: Displicente, porém super eficiente. Displicencia é, aliás, a marca registrada não tanto da banda em si, mas de seu líder, J. Mascis. Enquanto Lou Barlow se acabava batendo cabeça enquanto espocava as cordas de seu contra-baixo no lado direito do palco e o baterista batia sem dó nem piedade em suas peles, Mascis apenas ligava suas fender Jazzmaster no talo e nos emocionava com aquelas belas melodias saídas de sua voz preguiçosa. Barlow arriscou uns "obrigados" em bom português, Mascis falou alguns "thank you" numa vozinha afetada, em tom de brincadeira, e foi isso. A comunicação com o público foi através da música. Só clássicos, como prometido. "The Wagon", "I Feel the pain" e "over it", aquela do sensacional videoclipe deles andando de Bike e skate, foram as vencedoras na categoria "recepção entusiasmada" por parte dos presentes. De minha parte, me emocionou bastante a execução de "out there", do "Where you been", disco com o qual eu e quase todo mundo com mais de 30 aqui no Brasil foi apresentado ao som da banda, já que foi o primeiro a ser lançado em terras tupiniquins, em plena "era do grunge". Para o bis, apenas dois sons. Encerraram com o excelente cover de "just like heaven", do the cure. Aliás, nunca vi um final de show tão abrupto. Pararam de sopetão, agradeceram com um "thank you" apressado e caíram fora. Pode ter dado a impressão aos desavisados de que eles não estavam felizes por estar ali. Pode até ser que eles realmente não estivessem felizes por estar ali - o que eu acho difícil - mas não importa: Eu estava feliz, meus amigos estavam felizes e as pessoas ao nosso redor também pareciam bastante satisfeitas. Voltamos pra casa felizes e eu estou feliz até agora, digitando isso aqui pra você. Espero que você tenha ficado feliz depois de ler.

por Adelvan, uma pessoa feliz.

PS: Ah, comprei uma camiseta linda, azul, com a estampa da capa do Farm. Estou usando-a, feliz, nesse exato momento.



* * *

para quem não viu ainda:

Porque você deveria ir ver os shows do Dinosaur jr. no Brasil

Texto feito por Tiago Marditu, jornalista, músico e profundo conhecedor da obra do Dinosaur Jr ...

Qualquer roqueiro sabe, ou, ao menos, deveria saber, da importância de estar sábado no teatro da UFPE, ou no shows de São Paulo e Salvador que rolam por esses dias. “Ah, você está se referindo a edição desse ano do Festival Coquetel Molotov“, diria você, leitor antenado. Sim, mais especificamente de um show: o do Dinosaur Jr.

Mal comparando, assistir ao show do Dinosaur Jr agora é uma oportunidade imperdível para qualquer fã de rock dos anos 90, assim como assistir ao Deep Purple , na tour que passou pelo Brasil em 2003, foi imperdível para os admiradores do rock do anos 70. Só que, nesse caso em especial, a jurássica banda dos 90 (ou dos 80, já que ela foi formada em 1983 e lançaram seus três primeiros discos nos idos anos 80) voltou com sua formação original – J. Mascis, na guitarra e vocal, Lou Barlow, no baixo e vocal, e Murph na bateria – e, pasmem, vem lançando grandes discos e fazendo shows muito bem cotados por público e crítica especializada. Tente imaginar quantos outros artistas se encontram na mesma situação, obtendo resultados igualmente efetivos. Eu sei, são poucos mesmo.

Se isso ainda não te emocionou, saiba que estamos tratando, acima de tudo, de uma banda que, não só foi responsável por cunhar o rock alternativo dos anos 80/90, mas que hoje também tem a função de preencher algumas lacunas do gênero, que, saudavelmente, diga-se de passagem, incorporou novos elementos que o afastaram de suas origens básicas. O Dinosaur Jr ainda se mantém firme e forte com seu rock melódico, enérgico e barulhento, com raízes fincadas tanto no punk/hardcore oitentista, como no country rock dos primeiros discos do The Byrds e no hard rock de um James Gang. Uma banda de alma rústica, caipira por essência.

Como não se não se admirar com um grupo que teima em fazer uso ostensivo da guitarra e que ficou conhecida por causa dos solos desse instrumento. Sim, solos de guitarra, o ápice da indulgência rockeira; solos esses que aparecem aos montes em suas músicas, longos, quase intermináveis, sempre empapuçados de distorção e sujeira acima da média. Em priscas eras, isso já era uma verdadeira heresia para uma banda com passado hardcore (leiam mais sobre isso abaixo) e que estava fomentando um estilo de música que também viria a abolir firulas nas 6 guitarras e nos demais instrumentos. Hoje em dia, o grupo empunha de forma natural essa tradição que pode, e deve conviver em paralelo com as mais diversas novidades sonoras.

Difícil ao menos não respeitar a figura de J Mascis, um dos grandes guitar heroes do rock underground americano, que mostrou que garotos tímidos e estranhos também poderiam formar grandes bandas de rock. Com seu vocal anasalado, sua postura distanciada e letras quase sempre melancólicas, se tornou ídolo de uma geração que hoje se encontra na faixa de 30/40 anos e ainda encontra nicho em um público bem mais jovem, que claramente se identifica com o espírito adolescente presente na música de sua banda.

Tendo em vista tudo dito acima, nem é preciso salientar a obrigatoriedade de estar presente, hoje à noite, no teatro da UFPE, no caso de Recife. Caso ainda resta alguma dúvida, talvez isso seja a constatação de que você envelheceu muito mais do que deveria.

Dinosaur (1985): Como na maioria dos discos de estréia, a banda ainda estava procurando sua identidade. Em alguns momentos, dá para perceber que havia uma certa dificuldade, de um molde para um razoavemente extenso leque de influências. Rola um flerte com o pós-punk (“Pointless”) e chegam a soar como um Mission of Burma lo-fi em “Gargoyle”. A hard rokeira “Mountain Man” é um dos destaques, com direito a uma passagem descaradamente hardcore e vocais “demoníacos” no finzinho da música. O grande lado negativo fica por conta da péssima produção que deixou as canções sem o punch necessário, arrematando ainda o fato da performance da banda ainda estar aquém do que eles viriam demonstrar nos trabalhos seguintes.

You’re Living Over Me (1987): A obra prima do grupo, ponto final. Discoteca básica para qualquer um que deseja entender o tal do rock alternativo dos anos 90. A produção ainda é vacilante em vários pontos, mas o repertório presente faz isso se tornar quase irrelevante. Das 10 músicas presentes, 8 poderiam estar tranquilamente em um “Best of” da banda, o que não é pouca coisa – a acústica e estranha “Poledo”, de autoria de Barlow, é bem bacana, mas está mais para um protótipo de algo Sebadoh do qualquer outra coisa, e a última é um impagável cover de “Show Me The Way”, de Peter Frampton. Os característicos momentos em que os decibéis correm soltos começam a se mostrar bem mais presentes, assim como um maior cuidado com as melodias e refrões.

Bug (1988): Disco que está pau a pau com You’re Living Over Me, perdendo talvez por alguns décimos. Finalmente a banda se encontra. O famoso paredão guitarrístico da banda aparece forte como nunca. A faixa de abertura, “Freakscene”, é considerada a música mais representativa da banda, trazendo à tona todos os elementos característicos do trio: riff pegajoso, o vocal semidesafinado de J cantando uma melodia certeira, energia saindo pelo ladrão e o esperado momento “guitar freakout”. Apesar de tudo isso, J nunca escondeu o fato desse ser o disco da banda que ele menos gosta – possivelmente isso se deve às brigas intermináveis que ocorreram durante a gravação do mesmo, culminando na saída de Barlow da Dinosaur Jr.

Green Mind (1991): Talvez como forma de exorcizar o stress do disco anterior, a banda, agora resumida a um duo (Murph e J, que,além das guitarras, gravou todos os baixos), resolveu caminhar pra um direcionamento mais tranquilo e menos ruidoso. Até as faixas mais agitadinhas, como “Blowing It” e “The Wagon”, são um tanto quanto mais serenas se comparadas as dos discos anteriores. Uma forte atmosfera country rock pode ser sentida aqui, ratificando ainda mais a capacidade da banda de fazer grandes canções.

Where You Been (1993): Todo fã com mais de 28 anos tem grande carinho pelo Where You Been, pois provavelmente foi com esse disco seu primeiro contato com a música do grupo. O ex-baixista da banda de Mark Lanegan, Mike Johnson, é efetivado no grupo. A despeito das sempre eficazes linhas de baixo de Barlow, Johnson era um músico com maiores predicados e acrescentou uma certa dose de sofisticação ao som da banda. O batera Murph também teve um desempenho dos mais inspirados. Esse talvez seja o disco onde as referências de rock setentistas estejam mais presentes.

Without a Sound (1994): Uma continuação natural do Where You Been, talvez um pouco mais diversificado musicalmente e contendo ótimos momentos, vide “Grab It”, “Yeah Right“ e “Fell The Pain”. Quem dessa vez saiu da banda foi Murph, cansado das desavenças com o gênio forte de J – aliás o próprio resolveu assumir as baquetas – em priscas eras, antes de partir para a guitarra, ele era baterista – e fez um grande trabalho.

Hand Over It (1997): O disco mais atípico do Dino Jr. Em algums momentos, teclados, trompetes e arranjos de corda se destacam mais que as guitarras. Mas isso não quer dizer que elas não apareçam; elas estão lá, mais ruidosas do que nunca. Pode-se até dizer que esse é o disco mais shoegazer da banda – por falar nisso, Kevin Shields e Bilinda Butcher, dos shoegazers-mores, My Bloody Valentine, fazem backing vocals em algumas faixas.

Beyond (2007) e Farm (2009): Os dois últimos discos da banda trazendo de volta sua formação original podem caber em um mesmo lugar: há poucas diferenças estéticas entre ambos e neles o power trio está mais afiado do que nunca, mostrando um vigor sonoro impressionante. Ao fazer um “back to the basics”, buscando a sonoridade dos primeiros discos, somada a toda carga obtida com os anos de estrada, o resultado final obtido foi bem acima do esperado. Músicas como “Been There All The Time”, “Pick Me Up”, Amost Ready” (do Beyond),“Over It”, “I Want You To Know” e “Plans” (do Farm) estão entre as melhores coisas que eles já fizeram em toda sua trajetória.

Fonte: altnewspaper

domingo, 26 de setembro de 2010

protejam seus ouvidos ...


Desde o final dos anos 80, quando o Dinosaur Jr. começou a tocar em bares e outros espaços alternativos em Massachusetts, a recomendação para qualquer fã que queira comparecer a uma apresentação do grupo é a mesma: proteja seus ouvidos.

O primeiro a seguir o conselho é o próprio baixista da banda, Lou Barlow. “Eu uso protetores mesmo quando toco com bandas mais tranquilas que o Dinosaur Jr.. Eu tenho um problema muito sério de tinitus – até quando a minha filha grita perto de mim meu ouvido começa a zumbir, então eu tenho que me proteger”, conta o músico em entrevista por telefone ao G1.

Barlow diz que o guitarrista e líder do grupo J. Mascis deve trazer a sua parede de amplificadores para o Brasil, onde a banda, pioneira do rock alternativo americano, começa uma mini turnê neste sábado (25) com uma apresentação no festival Coquetel Molotov, no Recife.

“Eu não sei por que o J. usa todos aqueles amplificadores”, brinca o baixista. “J. foi a primeira pessoa que eu vi usando protetores de ouvido – no primeiro ensaio do Dinosaur Jr. eu vi ele colocar plugues internos e um protetor externo, desses que você coloca quando está um estande de tiro. E então o amplificador dele quase matou a gente. Ele nunca expôs os ouvidos dele ao mesmo volume ao qual ele expõe as outras pessoas”, lembra.

Turnê - Além da capital pernambucana, o Dinosaur Jr. vai levar seu peso jurássico para outras duas cidades brasileiras. No domingo (26) o grupo se apresenta em Salvador, na versão baiana do Coquetel Molotov, e ainda faz dois shows em São Paulo na terça (28) e quarta (29). Com menos amplificadores, eles também prometem um show acústico gratuito na capital paulista na tarde de terça-feira na Praça Marechal Cordeiro Faria, em um evento de skate.

Barlow fundou o Dinosaur Jr. em 1984 junto com Mascis e com o baterista Murph. Depois de algumas brigas, Barlow foi expulso da banda em 1989. O baterista acabou deixando o grupo alguns anos depois, e reduzido a um projeto solo do guitarrista, o Dinosaur Jr. deixou de existir em 1997.

O empresário do J. sugeriu para ele para voltar com o grupo, para aproveitar os relançamentos dos álbuns nossos dos anos 80, mas o J. disse que não estava interessado. Então ele perguntou, ‘e se ligássemos para Lou e Murph (baterista) e oferecêssemos para que eles ganharem metade do que você ganha?’, e foi assim que J concordou”, conta rindo Barlow, que voltou com o grupo em 2004.

Ele diz que os motivos da volta não são apenas econômicos. Depois de ler o capítulo sobre a banda no livro “Our band could be your life”, principal obra sobre a cena do rock independente nos EUA nos anos 80, Barlow afirma que ficou “muito triste”. “Eu devia essa volta ao legado do Dinosaur Jr., para tentar reescrever a história”.

Inéditas - Desde a volta, o grupo já gravou dois discos com faixas novas, “Beyond” de 2007 e “Farm” de 2009. “Nós queríamos continuar com as turnês, mas precisávamos de material novo, senão ia ficar chato, seilá”, explica displicentemente Barlow.

Na nova fase há espaço inclusive para composições do baixista, que costumava ficar de fora dos discos no início da banda, o que o motivou a montar o projeto Sebadoh, que acabou se tornando tão influente quanto o Dinosaur Jr.

“Quando eu escrevo uma música para o Dinosaur Jr. eu já deixo uma parte separada para um solo do J. – solos não são bem o meu estilo, e uma faixa sem um solo de guitarra dele não é uma faixa do Dinosaur Jr.”, diz Barlow.

Apesar de toda a lenda e influência criada pelos primeiros discos, o músico afirma que o melhor momento da banda é agora. “Nós estamos tocando juntos agora há mais tempo do que quando éramos adolescentes, e estamos nos divertindo muito mais do que na época”.

Amauri Stamborosi Jr.
Do G1, em São Paulo

sábado, 25 de setembro de 2010

# 162 - 25/09/2010

Na edição de ontem do programa de rock tivemos a partcipação Ao Vivo, nos estudios da Aperipê FM, das bandas Do Amor, Cabedal e Nantes. Do Amor falou de seu processo de composição (caótico, segundo eles), vantagens do vinil (fui presenteado com uma belissima edição no formato do disco deles, thank you guys) e as dificuldades (ou não) de conciliação entre as atividades da banda e o trabalho de seus componentes como musicos contratados. Já a Nantes contou um pouco de como foi o processo de "gestação e parto" de seu primeiro disco, "Alvorada", que será lançado na próxima sexta com um show no Teatro Lourival Batista, além de brindar nossso ouvintes com belas versões acústicas de duas de suas músicas executadas ao vivo no estúdio. Fora isso, tivemos um bloco inteiro dedicado ao grande Dinosaur jr., que toca pela primeira vez no Brasil hoje, em Recife, e amanhã, em Salvador, durante o Festival Coquetel Molotov. Estarei presente no show de amanhã e logo mais conto aqui como foi. Encerrando o programa, músicas novas do Superchunk, Loomer e Trent Reznor - deste último, uma faixa extraída da trilha sonora do filme "The social Network", composta por ele, e que conta a história da criação do Facebook.

Cheers !

A.

* * *



Nos dias em que bandas se destacam por não apresentar nada relevante, o que é incrível, ouvir um disco onde as músicas são bem elaboradas, até com harmonias vocais, é muito bom. Um sopro de esperança em meio a uma massa que acha que guitarras altas significa qualidade.

O mercado musical nacional, digo o independente, tem seus ciclos para eleger os favoritos. Muitos ficam de fora. E as vezes possuem trabalhos mais relevantes do que os que estão na crista da onda prontos para dropar e entrar no tubo. A Nantes é uma delas. Não tem guitarras distorcidas, não tem vocais gritados, não tem letras que falam de encher a cara e pegar mulher.

A banda já se chamou Daysleepers, mas decidiu mudar para um nome mais fácil, mais pop, tal quel o trabalho que é calcado no som produzido na década de 60 por nomes como Beatles e Beach Boys, para ficar em dois, porque há muito mais gente boa e que deixou excelentes trabalhos. Os Beatles tem que ser citados sempre, até porque o álbum Alvorada abre com “Um dia na vida”. Letra que fala até de Deus. E quem não lembra, os garotos de Liverpool fizeram uma das mais belas canções de todos os tempos chamada “A Day In The Life”.

Com pouco mais de dois anos a banda sergipana conseguiu criar um álbum que prima pela qualidade musical. Tudo no álbum é bem elaborado: sonoridade com vários instrumentos, vocais, letras que fogem do lugar comum mesmo falando do cotidiano. Caso de “Tempo” que é auto-explicativa. Muitas vezes o melhor remédio é a paciência, o tempo. Já “A 8ª Capela” é só vocal. A introdução de “O Céu” me lembrou Hyldon, um dos mestres do soul brasileiro. Mas na sequência a música desemboca para uma musicalidade que remete a um pôr do sol a beira mar.

“Talvez você possa cantar” remete ao folk. Coisa que a banda sempre faz questão de lembrar também com fotos em meio a plantas, a cenários bucólicos. E como atesta a capa do disco e a bela canção “Bem vinda chuva”. Que assim como uma chuva na hora certa, traz uma calma. “Os Castelos” encerra o álbum mostrando que muitos dos muros levantados por nós, são incorporados de maneira tal que não enxergamos o outro lado. As vezes derrubar é a única maneira de seguir em frente. Em outros momentos é melhor se resguardar dentro das muralhas, andando pelos corredores.

Alvorada é um disco delicado. Para curtir sem pressa. Cada música tem um instrumento que se sobressai, e letras compostas por Arthur Matos que trazem sentimentos a tona. Remetem a uma lembrança, uma sensação.

Por Hugo Morais

O Inimigo

* * *

A Dinosaur Jr., que toca hoje no Teatro da UFPE ( NOTA: Em Recife ) fechando a programação do festival No Ar Coquetel Molotov, é daquelas bandas que merecem o exaurido termo “seminal”. Ela surgiu em meados dos anos 80, quando as paradas eram dominadas por nomes como Van Halen, Michael Jackson, Guns ‘n’ Roses, Bon Jovi ou o metal glamourizado do Mötley Crüe e Twisted Sisters. Porém, na contramão do status quo pop, surgia uma nova onda, logo rotulada de “alternativa”. À frente dela estavam a Dinosaur Jr., Sonic Youth e outras bandas que mudariam o curso do rock and roll.

É até estranho que esta turnê que J. Mascis, Lou Barlow (baixo), e Murph (bateria) estão fazendo (tocam amanhã em Salvador, na edição soteropolitana do Coquetel Molotov) seja a estreia do grupo em palcos brasileiros. J. Mascis, vocalista e guitarrista, dizia ontem que não tinha ideia porque o grupo nunca veio ao Brasil: “Não temos ideia, nem sequer perguntei para alguém. Espero ter uma boa surpresa. Não conheço música brasileira, só sei que sempre quis tocar aí”. O trio, nascido em 1984, em Amherst, Massachusetts, fechou para balanço em 1997 e voltou à estrada há cinco anos. Pelo visto com todo gás, com um repertório meio coletânea: “Eu vou com os caras antigos (Lou Barlow e Murph). Vamos tocar muitos hits de quase todos os discos. Só não terá músicas do álbum do Fog”. O Fog a que ele se refere é a banda que formou em 1999, e com a qual gravou dois CDs.

O fim do grupo em 1997, deve-se à roda viva em que se meteu depois de vender milhões de discos, por uma grande gravadora. Embora Mascis tenha sabido conviver com o sucesso, ao contrário do contemporâneo Kurt Cobain, que não conseguiu equacionar o dilema de ser alternativo e, ao mesmo tempo, idolatrado por milhões de fãs: “Acho que quando começamos éramos uma banda alternativa, com certeza. Nem tínhamos fãs. Mas sabíamos que tipo de música queríamos fazer e escutar. Não tínhamos ideia que iríamos parar em uma major e vender tantos discos”, diz Mascis, garantindo que foram aparadas as arestas que levaram à dissolução da Dinosaur Jr.: “A nossa relação está boa agora”.

Em anos recentes tem-se visto o reagrupamento de várias bandas dos anos 80 e 90 (e até dos 60). J. Mascis tem uma resposta simples para o fenômeno: “Eu acho que existe o interesse em música boa. Quando você gosta de um disco, você sempre vai gostar do disco e isso vai criando mais fãs com o tempo”. O documentário The year punk broke, dirigido por Dave Markey, que registra a turnê europeia da Sonic Youth, em 1991, lançou os holofotes também sobre a Dinosaur Jr., e foi fundamental para tornar o grupo mais conhecido fora dos EUA. Mascis concorda com a importância do filme de Markey: “Sim. Foi ótimo ver o Nirvana crescer. Ver algo que deveria acontecer, acontecendo. As coisas no universo parece que fizeram sentido por um momento. Embora tenha ficado famoso pela quantidade de decibéis que extrai dos amplificadores nos shows da Dinosaur Jr, J. Mascis adianta que acabou de gravar um disco acústico, que será lançado no próximo ano.

* Publicado no Jornal do Commercio - Caderno C – 25/09/2010

Por José Teles

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Dinosaur jr. – Freak Scene
Dinosaur jr. – Crumble
Dinosaur jr. – Plans

Andralls – Two sides
Goreslave – Screams of pain
MDV – Hail to the New poor

Nantes – Um dia na vida
+Entrevista com Nantes

Jack Nitzsche – The last race
Rose McGowan and Kurt Russel – Stuntman Mike
Do Amor – vem me dar
Cabedal – Aquele olhar, morena
+Entrevista com Do Amor
+Entrevista com Cabedal

Superchunk – Digging for something
Loomer – Coward
Trent Reznor – Eventually we find our way

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

j. Mascis, uma entrevista


Joseph Donald Mascis (pronuncia-se mass-kiss), cantor e guitarrista norte-americano de 45 anos, nascido no estado de Massachusetts, é um homem de poucas palavras. É fato: entrevistas não são o seu forte. Sua linguagem de preferência, como seus muitos fãs ao redor do mundo bem sabem, é a dos marcantes riffs de guitarra que notabilizaram sua banda, a Dinosaur Jr., como uma das mais representativas do rock alternativo norte-americano – um movimento que surgiu na esteira do pós-punk, se firmou no underground nos anos 1980 e arrebentou no mainstream na década seguinte, depois que o Nirvana meteu o pé na porta. Nesta entrevista exclusiva publicada no Blog Rock Loco, de Salvador, J. Mascis fala pouco – mas diz tudo.

Pergunta: Como vai ser o repertório dos shows no Brasil? Vai ter alguma música de sua banda paralela, The Fog?

J. Mascis: Muitos hits, de quase todos os álbuns, mas nenhuma canção do The Fog.

P: Você é considerado um dos mais importantes músicos do rock alternativo norte-americano. Mas alternativo ao quê? As influências de rock clássico em seu som são bem claras – como Neil Young, por exemplo. Como você vê esse lance de "rock alternativo"?

JM: Suponho que é porque, quando começamos, éramos definitivamente alternativos, não tínhamos fãs. Só tínhamos uma ideia de que música queríamos ouvir. Nos espelhávamos nas bandas do (clássico selo independente) SST e queríamos excursionar no circuito que o Black Flag (banda punk pioneira dos EUA, liderada por Henry Rollins) estabeleceu. Não pensávamos em estar numa gravadora major ou vender toneladas de discos.

P: Após vários anos desativada, a banda voltou com a formação original. Está tudo bem entre os membros agora? Podemos esperar uma reunião definitiva, de longo prazo?

JM: Nós vivemos um dia por vez. E nossa relação está OK nesse momento.

P: Quem são suas influências como guitarrista? Por que seu som é tão barulhento?

JM: Greg Sage (da banda punk Wipers), Ron Asheton (The Stooges), Keith Richards, Mick Taylor (ambos dos Rolling Stones) são minhas influências. Sempre adorei barulho.

P: Farm (2009), seu último álbum, é um dos melhores da carreira do Dinosaur Jr. O que podemos esperar do seu próximo disco?

JM: Sem planos por enquanto. Mas vou lançar um novo disco solo em fevereiro.

P: É a primeira vez que a banda vem ao Brasil, não? Por que demorou tanto? Você conhece algo de música brasileira?

JM: Não sei muito de música brasileira. Não sei por que nunca tocamos no Brasil antes, sempre quisemos ir aí.

P: Se pudesse escolher um produtor, vivo ou morto, quem seria?

JM: John Leckie (produtor britânico, famoso por produzir, entre outros, álbuns como Stone Roses, da banda homônima e The Bends, do Radiohead).

P: Indicaria alguma banda surgida nos últimos dez anos de que gostou?

JM: Magik Markers (banda noise de Hartford, Connecticut. www.myspace.com/theemagikmarkers).

P: Qual seu álbum preferido do Dinosaur Jr? Por que?

JM: You‘re Living All Over Me (1987). Foi quando nos firmamos como banda e fizemos nossa música, nosso som. Nós meio que desmoronamos depois disso.

fonte: ROCK LOCO

terça-feira, 21 de setembro de 2010

NO SENSE por Escarro Napalm

No Sense Hoje
NO SENSE é possivelmente a banda mais radical que eu conheço. Radical no sentido correto da palavra, o de identificar alguém que vai até o fim naquilo em que acredita. E não há outro adjetivo para apresentar a banda que gravou um disco como “ CEREBRAL CACOPHONY ”. Começaram ainda no fim dos anos 80, chamando a atenção no meio alternativo por ter no vocal uma garota de apenas 13 anos de idade. Os mais atentos, no entanto, viram além: perceberam que eles tinham algo mais, algo que os transformou na melhor banda de grindcore do país (sem querer desmerecer as demais é claro!!) e numa promessa de nível internacional. Apresentamos aqui uma entrevista feita em outubro de 1993 com Angelo, então guitarrista e principal compositor do grupo, e publicada na versão xerocada (internet na época era ficção científica) do fanzine Escarro Napalm.

Uma das primeiras fotos de divulgação
NO SENSE é(ra): ANGELO: guitarra, MARLY nos vocais, MORTO no baixo e PAULO na bateria. Já gravaram: “CONFUSED MIND” (demotape caseira), “OUT OF REALITY” (EP 7” FUCKER REC.) e “CEREBRAL CACOPHONY” (LP COGUMELO REC.).

Atualmente a banda está de volta à ativa, ensaiando novos sons, inclusive, com a formação original, com a diferença de que Morto agora toca guitarra e Ângelo assumiu o baixo.

http://www.myspace.com/nosensegrindcore

Ouça, é deliciosamente horrivel!!

1. COMO ESTÁ SENDO A REPERCUSSÃO DE “CEREBRAL CACOPHONY” NO EXTERIOR? EXISTEM PLANOS PARA O LANÇAMENTO DE UM CD DO NO SENSE? (A COGUMELO VISA BASTANTE O MERCADO EXTERNO E EU ACREDITO QUE A BANDA TEM CACIFE PARA TANTO)
NO SENSE: A repercussão tem sido boa, temos recebido varias cartas de lá. Ainda não sabemos se a COGUMELO lançará um CD nosso, mas talvez seja uma coisa natural, já que o CD no exterior já domina o mercado.

2. COMO ESTÁ A RELAÇÃO ENTRE BANDA E GRAVADORA? VOCÊS ESTÃO SATISFEITOS COM O TRATAMENTO QUE TEM RECEBIDO?
NO SENSE: A COGUMELO é uma gravadora independente que deu certo, afinal o dinheiro entra consideravelmente nela. Quanto ao nosso tratamento, é o mais formal do mundo. Se você não ligar, eles não ligam. As pessoas acreditam que se você entra para a COGUMELO, você se vendeu. Se nós nos vendemos, não ganhamos nada com isso até hoje.

3. É VERDADE QUE A CAPA DO LP ESTAVA PLANEJADA PARA SER A MESMA DO DISCO “HOW THE GODS KILL” DO DANZING?
NO SENSE: É sim, coincidência acontecem, por sorte não aconteceu e, além disso, gostamos da capa atual.

4. EXISTE PLANOS PARA O RELANÇAMENTO DO EP “OUT PF REALITY” VIA COGUMELO?
NO SENSE: Sobre isto ainda não sei, gostaria que sim, muita gente pede pelo 7” até hoje, quem sabe entre em um CD?

5. COMO ESTÁ A VIDA DO NOSENSE HOJE? MUITOS SHOWS, CONTATOS, ENTREVISTAS?
NO SENSE: Nós estamos parados no momento, mas breve voltaremos às atividades. Entrevistas temos tido algumas, contatos vários. Temos viajado por aí, indo a shows de outras bandas e se divertindo.

6. NO SENSE TEM PLANOS PARA TOCAR NO NORDESTE?
NO SENSE: Claro que sim, seria demais. As pessoas daí são legais temos muitos correspondentes por aí. Quando acontecer isso, vai ser demais.

7. MARLY AGORA É MÃE, ASSUME COM ISSO NOVAS TAREFAS E RESPONSABILIDADES. EM QUE ESTE FATO INTERFERIU NA VIDA DA BANDA COMO UM TODO?
NO SENSE: Até agora interferiu um pouco, desde que Marly estava com 8 meses paramos de tocar e ensaiar. Daqui pra frente, não sei como vai ser, mas tenho certeza que tudo irá dar certo.

8. O QUE VOCÊS MAIS GOSTAM E O QUE MAIS DETESTAM EM TERMOS DE SOM?
NO SENSE: Nós gostamos de tudo o que é bom, o que é ruim não gostamos. Curtimos HEAVY, DEATH, PUNK, H.C., DOOM, BLUES, JAZZ, NOISE, EXPERIMENTAL, GRIND. Só não gostamos de coisa que é feita pra vender, oportunista. Pode estar dentro de qualquer estilo já citado, mas se for feito pra vender e agradar a mídia, não iremos curtir.

9. NO FANZINE “VIA SKALA” ANGELO DECLAROU QUE SE UM DIA O NO SENSE FICASSE TÃO FAMOSO QUANTO O SEPULTURA, COM MAURICINHOS E GRUNGES DE PLANTÃO USANDO SUAS CAMISAS, A BANDA ACABARIA. VOCÊS NÃO ACHAM ESTA DECLARAÇÃO UM TANTO PERIGOSA? EXPLICO. SE UM DIA A FAMA VIESSE E VOCÊS ESTIVESSEM NO AUGE DA EMPOLGAÇÃO E CRIATIVIDADE, ACABARIAM COM TUDO ASSIM MESMO? O NO SENSE TEM MEDO DO SUCESSO?
NO SENSE: Não acho a declaração perigosa. Se estivéssemos no auge entre pessoas que realmente gostam do que fazemos continuaríamos, lógico, mas no auge com um bando de mauricinhos, isso seria desanimador. O NO SENSE acabaria e levaríamos nossa criatividade para outras bandas e coisas. Não, o NO SENSE não teme o sucesso, apenas não quer isso.

10. “GRIND IS PROTEST”. NO SENSE SE IDENTIFICA MAIS COM CENA HARD CORE OU COM O DEATH METAL? COMO VOCÊS VEEM A RIVALIDADE ENTRE ESTAS DUAS TRIBOS? EXISTE MOTIVO PARA TANTO?
NO SENSE: Nós nos identificamos com os dois estilos, existe espaço para todo mundo, não existe motivo para isso, como pra qualquer espécie de rivalidade.

11. QUAL A OPINIÃO DA BANDA SOBRE OS SEGUINTES TEMAS:
RACISMO: Idiotice, ninguém é melhor do que ninguém. Igualdade acima de tudo
MACHISMO: O homem se acha superior, mas vive precisando da mulher. Se ele é tão bom assim, porque não ele não transa com outros homens?
VEGETARIANISMO: Bom, nesse caso falo por mim e não pela banda, já que sou o único vegetariano no NO SENSE. As pessoas precisam se esclarecer mais sobre os malefícios da carne e sobre a fome no mundo. A floresta amazônica é devastada para criar gado, toneladas de grãos são gastos para alimentar o gado enquanto pessoas morrem de fome no mundo, pessoas que não irão nunca comer um bife.
MÍDIA: Ela tem o toque de Midas, transforma tudo que toca em ouro, se quiser, mas também transforma muita coisa em merda (a grande maioria, ou toda ela).
POLITICA: Não deveria existir pra ser político não se estuda, mas se ganha bem. O povo deveria tomar o poder, anular o voto e se conscientizar que está sendo usado e enganado.

12. NO PONTO DE VISTA DE VOCÊS, ATÉ QUE PONTO AS BANDAS DE ROCK PODEM INTERFERIR NA REALIDADE QUE AS CERCA PARA, USANDO UM EUFEMISMO BASTANTE POPULAR, “MUDAR O MUNDO”? É POSSIVEL? FOI O ROCK QUE MUDOU O MUNDO OU O SURGIMENTO DO ROCK FOI UMA CONSEQUENCIA DAS MUDANÇAS PELAS QUAIS PASSOU A SOCIEDADE HUMANA NESTE SÉCULO?
NO SENSE: Mudar o mundo é impossível, mas quem sabe lançar idéias, conscientizar as pessoas que ouvem os discos e vão aos shows... Um dia estas pessoas terão filhos e podem passar algo a eles. O não conformismo é o mais importante. O rock não mudou o mundo, senão estaríamos melhor hoje. Mas ele surgiu como mudança de padrão e isso é importante: mudar os padrões e ao criar outros, sempre renovar e nunca se acomodar.

13. ESPAÇO ABERTO. VOMITEM ALGUMA COISA, ALGUM ASSUNTO QUE VOCÊS QUEIRAM FALAR E QUE NÃO FOI CITADO?
NO SENSE: Queríamos pedir mais união, menos clichês, menos rótulos, música pode se rotular, mas pessoas não. Espero que as coisas mudem que o país cresça em todos os sentidos, que toquemos por aí em breve para podermos tomar uma pinga aí com você, Adelvan, e dar muitas risadas juntos. Afinal de contas, o importante é ser feliz!!

NOTA: O No Sense nunca tocou na região nordeste.

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Hoje é Aniversário de Leonard Cohen

(Wikipedia) Leonard Norman Cohen (Montreal, 21 de setembro de 1934) é um cantor, compositor, poeta e escritor canadense. Embora seja mais conhecido por suas canções, que alcançaram notoriedade tanto em sua voz quanto na de outros intérpretes, Cohen passou a se dedicar à música apenas depois dos 30 anos, já consagrado como autor de romances e livros de poesia.

Leonard Cohen nasceu em Montreal, província de Quebec, Canadá, de uma família judia de origem polonesa (polaca). Sua infância foi marcada pela morte de seu pai quando ele tinha apenas 9 anos, fato que seria determinante para o desenvolvimento de uma depressão que o acompanharia durante boa parte da vida.

Aos 17 anos, ingressa na Universidade McGill e forma um trio de música country. Paralelamente, passa a escrever seus primeiros poemas, inspirado por autores como García Lorca.

Em 1956 lança seu primeiro livro de poesia, Let Us Compare Mythologies, seguido em 1961 por The Spice Box of Earth, que lhe conferiria fama internacional. Após o sucesso do livro, Cohen decide viajar pela Europa e acaba por fixar residência na ilha de Hidra, na Grécia, onde passa a viver junto com Marianne Jensen e seu filho, Axel.

Em 1963 lança The Favorite Game, sua primeira novela, seguida pelo livro de poemas Flowers for Hitler, em 1964, e pela sua segunda novela, Beautiful Losers, em 1966.

Já estabelecido como escritor, Cohen decide se tornar compositor. Para isso, muda-se para os Estados Unidos, onde conhece a cantora Judy Collins, que grava duas de suas composições ("Suzanne" e "Dress Rehearsal Rag") em seu disco In My Life, de 1966. No ano seguinte, Cohen participa do Newport Folk Festival, onde chama a atenção do produtor John Hammond, o mesmo que antes havia descoberto, dentre outros, Billie Holiday e Bob Dylan. Songs of Leonard Cohen, seu primeiro disco, é lançado no final do ano, sendo bem recebido por público e crítica.

Seu próximo disco, Songs from a Room, seria produzido por Bob Johnston, produtor dos principais trabalhos de Dylan nos anos 60. Embora não tão bem recebido quanto o anterior, contém a canção "Bird on the Wire", que o próprio Cohen disse ser a sua favorita dentre as suas composições. Em 1971, lança Songs of Love and Hate, um disco mais sombrio que os anteriores. No mesmo ano, o diretor Robert Altman, em seu filme McCabe & Mrs. Miller, utiliza três canções de Cohen: "Sisters of Mercy", "Winter Lady" e "The Stranger Song", todas do primeiro disco do cantor.

Um novo livro de poemas, The Energy of Slaves, é lançado em 1972 e, no ano seguinte, o disco ao vivo Live Songs.

Também em 1973, por ocasião da Guerra do Yom Kipur, Cohen faz uma série de shows gratuitos para soldados israelenses. Baseada no poema "Unetaneh Tokef " da tradição judaica, surgiria a canção "Who by Fire", incluída no álbum New Skin for the Old Ceremony, lançado no ano seguinte.

Após o disco de 1974, Cohen decide se afastar do mundo da música, resultado não só de uma confessa falta de inspiração, mas também de sua insatisfação com as exigências do mercado.

Seu retorno se daria em 1977 com Death of a Ladies' Man, produzido por Phil Spector, que foi também o co-autor de quase todo o repertório do disco. O álbum foi marcado por atritos após as gravações, quando Spector se trancou em seu estúdio para o processo de mixagem, não permitindo que nem mesmo Cohen interferisse no resultado final. Por conta disso é até hoje notória a insatisfação do cantor com o disco, o qual classifica como sendo o mais fraco de todos. Em 1978, numa alusão ao álbum do ano anterior, seria a vez do lançamento do livro Death of a Lady's Man.

Em 1979 reaproxima-se do estilo dos seus primeiros trabalhos com Recent Songs, cuja turnê foi registrada no disco Field Commander Cohen: Tour of 1979, lançado apenas em 2001. Entre os integrantes de sua banda de apoio encontravam-se Sharon Robinson, co-autora de várias canções de Cohen a partir da década de 80, e Jennifer Warnes.

Após a turnê, seguiu-se mais um período de reclusão, no qual dedicou-se à escrita e ao estudo do budismo. Só voltaria a lançar novos trabalhos em 1984, com o disco Various Positions e o livro de poemas Book of Mercy. Embora a essa altura sua popularidade nos Estados Unidos estivesse em baixa, sua música ainda fazia grande sucesso em alguns países da Europa como França e Noruega.

Em 1988, retorna com o álbum I'm Your Man, aclamado por crítica e público. Parte dessa boa recepção deve ser creditada a Famous Blue Raincoat – The Songs of Leonard Cohen, disco tributo lançado por Jennifer Warnes um ano antes, que apresentou as canções do canadense a toda uma nova geração de fãs.

Paralelamente, muitos dos jovens músicos ligados ao folk e ao indie-rock da época diziam-se influenciados pelo trabalho do cantor. Parte desses músicos seria responsável pelo disco-tributo I'm Your Fan, lançado em 1991. Dentre estes, destacavam-se R.E.M., Ian McCulloch (vocalista do Echo & the Bunnymen) e Nick Cave and the Bad Seeds.

No ano seguinte lançaria The Future e, em 1994, Cohen Live, contendo registros de apresentações ao vivo entre os anos de 1988 e 1993.

Em 1994, consolidando a sua aproximação com o budismo, Cohen passa a viver no mosteiro de Mount Baldy Zen Center, próximo a Los Angeles. Em 1996 foi ordenado monge zen e ganhou o nome Dharma de Jikan ("silencioso").

Nesse meio-tempo é lançado, em 1995, um outro disco-tributo, Tower of Songs, dessa vez com nomes mais conhecidos, como Elton John, Bono e Willie Nelson. No mesmo ano é lançado o livro Dance Me to the End of Love, onde poesias suas são mescladas com pinturas do francês Henri Matisse.

Sua experiência no mosteiro iria até o ano de 1999, quando voltaria a morar em Los Angeles. Apesar disso, Cohen ainda se considera judeu, ressaltando que não procura "por uma nova religião".

Em 2001 lança Ten New Songs, seu primeiro disco de inéditas em sete anos, feito em parceria com Sharon Robinson. Em 2004 seria a vez de Dear Heather.

Em maio de 2006 é lançado o disco Blue Alert da cantora Anjani Thomas, sua namorada e ex-vocalista de sua banda de apoio. Cohen foi o produtor e co-autor de todas as faixas do disco.

Menos de um mês depois é lançado o aclamado documentário Leonard Cohen: I'm Your Man, onde relatos do cantor são intercalados com versões de suas músicas interpretadas por artistas como Rufus Wainwright e Nick Cave. No fim da película o próprio Cohen interpreta, junto ao U2, a música "Tower of Song".

Discos/livros

  • 1956 - Let Us Compare Mythologies
  • 1961 - The Spice Box of Earth
  • 1963 - The Favorite Game
  • 1964 - Flowers for Hitler
  • 1966 - Beautiful Losers
  • 1966 - Parasites of Heaven
  • 1968 - Selected Poems 1956-1968
  • 1972 - The Energy of Slaves
  • 1978 - Death of a Lady's Man
  • 1984 - Book of Mercy
  • 1985 - Credo
  • 1993 - Stranger Music
  • 1995 - Dance Me to the End of Love
  • 2000 - God Is Alive, Magic Is Afoot
  • 2006 - Book of Longing

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A ùltima Sessão Notívagos

Dia 24 próximo, sexta-feira, a partir das 23:00H, acontecerá no Cinemark jardins mais uma edição da Sessão Notívagos - segundo a produtora Cine Vídeo e Educação, a última a ser realizada em Aracaju. O filme exibido será "A Prova de Morte", de Quentin Tarino, segunda metade do projeto "Grindhouse", que só recentemente estreou nos cinemas do Brasil e permanece inédito em Aracaju. No saguão do cinema se apresentarão as bandas Cabedal e Do Amor.

Cabedal é provavelmente o nome do momento do circuito alternativo sergipano. Samba-rock de primeira, musica autoral de qualidade executada com precisão e entrega.

Do Amor é a banda dos caras que vêm acompanhando Caetano Veloso desde o disco "Cê" - não por acaso o primeiro dele do qual eu gostei em muito tempo. Não tanto por Caetano em si, que ainda ostenta aqueles mesmos cacoetes irritantes, mas pelos arranjos com uma pegada mais vigorosa e moderna - e mais "rock". O primeiro disco do Do Amor é um tanto quanto indefinível: passeia com uma liberdade impressionante pelos mais diversos ritmos sem soar forçado nem caricato em nenhum momento. Abre com uma bela levada ao violão e referências ao nome do grupo com "vem me dar", que tem ainda um solo de guitarra meio psicodélico no meio e uma sonoridade que evoca as guitarras dos trios elétricos baianos no fim. É seguida por "chalé", com um riff e uma pegada mais rock, e assim segue, ora com letras em português e temas bem "brasileiros", ora em inglês ou numa linguagem indefinida e "non sense", como em "shop chop". Dentre os ritmos podemos identificar aqui e ali algo de carimbó, reggae, samba e afoxé, mas sempre com toques experimentais e arranjos inusitados - caso da faixa que encerra o disco, uma versão de "Lindo lago do amor", sucesso na voz de Gonzaguinha.

Os ingressos para a Sessão Notívagos custam R$ 15,00 e estão à venda nas Lojas Tools Company dos Shoppings Riomar e Jardins. O ingesso, desta vez, não dá direito às bebidas, que serão comercializadas pelo próprio Cinemark na Bomboniere do cinema.

Maiores Informações: sessaonotivagos@gmail.com

por Adelvan

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À Prova de Morte - A metade tarantinesca de Grindhouse
por Mário "Fanaticc" Abbade
Fonte: Omelete

À Prova de Morte (Death Proof, 2007) é a segunda parte de Grindhouse, projeto criado, escrito e dirigido por Quentin Tarantino e Robert Rodriguez. A empreitada era uma homenagem dos dois aos filmes de terror dos anos 70 que eram exibidos nos drive-in. Produções de custo barato que abusavam da estética exploitation: exploração do sexo, violência, drogas, monstros, nudez, kung fu, etc. Esses filmes se calcavam muito mais na publicidade desses temas do que nas qualidades da obra.

A maneira encontrada para reverenciar o gênero foi abusar do tom humorístico. Um claro exemplo é a criação de trailers falsos dirigidos por colegas cineastas como Eli Roth (O Albergue), Rob Zombie (A Casa dos 1000 Corpos) e Edgar Wright (Todo Mundo Quase Morto) e que foram exibidos entre um e outro. Para completar, os filmes receberam um "envelhecimento artificial", como se rolos estivessem com defeitos e partes faltando. Afinal, era dessa forma que as tais sessões duplas aconteciam na época, justamente pela falta de preocupação dos exibidores.

Infelizmente, o filme não foi bem recebido nas bilheterias estadunidenses. Especialistas alegaram que a geração de hoje em dia pouco conhecia a estética grindhouse. O jeito foi desmembrar o projeto em dois filmes: Planeta Terror, de Rodriguez e este À Prova de Morte, de Tarantino.

Para a felicidade dos fãs do diretor de Cães de Aluguel, essa divisão, deixou o cineasta mais à vontade para tornar o filme um legitimo produto de sua autoria. Em relação ao que foi visto em Grindhouse são 20 minutos a mais de cenas. Assim, mais uma vez o tema serviria como um trampolim para que Tarantino pudesse destilar suas filosofias e brincar com a sua obsessão com a cultura pop. Foi assim em Pulp Fiction (novela policial), Jackie Brown ( black exploitation ) e KillBill (kung fu).

À Prova de Morte tem todos os elementos que consagraram o cineasta e o tornaram um dos mais imitados ao redor do planeta. Estão lá diálogos ácidos, violência graficamente estilizada, exploração do erotismo feminino com personagens marcantes e palavreado chulo, entre outros maneirismos do cineasta. Tudo isso com uma trilha sonora recheada de clássicos de todos os gêneros pontuando as cenas. As tomadas são construídas com diferentes ângulos. E tome close-ups de pés descalços, rostos e personagens dando longas tragadas em seus cigarros. Percebe-se também elementos cênicos que conectam com seus filmes anteriores, seja com personagens, locais, músicas ou marcas de produtos que não existem.

Ao mesmo tempo, À Prova de Morte não abandonou a estética grindhouse. Tarantino, mais uma vez, homenageia um gênero sem deixar de ser original, provando que seus longas não são uma simples cópia de produções do passado, mas sim um flerte com a cultura pop que dialoga com o passado, presente e futuro. Com esse recurso, ele rompe barreiras de tempo e espaço e transporta os espectadores para um outro universo. Aqui, ele flerta com o desejo latente entre carros potentes e vigorosos em equilíbrio com a anatomia feminina. Mais anos 70 impossível.

A trama envolve um dublê misógino que utiliza seu automóvel para matar suas vítimas. O personagem chama-se Stuntman Mike e é interpretado na medida pelo veterano Kurt Russell. Até mesmo o jargão de que um carro potente substitui um pênis pequeno ou inoperante não escapa. O elenco se completa com um desfile de beldades que têm seus dotes explorados ao máximo pela câmera excitante de Tarantino. Com destaque para Rosario Dawson (Abernathy) e Vanessa Ferlito (Arlene), que realiza uma dança de colo enlouquecedora. Mas vale lembrar que apesar de toda a exploração erótica, o cineasta arranca ótimas interpretações de todas elas. Os personagens femininos não são meros artifícios cênicos que estão lá para proporcionar prazer para os homens. Fica evidente na primeira parte da história que Stuntman Mike dita as regras, mas conforme ele vai escolhendo seu caminho as coisas podem mudar. Nunca se sabe o que o destino nos reserva nas curvas adiante.

As cenas finais envolvendo dois potentes muscle cars são eletrizantes. Na tradução, os carros musculosos são típicos automóveis que surgiram nos anos 60 que tinham uma aparência robusta e equipados com potentes motores V8. Um sinônimo de velocidade, individualidade e atitude. Eles aqui se encontram exemplificados no combate entre o Chevy Nova negro contra um Dodge Challenger branco. Até as escolhas das cores dos carros demonstram as intenções do cineasta: é o bem lutando contra o mal. É Tarantino reescrevendo a história mais uma vez.





+ Jimi Hendrix

40 anos sem o maior guitarrista em todos os tempos - Como James Marshall Hendrix, numa trajetória fulminante, se transformou no maior mito da guitarra e do rock em todos os tempos. Matéria de capa da Revista Dynamite número 42, de dezembro de 2000.

Poucas pessoas tiveram uma passagem tão urgente pela vida quanto James Marshall Hendrix, que viveu só 28 anos. Boa parte deles no meio da pobreza e convivendo com a rejeição da família e da sociedade. Como Jimi Hendrix, em cerca de quatro anos saiu dos subúrbios de Nova Iorque para a Londres psicodélica do final dos anos 60 e virou, de imediato, um mito.

Passada a primeira onda do rock’n’roll da América, foi a vez da Inglaterra mostrar suas garras. E que garras: Beatles e Rolling Stones invadiam as paradas de todo o mundo, bebendo na fonte do recém descoberto rhythm and blues. O prodígio Eric Clapton já era chamado de Deus e o blues era mesmo a música do momento.

Por volta de 1965, Little Richards, um dos poucos remanescentes da avalanche rock’n’roll da década anterior, contratou um tímido baixista para acompanhá-lo no norte dos Estados Unidos. Nessa época, o racismo sulista implicava em ter certa coragem para ser negro e tocar para entreter brancos.

James, que era filho de um ex-combatente da segunda guerra mundial, já havia se alistado, em 61, no grupo de pára-quedistas do exército americano, como voluntário. Sua infância, paupérrima, não havia sido muito boa e o adolescente não via outra saída senão abandonar a escola em Seattle, onde nasceu, para tentar a sorte no exército. Não teve muita (ou, por outro lado, teve bastante) e depois de vários saltos fraturou o tornozelo, sendo em seguida dispensado.

Antes de tocar com Little Richards, o renomeado Jimmy James ainda teve uma rápida participação nas bandas de Sam Cooke e com os Isley Brothers, onde já tocava com a guitarra nas costas e, às vezes, com os dentes. Mas a estrela era Little Richards, e Jimmy James, não exatamente por esse motivo, mudou-se para Greenwich Village, em Nova Iorque, onde passou a tocar pelos decadentes clubes da região. Todos, porém, conservando a pompa da época de ouro da música americana.

Quando os Rolling Stones excursionavam pelos Estados Unidos, já em 66, Jimmy James & The Blue Flames, primeiro grupo em que Hendrix era o líder, tocavam no Cafe Wha?. Numa das noites, a namorada de Brian Jones foi checar a apresentação do jovem guitarrista. Ela não acreditou no que vira: um negro de cabelos grandes, esbelto e fazendo da guitarra sua parceira na música e também na cama. Mais: o negro era canhoto e tocava sem inverter a posição das cordas, ou seja, com a guitarra de cabeça para baixo.

Brian Jones não se convenceu com esses argumentos, mas Chas Chandler, baixista do Animals, que estava na turnê que seria a última do grupo, com os Stones, topou a parada. Resultado: depois do show foi ao camarim e convenceu o jovem negro a voar com ele direto para Londres. Assim, em setembro de 66, Jimmy James saiu de Nova Iorque com a roupa do corpo e aterrissou no velho mundo como Jimi Hendrix, para o início de uma trajetória simplesmente espetacular.

THE JIMI HENDRIX EXPERIENCE

Na noite em que Hendrix chegou, já estavam agendados os testes que iriam definir a formação da banda que o acompanharia. Isso nos mesmos pubs em que aconteciam os shows, com público e tudo, sempre lotados. Indicados por Chandler, Noel Redding e Mitch Mitchell foram contratados por 15 libras semanais e assim estavam montando o Jimi Hendrix Experience.

Em Londres, os novos ídolos do rock estavam intrigados. Como eles, que conheciam tudo de rhythm and blues, estariam vendo um guitarrista, uma única pessoa, chamar a atenção de tanta gente? Todos queriam ver Hendrix de perto, saber se era tudo o que diziam e se conhecia tanto da música americana, vindo de onde essa música se originou. Jimi Hendrix era uma lenda muito antes de entoar o primeiro acorde em sua guitarra.

Entretanto, o primeiro convite para tocar partiu de Johnny Halliday, então ídolo da música francesa. Ele convidou Jimi Hendrix para tocar como banda de abertura em uma pequena temporada que faria no Olympia, em Paris. Com apenas três músicas próprias, já em outubro, menos de um mês depois do desembarque na Europa, acontecia o primeiro show do Jimi Hendrix Experience. Paris também foi a cidade em que, pela primeira vez na história, uma música de Jimi Hendrix foi tocada no rádio, já um poderoso meio de divulgação para qualquer artista. A escolhida era “Hey Joe”, do primeiro single, que tinha “Stone Free” no lado B. Mas as rádios gostavam mesmo, já nessa época, das versões piratas, catadas das fitas demo de ensaio ou ainda gravada ao vivo nos shows. As rádios piratas foram um grande aliado para que Jimi Hendrix espalhasse tão rapidamente sua fama pela Europa e depois para todo o mundo.

Já conhecido e com um grande bochicho em torno do seu nome, Jimi Hendrix preparava o lançamento do primeiro álbum, “Are You Experienced?”, o que só aconteceria em maio de 67. Logo após o lançamento, o semanário inglês Melody Maker o proclamaria o maior guitarrista do mundo.

FOGO EM MONTEREY

Paul McCartney foi o responsável pela indicação de Jimi Hendrix para a apresentação na sétima edição do Monterey Pop Festival. Quase um ano depois, Hendrix voltava aos Estados Unidos, já consagrado como um popstar, para tocar em um grande festival, ao lado de nomes como The Who, Janis Joplin, Ottis Redding e Simon & Garfunkel, entre outros.

Duas passagem curiosas se destacaram nesse festival. Primeiro foi o desentendimento entre os empresários do Who e de Jimi Hendrix, porque um não queria que seu artista tocasse antes do outro. A decisão da organização, já nos bastidores, saiu no cara ou coroa: Hendrix tocaria primeiro. Depois, foi no final do show de Monterey que Hendrix, durante “Wild Thing”, espancou, transou e fez sua guitarra de gato e sapato, ateando fogo na parceira. Em seguida, diante de uma platéia literalmente boquiaberta, destrui-a em vários pedaços. Nunca mais o rock’n’roll seria o mesmo.

Em junho de 67, estava instaurada oficialmente a era da psicodelia em todo o mundo. O marco inicial foi o lançamento do álbum “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, no dia primeiro, até hoje considerado um dos discos mais importantes no universo da música pop. Pois bem, enquanto o “Sgt Pepper’s” começava a ser absorvido, três dias depois, num pub em Londres, o Jimi Hendrix Experience, que desfrutava de boas posições nas paradas com seu “Are You Experienced”, se apresentava e abria o set justamente com a faixa-título. Considerando que o álbum (e a música) não havia caído no domínio público, somente duas pessoas se entreolhavam naquele clube: Paul McCartney e George Harrison. Paul declarou que era sem dúvida a melhor versão que ele já ouvira. Era a primeira, certamente, fora a original.

“Axis: Bold As Love”, o segundo álbum, sai em outubro de 67, já em meio à farra psicodélica e ao flower power que devastou o mundo. Mas, inquieto, Jimi não quer o posto de superstar que a mídia, e por consequência o público, lhe impunham. Nesse período, é normal que ele e o Experience toquem covers de músicos famosos como “Like a Rolling Stone” e “All Along The Wachtower”, do ídolo Bob Dylan, e “Sunshine Of Your Love”, do Cream, de Eric Clapton.

Ainda em outubro o grupo volta ao Olympia, onde um ano antes fazia a abertura para Johnny Halliday. Agora como atração principal e com mais de 14 mil pessoas em histeria, fora as que não conseguiram entrar, o Jimi Hendrix Experience faz um espetáculo absoluto e estonteante, mostrando as músicas do novo álbum, entre elas “If 6 Was 9” e “Little Wing”.

O prolífico Hendrix já entrava o ano de 68 gravando as músicas que iriam fazer parte do terceiro álbum com o Experience. Jimi parecia saber que não teria tempo para fazer tudo o que queria e que precisava trabalhar muito rapidamente. Material é que não faltava. Ele compunha 24 horas por dia, além das longas jams nos ensaios e shows, de onde sempre saíam idéias para novos temas e arranjos.

Jimi Hendrix queria mais. “Electric Ladyland” é um álbum duplo e definitivo, que levou o grupo ao disco de ouro na Inglaterra e nos Estados Unidos. Mas nos longos ensaios e durante as intermináveis gravações, nem tudo eram flores dentro do Experience. Chas Chandler tomava conta de tudo que se referia a parte musical, estúdios, produção, etc. Seu sócio, Mike Jeffrey, era quem administrava as contas. Para fugir dos altos impostos cobrados por Sua Majestade na Inglaterra, Jeffrey frequentemente viajava para as Bahamas, um paraíso fiscal no Caribe, levando com ele malas de dinheiro vivo, fruto das bilheterias e dos direitos autorais do Jimi Hendrix Experience. Noel Redding foi o primeiro a desconfiar do método do empresário, já que depois de mais de um ano, ele ainda continuava sem um tostão no bolso. Jimi, por sua vez, tinha seis libras em sua conta bancária e, carregado pela fama, não dava bola para o baixista.

CAMINHO CIGANO

Musicalmente, Chas Chandler também não se entendia bem com Hendrix, ambos divergiam quanto ao grau de perfeccionismo que o grupo vinha atingindo. Noel Redding, por sua vez, discordava de vários arranjos impostos por Jimi e reivindicava maior participação musical e financeira. Chas deixou o grupo nas mãos de Mike Jeffrey, o que levou Jimi a assumir o posto de produtor (“Electric Ladyland” é todo produzido por ele), deixando, em algumas ocasiões, Noel fora das gravações. Com o grupo gravando desde o início do ano em Nova Iorque, Noel voltava frequentemente a Londres, fazendo com que Hendrix gravasse também as partes de baixo ou chama-se um amigo para fazê-las.

Um deles era Billy Cox, companheiro de Hendrix dos tempos em que serviu o exército. Billy passou a substituir eventualmente Noel, quando este não estava por perto. Tal procedimento acabou deixando Noel de fora de um dos momentos mais importantes na carreira do Experience, durante o lendário Festival de Woodstock, em agosto, símbolo maior do flower power, do movimento hippie e de toda uma geração americana que condenava a Guerra do Vietnã e buscava a saída na paz, no amor e na experimentação através do uso de drogas.

A música de Hendrix era ouvida no Vietnã como uma homenagem de todos os que faziam parte dessa movimentação, aos que lá estavam para, querendo ou não, lutar pela pátria americana, e “Purple Haze” era praticamente o hino da guerra. Mas quando em Woodstock, Hendrix resolveu tocar o hino nacional americano, sozinho com sua guitarra e usando os dentes, esses acordes ecoaram por todo o mundo como um apelo de paz e, ao mesmo tempo, pela revolução. A guitarra, de parceira sexual, passava a um canhão que espalhava toda a dor sentida pela guerra em todos os tempos e lugares.

Quando o ano de 69 começa, o Experience praticamente não existe mais. De qualquer forma, oficialmente o grupo se instala na cidade americana de Liberty, perto de Woodstock, sendo que volta e meia Noel Redding vinha de Londres para ocupar o cargo de baixista, fato que não incomodava Billy Cox, pois, para ele, só estar ali já era lucro. A última apresentação do Experience original aconteceria em fevereiro, de novo em Londres, num Royal Albert Hall lotado.

Aos poucos, Jimi ia reformulando a banda até chegar, em outubro, a Billy Cox no baixo e Buddy Miles, ex-Electric Flag, na bateria. O novo trio, em consequência do desgaste da imagem e da entrada de dois novos músicos, buscou novos caminhos. Hendrix também já não aguentava mais tocar as mesmas músicas, declarando publicamente esse descontentamento, e carecia, artisticamente, de renovação em sua música. O Band Of Gypsys, como foi chamado, investiu na mistura de soul, blues e funk, considerando a alma negra de todo o trio, agora 100% americano.

A Band Of Gypsys deixou várias gravações de estúdio, mas lançou um único álbum, ao vivo, gravado no Filmore East, em Nova Iorque, na passagem de ano de 69 para 70. Em seguida, Buddy Miles cairia fora e o grupo, de uma forma ainda mais urgente, acabaria deixando para trás um potencial espetacular. Mitch Mitchell voltaria para a batera.

Recluso nos Estados Unidos, Hendrix buscava alternativas para continuar com suas experimentações, e embora levando sua música mais para o jazz do que para qualquer outro estilo, ele continuava a tocar covers de clássicos do rock, como “Johnny B. Good”, de Chuck Berry, e “Blue Suede Shoes”, de Carl Perkins, eternizada por Elvis Presley. Com o intuito de aperfeiçoar as técnicas de gravação da época, Hendrix começou a construção de seu próprio estúdio, o Electric Lady Studios, em Nova Iorque. Ao mesmo tempo, preparava o esperado quarto álbum, que só viria a ser lançado após sua morte, em setembro.

O ADEUS DO GÊNIO

Antes, porém, o último grande festival ainda aguardava a presença de Jimi Hendrix. Depois de 18 meses sem tocar no Reino Unido, o Jimi Hendrix Experience aceita o convite para o festival da Ilha de Wight, mais uma vez ao lado do Who, ainda com The Doors, Free, e Emerson, Lake And Palmer, entre outros. Conforme a data ia se aproximando, Hendrix ameaçava não ir, dado o seu envolvimento na construção do estúdio. Mas no dia 30 de agosto de 1970 ele se sentiu recompensado quando tocou para um público de mais de seiscentas mil pessoas – entre elas o exilado Gilberto Gil.

Retido em Londres para resolver negócios com Mike Jeffrey, Hendrix se hospedou no quarto de hotel de Monika Danneman e passava as noites bebendo e se divertindo, até que pudesse voltar para Nova Iorque para continuar os trabalhos no Electric Lady Studios. Na noite de 17 para 18 de setembro, Hendrix tomou uma quantidade desconhecida de pílulas para dormir, que haviam sido receitadas para Monika. Passou mal e se afogou no próprio vômito. Monika hesitou em chamar socorro, pois temia que a polícia encontrasse uma certa quantidade de haxixe no apartamento, mas não há a certeza de que um socorro mais rápido o salvaria. Em todo caso, o atestado de óbito apresenta textualmente, como causa da morte: “inalação de vômito, intoxicação por barbitúricos e evidências insuficientes. Veredicto aberto”. Encerrava-se, assim, depois de quatro anos, a passagem do cometa Hendrix pela Terra.

O corpo de Jimi Hendrix foi enterrado em Seattle, cidade que se recusa a homenagear um filho que tenha tomado drogas, embora tenha uma placa dedicada a ele no zoológico. Foi a conservadora e fria cidade, berço do grunge de Kurt Cobain e companhia, a escolhida para abrigar o Museu do Rock. Inaugurado em junho, tem a arquitetura projetada em homenagem a Jimi Hendrix, e o seu idealizador e proprietário, Paul Alex, ex-sócio de Bill Gates na Microsoft, durante a cerimônia de inauguração, destruiu uma réplica de vidro da guitarra de Hendrix, de quem é fã incondicional.

por Marcos Bragatto

Fonte: REG