segunda-feira, 21 de junho de 2010

Cine Cult "A todo volume"

Quem perdeu a última sessão Notívagos (se quiser saber o que perdeu leia o post logo abaixo) tem agora a portunidade de ver, pelo menos, o sensacional filme que reune Jimmy Page, The Edge e Jack White na tela grande. "It Might get loud" (A Todo Volume) está em Cartaz no Cine Cult do Cinemark do Shopping Riomar. Às 14:00, todos os dias. Imperdível.

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Em fins da década de 1950, o adolescente inglês Jimmy Page já tocava guitarra, mas não aguentava mais ouvir o som dos jovens de sua geração: o skiffle, um parente do rockabilly com influência de jazz, blues e country. Ele queria algo novo. Nos anos 80, David Howell, também inglês, mas radicado em Dublin, Irlanda, andava inconformado com a violência cometida pelos terroristas e pela polícia em seu país. Ele queria denunciar tudo aquilo. Já em Detroit, nos Estados Unidos, nos anos 90, o garoto Jack White morava em um bairro de negros e latinos onde só se tocavam hip hop e música eletrônica. Ele queria ouvir outra coisa.

Em 2008, o diretor Davis Guggenheim (ganhador de um Oscar em 2007 com o filme Uma Verdade Inconveniente, filmagem das palestras sobre aquecimento global feitas pelo ex-vice-presidente americano Al Gore) reuniu em um estúdio os três inconformados. Jimmy Page, um sessentão, foi o revolucionário guitarrista do Led Zeppelin. David Howell se tornou conhecido pelo apelido The Edge e emprestou sua pegada tecnológica ao grupo U2. O som radical de Jack White pode ser ouvido em diversas bandas, das quais a mais famosa é o White Stripes. O resultado pode ser visto "em A Todo Volume", um documentário sobre o encontro histórico, focado principalmente na relação apaixonada dos músicos com seu instrumento.

No início do filme, White mostra como é possível fazer uma guitarra com um pedaço de madeira, alguns pregos e uma garrafa de vidro. Pula-se para outra cena, na qual Page compara o instrumento ao corpo de uma mulher, um clichê dispensável. Mas ao longo da obra entra-se na natureza e sentimentos dos três com muita sutileza. Com vários depoimentos e dezenas de cenas históricas magníficas, fica-se sabendo como a guitarra colou-se àquelas vidas como segunda pele. O filme também mapeia as inovações de cada um. Page, por exemplo, conta como criou a lendária guitarra de dois braços para acomodar, ao mesmo tempo, a melodia e o acompanhamento no clássico Stairway to Haven. The Edge também foi revolucionário à sua maneira. Não pelo virtuosismo do domínio do instrumento, mas por sua obsessão por processadores de som digital e o uso de uma vasta parafernália eletrônica para alcançar o "som perfeito".
O melhor momento, no entanto, é quando os três se juntam e revisitam as próprias composições. São cenas antológicas que ajudam a fazer de A Todo Volume uma raridade. Documentários sobre música são em geral frios e aborrecidos. Este, ao contrário, informa e empolga.

Fonte: Bravo! Online

Por André Nigri

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Led Zeppelin. U2. White Stripes. Influências: blues, pioneiros do rock. Teoria, dicas práticas, segredos, efeitos. Jam sessions. Tratar com os senhores Jimmy Page, The Edge e Jack White, no cinema que exibe o documentário A Todo Volume (It Might Get Loud, 12 anos ).

* Não é todo dia que a gente pode ver e ouvir o Led tocando “Stairway to Heaven” na tela do cinema! Mesmo que essa clássica balada seja superexposta, e aversão seja do filme “The Song Remains the Same”, vale! Muito!
* Também tem um trecho de Page no The Yardbirds, com “Heart Full of Soul”.
* No filme, The Edge mostra parte de seus segredos: os efeitos que dão aquele som maravilhoso à sua guitarra, ou melhor, à sua coleção de guitarras.
* O guitarrista do U2 praticamente disseca, canal a canal, a intro de “Where the Streets Have No Name”
* Jimmy Page volta a Headlye Grande, mansão onde foi gravada a maior parte do sensacional quarto disco do Led Zeppelin. Mostra como John Bonham tirou aquele sonzão de bateria em “Where the Levee Breaks”.
* No doc, Page, The Edge e Jack tocam juntos algumas músicas, como “I Will Follow”, do U2, “In My Time of Dying”, do Led, e “The Weight”, do guitarrista Robbie Robertson.
* Que pena! Faltou “Seven Nation Army”, maior hit do White Stripes!
* Vem aí um filme sobre os White Stripes. Under Great White Northern Lights. Estreou no festival de Toronto, em setembro de 2009.

Coluna de Música

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Jack White apanha martelo e pregos e começa a talhar pequenos buracos em um pedaço de madeira. Com uma corda de aço e uma garrafa de refrigerante, arquiteta uma espécie de guitarra artesanal de uma corda só. O captador e a caixa de força ligam o artefato a um amplificador. Pronto. "Quem disse que você precisa comprar uma guitarra?", pergunta White.

O início do documentário "A Todo Volume" dá a dica do que esperar nos próximos 100 minutos: guitarras, guitarras e mais guitarras. Dirigido por Davis Guggenheim (de "Uma Verdade Inconveniente"), o filme conta com a participação de três guitarristas de diferentes gerações, cada qual com seu estilo e maneira de encarar o instrumento: Jimmy Page, do Led Zeppelin, The Edge, do U2, e Jack White, de White Stripes, Raconteurs e Dead Weather.

Um encontro entre as três feras é agendado para um estúdio em Hollywood. No cenário gigantesco, amplificadores, efeitos e um toca-discos estão perto dos sofás e do pequeno palco montado para que o trio mostre um pouco de seu estilo conversando através do instrumento.

Jimmy Page é filmado em Londres. Cercado de vinis, mostra os sons que o influenciaram na vida. Um dos momentos mais divertidos é quando coloca Rumble, de Link Wray, no toca-discos e começa a fazer uma espécie de "air guitar" com os braços. Sorrindo, diz: "Isso é demais. Olha como ele usa o vibrato do amplificador depois da segunda parte". Já Jack White está no Tennessee quando a equipe de filmagem chega ao seu território. O cantor está no meio do deserto, com bois e vacas o observando.

Durante um ano, o diretor Davis Guggenheim se desdobrou durante as três cidades carregando sete câmeras. Tudo para que passagens como a cena em que The Edge mostra as fitinhas cassete de "Josua Tree" (álbum de 1987 do U2) que originaram composições como "Where the Streets Have no Name" fossem captadas da maneira mais natural possível.

No encontro em Hollywood, cada um fala de suas influências e de como chegou ao instrumento. Também apresentam uma música de sua banda e são acompanhados pelos outros parceiros. No final, tocam e cantam "The Weight", hino do grupo The Band. As informações são do Jornal da Tarde.

Agência Estado

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Por Kid Vinil, colunista do Yahoo! Brasil

Três guitarristas de diferentes gerações que contam suas histórias e suas afinidades com o instrumento. Este é o tema do documentário "It Might Get Loud" ("A Todo volume"), que estreia nos cinemas brasileiros nesta sexta-feira (29). O filme, que já saiu em DVD e Blu-ray, também fez parte da 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no ano passado.

Os três guitarristas a que me refiro no começo desta coluna são nada mais, nada menos, que Jimmy Page, Jack White e The Edge. Representando a década de sessenta e os anos setenta temos Jimmy Page, o eterno guitarrista do Led Zeppelin. Page começou sua carreira dando canja com músicos de blues da cena inglesa de meados dos anos sessenta. Em 1967, fez parte dos Yardbirds, substituindo Jeff Beck. Essa sua fase no Yardbirds foi o embrião do Led Zeppelin, que ganhou forma em 1968, com o lançamento do álbum homônimo de estreia. O disco, gravado em apenas 30 horas de estúdio, é considerado um dos melhores discos de estreia de todos os tempos. O Led Zeppelin pode ser considerada a banda que dominou a década de setenta após a separação dos Beatles.

Já para geração da década de oitenta, o escolhido foi o músico irlandês David Evans, mais conhecido como The Edge, e famoso por sua banda, o U2. The Edge começou a tocar guitarra aos 17 anos de idade na escola, em Dublin, e aperfeiçoou uma técnica hi-tech que mudou o conceito de tocar guitarra nos anos oitenta. E para retratar a guitarra nos dias de hoje temos Jack White (White Stripes, Raconteurs, The Dead Weather), segundo muitos jornalistas lá fora, uma das figuras mais representativas da guitarra nos últimos dez anos. "It Might Get Loud" é um documentário que reflete o sonho de qualquer garoto interessado em rock e que vibra com uma guitarra Fender Stratocaster ou uma Gibson Les Paul, que brinca de ser Jimi Hendrix ou Kurt Kobain no game Guitar Hero.

Mas, acima de tudo, "It Might get Loud" conta a trajetória desses três grandes músicos desde o início de suas carreiras, além de ter cenas incríveis. Uma delas mostra o Led Zeppelin ensaiando em Headley Grange (o lugar onde foram concebidos os principais discos da banda). Mostra Jimmy Page na sua mansão, com sua coleção de discos e mostrando algumas de suas técnicas para tocar guitarra. Tem ainda cenas de The Edge em Dublin, no início do U2, e explica a concepção do álbum "The Joshua Tree" (1987) desde as demos até uma apresentação ao vivo da música "Where The Streets Have No Name".

Quem abre o documentário é Jack White, em sua casa no Tennessee (EUA), tocando um instrumento aborígene primitivo de uma só corda e amplificado. Mostra o músico em seu início de carreira, em Detroit, e revela sua aversão pelo excesso de tecnologia. Recentemente, Jack White montou um estúdio e uma gravadora em Nashville usando somente aparelhagem análoga (aparelhos de gravação usados antes da era digital), para captar melhor os efeitos das guitarras e dos instrumentos em geral, sem aquela clareza e falsa nitidez do som digital. Um detalhe interessante é que o guitarrista até já plagiou indiretamente Jimmy Page em certos riffs nas músicas de seus discos com suas três bandas. Mas isso o documentário omitiu, apenas reuniu os três guitarristas em Los Angeles para uma jam session, onde eles tocam slide guitar no clássico do Led Zeppelin, "In My Time Of Dying", do álbum "Physical Graffiti (1975), e ainda fazem uma jam da música "The Weight", clássico de 1968 do grupo The Band. Tem também os três tocando "Dead Leaves And The Dirty Ground", do White Stripes (2001). Quem comanda essa jam do trio é Jack White, enquanto isso, Jimmy Page com seu jeito mais "zen" explica suas técnicas para The Edge.

Esse é um documentário feito para os amantes desse instrumento e explica perfeitamente a combinação guitarra e amplificador e seus recursos ilimitados. Cada um dos três músicos conta sua história e a paixão pela música, seus mestres e suas técnicas. É maravilhoso.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A Noite das "guitarradas"


A noite prometia: Seria o primeiro grande “encontro de trios” de Aracaju, um deles vindo diretamente de Salvador, “a cidade do axé/a cidade do amor”. E no Cinemark do shopping jardins, o que é mais inusitado. Não, senhoras e senhores, não é o que vocês estão imaginando. Nenhum trio elétrico invadiu as dependências do shopping Center para embalar a massa ao som de música pasteurizada para foliões acéfalos. Os trios em questão eram de rock – e dos bons.

Como bem observou minha amiga Maíra Ezequiel, esta foi a mais bem amarrada das Sessões Notívagos, em termos de conceito. No filme, o trio formado por Jack White, The Edge e Deus (também conhecido como Jimmy Page) conta sua história – e todos eles, inclusive White, o mais jovem, têm muita história pra contar. No saguão do cinema, logo depois, duas das mais importantes e destacadas bandas do cenário independente brasileiro da atualidade, os Retrofoguetes e a Pata de Elefante. Guitarras, guitarras e mais guitarras. E no final, um pouco mais de guitarras – tudo regado a cerveja, finalmente gelada (a Notívagos tinha uma má fama de vender cerveja quente), segundo os degustadores de plantão. Foi lindo, maravilhoso, emocionante: uma das melhores noites de rock and roll que eu já vi por aqui, e olha que há mais de 20 anos eu vejo noites de rock and roll por aqui.

“A Todo volume” (It might get loud) começa com o garoto-prodigio do White Stripes mostrando que é possível fazer uma guitarra elétrica com apenas um arame preso a um barbante e ligado a um captador. A partir daí, presenciamos uma verdadeira ode ao instrumento que é uma espécie de símbolo do rock and roll pelo ponto de vista de três dos maiores representantes de sua geração. O filme mescla com precisão cenas de arquivo com depoimentos apaixonados, tudo pontuado pelo encontro dos três num grande galpão onde trocam impressões e promovem interessantes Jam-sessions onde executam alguns riffs uns dos outros. Às vezes enveredando por um tom exageradamente solene e com um ritmo um tanto quanto arrastado, o documentário é, admitamos, mais recomendado aos fãs dos guitarristas e de rock em geral, o que não chega a ser exatamente um problema, já que os protagonistas são líderes de bandas seminais que atraem (ou atraíram) milhares de pessoas aos seus shows, cada uma em sua época, fator que certamente pesou na viabilidade comercial do projeto. Não sei se fez sucesso nos cinemas mas eu, particularmente, sou um ardoroso defensor da experiência de se ver filmes em telas grandes e salas escuras, por isso há tempos venho enchendo o saco do produtor Roberto Nunes com a idéia dessa sessão, e só tenho a agradecer a oportunidade de poder desfrutar dessa experiência aqui, em nossa província, tão carente de programações culturais alternativas.

Devo aqui abrir um gigantesco “parêntesis” para defender a participação de The Edge, insistentemente criticada por muitos (inclusive Morotó da Retrofoguetes) ao final da sessão – implicaram até com a touca dele, coitado. Quer dizer, coitado não, o cara é milionário e “chegou lá” fazendo o que gosta do jeito que quis, portanto de coitado não tem nada. Mas ok, The Edge é, sem a mínima sombra de dúvidas, o menos virtuoso dos três, egresso da escola punk (mais precisamente do pós-punk), mas soube criar um estilo próprio e marcante a partir de suas limitações, experimentando climas e efeitos sonoros como compensação para a falta de virtuosismo técnico no instrumento propriamente dito, com muito sucesso – tanto artística como comercialmente. Até admito que Johnny Marr, dos Smiths, representaria melhor os anos 80, mas teria menor apelo comercial, o que imagino que tenha sido um fator decisivo para a escolha. Em todo caso, acho a escolha de The Edge acertadíssima. Ele é o grande arquiteto do som do U2, uma banda que, quer você goste, quer não (eu sou fã), tem que admitir que tem uma sonoridade própria, esculpida justamente em cima da empolgação ingênua e idealista de seus componentes, pelo menos no início da carreira. São, acima de tudo, grandes compositores, autores de alguns dos maiores clássicos da história recente do rock. “Nem sempre se pode ser Deus”, mas já é um grande passo fazer com competência, sinceridade e dignidade o que se propõe a fazer, e o U2 faz.

Deus mesmo, ali, só Jimmy Page. Dele, acompanhamos imagens, pelo menos para mim, inéditas, de seu início de carreira numa banda de “skiffle”, uma espécie de pré-rock inglês, e desde cedo o garoto já sonhava alto e perseguia seus sonhos. Torna-se um músico de estúdio requisitado com várias lendas em torno de si - uma delas diz que teria participado da gravação de “you really got me” do Kinks e que teria sido dele a idéia de deixar o som da guitarra distorcida, devido a um problema no amplificador, no que seria, para alguns, o embrião do Heavy Metal. Depois, cansado de apenas executar partituras de forma mecânica, embarca de vez na nau da “swinging London” via Yardbirds, para só então fundar a maior banda de rock de todos os tempos (perdão, Beatles e Stones), o ... vocês sabem do que eu estou falando.

Jack White ? É o cara. O mais gatinho dos três, e talentosíssimo. Até estranhei a surpresa de alguns com sua perfomance – comentários típicos de pessoas (compreensivelmente) avessas ao “hype”, essa cria maldita dessa sociedade baseada em informação abundante, rápida e rasteira. Sempre gostei dele, inclusive do White Stripes, apesar de achar o Racounters ainda melhor (ainda preciso ouvir Dead Weather, baixei ontem, ouvirei). O cara dá uma verdadeira aula de amor à música de raiz, e de quebra nos apresenta a uma sensacional banda garageira cujo nome não me vem à memória agora mas que aparece em cenas sensacionais de uma apresentação ao vivo devastadora. Segundo White, foi a maior inspiração para que ele montasse o White Stripes, já que a referida banda era formada apenas por um guitarrista/vocalista e um baterista.

Terminado o filme, vamos aos shows, no saguão do cinema. Quinta vez dos Retrofoguetes em Aracaju, então nem há muito o que comentar porque foi, como sempre, sensacional. O som não era a sétima maravilha do mundo mas estava ok, bem melhor do que na noite do Cidadão Instigado. Não havia palco, e não fez a menor falta. Iluminação especial, gelo seco, efeitos pirotécnicos ? Porra nenhuma, o povo queria era música de qualidade, e teve. Alto astral total - CH e Rex fornecendo o colchão pra lá de competente para a perfomance costumeiramente arrasadora de Morotó Slim, e com direito a sacadas geniais ao microfone – o mote do “encontro de trios” que usei no início desse texto, por exemplo, foi idéia de Rex, sempre com algo inteligente e bem humorado a dizer. A melhor da noite, no entanto, foi a que dizia que banda instrumental queria dizer muita nota (musical), pouca nota (dinheiro) e ninguém nota. Impossível não notar os Retrofoguetes. Ao final da apresentação dos caras Fabinho da Snooze me fala que “ficou difícil pra Pata de Elefante superar isso”, no que eu concordei em parte, já que botava fé no talento dos caras.

E o talento dos caras é algo sobrenatural. É o tipo de coisa que não tem jeito, a pessoa nasce com o dom, não é possível aquele nível de qualidade vir só do aprendizado acadêmico. Simplesmente destruíram tudo, deixaram o público de quatro com seu som ao mesmo tempo “duro”, “hard rock”, e melódico, com uma sonoridade totalmente calcada nos anos 60 e 70 porém sem soar datado. Retrô, mas dialogando com o que de melhor se faz hoje em dia. Pesado porém suingado. Rock clássico sem vocal, ou melhor, cantado pelas guitarras, magistralmente domadas e debulhadas por uma dupla de guitarristas fenomenal. Não, não são duas guitarras: no meio do show eles, baixista e guitarrista, apenas trocam de posição, e a apresentação não perde absolutamente nada em qualidade, muito pelo contrário: é enriquecida pela diferença de estilos, já que um se baseia mais nos solos e o outro mais na levada, nos riffs. Matador. Ouvi de muita gente que aquele tinha sido o melhor show de sua vida, e os entendo perfeitamente, pois foi exatamente esta a impressão com a qual saí do cinemark naquela madrugada, com o dia prestes a amanhecer.

E saí porque estava a fim de bater o velho rango regado a gorduras e bactérias e dormir, porque se quisesse ficar ainda tinha mais rock rolando. Depois do show da Pata (que teve bis, por insistência do público), começou uma grande jam envolvendo eles, integrantes do Retrofoguetes e nosso “blues hero” Julico, da Baggios, que precisou ser praticamente arrastado ao palco para vencer a timidez mas, como sempre, arrasou. “24 Hour party people”, “A Festa nunca termina”. Só terminou quando a cerveja, finalmente, acabou – e foram cerca de 800 latinhas, segundo o produtor Roberto Nunes.

Roberto Nunes que, aliás, está de passagem comprada, só de ida, para São Paulo. Diz ele que pretende seguir tocando a Sessão Notívagos e a Virada Cinematográfica de lá, mas eu particularmente acho difícil. Hora de dizer que o único ponto fraco da noite foi o público aquém do esperado, em termos de quantidade (porque em qualidade estava ok, vibrante e participativo). A verdade é que a Sessão Notívagos é uma idéia sensacional porém muito difícil de se sustentar financeiramente sem patrocínio, no formato em que se apresenta.

Se acabar, vai fazer muita falta.

por Adelvan Kenobi

Fotos: Snapic

SEXTA, 18/06/2010, O PROGRAMA DE ROCK NÃO IRÁ AO AR

por conta das transmissões dos festejos juninos. Voltamos dia 25. Até lá - e boas festas, pra quem curte. Pra quem não curte também - faça sua festinha particular em casa ...



quarta-feira, 16 de junho de 2010

PIXIES DE VOLTA AO BRASIL

O calendário de festivais no Brasil acaba de ganhar mais um integrante. Foi oficialmente confirmada nesta quarta-feira a realização do Starts with You, que acontecerá no interior de São Paulo em outubro. Quatro nomes já estão escalados para o evento: Linkin Park, Pixies, Dave Matthews Band e Incubus.

A sede do festival será a Fazenda Maeda, em Itu, interior de São Paulo. No total, serão três dias de shows, entre 9 e 11 de outubro. A organização prevê um público de 250 mil pessoas durante todo o evento.

Por enquanto, apenas quatro atrações estão confirmadas. Mais nomes serão divulgados ao longo dos próximos meses. O prometido é que o festival tenha 60 atrações, divididas em três palcos e uma tenda eletrônica. Informações sobre preços, datas e locais de venda dos ingressos serão divulgados na semana que vem.

A área total da Fazenda Maeda é de 140 mil metros quadrados. Haverá um camping com capacidade para oito mil barracas e um estacionamento para trinta mil carros.

A organização garantiu que "praticamente todos" os artistas citados em boatos sobre a escalação do festival estão "no foco". No entanto, eles não podem dizer quais são eles enquanto não houver confirmação. O Smashing Pumpkins, por exemplo, já adiantou que virá à América do Sul no segundo semestre.

Fonte: Último Segundo

Pixies are coming to Brazil

Oct 11, 2010 - SWU – Starts With You – Music & Arts Festival
Maeda Farm, Itu, Sao Paulo, Brazil
Onsale and Ticketing information will be released shortly.

Fonte:http://www.pixiesmusic.com












terça-feira, 15 de junho de 2010

Recordar é viver ...

ETC/NORA KUZMA/120 DIAS DE SODOMA - A banda que (quase) ninguém viu mas (quase) todo mundo já ouviu falar.

Nossa história começa em março de 1992. O Logorréia, uma antiga banda de Hard Core fundada no final dos anos 80 em Aracaju, havia acabado e Sylvio, que também era vocalista da Karne Krua, ficou com a guitarra encostada.

A Logorréia, pode-se dizer, foi a primeira banda “grind” de Aracaju. Eu vi meu primeiro show deles no II Festcore de Aracaju, e fiquei horrorizado: Não passava de um cara urrando e se jogando ao chão, acompanhado de uma banda que só fazia barulho. Entre uma “música” e outra Sylvio, que não tocava porra nenhuma e ficava só arranhando as cordas da guitarra, gritava: “Logorréia canta o lixo”. Não podia dar em outra: a nova banda só poderia ser mesmo ultra-barulhenta. Ele bolou o logotipo e começou a recrutar parceiros para a empreitada. Астматичен заебана chegou a ensaiar, mas tinha uma namorada no interior e ficou entre a cruz e a espada. Preferiu a cruz (“pussy Power”, diria Iggy Pop). O vocal foi ocupado por Fúria, que também “cantava” no Camboja. O primeiro show foi um desastre, pois Fúria cismou em ficar gritando como um porco no abate o tempo inteiro e acabou embolando tudo. Foi no primeiro Festival underground do interior do estado, em Itabaiana, a 52km de Aracaju.

Passado o susto inicial, eles estabilizam pela primeira vez uma formação: Sylvio na guitarra, “Grelinho” na bateria, Pereira no baixo e Sandoval “quaresma”, “a voz de ouro do Bugio”, no vocal. Fizeram seu primeiro show, digamos, “decente” (leia-se seguindo o que havia sido combinado no ensaio) na praça Camerino. Foi um evento bem underground, as bandas se reuniram, puxaram uma gambiarra de energia clandestinamente e fizeram o “gig”. A cada camburão que passava, corria um frio na espinha, mas no final deu tudo certo. Bastante gente, álcool, amassos e maconha pelos cantos, como é de praxe. Nessa época saiu o clássico primeiro registro gravado, a demo “THE BEST OF ETC”. Revelarei aqui alguns segredos com relação à gravação desta fita: “Um mini blues” Sylvio gravou em cima da cama, com a porta do quarto trancada e coberto por um lençol, pra abafar o barulho. Não adiantou nada, ainda dá pra ouvir as mulheres gritando com os filhos na rua e coisas do tipo. E em “pau nas coxas” ninguém estava comendo Fúria, ele gemia de mentirinha.

A Rock Brigade achou a banda ridícula, o que os animou mais ainda. Saiu Sandoval e Астматичен voltou correndo e babando “de volta ao lar”. Mais alguns shows, sempre em espeluncas, e Pereira pendura as quatro cordas. Motivo: só sabia tocar “parabéns pra você”. Não que isso tivesse grande importância pra banda em si, mas é que ele enchia o saco nos ensaios, entre um som e outro. Entrou Chris, que pelo menos tirava “come as you are” do Nirvana. Na verdade ele tocava bem, o que também era ruim – O ETC é barulho. Mas ele começou a ser perseguido por visões terríveis: havia sempre um enorme monte de bosta preta seguindo-o pelas ruas, o que o fez voltar pra Paulo Afonso, Bahia, sua cidade natal. Não sem antes participar do segundo demo-tape, gravado ao vivo na abertura de um show da Karne Krua. A banda passa então para sua segunda formação estável: Астматичен “cadê o ar?” no vocal, Grelinho na bateria, Sylvio I (e único), Imperador do Hard Core, na guitarra, e Xavier “venta de bom bom” acariciando o “bass”.

No ano de 1993 tocaram pra caralho. Participaram inclusive de uma manifestação na campanha contra a fome no Parque da Sementeira com uma avassaladora apresentação de 15 minutos onde Астматичен заебана cunhou a célebre frase “pau no cu da fome”. Abriram para os alagoanos do Living In the shit em Aracaju e fizeram um “supershow” em Salvador ( não tinha som, não tinha onde dormir, não teve grana para passagem e ainda por cima deixaram escapar uns “brotinhos” que não paravam de acariciar seus longos cabelos). A Rock Brigade achou a segunda demo pior que a primeira, o que demonstrava claramente a evolução da banda. Mas veio o ano de 1994, e com eles, os problemas. Sylvio, um dos fundadores e principais compositores, sai pra se dedicar melhor ao karne krua, que acabava de lançar seu primeiro LP. Ficaram um tempo parados, com a formação indefinida e sem local pra ensaiar, mas não existe crise para a fuleiragem: Voltaram a ensair com uma nova formação, Xavier assumiu a guitarra, Robervan é incorporado no baixo e Grelinho e Астматичен continuam insistindo em suas posições de sempre.

por Астматичен заебана

OS: Esta formação não prosperou. Астматичен заебана teve uma crise de asma que quase o matou e resolveu sair também da banda, que acabou. Voltaram na virada do milênio, para um revival ainda mais tosco que você pode conferir aqui.

OPINIÕES SOB SUSPEITA DE AMIGOS DOS MEMBROS DA BANDA:

“Para tudo! Caralho, o ETC é muito bom”. Fellipe CDC, zineiro cabeludo, editor do Protectors of noise
“Merecia um compacto”. Dietmar Hille, zineiro, editor do DISTORÇÃO ALTERNATIVA.
“Esses lances de música regional no meio pegam muito bem no exterior”. Ângelo, do No Sense
“ETC é muito melhor que Raimundos, só falta mais produção”. Edgar S. Franco, desenhista e zineiro exagerado.
“Nota 10 pra “couro de buceta”. Ronaldo Chorão, da Gangrena Gasosa.
“Mostrei pra um amigo meu e ele ficou fã. Sergipe é a terra do barulho”. Oscar F., zineiro desaparecido.
“Há quanto tempo você ao ouve um grindcore criativo? Ouça o ETC”. Joacy jamys (RIP), desenhista, vocalista, fanzineiro e batalhador incansável.
“Desculpa, mas não deu pra ouvir nada da fita. A gravação é muito ruim”. Todos os outros.

“GREATEST HITS LIVE” faixa a faixa, por Edgar S. Franco:

MINI BLUES: Ficou interessante e mostra a grande gama de influências que rondam o ETC.
INSTRUMETENDO: pura porrada-core. O “duri-durá-durô” ficou interessante e a finalização é bela.
BULLSHOT & SUCK MY DICK: Ruído-core, as batidas me lembram os bons tempos do Olho Seco.
DEAD OR ALIVE: Valeu a brincadeira com o The Doors.
ELA SE FUDEU: Solo tribal. O vocal ficou abafado, mas é muito pau.
CANTIGA DE RODA: Podreira. Pena que a gravação não deixa entender a letra.
RAPADURA: Астматичен urrou como um louco e na segunda audição compreendi a letra, uma bela manifestação de bairrismo e amor à terra. Grande som.
COURO DE BUCETA: Essa tem influência de música nordestina e fala de uma iguaria que eu gosto muito. Tem o estilo ETC.
SPLATTER OR DIE: a mais fraquinha desse lado, mas não deixa de ser uma paulada.
PAU NAS COXAS: Tem uma introdução “blues core” muito interessante.
VAI SE FUDER: É puro hard core. FUCK OFF AND DIE !!!
PUTA ABASTADA: Queria entender a letra, mas gostei da homenagem a Rosane Collor.
ELE SE FUDEU: Tem uma intro interessante. A bateria ficou muito boa.
THE GRAVE: A cova. Primal, fodida.
AMORE MIO: Mais paulada.
BORN TO BE CUZÃO: Tem tons noise e depois é pura podreira. Destaque para a guitarra.
RAPCORE: Mais uma sopa que deu certo.
A CAGADA: Meio lugar-comum no meio das outras.
RECEITA PARA FAZER DEATH METAL: Puta que pariu, que crítica maravilhosa, cara. Esa eu quero mostrar pra um bando de “death-metaleiros” dessas bandas. O riff de guitarra e o grito meio bleargh, é bem a receitinha usada pelos iniciantes.
MÃE NA ZONA: Grande hit.
VIOLENCE OF THE CITY: a melhor música da demo. É uma reflexão muito inteligente sobre a desunião no underground. Sem contar a belíssima influência do repente. Do caralho!
ENCURRALADO & BABYLOIDS: Bem ETC.

Fonte: Fanzine Escarro Napalm

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ETC (Esquizofrênicos Tarados por C*), também conhecida por 120 Dias de Sodoma, é (é?) uma banda formada em 1992 com a intenção de avacalhar de uma vez com a moral e os bons costumes que ainda insistem em vicejar em nosso meio dito "alternativo". Conta na sua formação com três sujeitos egressos das primeiras fileiras (no sentido cronológico de tempo mesmo) do rock sergipano, a saber Sylvio "kk" na guitarra, Астматичен nos berros e Lord Astovidato Villas Parakas AKA Kabbirim Nagal Gibborim Villas Parakas, vulgo Bilal, "A Base", na bateria e streap tease. A Banda por ela mesma:

“Durante muito tempo o que víamos (e vemos) muito no dito “underground” foram pessoas que se dizem “alternativas” e “muito loucas” mas que se contradiziam completamente no comportamento do dia-a-dia. São punks que se dizem “libertários” e politizados mas que se revelam verdadeiros “caga-regras” com suas ridículas doutrinas vazias oriundas de leituras superficiais de panfletos. Acusam a todos de fascistas mas eles mesmos não hesitam em impor regras rígidas de comportamento aos que fazem parte de seu reduzido grupo de pseudo-revolucionários. Se dizem libertinos e não-moralistas mas à mínima menção de um “palavrão” ou de uma imagem pornográfica já te tacham de sexista. São Headbangers, black metal, que pregam a Babilônia, a luxuria, mas que não hesitam em chamar de vagabunda e/ou prostituta qualquer mulher que tenha um comportamento sexual libertino e/ou fora dos surrados padrões morais da doutrina cristã supostamente odiada por eles. A explicação para esse fato, para nós, é muito simples: ignorância aliada à necessidade de auto-afirmação com um fator determinante: falta de buceta (ou de sexo de uma forma geral, lembremos que muitos desses são homossexuais enrustidos).

Pois bem, cansado de tanta babaquice, por volta de 1992 o ilustre batalhador do underground Sylvio “suburbano”, vocalista da Karne Krua e de um monte de outras bandas vivas e/ou mortas, resolveu montar uma banda que não seguisse nenhuma dessas regrinhas do underground. Os punks queriam seriedade, a banda seria escrachada. Ao invés de seguir uma linha rígida de som, a “musica” da banda poderia incluir à vontade o que quisesse pelo meio, rap, repente (vide a já clássica “couro de buceta”), metal, hardcore e grandes doses do bom e velo barulho, puro e simples. Falaríamos de sacanagem abertamente sem nos importarmos com a pecha de sexistas, até porque não éramos, pois haviam outros temas nas musicas, elas não se limitavam a falar de sexo (rapadura, the grave, a cagada – a não ser que sua mente doentia veja alguma conotação sexual o ato de cagar). E assim a banda foi montada, capitaneada por Sylvio, teve uma “gloriosa” (ironia, entendem?) carreira no meio “underground”, gravou duas demos e acabou, porque toda piada perde a graça depois de um certo tempo e tudo o que causa impacto num dia causa enfado depois de ser repetido “n” vezes.

Por volta dos anos 2000, rolou aquele clima apocalíptico de fim de século e coisa e tal e uma conjunção astral tornou possível a volta da banda – algo parecido com o que ta acontecendo agora com os Mutantes. Nosso baterista “oficial”, Grelinho, estava em outra sintonia, então pra esculachar a parada de vez chamamos para as baquetas o mais autentico “rocker” de Aracaju, “A Base” de tudo aqui nessa porra, Bilal, Elite do Metal, eterno guerreiro das trevas. Voltamos a ensaiar, porque, por incrível que possa parecer, a banda ensaiava nos anos 90. Já no primeiro show, no antigo Barracão cultural, depois “forró do candeeiro”, na Aruana, num evento histórico á beira mar, o caos se instalou. Bilal ficou tão bêbado que não conseguia tocar direito, errou tudo, e nesse momento eu e Sylvio captamos que o espírito da banda seria ainda mais anárquico e sem rédeas que o anterior, que nossos shows teriam que ser uma afronta ao bom gosto e ao roquinho bem comportado mediano e de classe media que começava a florescer com rebeldia de shopping e coisas abjetas como o emo-core e o nu-metal. Os shows foram se sucedendo cada dia mais caóticos, culminando com mais quatro apresentações simbólicas: a do sindipetro, onde nós compramos o publico com 5 garrafões de vinho de 5 litros (só bebia quem agitasse na frente do palco), o do muquifo, onde Agapito e sua gaita protagonizaram um bizarro show de melodias desencontradas e de nudez, o show do jason no DCE, onde Bilal mostrou sua virilidade e de onde foi tirada nossa mais conhecida imagem e que ilustra esse artigo, e uma na rua da cultura, onde nosso estilo desbocado, bêbado e sem noção feriu egos inflados de alguns que se arvoram patronos da cultura sergipana e arrotam um bairrismo cultural burro e ridículo.

Hoje a banda ta parada. Além da velha historia do show de impacto, que só tem graça quando vira lenda, o mundo dá voltas e vejam só, nosso ilustre baterista arrumou um emprego !!!!!! Um emprego que o deixa distante da cidade por 30 dias, o que pra ele ta massa, já que ele vive dizendo que odeia Aracaju mesmo. Acabou? Quem sabe. Dependendo do cachê (pode ser simbólico, algumas latas de água que passarinho não bebe e algumas damas do baixo meretrício seriam bem vindas) quem sabe não comece tudo de novo? Porque, como diziam algumas musicas clássicas do metal, “evil has no boundaries”, e “only the good die young, all the evil since to live forever.

Texto por Астматичен (aprovado pelos demais membros)

Fonte: Orkut

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ENTREVISTA COM A BANDA 120 DIAS DE SODOMA
Fonte: Fanzine “Ultralibido”

1. VOCÊ ACHA QUE UM DIA ESSA BANDA TERÁ UM DIA O RECONHECIMENTO QUE MERECE?
ADELVAN – E você acha que essa banda merece algum reconhecimento? Eu acho que não. Não ensaiamos, não gravamos, não compomos nada de novo há tempos, não produzimos nada de relevante para a história do rock, somos apenas um bando de vagabundos. “The Great rock and roll swindle” do rock sergipano. Mas isso serve mais para mim mesmo, assumo essa carapuça, haja visto que trata-se na verdade um projeto, os outros dois componentes têm suas respectivas bandas, digamos, “oficiais”, e nelas fazem um trabalho mais consistente e bem acabado. 120 Dias de Sodoma é apenas uma celebração do rock, do sexo e da bebedeira, não está atrás de reconhecimento algum, quer apenas se divertir entre amigos ou não.

2. COMO VOCALISTA DA 120 DDS VOCÊ ACHA QUE AS PESSOAS ENTENDEM SUA PALAVRA, A SUA MENSAGEM?
ADELVAN – Acho que não. E não deveriam. Nem eu entendo porra!! E que mensagem, caralho? Já tem banda demais passando mensagens edificantes hoje em dia. Eu to fora dessa. No máximo, passo mensagens “desedificantes”, saca aquele lance “Destroy” dos Sex Pistols? É por aí. Nosso objetivo é mais de perverter a juventude e confundir as cabeças politicamente corretas. Mas na verdade me surpreendi com a recepção que tivemos com nessa volta aos palcos ( a banda nasceu em 1992 mas passou aproximadamente 5 anos parada, voltando apenas em 1999 com novo baterista e uma sonoridade e postura de palco ainda mais desleixada e degradante), as “pessoas de boa vontade”, digamos assim, captaram muito bem o espírito da coisa, tanto é que no dia do lançamento do site gambiarra.org, na cachaçaria, onde além de nós só tocaram bandas “sérias”, indie, guitar ou coisas do tipo, enfim, bandas com uma proposta artística “RESPEITAVEL”, fizemos o que eu considero o melhor show de nossa historia. Sei lá, acho que a “cena” tava precisando de um grande FODA-SE pra voltar a ser um pouco mais divertida. Ultimamente alguns idiotas andaram levando a serio demais algumas declarações sob efeito do vinho no palco mas por mim tudo bem, achem o que quiser de mim, e uma pessoa que leva uma banda como a nossa a serio tem mas é que se foder mesmo. Esses cara acham que todo mundo que pega num microfone tem que se comportar como um político e ficar medindo tudo que diz. Eu sou mais pelo que disse Glauber Rocha, “sou um artista, não exijam de mim coerência”. A diferença é que no meu caso, a palavra “artista” acaba se tornando uma ironia. Mais uma.

3. QUAL RELAÇÃO QUE VOCÊ TEM COM SEITAS SATÂNICAS, RITUAIS MACABROS, PORNOGRAFIA E OUTRAS FULEIRAGENS?
ADELVAN – Tenho poucas relações desse tipo, gostaria de ter mais, na verdade, se é que você me entende hehehe. Da pornografia sou um fã entusiástico, coleciono fitas de filmes pornôs e fotos da internet. Quanto aos rituais macabros e ou satanicos, a coisa mais próxima disso na qual estive presente foi um show da banda do nosso baterista, MYSTICAL FIRE, na qual uma cabeça de porco podre que ornamentava o palco foi avidamente beijada, lambida e degustada por um maluco lá. Foi do caralho. Tenho grande simpatia pelo diabo.

4. QUAL SUA MUSA INSPIRADORA?
ADELVAN – No plano pratico físico, sentimental e emocional, minha mulher. No plano abstrato, estético e platônico, nossa baixista, por ter aceitado tirar essa onda tocando com a gente. Claro que pra que ela subisse no palco tivemos primeiro que embebedá-la e chantageá-la, mas isso são detalhes. E além do mais, nem foi difícil assim, ela é bastante chegada na água que passarinho não bebe.

5. A QUE VOCÊ ATRIBUI ESSA QUALIDADE COMO VOCALISTA QUE TU TENS?
ADELVAN – Próxima pergunta, por favor.

6. VOCÊ NÃO PENSA EM UMA CARREIRA SOLO? TIPO, THE ADELVAN’S BAND, ALGO PSYCHOBILLY OU ALGO MAIS EXTREMO COMO ADELSATANS’S BAND?
ADELVAN – As vezes penso em virar ator de filme pornô, mas quando olho pra minha barriga e penso na quantidade de malhação necessária pra manter-me em forma física.

7. FILME INSPIRADOR? UM LIVRO? UMA BANDA?
ADELVAN – A Laranja Mecânica, Mate-me por favor e Sex Pistols.

8. QUAL A MELHOR HORA PARA SE FODER ALGUÉM?
ADELVAN – Se foder em que sentido? No bom sentido não tem hora certa, no mal... Sei lá, estando bêbado de bobeira no meio da rua de madrugada com o bolso cheio de dinheiro.

9. VOCÊ GOSTA DE OVOS? BATIDO OU MEXIDO?
ADELVAN – Gosto de ovo, mas não gosto de óvulo. Não quero ter filho e ajudar a perpetuar a desgraça humana.

10. FIQUE A VONTADE MAS CUIDADO PRA NÃO GOZAR NA ENTREVISTA.
ADELVAN – Faça o que tu queres, há de ser tudo da lei.

domingo, 13 de junho de 2010

FORA DO AR

Como devem ter notado, não tivemos programa de rock na ultima sexta-feira. Peço desculpas aos ouvintes por não ter avisado com antecedencia, mas o problema é que eu mesmo só soube na hora, quando cheguei na radio para fazer o programa e fui avisado de que eles transmitiriam os festejos juninos. Estaremos de volta ainda en junho, dia 25.

Obrigado pela atenção e boas festas juninas para todos.

Adelvan.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Highlanders do rock carioca ...

Meus amigos, o tempo passa, o tempo voa, e, por vezes, parece que estamos no mesmo lugar. É chato ficar nessa de dizer que antes é que era legal, ou no meu tempo é que era bom. Eu, do meu lado - e por ouro lado - não tenho mais tempo nenhum, me transformei num verdadeiro highlander do rock, como, aliás, muitos amigos caras de pau me chamam. Ou seja, posso falar de qualquer tempo porque não sou de tempo algum. Deu pra entender? Aposto que não.

Ocorre que, num domingão daqueles de almanaque, me pirulitei para o Circo Voador para assistir a uma seletiva de bandas para o festival Porão do Rock, que acontece todo ano em Brasília, dessa vez em setembro. Fazia muito tempo que não ia a um
evento como público, ou seja, sem ter a obrigação de apurar informações, ficar o tempo todo anotando tudo o que acontece e tendo que ter uma opinião formada sobre tudo – como frisa o cancioneiro popular. No que gostei um bocado de poder olhar sem muita atenção, conversar com os outros, não ter que ver tudo, e assim por diante. Havia lá um corpo de jurados para selecionar uma banda, mas eu não estava nessa. Então: rock! Como nos bons tempos.

Acontece que, entre as bandas concorrentes, estavam as veteranas Gangrena Gasosa e Jason, no que eu me questionei: o que esses caras estão fazendo numa seletiva? Eles têm que ser é convidados para tocar em festivais - no mínimo - pelo conjunto da obra. Soube pelo incansável (porém cansado) Leonardo Panço, que o Jason, que está voltando a tocar com a formação clássica agora, foi chamado de última hora, e todo mundo topou, mesmo porque show no Circo não se rejeita. Soube pela dupla Gustavo Sá e Marcos Pinheiro, produtores do Porão do Rock, que eles e outras pessoas ouviram muitas bandas até chegarem aos concorrentes que iriam tocar no domingão, dia 23 de maio, que, além do Jason e da Gangrena, incluíam Filhos da Judith, Glass & Glue, Lê Almeida, Mauk & Os Cadillacs Malditos e Rockz, e ainda os não concorrentes Rodrigo Santos, Trampa, Autoramas e Raimundos. Mas – ele admitiu – foi tudo muito rápido. Disse que não ia apurar nada, mas fiquei sabendo de um monte de coisa. Na adianta, é a vocação nata. Tá no sangue.

Citei as bandas para dizer que todas são legais, algumas datadas, outras ultrapassadas, mas tudo legal. Mas eis que, quando Jason e Gangrena subiram ao palco, tudo mudou. Sabem quando eu digo que quando uma banda gringa entra no palco, se percebe já no primeiro toque que é, de fato, uma banda gringa? Pois foi o que aconteceu quando esses dois veteranos, remanescentes de outra época, deram o ar da graça. Sensação semelhante tive em novembro do ano passado quando o Retrofoguetes tocou no Festival Dosol (segundo um afamado produtor independente, o único evento que este escriba, acusado de gostar de rock, pode ir), em novembro do ano passado.

E olha que os integrantes o Jason estão longe de estar na ponta dos cascos; os caras não tocam juntos há um tempão. Mesmo assim, foi só a banda subir no palco pra tudo mudar. O público – claro - sacou isso logo de cara e se acabou. Não é preciso ser muito esperto para perceber que o Autoramas com violões é uma lástima; que os covers dos anos 80 de Rodrigo Santos é pra Festa Ploc; e que o Trampa não é assim tão conhecido no Rio para ser incluído num evento desse tipo. O resultado foi uma festa das boas, que iria atingir o momento máximo com a chegada do Gangrena Gasosa. É inadmissível que a produção do Porão do Rock não tenha convidado o grupo para uma apresentação especial, seja pelo som, pela indumentária caprichada ou, como já disse, pelo conjunto da obra. Com o Gangrena o bicho pegou de verdade, e o Circo teve o maior e mais participativo público de toda a noite, incluindo o Raimundos, tido como principal atração.

O resultado não poderia ser outro: os jurados, que não são cegos, escolheram o Gangrena como a banda da noite. O público – claro – também ficou com criadores do saravá metal, numa unanimidade ampla poucas vezes atingida. O público, mais esperto, colocou o Jason no segundo lugar, mas valeu o peso dos jurados que escolheram o bom Filhos da Judith para ir junto com o Gangrena para Brasília em setembro. Eu sei, era pra ser uma banda só, mas mudaram a regra do jogo no meio do jogo e colocaram duas. Bom, né? Mas deixar o Jason de fora foi uma injustiça daquelas. Isso sem falar que, no fim das contas, a produção acabou dando as costas para o público. Coisa feia. Se fosse eu, a essa altura, dava um jeito e convidava o Jason também. Mas como fui condenado justamente por gostar de rock, então tenho mais é que cumprir pena. Uma pena mesmo.

Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!

Marcos Bragatto
REG

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Recordar é viver ...


No Paraíso astral do Abril pro rock. - Plástico Lunar fez show conciso ao som do seu rock-psicodélico.

Por Lu Almeida

Fonte: Trabalho Novo

Pernambuco está de portas abertas para a música sergipana. A histórica Olinda recebeu o show da “Plástico Lunar” durante a 17º edição do Abril Pro Rock, ocorrido no último final de semana no Pavilhão do Centro de Convenções. Com passos certeiros, a cena musical sergipana ganha fronteiras nos seus mais diversos estilos musicais. E nada melhor como a vitrine do APR, festival conhecido por ser uma espécie de trampolim – vide o caso da banda Los Hermanos que logo após sua apresentação, no ano de 1999, foi contratada pela Abril Music. “Qualquer sujeito que preza tocar rock no Brasil um dia quis ter sua banda na programação do festival”, faz a média Júnior Plástico. Isso não é proselitismo, a banda sabe o que é chegar até lá.
Já são dez anos de estrada para estar entre a lista das bandas principais do Circuito “Fora do Eixo“, considerado, atualmente, a maior rede de trabalhos concebida por produtores culturais no Brasil e responsáveis pela circulação de bandas, intercâmbio de tecnologia de produção e escoamento de produtos de forma independente. A rede cresceu e as relações de mercado se tornaram ainda mais favoráveis às pequenas iniciativas do setor da música, pelo fluxo de informação potencializado com a internet para empreendimentos com características mais cooperativas.
E não é nada fácil furar certos circuitos de circulação musical. No retrospecto, a primeira banda sergipana a tocar no Abril Pro Rock, em 1996, foi a dupla lagartense Tacer & Deon com a “Lacertae” no extinto Circo Maluco Beleza. Essa década foi sem dúvida os melhores anos do festival, onde a ocorreu o memorável show de Chico Science & Nação Zumbi (PE) com a participação especial de Gilberto Gil. Só no ano de 2008, Sergipe volta a ter uma participação com a banda dos irmãos Leo & Bruno Mattos, a “Rockassetes”, quando o APR acontecia no Chevrolet Hall. Por essas e outras que a expectativa do show da Plástico Lunar era motivado pelo desafio: ocupar um nome na história do festival e ser uma das primeiras bandas num final de semana torrencialmente chuvoso.
Na manga! Chovia três dias seguidos no Recife e em toda zona metropolitana, ou seja, referência de situação de caótica numa cidade na altura da linha do mar e banhada entre os rios Capibaribe e Beberibe. Mas nem o lamaçal que atingia alguns trechos de acesso ao Pavilhão do Centro de Convenções em Olinda desestimulou o público do APR. A segunda noite do evento, tem uma programação costumeiramente mais eclética. Na lista da apresentação constava a Anjo Gabriel(PE), com o sergipano Carlos Henrique na bateria, Mini Box Lunar (AP), Plástico Lunar(SE), Bugs (RN), Zeca Viana (PE), Vendo 147 (BA), Nevilton (PR), The River Raid (PE), Plastique Noir (CE), Wado (AL), Instituto Mexicano del Sonido (México), 3naMassa (PE/SP), Afrika Bambaataa (EUA) e Pato Fu (MG).
As portas do pavilhão do Centro de Convenções no sábado, dia 17, foram abertas às 17 horas. Ainda com poucos expectadores, às 18h40 entrou no palco a formação Daniel Torres na voz e guitarra, Júlio Andrade na guitarra, Júnior no baixo e voz, Leo AirPlane no orgão, piano, synths e Marcos Odara na bateria. Era o psicodélico som da Plástico que pedia passagem, no festival com pouco mais de 30 minutos de apresentação para cada banda. Dividido em três blocos, o repertório apresentado, com dez composições, demonstrou um show redondo e conciso. Eles justificaram o porquê vem se destacando na cena nacional: revelam uma forte identidade autoral e trabalhar com criatividade o bom e velho rock´n roll.
De início tocaram a canção “Algo Forte”, que não saiu no primeiro disco mas já está no setlist do próximo álbum. Na sequência, foi a “Sua casa é seu palitó”, música que já imprime o cosmo da viagem musical da Plástico. Basta uma referência do videoclipe dessa música, dirigido por Alessandro Santana, onde há justaposições do filme Vampyr (1932) de C. T. Dreyer. O segundo momento do show começou com a música mais pedida do repertório “acid trip”. “Minha paranóia/ está em cima da mesa/…dissolvendo-se em bolhas loucas e acesas/ orientando as cores/ perdidas em minha cabeça”. E numa versão caipira à Mutantes tocaram a canção “Próxima Parada” que contaminou o público até então tímido, seguida por “Banquete dos Gafanhotos”. Mas o que engatou a quarta marcha foi o set final de músicas emendadas com apresentação de um sexto elemento surpresa no palco. Eis que saído da manga (ou seria da cartola?) é chamado ao palco a terceira guitarra, Rafael Costelo.
Pé nas raízes! Neste momento foi um ápice de experimental durante oito minutos, pra fritar quem ainda não tinha se ligado com som que parece ter saído de uma vitrola empoeirada e refletia a velha atmosfera garageira dos anos 60. Fizeram parte desse bloco “Quarto Azul”, a nova música de Júlio Andrade chamada “Quase desisto” e encerrando de maneira prog-psicodelia com “Boca Aberta”, ao melhor modo progressivo “Casa das Máquinas” – lendária banda paulista formadora de cabeças e mentes com suas letras desbundadas. E aí aparece um sujeito da produção do APR sinalizando o encerramento da show, ao estilo “tô nem aí” o baterista e professor de História, Marcos Odara, chamou uma faixa extra.
A derradeira foi uma cover de autoria de Leno Azevedo e Raulzito Seixas intitulada “Sentado no Arco-íris”. Ela foi retirada do álbum considerado de transição entre Raulzito para Raul Seixas, chamado “Vida e Obra de Johnny McCartney”, produzido entre 1970/71 e considerado um trabalho visionário porque falava de reforma agrária, movimento dos trabalhadores sem-terra e igualdade social. Veja que o clima transcendental da letra: “Sentado no Arco-Íris tão perto e tão distante/ Milhões de anos-luz lá no fundo de mim mesmo/ Fico em vão sem saber, fico em vão a buscar/ Aonde Deus está”. E aí bastam alguns minutos para a concepção de passado se distorcer e o presente apontar para o futuro. Com um pé nas raízes da música negra norte-americana e psicodelia brasileira ao estilo da banda “O som nosso de cada dia“, a Plástico Lunar trouxe essa essência mágica que o rock’n roll ainda transmite.
É o que confirma Anderson Foca, produtor do Festival “DoSol” em Natal (Rio Grande do Norte), um dos ‘culpados’ pela seleção da Plástico Lunar no APR 2010. No ano passado, a Plástico e a “The Baggios” foram selecionadas para tocar no festival no qual o Foca produz. Agora, como uma espécie de curador do APR, o hiperativo Anderson foi quem recomendou o material da banda para o produtor do Abril Pro Rock, Paulo André. “Experientes e rodados, essa é a Plástico Lunar. Conectou de vez o pequeno público do começo da programação com as viagens lisérgicas setentistas. Grupo de pegada forte, bons músicos e timbres certeiros. O PL representou muito bem a promissora cena sergipana. Muito bom show”, endossou Anderson Foca.
Não é uma questão de elogios, a Plástico Lunar realmente vem numa boa fase de produção. Na virada de 2009-2010, a banda participou pela segunda vez do festival de música independente de rock progressivo chamado “Psicodália” em São Martinho (Santa Catarina). Depois de Pernambuco, a Plástico Lunar viaja em maio para o festival “Bananada” em Goiânia (Goiás) que neste ano completa o 12º ano de vida, considerado pela Revista Bravo! como o melhor festival de música no Brasil. Ainda na agenda está a confirmação de shows no festival “Goma” em Uberlândia (Minas Gerais), “Maionese” em Maceió (Alagoas) e o festival do Natora Coletivo em João Pessoa (Paraíba). No segundo semestre, a PL pretende entrar no estúdio em São Paulo onde vai gravar as faixas do segundo álbum. Com certeza, o ano vai render bons frutos & rocks.

18/04/2010

TELEFANZINE - Um formato realmente inovador ...

Acabo de receber do camarada Jesuíno André, via e-mail, uma interessante matéria sobre o "Telefanzine", uma espécie de fanzine via telefone que existia em Salvador na década de 90. Usei muito esse serviço daqui mesmo, de Aracaju, e atesto que era realmente bem legal, muito bem feito para a época. Era como se você estivesse ouvindo um programete de rádio de 4, 5 minutos, via telefone, com informações sobre o rock independente baiano - que estava numa excelente fase na época, com bandas seminais como Dead Billies e Dois Sapos e Meio em plena atividade. Lembro que ligava sempre que podia - tipo, tava no cinema esperando o filme começar, ligava pro telefanzine pra ouvir as novidades e matar o tempo. Uma idéia sensacional, mais uma das muitas histórias do cenário alternativo que precisam ser resgatadas, para que jornalistas desavisados não continuem achando que o rock independente brasileiro só passou a existir quando a Petrobras resolveu patrocinar alguns festivais da Abrafin.

Abaixo, a materia completa.

A.

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Na década de 90, um novo cenário começava a se delinear para o rock na Bahia. Ainda longe de serem sucesso, algumas bandas já passavam a tocar com alguma regularidade em Salvador, consolidando eventos e casas de show – ainda que precárias – como espaço cativo dos roqueiros locais. Bandas como Inkoma (da qual saiu a cantora Pitty), Lisergia, Dois Sapos e Meio, brincando de deus, The Dead Billies, Malefactor, Saci Tric, entre outras, apesar das diferenças de estilo compartilhavam um público jovem em formação.

Mesmo diante desse quadro em transformação, de uma maneira geral, o rock baiano permanecia à margem para os veículos locais, que não davam conta de divulgar ou refletir a movimentação que ocorria. Ou melhor, o rock de maneira geral e a cultura em torno dele não tinham voz nos meios de comunicação convencionais da Bahia, que pareciam entender tudo aquilo como excêntrico e sem correspondência na identidade cultural da região. Nessas circunstâncias, partiu da iniciativa do próprio público a criação de um canal de informação e diálogo que o atendesse. Surgia então o Telefanzine – uma caixa postal telefônica que fornecia notícias sobre agenda de shows, lançamentos, comentários e entrevistas sobre a cultura rock na Bahia e no mundo.

Criado por Ednilson Sacramento, um agitador cultural residente da Fazenda Grande do Retiro (periferia de Salvador), o Telefanzine permaneceu à disposição do público através do número 71 533 6640 durante cerca de 6 anos, a partir de 1994 ou 1996 – as datas não são precisas por falta de registros. Ednilson conta que era uma versão dos tradicionais fanzines que já fazia na época, com a diferença de se apropriar de uma tecnologia bastante popular: o telefone. “Percebi a possibilidade de transmitir notícias por via eletrônica. Criei o Telefanzine porque, além da possibilidade de colocar idéias e informação por um número telefônico, podia, de forma inédita, experimental e livre, estabelecer uma rede informativa ‘acessável’ de qualquer lugar em que se podia usar um telefone – da praça, do trabalho, do orelhão”, afirma.

Ednilson recorda que média diária nos primeiros meses girava em torno de 80 chamadas, mas com o passar do tempo esse número subiu para mais de 280 ligações – o sistema de caixa postal permitia múltiplos acessos simultâneos. As pessoas ligavam e podiam escutar programas corridos com duração de cerca de cinco minutos, pagando a tarifa normal do pulso telefônico. O Telefanzine também abria espaço para interação com o público: “Ao final da programação o ouvinte podia deixar um recado ou participar de alguma promoção para faturar um ingresso para show ou coisa parecida. Outra forma era o e-mail ou uma ligação telefônica para contato direto, no caso de produtores e pessoal integrante de bandas”. As mensagens gravadas entravam no programa do dia seguinte.

Mobilização - No começo, segundo Ednilson, eram apenas dois ou três colaboradores, mas ao longo da existência do Telefanzine, chegaram a ser mais de sete, entre outros que faziam participações especiais. “Cada quadro ia ao ar em um dia da semana”, explica. Esses colaboradores faziam suas “colunas” voluntariamente, assim como ele mesmo. Eram pessoas direta ou indiretamente ligadas ao cenário rocker local, que forneciam informações acerca de temas que lhes interessavam em especial. Em outras palavras: eram amadores no melhor sentido, uma vez que tinham interesse em compartilhar o conhecimento fruto de pesquisas motivadas por suas paixões pessoais.

O perfil desses colaboradores era tão diverso quanto a variedade dos temas que tratavam, como conta um deles, o jornalista Leonardo Parente. Ele enumera:“Carlos Navarro (filósofo) falava sobre arte, e o ‘rock triste’ de bandas como The Smiths, My Bloody Valentine e Joy Division, entre outras; Robson Pinto (comerciário) trazia notícias sobre punk e hardcore, sendo até hoje ativista na cena; Rodrigo Chagas (que se tornaria vocalista das bandas The Honkers e The Futchers) se dedicava ao rock mais antigo; Isaac Filho (jornalista), fazia uma abordagem sobre cultura pop de maneira geral; Eduardo Marques (técnico da Telebahia, então estatal da telefonia baiana) fazia uma geleia geral com esportes e comportamento; Miwky (funcionária pública) comentava sobre indie rock, e Lisiane Braga (estudante) focava o heavy metal”.

Na época, Leonardo era estudante e freqüentador de shows, sendo o Telefanzine o que ele considera como sua primeira experiência jornalística. Seu espaço era dedicado à internet, então grande novidade, fornecendo dicas de sites de bandas, entre outras informações ligadas à música. Ele acredita que o Telefanzine foi talvez o mais relevante catalisador para a cena cultural alternativa de Salvador e atribui a ele – direta ou indiretamente – o fortalecimento de uma rede de relacionamentos que proporcionou o surgimento de bandas e eventos na cidade.

Outro ouvinte e colaborador eventual, Luciano Matos, também jornalista e produtor de festas com enfoque em música independente, lembra do zine com entusiasmo: “Ele era a mídia que existia para um circuito que na época era muito mais off midia, off tudo. Era a referência para saber o que acontecia no cenário rock e afins, muito mais do que qualquer jornal, rádio ou TV”. Ele aponta que atualmente existem sites e blogs que cumprem o mesmo papel, mas acredita que faz falta porque era um modelo diferenciado, o que também é lembrado por outro ouvinte, Hendrik Aquino, que na época tocava bateria na banda Dê Cream Cracker – “Ednilson teve a grande sacada de criar uma espécie de rádio pelo telefone, dando uma dinâmica especial aos programas diários. A cobertura permitia, por exemplo, que alguém ligasse em pleno show, registrando o momento com o som da banda ao fundo, o que dava aquele clima de reportagem ‘ao vivo’. De qualquer canto era possível ouvir e deixar uma mensagem, o que estimulava a participação e troca de informações. O ouvinte era também o repórter”.

O alcance do veículo não se restringia a Salvador. O radialista Rodney Brocanelli era um ouvinte de São Paulo, que tomou conhecimento do zine a partir de uma lista de discussão sobre música independente. “Foi pelo Telefanzine que eu fiquei sabendo da existência da Pitty. Nessa época, ela integrava o Inkoma. Era bacana de acompanhar a movimentação da cena rocker de Salvador. Afinal, naquela época a axé music era o produto musical de exportação mais conhecido do público do eixo Rio-SP”, lembra. Rodney, que chegou a dar entrevistas para o zine a respeito rádios piratas no Brasil, se interessou pelo cruzamento de linguagens e mídias, que considerava bastante original – “O Telefanzine juntava duas linguagens: a do fanzine com o de um programa de rádio e divulgava isso por um meio bastante diferente: o telefone. Não fiquei sabendo de outro projeto nesse sentido sendo tocado à época”.

Ednilson, com orgulho de ter sido o criador, acredita que “naquele momento, o Telefanzine conseguiu unir pessoas, permitiu a troca de idéias e insultos, formou uma massa crítica dentro de uma juventude acuada pela massificação da grande mídia, projetou pessoas que puderam, mais tarde serem conhecidas por outras pessoas”.

Sem registro - O sistema de edição do Telefanzine era bastante precário, envolvendo gravadores de fita cassete e as gravações feitas diretamente na caixa postal eletrônica. A linguagem era semelhante à do radiojornalismo e o conteúdo era atualizado diariamente. Ednilson recebia as colaborações e montava tudo sozinho, varando as madrugadas em sua casa. Devido a essas condições, maior parte das gravações se perdeu ou encontra-se em estado deteriorado, o que comprometeu lamentavelmente o registro de um momento peculiar de efervescência cultural na capital baiana, assim como de seu principal veículo.

O Telefanzine era mantido pelo investimento pessoal de seu idealizador, que custeava o aluguel das caixas postais, contando eventualmente com o apoio de pequenos anunciantes – algumas lojas que atendiam ao público do segmento, como as extintas Na Mosca e Coringa, que comercializavam discos, publicações, camisetas e outros produtos. Apesar de jamais ter sido lucrativo, ou ter alcançado condições de ser mantido sem gerar custos, o fator determinante para o encerramento do projeto foi a desativação da modalidade de telefonia virtual da operadora baiana. “Era o boom do telefone celular e, simplesmente, a empresa encerrou o serviço”, recorda Ednilson.

A militância, no entanto, continuou. Com a experiência e conhecimento acumulados, em 2006 Ednilson lançou o livro Rock Baiano – História de uma Cultura Subterrânea, resultado de mais de dez anos de pesquisa realizada sobre o cenário musical alternativo de Salvador. Atualmente, ele cursa Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades, na UFBA, ao mesmo tempo em que faz parte da diretoria da Acesso e Reintegração À Comunicação, Cultura e Arte (ARCCA) e também da Associação Baiana de Cegos, além de coordenar projetos sociais na área de direitos humanos, sobretudo no segmento de pessoas portadoras de deficiências.

Fonte: Cultura e Pensamento

por Juliana Protásio

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A Fonte da juventude.

Um britânico de meia-idade, com algum tempo para gastar numa viagem ao Brasil, deve imaginar: “Ooh, vou tomar um bom drink e passear na praia”. Bruce Dickinson, o vocalista do IRON MAIDEN, pensa “Ooh, já pilotei aquele jato do Rio de Janeiro a São Paulo esta tarde, e não vou subir ao palco para botar meus pulmões afora para 80 mil pessoas neste instante, então eu vou até aquela pista de kart onde Ayrton Senna aprendeu a pilotar, correr contra um profissional, daí me lançarei no palco por umas duas horas, ficarei acordado até tarde bebendo, irei para a cama, levantarei, desorientarei a imprensa internacional falando sobre motores de combustão e Monty Python por duas horas, pularei num helicóptero para o circuito Gran Prix onde Lewis Hamilton ganhou o campeonato mundial no ano passado, dirigirei um carro de Fórmula 1 a 240 km/h, entrarei em outra competição de kart e depois disso irei para um centro desportivo, para me equipar e competir contra uma dúzia de latino-americanos campeões na esgrima”.

Isso foi exatamente o que ele fez – em um intervalo de 24 horas. Eu sei disso porque eu fiz tudo isso com ele, e apesar de ter metade de sua idade e não ter cantado, guiado e sido espetado, eu ainda me senti pronto para morrer em algum ponto após aquela primeira curva de agitar estômago em Interlagos (Dickinson estava sorrindo e dizendo algo sobre estar “pronto para uma cerveja”). Então se eu estivesse na indústria do anti-envelhecimento eu investiria tudo em tentar engarrafar o suco do Bruce.

Na verdade, todos os integrantes do IRON MAIDEN parecem viver em Shangri-La. O grupo nasceu nos anos 70, mas agora está encontrando maiores audiências do que nunca para as guitarras energéticas, baterias de trovão e letras fantásticas sobre Coleridge e Cátaros e o número da besta. Seu show solo em São Paulo é o seu maior até agora – atrai mais ou menos a metade do público de todo o Glastonbury Festival.

“Cinco anos atrás”, diz Steve Harris, baixista e coração criativo da banda, “comentamos que começaríamos a diminuir o ritmo um pouco. Porque pensávamos que nessa idade precisaríamos disso. Mas nós não precisamos, ou queremos – e os pedidos estão aí, então realmente não podemos. Nosso sucesso é maior do que era nos anos 80! Então, o que podemos fazer? Você continua fazendo o que sempre fez”.

O IRON MAIDEN é uma banda britânica única – em todo mundo seu show abre com o discurso de Churchill “Nós lutaremos nas praias” e termina com “Sempre Olhe o Lado Brilhante da Vida” de Monty Python.

Eles são um sucesso de exportação britânica tão grande que é de se questionar porque Peter Mandelson não os convidou para um de seus iates. Mas aí está a ironia sobre a maior banda britânica – as pessoas lá não pensam neles como grandes. A atração da mídia parece desviada para bandas antigas que estão de volta, enquanto o IRON MAIDEN na verdade nunca parou, apesar da formação ter variado um pouco e Dickinson ter saído em carreira solo por alguns anos. Jovens descolados em Shoreditch que vestem camisetas do IRON MAIDEN podem fazer isso de forma irônica, mas o fato é que, em tempos de crise, o Metal vende bem.

Quando o novo álbum do AC/DC atingiu o 1º lugar no final do ano passado, certamente foi um sinal dos tempos difíceis. Os outros pontos altos da banda foram os economicamente cruéis 1980 e 1990. Nesta semana mesmo, PRS for Music, que coleta royalties para compositores, revelou que os rendimentos estrangeiros de estrelas britânicas batiam níveis de record, com POLICE no topo, seguido pelo IRON MAIDEN, COLDPLAY e as SPICE GIRLS e ELTON JOHN. DEF LEPPARD, outra banda de hard rock, também estava no Top Ten.

IRON MAIDEN recentemente ganhou um Brit Awards por Melhor Apresentação Ao Vivo, de um corpo de jurados que tendia a ignorar a banda, e no ano passado esgotou a capacidade máxima, 55 mil, do Twickenham Stadium, onde fizeram seu primeiro show no Reino Unido. Não que a banda particularmente se importasse. Seu empresário, sólido na função como uma pedra, Rod Smallwood (que tem dinheiro o bastante para manter seus empregados o ano inteiro cuidando de sua casa de férias em Barbados) declara: “A banda não dá a mínima. Nós temos nosso próprio pequeno mundo e os Brit Awards não fazem realmente parte disso. Mas aquele prêmio foi votado pelo público e os fãs do Coldplay não são muito provocativos, não são?” Aparentemente um exército de fãs do Maiden em volta do mundo orquestrou a votação em massa.

E o que dizer sobre os irônicos que vestem camisetas? “É estranho,” diz Steve Harris, “ver que David Beckham usou uma maldita camiseta do Maiden – ele provavelmente nem é fã, só usou como algo da moda ou coisa assim. Ou talvez ele seja um fã... eu não sei. Mas nós nunca fomos 'descolados'. Enfaticamente, nós nunca quisemos ser legais ou modistas. Nós desprezamos a moda. O que é a moda? É algo transitório, hoje está aqui, e amanhã já foi. Nós vimos bandas virem e irem, todas investiram pesado na publicidade. Nós temos um estilo – e acontece dele não ser muito da moda. Mas quem se importa?”

Então esse é o apelo durável do Heavy Metal? É barulhento e implacável, mas o IRON MAIDEN insiste, a mensagem é positiva. Eles soam quase californianos enquanto eles insistem o quão inspiradora sua mensagem é. A banda formada em 1975, em Leytonstone, East London, e seus hits através das décadas incluem “Run to the Hills”, “Can I Play With Madness”, “Aces High”, “Bring Your Daughter... To the Slaughter”, “The Evil That Men Do” e “The Number of the Beast”.

Existe uma pesquisa que diz que fãs de música clássica e de Heavy Metal têm o maior QI entre todos os ouvintes de música. Um fã do Brasil, Felipe Martynetz, 24 anos, de Curitiba, tem uma carta para entregar à banda, na qual escreveu que "o conhecimento filosófico nas letras do Maiden me fez descobrir a filosofia como algo que esteve sempre perto de mim, mas cuja presença eu nunca suspeitei. Então eu li 'Admirável Mundo Novo' de Huxley, 'Senhor das Moscas' de Golding e 'A Balada do Velho Marinheiro' de Coleridge”.

O que salta à tona, enquanto se assiste a um show ao vivo do Maiden, com seu estilo bombástico e pirâmides e robôs de seis metros, é como curiosamente falta agressividade. Paixão, sim, mas não rolam brigas (Um roadie me diz que eles está trabalhando com o Maiden por 30 anos e nunca viu sequer um soco). Dickinson concorda. “Oh não, não há brigas. Realmente não é um grande f****-se tudo. Isso é gastar energia sem sentido. Por um lado, existe potencial para raiva e caos, ou paixão e exultação no outro – e essa é a minha escolha: tentar levitar todas aquelas pessoas que vieram. E eu não faço isso – eles fazem isso por si mesmos – mas você tem que providenciar o cenário”.

Ele diz que começou se apresentando em pequenos clubes, e aprendeu com um de seus heróis de infância, Ian Gillan, vocalista do DEEP PURPLE, como cativar a platéia. "Perguntei-lhe uma noite, 'qual o seu segredo?', e ele disse 'sempre encare-os nos olhos'. Pensei 'OK, vou tentar - mas quão longe conseguirei enxergar?' E descobri que é possível reparar em algumas pessoas isoladas nos shows. Pensei então que se me concentrar naquela pessoa todos que estão ao seu redor perceberão e é como se você energizasse aquela área. Comecei a trabalhar nisto - que no fim das contas pode ser feito até em estádios".

O filme “Flight 666” mostra esses devotados ao Maiden em seus locais internacionais – mas todos vestindo variações da mesma camiseta preta. O filme, que ganhou o prêmio de Melhor Documentário Musical no South By Southwest Music Festival no Texas, foi feito por dois cineastas canadenses, Scot McFadyen e Sam Dunn, fãs de Metal a vida inteira que tiveram acesso permitido à banda enquanto eles estavam em turnê pelo mundo em seu jato particular. Sim, IRON MAIDEN tem seu próprio avião, e Dickinson, que trabalha como piloto comercial em suas folgas, é o capitão. Ele estava nas manchetes ano passado por pilotar um dos dois aviões que resgataram pessoas em férias que estavam encalhadas depois que a companhia que lhes vendeu o pacote abriu falência.

Ed Force One, um Boeing 757 customizado (decorado com seu mascote zumbi, Eddie, adesivado à barbatana da cauda), transporta toda a banda, suas famílias, equipe e equipamentos diretamente para onde eles querem tocar. Isso significa que fãs nos países de “segundo mundo” que nunca foram visitados por bandas de rock do oeste agora podem ser. Ficaram especialmente maravilhados com o costa-riquenho que no filme diz nunca ter sonhado em ver seus ídolos de perto “porque mora no c* do mundo!”. A banda me diz que o Oasis fez perguntas sobre usar o avião. Mas quando você diz as palavras “jato privado”? “Oh sim, é um trapo vermelho para um touro,” concorda Dickinson, “mas existem tantos pensamentos sobre o que fazer com o meio-ambiente. É como aquelas lâmpadas que poupam energia – tudo muito bonito, mas existem muitos riscos de saúde associadas com elas e além disso, elas são um pesadelo de se livrar e ainda custam muito caro para quem faz, em primeiro lugar, com todos os tipos de químicas estranhas nelas – então, sim, é meio que a resposta, mas não é 100% a resposta”. E assim as teorias de Dickinson sobre o meio-ambiente continuam.

Ele expõe ao ridículo “mitos” sobre carros elétricos e biodiesel; ele argumenta que transportar por navio é mais poluente que voar, que a tecnologia das algas é o caminho para frente (“e ela limpa o CO2 da atmosfera”) mas que nós também teremos que nos acostumar a energia nuclear, como os franceses. Ele investiu em um avião cargueiro que levantará mil toneladas atravessando o Atlântico e eles gosta da idéia de eventualmente a banda fazer uma turnê eco-amigável em um destes.

Dickinson poderia falar assim por horas. Na verdade, ele fala – até que o papo é levado ao fato que sua mãe tinha 16 e seu pai 17 quando ele nasceu no quarto do andar de cima da casa do seu avô que trabalhava em uma mina de carvão, em Nottingham. E como ele tinha 35 quando sua mãe contou que tentou abortá-lo, com um tipo de pílula do “mês seguinte”. “E eu fiquei tipo”, ele ri de frustração, “Deveria ter algum tipo de crise sobre isso? Porque é mais difícil para você do que para mim’”, disse, dando de ombros.

Ele foi para Oundle quando seus pais começaram a prosperar com construção e propriedades. Ele se sentia um forasteiro lá e diz que não fez amigos facilmente, o que é uma surpresa porque ele aparenta ser um cara muito afável agora. A banda veio de passado modesto. Dickinson chama o Heavy Metal de “ópera do homem trabalhador”.

Dickinson pode ser maníaco em suas paixões mas seu comportamento é calmo, com a voz segura de apresentador de rádio da BBC, que ele também é. Quando capitaneando o avião seu tom de segurança vem do cockpit anunciando “garoa leve” e desculpando-se por “umas sacudidas e movimentos bruscos antes”. Mas mais tarde ele me conta sobre voar em São Paulo, suspirando. “Oh Deus, é uma confusão. As vezes eles ficam um pouco entusiasmados no Brasil e você tem que dizer, ‘Espera aí, é um trabalho bem sério esse que estamos fazendo aqui!’ Mas a chamada nos alto-falantes é sempre 666, então eles sabem que somos nós. O cara ontem falou ‘É o Ed Force One?’, ‘Sim, somos nós.’, ‘Ele está a bordo?’ eu disse – achando que ele queria dizer eu – ‘Ele está pilotando o avião’.’ Diga algo para mim Broooooce! Scream for me! (Grite para mim!)”

A banda é uma ameaça à moral? Nicko McBrain, o baterista com madeixas oxigenadas, o conversador charmoso de Essex da banda, que agora mora na Flórida onde vai à Igreja regularmente, diz: “Nós tocávamos em estados do sul como South Carolina e haviam protestantes fora do show com faixas, dizendo que nossas letras são satânicas. Mas você tem que realmente ler as palavras. Na verdade, eu presenteei meu reverendo na Florida com o livro 'The Best of the Beast' – tem todas as letras, fotos, datas de turnê e tudo mais. Ele leu e veio até mim e disse ‘Existe uma coisa séria acontecendo com isso.’ As pessoas questionam minha fé e eu digo, ‘Bem, a grande jogada do diabo foi fazer as pessoas pensarem que ele não existia’”.

Talvez a maior jogada do IRON MAIDEN tenha sido convencer os ingleses que eles não existem mais – sua falta de fama em casa vai muito bem. “Francamente, eu gosto que seja assim” Dickinson diz. “Eu moro em Chiswick há 20 anos e eu pago a taxa do conselho e a portagem urbana e quando estou fora eu recebo mensagens do meu triste amigo de 50 anos que coordena o Feltham Recycling Centre dizendo que ele sente falta de mim no pub, haha. Eu vou para casa, pego minha moto, dou uma volta pelas lojas e aproveito a vida – como eu devo dizer isso? – num país legal. Porque depois vamos entrar em turnê e podemos botar fogo em tudo”.

Matéria publicada no Times Online - A fonte não citou o autor do texto.

FLIGHT 666

terça-feira, 8 de junho de 2010

Ao mestre, com carinho ...


Redson, do Cólera, no auto de sua experiência como frontman da principal instituição do underground brasileiro, nos fala sobre os planos da sua banda para este ano e faz uma reflexão sobre sua trajetória e a do underground nacional, trajetórias que se confundem e se misturam em vários momentos.

1) Em primeiro lugar, gostaria que você nos dissesse qual a diferença entre o Redson de 1979 e o Redson de hoje.

Redson: Em 79 eu tinha 16, hoje tenho 47, mas com uma parcela de 16 ainda preservada. Aprendi a tocar um pouco e gosto de ver como eu era elétrico e empolgado nos anos 70. Aquela pulsação me trouxe até aqui!

2) Fale um pouco sobre o processo de composição do novo disco, data prevista de lançamento, nome, sonoridade, produção, participações e etc.

Redson: O álbum se chamará “ACORDE! ACORDE! ACORDE!, e terá uma sonoridade com pitadas de HC, metal e uma ópera composta por 5 faixas, sendo uma delas, a já conhecida ÓPERA DO CAOS. Estamos lapidando o material e sairá pela Deck Disc ainda em 2010.

3) Como você avalia a atual cena punk/hardcore brasileira? Gosta de alguma banda em especial?

Redson: Bem, vou fazer uma recapitulação breve, desde que comecei a tocar rock; em 1973 e 74, eu via uma cena de rock nacional com poucas bandas, a maioria era de mainstream e haviam poucos show de rock. Os jovens roqueiros dos anos 70, em sua maioria, seguiam o padrão geral dos brasileiros, ou seja, só era bom o som que vinha do “estrangeiro”. Com o surgimento do punk rock, bandas de são Paulo cantando em português, letras próprias e arranjos com cara local. Esta postura foi responsável pela quebra de barreiras para o som feito aqui. De lá pra cá, só houve a intensificação do “faça você mesmo”. Se nos anos 70 as bandas eram de São Paulo, atualmente elas surgem como coelhos, de norte a sul do pais. Nas grandes cidades e também nas pequenas, tem bandas, shows, centros de cultura. Avalio, então, focando a importância desta evolução da cultura alternativa tupiniquim. Bandas que posso citar da atualidade:Zeferina Bomba, Sociedade sem Hino, sem esquecer que muitas bandas antigas estão atuando em grande estilo:Ação Direta, Devotos, DZK, 88Não, Karne Krua, Confronto...

4) Assim como você, também nasci e passei boa parte da minha vida na periferia da zona sul da São Paulo. Qual sua visão sobre a cena cultural da região? Gosta de Racionais?

Redson: A carência de informação e de acesso em geral, faz de regiões como o Capão Redondo, permancerem na situação de subdesenvolvido. Gosto de algumas do Racionais.

5) Na sua opinião, qual é o melhor disco do Cólera? E o pior?

Redson: Em questão de sons, não tenho nenhum que eu não curta ou que seja melhor que outro. Mas em questão de qualidade, cito o que ficou mais “zoado” o Mundo Mecânico (os outros álbuns que tem gravação fraca, não apresentam propostas de sonoridade que tentamos no Mundo Mecânico. O resultado do estúdio decepcionou com a sonoridade). Já, melhor tecnicamente pra mim, estão empatados o “Deixe a Terra em Paz!” e o “Primeiros Sintomas”.

6) O Cólera já esteve duas vezes na Europa, e foi a primeira banda punk brasileira a excursionar por aquelas bandas, algo que muitos nem imaginam. Quais as diferenças entre o cenário underground europeu e o brasileiro?

Redson: O padrão de vida europeu já difere e muito do nosso. A cena de lá tem um histórico de auto-estima e infra estrutura bem mais acima do que o brasileiro. Alguns squats possuem hoje, infra de SESC (mas com aparência de centro cultural..hehehe). As pessoas engajadas na cena, em sua maioria, são bem informadas; sabem muito sobre a história do nosso país, tanto em questão de underground, como de Amazônia, lutas ativistas. Eles valorizam muito as bandas como Cólera, que construíram uma história sem muitos recursos por aqui e ainda, abriram caminho mundo afora para o som do faça você mesmo tupiniquim.

7) Você também participou na fundação de outra banda seminal em nosso cenário, o Olho Seco. Conte-nos um pouco sobre sua época no Olho Seco.

Redson: Era de certa forma divertido, bolar arranjos que as vezes era tiração; como "QUE VERGONHA" e ver o Fabião incluir letra e virar um som legal e oficial. Até mesmo ser regravado. Eu gostava muito de tocar na banda e dos arranjos que fazia na época, aliás, todos gostavam. O Olho Seco surgiu somente para gravar no Grito Suburbano e acabar, mas o som, a idéia, eram tão marcantes que a banda perdurou história adentro, ou melhor, afrente. Eu só sai da banda quando a idéia foi mudar o som de HC para crossover.

8) O Cólera sempre abordou a questão ambiental em suas letras, em alguns discos até mesmo de uma maneira mais enfática como foi o caso do Verde, Não Devaste (1989) e do Deixe a Terra em Paz (2004). Você é afiliado ou simpatizante de alguma organização/ong de defesa ambiental ou age de maneira isolada para preservar o ambiente?

Redson: Essa questão é para mim, a mesma coisa que perguntar sobre política. Acho que essas posturas temos que ter no dia a dia, esteja filiado a grupos organizados, partidos ou o que for, vale aquela frase:”não adianta ir a igreja rezar e fazer tudo errado!” Na época do Verde, estive no CEACOM que foi o grande contribuidor do material que consta no zine encarte que vinha no LP (hoje parte do encarte do CD = ilustrações e textos).

9) O Cólera está no cast da Deck Disc? Se sim, o que motivou a saída de Devil?

Redson: Não saímos da Devil, hehehe. Somamos mais uma parceria, a Deck, que vai lançar um álbum do Cólera, o ACORDE ACORDE ACORDE.

10) Esse será o primeiro disco com a formação clássica da banda em 23 anos (o último foi o EP É natal!!? de 1987). Podemos esperar uma sonoridade um pouco mais próxima do "Pela Paz Em Todo O Mundo"?

Redson: Não. O álbum tem uma pegada de um pouco de cada época, com boa influencia de metal e também pegadas atuais. Tem uma ópera formada por 5 musicas. Poucos solos. Alguns vocais com timbres novos e outros do jeito antigo.

11) Como você administra a relação banda/família com seu irmão Pierre?

Redson: É sussa. Sabendo separar os assuntos, dá para fazer muita coisa junto.

12) Todos sabemos que é inviável viver do underground brasileiro unicamente. Gostaria que você falasse sobre as ocupações da cada um fora da banda.

Redson: O Pierre trabalha firme numa corretora de grãos; soja. O Val também tem emprego fixo. Eu, vivo de música atualmente; dou aula de canto, faço produção de áudio (preparar e gravar a banda em estúdio); e também trabalho com 3 bandas, o Cólera, o Combat Rock, que toca The Clash e rock nacional dos anos 80, e a mais recente, Sex Pistols cover.

13) Ping-Pong:

Rock: boa saída para a liberdade
Drogas: veículos potentes, se não pilotas, não entre
João Gordo: amigo Internet: "faca de 2 legumes", o que vale é a intenção por trás da faca.
Emo: tional
Dinheiro: "faca de 2 legumes"
São Paulo: megacrazybigcity, and Ilike it!!!
Cólera: amor incondiocional

14) Espaço livre. Diga o que quiser.

Redson: Faça você mesmo, faça pra entender!!!

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Por Willian Alves