quinta-feira, 10 de junho de 2010

Recordar é viver ...


No Paraíso astral do Abril pro rock. - Plástico Lunar fez show conciso ao som do seu rock-psicodélico.

Por Lu Almeida

Fonte: Trabalho Novo

Pernambuco está de portas abertas para a música sergipana. A histórica Olinda recebeu o show da “Plástico Lunar” durante a 17º edição do Abril Pro Rock, ocorrido no último final de semana no Pavilhão do Centro de Convenções. Com passos certeiros, a cena musical sergipana ganha fronteiras nos seus mais diversos estilos musicais. E nada melhor como a vitrine do APR, festival conhecido por ser uma espécie de trampolim – vide o caso da banda Los Hermanos que logo após sua apresentação, no ano de 1999, foi contratada pela Abril Music. “Qualquer sujeito que preza tocar rock no Brasil um dia quis ter sua banda na programação do festival”, faz a média Júnior Plástico. Isso não é proselitismo, a banda sabe o que é chegar até lá.
Já são dez anos de estrada para estar entre a lista das bandas principais do Circuito “Fora do Eixo“, considerado, atualmente, a maior rede de trabalhos concebida por produtores culturais no Brasil e responsáveis pela circulação de bandas, intercâmbio de tecnologia de produção e escoamento de produtos de forma independente. A rede cresceu e as relações de mercado se tornaram ainda mais favoráveis às pequenas iniciativas do setor da música, pelo fluxo de informação potencializado com a internet para empreendimentos com características mais cooperativas.
E não é nada fácil furar certos circuitos de circulação musical. No retrospecto, a primeira banda sergipana a tocar no Abril Pro Rock, em 1996, foi a dupla lagartense Tacer & Deon com a “Lacertae” no extinto Circo Maluco Beleza. Essa década foi sem dúvida os melhores anos do festival, onde a ocorreu o memorável show de Chico Science & Nação Zumbi (PE) com a participação especial de Gilberto Gil. Só no ano de 2008, Sergipe volta a ter uma participação com a banda dos irmãos Leo & Bruno Mattos, a “Rockassetes”, quando o APR acontecia no Chevrolet Hall. Por essas e outras que a expectativa do show da Plástico Lunar era motivado pelo desafio: ocupar um nome na história do festival e ser uma das primeiras bandas num final de semana torrencialmente chuvoso.
Na manga! Chovia três dias seguidos no Recife e em toda zona metropolitana, ou seja, referência de situação de caótica numa cidade na altura da linha do mar e banhada entre os rios Capibaribe e Beberibe. Mas nem o lamaçal que atingia alguns trechos de acesso ao Pavilhão do Centro de Convenções em Olinda desestimulou o público do APR. A segunda noite do evento, tem uma programação costumeiramente mais eclética. Na lista da apresentação constava a Anjo Gabriel(PE), com o sergipano Carlos Henrique na bateria, Mini Box Lunar (AP), Plástico Lunar(SE), Bugs (RN), Zeca Viana (PE), Vendo 147 (BA), Nevilton (PR), The River Raid (PE), Plastique Noir (CE), Wado (AL), Instituto Mexicano del Sonido (México), 3naMassa (PE/SP), Afrika Bambaataa (EUA) e Pato Fu (MG).
As portas do pavilhão do Centro de Convenções no sábado, dia 17, foram abertas às 17 horas. Ainda com poucos expectadores, às 18h40 entrou no palco a formação Daniel Torres na voz e guitarra, Júlio Andrade na guitarra, Júnior no baixo e voz, Leo AirPlane no orgão, piano, synths e Marcos Odara na bateria. Era o psicodélico som da Plástico que pedia passagem, no festival com pouco mais de 30 minutos de apresentação para cada banda. Dividido em três blocos, o repertório apresentado, com dez composições, demonstrou um show redondo e conciso. Eles justificaram o porquê vem se destacando na cena nacional: revelam uma forte identidade autoral e trabalhar com criatividade o bom e velho rock´n roll.
De início tocaram a canção “Algo Forte”, que não saiu no primeiro disco mas já está no setlist do próximo álbum. Na sequência, foi a “Sua casa é seu palitó”, música que já imprime o cosmo da viagem musical da Plástico. Basta uma referência do videoclipe dessa música, dirigido por Alessandro Santana, onde há justaposições do filme Vampyr (1932) de C. T. Dreyer. O segundo momento do show começou com a música mais pedida do repertório “acid trip”. “Minha paranóia/ está em cima da mesa/…dissolvendo-se em bolhas loucas e acesas/ orientando as cores/ perdidas em minha cabeça”. E numa versão caipira à Mutantes tocaram a canção “Próxima Parada” que contaminou o público até então tímido, seguida por “Banquete dos Gafanhotos”. Mas o que engatou a quarta marcha foi o set final de músicas emendadas com apresentação de um sexto elemento surpresa no palco. Eis que saído da manga (ou seria da cartola?) é chamado ao palco a terceira guitarra, Rafael Costelo.
Pé nas raízes! Neste momento foi um ápice de experimental durante oito minutos, pra fritar quem ainda não tinha se ligado com som que parece ter saído de uma vitrola empoeirada e refletia a velha atmosfera garageira dos anos 60. Fizeram parte desse bloco “Quarto Azul”, a nova música de Júlio Andrade chamada “Quase desisto” e encerrando de maneira prog-psicodelia com “Boca Aberta”, ao melhor modo progressivo “Casa das Máquinas” – lendária banda paulista formadora de cabeças e mentes com suas letras desbundadas. E aí aparece um sujeito da produção do APR sinalizando o encerramento da show, ao estilo “tô nem aí” o baterista e professor de História, Marcos Odara, chamou uma faixa extra.
A derradeira foi uma cover de autoria de Leno Azevedo e Raulzito Seixas intitulada “Sentado no Arco-íris”. Ela foi retirada do álbum considerado de transição entre Raulzito para Raul Seixas, chamado “Vida e Obra de Johnny McCartney”, produzido entre 1970/71 e considerado um trabalho visionário porque falava de reforma agrária, movimento dos trabalhadores sem-terra e igualdade social. Veja que o clima transcendental da letra: “Sentado no Arco-Íris tão perto e tão distante/ Milhões de anos-luz lá no fundo de mim mesmo/ Fico em vão sem saber, fico em vão a buscar/ Aonde Deus está”. E aí bastam alguns minutos para a concepção de passado se distorcer e o presente apontar para o futuro. Com um pé nas raízes da música negra norte-americana e psicodelia brasileira ao estilo da banda “O som nosso de cada dia“, a Plástico Lunar trouxe essa essência mágica que o rock’n roll ainda transmite.
É o que confirma Anderson Foca, produtor do Festival “DoSol” em Natal (Rio Grande do Norte), um dos ‘culpados’ pela seleção da Plástico Lunar no APR 2010. No ano passado, a Plástico e a “The Baggios” foram selecionadas para tocar no festival no qual o Foca produz. Agora, como uma espécie de curador do APR, o hiperativo Anderson foi quem recomendou o material da banda para o produtor do Abril Pro Rock, Paulo André. “Experientes e rodados, essa é a Plástico Lunar. Conectou de vez o pequeno público do começo da programação com as viagens lisérgicas setentistas. Grupo de pegada forte, bons músicos e timbres certeiros. O PL representou muito bem a promissora cena sergipana. Muito bom show”, endossou Anderson Foca.
Não é uma questão de elogios, a Plástico Lunar realmente vem numa boa fase de produção. Na virada de 2009-2010, a banda participou pela segunda vez do festival de música independente de rock progressivo chamado “Psicodália” em São Martinho (Santa Catarina). Depois de Pernambuco, a Plástico Lunar viaja em maio para o festival “Bananada” em Goiânia (Goiás) que neste ano completa o 12º ano de vida, considerado pela Revista Bravo! como o melhor festival de música no Brasil. Ainda na agenda está a confirmação de shows no festival “Goma” em Uberlândia (Minas Gerais), “Maionese” em Maceió (Alagoas) e o festival do Natora Coletivo em João Pessoa (Paraíba). No segundo semestre, a PL pretende entrar no estúdio em São Paulo onde vai gravar as faixas do segundo álbum. Com certeza, o ano vai render bons frutos & rocks.

18/04/2010

TELEFANZINE - Um formato realmente inovador ...

Acabo de receber do camarada Jesuíno André, via e-mail, uma interessante matéria sobre o "Telefanzine", uma espécie de fanzine via telefone que existia em Salvador na década de 90. Usei muito esse serviço daqui mesmo, de Aracaju, e atesto que era realmente bem legal, muito bem feito para a época. Era como se você estivesse ouvindo um programete de rádio de 4, 5 minutos, via telefone, com informações sobre o rock independente baiano - que estava numa excelente fase na época, com bandas seminais como Dead Billies e Dois Sapos e Meio em plena atividade. Lembro que ligava sempre que podia - tipo, tava no cinema esperando o filme começar, ligava pro telefanzine pra ouvir as novidades e matar o tempo. Uma idéia sensacional, mais uma das muitas histórias do cenário alternativo que precisam ser resgatadas, para que jornalistas desavisados não continuem achando que o rock independente brasileiro só passou a existir quando a Petrobras resolveu patrocinar alguns festivais da Abrafin.

Abaixo, a materia completa.

A.

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Na década de 90, um novo cenário começava a se delinear para o rock na Bahia. Ainda longe de serem sucesso, algumas bandas já passavam a tocar com alguma regularidade em Salvador, consolidando eventos e casas de show – ainda que precárias – como espaço cativo dos roqueiros locais. Bandas como Inkoma (da qual saiu a cantora Pitty), Lisergia, Dois Sapos e Meio, brincando de deus, The Dead Billies, Malefactor, Saci Tric, entre outras, apesar das diferenças de estilo compartilhavam um público jovem em formação.

Mesmo diante desse quadro em transformação, de uma maneira geral, o rock baiano permanecia à margem para os veículos locais, que não davam conta de divulgar ou refletir a movimentação que ocorria. Ou melhor, o rock de maneira geral e a cultura em torno dele não tinham voz nos meios de comunicação convencionais da Bahia, que pareciam entender tudo aquilo como excêntrico e sem correspondência na identidade cultural da região. Nessas circunstâncias, partiu da iniciativa do próprio público a criação de um canal de informação e diálogo que o atendesse. Surgia então o Telefanzine – uma caixa postal telefônica que fornecia notícias sobre agenda de shows, lançamentos, comentários e entrevistas sobre a cultura rock na Bahia e no mundo.

Criado por Ednilson Sacramento, um agitador cultural residente da Fazenda Grande do Retiro (periferia de Salvador), o Telefanzine permaneceu à disposição do público através do número 71 533 6640 durante cerca de 6 anos, a partir de 1994 ou 1996 – as datas não são precisas por falta de registros. Ednilson conta que era uma versão dos tradicionais fanzines que já fazia na época, com a diferença de se apropriar de uma tecnologia bastante popular: o telefone. “Percebi a possibilidade de transmitir notícias por via eletrônica. Criei o Telefanzine porque, além da possibilidade de colocar idéias e informação por um número telefônico, podia, de forma inédita, experimental e livre, estabelecer uma rede informativa ‘acessável’ de qualquer lugar em que se podia usar um telefone – da praça, do trabalho, do orelhão”, afirma.

Ednilson recorda que média diária nos primeiros meses girava em torno de 80 chamadas, mas com o passar do tempo esse número subiu para mais de 280 ligações – o sistema de caixa postal permitia múltiplos acessos simultâneos. As pessoas ligavam e podiam escutar programas corridos com duração de cerca de cinco minutos, pagando a tarifa normal do pulso telefônico. O Telefanzine também abria espaço para interação com o público: “Ao final da programação o ouvinte podia deixar um recado ou participar de alguma promoção para faturar um ingresso para show ou coisa parecida. Outra forma era o e-mail ou uma ligação telefônica para contato direto, no caso de produtores e pessoal integrante de bandas”. As mensagens gravadas entravam no programa do dia seguinte.

Mobilização - No começo, segundo Ednilson, eram apenas dois ou três colaboradores, mas ao longo da existência do Telefanzine, chegaram a ser mais de sete, entre outros que faziam participações especiais. “Cada quadro ia ao ar em um dia da semana”, explica. Esses colaboradores faziam suas “colunas” voluntariamente, assim como ele mesmo. Eram pessoas direta ou indiretamente ligadas ao cenário rocker local, que forneciam informações acerca de temas que lhes interessavam em especial. Em outras palavras: eram amadores no melhor sentido, uma vez que tinham interesse em compartilhar o conhecimento fruto de pesquisas motivadas por suas paixões pessoais.

O perfil desses colaboradores era tão diverso quanto a variedade dos temas que tratavam, como conta um deles, o jornalista Leonardo Parente. Ele enumera:“Carlos Navarro (filósofo) falava sobre arte, e o ‘rock triste’ de bandas como The Smiths, My Bloody Valentine e Joy Division, entre outras; Robson Pinto (comerciário) trazia notícias sobre punk e hardcore, sendo até hoje ativista na cena; Rodrigo Chagas (que se tornaria vocalista das bandas The Honkers e The Futchers) se dedicava ao rock mais antigo; Isaac Filho (jornalista), fazia uma abordagem sobre cultura pop de maneira geral; Eduardo Marques (técnico da Telebahia, então estatal da telefonia baiana) fazia uma geleia geral com esportes e comportamento; Miwky (funcionária pública) comentava sobre indie rock, e Lisiane Braga (estudante) focava o heavy metal”.

Na época, Leonardo era estudante e freqüentador de shows, sendo o Telefanzine o que ele considera como sua primeira experiência jornalística. Seu espaço era dedicado à internet, então grande novidade, fornecendo dicas de sites de bandas, entre outras informações ligadas à música. Ele acredita que o Telefanzine foi talvez o mais relevante catalisador para a cena cultural alternativa de Salvador e atribui a ele – direta ou indiretamente – o fortalecimento de uma rede de relacionamentos que proporcionou o surgimento de bandas e eventos na cidade.

Outro ouvinte e colaborador eventual, Luciano Matos, também jornalista e produtor de festas com enfoque em música independente, lembra do zine com entusiasmo: “Ele era a mídia que existia para um circuito que na época era muito mais off midia, off tudo. Era a referência para saber o que acontecia no cenário rock e afins, muito mais do que qualquer jornal, rádio ou TV”. Ele aponta que atualmente existem sites e blogs que cumprem o mesmo papel, mas acredita que faz falta porque era um modelo diferenciado, o que também é lembrado por outro ouvinte, Hendrik Aquino, que na época tocava bateria na banda Dê Cream Cracker – “Ednilson teve a grande sacada de criar uma espécie de rádio pelo telefone, dando uma dinâmica especial aos programas diários. A cobertura permitia, por exemplo, que alguém ligasse em pleno show, registrando o momento com o som da banda ao fundo, o que dava aquele clima de reportagem ‘ao vivo’. De qualquer canto era possível ouvir e deixar uma mensagem, o que estimulava a participação e troca de informações. O ouvinte era também o repórter”.

O alcance do veículo não se restringia a Salvador. O radialista Rodney Brocanelli era um ouvinte de São Paulo, que tomou conhecimento do zine a partir de uma lista de discussão sobre música independente. “Foi pelo Telefanzine que eu fiquei sabendo da existência da Pitty. Nessa época, ela integrava o Inkoma. Era bacana de acompanhar a movimentação da cena rocker de Salvador. Afinal, naquela época a axé music era o produto musical de exportação mais conhecido do público do eixo Rio-SP”, lembra. Rodney, que chegou a dar entrevistas para o zine a respeito rádios piratas no Brasil, se interessou pelo cruzamento de linguagens e mídias, que considerava bastante original – “O Telefanzine juntava duas linguagens: a do fanzine com o de um programa de rádio e divulgava isso por um meio bastante diferente: o telefone. Não fiquei sabendo de outro projeto nesse sentido sendo tocado à época”.

Ednilson, com orgulho de ter sido o criador, acredita que “naquele momento, o Telefanzine conseguiu unir pessoas, permitiu a troca de idéias e insultos, formou uma massa crítica dentro de uma juventude acuada pela massificação da grande mídia, projetou pessoas que puderam, mais tarde serem conhecidas por outras pessoas”.

Sem registro - O sistema de edição do Telefanzine era bastante precário, envolvendo gravadores de fita cassete e as gravações feitas diretamente na caixa postal eletrônica. A linguagem era semelhante à do radiojornalismo e o conteúdo era atualizado diariamente. Ednilson recebia as colaborações e montava tudo sozinho, varando as madrugadas em sua casa. Devido a essas condições, maior parte das gravações se perdeu ou encontra-se em estado deteriorado, o que comprometeu lamentavelmente o registro de um momento peculiar de efervescência cultural na capital baiana, assim como de seu principal veículo.

O Telefanzine era mantido pelo investimento pessoal de seu idealizador, que custeava o aluguel das caixas postais, contando eventualmente com o apoio de pequenos anunciantes – algumas lojas que atendiam ao público do segmento, como as extintas Na Mosca e Coringa, que comercializavam discos, publicações, camisetas e outros produtos. Apesar de jamais ter sido lucrativo, ou ter alcançado condições de ser mantido sem gerar custos, o fator determinante para o encerramento do projeto foi a desativação da modalidade de telefonia virtual da operadora baiana. “Era o boom do telefone celular e, simplesmente, a empresa encerrou o serviço”, recorda Ednilson.

A militância, no entanto, continuou. Com a experiência e conhecimento acumulados, em 2006 Ednilson lançou o livro Rock Baiano – História de uma Cultura Subterrânea, resultado de mais de dez anos de pesquisa realizada sobre o cenário musical alternativo de Salvador. Atualmente, ele cursa Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades, na UFBA, ao mesmo tempo em que faz parte da diretoria da Acesso e Reintegração À Comunicação, Cultura e Arte (ARCCA) e também da Associação Baiana de Cegos, além de coordenar projetos sociais na área de direitos humanos, sobretudo no segmento de pessoas portadoras de deficiências.

Fonte: Cultura e Pensamento

por Juliana Protásio

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A Fonte da juventude.

Um britânico de meia-idade, com algum tempo para gastar numa viagem ao Brasil, deve imaginar: “Ooh, vou tomar um bom drink e passear na praia”. Bruce Dickinson, o vocalista do IRON MAIDEN, pensa “Ooh, já pilotei aquele jato do Rio de Janeiro a São Paulo esta tarde, e não vou subir ao palco para botar meus pulmões afora para 80 mil pessoas neste instante, então eu vou até aquela pista de kart onde Ayrton Senna aprendeu a pilotar, correr contra um profissional, daí me lançarei no palco por umas duas horas, ficarei acordado até tarde bebendo, irei para a cama, levantarei, desorientarei a imprensa internacional falando sobre motores de combustão e Monty Python por duas horas, pularei num helicóptero para o circuito Gran Prix onde Lewis Hamilton ganhou o campeonato mundial no ano passado, dirigirei um carro de Fórmula 1 a 240 km/h, entrarei em outra competição de kart e depois disso irei para um centro desportivo, para me equipar e competir contra uma dúzia de latino-americanos campeões na esgrima”.

Isso foi exatamente o que ele fez – em um intervalo de 24 horas. Eu sei disso porque eu fiz tudo isso com ele, e apesar de ter metade de sua idade e não ter cantado, guiado e sido espetado, eu ainda me senti pronto para morrer em algum ponto após aquela primeira curva de agitar estômago em Interlagos (Dickinson estava sorrindo e dizendo algo sobre estar “pronto para uma cerveja”). Então se eu estivesse na indústria do anti-envelhecimento eu investiria tudo em tentar engarrafar o suco do Bruce.

Na verdade, todos os integrantes do IRON MAIDEN parecem viver em Shangri-La. O grupo nasceu nos anos 70, mas agora está encontrando maiores audiências do que nunca para as guitarras energéticas, baterias de trovão e letras fantásticas sobre Coleridge e Cátaros e o número da besta. Seu show solo em São Paulo é o seu maior até agora – atrai mais ou menos a metade do público de todo o Glastonbury Festival.

“Cinco anos atrás”, diz Steve Harris, baixista e coração criativo da banda, “comentamos que começaríamos a diminuir o ritmo um pouco. Porque pensávamos que nessa idade precisaríamos disso. Mas nós não precisamos, ou queremos – e os pedidos estão aí, então realmente não podemos. Nosso sucesso é maior do que era nos anos 80! Então, o que podemos fazer? Você continua fazendo o que sempre fez”.

O IRON MAIDEN é uma banda britânica única – em todo mundo seu show abre com o discurso de Churchill “Nós lutaremos nas praias” e termina com “Sempre Olhe o Lado Brilhante da Vida” de Monty Python.

Eles são um sucesso de exportação britânica tão grande que é de se questionar porque Peter Mandelson não os convidou para um de seus iates. Mas aí está a ironia sobre a maior banda britânica – as pessoas lá não pensam neles como grandes. A atração da mídia parece desviada para bandas antigas que estão de volta, enquanto o IRON MAIDEN na verdade nunca parou, apesar da formação ter variado um pouco e Dickinson ter saído em carreira solo por alguns anos. Jovens descolados em Shoreditch que vestem camisetas do IRON MAIDEN podem fazer isso de forma irônica, mas o fato é que, em tempos de crise, o Metal vende bem.

Quando o novo álbum do AC/DC atingiu o 1º lugar no final do ano passado, certamente foi um sinal dos tempos difíceis. Os outros pontos altos da banda foram os economicamente cruéis 1980 e 1990. Nesta semana mesmo, PRS for Music, que coleta royalties para compositores, revelou que os rendimentos estrangeiros de estrelas britânicas batiam níveis de record, com POLICE no topo, seguido pelo IRON MAIDEN, COLDPLAY e as SPICE GIRLS e ELTON JOHN. DEF LEPPARD, outra banda de hard rock, também estava no Top Ten.

IRON MAIDEN recentemente ganhou um Brit Awards por Melhor Apresentação Ao Vivo, de um corpo de jurados que tendia a ignorar a banda, e no ano passado esgotou a capacidade máxima, 55 mil, do Twickenham Stadium, onde fizeram seu primeiro show no Reino Unido. Não que a banda particularmente se importasse. Seu empresário, sólido na função como uma pedra, Rod Smallwood (que tem dinheiro o bastante para manter seus empregados o ano inteiro cuidando de sua casa de férias em Barbados) declara: “A banda não dá a mínima. Nós temos nosso próprio pequeno mundo e os Brit Awards não fazem realmente parte disso. Mas aquele prêmio foi votado pelo público e os fãs do Coldplay não são muito provocativos, não são?” Aparentemente um exército de fãs do Maiden em volta do mundo orquestrou a votação em massa.

E o que dizer sobre os irônicos que vestem camisetas? “É estranho,” diz Steve Harris, “ver que David Beckham usou uma maldita camiseta do Maiden – ele provavelmente nem é fã, só usou como algo da moda ou coisa assim. Ou talvez ele seja um fã... eu não sei. Mas nós nunca fomos 'descolados'. Enfaticamente, nós nunca quisemos ser legais ou modistas. Nós desprezamos a moda. O que é a moda? É algo transitório, hoje está aqui, e amanhã já foi. Nós vimos bandas virem e irem, todas investiram pesado na publicidade. Nós temos um estilo – e acontece dele não ser muito da moda. Mas quem se importa?”

Então esse é o apelo durável do Heavy Metal? É barulhento e implacável, mas o IRON MAIDEN insiste, a mensagem é positiva. Eles soam quase californianos enquanto eles insistem o quão inspiradora sua mensagem é. A banda formada em 1975, em Leytonstone, East London, e seus hits através das décadas incluem “Run to the Hills”, “Can I Play With Madness”, “Aces High”, “Bring Your Daughter... To the Slaughter”, “The Evil That Men Do” e “The Number of the Beast”.

Existe uma pesquisa que diz que fãs de música clássica e de Heavy Metal têm o maior QI entre todos os ouvintes de música. Um fã do Brasil, Felipe Martynetz, 24 anos, de Curitiba, tem uma carta para entregar à banda, na qual escreveu que "o conhecimento filosófico nas letras do Maiden me fez descobrir a filosofia como algo que esteve sempre perto de mim, mas cuja presença eu nunca suspeitei. Então eu li 'Admirável Mundo Novo' de Huxley, 'Senhor das Moscas' de Golding e 'A Balada do Velho Marinheiro' de Coleridge”.

O que salta à tona, enquanto se assiste a um show ao vivo do Maiden, com seu estilo bombástico e pirâmides e robôs de seis metros, é como curiosamente falta agressividade. Paixão, sim, mas não rolam brigas (Um roadie me diz que eles está trabalhando com o Maiden por 30 anos e nunca viu sequer um soco). Dickinson concorda. “Oh não, não há brigas. Realmente não é um grande f****-se tudo. Isso é gastar energia sem sentido. Por um lado, existe potencial para raiva e caos, ou paixão e exultação no outro – e essa é a minha escolha: tentar levitar todas aquelas pessoas que vieram. E eu não faço isso – eles fazem isso por si mesmos – mas você tem que providenciar o cenário”.

Ele diz que começou se apresentando em pequenos clubes, e aprendeu com um de seus heróis de infância, Ian Gillan, vocalista do DEEP PURPLE, como cativar a platéia. "Perguntei-lhe uma noite, 'qual o seu segredo?', e ele disse 'sempre encare-os nos olhos'. Pensei 'OK, vou tentar - mas quão longe conseguirei enxergar?' E descobri que é possível reparar em algumas pessoas isoladas nos shows. Pensei então que se me concentrar naquela pessoa todos que estão ao seu redor perceberão e é como se você energizasse aquela área. Comecei a trabalhar nisto - que no fim das contas pode ser feito até em estádios".

O filme “Flight 666” mostra esses devotados ao Maiden em seus locais internacionais – mas todos vestindo variações da mesma camiseta preta. O filme, que ganhou o prêmio de Melhor Documentário Musical no South By Southwest Music Festival no Texas, foi feito por dois cineastas canadenses, Scot McFadyen e Sam Dunn, fãs de Metal a vida inteira que tiveram acesso permitido à banda enquanto eles estavam em turnê pelo mundo em seu jato particular. Sim, IRON MAIDEN tem seu próprio avião, e Dickinson, que trabalha como piloto comercial em suas folgas, é o capitão. Ele estava nas manchetes ano passado por pilotar um dos dois aviões que resgataram pessoas em férias que estavam encalhadas depois que a companhia que lhes vendeu o pacote abriu falência.

Ed Force One, um Boeing 757 customizado (decorado com seu mascote zumbi, Eddie, adesivado à barbatana da cauda), transporta toda a banda, suas famílias, equipe e equipamentos diretamente para onde eles querem tocar. Isso significa que fãs nos países de “segundo mundo” que nunca foram visitados por bandas de rock do oeste agora podem ser. Ficaram especialmente maravilhados com o costa-riquenho que no filme diz nunca ter sonhado em ver seus ídolos de perto “porque mora no c* do mundo!”. A banda me diz que o Oasis fez perguntas sobre usar o avião. Mas quando você diz as palavras “jato privado”? “Oh sim, é um trapo vermelho para um touro,” concorda Dickinson, “mas existem tantos pensamentos sobre o que fazer com o meio-ambiente. É como aquelas lâmpadas que poupam energia – tudo muito bonito, mas existem muitos riscos de saúde associadas com elas e além disso, elas são um pesadelo de se livrar e ainda custam muito caro para quem faz, em primeiro lugar, com todos os tipos de químicas estranhas nelas – então, sim, é meio que a resposta, mas não é 100% a resposta”. E assim as teorias de Dickinson sobre o meio-ambiente continuam.

Ele expõe ao ridículo “mitos” sobre carros elétricos e biodiesel; ele argumenta que transportar por navio é mais poluente que voar, que a tecnologia das algas é o caminho para frente (“e ela limpa o CO2 da atmosfera”) mas que nós também teremos que nos acostumar a energia nuclear, como os franceses. Ele investiu em um avião cargueiro que levantará mil toneladas atravessando o Atlântico e eles gosta da idéia de eventualmente a banda fazer uma turnê eco-amigável em um destes.

Dickinson poderia falar assim por horas. Na verdade, ele fala – até que o papo é levado ao fato que sua mãe tinha 16 e seu pai 17 quando ele nasceu no quarto do andar de cima da casa do seu avô que trabalhava em uma mina de carvão, em Nottingham. E como ele tinha 35 quando sua mãe contou que tentou abortá-lo, com um tipo de pílula do “mês seguinte”. “E eu fiquei tipo”, ele ri de frustração, “Deveria ter algum tipo de crise sobre isso? Porque é mais difícil para você do que para mim’”, disse, dando de ombros.

Ele foi para Oundle quando seus pais começaram a prosperar com construção e propriedades. Ele se sentia um forasteiro lá e diz que não fez amigos facilmente, o que é uma surpresa porque ele aparenta ser um cara muito afável agora. A banda veio de passado modesto. Dickinson chama o Heavy Metal de “ópera do homem trabalhador”.

Dickinson pode ser maníaco em suas paixões mas seu comportamento é calmo, com a voz segura de apresentador de rádio da BBC, que ele também é. Quando capitaneando o avião seu tom de segurança vem do cockpit anunciando “garoa leve” e desculpando-se por “umas sacudidas e movimentos bruscos antes”. Mas mais tarde ele me conta sobre voar em São Paulo, suspirando. “Oh Deus, é uma confusão. As vezes eles ficam um pouco entusiasmados no Brasil e você tem que dizer, ‘Espera aí, é um trabalho bem sério esse que estamos fazendo aqui!’ Mas a chamada nos alto-falantes é sempre 666, então eles sabem que somos nós. O cara ontem falou ‘É o Ed Force One?’, ‘Sim, somos nós.’, ‘Ele está a bordo?’ eu disse – achando que ele queria dizer eu – ‘Ele está pilotando o avião’.’ Diga algo para mim Broooooce! Scream for me! (Grite para mim!)”

A banda é uma ameaça à moral? Nicko McBrain, o baterista com madeixas oxigenadas, o conversador charmoso de Essex da banda, que agora mora na Flórida onde vai à Igreja regularmente, diz: “Nós tocávamos em estados do sul como South Carolina e haviam protestantes fora do show com faixas, dizendo que nossas letras são satânicas. Mas você tem que realmente ler as palavras. Na verdade, eu presenteei meu reverendo na Florida com o livro 'The Best of the Beast' – tem todas as letras, fotos, datas de turnê e tudo mais. Ele leu e veio até mim e disse ‘Existe uma coisa séria acontecendo com isso.’ As pessoas questionam minha fé e eu digo, ‘Bem, a grande jogada do diabo foi fazer as pessoas pensarem que ele não existia’”.

Talvez a maior jogada do IRON MAIDEN tenha sido convencer os ingleses que eles não existem mais – sua falta de fama em casa vai muito bem. “Francamente, eu gosto que seja assim” Dickinson diz. “Eu moro em Chiswick há 20 anos e eu pago a taxa do conselho e a portagem urbana e quando estou fora eu recebo mensagens do meu triste amigo de 50 anos que coordena o Feltham Recycling Centre dizendo que ele sente falta de mim no pub, haha. Eu vou para casa, pego minha moto, dou uma volta pelas lojas e aproveito a vida – como eu devo dizer isso? – num país legal. Porque depois vamos entrar em turnê e podemos botar fogo em tudo”.

Matéria publicada no Times Online - A fonte não citou o autor do texto.

FLIGHT 666

terça-feira, 8 de junho de 2010

Ao mestre, com carinho ...


Redson, do Cólera, no auto de sua experiência como frontman da principal instituição do underground brasileiro, nos fala sobre os planos da sua banda para este ano e faz uma reflexão sobre sua trajetória e a do underground nacional, trajetórias que se confundem e se misturam em vários momentos.

1) Em primeiro lugar, gostaria que você nos dissesse qual a diferença entre o Redson de 1979 e o Redson de hoje.

Redson: Em 79 eu tinha 16, hoje tenho 47, mas com uma parcela de 16 ainda preservada. Aprendi a tocar um pouco e gosto de ver como eu era elétrico e empolgado nos anos 70. Aquela pulsação me trouxe até aqui!

2) Fale um pouco sobre o processo de composição do novo disco, data prevista de lançamento, nome, sonoridade, produção, participações e etc.

Redson: O álbum se chamará “ACORDE! ACORDE! ACORDE!, e terá uma sonoridade com pitadas de HC, metal e uma ópera composta por 5 faixas, sendo uma delas, a já conhecida ÓPERA DO CAOS. Estamos lapidando o material e sairá pela Deck Disc ainda em 2010.

3) Como você avalia a atual cena punk/hardcore brasileira? Gosta de alguma banda em especial?

Redson: Bem, vou fazer uma recapitulação breve, desde que comecei a tocar rock; em 1973 e 74, eu via uma cena de rock nacional com poucas bandas, a maioria era de mainstream e haviam poucos show de rock. Os jovens roqueiros dos anos 70, em sua maioria, seguiam o padrão geral dos brasileiros, ou seja, só era bom o som que vinha do “estrangeiro”. Com o surgimento do punk rock, bandas de são Paulo cantando em português, letras próprias e arranjos com cara local. Esta postura foi responsável pela quebra de barreiras para o som feito aqui. De lá pra cá, só houve a intensificação do “faça você mesmo”. Se nos anos 70 as bandas eram de São Paulo, atualmente elas surgem como coelhos, de norte a sul do pais. Nas grandes cidades e também nas pequenas, tem bandas, shows, centros de cultura. Avalio, então, focando a importância desta evolução da cultura alternativa tupiniquim. Bandas que posso citar da atualidade:Zeferina Bomba, Sociedade sem Hino, sem esquecer que muitas bandas antigas estão atuando em grande estilo:Ação Direta, Devotos, DZK, 88Não, Karne Krua, Confronto...

4) Assim como você, também nasci e passei boa parte da minha vida na periferia da zona sul da São Paulo. Qual sua visão sobre a cena cultural da região? Gosta de Racionais?

Redson: A carência de informação e de acesso em geral, faz de regiões como o Capão Redondo, permancerem na situação de subdesenvolvido. Gosto de algumas do Racionais.

5) Na sua opinião, qual é o melhor disco do Cólera? E o pior?

Redson: Em questão de sons, não tenho nenhum que eu não curta ou que seja melhor que outro. Mas em questão de qualidade, cito o que ficou mais “zoado” o Mundo Mecânico (os outros álbuns que tem gravação fraca, não apresentam propostas de sonoridade que tentamos no Mundo Mecânico. O resultado do estúdio decepcionou com a sonoridade). Já, melhor tecnicamente pra mim, estão empatados o “Deixe a Terra em Paz!” e o “Primeiros Sintomas”.

6) O Cólera já esteve duas vezes na Europa, e foi a primeira banda punk brasileira a excursionar por aquelas bandas, algo que muitos nem imaginam. Quais as diferenças entre o cenário underground europeu e o brasileiro?

Redson: O padrão de vida europeu já difere e muito do nosso. A cena de lá tem um histórico de auto-estima e infra estrutura bem mais acima do que o brasileiro. Alguns squats possuem hoje, infra de SESC (mas com aparência de centro cultural..hehehe). As pessoas engajadas na cena, em sua maioria, são bem informadas; sabem muito sobre a história do nosso país, tanto em questão de underground, como de Amazônia, lutas ativistas. Eles valorizam muito as bandas como Cólera, que construíram uma história sem muitos recursos por aqui e ainda, abriram caminho mundo afora para o som do faça você mesmo tupiniquim.

7) Você também participou na fundação de outra banda seminal em nosso cenário, o Olho Seco. Conte-nos um pouco sobre sua época no Olho Seco.

Redson: Era de certa forma divertido, bolar arranjos que as vezes era tiração; como "QUE VERGONHA" e ver o Fabião incluir letra e virar um som legal e oficial. Até mesmo ser regravado. Eu gostava muito de tocar na banda e dos arranjos que fazia na época, aliás, todos gostavam. O Olho Seco surgiu somente para gravar no Grito Suburbano e acabar, mas o som, a idéia, eram tão marcantes que a banda perdurou história adentro, ou melhor, afrente. Eu só sai da banda quando a idéia foi mudar o som de HC para crossover.

8) O Cólera sempre abordou a questão ambiental em suas letras, em alguns discos até mesmo de uma maneira mais enfática como foi o caso do Verde, Não Devaste (1989) e do Deixe a Terra em Paz (2004). Você é afiliado ou simpatizante de alguma organização/ong de defesa ambiental ou age de maneira isolada para preservar o ambiente?

Redson: Essa questão é para mim, a mesma coisa que perguntar sobre política. Acho que essas posturas temos que ter no dia a dia, esteja filiado a grupos organizados, partidos ou o que for, vale aquela frase:”não adianta ir a igreja rezar e fazer tudo errado!” Na época do Verde, estive no CEACOM que foi o grande contribuidor do material que consta no zine encarte que vinha no LP (hoje parte do encarte do CD = ilustrações e textos).

9) O Cólera está no cast da Deck Disc? Se sim, o que motivou a saída de Devil?

Redson: Não saímos da Devil, hehehe. Somamos mais uma parceria, a Deck, que vai lançar um álbum do Cólera, o ACORDE ACORDE ACORDE.

10) Esse será o primeiro disco com a formação clássica da banda em 23 anos (o último foi o EP É natal!!? de 1987). Podemos esperar uma sonoridade um pouco mais próxima do "Pela Paz Em Todo O Mundo"?

Redson: Não. O álbum tem uma pegada de um pouco de cada época, com boa influencia de metal e também pegadas atuais. Tem uma ópera formada por 5 musicas. Poucos solos. Alguns vocais com timbres novos e outros do jeito antigo.

11) Como você administra a relação banda/família com seu irmão Pierre?

Redson: É sussa. Sabendo separar os assuntos, dá para fazer muita coisa junto.

12) Todos sabemos que é inviável viver do underground brasileiro unicamente. Gostaria que você falasse sobre as ocupações da cada um fora da banda.

Redson: O Pierre trabalha firme numa corretora de grãos; soja. O Val também tem emprego fixo. Eu, vivo de música atualmente; dou aula de canto, faço produção de áudio (preparar e gravar a banda em estúdio); e também trabalho com 3 bandas, o Cólera, o Combat Rock, que toca The Clash e rock nacional dos anos 80, e a mais recente, Sex Pistols cover.

13) Ping-Pong:

Rock: boa saída para a liberdade
Drogas: veículos potentes, se não pilotas, não entre
João Gordo: amigo Internet: "faca de 2 legumes", o que vale é a intenção por trás da faca.
Emo: tional
Dinheiro: "faca de 2 legumes"
São Paulo: megacrazybigcity, and Ilike it!!!
Cólera: amor incondiocional

14) Espaço livre. Diga o que quiser.

Redson: Faça você mesmo, faça pra entender!!!

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Por Willian Alves

Also sprach Rogério Skylab

A internet é capaz do céu e do inferno. Como do inferno já ando cheio, quero me reportar a um site de música, o Scream & Yell, aonde, volta e meia, vou xeretar. E lá encontrei o texto de um grande baterista, João Parahyba, que toca no Trio Mocotó. O referido texto foi capaz de alavancar mais de quatrocentos comentários. Ao final da leitura de todos eles, me dei conta que estava diante de um documento histórico. O Marcelo Costa, dono do site, terá que preservar esse documento com carinho. Porque ali está exposta toda a idiossincrasia da música independente hoje. Muitas vezes, uma mesa redonda, com palestrantes e participação do público, não é capaz de apresentar uma discussão tão densa quanto foi essa do site. Com algumas ofensas, ok, e todas elas dispensáveis. Mas intensa.

Vocês podem conferir com os próprios olhos ( http://screamyell.com.br/site/2010/04/13/carta-aos-musicos-e-artistas/ ) mas vou eu aqui tentar me aventurar por um caminho espinhoso. Nessa cadeia da música independente, onde estão incluídos a “tia” que faz a faxina do local em que ocorre o evento, os artistas, os jornalistas, o público, o governo, as empresas, os produtores proponentes... tem alguém que é mais importante? Parahyba, no seu texto, diz que é o artista; houve quem priorizasse o público; mas teve também quem fizesse da cadeia produtiva, do todo, a grande prioridade. Acho interessante sublinhar essas três perspectivas no debate e distingui-las bem, porque, muitas vezes, um determinado participante, ao tentar fazer a defesa de uma delas, se excedia e fazia vir à tona a outra, às vezes até de forma inconsciente.

A) O ARTISTA

“Os projetos de maior valor contemplam os produtores de shows e festivais, empresários artísticos, pontos de rede e cultura, mas não diretamente o artista”, diz João Parahyba. Por outro lado, a idéia da Rede Música Brasil e dos editais públicos tem como premissa a correção de desvios. Deixar a música na mão de grandes empresas, seria o mesmo que abandonar o artista ao mercado de massa. Só teria retorno financeiro aqueles de apelo popular. É o que Pena Schmidt chama de “equivo histórico”: “É preciso ir lá dentro do governo para tentar uma alternativa de recriação, de reconstrução depois da guerra perdida com o mercado de massa, sem investimento na diferença, um equivo histórico. Não vejo alternativa sem que se mudem leis, sem que se busque recursos fora do mercado como está. Mal arrumado”.

Esse raciocínio indica o sentido de arte enquanto experiência, enquanto diferença. Fazer o artista sobreviver é, antes de mais nada, o Estado interferir no sentido de dar ao espaço da experiência em música a possibilidade de se perpetuar. Faço uma analogia com as pesquisas científicas, as bolsas de mestrado e pós-doutorado. Na música deveria se manter esse espírito: os festivais independentes deveriam contemplar também esse segmento de menor visibilidade, mas que oferece pesquisas formais que avançam o campo já conhecido da música.

Terence Machado e Marcelo Costa afirmam seu interesse na “música boa” e, consequentemente, focam o artista. O primeiro, coordenando o programa “Alto-Falante”, programa histórico que cobre a música independente, e o segundo, responsável por um site de música, o Scream & Yell, que permanece há anos em atividade. Segundo ambos, deveria se discutir mais música e menos política. Segundo ambos, a música de qualidade deveria estar mais presente nos festivais da ABRAFIN. E Marcelo lista os discos nacionais eleitos pela Scream & Yell como os mais importantes de 2009, segundo um colegiado. E para ele, esses artistas tocam pouco nos referidos festivais. É curioso que o jornalista José Flávio Júnior, ao justificar a presença constante de Macaco Bong nos festivais, recorre ao mesmo raciocínio: foi eleito o disco mais importante pela Rolling Stone, cujo júri é composto pelos críticos mais renomados do país. Ou seja: definir a música boa é uma questão de autoridade? O colegiado, composto pelos mais ilustres, é quem define a música boa?

A perspectiva do ARTISTA esbarra nessa questão. Quem confere o título? Em tese, o artista é o mais importante da cadeia. Eu já fiz show pra duas pessoas na platéia. Se o público tivesse que dar a última palavra, já teria interrompido minha carreira faz tempo. Penso em pessoas como Tom Zé e Jards Macalé, cujas carreiras, em determinado momento, entraram em parafuso. Quem concede a excelência não é o público, nunca foi. Muito menos um colegiado de ilustres. Cabe ao artista paciência. Ainda mais se pensarmos que a crítica de música no Brasil é feita por amadores, o que significa paixão e achismo.

B) O PÚBLICO

A cadeia não é sustentável sem o público, mas daí dizer que “ não sei de ninguém genial e minimamente organizado que não esteja se dando bem em música em 2010”, já é extrapolar. José Flávio Júnior, autor da frase, e Lobão são muito parecidos nesse aspecto. A diferença é que o segundo se formou dentro do mercado – sua alma vem impregnada de “mainstream” e ganhou muito dinheiro com isso; já o primeiro...

Recorro ao produtor Miranda, sempre lúcido em suas ponderações: “Exigir de sua função de artista sua sobrevivência é se comprometer com a venda, com o comércio e com a linguagem mais populares já que para ganhar mais dinheiro, mais público terá que atingir. Se temos outra fonte de renda nos desobrigamos de fazer tudo aquilo em que não acreditamos na área artística”.

Na verdade, essa relação de igualdade entre genialidade e público é a fórmula de todos os liberais: o público sabe a verdade e o mercado se auto-regulariza; pra que a intervenção do Estado? A parceria entre artistas e majors de um lado e as grandes marcas do outro, como publicado dia 23/05 no Segundo Caderno do Globo, em reportagem de Antônio Carlos Miguel, nos mostra os grandes beneficiados: Ivete Sangalo, Cláudia Leite, Roberto Carlos, Marcelo Camelo, Malu Magalhães, Céu, Marisa Monte... Não vai se investir em artista que não dá retorno, não é mesmo? Então fica tudo como dantes no Quartel de Abranches.

É interessante verificarmos o quanto se aproximam Alex Antunes e Marcelo Costa, em outras questões tão afastados, na importância que concedem ao público. Alex espera um artista independente que possa explodir tal como explodiu Raul Seixas. Já Marcelo Costa adverte que o problema dos independentes, diante da imensidão do mercado, é se apequenar e ser feliz com isso.

Nesse sentido, há um diálogo espetacular entre Marcelo Costa e o baterista do Macaco Bong, que ilustra bem a diferença entre o pragmatismo do FORA DO EIXO e o idealismo dos críticos de música (o par qualidade e quantidade é uma oposição sem solução? é uma oposição administrável? Ou não há oposição alguma - ela é apenas uma ficção?)

Marcelo Costa pergunta:
- Uma banda ruim que mete a mão na massa, vai atrás, ganha edital de passagem e faz a roda girar, mesmo sendo ruim, é mais importante que uma banda boa que não mete a mão na massa?

E Ynaiã Benthroldo responde, perguntando:

- O que é melhor: 300 artistas ótimos tocando pra 500 pessoas cada, ou 3 artistas tocando pra 5 mil cada?

Na primeira pergunta, o idealismo; na segunda pergunta, o pragmatismo de quem está inserido no real.
Quanto a tratá-la como uma falsa oposição (gênio=público), é se banhar de tanto idealismo quanto aquele que a afirma sem solução.


C) O TODO – O CONJUNTO DE TODOS OS ATORES

O grande lance é sair desse dualismo. Até porque, se você critica o outro lado, te chamam de chorão ou de ressentido ou de adepto à filosofia do rancor. O exercício da crítica num contexto dualista fica comprometido. Se o infeliz não tiver visibilidade então, tá fudido. Não deve nunca abrir a boca para efetuar uma crítica, por menor que seja, aos grandes vencedores da História. Ou aos que a fazem. E novamente recorrendo a Tom Zé e Jards Macalé, ninguém melhor do que eles entendem o significado dessa censura.

No entanto, a solução já foi dada: é o movimento Fora do Eixo.

Aqui, foge-se do perigoso dualismo (artista ou público). Todos são importantes. E essa passa a ser a grande novidade: o embate entre música independente e grandes gravadoras perde o sentido. O artista e o mercado deixam de ser incompatíveis: a palavra agora é cooptar.

Fabrício Nobre, num texto importante de seu blog, diz: “enquanto as bandas, músicos, artistas, promotores de festivais, membros de coletivo, agentes políticos de cultura, produtores de disco, técnicos, formadores de opinião, não entenderem que estamos no mesmo lado, ou melhor ainda, que estes indivíduos são muitas vezes um mesmo ser humano que faz tudo isso, fudeu !!!!

Essa nova etapa substituiu o “do it yourself” pelo “do it together”. E junto a essa mudança de paradigma, vem o disco ARTISTA IGUAL PEDREIRO. Estranho manifesto: um disco instrumental e completa ausência de palavras. Como se estivéssemos diante de uma terra arrasada. O Macaco Bong não eliminou só as palavras: eliminou a canção, eliminou a melodia, eliminou o virtuosismo, eliminou os efeitos de computador. O power trio, com seu rock-fusion, nos sugere uma superfície plana e aberta a toda espécie de construção futura. Não cabe aqui nenhuma tentativa de individuação. Nem mesmo as variações numa mesma faixa podem ser consideradas diferenças, antes são diluídas num contexto único. Foi aos limites da música brasileira, ao ponto de colocar em dúvida a própria nacionalidade. Se no texto sobre Rômulo Fróes, eu assinalava duas estéticas na moderna música brasileira – a estética do longe (Rômulo Fróes) e a estética orgânica (Júpiter Maçã), ambas mantendo relações diferentes com o real – aqui, esse real foi abolido. É a estética do vazio ou da ação estruturante. A única concessão é “Vamos dar mais uma”, quando, ao final da faixa, um coro surge para entoar um canto indígena ou coisa que o valha. E nem nesse momento a voz individual é mais possível.

A fuga de toda espécie de dicotomia, tão em voga no passado, é que faz Pablo Capilé discorrer sobre curadoria e seu relativismo. Cada coletivo sabe de si. Não há uma bandeira ou um código de preceitos que as pessoas devam obedecer. Assim como existe uma curadoria no Scream & Yell, também existe outra no Rolling Stone, no Alto-Falante, no Radiola, e não tem como se voltar contra esse relativismo. Chamar de “panelinha” tem o sentido elitista de desautorizar determinada escolha e se colocar acima.

Um outro aspecto foi a discussão levantada por Terence Machado sobre a lisura da aprovação dos projetos referentes a Lei Municipal De Incentivo a Cultura de 2009 em Belo Horizonte. . O coletivo “Pegada”, ao qual pertence Lucas Mortimer, foi beneficiado com a verba de 160 mil reais. O que alega Terence é que Lucas pertence à Sociedade Independente de Música, juntamente com Kuru Lima. Como Kuru foi um dos responsáveis pela aprovação dos projetos, junto a um colegiado de 12 membros (CMIC) se evidenciaria aí, segundo Terence, uma ligação estreita entre o empreendedor de projetos culturais e a pessoa ligada a comissão julgadora. Portanto, passível de anulação. A questão que coloca Alex Antunes é que os dois pertencerem a SIM, com mais de 60 membros, não caracterizaria “ligação estreita”.

Mas a questão foi levantada e está aí, independentemente da pronta reação de Talles Lopes, Fabrício Nobre e Alex Antunes. O processo é esse mesmo. Agora é apurar.

Nada disso, no entanto, tira o brilho da nova filosofia. “Fora do Eixo” tem o significado do que rola a margem. Não é mais alimentar antigas dicotomias do eixo, mas uma lógica que insere, ao invés de excluir.

Um sinal de que as coisas estão mudando parte das próprias empresas. O selo OI FM, ao invés de optar por nomes consagrados, iniciou seu cast com a banda “Sobrado 112”, absolutamente desconhecida. E pelos resultados de vendagem, tudo indica um novo espaço de mercado. 200 mil pessoas pagaram R$ 4,00 para o download do disco (os consumidores estão principalmente nos celulares), o que gerou uma receita de R$ 800 mil, que cobre a produção do disco, o trabalho de marketing e gera lucro. Os próximos discos serão do Fino Coletivo e da compositora paulistana Luiza Maita.

Se pensarmos no circuito de bares e universidades, aliados aos festivais e às empresas, a cadeia produtiva e criativa da música independente passa a ter sustentabilidade. Sem esquecermos que nas 12 emissoras da OI FM esse cast de artistas independentes já começam a ser tocados, destruindo uma antiga resistência. O próprio disco do Macaco Bong, pertencente ao Álbum Virtual da Trama, é um bom exemplo do quanto a antiga dicotomia já não tem mais razão de ser.

Rogério Skylab

Godard city

Começar de novo ...



Pra ser cantor de rock - Nasi inicia vida pós Ira! com retrospecto, versões para músicas de outros artistas e um olhar discreto para o futuro; pendenga com irmão e ex-empresário continua.

por Marcos Bragatto

Rock Em Geral

Não faz muito tempo que o Ira!, um dos grandes representantes do rock nacional surgido na década de 80, se esfacelou em praça pública. Agora, o vocalista Nasi, pivô do término do grupo por conta de desentendimentos com o irmão, empresário e dono da marca Ira!, apresenta suas cartas iniciando a carreira solo como aquilo que, no fundo, ele sempre foi: um legítimo cantor de rock. Isso porque o recém lançado CD/DVD “Vivo Na Cena” investe num repertório de músicas que outros artistas (incluindo o Ira!) já haviam gravado, e que Nasi selecionou com muito critério, para fazer suas versões.

O vídeo, diferentemente do que pode indicar o título, não foi gravado numa apresentação convencional, com a banda sobre um palco tocando para uma platéia, num show de rock. Nasi optou por fazer o registro ao vivo em estúdio, o que resultou numa mistura de show e documentário, em uma única gravação. O artifício, além da produção apurada, revela uma saída interessante para fugir do padrão de gravações de vídeos, num mercado em que o formato DVD – por vender mais – tornou-se praticamente obrigatório.

Nasi reuniu uma turma da pesada: Nivaldo Campopiano (guitarra, ex-Muzak), Johnny Boy (baixo, Marcelo Nova, Raul Seixas), Evaristo Pádua (bateria) e André Youssef (teclados, da cena do blues nacional). Além deles, participam das gravações Marcelo Nova, Miguel Barella e Vanessa Krongold, em outros convidados. A produção ficou por conta do cascudo Roy Cicala (John Lennon, Bruce Springsteen), um dos sócios do Record Plant Studios, de Nova York. Entre as 17 músicas gravadas no DVD, há composições de Raul Seixas, Eddie, Voluntários da Pátria, Cazuza, Ira! – claro - e até de João Bosco. Nessa entrevista, Nasi explica como tanta coisa diferente pode “ser uma só”, da escolha das canções, do planejamento para o próximo trabalho e das brigas com a turma do Ira!, cuja possibilidade de retorno “não existe”. Dá uma olhada:

REG: Como é ter uma careira solo, para alguém esteve em uma banda durante tanto tempo?

Nasi: É muito bom, eu recomendo, agora quem manda sou eu… É brincadeira, tem muita cumplicidade com a banda, de pessoas que não são só excelentes músicos, mas muitas bacanas, com as quais eu tô super entrosado. Algumas eu já conheço há anos, já fizeram trabalhos comigo de composição, parte de shows solo. Por mais que seja uma carreira de intérprete de rock, é necessário ter uma banda que me siga, que tenha uma personalidade musical. Porque um cantor de mpb entrega disco a disco para um arranjador, um maestro, um produtor. Eu sou o produtor do meu trabalho, sempre fui através dos trabalhos solo. Quando eu fiz em 2006 o “Onde os Anjos Não Ousam Pisar”, já era um momento da minha carreira solo no qual eu sintetizo o blues, o rock’n’roll, todas as influências de black music americana. Agora é o tempo todo vivendo o disco, tô com uma carreira de shows que anualmente vem tendo os mesmos números do Ira!, algo em torno de 70 shows por ano.

REG: Com bom público também?

Nasi: Público também, tem os lugares de rock, as feiras… hoje eu tô passando por cidades e lugares onde estive com o Ira!. Por isso que nesse disco tem um pouco de retrospectiva de carreira, para mostrar que o meu show é um show de rock, eu sou um cantor de rock, eu não tô saindo pra fazer música romântica, sertanejo. Como eu criei essa grife de Nasi e os Irmãos do Blues para mostrar que meu trabalho solo era de blues, isso ficou muito marcado. Hoje já não tem mais essas duas divisões no meu trabalho, o rock com o Ira! e o blues na carreira solo. Tudo isso tá dentro do meu barquinho e com ele eu vou passando de cidade em cidade.

REG: Como você escolheu esse repertório? Mudou bastante em relação aos shows que você fazia, como aquele que passou pelo Circo Voador, no Rio, em 2009…

Nasi: Nesses shows tinha certas coisas que eu não preciso colocar em disco. Mas já tinha lá a versão de “O Tempo Não Pára” (Cazuza), “Verdades e Mentiras” (Voluntários da Pátria)… O que eu fiz ao longo desses anos foi criar uma estrutura, um repertório que fosse quase próximo do que é o meu show. Músicas que eu tava testando, outras não. Tanto que o tributo que eu fazia ao Raul (Seixas) era com coisas mais conhecidas dele. Nesse momento preferi pegar uma música diferente (“Rockixe”), que não foi um sucesso com o Raul, mas que ficaria bem para dois caras que nem eu e o Marcelo Nova; ela parece ter sido composta para nós. E tem coisas novas, que eu queria guardar para ter o impacto da novidade em disco.

REG: Você não quis fazer um disco inteiro com musicas inéditas, você deve ter muito material…

Nasi: Nesse momento, não. Mas esse deve ser o próximo passo, que eu já tô começando a conversar com as mesmas pessoas envolvidas nesse trabalho, o Roy Cicala, a Retcom Filmes. Já tenho um projeto para uma coisa bem diferente, diametralmente oposta do que é esse DVD, mas também em formato de DVD. Aí vai ser o momento para isso, para ser o máximo possível autoral. Para mim, como cantor, tão importante como escrever uma música ou uma letra é escolher uma música. Por isso eu passei muito tempo ouvindo muitas coisas. O Picassos Falsos (que entrou com “Carne e Osso”) tem várias músicas que eu gostaria de fazer uma versão, é difícil escolher. O “Bala Com Bala” (João Bosco/Aldir Blanc) também foi interessante, acho que é uma surpresa, até pelo arranjo. Eu queria saber a opinião do João Bosco, porque esse tipo de blues meio malandro, de New Orleans, tem um suingue analógico ao suingue do samba. Então tem coisas que eu preciso mostrar da minha carreira, o pós punk do início, o rock mais clássico que ficou marcado comigo no Ira! e algumas músicas realmente com uma levada mais de blues.

REG: Você diz que tudo isso que você agregou de diferente no DVD são gêneros ao mesmo tempo parecidos e diferentes. Como é isso?

Nasi: Tem uma frase do Muddy Waters que eu acho maravilhosa, é o titulo de uma música, “o blues teve um filho, o nome dele é rock’n’roll”. Infelizmente no Brasil, não sei se por culpa dos próprios músicos, o blues ficou como um sinônimo de fossa. E o blues é a base do rock como ritmo, são coisas que não dão para dissociar. Tudo que a gente consome de música, principalmente boa música americana, veio dessa expressão originalmente de escravos. Como as coisas no Brasil têm seu eixo no samba, a música americana, o funk, a soul music e o rock’n’roll, e até o rap têm muito de uma árvore chamada blues. Então se eu tivesse fazendo alguma coisa diferente, com ritmos baianos, poderia ter essa estranheza. Nesse disco eu consigo colocar isso tudo homogeneamente.

REG: Você pegou músicas de artistas mais novos, do meio independente. Como chegou neles?

Nasi: Eu gosto muito do Eddie, já conhecia o disco dele, o “Carnaval no Inferno”. Mas essa música do Fred 04 (“Eu Só Poderia Crer”) chegou pra mim com o produtor Wagner Garcia, na verdade é uma música do Fred 04 que o Mundo Livre não gravou e o Eddie colocou no primeiro disco. Eu considero que o disco tem uma musica do Eddie (“Desequilíbrio) e outra do Fred 04. Eu gosto muito desse cenário do mangue beat, que eu tive a oportunidade de ver na nascente mesmo, na década de 90. Eu fui tocar com o Ira!, em 90 ou 91, e depois de um show no teatro a gente foi numa cachaçaria e estavam tocando lá o Chico sem aquelas percussões, numa banda de rock, e o Mundo Livre. Eu fiquei muito impressionado, era algo muito parecido com o que a gente fazia na década de 80 como Ira!, Smack e várias outras coisas.
Nasi já planeja um trabalho de inéditas

REG: Que músicas ficaram de fora do repertório?

Nasi: Eu queria ter gravado alguma coisa do Erasmo (Carlos), mas não vai faltar oportunidade, talvez no próximo disco. Eu tinha gravado no disco solo anterior a música “É Preciso Dar Um Jeito Nisso”, que é de um disco dele sensacional, aquele “Carlos, Erasmo” (de 1971), que é meio experimental. Mas no próximo disco, como eu falei, vai ser uma inversão. Se nesse disco, das 17 músicas, oito eu sou parceiro ou sou compositor, o que dá uns 40, 45 %, eu acho que a tendência é inverter isso no meu próximo trabalho, com uns 70% de coisas que eu vou compor. Mas sempre quero estar livre para ter canções que eu quero cantar ou fazer uma nova versão, ou mostrar outro lado de determinada música. Essas três que eu peguei do Ira! foi na vontade de fazer diferente. “Tarde Vazia” sempre teve um poder de soul music que a gente não aproveitava por causa daquela nossa coisa de balada, de banda inglesa. Eu achava que essa música tinha que ter um suingue, um pouquinho mais explorável. “Por Amor” é uma música inédita, que o Zé Rodrix me deu na época do “Acústico” e que a gente queria fazer um rock’n’roll, mas a própria instrumentação dá limites e ela precisava ter esse peso meio Led Zeppelin, meio The Who. E também “Milhas e Milhas”, uma música que poderia ter feito sucesso com o Ira!.

REG: Que quase ficou esquecida…

Nasi: Essa musica é do “Entre os Seus Rins”, o disco que nós lançamos antes do “Acústico”. É da época que a gente era da Deckdisc, que era um selo da Abril. Quando nós lançamos o disco essa música era um single para a rádio, mas a Abril acabou, a Deck seguiu e nessa separação nos ficamos a ver navios. Eu sempre via nela um potencial pop muito grande e sempre achei que ela poderia ter tido um pouco mais de energia do que teve com o Ira!.

REG: E esse formato de DVD que é ao vivo, mas é em estúdio… Você não quis fazer com o público?

Nasi: Eu acho que dá pra ter uma energia, deixar a coisa viva, sem precisar do público. Primeiro porque eu nunca vou conseguir tirar um som tão bom em qualquer teatro, como eu tirei dentro daquele estúdio. Segundo, que a gente determinou que não ia ter overdub. Quando nós fizemos o “Acústico”, o conselho que os diretores da MTV nos deram era que “as coisas que foram lançadas sem maquiagem foram as que mais fizeram sucesso”. O Ira!, ao vivo, tem uma pá de maquiagem, que nós refizemos. No “Acústico”, não, foi uma aposta que nós fizemos e deu resultado. Fiz a mesma aposta nesse disco. Muitas músicas que estão no DVD são primeiro take. Às vezes eu já estava satisfeito, mas o Roy queria outra versão. Teve músicas que teve um segundo take para imagem, para edição. Mas teve músicas que nós fizemos quatro, cinco versões, uma atrás da outra. A pré produção é o segredo, tem que chegar lá redondinho, fazer a coisa escalonada. É uma banda muito boa, integrada comigo, mesmo não ensaiando ficamos viajando para fazer shows e conversando os arranjos. Às vezes o público atrapalha, porque por mais experiente que você seja, na frente do público é mais adrenalina, você não vai se sentir à vontade pra ficar repetindo. E eu usei um truque. O normal é você fazer um disco de estúdio e procurar sempre um andamento “mais careta”, com todo mundo a vontade, e ao vivo é sempre mais rápido. Nesse disco, depois dos ensaios, quando achamos o andamento perfeito, eu coloquei dois pontinhos a mais em todas as músicas. Então uma parte das músicas são mais rápidas do que seria o normal gravar. Isso deu um jeito ao vivo, mesmo sem público.

REG: Onde você achou esse produtor?

Nasi: Ele foi um dos donos da Record Plant, nos Estados Unidos, tem uma filha com uma mulher brasileira, veio pra cá e gostou muito do país. Ele conheceu o Apollo (Nove, produtor), sócio dele, que tinha trabalhado comigo no disco passado e resolveu ficar aqui. O Apollo trouxe ele até mim, ele já tinha feito umas coisas com o Forgotten Boys e gravou todos os álbuns do John Lennon. A especialidade dele é gravação ao vivo.

REG: Afinal, o que é rock coxinha, que você cita no DVD?

Nasi: Não fui eu que usei esse termo, foi numa matéria que eu vi, não sei se foi na Veja. Coxinha é um termo que a gente usava para bom moço, uma coisa politicamente correta, engomadinha. A gente vive um momento no mundo - até comparando com jogador de futebol -, a gente não vai ter mais um Romário, um Dadá Maravilha. Hoje todos têm aquele discurso de falsa modéstia ou de grupo unido, é o fruto da necessidade de se ter uma imagem pública, limpa e profissional, porque tudo é financiado por empresas. Para uma empresa associar a imagem dela com você, você não pode falar um negócio desses. Mas é preciso mexer, chacoalhar um pouco a coisa. Hoje em dia parece que não cabe mais, eu não me considero tão polêmico assim, mas já me colocaram a tarja de roqueiro polêmico, tipo um gênero musical. Há uns anos eu passaria mais batido. A coisa tá muito coxinha.

REG: E a questão com o Ira!, como é quer tá? Quando vocês vão fazer as pazes?

Nasi: Essa possibilidade não existe. Quanto mais passa o tempo é pior ainda. Tem umas pessoas lá com as quais eu não divido mais o palco, não sento à mesa. Eu tenho uma amizade muito grande com o Gaspa (baixista), tocou comigo, ele foi testemunha de um processo meu, a gente é amigão. O Edgar (Scandurra, guitarra) eu desejo o melhor pra ele, é um músico que eu respeito ainda, a gente construiu muita coisa juntos. Mas depois de tudo que aconteceu só existiria um motivo pra fazer isso, e seria dinheiro. Mas para mim dinheiro não paga tudo. E eu tô bem profissionalmente, tô tendo resposta profissional à altura do que eu tinha com o Ira!. Isso é até um exemplo feio para o publico. Deixa o Ira!, construímos nossa história, temos os discos, mas eu não vou voltar para uma situação que, se já estava ruim, imagine agora. Eu quero tocar com pessoas para as quais eu possa virar as costas sem ter uma faca cravada nelas.

REG: Já vimos tanta banda que acaba voltando…

Nasi: Eu acho até que alguns deles devem estar com essa expectativa. Mas eu não possuo mais o nome, o empresário registrou. Se ele quiser montar um novo Ira! e ser o cantor, pode. Agora só falta combinar com o outro lado, que é o público, e foi isso que tentaram fazer. Primeiro tentaram fazer show sem mim, fizeram dois e no segundo foram hostilizados. Diziam que eu tinha pirado e que abandonei. Fizeram uns dois shows com o Edgar cantando, era o sonho da prima-dona: cantar, compor e produzir, e a gente bate palma. Não deu certo. Depois eles iriam mudar de nome. Acho que não se sentiram bem em ser Ira! sem mim. Eu saí, mas os problemas do Ira! não saíram comigo. Chegaram a pensar em rebatizar a banda como “Era”, você acredita num negócio desses?

REG: Quando você fala “eles”, é o Edgar?

Nasi: O Edgar, o André (Jung, bateria) e o Gaspa. Eles chegaram a ensaiar como um trio no final de 2007. Em fevereiro de 2008 o Edgar voltou de férias e disse que o Ira! tinha acabado. Ele queria tocar com outras pessoas, não quer mais tocar com o André.

REG: O Edgar pode ter uma boa carreira solo…

Nasi: Musicalmente ele tá perseguindo o caminho dele. Não existe uma ação de voltar para os fãs, porque muito da imagem do Ira! era essa coisa de um por todos, uma banda mesmo, e isso foi quebrado de um jeito que não se cola de novo. Eu até brinco: o mundo sobreviveu ao final dos Beatles, com certeza vai sobreviver ao final do Ira!. Eu já to rindo de mim mesmo

REG: Há questões legais envolvidas?

Nasi: Entre os membros da banda, não. Eu tinha um processo de danos morais contra o Edgar e ele tinha outro contra mim. Aí o juiz foi sensacional, foi salomônico: “nem pra um nem pra outro”. Ele citou Beatles, disse que Lennon e McCartney ficaram décadas se hostilizando pela imprensa e nenhum deles pediu dano moral. Com o empresário tenho a parte de danos morais, ele contra mim, eu contra ele.

REG: É o seu irmão, né?

Nasi: Exatamente, mas eu prefiro chamá-lo de meu ex-empresário. Hoje estamos discutindo na justiça prejuízos que cada um julga ter moralmente e eu tenho uma ação que envolve o uso dele da marca, trabalhista. Porque se ele é o dono da marca, ele que me pague trabalhar pela marca dele. Ele registrou há 15 anos, nós dormimos em cima da coisa. Mas parece aquele comercial do mico, ficou com a marca e vai fazer o que com ela? O correto seria eu e o Edgar termos essa marca, não só eu. Porque nós criamos essa banda em 81 - não tinha nem André nem Gaspa - até para gente no futuro ter um poder sobre a marca. Porque a gente não sabe como a indústria fonográfica vai tratar o espólio da gente. Mas agora ele tá com o mico e eu com a alma da banda. Eu chego em muitos lugares e os caras me chamam de Ira!.

Nasi - Vivo na Cena - (Coqueiro Verde): Para iniciar a carreira solo pra valer, depois do atribulado final do Ira!, o vocalista Nasi, agora oficialmente convertido em cantor de rock, partiu para um DVD gravado em estúdio, mesclando várias fases de sua carreira. A decisão de se gravar no próprio estúdio de gravação pode abranger muitas explicações, mas a mais óbvia (e convincente) é o custo, ainda mais para um início de carreira, mesmo sendo Nasi já conhecido nacionalmente. O vídeo mistura documentário com apresentação e é muito bem bolado; uma alternativa a um formato hoje obrigatório, mas de conteúdo bem desgastado. A solução da Retcom Filmes foi das melhores, sendo que ainda há Extras onde Kid Vinil fala sobre Nasi e o próprio músico se encarrega de destrinchar faixa por faixa.

O repertório é bem variado e aponta para um Nasi pouco compositor e mais intérprete. Ele, no entanto, soube pescar bons momentos de sua carreira, sem cair no óbvio, mostrar coisas novas (do ponto de vista de cantor) e ainda trazer para a sua voz músicas do mercado independente contemporâneo. Assim, há o resgate do Voluntários da Pátria, grupo underground que Nasi tinha no iniciozinho dos anos 80 com Thomas Pappon, do Felini (“Verdades e Mentiras”); uma faixa do Muzak, da mesma época, que cumpre papel semelhante (“Onde Estou?”); e músicas do Ira! reaproveitadas de um jeito diferente (“Tarde Vazia” e “Por Amor”, esta com a vocalista do Ludov, Vanessa Krongold, uma das melhores). Em todas, Nasi emplaca a rascância de sua interpretação. Entre as faixas de artistas mais novos há a boa “Não Caio Mais”, da recifense River Raid, uma das melhores do CD/DVD; e “Desequilíbrio”, do Eddie, que ganhou ares de faroeste.

Há também os momentos ruins, caso da ótima “O Tempo Não Pára”, de Cazuza, que Nasi destrói, inclusive ao mudar trechos significativos da letra. Em “Rockixe”, o cantor insiste em citar Raul Seixas, que o ocupava boa parte do repertório dos shows, e só é salvo pelo apropriado Marcelo Nova, que divide a voz e toca guitarra na música. Por sorte, Nasi decidiu mudar bastante na hora de levar o show para dentro do estúdio, poupando o ouvinte da apelação à festa Ploc que fazia sem o menor constrangimento. Aqui, arredondou bem o material que selecionou e conseguiu dar uma homogeneidade no vídeo e até n CD, que teve três músicas subtraídas.

O ouvinte menos rodado poderá estranhar, também, “Carne e Osso”, da banda cult carioca dos anos 80 Picassos Falsos, aqui numa versão chinfrim, e ainda “Bala Com Bala”, de João Bosco e Aldir Blanc, que acabaram ganhando versões discretas, com pouca identificação com Nasi. Não prejudica, entretanto, o conjunto da obra, cujo resultado soa mais com uma transição para o próximo disco, que o cantor promete gravar com repertório prioritariamente autoral e inédito, do que uma, de fato, estreia solo. É, Nasi, o tempo não para.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

# 149 - 04/06/2010

Slayer – Born to be wild

The Jimi Hendrix Experience – If six was nine
Electric prunes – Kyrie Eleison Mardi Gras
The Byrds – Wasn´t Born to follow
Steppenwolf – The pusher

Drop Loaded

pLanant – sing for the lousy morning
pLanant – Hidding from the Sun

How to Destroy Angels – The Believers
Firefriend – 999 to 666 ts street

Ronnie Dio & The prophets – The Ooh Pooh paah doo
Black Sabbath – Children of the sea
Dio – Don´t talk to strangers
Elf – I´m coming back for you
Raimbow – catch the raimbow

Zander – Ponte Aérea
+ Entrevista Ao Vivo

Bloco produzido por Daniela:

The Renegades of punk – Desperdício
Rótulo – sal em sua ferida
Road To Joy – Couple fighting song

12/06 - Sessão Notívagos - "A Todo Volume" + Retrofoguetes + Pata de Elefante



Sábado, na noite do Dia dos namorados, você já tem pra onde levar sua (seu) garota(o). Sessão Notívagos Histórica, com o magnífico documentário "A Todo Volume", sobre 3 gerações de grandes guitarristas do rock, Jimmy Page (Led Zeppelin), The Edge (U2) e Jack White (White Stripes, The Racounters), mais shows ao vivo com duas das melhores bandas do atual cenário do rock instrmental brasileiro, os Retrofoguetes (que são sempre garantia de diversão) e a sensacional Pata de elefante, do Rio Grande do Sul, pela primeira vez em Aracaju. Será uma noite memorável.

A partir das 23:00h, no Cinemark do Shopping Jardins. Ingressos antecipados à venda nos pontos indicados no folder reproduzido ao lado (clique para ampliar) ao custo de R$ 20,00, com direito a 3 bebidas (cerveja, refrigerante ou água mineral).

Uma pexinxa.

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Depois de um começo curioso, em que Jack White comprova que basta pouco mais de um toco, pregos e uma garrafa para fazer o corpo de uma guitarra, o documentário A Todo Volume (It Might Get Loud, 2008), sobre o fascínio exercido pelo instrumento amplificado de corda, traz Jimmy Page em cena pela primeira vez - e o guitarrista do Led Zeppelin compara a guitarra com o corpo das mulheres, esse clichê clássico.

Felizmente, o novo filme dirigido por Davis Guggenheim (vencedor de um Oscar em 2007 por Uma Verdade Inconveniente), que ainda tem The Edge, do U2, como convidado, sabe evitar o excesso de mistificações.

Ao invés de somente reunir ícones para uma jam com declarações de amor ao instrumento e metáforas etéreas, A Todo Volume vai atrás da história desses convidados, dos seus processos de composição, tenta entender o que há de singular em seus estilos e como eles contribuíram para definir o som de suas bandas - e do rock dos últimos 40 anos.

Guggenheim ordena depoimentos logo no início para mostrar que a eleição do trio não foi aleatória. The Edge é o experimentalista, o racional, que equaciona efeitos de pedal e eletrônica para criar riffs como o de "Elevation". Já o guitarrista do White Stripes e do Raconteurs é o purista, o homem do campo, o nostálgico, que prefere pegar uma guitarra tosca e extrair dela uma espécie de autenticidade. Page meio que serve de meio-termo: típico representante dos anos 70, tem formação clássica, como White, mas está aberto a todo tipo de novidade, como Edge.

Aconteceu no dia 23 de janeiro de 2008 a jam entre os três, num barracão gigantesco que certamente teve a sua acústica medida pelos guitarristas. Ali eles tocam juntos músicas de suas respectivas bandas, o que tem poder de catarse inegável. Mas o grosso do filme é o resgate histórico, além das cenas de cada um dos três em seus próprios ambientes - ao som não só de faixas do Led Zeppelin, do U2 e do White Stripes, como alguns blues, skiffles e músicas do começo do rock distorcido.

A Todo Volume acaba sendo um prazeroso apanhado de canções gravadas e ao vivo. Junte a sensibilidade do diretor de fotografia Guillermo Navarro (dos filmes de Guillermo Del Toro) para capturar detalhes e feições e temos aí uma combinação eficiente.

O talento de Navarro para criar essa sintonia consegue até diminuir os espaços (de respeito, de vaidade) que separam Page, Edge e White. Há ali entre os três graus maiores e menores de comprometimento com o filme (a entrega de Edge, tanto para revelar seu processo de criação quanto sua história, é o grande trunfo do documentário), e no fim Navarro e Guggenheim fazem até parecer que os três nasceram para tocar juntos.

por Marcelo Hessel

Omelete

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O Pata de Elefante nunca teve suas referências rurais realmente declaradas. Mas não apenas o nome, mas nas fotos de divulgação e o clima de faroeste spaguetti sempre falaram pelas músicas instrumentais do trio gaúcho. “Na Cidade”, disco que marca a saída deles da Monstro Discos para a Trama, mirando público e ambições maiores, faz esse trabalho de transição para o ambiente urbano. Sem fugir do que fez a banda tão atraente: música sem palavras para – isso mesmo – cantar.

“Na Cidade” explica, sem usar palavras, algo que era muito fácil de sentir ao assistir o Pata de Elefante se apresentar ao vivo. E é o fato de que essa é, hoje, uma das melhores bandas instrumentais do país. A mistura de rock com surf music e folk, com usos criativos de Wah Wah’s – pedal que não muda a nota, enquanto muda ela entre grave e agudo, fazendo um som que soa igual ao nome do instrumento – e teclado. O Pata não caiu no clichê do sortuno ao usar o tema cidade e fez um de seus discos com clima mais para cima.

“Grandona”, terceira faixa, mostra como eles conseguem ser instrumental e pop de uma forma que muitas bandas próximas, como o Macaco Bong, ainda encontram dificuldades. O Pata de Elefante é sempre mais sobre diversão que masturbação guitarrística para cansar o ouvido. “Pesadelo nos Bambus”, quinta na sequência, é o momento urbano local, com a faixa batizada a partir de um dos inferninhos mais clássicos de Porto Alegre. A mixagem final do disco, feito no lendário estúdio Abbey Road, deixou que as músicas ficassem encorpadas como costumam soar ao vivo.

Apesar de ter notadamente mais referências – o disco todo poderia passar como uma trilha sonora de filme, com cada faixa traduzindo um momento de tensão diferente – o clima rock da banda está em “Sai da Frente”, música que já podia ser conferida nas apresentações do grupo. Na verdade, todo o repertório de “Na Cidade” pode ser identificado por quem acompanha o Pata de Elefante com afinco. Para não perder a oportunidade do convite da Trama, o que a banda fez foi reaproveitar uma parte de seu acervo ainda não registrado.

Talvez uma audição mais acelerada e preguiçosa possa encontrar um disco que tem variações demais de clima em cada música. Mas o divertido dos últimos lançamentos da banda é perceber como eles trabalham bem o conceito de álbum. Sem palavras, “Na Cidade” consegue contar várias histórias. E, sem letras, a gente acaba reproduzindo o som delas, “cantando”, enquanto escuta.

por Bruno Nogueira

Popup!

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(Release): Dizer que o trio baiano instrumental Retrofoguetes faz surf music somente é não enxergar que há muito Morotó Slim (guitarra), Rex (bateria) e CH (baixo) ampliaram seu conceito musical. O estilo ainda figura como a base de tudo o que fazem, até pela atitude da banda formada em 2002. Mas, hoje, com cada vez mais identidade, eles têm mesclado outras referências aos temas que compõem.

Além dos já tradicionais rockabilly, polca e música circense, abriram mais espaço no repertório para elementos de mambo, tango, música italiana e swing jazz. Some a isso ainda uma ambientação na literatura, cinema e HQs de ficção científica. O resultado é música pop bem-humorada e extremamente visual, como na trilha sonora de um filme imaginário.

Em 2004, a banda lançou seu primeiro disco, Ativar Retrofoguetes!, pelo selo goiano Monstro Discos, com produção de andré t. e Nancy Viégas, sendo bastante elogiado pela crítica nacional. Agora, a banda realiza turnê de divulgação do segundo CD, Chachachá, também produzido por andré t. e Nancy Viégas e lançado pelo selo próprio e independente Indústrias Karzov, durante o Abril Pro Rock 2009, em Recife. O novo trabalho, muito bem recebido pela crítica especializada e pelo público, reflete exatamente essa ampliação de linguagem, que deixa clara a falta de preocupação de estarem presos a um estilo específico, como a tradicional surf-music dos anos 1960. No intervalo dos dois discos autorais, fizeram ainda o projeto especial “O Maravilhoso Natal dos Retrofoguetes”, lançados em CD e vinil pela Monstro Discos. No repertório, clássicos natalinos em versão surf/rockabilly como “Bate o Sino” e “Boas Festas”.

Desde sua criação, o Retrofoguetes (que se originou da dissolução dos Dead Billies) vem se apresentando em importantes festivais nas principais capitais do país e colecionando prêmios. Já marcou presença no Goiânia Noise e Bananada (GO), em duas edições do Campeonato Mineiro de Surf (MG), Abril Pro Rock (PE), Punka (SE), Aumenta que é rock! (PB), Festival do Sol (RN), Sanca Blues, Jazz e Rock Festival (SESC, São Carlos), Sons de Uma Noite de Verão (SESC Pompéia, SP) e a Virada Cultural (SP). Em Salvador, a banda foi uma das atrações do prestigiado Festival de Música instrumental, que acontece há mais de uma década no Teatro Castro Alves.

Além dos projetos autorais, participou das coletâneas Surf Rock (Deck Music/2002), Reverb Brasil (Obra Discos/2003), Monstro Hits, Tributo ao Ultraje a Rigor (Monstro Discos/2003) e Brazilian surf A-Go-Go, The attack of the Tiki waves Vol.1 (Groovie Records/Portugal/2007). Em 2003, levaram o prêmio de melhor show do ano anterior do circuito independente no Brasil, concedido pelo selo carioca Midsummer Madness. Os Retrofoguetes foram indicados na categoria banda revelação na premiação da Revista Dynamite, uma das maiores publicações especializadas do país. No primeiro semestre de 2008, o guitarrista Morotó Slim foi agraciado com o prêmio de melhor instrumentista do ano pelo Troféu Dodô & Osmar, conferido aos músicos de maior repercussão no carnaval baiano, que, pela primeira vez, abriu espaço para o rock’n’roll tocado em circuito oficial. Neste mesmo ano, assinou contrato com uma grande agência de publicidade para utilização da música Asteróide fantasma na trilha do comercial da Unimed, intitulado War, que faturou o Leão de Bronze do Festival de Cannes. Ainda em 2008, a banda recebeu o prêmio de melhor arranjo no Festival de Música da Educadora pela música “Maldito Mambo!”, faixa integrante do CD Chachachá. Em 2009 e 2010, os Retrofoguetes comandaram um trio elétrico no circuito oficial do Carnaval de Salvador. Já no segundo semestre, realizaram show de lançamento em Salvador, do CD Chachachá, em um domingo histórico, atraindo mais de 1400 pessoas para o Teatro Castro Alves, um dos mais importantes do país. Entre as premiações deste ano, destaca-se a eleição como melhor show da categoria Aquáticos no Festival PIB 2009 - Produto Instrumental Bruto realizado em São Paulo, garantindo a participação da banda no próximo ano, e ainda a prestigiada indicação na categoria de melhor banda instrumental no VMB 2009, Prêmio Nacional realizado pelo canal MTV Brasil.

Vapt-vupt - Zander em Aracaju


Segunda vez da banda Zander, do Rio de Janeiro, em Aracaju. Apareceram no programa de rock para uma entrevista ao vivo, ao lado de Victor Balde, da Snapic. Quis entrevistar o Balde também mas ele preferiu deixar para outra noite, quando seu "parceiro de crime" Arthur também estivesse presente (na verdade ele foi mas não pôde entrar porque estava de bermuda, a Aperipê tem essa coisa aí de não poder entrar de bermuda nem de camisa sem manga), então aguardem, em breve, um bate papo ao vivo com os caras que andam fazendo o melhor registro pictórico da cena sergipana.

A entrevista transcorreu tranquila porém meo corrida, sobrou até tempo, dava pra ter falado mais, mas os caras foram meio econômicos nas palavras. Mas tranquilo, deu pra passar o recado ...

E o principal recado era sobre o show de logo mais (sexta-feira) á noite. Felizmente, a antiga "Casa do rock" continua na ativa, agora sob nova direção e com outro nome, "Espaço Cultiva". É muito importante que exista um local onde se possa fazer shows de pequeno porte com baixo custo na cidade, e a Cultiva, apesar da distancia (fica na praia de Aruana, distante cerca de 25km do centro de Aracaju), vem cumprindo bem este papel - na véspera do feriado recebeu um público recorde no lançamento do EP da banda Cabedal, 450 pagantes, segundo os organizadores, cerca de 500 pessoas dentro do espaço. Na noite de sexta o público foi BEM mais reduzido, mas ok, era de se esperar, shows de "Hardcore" têm menos publico que de "samba-rock" e demais ritmos suingados e malemolentes que tanto agradam ao povo de nosso imenso Brasil varonil. Mas deu uma "galerinha". Com minha tradicional sinceridade que tanto parece agradar e desagradar na mesma medida, devo confessar que não prestei muita atenção nos shows das bandas locais - boas, claro, mas que eu já conheço muito bem. Visto de longe e distraido entre conversas com os amigos, deu pra notar que a Renegades teve muitos problemas com o som, que era o mesmo que quase estragou a passagem do Cidadão Instigado por aqui, na última sessão Notívagos. Horrível. Já a Rótulo fez uma apresentação improvisada, sem o vocalista, com direito a uma longa e desnecessária jam "tapa-buraco" com músicas do Tim Maia Racional. Por fim, madrugada avançada, a Zander sobe ao palco e fica um longo tempo tentando ajeitar a aparelhagem, sem muito sucesso. Começam assim mesmo, e foi um bom show, bem energético. Dá pra sentir que os caras acreditam no que dizem e tocam com sentimento, além de possuírem um bom senso melodico e costurar muito bem as passagens mais hardcore propriamente ditas com momentos de improvisação, produzindo um diferencial que os faz se destacar dentro do universo em que gravitam. O problema, para mim (gosto pessoal), é que eu não "viajo" muito nesse rock meio choroso e sentimental que eles fazem. Com o extremo cuidado de não ofendê-los, já que a palavra se tornou, compreensivelmente, um verdadeiro palavrão, é uma banda meio "emo"* - no sentido original do termo, de "emotional hardcore". Sim, eu sei, é um rótulo idiota, e já achava isso desde a primeira vez que ouvi falar do termo, muito antes da moda, do CPM22, NXZero (que por sinal já tocou em Aracaju antes da fama num esquema totalmente undergound) Fresno e demais lixos afins. Lembro que fui apresentado a este novo "rótulo" por Marcelo Viegas quando estive em São Paulo em 1998 para o show do U2, e lembro também de ter dito a ele que achava sem sentido, pois toda musica que se preze tem que ser "emotional". Mas enfim, ressalto mais uma vez que não quero com isso ofender os caras do Zander, é uma banda super competente no que faz, batalhadora (qualquer banda que se preste a percorrer o nordeste num carro alugado na esperança de pelo menos empatar os custos com a venda de merchandising em banquinhas de show merece todo o nosso respeito), mas que é meio emo, é. Vi um pouco do show, que animou bastante o pequeno público que ficou até o final (como disse, já era madrugada avançada), e fui embora pois a noite seguinte seria também passada em claro, na Virada cinematográfica. Mas não sem antes degustar um delicioso "Flash coração" com meu "guia gourmet hardcore" favorito, Roberto Nunes - que tinha visto naquela noite, pela primeira vez ao vivo (tem sempre alguém que está vendo pela primeira vez), a The Renegades of punk, e se impressionado positivamente com a energia que a banda passa no palco. Espero vê-los em breve no cinema em uma sessão notívagos, quem sabe com a exibição do documentário da "turnê da morte" do Leptorspirose e do Merda. Seria "punk".

por Adelvan k.

* (Da Wikipedia): Emo ou Emocore (abreviação do inglês emotional hardcore) é um gênero de música derivado do hardcore punk. O termo foi originalmente dado às bandas do cenário punk de Washington, DC que compunham num lirismo mais emotivo que o habitual.

Existem várias versões que tentam explicar a origem do termo "emo", como a que um fã teria gritado "You´re emo!" (Você é emo!) para uma banda (os mitos variam bastante quanto a banda em questão, sendo provavelmente o Embrace ou o Rites of Spring).

No entanto, a versão mais aceita como real é a de que o nome foi criado por publicações alternativas como o fanzine Maximum RocknRoll e a revista de Skate Thrasher para descrever a nova geração de bandas de "hardcore emocional" que aparecia no meio dos anos 80, encabeçada por bandas da gravadora Dischord de Washington DC, como as já citadas Embrace e Rites of Spring, além de Gray Matter, Dag Nasty e Fire Party.

Nesta época, outras bandas já estabelecidas de hardcore punk, como 7 Seconds, Government Issue e Scream também aderiram à esta onda inicial do chamado "emocore", diminuindo o andamento, escrevendo letras mais introspectivas e acrescentando influências do rock alternativo de então.

É importante lembrar que nenhuma destas bandas jamais aceitou ou se autodefiniu através deste rótulo. A palavra "Emo" é vista como uma piada ou algo pejorativo e artificial.

O gênero (ou pelo menos o clássico estilo de Washington, o DC sound) primeiramente explorado por bandas como Faith, Rites of Spring e Embrace tem suas raízes no punk rock.

O próximo passo na evolução do gênero veio em 1982 e durou até 1993 com as bandas Indian Summer, Moss Icon, Policy of Three, Still Life e Navio Forge. A dinâmica calmo/gritado ("quiet/loud") frequentemente ouvida em bandas recentes tais como Saetia e Thursday tiveram suas raízes nestas bandas. No que diz respeito a voz, essas bandas intensificaram o estilo emocore. Muitas delas sempre fizeram uso de berros e gritos durante a apresentação, e motivo para muitos fãs de hardcore punk depreciarem os fãs de emo como "molengas"¹ ("wimps", "weaklings").

Assim como foi infundida uma nova intensidade para o emocore, o emotional hardcore levou essa intensidade a um nível extremo. A cena teve início entre 1991 e 1992 com as bandas Heroin, Portraits of Past e Antioch Arrow que tocavam um estilo caótico, com vocais abrasivos e passionais².

Após a supervalorização inicial da intensidade e da sonoridade caótica, o emotional hardcore sofreu um processo de "desacelaração". As bandas Sunny Day Real Estate e Mineral basearam seu estilo no Rites of Spring, outra banda do gênero emo.

Nota-se uma nova tendência emo em abandonar o punk rock distorcido em favor de calmos violões. Na cultura alternativa diz-se que alguém é ou está emo quando demonstra muita sensibilidade.

No Brasil, o gênero se estabeleceu sob forte influência norte-americana em meados de 2003, na cidade de São Paulo, espalhando-se para outras capitais do Sul e do Sudeste, e influenciou também uma moda de adolescentes caracterizada não somente pela música, mas também pelo comportamento geralmente emotivo e tolerante, e também pelo visual, que consiste em geral em trajes pretos, trajes listrados, Mad Rats (sapatos parecidos com All-Stars), cabelos coloridos e franjas caídas sobre os olhos.

Existe também a categoria "Emo Fruits", que foi baseada numa moda do Japão, os conhecidos como J-Pops, de onde eles tiram referência de roupas e cabelos. São normalmente muito coloridos, usando várias estampas e cores fortes ao mesmo tempo.