segunda-feira, 20 de setembro de 2010

+ Jimi Hendrix

40 anos sem o maior guitarrista em todos os tempos - Como James Marshall Hendrix, numa trajetória fulminante, se transformou no maior mito da guitarra e do rock em todos os tempos. Matéria de capa da Revista Dynamite número 42, de dezembro de 2000.

Poucas pessoas tiveram uma passagem tão urgente pela vida quanto James Marshall Hendrix, que viveu só 28 anos. Boa parte deles no meio da pobreza e convivendo com a rejeição da família e da sociedade. Como Jimi Hendrix, em cerca de quatro anos saiu dos subúrbios de Nova Iorque para a Londres psicodélica do final dos anos 60 e virou, de imediato, um mito.

Passada a primeira onda do rock’n’roll da América, foi a vez da Inglaterra mostrar suas garras. E que garras: Beatles e Rolling Stones invadiam as paradas de todo o mundo, bebendo na fonte do recém descoberto rhythm and blues. O prodígio Eric Clapton já era chamado de Deus e o blues era mesmo a música do momento.

Por volta de 1965, Little Richards, um dos poucos remanescentes da avalanche rock’n’roll da década anterior, contratou um tímido baixista para acompanhá-lo no norte dos Estados Unidos. Nessa época, o racismo sulista implicava em ter certa coragem para ser negro e tocar para entreter brancos.

James, que era filho de um ex-combatente da segunda guerra mundial, já havia se alistado, em 61, no grupo de pára-quedistas do exército americano, como voluntário. Sua infância, paupérrima, não havia sido muito boa e o adolescente não via outra saída senão abandonar a escola em Seattle, onde nasceu, para tentar a sorte no exército. Não teve muita (ou, por outro lado, teve bastante) e depois de vários saltos fraturou o tornozelo, sendo em seguida dispensado.

Antes de tocar com Little Richards, o renomeado Jimmy James ainda teve uma rápida participação nas bandas de Sam Cooke e com os Isley Brothers, onde já tocava com a guitarra nas costas e, às vezes, com os dentes. Mas a estrela era Little Richards, e Jimmy James, não exatamente por esse motivo, mudou-se para Greenwich Village, em Nova Iorque, onde passou a tocar pelos decadentes clubes da região. Todos, porém, conservando a pompa da época de ouro da música americana.

Quando os Rolling Stones excursionavam pelos Estados Unidos, já em 66, Jimmy James & The Blue Flames, primeiro grupo em que Hendrix era o líder, tocavam no Cafe Wha?. Numa das noites, a namorada de Brian Jones foi checar a apresentação do jovem guitarrista. Ela não acreditou no que vira: um negro de cabelos grandes, esbelto e fazendo da guitarra sua parceira na música e também na cama. Mais: o negro era canhoto e tocava sem inverter a posição das cordas, ou seja, com a guitarra de cabeça para baixo.

Brian Jones não se convenceu com esses argumentos, mas Chas Chandler, baixista do Animals, que estava na turnê que seria a última do grupo, com os Stones, topou a parada. Resultado: depois do show foi ao camarim e convenceu o jovem negro a voar com ele direto para Londres. Assim, em setembro de 66, Jimmy James saiu de Nova Iorque com a roupa do corpo e aterrissou no velho mundo como Jimi Hendrix, para o início de uma trajetória simplesmente espetacular.

THE JIMI HENDRIX EXPERIENCE

Na noite em que Hendrix chegou, já estavam agendados os testes que iriam definir a formação da banda que o acompanharia. Isso nos mesmos pubs em que aconteciam os shows, com público e tudo, sempre lotados. Indicados por Chandler, Noel Redding e Mitch Mitchell foram contratados por 15 libras semanais e assim estavam montando o Jimi Hendrix Experience.

Em Londres, os novos ídolos do rock estavam intrigados. Como eles, que conheciam tudo de rhythm and blues, estariam vendo um guitarrista, uma única pessoa, chamar a atenção de tanta gente? Todos queriam ver Hendrix de perto, saber se era tudo o que diziam e se conhecia tanto da música americana, vindo de onde essa música se originou. Jimi Hendrix era uma lenda muito antes de entoar o primeiro acorde em sua guitarra.

Entretanto, o primeiro convite para tocar partiu de Johnny Halliday, então ídolo da música francesa. Ele convidou Jimi Hendrix para tocar como banda de abertura em uma pequena temporada que faria no Olympia, em Paris. Com apenas três músicas próprias, já em outubro, menos de um mês depois do desembarque na Europa, acontecia o primeiro show do Jimi Hendrix Experience. Paris também foi a cidade em que, pela primeira vez na história, uma música de Jimi Hendrix foi tocada no rádio, já um poderoso meio de divulgação para qualquer artista. A escolhida era “Hey Joe”, do primeiro single, que tinha “Stone Free” no lado B. Mas as rádios gostavam mesmo, já nessa época, das versões piratas, catadas das fitas demo de ensaio ou ainda gravada ao vivo nos shows. As rádios piratas foram um grande aliado para que Jimi Hendrix espalhasse tão rapidamente sua fama pela Europa e depois para todo o mundo.

Já conhecido e com um grande bochicho em torno do seu nome, Jimi Hendrix preparava o lançamento do primeiro álbum, “Are You Experienced?”, o que só aconteceria em maio de 67. Logo após o lançamento, o semanário inglês Melody Maker o proclamaria o maior guitarrista do mundo.

FOGO EM MONTEREY

Paul McCartney foi o responsável pela indicação de Jimi Hendrix para a apresentação na sétima edição do Monterey Pop Festival. Quase um ano depois, Hendrix voltava aos Estados Unidos, já consagrado como um popstar, para tocar em um grande festival, ao lado de nomes como The Who, Janis Joplin, Ottis Redding e Simon & Garfunkel, entre outros.

Duas passagem curiosas se destacaram nesse festival. Primeiro foi o desentendimento entre os empresários do Who e de Jimi Hendrix, porque um não queria que seu artista tocasse antes do outro. A decisão da organização, já nos bastidores, saiu no cara ou coroa: Hendrix tocaria primeiro. Depois, foi no final do show de Monterey que Hendrix, durante “Wild Thing”, espancou, transou e fez sua guitarra de gato e sapato, ateando fogo na parceira. Em seguida, diante de uma platéia literalmente boquiaberta, destrui-a em vários pedaços. Nunca mais o rock’n’roll seria o mesmo.

Em junho de 67, estava instaurada oficialmente a era da psicodelia em todo o mundo. O marco inicial foi o lançamento do álbum “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, no dia primeiro, até hoje considerado um dos discos mais importantes no universo da música pop. Pois bem, enquanto o “Sgt Pepper’s” começava a ser absorvido, três dias depois, num pub em Londres, o Jimi Hendrix Experience, que desfrutava de boas posições nas paradas com seu “Are You Experienced”, se apresentava e abria o set justamente com a faixa-título. Considerando que o álbum (e a música) não havia caído no domínio público, somente duas pessoas se entreolhavam naquele clube: Paul McCartney e George Harrison. Paul declarou que era sem dúvida a melhor versão que ele já ouvira. Era a primeira, certamente, fora a original.

“Axis: Bold As Love”, o segundo álbum, sai em outubro de 67, já em meio à farra psicodélica e ao flower power que devastou o mundo. Mas, inquieto, Jimi não quer o posto de superstar que a mídia, e por consequência o público, lhe impunham. Nesse período, é normal que ele e o Experience toquem covers de músicos famosos como “Like a Rolling Stone” e “All Along The Wachtower”, do ídolo Bob Dylan, e “Sunshine Of Your Love”, do Cream, de Eric Clapton.

Ainda em outubro o grupo volta ao Olympia, onde um ano antes fazia a abertura para Johnny Halliday. Agora como atração principal e com mais de 14 mil pessoas em histeria, fora as que não conseguiram entrar, o Jimi Hendrix Experience faz um espetáculo absoluto e estonteante, mostrando as músicas do novo álbum, entre elas “If 6 Was 9” e “Little Wing”.

O prolífico Hendrix já entrava o ano de 68 gravando as músicas que iriam fazer parte do terceiro álbum com o Experience. Jimi parecia saber que não teria tempo para fazer tudo o que queria e que precisava trabalhar muito rapidamente. Material é que não faltava. Ele compunha 24 horas por dia, além das longas jams nos ensaios e shows, de onde sempre saíam idéias para novos temas e arranjos.

Jimi Hendrix queria mais. “Electric Ladyland” é um álbum duplo e definitivo, que levou o grupo ao disco de ouro na Inglaterra e nos Estados Unidos. Mas nos longos ensaios e durante as intermináveis gravações, nem tudo eram flores dentro do Experience. Chas Chandler tomava conta de tudo que se referia a parte musical, estúdios, produção, etc. Seu sócio, Mike Jeffrey, era quem administrava as contas. Para fugir dos altos impostos cobrados por Sua Majestade na Inglaterra, Jeffrey frequentemente viajava para as Bahamas, um paraíso fiscal no Caribe, levando com ele malas de dinheiro vivo, fruto das bilheterias e dos direitos autorais do Jimi Hendrix Experience. Noel Redding foi o primeiro a desconfiar do método do empresário, já que depois de mais de um ano, ele ainda continuava sem um tostão no bolso. Jimi, por sua vez, tinha seis libras em sua conta bancária e, carregado pela fama, não dava bola para o baixista.

CAMINHO CIGANO

Musicalmente, Chas Chandler também não se entendia bem com Hendrix, ambos divergiam quanto ao grau de perfeccionismo que o grupo vinha atingindo. Noel Redding, por sua vez, discordava de vários arranjos impostos por Jimi e reivindicava maior participação musical e financeira. Chas deixou o grupo nas mãos de Mike Jeffrey, o que levou Jimi a assumir o posto de produtor (“Electric Ladyland” é todo produzido por ele), deixando, em algumas ocasiões, Noel fora das gravações. Com o grupo gravando desde o início do ano em Nova Iorque, Noel voltava frequentemente a Londres, fazendo com que Hendrix gravasse também as partes de baixo ou chama-se um amigo para fazê-las.

Um deles era Billy Cox, companheiro de Hendrix dos tempos em que serviu o exército. Billy passou a substituir eventualmente Noel, quando este não estava por perto. Tal procedimento acabou deixando Noel de fora de um dos momentos mais importantes na carreira do Experience, durante o lendário Festival de Woodstock, em agosto, símbolo maior do flower power, do movimento hippie e de toda uma geração americana que condenava a Guerra do Vietnã e buscava a saída na paz, no amor e na experimentação através do uso de drogas.

A música de Hendrix era ouvida no Vietnã como uma homenagem de todos os que faziam parte dessa movimentação, aos que lá estavam para, querendo ou não, lutar pela pátria americana, e “Purple Haze” era praticamente o hino da guerra. Mas quando em Woodstock, Hendrix resolveu tocar o hino nacional americano, sozinho com sua guitarra e usando os dentes, esses acordes ecoaram por todo o mundo como um apelo de paz e, ao mesmo tempo, pela revolução. A guitarra, de parceira sexual, passava a um canhão que espalhava toda a dor sentida pela guerra em todos os tempos e lugares.

Quando o ano de 69 começa, o Experience praticamente não existe mais. De qualquer forma, oficialmente o grupo se instala na cidade americana de Liberty, perto de Woodstock, sendo que volta e meia Noel Redding vinha de Londres para ocupar o cargo de baixista, fato que não incomodava Billy Cox, pois, para ele, só estar ali já era lucro. A última apresentação do Experience original aconteceria em fevereiro, de novo em Londres, num Royal Albert Hall lotado.

Aos poucos, Jimi ia reformulando a banda até chegar, em outubro, a Billy Cox no baixo e Buddy Miles, ex-Electric Flag, na bateria. O novo trio, em consequência do desgaste da imagem e da entrada de dois novos músicos, buscou novos caminhos. Hendrix também já não aguentava mais tocar as mesmas músicas, declarando publicamente esse descontentamento, e carecia, artisticamente, de renovação em sua música. O Band Of Gypsys, como foi chamado, investiu na mistura de soul, blues e funk, considerando a alma negra de todo o trio, agora 100% americano.

A Band Of Gypsys deixou várias gravações de estúdio, mas lançou um único álbum, ao vivo, gravado no Filmore East, em Nova Iorque, na passagem de ano de 69 para 70. Em seguida, Buddy Miles cairia fora e o grupo, de uma forma ainda mais urgente, acabaria deixando para trás um potencial espetacular. Mitch Mitchell voltaria para a batera.

Recluso nos Estados Unidos, Hendrix buscava alternativas para continuar com suas experimentações, e embora levando sua música mais para o jazz do que para qualquer outro estilo, ele continuava a tocar covers de clássicos do rock, como “Johnny B. Good”, de Chuck Berry, e “Blue Suede Shoes”, de Carl Perkins, eternizada por Elvis Presley. Com o intuito de aperfeiçoar as técnicas de gravação da época, Hendrix começou a construção de seu próprio estúdio, o Electric Lady Studios, em Nova Iorque. Ao mesmo tempo, preparava o esperado quarto álbum, que só viria a ser lançado após sua morte, em setembro.

O ADEUS DO GÊNIO

Antes, porém, o último grande festival ainda aguardava a presença de Jimi Hendrix. Depois de 18 meses sem tocar no Reino Unido, o Jimi Hendrix Experience aceita o convite para o festival da Ilha de Wight, mais uma vez ao lado do Who, ainda com The Doors, Free, e Emerson, Lake And Palmer, entre outros. Conforme a data ia se aproximando, Hendrix ameaçava não ir, dado o seu envolvimento na construção do estúdio. Mas no dia 30 de agosto de 1970 ele se sentiu recompensado quando tocou para um público de mais de seiscentas mil pessoas – entre elas o exilado Gilberto Gil.

Retido em Londres para resolver negócios com Mike Jeffrey, Hendrix se hospedou no quarto de hotel de Monika Danneman e passava as noites bebendo e se divertindo, até que pudesse voltar para Nova Iorque para continuar os trabalhos no Electric Lady Studios. Na noite de 17 para 18 de setembro, Hendrix tomou uma quantidade desconhecida de pílulas para dormir, que haviam sido receitadas para Monika. Passou mal e se afogou no próprio vômito. Monika hesitou em chamar socorro, pois temia que a polícia encontrasse uma certa quantidade de haxixe no apartamento, mas não há a certeza de que um socorro mais rápido o salvaria. Em todo caso, o atestado de óbito apresenta textualmente, como causa da morte: “inalação de vômito, intoxicação por barbitúricos e evidências insuficientes. Veredicto aberto”. Encerrava-se, assim, depois de quatro anos, a passagem do cometa Hendrix pela Terra.

O corpo de Jimi Hendrix foi enterrado em Seattle, cidade que se recusa a homenagear um filho que tenha tomado drogas, embora tenha uma placa dedicada a ele no zoológico. Foi a conservadora e fria cidade, berço do grunge de Kurt Cobain e companhia, a escolhida para abrigar o Museu do Rock. Inaugurado em junho, tem a arquitetura projetada em homenagem a Jimi Hendrix, e o seu idealizador e proprietário, Paul Alex, ex-sócio de Bill Gates na Microsoft, durante a cerimônia de inauguração, destruiu uma réplica de vidro da guitarra de Hendrix, de quem é fã incondicional.

por Marcos Bragatto

Fonte: REG

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

# 161 - 17/09/2010

A edição de hoje do programa de rock tem como mote dois acontecimentos importantes que completarão 40 anos amanhã: a morte de Jimi Hendrix e o lançamento do segundo disco do Black Sabbath, "paranoid". Ambos os fatos aconteceram no dia 18 de setembro de 1970. Em homenagem á data, tocaremos uma faixa de "Electric Ladyland", disco de 1968 que fez parte da série Discoteca Básica da extinta Revista Bizz. Antes disso, o programa será aberto pela clássica "War Pigs", do Sabbath, seguida de um bloco com sons capturados "Ao vivo" do The Gossip, Dinosaur jr (dia 26 em Salvador, bom lembrar) e Sonic Youth. Depois do Drop Loaded, que nesta edição faz uma viagem aos anos 90, teremos o "Bloco do ouvinte" com a contribuição de nosso camarada Dackson "Deathrow" - só pancada no pé do ouvido. Na segunda parte do programa, abriremos com o cover ao vivo de "teardrop", do Massive Attack, retirado do mais novo disco de Anneke Van Giesbergen, ex-The Gathering, em parceria com Danny Cavannagh, do anathema. Na sequencia, algumas músicas de bandas que estarão se apresentando nos palcos de Aracaju nos próximos dias.

É isto. Divirtam-se.

A.

* * *



The Jimi Hendrix Experience - Electric Ladyland (1968) - (Revista Bizz, Edição 25, Agosto de 1987) - Sessão “Discoteca Básica”

Hendrix transformou a linguagem e expandiu os horizontes da guitarra elétrica no rock. Sua concepção musical transpunha as fronteiras das classificações, resgatando toda a tradição da música negra, ao mesmo tempo que apontava as principais tendências que viriam a emergir na década de 70 (heavy metal, jazz-rock, progressivo). A naturalidade com que arrancava - de inúmeras maneiras - inacreditáveis solos de sua Fender e criava melodias com efeitos de pedais e microfonias, era espantosa. Jimi ao vivo - incendiário em Monterey ou lançando bombas no Hino Nacional americano em Woodstock - fazia de sua guitarra uma extensão de seu próprio corpo e alma.

Mas também existia um "outro" Jimi: aquele dos estúdios e jam sessions, um experimentador fascinado pelo desenvolvimento das técnicas de gravação e efeitos, e que mais tarde montaria seu próprio estúdio (o Electric Lady, em Nova York). A interação mais perfeita dessas duas facetas de Jimi ocorre exatamente no terceiro e último álbum que ele gravou com o Experience: o duplo "Electric Lady Land". O seu primeiro LP era pura explosão: uma transposição para o vinil da energia em estado bruto que emanava do som de Hendrix. Depois veio "Axis: Bold as Love", com seus temas lisérgicos e maior elaboração no trabalho de estúdio, através de recursos técnicos então inovadores como o pan (efeito de estéreo em que um som passa de um canal a outro).

Em "Eletric Ladyland" estes experimentos de estúdios foram levados adiante. Mais do que nunca, Jimi sentia-se à vontade para ousar. Isso já se nota superposição de efeitos da vinheta introdutória "And the Gods Made Love". "Você já esteve na terra das mulheres elétricas/ O tapete mágico espera por você/ Então não se atrase" canta Jimi na faixa título. É o convite para uma imagem que segue através do tráfego da cidade e depois envereda pelo blues rasgado em "Voodoo Chile". O lado 2 começa com duas boas canções, mas menores em relação ao conjunto: "Little Miss Strange" (do baixista Noel Redding) e "Long Hot Summer Night". Mas ganha corpo novamente a partir de uma versão de "Come On" de Earl King e torna a brilhar no funk sincopado de "Gipsy Eyes" e nas linhas melódicas de "The Burning of the Midnight Lamp".

O segundo disco começa com a longa introdução tendendo para o blues de "Rainy Day, Dream Away"; o lado 3 conta apenas com mais duas músicas, que na verdade são uma única suíte, na qual vários climas se sucedem de maneira sublime. No último lado do disco há "Still Raining, Still Dreaming" - uma recriação da faixa que abre o lado 3 - que é seguida pelo pique de "Houses Burning Down", para encerrar-se com duas faixas geniais: "All Along the Watochtower", a versão definitiva da canção de Dylan, e "Voodoo Chile (Slight Return)", outra recriação estupenda que abre espaço para novos vôos de Hendrix. Esse disco expõe as "drogas" mais pesadas que fizeram sua cabeça: blues, funk e rock'n'roll. Uma fórmula simples, que ele "dosava" com sua guitarra, seu fuzz e seu wah-wah. Só mesmo Syd Barrett conseguiu (um ano antes) pintar com cores psicodélicas um painel tão significativo, tão adiante das manias musicais da época - como o blues branco e o rhythm & blues.

O lançamento de "Electric Lady Land" coincidiu com o fim do Experience (Jimi, Noel e Mitch Mitchell na bateria). Hendrix iria montar a Band Of Gipsies, com o baixista Billy Cox e batera Buddy Miles (ex-Eletric Flag), gravando um disco ao vivo do show realizado no Fillmore East (em Nova York) na noite de ano novo 69/70. Novamente com Mitchell no lugar de Buddy Miles, Jimi faria "The Cry of Love", seu último disco antes de morrer repentinamente aos 27 anos (18/09/70). Uma vida curta, um enorme legado.

Celso Pucci

* * *

Black Sabbath – War pigs

The Gossip ( Ao vivo ) – Listen up
Dinosaur Jr ( Ao vivo ) – The Wagon
Sonic Youth ( Ao vivo ) – Candle

The Telescopes – To kill a slow girl walking
Low Dream – Rock Ride
( Drop Loaded )

Barathrum – Saatana
Darkthrone – The winds they called the dungeon shaker
My Dying Bride – The Wreckage of my flesh
( por Dackson "Deathrow" )

Anneke Van Giesbergen & Danny Cavannagh – Teardrop

Andralls – In the eyes of the killer
Do Amor – chalé
Debate – Dito e feito
Perdeu a Língua – algodão doce

The Jimi Hendrix Experience – “Electric Ladyland”
Da Série “Discoteca Básica”
• Have you ever been (to electric ladyland)

Rui Mendes, do rock ao samba

Nos anos 80, nove entre dez capas de discos do efervescente rock nacional eram dele. Até onde contou, foram 308, de grupos como RPM, Lulu Santos, Legião Urbana, Barão Vermelho, Ira!, Titãs, Capital Inicial, Kiko Zambianchi. Alguns dos mais belos ensaios sobre samba já feitos lhe renderam duas indicações ao prêmio Abril e duas ao prêmio Funarte de Fotografia, quando foi finalista em 1998 com o ensaio "A velha guarda do samba". Um milhão de negativos guardados em 28 anos de profissão renderão um livro, "Música". Esse é Rui Mendes, um dos maiores expoentes entre os fotógrafos de música do Brasil.

Apesar de ter cursado fotografia no Fort Vancouver Junior College, em Vancouver, Canadá, em 1978, a carreira profissional de Rui começou em 1980, quando cursava jornalismo na ECA, Escola de Comunicação e Artes da USP. Como ele mesmo diz, "estava no lugar certo, na hora certa". Paulo Ricardo, futuro vocalista do RPM, era colega de classe de Rui. E ele e Kiko Zambianchi freqüentavam uma república com amigas em comum.

A primeira conquista profissional aconteceu quando Rui fotografou as bandas Ratos de Porão, Ira! e Mercenárias para a revista Pipoca Moderna, egressa da revista Pop. A publicação fechou antes de saírem as fotos,, mas elas serviram a uma causa maior: pagar os shows da "Festa do Gato Morto", comemoração pela vitória da chapa Picaretas, fundada por Rui, para as eleições do centro acadêmico da ECA.

Em 1982, no processo de democratização do Brasil, vencer a tradicional chapa Libelu foi um marco. Além de Rui, outros nomes promissores como William Bonner, Paulo Ricardo e Cláudio Tognolli também participavam da chapa. Rui fez jornalismo, cinema e política.

A incursão pelo mundo do rock rendeu encontros memoráveis, como o que teve com Raul Seixas: "quando eu cheguei para o ensaio, ele me disse que só poderia ser fotografado após tomar o café da manhã: duas garrafas de cerveja". Sua capa de disco preferida é a "Música calma para pessoas nervosas", do Ira!. As mais famosas, as do RPM, que venderam milhões de cópias.

O consistente trabalho de Rui sobre o samba lhe trouxe boas surpresas. Entre 1999 e 2004, em um trabalho sobre o Carnaval, principalmente de rua, encontrou no centro do Rio de Janeiro manifestações preciosas. "Umas delas, chamada Clóvis ou Bate-bola, existe desde 1872. Com roupas muito ricas, e sem som, os foliões enchem as ruas da Cinelândia, só para arranjar confusão. Eles disputam quem tem a roupa mais legal. É meio barra pesada, mas divertido, e ninguém sabe que existe".

De José Serra a Paulo Autran, o excelente retratista guarda histórias de figura célebres, como Oscar Niemeyer. "Eu estava fotografando Niemeyer e ele não tirava a mão do queixo. Quando pedi para ele me deixar fotografar seu rosto, ele me respondeu: 'velho não mostra a cara'".

Rui, que trabalha em publicações como Exame, VIP, Rolling Stone, Marie Claire, Veja, e desde 1993 dirige e fotografa clipes musicais de bandas como Racionais MC´s, Charlie Brown Junior e Mundo Livre S.A, é um profissional raro, ótimo laboratorista e profundo conhecedor da técnica. E comenta o advento das tecnologias como o programa photoshop e as máquinas digitais: "Hoje mudou só o instrumento, há muitas diferenças entre o digital e o analógico. Mas se você é ruim, é ruim em todas as formas de fazer foto. O bom fotógrafo, quando manipula essas técnicas, ainda está criando".

Por Ana Luiza Moulatlet

Fonte: Portal IMPRENSA

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QUEM | Rui Mendes.

ONDE | São Paulo.

PORQUE | Quem acompanha a fotografia do rock nacional, da música brasileira, desde o começo da década de 1990, deve conhecer Rui Mendes. Se não conhece o nome, conhece a sua estética e os seus retratos. Revistas de música como a Bizz (depois Showbizz), capas de disco e, depois, videoclipes, tiveram em Rui Mendes um dos mais influentes fotógrafos. Retratista de primeira, Rui estampa as suas fotos em capas de revistas, campanhas publicitárias e editoriais. Particularmente, fui extremamente influenciado por Rui. Tinha assinatura da Bizz e era fã das suas fotos.

Currículo fornecido pelo fotógrafo:

Rui Mendes cursou fotografia no Fort Vancouver Junior College, em Vancouver, WA, nos anos de 1978/79. Em 1980, ingressou na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo onde fundou o grupo anarquista “Os Picaretas”. De 84 a 86 foi articulista no caderno de informática na seção “Fotografe sem Mistério” da Folha de São Paulo. Nesta época começou a fotografar capas de disco do incipiente movimento roqueiro dos anos 80. RPM, Lulu Santos, Camisa de Vênus, Legião Urbana, Barão Vermelho, Ira!, Titãs, Capital Inicial, Kiko Zambianchi, Inocentes, Ultraje a Rigor, Ratos de Porão, Sepultura, Skank e tantos outros foram clicados por Rui. Hoje trabalha para diversas publicações do mercado editorial como as revistas Vogue, Casa Vogue, Vogue RG, Trip, Natura, Mitsubishi, Gol, V, Época Negócios, Galileu e TPM entre tantas outras. Sempre na confecção de retratos, que já lhe proporcionaram sete indicações ao Prêmio Abril e duas indicações ao Prêmio Funarte de Fotografia, do qual foi finalista, em 98, pelo trabalho “A Velha Guarda do Samba”.

Dirigiu e fotografou videoclips como os de Chico Science e Nação Zumbi, Syang, Charlie Brown Jr., Virgulóides, Viper, Negritude Jr., Racionais MC’s, Rodox, Arnaldo Bastista, Sonic Junior, PR.5, Léo Jaime, Daniel Belleza e Mundo Livre S.A., que foi indicado a melhor clip do ano no MTV Awards de 1998. Em 1995 começou a trabalhar no mercado de filmes publicitários como diretor de fotografia, na Chroma Filmes, ao lado do diretor Carlos Mendes, participando da produção de comerciais de clientes como Banco do Brasil, BCP, Fiat entre outros. Em 2000 ganhou a medalha de bronze com a campanha da Companhia das Letras, feita pela Almap, no festival de mídia impressa em Cannes. Seus últimos trabalhos na publicidade foram anúncios para o Grupo VR, GVT, MASH, Natura, Rede TV e a campanha mundial de Emirates para a linha Dubai/Brasil. Em 2007 desenhou a luz da peça teatral “Elogio do Crime” do grupo “Teatro de Alvenaria” e dirigida por Luciana Barone. Ultimamente vem desenvolvendo trabalhos com os grafiteiros de São Paulo e um livro de seus retratos sobre música.

EXPOSIÇÕES:

“Roqueiros” (Individual/1992) – Foto Lee Galeria – SP.
“Os Heróis do Samba” (Individual / 2002) – Pinacoteca do Estado de São Paulo – SP
“Os Heróis do Samba” (Individual / 2002) – Secretaria de Cultura de Santo André – SP.
“A Imagem do Som do Rock Pop Nacional” (Coletiva / 2003) – Paço Imperial – RJ
“Entrudo” (Individual / nov 2003 a fev 2004) – Museu Nacional de Belas Artes – RJ.
“Entrudo” (Individual/jan 2005 a abril 2005) – Pinacoteca Do Estado de São Paulo – SP.
“Atropelo”(em parceria com o grafiteiro Jey/abril 2006 a junho de 2006) – Galeria Grafiteria – SP

OLHA, VÊ Como você começou a fotografar?

RUI MENDES Comecei com 16 anos fazendo aulas de fotografia em Vancouver, Washington no ano de 1978…

OLHA, VÊ Você criou uma certa “estética” em casos como a revista Bizz (depois Showbizz) e em centenas de capas de disco. Isso foi intencional?

RUI MENDES Eu estava inserido no movimento, então era tudo muito natural…

OLHA, VÊ Nas suas produções editoriais, a liberdade era total?

RUI MENDES Sempre fui um pouco “rebelde”. Nunca levei muito em conta os briefings. Procuro me informar a respeito do sujeito e não ter uma idéia pré concebida. Jornalista dificilmente dá bons palpites em relação a imagem e diretor de arte bom, no nosso mercado, dá para contar nos dedos…eheheh…

OLHA, VÊ Você tem uma capa de disco e revista que você prefira ou poderia colocar como as mais expressivas de sua carreira?

RUI MENDES Gosto muito da capa que fiz pro Ira! junto com meu parceiro Zé Carratu: “Música Calma Para Pessoas Nervosas”. A capa da revista Rolling Stone com o Rodrigo Santoro gosto pela simplicidade…

OLHA, VÊ O nome Rui Mendes sempre foi muito ligado ao Rock dos anos 80 e 90. Você era (é) roqueiro?

RUI MENDES Sempre fui eclético e sempre ouvi Stones, Beatles, Led, TRex e companhia, mas nunca deixei de ouvir a boa MPB.

OLHA, VÊ E a ligação com o samba, como começou?

RUI MENDES Sou de família baiana… Que me desculpe o pessoal de São Paulo pra baixo, mas o nordestino e muito mais rico musicalmente. Meu pai era fã de carteirinha de Clara Nunes. Cresci ouvindo Noel, Cartola e Chico Buarque…Aí um belo dia a Bizz me mandou fotografar Carlos Cachaça…

OLHA, VÊ Dando uma olhada na sua carreira, podemos afirmar, que você é um dos mais expressivos “retratistas” do Brasil. O que é fundamental para fazer um belo retrato/portrait?

RUI MENDES Treino… Fotografar é prática como qualquer outro ofício. Depois de 29 anos como profissional você adquiri certas manhas que simplificam seu trabalho…Eu por exemplo acho que um bom retrato você consegue nos primeiros cinco minutos…

OLHA, VÊ Hoje, o que lhe atrai fotografar ou ainda pensa em fazer?

RUI MENDES Estou terminando meu livro sobre música… Depois farei um só de retratos… Estou fazendo um trabalho em lightpainting com meus parceiros, Jey e Zé Carratu para uma próxima exposição… Sou um retratista e não canso de fazer retratos… O que mais me instiga é fotografar na rua…

OLHA, VÊ E os videoclipes? Foi natural a passagem para a imagem em movimento?

RUI MENDES Sempre quiz fazer cinema e acho natural um fotógrafo fazer cinema… Se não tivesse adoecido estaria filmando muito mais…

OLHA, VÊ O que lhe chama atenção na fotografia atualmente? Fotógrafos, publicações, etc. E a Fotografia Brasileira?

RUI MENDES No geral nossa fotografia sempre teve ótimo nível…Tem muita gente boa em todas as áreas…Cássio Vasconcellos tem um trabalho genial e no retrato Kiko Ferriti tem se destacado…

OLHA, VÊ Em 1996, fiz um workshop com você chamado “O Potencial Criativo” na Clínica Fotográfica (SP). Lembro que você tinha uma forte relação com o laboratório, com a qualidade da iluminação e todos os detalhes envolvidos na produção de uma imagem. E hoje, qual a sua relação com o digital?

RUI MENDES Estou no digital há um ano e meio… Resisti bastante não por preconceito e sim por economia… Hoje já estou adaptado e passo horas na frente do Photoshop… Acho saudável este perpétuo apredizado… O Photoshop é uma ferramenta genial

Fonte: OLHA/VÊ


















quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Ian Christe, uma Entrevista


A Bíblia do Heavy Metal - Na falta de um livro sobre a história da música pesada, Ian Christe arregaçou as mangas e hoje vê “Heavy Metal - A História Completa” ser lançada em vários países, incluindo o Brasil. Íntegra da matéria publicada na revista Billboard 11, de agosto de 2010.

por Marcos Bragatto

Fonte: REG

Não é só de bater cabeça que vive o fã de heavy metal. Foi isso que descobriu o jornalista e crítico de música pesada Ian Christe. “Heavy Metal – A História Completa”, seu principal livro, lançado agora no Brasil, é sucesso de vendas nos Estados Unidos e ganhou versões em outros dez países. Nas quase 500 páginas dessa verdadeira bíblia do metal, Christe explica as intrincadas subdivisões do gênero, incluindo uma linha do tempo que tem como marco inicial a sexta-feira, 13 de fevereiro de 1970, data do lançamento do álbum de estreia do Black Sabbath.

Recebido com frieza pela crítica, além de dar o pontapé inicial no heavy metal, o disco inaugurou o desprezo da mídia pelo gênero que permanece até hoje. O preconceito talvez tenha sido o motivo que levou a editora brasileira a mudar título e capa na versão nacional. “Som da Besta” (do original “Sound of the Beast: The Complete Headbanging History of Heavy Metal”), foi omitido na tradução e a imagem do cramunhão foi trocada por uma ilustração com um guitarrista tocando sobre uma cabeça de caveira. Além de noruegueses com rostos pintados e pregos cravados nos braços e pernas, o autor trata de temas menos sérios - como o glam rock - e inclui até grunge e nu-metal, subgêneros renegados pelos fãs.

Ian Christe virou referência, vive sendo chamado a opinar quando ao assunto é heavy metal em programas de rádio e TV, e criou sua própria editora, a Bazillion Points (www.bazillionpoints.com). Os próximos lançamentos? Um livro sobre black metal e heavy metal underground e outro com a história do metal progressivo. É assunto que não acaba mais. Confira abaixo esta entrevista exclusiva, feita por e-mail, com o autor da “bíblia do metal”:

Rock em Geral: O que te motivou a escrever um livro sobre heavy metal? Você não acha que os fãs de metal não estão interessados em ler sobre o assunto, mas apenas ouvir a música e bater cabeça?

Ian Christe: Essa é uma concepção errada, e provavelmente explica o porquê de ninguém ter escrito uma completa história do heavy metal antes de mim. Fãs de metal têm poucas opções no rádio e na TV, então revistas, fanzines e sites sempre foram muito importantes para achar informações sobre música. Fãs de metal têm o hábito de ler e eles provam isso com o sucesso do “Sound of the Beast”. E, ainda, fãs de metal são todo o tipo de gente – recebo cartas de bibliotecários, advogados, funcionários públicos, professores. Eles sempre falam: “não sou o típico headbanger…”, mas eu não acredito que exista essa coisa de “típico headbanger”.

REG: O livro foi lançado em 2004, e agora há uma versão brasileira disponível.Você acha que nesse meio tempo ocorreram mudanças significativas para acrescentar à versão original?

Ian: O heavy metal tem estado muito ativo em todo o mundo nos últimos anos, mas as crenças e estilos básicos explicados no “Sound of the Beast” ainda traduzem toda a história. Novas bandas ainda continuam aparecendo com os mestres do thrash metal, death metal, doom metal, e por aí vai. Eu diria que mais do que nunca novas bandas estão respeitando as tradições do metal — talvez até demais! Ao mesmo tempo, os grandes nomes como Black Sabbath, Iron Maiden e Slayer continuam em atividade.

REG: Que novos subgêneros nasceram/se desenvolveram nesse período?

Ian: Eu acho que, comercialmente, os estilos dominantes são o death metal melódico e o metalcore. Bandas como As I Lay Dying, Killswitch Engage e até mesmo o In Flames, que ajudou a criar este estilo. Já artisticamente eu acho que o que define a cena metálica nos anos 2000 são grupos como Sunno))) e Jesu. Ainda assim, essas duas cenas têm as raízes nos anos 90. Mas no geral eu acredito que os anos 2000 foram um período em que os subgêneros como black metal, death metal, thrash metal e doom metal foram desenvolvidos ao extremo. Foi uma década de refinamento, não de evolução. Por exemplo: a banda de thrash retrô Municipal Waste teve uma grande história, mas tudo que você precisa saber sobre eles vem direto de 1987!

REG: O livro teve boa aceitação nos Estados Unidos? E em outros países?

Ian: O “Sound of the Beast” foi lançado na Inglaterra, Alemanha, Japão, Croácia, Itália, República Tcheca, Finlândia, Espanha, França e uma edição na Sérvia está a caminho. Tem sido animador e também necessário, já que o heavy metal é uma música tão internacional. Espero que a edição brasileira vá bem! Estive na famosa Galeria do Rock, em São Paulo, para comprar camisetas do Sarcófago. Talvez alguém abra uma livraria lá!

REG: Você inclui o grunge e o nu metal como parte do heavy metal, mas a maioria dos fãs não percebe que essas bandas são identificadas com o “verdadeiro” (como eles chamam) heavy metal. O que te fez incluir esses estilos no livro? Recebeu críticas por isso?

Ian: Seria impossível contra a história do glam metal sem mencionar que no começo dos anos 90 bandas de pop metal como Ratt e Stryper foram completamente chupadas por bandas como Soundgarden e Mudhoney. E bandas grunge como essas influenciaram bandas de metal como Anthrax, Death Angel e Napalm Death - pode acreditar. Mas eu tenho cuidado ao falar que o verdadeiro heavy metal se fortaleceu nos anos 90. É um mito que um dia o metal tenha desaparecido. Quanto ao nu metal, não curto esse tipo de música, mas seria desonesto fingir que ele não existe.

REG: A maioria dos fãs de metal apontam os anos 80 como a melhor década para a cena metálica, você também acredita nisso?

Ian: Não. Eu adoro o metal dos anos 80, mas há bandas muito importantes nos anos 70 como Blue Oyster Cult e Pentagram, e nos 90, como Napalm Death, Entombed e Brutal Truth. O metal dos anos 80 é ótimo, mas - adivinhe – o bom heavy metal vem de todos os tempos e lugares, os mais inesperados.

REG: Na versão brasileira do livro, o guitarrista do Sepultura, Andreas Kisser, escreveu o texto de apresentação na orelha. Você participou do processo de lançamento?

Ian: Não participei muito, não. Eu conheço o Andreas, o respeito demais, não apenas como músico, mas com um líder de banda e um homem de família. Ele é um grande cara, e estou orgulhoso de o editor brasileiro tê-lo escolhido para apresentar o livro no Brasil.

REG: O título não foi traduzido corretamente, e a capa foi trocada por outra, assinada por um artista local, que fez algo menos agressivo. Você chegou a ver?

Ian: Honestamente, eu acho a capa estranha! Eu gosto da caveira desenhada, mas o guitarrista em cima soa estranho para mim. Eu creio que o editor sabe o que está fazendo. Talvez a capa original tenha sido um pouco forte para ele – as forças religiosas devem ter sido ultrajadas! O engraçado é que a pintura da capa da versão original do livro é da arte religiosa italiana.

REG: Depois de cerca de 40 anos de existência, você acredita que ainda há o que se criar dentro do heavy metal?

Ian: Sim, depois de 40 anos de renovações e inovações constantes, eu não tenho a menor dúvida de que novos tipos de metal vão continuar a emergir de fontes desconhecidas. Isso tem sido uma constante certa na história do metal. E com Índia, Cingapura, Tailândia e China apenas começando no metal, pode apostar que algo único no mundo do metal está prestes a surgir.

REG: Você compartilha da idéia de que a expressão “heavy metal” foi usada pela primeira vez no livro “Naked Lunch”, de William S. Burroughs, e na música “Born to Be Wild”, do Steppenwolf?

Ian: Muito antes disso “heavy metal” era o termo usado pelo exercito britânico para canhões de guerra, foi esse termo que usei como original no livro. Acho perfeito!

REG: O livro estabelece o lançamento do primeiro disco do Black Sabbath como o marco inicial do heavy metal, mas você não acha que há outras contribuições imprescindíveis, como o Led Zeppelin (com as raízes dom blues) e Deep Purple (com as partes progressiva e sinfônica)?

Ian: Sim, Led Zeppelin, Deep Purple, Blue Cheer e Sir Lord Baltimore, todos contribuíram à beça com o heavy metal. Mas o Black Sabbath é o pacote completo. Você ainda pode ouvir citações ao Black Sabbath na música do Slayer ou do Lamb of God. O Black Sabbath tem um gigante sentimento agourento que define o heavy metal melhor que qualquer riff ou velocidade em particular.

REG: Olhando para a linha do tempo estabelecida no início do livro, não há subgêneros como gothic metal, death metal melódico, math metal e outros…

Ian: Esses são assuntos tratados no livro. Alguns estilos eu não tive espaço suficiente para tratar com muita profundidade – como o death metal sueco ou o prog metal -, mas agora posso publicar livros inteiros cobrindo isso na minha própria editora, a Bazillion Points.

REG: Nos últimos anos Sam Dunn e Scot McFryden dirigiram alguns filmes e programas de TV sobre a história do heavy metal. Você acha que isso contribui com o seu trabalho como escritor e fã de metal?

Ian: Sim, eu fui entrevistado no primeiro filme de Sam e Scott, “Metal - A Headbanger’s Journey”, e acho que eles mostraram uma linha do tempo dos gêneros do metal baseada na organização do meu livro. Eu tenho me envolvido em muitos documentários e programas de nos Estados Unidos, e acho que isso ajuda a espalhar a palavra para os fãs mais novos. O metal tem sido subestimado por muito tempo, mas é um grande fenômeno, e não há razão alguma para, toda vez que aparece na TV, ser deturpado ou mal compreendido. Nenhum filme é tão bom quanto um bom livro, mas filmes transmitem a informação com muito mais rapidez.

REG: Como um jornalista que escreve em várias publicações, você acha que ainda há preconceito contra o heavy metal? No seu dia a dia, mesmo outros jornalistas consideram seu trabalho não tão importante quanto o deles, porque você escreve sobre metal, e eles (por exemplo) indie ou “novo rock”?

Ian: Sim, esses preconceitos existem, é triste. Essa foi uma das minhas motivações para escrever o livro, para ajudar a dignificar a música que centenas de milhares de fãs nunca puderam entrar numa livraria e encontrar algo com credibilidade sobre a música que eles adoram. Tenho lido sobre heavy metal desde muito tempo, mas era um jornalista de revistas grandes como Wired e Popular Mechanics, escrevendo sobre ciência e tecnologia. Eu voltei para o heavy metal porque não havia ninguém fazendo um bom trabalho no meio, e eu precisava ao menos tentar.

REG: Quais são os próximos lançamentos da sua editora?

Ian: Estamos trabalhando num livro cobrindo o black metal extremo e heavy metal underground, chamado “Metalion: The Slayer Mag Diaries”, e está sendo escrito por Jon Kristianson, da Noruega. Acabamos de lançar “Touch And Go: The Complete Hardcore Punk Zine ‘79-’83”, de Tesco Vee e Dave Stimson, com apresentações de Henry Rollins e Ian MacKaye. E logo vamos lançar “Mean Deviation”, de Jeff Wagner, com a história do metal progressivo, de Rush a Opeth. Estamos muito ocupados!

REG: Você nasceu no mesmo ano que o heavy metal… Coincidência ou destino?

Ian: Destino de muita sorte! Eu cresci ouvindo esse tipo de música, ouvindo AC/DC e Saxon na escola primária. Depois tive a experiência de conhecer o thrash metal quando adolescente, e entrei para a faculdade no momento em que a explosão do death metal e do grindcore aconteceu. Tem sido incrível experimentar este constante renascimento desse tipo de música.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Sessão Notívagos Cancelada/Adiada

A Sessão Notívagos que aconteceria próximo sábado, com o filme "A Prova de Morte", de quentin tarantino, e apresetanções das bandas Snooze e A Banda de Joseph Tourton, foi cancelada por questões operacionais. Uma nova data está sendo estudada. É possível que o filme seja exibido dia 24. Como fã de Cinema E de Tarantino, fico na torcida.

Maiores informações: sessaonotivagos@gmail.com

A.

* * *

À Prova de Morte - Dirigido por Quentin Tarantino. Com: Kurt Russell, Rosario Dawson, Zoë Bell, Vanessa Ferlito, Sydney Poitier, Tracie Thoms, Jordan Ladd, Rose McGowan, Mary Elizabeth Winstead, Quentin Tarantino, Eli Roth, Marley Shelton, Michael Parks.

Fonte: Cinema em Cena
por Pablo Vilaça

Três anos. Foi este o tempo que À Prova de Morte, que Quentin Tarantino dirigiu antes de Bastardos Inglórios, levou para chegar ao Brasil – e, ainda assim, chegou em uma versão diferente da original, já que foi concebido como parte do projeto Grindhouse, que, buscando resgatar as sessões duplas concebidas na década de 30 como resposta à Depressão, trazia também o fraco Planeta Terror, de Robert Rodriguez, e vários trailers falsos dirigidos por amigos da dupla. Inicialmente com uma duração de apenas 87 minutos, À Prova de Morte era a segunda parte de Grindhouse e se apresentava como um exercício de estilo descompromissado, divertido e – o mais importante – enxuto, trazendo Tarantino numa raríssima demonstração de auto-disciplina e se estabelecendo como um de seus trabalhos mais coesos.

Isto, é claro, mudou nesta versão que agora chega ao Brasil: com 17 minutos a mais, o “novo” À Prova de Morte perdeu parte de seu impacto justamente ao se alongar desnecessariamente em cenas de intermináveis diálogos (uma marca registrada do cineasta), além de, claro, ser prejudicado por não estar mais inserido no contexto das “sessões duplas” – e, assim, os “defeitos” da película, com riscos, manchas e saltos abruptos na imagem e no som acabam surgindo deslocados, soando como uma homenagem artificial que, mesmo divertida, não se encaixa organicamente na narrativa.

Estabelecendo-se como “um filme de Quentin Tarantino” já em seu plano inicial, quando vemos a podolatria do cineasta em ação com força total, o longa se entrega sem reservas ao conceito de exploitation que se estabelecia como parte fundamental da experiência “grindhouse” – e, neste sentido, ele se coloca firmemente, por exemplo, ao lado de obras como A Vingança de Jennifer (I Spit on Your Grave) ao mesmo tempo em que faz uma clara homenagem a Corrida Contra o Destino, criando um híbrido que poderia perfeitamente ser batizado de Corrida Contra a Vingança de Jennifer. Exibindo todas as marcas registradas de Tarantino (o plano do porta-malas, as marcas de bebida e cigarro fictícias, os personagens saídos de seus outros filmes, as abundantes referências a séries e filmes obscuros e a seleção musical), À Prova de Morte tampouco se acanha diante dos corpos de suas atrizes, explorando-os com uma curiosidade adolescente que beira a veneração.

Esta veneração pela mulher, aliás, é o que torna Tarantino tão diferente de canalhas sexistas como seu amigo demente Eli Roth ou Michael Bay, já que, ao mesmo tempo em que é capaz de conceber um plano com o único objetivo de enquadrar a bunda de Vanessa Ferlito, o diretor se mostra sempre reverente diante da força feminina. Não é à toa, diga-se de passagem, que Tarantino vem continuamente concentrando a força de seu Cinema nas mulheres: se Cães de Aluguel não trazia uma única mulher com diálogos, Pulp Fiction já conferia mais atenção a figuras como Mia Wallace ainda que os homens se mantivessem em destaque. A partir de Jackie Brown, porém, o foco do cineasta muda de vez, culminando em Kill Bill Volumes 1 e 2, neste À Prova de Morte e, claro, em Bastardos Inglórios e suas fortes heroínas Shosanna e Bridget von Hammersmark. Basta compreender esta trajetória, aliás, para perceber como é natural que, aqui, o diretor continuamente enfoque suas atrizes a partir de ângulos baixos que conferem uma dimensão de “criações maiores do que a vida” às personagens.

Fugindo da clássica divisão em três atos e adotando uma abordagem mais simétrica, À Prova de Morte pode ser dividido em dois atos de igual duração: a primeira metade do filme, que se concentra na DJ Jungle Julia (Poitier) e em suas amigas Arlene (Ferlito) e Shanna (Ladd), tem a clara intenção de introduzir o tom e a atmosfera da narrativa. Investindo com menos sutileza nos artefatos de técnica e “desgastes” da película, esta seqüência se torna quase metalingüística em seu esforço de soar como uma autêntica produção dos anos 70 (embora, claro, se passe nos dias atuais) – e, assim, o bar que abriga a maior parte da ação é concebido como um espaço antiquado, com seu interior de madeira, seus neons e cartazes e, claro, o imenso jukebox usado pelas personagens. Isto se contrapõe, claro, à fotografia mais limpa e menos “defeituosa” da segunda metade, que soa mais moderna e traz um minúsculo iPod como fonte das músicas ouvidas pelas mocinhas. Esta estratégia revela o brilhantismo de Tarantino, já que reflete tematicamente a própria natureza das personagens: vulneráveis e vitimizadas no passado, fortes e determinadas no presente.

Mas não é só: bom conhecedor da linguagem cinematográfica (e de sua evolução ao longo da História), Tarantino diverte, por exemplo, ao investir numa radical mudança na trilha sonora quando determinada personagem se concentra em mandar uma mensagem pelo celular, empregando acordes melosos que, justamente pela falta de sutileza típica de produções do tipo, soam apropriadamente incorretos. Além disso, percebam como o diretor coordena sua mise-en-scène com economia na cena em que Abernathy (Dawson) tenta convencer um sujeito a lhe emprestar um carro: ocultando a presença da bela Lee (Winstead) ao fundo, o cineasta a revela apenas ao levar Dawson a deslocar o corpo no momento preciso em que oferece a amiga como moeda de troca, resultando numa eficiente punchline visual. Como se não bastasse, Tarantino se sobressai de maneira espetacular ao enfocar uma violenta colisão entre dois carros, repetindo-a a partir de diversos ângulos que revelam de forma chocante as conseqüências do acidente.

Porém, talvez a maior surpresa de À Prova de Morte seja a longa seqüência de perseguição que marca o clímax da narrativa: durando cerca de 20 minutos, ela é orquestrada por Tarantino com a inesperada segurança de um William Friedkin em Operação França ou de um Peter Yates em Bullitt, aparentemente empregando um número mínimo de trucagens digitais e investindo apenas na capacidade de seus dublês e na montagem que ressalta a ação, além, claro, dos movimentos de câmera que jamais soam epiléticos como os de Michael Bay, permitindo que acompanhemos tudo sem surtos de labirintite (e mesmo ao mover seu quadro com mais rapidez Tarantino exibe um objetivo claro, como no instante em que parece perder o vilão numa nuvem de poeira apenas para “reencontrá-lo” em outro ponto). Para finalizar, o cineasta e sua montadora habitual, Sally Menke, demonstram segurança ao contrapor estes instantes de maior energia a outros em que a câmera simplesmente passeia em torno dos personagens – como no plano que, durando sete minutos, remete a Cães de Aluguel ao enfocar a conversa de quatro amigas em volta de uma mesa (e notem a presença discreta de Kurt Russell ao fundo, comprovando a confiança de Tarantino em seu espectador).

Ainda assim, esta versão de À Prova de Morte, como dito inicialmente, peca por abandonar a disciplina do corte original – algo que já pode ser constatado na interminável conversa que ocorre em um carro nos momentos iniciais, durando longuíssimos cinco minutos e pouco oferecendo quanto ao desenvolvimento das personagens e da narrativa (para piorar, Tarantino fica preso às limitações do “cenário” e pouco pode fazer com sua câmera). Da mesma maneira, a inclusão da cena do lap dance (cortada do original como uma gag sobre as péssimas condições de preservação do filme) pode até servir como um presente para os espectadores masculinos, mas em nada contribui para o filme ou para estabelecer a dinâmica entre aquelas figuras.

De todo modo, estes pecadilhos de auto-indulgência tão típicos de Tarantino não chegam a comprometer o filme como poderiam, já que a situação criada pelo cineasta é suficientemente interessante para manter nosso interesse – e, neste sentido, é fundamental constatar a natureza fascinante do vilão encarnado de maneira impecável por Kurt Russell: apresentando-se como um sujeito afável e discreto, Stuntman Mike é um serial killer intrigante, sendo perfeitamente capaz de revelar seu lado mais sombrio num piscar de olhos (aliás, o melhor momento do filme é aquele em que ele pergunta para sua primeira vítima a direção de sua casa e lamenta ter que amedrontá-la imediatamente, já que terá que seguir no sentido oposto). Enquanto isso, Michael Parks volta ao universo de Tarantino com seu velho xerife Earl McGraw, que, com seu jeito preguiçoso de falar (até suas piscadas são lentas), mostra-se sempre divertido e magnético - e é realmente uma pena que ele morra já no início de Um Drink no Inferno. No entanto, o grande destaque de À Prova de Morte é mesmo Zoë Bell, que, dublê profissional (ela foi a responsável pelas ações da Noiva em Kill Bill), aqui ganha a chance de realmente interpretar uma personagem, revelando um carisma natural que, num mundo justo, deveria lhe garantir uma invejável carreira como atriz.

Eficiente até em seu desfecho excessivamente abrupto, À Prova de Morte é a comprovação de que, nas mãos de um diretor que conhece a fundo a técnica e a história do Cinema, até mesmo um exercício de estilo sem grandes ambições pode representar uma experiência apaixonante para quem ama e respeita a Sétima Arte.

17 de Julho de 2010

Zeferina Bomba em Aracaju - por eles mesmos

Antes tarde do que nunca, eis aí o relato da passagem da banda Zeferina bomba por Aracaju, contada por eles mesmos em seu blog.

* * *

Chegamos em Aracaju no meio da tarde e fomos recebidos pelo pessoal do Renegades of Punk [dani e ivo]. Um rango vegetariano nos esperava numa casa muito agradável na praia de Atalaia. O dia tava meio chuvoso e ficamos naquela de que será que vai dá gente mais tarde?! o cartaz ficou muito foda e já virou quadro na sala em São Paulo. Edy tava com o pé bem inchado [não expliquei isso ainda neh?!] pois é, depois de uma década de existencia saudável [leia-se bebendo, fazendo shows e consciência corporal...] nosso amigo resolveu andar de skate… …no escritório… …e… …40 dias de gesso… …melhor voltar aquela existência saudável. pois bem depois de esclarecidos os fatos, o pé tava bem inchado das seis horas de estrada, então fomos até uma farmácia resolver isso, compramos gelo e umas cervejas que melhoraram nosso fim de tarde!!

um pouco mais tarde dê-mos um pulo na Aperipê FM pra falar com o grande Edelvan (NOTA:ops!) sobre mecânica de autos, energia nuclear, teflon e um pouco de música.

figuraça!!

edy e elmon ficaram na casa moendo e bebendo, e claro ouvindo a radio. andar em Aracaju é até fácil, de lá da casa até o bar era uma reta só. O bar Capitão Cook é de um argentino, que talvez seja torcedor do River Plate, não o da Argentina, o de Sergipe. Não sabia?! pois é, tem um River “de Sergipe” que é o atual campeão sergipano e está disputando a série D do brasileirão. Zefirina é cultura futibolistica!!

chegamos montamos a banquinha, trocamos uma idéia geral e não bebemos muito [isso realmente foi estranho!] o Renegades tocou primeiro, eu já tinha visto eles em São Caetano do Sul e realmente achei foda!! eles tão lançando um 7″ polegada. Muito do caralho, quero muito que eles toquem no BE.R.RO. em dezembro!! na sequencia rolou a The Baggios que também estavam botando trampo novo no mercado, assisti [na verdade ouvi mas do que assisti] da banquinha.

então chegou nossa vez, tocamos e sabe como é, não sei dizer bem como foi, a não ser pela bateria que queria pogar e por isso eu e edmundo ficamos na frente dela quase o show inteiro.

saldo final: estrada ruim pra encontrar gente legal, uma conversa no rádio, tocar e se divertir, Elmon com seus comentários abalizados, Gonzagão e os pés inchados, Thelma tomou todas e terminou na pracinha jogando dominó e diz a lenda que com o cachê deste show Elmon comprou um tênis novo!!

fonte: SUB FOLK


Uma Noite em 2010


“Ai meu Deus/o que foi que aconteceu/com a música popular brasileira?”, perguntava Rita Lee na virada da década de 70 para a de 80 do século passado. Eu diria que virou “Música PRA PULAR Brasileira”, como dizia, num trocadilho “ixpierto”, a banda independente recifense Dona Margarida Pereira e os Fulanos nos anos 90. Brincadeiras à parte, infinitas teorias podem ser levantadas, mas eu creio que tudo pode ser resumido numa única sentença: Comercialismo. Nivelamento por baixo fruto da massificação pasteurizada. Depois da axé music, do sertanejo de Chitãozinho e Xoróró e Cia. Ltda, do pagode romântico e do É O Tchan, a música popular brasileira como a conhecíamos, aquela criativa e combativa, com conteúdo, foi reduzida a pó. Simplesmente não existe mais, ou melhor, existe, mas deixou de ser, definitivamente, popular (ou popularesca, caso prefira).

Os melhores tempos de nossa MPB estão magistralmente retratados em “Uma Noite em 67”, documentário que registra o palco e os bastidores do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record . Foi exibido pela primeira (e talvez única) vez no cinema, em Aracaju, na última Sessão Notívagos, ocorrido na data “cabalística” de 11 de setembro de 2010. Grandes músicas, grandes imagens, grandes depoimentos de grandes nomes como Chico Buarque, MPB4, Edu Lobo e, evidentemente, Caetano e Gil, na época novidades, hoje “arrozes de festa”. Excelentes discussões sobre momentos brilhantes e constrangedores, como a celebremente ridícula “passeata contra a guitarra elétrica”, da qual nosso ex-ministro, por sinal, participou, “mais em solidariedade à Elis”, segundo ele, num “desdobro” típico do político no qual se transformou. Aliás, só são ruins mesmo as entrevistas com Gil, sempre com aquele discurso tergiversado e ininteligível ruminando sobre o sexo dos anjos, fazendo “cara de conteúdo”, como bem dizia aquele bordão comercial. Até Caetano, normalmente afetado e dado a “achismos”, aqui está muito bem – provavelmente porque o assunto era pertinente e focado no que realmente interessa, no caso, a ovação que sua “Alegria Alegria” recebeu naquela noite. Ele louva o fato de Chico Buarque ter se livrado de “A Banda”, ao passo que ele não consegue descartar “Alegria Alegria”, tido por muitos (eu inclusive) como A Música composta por ele (ok, exagero, há outras melhores ou tão boas quanto, mas “Alegria Alegria” é realmente um marco, com seu ritmo de marchinha brilhantemente emoldurado por um arranjo calcado em guitarras de rock que hoje soam “vintage”, mas na época certamente eram algo super moderno e ousado). Para a nossa sorte, a música defendida por Chico Buarque não foi “A Banda”, realmente chatinha e pueril, mas a obra-prima “Roda-Viva”. Excelentes depoimentos do próprio e do MPB4 explicando os arranjos e discutindo as peculiaridades da época, como a criação de uma suposta imagem de “bom-mociscmo” para o Chico em comparação à nascente anarquia estética e conceitual dos representantes do que viria a se tornar conhecido como “tropicalismo”. No momento mais engraçado, Chico fala algo como “pra eles eu era o bom moço, alinhado, de smoking, já o general reclamava de minhas letras, que não podia falar isso, não podia falar aquilo – difícil ser “certinho” nessas condições, heim”.

Outro grande momento é a interpretação de Gilberto Gil com Os Mutantes defendendo “Domingo no parque”, assim como a revelação de que foi preciso, duas horas antes de sua subida ao palco, literalmente arrastá-lo de sua cama para que ele se apresentasse. Igualmente antológicas as cenas de bastidores, com entrevistas bizarras conduzidas pelos repórteres Randal Juliano e Cidinha Campos - esta última, diga-se de passagem, afetadíssima - e seus questionamentos totalmente “non sense”. O Rei Roberto Carlos também dá o ar de sua graça, em imagens de época, contando uma piada meio sem graça e defendendo a bonita “Maria , Carnaval e cinzas”, além de numa descontraída e bem humorada entrevista mais recente, feita para o filme.

Depois do filme, como de praxe, música Ao Vivo no saguão do Cinemark. Seria a primeira vez que eu veria no “palco” (na verdade não havia palco, as bandas tocam no chão, cara-a-cara com o público, o que eu acho ótimo) a excelente banda “folk” sergipana Road To joy. Vi apenas 3 músicas, pois foi solicitada a minha ajuda para comprar mais bebida (um bom sinal, diga-se de passagem), mas gostei bastant. Boa postura de palco, boa execução de suas belas canções, especialmente o já quase “hit” “couple fighting song”.

O público não era uma multidão, mas era gente o suficiente para animar a festa. E foi realmente uma festa a apresentação da banda gaúcha “Apanhador Só”, que possui uma sonoridade bastante original. Às vezes lembra um pouco o Los Hermanos, mas ficam longe daquela chatice melosa deles. É um show bastante animado, diga-se de passagem – destaque para o alto astral de “Maria Augusta”, que inclusive foi pedida e inexplicavelmente não atendida no bis - o que não quer dizer que os caras tenham uma postura blasé e distante do público, muito pelo contrário: são acessíveis e solícitos, além de excelentes músicos – o baterista, em especial, me impressionou, com uma pegada ao mesmo tempo vigorosa e elegante.

Grandes shows, grande noite.

por Adelvan

* * *

+ sobre "Uma Noite em 67"

Fonte: Divulgaçao

Era 21 de outubro de 1967. No Teatro Paramount, centro de São Paulo, acontecia a final do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. Diante de uma plateia fervorosa - disposta a aplaudir ou vaiar com igual intensidade -, alguns dos artistas hoje considerados de importância fundamental para a MPB se revezavam no palco para competir entre si. As canções se tornariam emblemáticas, mas até aquele momento permaneciam inéditas. Entre os 12 finalistas, Chico Buarque e o MPB 4 vinham com “Roda Viva”; Caetano Veloso, com “Alegria, Alegria”’; Gilberto Gil e os Mutantes, com “Domingo no Parque”; Edu Lobo, com “Ponteio”; Roberto Carlos, com o samba “Maria, Carnaval e Cinzas”; e Sérgio Ricardo, com “Beto Bom de Bola”. A briga tinha tudo para ser boa. E foi. Entrou para a história dos festivais, da música popular e da cultura do País.

“É naquele momento que o Tropicalismo explode, a MPB racha, Caetano e Gil se tornam ídolos instantâneos, e se confrontam as diversas correntes musicais e políticas da época”, resume o produtor musical, escritor e compositor Nelson Motta. O Festival de 1967 teve o seu ápice naquela noite. Uma noite que se notabilizou não só pelas revoluções artísticas, mas também por alguns dramas bem peculiares, em um período de grandes tensões e expectativas. Foi naquele dia, por exemplo, que Sérgio Ricardo selou seu destino artístico ao quebrar o violão e atirá-lo à plateia depois de ser duramente vaiado pela canção “Beto Bom de Bola”.

O documentário Uma Noite em 67, dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, mostra os elementos que transformaram aquela final de festival no clímax da produção musical dos anos 60 no Brasil. Para tanto, o filme resgata imagens históricas e traz depoimentos inéditos dos principais personagens: Chico, Caetano, Roberto, Gil, Edu e Sérgio Ricardo. Além deles, algumas testemunhas privilegiadas da festa/batalha, como o jornalista Sérgio Cabral (um dos jurados) e o produtor Solano Ribeiro, partilham suas memórias de uma noite inesquecível.

Notas da imprensa

"Para quem viveu aqueles anos, trata-se de um passeio pela memória; para quem, daquelas canções, conhece apenas as lendas (...), o filme é um passeio pelo Brasil que fez manifestação contra a guitarra elétrica e, calado pela ditadura, parecia disposto a vaiar quem quer que fosse, de Roberto Carlos a Caetano Veloso" (Ana Paula Sousa – Folha de S. Paulo)

"Contra a azia e a má digestão causadas pelas recentes falas de dois generais, existe um antiácido. Trata-se do documentário "Uma Noite em 67", de Renato Terra e Ricardo Calil (...). É uma deliciosa viagem" (Zuenir Ventura – O Globo) .

"O filme faz uma excepcional prospecção de imagens da época e acerta ao preservar as apresentações completas dos concorrentes" (Luiz Zanin – O Estado de S. Paulo)inesquecível.

"O filme é mais do que ‘musical’. É político, ideológico. Foi, para mim, uma experiência visceral." (Luiz Carlos Merten – O Estado de S. Paulo)

"Um programa de TV? Um ringue de luta? Uma festinha doméstica de fim de ano? Ou um microcosmo da cultura em transformação? O festival foi tudo isso e muito mais. O filme o rememora mediante reflexões reveladoras, contradições expostas e informações inéditas de bastidores. Não precisa mais que isso para se ter um bom documentário." (Carlos Alberto Mattos)

"'Uma Noite em 67' é um documentário sobre seis canções. Simples assim. O complexo, na história do filme e do Brasil, é que em torno dessas apresentações giraram e ainda giram as questões mais essenciais da nossa cultura popular." (Carlos Nader, documentarista - Trip)

"Nos divertimos muito vendo o documentário Uma Noite em 67. O formato é simples, alternando imagens da época com depoimentos recentes dos cantores, mas generoso em detalhes." (Daniel Piza, O Estado de S. Paulo)

O Festival que Mudou Tudo - O ótimo documentário ''Uma Noite em 67'' não se limita a retratar o surgimento da mais talentosa geração da música brasileira. Ele mostra como um mundo novo soterrou um Brasil velho

Por André Nigri

Fonte: Bravo!


Existem momentos em que é preciso mudar tudo para que tudo continue igual." A famosa frase do Príncipe de Salina, protagonista do romance O Leopardo, do italiano Giuseppe di Lampedusa, expressa o desencanto do personagem em relação a uma área específica: a política. No mundo da cultura, no entanto, a máxima não se aplica. Existem momentos em que tudo muda, mas muda mesmo - um mundo novo surge e, com força devastadora, transforma o antigo numa pilha de escombros. Na área da cultura pop, isso vem acontecendo agora, em que todo um sistema calcado na atuação das gravadoras foi destruído pela internet, que alterou completamente as regras de produção e distribuição de música. Um marco dessa revolução ocorreu em 15 de junho de 2009, quando a maior loja de CDs do mundo, a Virgin de Nova York - que chegara a vender 785 milhões de cópias num único ano, 2000 -, fechou as portas por falta de compradores. Outro momento de mudança radical se deu na metade dos anos 60 do século 20. Mais uma vez, uma inovação tecnológica estava na raiz da mudança: a televisão. A caixa com imagens que se moviam, criada nos anos 40 nos Estados Unidos, atingiu o poder pleno nos anos 60 e alterou radicalmente as regras da música - engendrando um novo tipo de artista e um novo tipo de público.

Um documentário que entra em cartaz neste mês reconstitui o dia que se tornaria o marco dessa revolução no Brasil. Uma Noite em 67 traz imagens vibrantes de 21 de outubro de 1967, além de depoimentos inéditos. Nesta data, ocorreu a final do 3º Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, no Teatro Paramount, em São Paulo. O filme faz mais do que contar a história daquele que ficou famoso como o melhor festival de todos os tempos - para ter uma ideia da magnitude da nova geração que surgia, os cinco primeiros lugares ficaram com ninguém menos do que Edu Lobo (com Ponteio), Gilberto Gil e Mutantes (com Domingo no Parque), Chico Buarque (com Roda Viva), Caetano Veloso (com Alegria, Alegria) e Roberto Carlos (com Maria, Carnaval e Cinzas). Mais do que alinhavar fatos, o documentário dirigido por Ricardo Calil e Renato Terra dá a exata dimensão da revolução em curso. Pode dizer que o Festival de 1967 da TV Record dividiu a música brasileira em antes e depois. Ficaram para trás os cantores que usavam terno e smoking, os intérpretes que apenas cantavam o amor e os fãs que idolatravam seus ídolos a distância. Entraram em cena roupas coloridas, compositores que, seguindo Bob Dylan, queriam provar que era possível falar sobre qualquer assunto, e fãs que iam muito além da idolatria. Mais do que adorar seus ídolos, queriam saber o que eles pensavam e o que vestiam - para, em última análise, ser como eles.

Essa revolução fica patente no filme não apenas nas imagens dos músicos se apresentando, mas também nas entrevistas de bastidores, que mostram a estranheza que esse novo mundo causava nos repórteres Randal Juliano e Cidinha Campos - representantes do que, para usar uma gíria da época, seria o suprassumo do Brasil "careta". É hilário, e emblemático, o diálogo em que Randal pergunta a Caetano Veloso o que significa exatamente o termo "pop". Randal claramente não entendeu a resposta, mas nem precisaria fazer a pergunta se olhasse para o lado e prestasse atenção na explosão de cores à sua volta. Desobedecendo a tradição, Caetano se apresentou no festival com um terno xadrez marrom e uma camisa de gola rulê laranja-vivo. Os argentinos que o acompanhavam, integrantes do grupo Beat Boys, irromperam em cena de cabelos longos, roupas cor-de-rosa-choque e guitarras elétricas. Gilberto Gil, em Domingo no Parque, usava blazer marrom e camisa branca. Até Edu Lobo, representante do bloco mais comportado, ousou um pouco: camisa de gola rulê preta e casaco azulado.

Os fantásticos depoimentos obtidos pelos cineastas - todos os personagens importantes relembram o festival, a começar pelos cinco vencedores - também são fundamentais para enxergar a época com os olhos de hoje. BRAVO! pinçou três momentos do filme representativos das mudanças em curso e resolveu detalhá-los nesta reportagem, com o intuito de melhor entender a mudança de bastão pela qual passava a música brasileira. O primeiro foi uma inacreditável passeata contra a guitarra, da qual muitos artistas e intelectuais participaram - entre eles, o jornalista Sérgio Cabral, pai do atual governador do Rio de Janeiro, que no filme reconhece ter perdido o senso do ridículo. O segundo, uma crise de Gilberto Gil momentos antes de subir ao palco para defender seu Domingo no Parque. O terceiro, as imagens recorrentes das fãs na plateia, representadas aqui por uma moça que teve a divertida ideia de usar uma camiseta estampada com a letra U - vogal da vaia. O zoom sobre esses três momentos mostra os três principais elementos da revolução: o aumento do poder da TV, o surgimento de um novo tipo de ídolo e o fã participativo que lhe correspondia.

1 - Um "Big Brother" versão anos 60

Sérgio Cabral tinha razão em ficar envergonhado. Com tantas causas importantes para abraçar - entre elas a defesa da democracia, ameaçada por uma ditadura militar em vias de recrudescimento e por guerrilheiros que queriam chegar ao poder usando a luta armada -, artistas e intelectuais se reuniram no dia 26 de junho de 1967 para fazer passeata contra um inofensivo instrumento musical. O bizarro evento ocorreu na avenida Brigadeiro Luiz Antônio, em São Paulo. Numa janela do Hotel Danúbio, com vista para a avenida, Caetano Veloso e Nara Leão olhavam desolados o que ocorria, mortos de vergonha alheia.

O que parecia um evento de alto teor político - o pobre instrumento de seis cordas representaria a dominação da cultura estrangeira sobre a música brasileira - era, na verdade, uma jogada de marketing orquestrada pela televisão. Todos os artistas importantes da época eram contratados pela TV Record e tinham programas no ar. Entre eles, Jovem Guarda, com Roberto e Erasmo Carlos, O Fino da Bossa, com Elis Regina e Jair Rodrigues, e Esta Noite Se Improvisa, com Caetano Veloso e Chico Buarque. Antes da explosão das telenovelas, eles eram os verdadeiros campeões de audiência. A principal estrela da companhia era Elis Regina, conhecida como "pimentinha". Na metade dos 60, no entanto, sua audiência estava em baixa. Roberto Carlos, o líder na TV e representante da corrente que se opunha a Elis, tinha vários corpos de vantagem em relação a ela.

Para turbinar sua principal estrela, a direção da Record convocou o elenco da emissora para a abertura de um novo programa de TV ancorado por Elis, batizado de Frente Única - Noite da Música Popular Brasileira. Ficou combinado que todo mundo apareceria na estreia, cujos ingressos foram disputados a tapa pelos fãs que acorreram ao Teatro Record Centro, na noite de 26 de junho de 1967. O primeiro programa explodiu. Mas o fôlego da Frente Única mostrou-se curto. Depois de dois programas, a audiência já havia caído para índices irrisórios. Para mobilizar a opinião pública e reerguer a atração, Paulo Machado de Carvalho Filho, diretor da emissora, resolveu organizar a já referida passeata. Reuniu em seu escritório, entre outros, Elis Regina, Geraldo Vandré, Jair Rodrigues, Nara Leão e Gilberto Gil - que levou Caetano Veloso com a condição de que ele ficasse calado.

Assim, no dia 17 de julho, o elenco da emissora saiu às ruas seguido por algumas centenas de populares para um evento "de ares cívicos", como lembra Zuza Homem de Mello, técnico de som do festival e o principal historiador do período - ele é autor do fundamental A Era dos Festivais: Uma Parábola. Tendo à frente a banda da Força Pública e uma vistosa faixa onde se lia "Frente Única - Música Popular Brasileira", a turma integrada por Elis, Gil, Jair Rodrigues, Edu Lobo, Vandré, o sambista Zé Kéti e os integrantes do MPB-4 formava o pelotão de frente. Logo atrás, vinha uma multidão, que gritava: "Abaixo a guitarra elétrica!" A passeata só não repercutiu mais porque, na véspera, o general Castelo Branco, primeiro da fieira de ditadores da safra de 64, havia morrido. De todo modo, o protesto entrou para a história como um episódio patético.

A passeata, no entanto, tinha tudo a ver com o marketing que a emissora desenvolvia para os festivais. Em seu depoimento em Uma Noite em 67, Paulo Machado de Carvalho Filho diz que pensava na atração como uma espécie de arena ou novela, em que mocinhos - como Chico Buarque e Roberto Carlos - se digladiavam com vilões (talvez Sérgio Ricardo, que, vaiado enquanto tentava tocar sua música Beto Bom de Bola, irritou-se com o público e atirou o violão na plateia). De certo modo, a concepção do diretor da Record é a mesma dos reality shows dos dias de hoje, como o Big Brother. Talvez a comparação seja exagerada, mas foi justamente nessa época que a curiosidade do público pela vida íntima dos artistas começou a aumentar. Em meados da década de 1960, a Editora Abril lançou a revista Intervalo, dedicada às estrelas. Até o início dos anos 70 (que marca a inédita escalada da indústria de discos com artistas nacionais em vendagens altíssimas), a revista estampava na maioria de suas capas astros da música. Ou seja: eram os cantores e compositores as celebridades da época, e não os artistas de TV e de cinema, como hoje.

Voltando à passeata contra a guitarra: é no mínimo curioso que Gilberto Gil, que meses mais tarde iria escandalizar os puristas com as guitarras dos Mutantes em Domingo no Parque, estivesse ali. Isso ocorreu por duas razões: a convocação da TV Record e a amizade com vários dos artistas que participaram do evento, notadamente Elis Regina, com quem o cantor nutria um relacionamento especial e carinhoso. A proximidade com Elis, que precisava turbinar a audiência de seu programa, fez com que Gil ignorasse os conselhos de outro amigo, Caetano Veloso. O fato é que, num mundo dividido entre Jovem Guarda e música brasileira, Gil se encontrava igualmente cindido. Era uma época em que se esperava dos cantores algo mais do que fazer e interpretar músicas - como se verá no capítulo seguinte - e nem todos se sentiam preparados para isso.

2 - Cantores à beira de um ataque de nervos

Dois depoimentos chamam a atenção para esse aumento de responsabilidade dos artistas em Uma Noite em 67. Um deles é de Paulo Machado de Carvalho Filho, responsável pelos festivais. Ele narra um episódio ocorrido com Gilberto Gil momentos depois de ensaiar Domingo no Parque para apresentar a música na primeira eliminatória do festival. Gil deixou o teatro repentinamente (segundo Nana Caymmi, sua mulher na época, reclamando do pouco tempo para ensaiar) e voltou para seu quarto no Hotel Danúbio, onde se trancou com Nana. Paulo Machado de Carvalho Filho conta no filme que foi até o quarto e viu Gil deitado e apavorado na cama. Com a ajuda de Nana, segundo ele, levou o cantor para o chuveiro e o convenceu a participar da eliminatória. Solano Ribeiro, o homem que idealizou e dirigiu os festivais da emissora, corrobora o fato. Gil estaria, segundo eles, com algo parecido como um ataque de pânico.

No filme, o próprio Gil assume que estava apavorado. Provavelmente por razões que iam muito além de insatisfação com os ensaios. Ele simplesmente não sabia de que lado se posicionar. Gil havia inscrito a música Domingo no Parque no festival como uma canção meio regional. Foi aconselhado por Caetano Veloso, no entanto, a incluir no arranjo os até então desconhecidos Mutantes - os irmãos Arnaldo e Sérgio Baptista e Rita Lee -, antenadíssimos com o rock norte-americano e inglês. Com isso ele se viu dividido entre o mundo das canções de protesto, com o qual sua composição flertava, e o projeto colorido de Caetano - que entraria para a história com o nome de Tropicalismo. Pior ainda: levando ao palco várias das guitarras contra as quais, ao lado de Elis, havia protestado. Sem saber para que lado ia, Gil teve um estresse. Em Uma Noite em 67, ele diz: "Eu não queria brigar, não queria mexer com o que estava acontecendo. Sabe como é, eu sempre fui meio uuuoooooommm. Sempre quis compartilhar, somar, e não dividir".

O estresse de Gil é reflexo de uma época em que era exigido dos artistas, pela primeira vez, que se posicionassem. Isso começa com Bob Dylan, o genial poeta norte-americano que começou a cantar questões políticas inspirado por seu ídolo Woody Guthrie - o bardo country em cujo instrumento se lia o slogan "Essa guitarra mata fascistas". Essa nova postura do pop se cristalizou em 1966, o ano antológico em que, querendo alcançar o nível de Dylan, as duas maiores bandas da época lançaram obras-primas: os Beatles, com Revolver, e os Beach Boys, com Pet Sounds. Isso significa que a tendência do "músico pop pensante" chegou ao Brasil cedo, um ano depois, levando em consideração que o mundo era bem menos intercomunicado do que hoje. Parte disso ocorreu por causa da efervescência universitária. Em seu livro Verdade Tropical, Caetano Veloso resume o ambiente estudantil brasileiro como "altamente politizado". Lembrando o episódio do piripaque de Gil, ele escreveu que o cantor ficou sem falar sobre o assunto com ele nos meses seguintes, até que um dia se abriu e disse: "Eu sentia que nós estávamos mexendo em coisas perigosas".

3 - A moça da camiseta com a estampa em U

A jovem e bela Telé Cardim (cujo nome de batismo é Clélia) tinha 22 anos em 1967, estudava jornalismo na Faculdade Cásper Líbero de São Paulo, e assistira às três primeiras eliminatórias do Festival da TV Record (cada uma tinha 12 músicas e classificava quatro para a grande final, que apresentava as 12 melhores). Fazia um pouco de frio na manhã do dia 21 de outubro de 1967, um sábado. Telé acordou de uma noite maldormida no apartamento onde morava com a mãe no centro da cidade. Ela estava tensa, pois era persona non grata e precisava dar um jeito de entrar no Teatro Record e se misturar às 2 mil pessoas que o lugar comportava. Contou uma mentira ao se despedir da mãe no início da tarde - naquela época, nenhuma moça de boa família dizia que ia a festivais - e dirigiu-se para o Hotel Danúbio, onde encontrou Nara, Gil, Nana Caymmi, e outros artistas. Explicou a eles que o chefe de segurança contratado pela Record - o delegado Sérgio Paranhos Fleury, que nos anos seguintes lideraria o Esquadrão da Morte, um grupo de policiais assassinos - tinha vetado seu acesso por insubordinação. Seu delito: nas eliminatórias, em que havia comparecido com uma camiseta estampada com um U, ela havia espalhado bombinhas de são João no palco para fazer uma brincadeira com os artistas. Os cantores, no entanto, não estavam nem um pouco magoados. Nara emprestou uma peruca, o jornalista Carlos Gilberto Alves passou-lhe grandes óculos escuros e Gil encheu uma bexiga, que Nana colocou debaixo da blusa da moça. Disfarçada de grávida, a mais espevitada torcedora entrou no teatro lotado para ver a final ao lado de Nana.

Em sua determinação e proximidade com os artistas, Telé representa um novo tipo de fã surgido nos anos 60. Ele está interessado não apenas na música de seus ídolos mas também em suas opiniões. Não quer apenas vê-los no palco, mas privar da intimidade deles. Contribui para isso o fato de as apresentações, nos primórdios da era do pop, serem em clubes pequenos e não em grandes teatros. Um filme que flagra isso com perfeição é Blow Up - Depois daquele Beijo (1968), de Michelangelo Antonioni, na famosa cena em que os fãs praticamente dividem o palco com os integrantes da banda Yardbirds - público e plateia se esbarravam nos mesmos pubs da lendária "Swinging London". Da mesma forma, no Brasil de 1967, depois das apresentações dos festivais, parte do público - em sua maioria universitários - se encontrava para discutir os rumos da música brasileira em bares como o João Sebastião Bar, na rua Dr. Vila Nova, o Patachou, na rua Augusta, a Churrascaria Eduardo, na rua Nestor Pestana, e o Sand Churra, na Galeria Metrópole. Nesses pontos de encontro, os fãs chegavam a ouvir as canções antes mesmo de elas serem inscritas nos festivais.

O mundo mudou muito em relação a 1967. O ambiente musical que nasceu naquela época - que tinha as gravadoras e a TV como protagonistas - ruiu por completo. Hoje os selos da indústria do disco se concentram na divulgação dos grandes artistas. A televisão praticamente abandonou os musicais. O período em que eles eram a principal atração - que começou com os festivais e culminou com o programa do Chacrinha, grande patrono do rock brasileiro nos anos 80 - está enterrado.

Existem, no entanto, pelo menos duas semelhanças com aquela época. A primeira é que, na área da música popular, presenciamos o nascimento de um novo mundo, engendrado por uma nova tecnologia. Uma multidão de artistas jovens e talentosos busca seu espaço - é só conferir em vários sites da internet, entre eles o de BRAVO!, que abriga a seção Festival Permanente. Desse número, certamente serão depurados os Caetanos, Chicos e Mutantes da nova geração. A segunda semelhança é que os festivais, mesmo longe da televisão, se multiplicaram. Hoje são centenas do gênero espalhados pelo país, contemplando as mais variadas correntes. E também invadiram todos os terrenos da cultura. Existem festivais de teatro, cinema, literatura, artes plásticas... Pode-se dizer que o Brasil do século 21 se tornou o país dos festivais. Parafraseando o Príncipe de Salina, mudou tudo na cultura brasileira, mas uma coisa continua igual: a seara de talentos continua fértil - e produzindo.