segunda-feira, 13 de setembro de 2010

40 Anos sem Jimi Hendrix ...

A Morte de Jimi Hendrix - Há 40 anos, em meio a circunstâncias ainda obscuras, morria o maior guitarrista de todos os tempos

A exata causa da morte ainda é vaga e uma autópsia deverá ser realizada em Londres em 30 de setembro. Para a polícia, foi uma overdose de drogas, já que, segundo as autoridades, Jimi teria tomado nove tipos de soníferos, morrendo asfixiado em seu próprio vômito, em 18 de Setembro.

De acordo com o cantor Eric Burdon, Hendrix, que morreu no apartamento da namorada, Monika Dannemann, deixou um "bilhete de suicídio", um poema de várias páginas, que agora está em sua posse. Burdon foi o último músico com quem Hendrix tocou antes de morrer.

Burdon fala: "O poema tem coisas que Hendrix já vinha dizendo, mas que ninguém escutava. Foi um bilhete de 'adeus' e um de 'olá'. Não acho que Jimi tenha cometido suicídio do jeito convencional, só decidiu ir embora quando quis."

Burdon apareceu no canal BBC em 21 de setembro - três dias depois da morte de Hendrix - dizendo que Jimi "se matou". Naquele dia, não mencionou o poema que informou à Rolling Stone dois dias antes. A autópsia deveria ter sido feita em 23 de setembro, mas no dia seguinte à aparição de Burdon na TV foi adiada em uma semana (Burdon se recusa a mostrar o poema).

"Não acredito que tenha sido suicídio", afirma Michael Jeffery, empresário pessoal de Jimi. "Simplesmente não acredito que Jimi Hendrix tenha deixado seu legado para Eric Burdon continuar. Ele era uma pessoa muito peculiar."

Hendrix passou a noite de quinta-feira, 17 de setembro, no quarto de Monika Dannemann, uma pintora alemã, no Samarkand Hotel. Ela o encontrou em coma na manhã de sexta-feira e chamou uma ambulância, que chegou ao hotel na Landsdowne Crescent, no bairro de Notinghill Gate, e o levou para o Hospital St. Mary Abbot's, onde foi pronunciado morto na chegada, às 11h45, horário de Londres. A polícia afirma que estavam faltando soníferos em um frasco no quarto de Monika, alugado por ela em meados de agosto por seis semanas e que Hendrix havia tomado algumas pílulas antes de dormir na noite anterior. O restante foi levado como evidência.

Hendrix estava na Europa desde que tocou no Festival da Ilha de Wight, em 30 de agosto. Foi seu primeiro show britânico em dois anos, e a Jimi Hendrix Experience (com Billy Cox no baixo e Mitch Mitchell na bateria) começou quase imediatamente uma turnê no continente. A turnê deveria terminar em Roterdã em 14 de setembro, mas essa data foi cancelada quando Cox sofreu um colapso nervoso e teve de voltar para os Estados Unidos. Noel Redding, baixista original da Experience, estava para sair de Nova York e se juntar ao grupo em Londres quando soube da morte do guitarrista.

Jimi estava hospedado no Hotel Cumberland ao lado da Park Lane desde sua chegada, no mês passado. Deveria ter feito checkout depois da noite de quarta-feira, mas pediu para o gerente lhe reservar mais uma noite. No entanto, não voltou ao hotel na quinta-feira à noite. A última vez em que Hendrix apareceu em público foi na quarta-feira, quando se juntou a Burdon e ao War no palco do Ronnie Scott's Club, em Londres.

"Sabia que ele estava mal há um ano", afirma Burdon. "Ele veio ao clube e perguntou se poderia tocar com a gente na noite seguinte, dia 16. No começo tocou mal, como um amador, usando truques de palco para esconder as deficiências, mas depois fez um solo que foi bom, e a plateia gostou. Ele saiu do palco e voltou, fazendo base para ' Tobacco Road'." Essa foi sua última música.

Há algum tempo, Hendrix vinha tentando se tornar mais independente em relação a seus negócios. Via o estúdio Electric Lady como um passo em direção a esse objetivo. Burdon diz que, uma semana antes de morrer, Jimi lhe contou que arranjaria empresários novos. "Ele reclamou várias vezes dos empresários, reclamou mesmo", conta Buddy Miles, que tocou com Hendrix na Band of Gypsies. "Não vou mentir e dizer que não sei, porque fiquei bastante com ele e o entendia de um jeito que muitos não conseguiam." Ele acrescenta: "Jimi merecia as pouquíssimas coisas que conseguiu, até mais. Quando saí da Band of Gypsies, sei que ele estava extremamente infeliz".

"Ele nunca me disse que queria trocar de empresário", responde Jeffery a essas alegações. "O que aconteceu é que nós dois estávamos nos expandindo em outras áreas, e às vezes ele precisava de muita atenção. Houve uma época em que ele queria expandir o grupo, só que metade da minha energia estava no estúdio e em outras coisas, e eu não tinha tempo para dedicar toda a minha energia para ajudar a aumentar o grupo. Sentíamos que a função tripla de empresário/artista/agente provavelmente desmoronaria, porque os tempos mudaram no show business. Algumas pessoas fora do círculo confundiram isso com descontentamento, mas não era o caso. Jimi era suficientemente inteligente e brilhante. Se ele quisesse terminar, teria feito isso", afirmou Jeffery.

"Ele falava coisas diferentes para todo mundo. Era assim, sempre mudando de ideia", disse Burdon no fim de semana. "Hendrix estava em um poço tão profundo que o único jeito de sair era parar de tocar música e tentar arrumar a bagunça. Mas ele sabia que, sem a música, ficaria destruído de qualquer forma. Percebeu que a única coisa a fazer era continuar tocando e mesmo assim morreu, porque estava sendo tolhido criativamente", completou o cantor.

Você lê esta matéria na íntegra na edição 48, de setembro de 2010, da revista Rolling Stone.

Billy Corgan - outra entrevista

Jonathan Zwickel do The Seattle Times conduziu um entrevista com o líder do SMASHING PUMPKINS, Billy Corgan.

The Seattle Times: É difícil ouvir as músicas da sua infância sem a nostalgia ou o sentimentalismo atrapalharem a apreciação da mesma.

Billy Corgan: É. Uma coisa que eu aprendi com o passar dos anos é tocar no momento em que você se encontra. Você não pode voltar. Tem que tocar essas (velhas) músicas, quando você as tocar, com uma visão de 2010. Você não pode recriar o mosh pit de 1992. Simplesmente não vai acontecer.

Tem muito material que eu tentei tocar em ensaios e eu só digo para a banda, "Não, não soa certo." A banda soa muito contemporânea, esse é o melhor jeito de descreve-la. Nós estamos na corda bamba tentando soar contemporâneos sem ficar sentimental. Eu acho que sentimentalidade com música é a morte.

No fim do dia, não importa quais sejam minhas origens, eu estou basicamente tocando uma forma bastarda de música pop. E música pop e sentimentalismo são uma má mistura. Então, do jeito que eu vejo as coisas - por exemplo, nós estamos fazendo uma versão da minha música "Star." E o modo como eu abordo isso e como eu tento cantar a letra é diferente daquele menino de 25 anos que cantou sobre abuso infantil. Estou aqui como um homem de 43 anos que tem uma nova visão sobre o mundo. Então a letra soa diferente. E eu não trato isso como um momento especial na minha vida, eu trato isso como uma coisa muito relevane que tem um significado diferente para um cara de 43 anos, em contraste com o cara de 25 anos que eu era quando a escrevi. Eu aprendi muito com o Bob Dylan sobre essa abordagem.

TST: Parece que a audiência está acompanhando a mudança?

BC: Escuta amigo, quem sabe o que a audiência acompanha, você me entende? (risos) Eu aprendi há muito tempo a fazer o que eu gosto e deixar que as fichas caíssem onde deveriam. Estou frequentemente espantado pelo jeito que as pessoas interpretam o que eu faço, para melhor ou para pior. Nesse ponto, eles vêem fantasmas onde não existem fantasmas e ouvem vozes onde não existem vozes. Estou em um lugar feliz. Estou muito entusiasmado por tocar minha música. Na minha carreira, esse é um bom momento. Eu sinto uma sensação de realização só de estar em um lugar saudável, com uma banda saudável. Fãns se empolgam com os shows. Eu só não entro mais nessa porque é uma montanha russa.

Eu tive que chegar num ponto onde como um homem eu tenho que estar bem com meu sistema e não ser pego no de mais ninguém. Porque, acredite, eu ouvi isso por 25 anos, a (palavrão) do mundo indie dizendo como você deve ser, como deve se vestir, como deve pensar, como deve agir, seus shows, sem solos de guitarra, toda essa merda. Você se cansa de ouvir isso.

TST: O sentimento contemporâneo da banda que você mencionou - parece uma boa justificativa para continuar sobre o nome SMASHING PUMPKINS, tocando essas músicas, mesmo com as críticas.

BC: Vamos examinar essas coisas um pouco. Número um, o nome da banda. Bom, todo lugar que eu vou as pessoas dizem, "É aquele cara do SMASHING PUMPKINS" (risos) Então eu sou o SMASHING PUMPKINS quer eu queira ou não. Como um indivíduo, eu gosto de ser o SMASHING PUMPKINS. Então é minha escolha, é algo que eu escolhi fazer. E acredite em mim, ser o SMASHING PUMPKINS vem com muita bagagem. Não é um patrimônio limpo.

Então eu posso estar aqui e dizer com toda integridade que eu sou SMASHING PUMPKINS porque eu quero ser. E o fato de estar lançando nova música, estou sendo um artista progressivo, estou tocando novas músicas nos shows, estou lançando música de um jeito que muitas pessoas não teriam coragem de fazer - eu acho que isso é evidente. Para mim essas questões falam mais sobre a opnião sentimental das pessoas do que o que elas querem que eu seja, preso aos CDS dos anos 90 ou algo assim. Por que o SMASHING PUMPKINS não pode continuar?

Quando Michael Jordan saiu da aposentadoria, as pessoas pensaram, "Ele está arruinando um legado!" Bem, ele queria jogar basquete" Eu só não entendo isso. Por que eu não posso fazer o que eu quero? Você é criticado como um artista se você se rende às opiniões alheias e aqui eu estou, não me rendendo e ainda sendo criticado por isso. Eu não entendo a lógica que eles seguem, mas ele não entendem a lógica sobre a qual eu vivo.

Estou feliz! Essa é uma coisa que as pessoas deviam compreender. Não estou miserável, implorando por um cheque. Estou feliz! Estou tão feliz quanto eu estava em 1996 com o SMASHING PUMPKINS. Isso não é importante? Por que as pessoas não falam sobre isso? Para mim essa é a cultura de morte que quer tudo em uma caixa organizado. E não vivemos mais em um mundo organizado. Por que o U2 não se aposenta? Eles não fizeram dinheiro suficiente? Por que os Rolling Stones ainda saem em turnê? Só há Mick Jagger, Keith Richards e Charlie Watts. Por que eles não se aposentam? Eu não entendo. Se as pessoas querem tocar e querem ir, que (expletivo) de diferença faz?

Para melhor ou pior, eu fui uma força cultural, pelo menos no meu canto do mundo, por 20 anos. E eu ainda tenho um pouco desse poder, um pouco foi adquirido, outro pouco me foi dado e o resto só me segue no mito. Mas eu ainda estou aqui fazendo coisas boas. Quero dizer, estou andando por ai como um cara de 43 anos, não bebo ou uso drogas há 10 anos. Falo abertamente sobre Deus. Estou aqui feliz, sorrindo, as pessoas me verão feliz. Qual é o problema? Não há problema. Existe um problema sendo criado de uma necessidade intelectual de se explicar algo inexplicável.

TST: A implicação é que você nunca será tão bom quanto antigamente.

BC: Ouça, não há maior insulto pra mim como artista do que basicamente dizer implícito que você nunca será tão bom quanto você foi. Minha resposta para tudo isso é (palavrão)! Volte e viva na terra dos vídeos, leia (a revista) Rolling Stone de 94 e leia sobre integridade indie, veja Kurt de pé no morro com uma camiseta "Corporate Magazines Suck". Você pode viver isso para sempre. Pra mim já deu. Estou me mudando para a próxima cidade. Você sabe? Eu tenho um cavalo diferente e eu estou cavalgando para um novo horizonte. E as pessoas que estão em volta parecem estar se divertindo.

TST: Vamos falar sobre as coisas novas. Você ouviu sobre o movimento da 'slow food'?

BC: Não.

TST: É o contrário do fast food - da fazenda para a mesa, agricultura sustentável, uma abordagem meticulosa e pensada para a comida. O que você está fazendo online - demorando quatro anos para lançar um álbum, música por música - soa quase que um movimento da 'música lenta'.

BC: Eu gostei da sua observação. Há um ingrediente chave que irá fazer desse um trabalho de longo termo: A música tem que ser fantástica. Se a qualidade baixar na terceira ou quinta ou sétima música, já era, as pessoas não voltarão. Isso põe a pressão no máximo sobre minha cabeça para que eu eleve o nível.

Adoro estar de volta no momento da pressão. Veja, quando eu era mais novo pressão era, "Você pode me dar um hino do rock? Você pode me dar uma música que irá tocar na MTV?" Todas essa pressões se foram agora, então onde eu vou achar tal nível de estresse? Eu tive que criá-lo sozinho.

Coloquemos desse modo: Eu não vou ganhar uma crítica boa do Pitchfork. Eu não vou receber esse tipo de... apoio. Eu preciso descobrir um meio de sustentar meu próprio nível de integridade baseado no meu próprio sistema de autenticidade, e não no de outra pessoa. Porque todos esses sistemas estão quebrados, quer alguém perceba isso ou não. Porque a falta de alto nível na música que vem dos show alternativos está se tornando muito precoce. E a qualquer hora que qualquer artista se torna muito precoce ele se torna precioso sobre si mesmo e então basicamente agoniza e morre. Até que alguém venha atrás e descubra um jeito de fazer isso de um modo mais fácil e divertido. Porque eles estão se tornando muito intelectuais daquele lado da cerca. E quando a música vai pra lá, isso é o pior. Isso é realmente pior que hair metal quando você atinge isto.

Traduzido por Amanda Ribeiro

The Seattle Times

Whiplash

sábado, 11 de setembro de 2010

DEBATE EM ARACAJU

Não, não é um encontro entre candidatos para discutir o sexo dos anjos. É um show de rock que acontecerá no próximo dia 19, um domingo, no Capitão Cook. Na ocasião, a The Baggios estará lançando seu novo clipe, e os presentes poderão presenciar uma rara apresentação ao vivo da sensacional banda de música roque instrumental sergipana "perdeu a lingua".

Compareçam, animais.

Um pouco mais sobre o "Debate" abaixo:

Ele diz que chorou na apresentação da banda inglesa Gang of Four e descreve o show do grupo de Chicago Tortoise como “um procedimento cirúrgico”. Se essas pistas não forem suficientes para decifrar o tipo de som que o músico Sérgio Ugeda faz com sua banda, o Debate, melhor escutar o disco (sem título) do trio paulistano para tirar as próprias conclusões. Com vocais gritados e improvisações instrumentais, a banda explora o rock em suas diferentes possibilidades, fazendo as conexões mais improváveis: do pós-punk norte-americano ao jazz holandês.

“Acho que a nossa abordagem é diferente”, diz Sérgio. “O Richard (que também é integrante do São Paulo Underground, ao lado de Rob Mazurek e Mauricio Takara) está mais ligado à improvisação, já o Marcelo curte bandas norte-americanas como o Superchunk e o Channels, e o resultado é o Debate. A questão não é o que a banda faz, e sim o que cada música é”, despista.

Quanto aos vocais, em português e às vezes ininteligíveis, diz Sérgio: “Eu não sei cantar, e o recurso do grito é uma maneira de contornar isso. É mais fácil ver o vocal como mais um elemento na música. De qualquer forma, um dos nossos objetivos é capturar a atenção das pessoas pela identidade. Os bons discos são assim: cada vez que você escuta percebe algo de novo, soa fresco.”

Lígia Nogueira, do G1, em São Paulo

http://www.myspace.com/debatebate

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

# 160 - 10/09/2010


Jerry Lee Lewis – Mean old man
Manic Street preachers – postcards from a Young man
Blackmore´s night – Believe in me

Aerocirco (Ao vivo no Sala Especial Loaded)
• Última Estação
• Liquidificado
(Drop Loaded)

Dead Kennedys – Holliday in Cambodia (single version)
Jello Biafra & The Guantánamo School of medicine – New Feudalism
Jello Biafra & Mojo Nixon Whit the Toadliquors – Atomic Power
Melvins & Jello Biafra – Enchanted toughtfist (Enchanted al remix)
LARD – The Power of ...

Laibach - The Final Countdown
Big Black - The Model

Road To joy – Little old town
Apanhador Só – Maria Augusta
A Banda de Joseph Tourton - # 2

Bright Eyes – Four winds
Connor Oberst and The Mistic Valley Band – Moab
Neva Dinova – Funeral Home
Yodelice – Free
(por Gus Machado)

Casa das Máquinas - vou morar no ar

The Smashing Pumpkins – Bullet with Butterfly wings
Dinosaur jr. – What else is new
Radiohead – Karma Police

Discharge – Hear Nothing See Nothing Say Nothing
Bad Brains – Big Takeover
Vice Squad – Young Blood
Infa Riot – Catch 22

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Abaixo uma entrevista com jello Biafra dos Dead Kennedys originalmente publicada em 2006 na revista Trip, aqui numa versão mais completa.

Do Blog Fudeus

Vai estudar, punk!

Caros leitores, começando neste blog as comemorações que precedem a chegada do Imperador George II em terras brasileiras, abaixo vai uma entrevista exclusiva feita com o lendário Jello Biafra no meio do ano passado. Foi publicada em versão reduzida na Trip em uma edição especial dedicada à riqueza e dinheiro. Aqui em Fudeus, vem mais gordinha e saborosa, com figurinhas diferentes e links úteis para o leitor de tempo livre.
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Um telefonema brasileiro para os EUA gera dinheiro e tributos para este país. Até na ligação atendida pela secretária eletrônica de Jello Biafra, o governo americano ganha dinheiro. Dinheiro que, de acordo com a tal gravação de voz grave, ajuda a alimentar uma perversa máquina de guerra que está fadada a arruinar o império estadunidense. A voz gravada de Jello explica dois ou três fatos recentes que faz do gabinete de Bush um reduto nazista.

Beeeeeeeep.

- Alô, Jello? …. Jello?

- Alô! Sim, sim. Posso falar agora. Seu gravador está funcionando?

- Está sim.

- É melhor você checar. Confira e me ligue em seguida.

Jello Biafra hoje um homem de 48 anos que acha o dinheiro uma das drogas mais perigosas. Que não fala nada sem prensar, cita datas e sobrenomes de governantes com requintada precisão. Que articula cada silaba em andamento leve e ritmado para que seus interlocutores o entendam bem. O homem que é um dos mais cáusticos e influentes críticos da política de seu país natal, insuflando idéias socialistas e revolucionárias para centenas de milhares de jovens há mais de 20 anos. Que já se candidatou a prefeito de San Francisco há quase 27 anos. Um homem que passa seu dia lendo e escrevendo tanto que não tem tempo nem para usar computador. Nem tem computador ou e-mail. Que, pela descrição acima, não passaria de um arcaico professor de esquerda.

Acontece que é o mesmo homem que pode ser considerado o maior punk vivo.

Ele vive perto de San Francisco em uma casa própria sem muito luxo. Tem gravadores, tintas, cola, muito papel para um de seus passatempos favoritos: colagens. Tem também uma enorme biblioteca de livros de história e política. Política, aliás, sempre foi o assunto favorito de Jello. Até porque, para ele, política e música não são coisas lá muito diferentes. Desde que chegou à fama com os Dead Kennedys, suas letras, fúria e uma incendiária ironia estão à serviço da resistência. Resistência ao disfarçado totalitarismo que, segundo ele, fez dos EUA o triunfo do facismo.

Mais um telefonema que cai na secretária. A voz irônica, como se falasse com crianças, repete os fatos. Halliburton, a empresa que mais gerou executivos no gabinete Bush (incluindo o vice Dick Cheney, ex-presidente da corp.) , a que mais lucra com a “reconstrução do Iraque”, que ganha dinheiro com óleo, construção civil e militar, instalação de usinas nucleares e insumos para armas de alto poder, agora está tomando perigosas ações para um escrutínio genético em presos. Jello quer certificar-se de que meu gravador também entendeu o recado.

Beeeeeeep.

- Alô,.Bruno? Podemos?

Jello adora falar ao telefone. E adora falar. Mesmo quando enumera vitórias de seus desafetos ele parece sentir certa alegria vaidosa, comum nos homens coerentes. Como ao se referir aos próprios “colegas” dos Dead Kennedys, hoje inimigos declarados.

Ele ri ao contar como foi traído e usurpado de suas próprias composições depois que a banda promoveu uma caríssima batalha legal para reter o controle sobre a obra dos DK. Hoje ele não manda nos direitos, é obrigado a ver a banda em turnê em festivais pagos por corporações com seu rosto nos cartazes. E recomenda fortemente: não vá aos shows dos Dead Kennedys nem compre os discos.

Vez ou outra recebe alguma grana desses dividendos, que já tem destino certo: cobrir o inevitável saldo negativo de seu selo musical, Alternative Tentacle Records, que lança as bandas do underground americano que Jello e sua equipe apostam. Punks? Nem sempre. Música criativa, diz ele, que entre um livro e outro pode gastar tempo escutando country music, trilhas de filme, bluegrass, Mutantes ou uma nova descoberta – Dodô e Osmar.

O selo, como dito, nunca deu lucro. OK. Para um sujeito que pode ser tudo menos capitalista, seus debêntures vermelhos não passam de uma prazerosa despesa capaz de resgatar a felicidade de velhos músicos trajados de astronautas (é sério, vai lendo).

A ligação de uma hora chega ao fim. R$35,00 o custo, direto para a conta de uma grande corporação. Quanto disso vai para o governo americano não se sabe ao certo. O certo é que olhar para o chão e ver meus tênis americanos me fez suspirar. E certeza é de que Jello vai seguir firme, mesmo que a guerra já esteja perdida, lançando discos, discursando e esvaziando seus bolsos para convencer a molecada que o segue como um pastor humanista de que a última coisa que o dinheiro traz é felicidade.

Silêncio. Tomem tempo e tomem notas. A aula vai começar.

Você acredita em Deus, Jello?
Isso é da minha conta.

É uma pergunta pessoal demais?
Como eu disse… isso é da minha conta. Principalmente porque muita gente nos EUA com quem eu debati, até na TV, que queriam censurar músicas porque as consideravam satânicas, se recusam a escutar opiniões de pessoas que não acreditam no mesmo Deus que dos censores. Minha opinião agora é a de que crenças espirituais é algo pessoal demais.

Partindo desse ponto, você acha que o governo americano é realmente cristão ou é apenas uma desculpa para esconder outros interesses?
É uma combinação dos dois. Mussolini usava a igreja quando era conveniente, assim fez Geisel no Brasil nos anos 60… Mas depende da pessoa e do governo. Quer ver? O ex-secretário de justiça dos EUA, John Ashcroft, é um pentecostal fanático que acredita que assistir filmes e dançar em bailes é um pecado terrível. Ele teve o cargo mais alto da justiça americana, e nomeava juízes todo besuntado em óleo, pois era um ritual pentecostal de sua Assembléia de Deus. Ele tentou transformar o Greenpeace em uma organização criminosa nos EUA. O próprio presidente, Rei George II, era um alcóolatra e viciado em drogas. Quando ele largou isso se tornou um fundamentalista cristão, substituindo um opiácio pelo outro. Mas o que realmente assusta são os fanáticos no poder que acreditam no Juízo Final iminente. Por isso acham que as fronteiras de Israel devem ser expandidas para esperar a segunda vinda do Messias. Do meso jeito o presidente do Irã acredita que estamos perto do fim, e que o Messias dele está voltando também.

Eles estão contando com o Armagedom?
Quer um exemplo? Isso é assustador demais. Bob Woodward, o cara que desmascarou o escândalo de watergate, perguntou para Bush se ele imaginava como a história julgaria seu governo. Ele respondeu: “Que história? Nós todos estaremos mortos.” É um sujeito tão estúpido que nem percebe que não é o presidente, que Dick Cheney manda no mundo. E esse adora plantar na cabecinha burra de Bush que para Jesus voltar precisamos do Armagedom mesmo. De uma guerra final. Muita gente diz que parece uma coisa de Nero, do fim do império romano, mas eu me lembro realmente de Francisco Solano Lopez. Ele herdou o Paraguai do pai e fez tantas guerras megalomaníacas que arruinou seu país. Bush é assim.

Falando assim você parece dizer que estamos começando uma terceira guerra mundial.
Talvez sim, mas isso se diz há muito tempo.

Há pouco correu uma informação de que Hugo Chavez disse ao presidente do Irã que guardaria na América do Sul eventuais ogivas nucleares produzidas por lá.
Bem, eu acho que o mundo seria mais seguro se Hugo Chavez tivesse armas nucleares em vez do presidente do Irã. Porque acho que Chavez não as usaria. Mas se ele realmente disse isso, porque eu não creio em nada do que a imprensa fala em geral, acho que foi apenas para parecer legal e irritar o Bush. Se ele realmente fizer isso, eu acho que os EUA invadem a Venezuela e acabam com ele rapidinho. E eu odiaria ver isso.

Você então simpatiza com a esquerda da América do Sul?
Sim. Sei que Lula e Chavez são muito contra a ALCA. Isso é ótimo, porque se o primeiro mundo que tem todo o dinheiro e armas já foi dominado pelas coorporações, o terceiro mundo ainda carrega esperança para parar essas empresas de dominar o mundo todo e controlá-lo como uma ditadura feudal.

Os EUA estão à beira da ruína?
Acho que a grande questão agora vai ser se a queda do império americano será extrema e cruel como a queda de Roma ou a da União Soviética ou se será lenta como a do Império Inglês quando as pessoas sentiram alívio pelo fim da opressão sem uma grande tragédia econômica. Eu acho que é cedo demais para dizer. Acho que pode ser durante nossa vida ou pode ser lento e assustador como o próprio processo que fez as corporações tomarem o mundo.

Você vota?
Sempre voto no partido verde e em candidatos radicais para presidente e outros cargos. Mesmo que eles não ganhem, eu prefiro votar em algo que eu quero e não ganhar do que votar em algo que não quero e ganhar.

Então você acredita em democracia?
Eu acredito em democracia, mas não acho que vivemos em uma. Os EUA é uma democracia administrada por empresas, onde até a imprensa é domada. Muito parecido com a Rede Globo no Brasil. Significa que as pessoas têm uma ilusão de escolha entre partidos, mas não interessa em quem eles votem, o povo perde e as corporações ganham. E a imprensa nunca cobre as eleições locais, mesmo em noticiários pequenos. E pra mim as eleições locais acabam sendo as mais importantes porque é onde o dinheiro é gasto no fim das contas. Eu sempre digo para meu público que se a gente se organiza e vota maciçamente em candidatos bons, temos uma chance de ter boas leis novas.

Você pensa em se candidatar de novo?
Eu fui candidato há muito tempo, para a prefeitura de San Francisco em 1979. E nem naquela época eu planejei ser candidato, só veio a idéia na minha cabeça quando o baterista dos Dead Kennedys disse que eu falava tanto que deveria ser candidato à prefeitura e eu disse, “ok, sou candidato”. Depois o falatório foi tanto que eu não pude recuar. Escrevi minhas plataformas em um guardanapo em um backstage. Algumas eram bem boas: como a polícia deveria ser eleita nos distritos que ela patrulha. Assim elas seriam menos racistas e defenderiam sem muita injustiça suas jurisdições.

Você já pensou em deixar os EUA?
Minha resposta é não. Esse é um país tão estranho e bizarro que eu não gostaria de morar em outro lugar. Onde mais um fundamentalista cristão queima um coelho da páscoa gigante em uma praça alegando ser um ídolo profano e é preso porque e fumaça poluiu o ar? Isso aconteceu mesmo. Eu não me daria bem no Brasil sem falar português e não sei se há por aí boa comida mexicana. Mas me lembro bem de como a comida italiana era boa em São Paulo. Aliás, me impressionou muito como os brasileiros comem tanto!

Sério?
Eu fui em uma cantina e trouxeram pães, depois uma salada enorme, depois uma tigela gigantesca de massa e depois um prato principal. E todo mundo come tudo isso e não engorda. Apesar do João Gordo não ser exatamente assim…

Mas você sabe que o Gordo mudou bastante? Emagreceu, faz exercícios.
Isso é bom. Queria encontrar com ele novamente. Ficamos bem amigos em 1992 quando fui ao Brasil.

Recentemente o próprio Gordo foi patrocinado pela Nike para correr uma maratona. E as marcas parecem gostar cada vez mais de associar sua imagem ao punk e a comportamentos subversivos como forma de parecerem “cool”. Como você lida com isso?
Isso eu não sabia sobre o João. Eu acho que cada artista deve decidir como lidar com esse assalto das corporações, mas um dia eu recebi um disco de uma banda brasileira chamada Gangrena Gasosa e fiquei chocado com a quantidade de logotipos de empresas no encarte. Entendo que o Brasil é pobre e que as pessoas precisam arrumar dinheiro, mas, no meu caso sou radicalmente contra isso. [Nota de Fudeus: Na verdade Jello se enganou. Os logotipos no encarte do Gangrena na verdade são paródias aos logos reais das empresas, uma crítica ao patrocínio.] Minhas músicas e minha pessoa não são feitas para serem feitas de comercial. Por isso eu sou cruelmente punido pelos meus ex-colegas do Dead Kennedys.

Como assim?
Eles recorreram a grandes advogados e me processaram durante seis anos porque eu não deixei “Holiday in Camboja” servir de trilha para um comercial da Levi´s. Eu disse pra eles no tribunal: “se quiserem ser prostitutas das corporações tanto assim, escrevam vocês as músicas.” Mas eles deram um jeito de dizer que as músicas eram deles também e o júri engoliu. Os direitos agora pertencem aos Dead Kennedys e são controlados por uma firma que não respeita a posição original da banda. Eu não posso decidir onde minhas músicas e minha voz serão usadas. A banda virou republicana. Os caras tocaram em um festival patrocinado por uma cerveja que patrocina políticos de extrema direita. Agora eles ainda fazem turnês com um vocalista que parece o Vanilla Ice e colocam minha foto nos anúncios.

E você ganha dinheiro disso?
Ganho algum dinheiro. Mas não sei se é todo o dinheiro que eu deveria receber, já que não posso ver a contabilidade.

Você fica com a grana?
Se eu não ficar com esse dinheiro eles ficam com tudo. Não acho errado eu ganhar esse dinheiro, ainda assim me sinto roubado. Porque a coisa não está sendo administrada como os Dead Kennedys, mas sim como o Blink 182.

E como você gasta seu dinheiro “excedente”?
Eu gastei muito do que ganhei com meu selo, ajudando outros artistas. Algo que adoro fazer: dar ao público esse monte música legal que está sendo feita. Meu selo, Tentacle Records, nunca, nunca deu lucro. Todo mês eu coloco dinheiro no selo, pago aluguel, ajudo bandas… É o que mais gosto e tem muitas recompensas.

Tipo o que?
Por exemplo. Eu achei uma fita de uma banda dos anos 70 chamada Zolar X. Uma banda totalmente genial, bizarra, de uns caras que usavam roupas de astronautas mas nunca lançaram esse disco. Meu selo desenterrou esse álbum e eles voltaram à ativa, muita gente vai a seus shows, e estão gravando um disco novo. Mas o que me deixa feliz mesmo foi ver o guitarrista deles, que era um homem triste e quebrado morando no deserto, hoje feliz, compondo novas canções e usando novamente sua roupa de astronauta. Fazer isso por uma pessoa que tinha desistido da própria vida é demais. Isso me inspira muito.

Você é um homem rico?
Não (silêncio). Eu não nasci rico, meu pai era assistente social e minha mãe bibliotecária. Mas eram muito bons em lidar com dinheiro. A gente não gastava com coisas de luxo e brinquedos, mas guardaram dinheiro para viagens e faculdade. Hoje eu tenho mais dinheiro do que muita gente do underground e tento não guardar mais dinheiro do que o necessário.

Tem gente que se ressente disso?
Hoje eu sou cobrado pelo que tenho pela comunidade punk underground. Parte é ressentimento pela minha banda ter tido sucesso. Mas eu nunca tive mansão ou andei de limousine. Nunca foi esse o jeito que eu quis levar a vida. O curioso é que normalmente quem condena a grana e me acusa de vendido, são brancos de classe média. Enquanto isso as pessoas que fazem música vinda das partes realmente pobres da sociedade, como muito do hip hop, estão muito mais preocupados em ganhar muito dinheiro e exibir carros de luxo e correntes de ouro, coisas assim. Isso me confunde e me desaponta.

A cena punk é decadente?
Depende. Por um lado sim. Tem tanto punk diferente, estilos, modos de vida. E acho que muita gente prejudica a criatividade e a solidariedade do underground por rotular tantos gêneros e discriminá-los. Acho que as pessoas teriam mais a ganhar se escutassem e criassem músicas sem pensar a que categoria elas pertencem. Talvez por isso mesmo o punk brasileiro seja tão interessante. A primeira vez que escutei Ratos de Porão e Olho Seco eu fiquei chocado com aquele som de guitarra que parecia uma serra elétrica. A técnica de gravação era horrível, mas eles não tinham outro jeito de fazer. Hoje muita banda tente fazer aquele som e não consegue. Isso me cansa tanto, escutar tanto moleque tentando imitar o que já fizemos a tanto tempo e ignoram novos sons.

E o que você tem escutado de bom hoje em dia?
Fiquei muito feliz de ganhar o disco novo do Pupilas Dilatadas, de Porto Alegre. O baixista deles me apresentou também músicas de trio elétrico, Dodô e Osmar, coisas assim. Eu nunca escutei nada assim. É tão estranho e maluco. A única coisa que eu posso comparar é o bluegrass americano, mas só porque são pessoas tocando com instrumentos pequenos e muito, muito rápido. Cheguei até a combinar com o Max do Sepultura de montar um trio elétrico de metal. Seria demais, mas nunca tive tempo. Outro dia estava em Nova York e me deparei com uma placa anunciando show dos Mutantes. Eu tive que ir. E fiquei chocado com eles. Poderia ser aquelas turnês deprimentes de bandas velhas, mas eles estavam tão felizes e à vontade. Parecia música clássica de tão preciso e ao mesmo tempo tão natural e improvisado.

Você dedicou todo seu trabalho a instigar pessoas a reagir a um mundo injusto. Acha que as pessoas tem ânimo para mudar o mundo?
As pessoas pobres e os países menos favorecidos têm mais ânimo. Aí no Brasil mesmo vocês tem movimentos grandes como o MST, o Fórum de Porto Alegre que os EUA ignoram simplesmente. Por outro lado, aí mesmo no Brasil, eu vi uma pessoa jogando fora um monte de sacos plásticos quando chegou em casa e disse que fazia isso porque a economia estava indo bem e que agora o brasileiro já tinha o direito de desperdiçar. Eu procuro não pensar na humanidade como um todo e me inspirar e torcer pelos milhares que protestam no mundo inteiro para achar um jeito diferente de organizar o mundo.

Você se considera pessimista?
Todos esses rótulos eu tento evitar e pensar de assunto em assunto. Se eu sou anarquista? Não exatamente. Se eu sou socialista? Talvez sim, mas não em todas as áreas. Eu tento basear minhas opiniões, minhas crenças e meu voto no que faz sentido.

Você é um homem feliz?
Ás vezes.

Mas se tivesse que responder sim ou não…
Não sei. Todo mundo na minha família é inclinado à depressão e eu não sou diferente. Mas eu tenho orgulho das minhas conquistas. Às vezes eu encontro gente com quem estudei, velhos amigos, antigos companheiros de música e vejo o que eles fizeram com as vidas deles e olho para quantas fabulosas e bizarras aventuras eu tive minha própria vida e percebo que as coisas deram certo pra mim no fim das contas. Mas ainda sinto que falta muito para fazer ainda. Ainda gosto muito de surpresas.

Para saber mais de Jello, aliás, Eric Reed Boucher, entre em sua empresa: www.alternativetentacles.com

punk é punk mesmo ...

A internet já me proporcionou algumas experiências marcantes, como poder ouvir, finalmente, a "musica" de Daminhão Experiença e ver (em vídeo, claro) a absolutamente perturbadora e assustadora perfomance ao vivo de GG Allin, duas criaturas das quais eu ouço falar desde os primórdios de meus tempos de "roqueiro" e que, não fosse pela rede, muito provavelmente nunca tomaria contato com sua "arte" (ou o que quer que seja aquilo). Tá, ok, uma locadora de CDs daqui de Aracaju tinha um disco de GG Allin disponível nos anos 90, mas a música é, sem sombra de dúvidas, o que menos importa no caso. É preciso ver para crer, e eu vi, graças ao meu amigo Cabelo, que me passou dois shows do niilista-mor na íntegra. Fiz algumas sessões lá em casa, inclusive com as criaturas mais toscas que há por estes lados, e todos, sem excessão, saíram impressionados. São dois shows totalmente diferentes um do outro: no primeiro, a audiência é mais comportada e há uma debandada geral à primeira agressão gratuita de GG a um desavisado que ousou ... existir. Mas o salão esvazia mesmo por completo quando ele, não sem um certo esforço, defeca em pleno palco, se mela com as próprias fezes e parte pra cima do público. O povo corre e fica amontoado na porta vendo o show de fora da casa. De vez em quando ele vai lá e arrasta algum moleque pra dentro pelos cabelos e o espanca sem dó nem piedade. E é isso. O outro show é bem mais curta, porque alguns integrantes do publico já vieram preparados e partem pra cima do maluco antes que ele possa terminar a primeira "música", o que provoca uma confusão generalizada que inviabiliza a apresentação. Vi também o antológico documentário HATED, do qual destaco uma cena de uma "palestra" "ministrada" por GG em que ele primeiro conclama que todos fiquem nus no recinto, e ao não ser obedecido, passa a jogar cadeiras na audiência. Os que ficam sao brindados pela bela imagem dele enfiando bananas no cu para depois recolher os pedaços esmigalhados e lançá-los na platéia - um verdadeiro show de bizarrices que só é interrompido pela intervenção da polícia.

Se eu fosse você, eu não tentaria "entender" GG Allin. Divirta-se, ou ignore-o. Analisar seu comportamento é perda de tempo ...

A.

* * *

Frente a frente com G.G. Allin, o suicida hesitante - Estreando a série “Frente a Frente”: um relato sobre o punk que levou a imundície ao rock.

por André Barcinsky

Corria o ano de 1993. Eu estava em Seattle para cobrir um festival de música, quando uma notícia num jornal local chamou minha atenção: naquele dia tinha show de G.G. Allin!

Fatos como esse eram raros. G.G. Allin tinha mandados de prisão em pelo menos 15 Estados americanos, e raramente se apresentava ao vivo. Ele saíra há pouco da cadeia, onde cumprira dois anos por atear fogo à namorada na frente do sogro.

Para quem nunca ouviu falar de Allin, sugiro dar uma busca rápida na web e assistir ao documentário “Hated”. Ou a alguma das engraçadíssimas aparições de G.G. nos programas sensacionalistas da TV americana, onde ele se dizia “o Messias” e aterrorizava pais prometendo “liderar seus filhos numa revolução contra o governo, a polícia, a igreja e a sociedade”.

O cara teve uma vida e tanto. Filho de um caipira tarado e fanático religioso que o batizou de Jesus Christ Allin, G.G. tornou-se um ícone da cena punk extrema. Sua música sempre foi uma porcaria, mas suas atitudes no palco fizeram dele um astro em alguns círculos.

Os shows de Allin eram festivais de sadismo e excrementos. Ele se cortava, defecava e urinava no palco e na platéia, surrava fãs, apanhava de outros, botava fogo no palco e andava pelado para todo canto. Em 1988, prometeu que cometeria suicídio em um show na noite de Halloween. Só que o dia chegou e ele estava em cana. No ano seguinte, continuava no xadrez. Mais um Halloween chegou, e G.G. continuava preso.

A cada show, o público lotava o lugar para conferir se Allin ia cumprir a promessa. Mas ele nunca chegou às vias de fato. “Só vou me matar quando chegar no auge”, dizia.

Separei aqui alguns trechos de um artigo que escrevi sobre o show na “Bizz”, em agosto de 1993 (obrigado ao Elson Barbosa por ter me enviado a reportagem):

“O show foi no clube Under the Rail, em Seattle. Pelo menos metade da platéia era Hell's Angels ou similares. O show foi aberto pelas bandas Lesbian Muff Divers (Lésbicas Chupadoras de Xoxota) e The Sound of Fuck (O Som da Foda).

Pergunto a G.G. sobre sua nova excursão e ele se mostra pessimista: "Não posso tocar em lugar nenhum que a polícia está sempre atrás de mim. Tenho convites para shows no Canadá, mas não me deixam passar na fronteira. E, se eu por acaso passar, os Estados Unidos não me aceitam de volta!".

Sobre a mania de degustar os próprios excrementos e distribuí-los aos fãs, G.G. disse: "Me considero um deus do rock'n'roll. Por isso, meus fluidos e excrementos também são sagrados. Eu como minhas fezes porque não quero deixar fluidos sagrados perdidos por aí, em qualquer lugar".

Mas ele também tinha senso de humor: no meio do show, pegou um pôster de Eddie Vedder, rasgou o rosto do cantor e introduziu o pinto no papel. Cantou uma música inteira com Vedder pendurado no bilau.

No final do show, G.G. pegou um litro de álcool e tacou fogo no palco. O espetáculo terminou com os bombeiros em desespero tentando apagar as chamas, enquanto ele, pelado, continuava a cantar, mesmo depois que todos os outros membros da sua banda já haviam fugido do palco.”

G.G. Allin nunca cumpriu a promessa de se matar no palco.

Em 28 de junho de 1993, em um show em Nova York, G.G esmurrou um cara na platéia e uma briga violenta degenerou por todo o clube. A polícia chegou e prendeu um monte de gente. Mesmo pelado, o cantor saiu pela porta da frente e andou quatro quarteirões até a casa do líder da banda Genocide, Jimmy Puke (Jimmy Vômito). Quatro horas depois, estava morto de uma overdose de heroína.

Sua morte foi chorada por amigos e fãs. Bom, na verdade, o velório foi um festão: Allin foi colocado no caixão pelado e com uma garrafa de Jim Bean na mão. Amigos e fãs passaram o dia todo zoando o cadáver e tirando fotos obscenas com ele. Uma farra.

Uns dois anos depois da morte de G.G. Allin, eu estava andando por uma feira de antiguidades no Chelsea, em Nova York, quando vi uma comoção na rua: pessoas revoltadas se juntavam na calçada, xingando alguém. Era Merle Allin, irmão mais velho de G.G. e baixista de sua banda, Murder Junkies. Ele estava vestido de soldado nazista, com capacete e bigodinho de Hitler, e andava tranquilamente com a namorada, de mãos dadas, apreciando as antiguidades.

Fonte: BLOG do André

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Festa Punk


Recordar é viver: Um texto de Pitty sobre seus tempos de "underground" ...

Bateu uma nostalgia enorme assistindo o Botinada hoje. Esse documentário dirigido por Gastão Moreira conta a história do punk rock no Brasil. Tem entrevistas com integrantes daquela cena e imagens sensacionais da época. Assistindo me lembrei exatamente do por quê de eu ter entrado pro Inkoma, mais ou menos uns quinze anos atrás.

O sentimento contido nas bandas daquela época (1976-1984) era exatamente o meu nos anos 90. Muitos anos depois, lá estava eu em Salvador sentindo o mesmo que eles: a total inadequação, a perplexidade diante das regras absurdas de uma sociedade podre, a raiva de ter que sobreviver a qualquer custo, enfrentando um ônibus lotado todos os dias pra ganhar um salário minguado no fim do mês, o ser discriminado pela aparência, roupas, posses. E a vontade de gritar contra tudo isso bem alto, mesmo sem ter instrumentos ou saber tocar direito. Eis aí a função dos emblemáticos três acordes: eles tornavam a coisa possível pra qualquer um que tivesse algo a dizer. Não precisa ser um gênio musical pra se expressar, aprenda três acordes básicos e consiga botar pra fora tudo o que te aflige. Essa era a arma. Os meu heróis na época eram, antes de mais ninguém, os Ramones. E mais os Pistols, Inocentes, Cólera, RDP, Olho Seco, Replicantes, Stooges. Tudo o que fosse rápido, tosco e sujo me atraía. Depois veio Dead Kennedys e Bad Brains, que até hoje são duas das minhas bandas prediletas de todos os tempos, mas aí já tinha virado hardcore.

Entrei pro Inkoma por isso: pra ter uma válvula de escape, pra gritar, pra poder reclamar mesmo. Acreditava de coração que aquela era a minha munição, que era daquele jeito que nós iríamos consertar o mundo. Me indignava por não ter grana e ver as patricinhas na escola tirando onda de roupinha nova, e escrevia sobre desigualdade e humilhação. Era criticada e desacreditada no trabalho por me vestir diferente, ter cabelo colorido, usar correntes ou alfinetes, e escrevia sobre preconceito e injustiça. Máscara, inclusive, nasceu numa dessas.

Fiz tudo aquilo que os caras do Botinada também fizeram anos atrás: distribuí panfleto de xerox divulgando um show que nós mesmos tínhamos produzido, montei barraquinha pra vender fita cassete demo, fui demitida por priorizar minha banda ou por não me “adequar” visualmente, me juntei com outras bandas e tentamos formar uma cena. Arrumava equipamento pra tocar de qualquer jeito, emprestado, o que fosse necessário pra fazer acontecer, porque eu acreditava. A revolta das letras contra o sistema não eram mero clichê. Elas eram legítimas, eu vivia aquilo. Eu realmente acreditava. Vivia na rua, no mundo cão, tendo que me defender sozinha. Eu era bicho solto.

Fizemos umas músicas, e eu trabalhava como recepcionista no Studio Zero que era uma produtora de áudio voltada mais pra publicidade do que pra música. Vazquez era técnico de gravação nesse estúdio. Uruguaio e roqueiro, rapidamente se tornou meu amigo. Depois de muito pedido meu e do apoio de Vazquez junto aos donos do estúdio, finalmente nos cederam algumas horas na madrugada pra que a gente pudesse gravar nossa primeira fita demo, “Pilha Pura”. Corria o ano de 1996.

Tudo como manda o figurino: capinha de xerox PB, letras inflamadas e gravação tosquinha. Delícia. Daí até gravar o primeiro EP “Influir” (dessa vez em CD, suuper moderno) foi um longo caminho. Nesse meio tempo rolaram algumas coletâneas, e a gente se integrando com a cena hardcore de outros estados, trocando fitas demo, divulgando em fanzines de papel. Nessa época nossos contemporâneos eram Mukeka de Rato, DFC, Os Cabelo Duro, Bosta Rala, Lisergia, Dead Fish, Poindexter, Sutien Xiita, Gangrena Gasosa, Devotos do Ódio, Detergente CO. Haviam muitas e muitas outras, mas esses eram meus prediletos.

Inkoma foi minha escola, o do it yourself vivido de forma intensa, e agradeço imensamente por isso. Não seria quem sou se não tivesse passado por tudo aquilo, inclusive os perrengues. Porque, claro, nem tudo eram flores. As tretas volta e meia aconteciam.

Existia em Salvador o MAP- Movimento Anarco-Punk- que reivindicava para si alguns direitos sobre tocar e falar de punk e hardcore. Para eles, qualquer pessoa de fora do movimento estava desautorizada a usar esses termos. E lá estava eu, não sendo do movimento, cantando numa banda intitulada punk rock/HC, e ainda por cima entoando um refrão que dizia que “hardcore é diversão”. Aí, fudeu. Recebi a notícia de que o MAP me convocava para um encontro, para discutir a situação. Achei graça. Era no mínimo irônico um movimento que prega liberdade de expressão me chamar para tirar satisfação sobre algo que eu tenha escrito. E eu fui, queria ouvi-los e ser ouvida. Já conhecia muitos membros de vista, ou de ter esbarrado pelas quebradas e shows na cidade.

De ter mais proximidade só conhecia mesmo Grito, um cara sempre de boina a la Che Guevara e panfletos a postos, pronto para “educar” os alienados. Nós nos conhecemos discutindo, claro. Ele provavelmente me intimando na porta de algum show, me questionando sobre alguma postura minha, querendo saber das minhas ideologias. Obrigada, Grito. Você me fez aprender a pensar e a estar sempre preparada para defender meus argumentos e ideias. Sempre pronta pra guerra verbal. Mesmo quando alguém me parava na rua e dizia: “tá usando a camisa dessa banda por quê? fala o nome do primeiro disco deles senão vai perder a camisa agora, otária”. Isso me deu uma base fodida pra vida. De não ser leviana. De não fazer/usar as coisas só por oba-oba. De saber porquê eu carrego determinados símbolos, de ser coerente e verdadeira com minhas ideias, e de saber brigar por elas.

Meu encontro com o MAP foi basicamente isso: a inquisição do anarco punk soteropolitano me julgando porque eu havia escrito que hardcore é diversão. Nunca quis fazer parte do movimento por uma questão muito simples: eram muitas regras e convenções, numa instituição que teoricamente defendia a abolição de regras e convenções. Me parecia incongruente. Preferia ser livre e fazer o que eu quisesse, do jeito que eu quisesse, e dizer exatamente o que eu quisesse. Autonomia total e nenhuma submissão ao que quer que fosse, tendo como única regra jamais interferir no espaço do outro. Isso pra mim era viver punk rock, coisa que carrego até hoje: me sinto no direito de fazer o que eu quiser, desde que não machuque ninguém além de mim mesma.

Assistir o Botinada me trouxe todas essas memórias e lembranças. Atualmente, pra muitas pessoas os clichês e frases do movimento punk soam datados e infantis. Sim, já fomos todos jovens um dia, e daí? Esse era o jeito que sabíamos lidar com o mundo ao redor. E tudo foi ficando muito banalizado com o passar do tempo, com o conceito de punk sendo encarado apenas como uma coisa estética, e etc.

Hoje, os tempos são outros. E pra novos tempos, novas formas de discurso e de linguagem. Pessoalmente, leio as coisas que escrevia naquele tempo e as que escrevo hoje e identifico exatamente os mesmos temas e essência; porém com outro vocabulário, mais subjetivo e metafórico. Pensando que a mudança começa dentro e que é necessário resolver a si mesmo para mudar o em torno. Uma ficha que tinha começado a cair quando escrevi “Revolução Mental”, pro EP do Inkoma:

“Cada cérebro é um QG/ cada homem, uma tropa
Se prepare pro ritual de cada dia/A revolução se faz a cada dia
Todo lugar, toda hora, todo detalhe vai influir
Dentro de cada mente se concentra um universo”

Sim, ainda acredito em revolução.

www.pitty.com.br

Metal is the law ...

O VI NORDEXTREMO, realizado na Casa Cultiva (antiga Casa do Rock) em Aracaju(SE) mostrou o poder do metal em terras nordestinas. Público variado. Contando com a nova geração e com a velha geração que nesse show compareceu em peso. Demonstrando civilidade e evolução. Sem brigas, fofocas e radicalismos sem fundamento. As bandas Dominus Praelli(PR), Apocalyptic Raids(RJ), e as bandas locais Aliquid, Sign Of Hate e Impact, destilaram estilo, sonoridade extrema, técnica sonora e empatia. Quem abre o show é Aliquid. Banda da nova geração do Heavy Metal sergipano, realizou uma apresentação coerente e sem frescuras, instrumental conciso, talvez o pecado da banda seja o vocalista com registros agudos imperfeitos. Excelente baterista. Logo após a Dominus Praelli(PR) envolve a todos com sua criatividade. Executando com extrema qualidade um Heavy Metal seco, contagiante e verdadeiro. Uma apresentação que fez os pescoços girarem. Dinâmica de palco sem defeitos. E entre uma música e outra discursos inflamados repletos de revolução, história e crítica. Logo após foi a vez da Apocalyptic Raids(RJ) fazer um dos melhores shows da noite, revelando-se uma surpresa. Eles realmente honram o termo Old School Metal. Visual, sonora e intelectualmente. Tocaram uma atrás da outra sem dá folga ao pescoço do headbanger. Uns olhavam, outros se esbagaçavam na fábrica de riffs. Equalização seca bem definida traduzindo com exatidão a fúria da banda. Mesmo alquebrados por um longa viagem e doentes satisfizeram a sede de “cultura extrema” do público sergipano. Sign Of Hate foi uma desgraceira só. Alguns problemas com a equalização prejudicaram em algumas músicas a apresentação da banda. Porém isso não atrapalhou em nada o massacre sonoro. Uma pedrada atrás da outra. O “Frank Sinatra do inferno”, Márcio, vocal da banda, regurgitou melodias repletas de paranóia e desalento. A broca da Sign Of Hate perfurou com qualidade os ouvidos dos presentes. E quem finaliza o show é a Impact que insisto de classificar como “thrash black metal”. O carequinha Bruno soltou os trinados na madrugada fresca da praia de Aruana. Uns já dormiam. Outros cambaleavam. Mas isso não desanimou a banda que tocou numa gana invejável sem dá folga. Baterista de excelente pegada completa a banda com qualidade indiscutível. A apresentação da Impact foi encurtada porque um dos instrumentistas machucou a mão. No geral foi um evento excelente em que público, bandas, organização estão de parabéns. - por Fúria

* * *

Que fique registrado que aconteceu no último sábado à noite, no Espaço Cultiva, um dos maiores e melhores eventos dedicados ao metal do ano em Aracaju. É cedo para se afirmar que superamos esse terrível período de escassez de público em shows de rock alternativo pelo qual passamos, mas em todo caso fiquei muito feliz em ver a antiga “Casa do rock” lotada de Headbangers para prestigiar a presença em nossa cidade de duas bandas de renome nacional no gênero.

Cheguei atrasado, como sempre, mas a tempo de ver boa parte da apresentação dos paranaenses do Dominus Praelii – e confesso que me surpreendi. A imagem que eu tinha da passagem anterior da banda por aqui era algo meio caricato, com visual excessivamente carregado (pra Manowar só faltavam as tanguinhas a la Conan, o Bárbaro) e o discurso infantilóide/retardado/fantasioso do tipo “Guerreiros do Metal, unidos derrotaremos os cães cristãos e dominaremos o mundo em nome de satã”. Não sei se foi uma falsa impressão que tive, mas o fato é que a banda que vi no palco era bem mais madura e, digamos, contida, em termos de “delírios medievais”. Um Power-metal de primeira, muito bem executado e cantado a plenos pulmões pelo colombiano Jorge Bermudez, que ostentava uma camiseta clássica do Onslaught. Bom show – isso para mim, que não sou “metaleiro”. Para os “reais headbangers” presentes (ou pelo menos para os mais desencanados que não ficam o tempo inteiro preocupados em arrotar uma postura radicaloide sem sentido), deve ter sido melhor ainda.

Intervalo, hora da visita á tradicional (mas frequentemente ausente, hoje em dia) banquinha de materiais alternativos. Uma boa oferta de CDs, vinis, camisetas e “patches”. Sempre que possível compro algo nessas banquinhas, pois valorizo demais a atitude desses caras que saem Brasil (às vezes mundo) afora com a cara e a coragem com o único intuito de divulgar sua música e a cultura alternativa em geral. Adquiri por módicas 20 pratas um CD que não tinha do Bolt Thrower, banda inglesa de Birmingham, terra natal do Black Sabbath, formada em 1987. Fiquei babando pelas capas em vinil de uma banda de thrash carioca cujo nome não me lembro – a arte lembra aquelas capas clássicas feitas por Ed Repka para o Megadeth, Municipal Wasted, Hirax, Death, NoFX e diversas outras bandas importantes, principalmente de thrash metal. Foi a primeira vez em muito tempo que cheguei a cogitar comprar um disco sem conhecer a banda, apenas pela capa, mas contive meus impulsos consumistas a tempo.

Apokalyptic Raids, do Rio de Janeiro, no palco. É tosco, como pensei, mas aquele tipo de tosqueira proposital, feita com propriedade e com a única intenção de reproduzir uma sonoridade específica – no caso, a dos primórdios do Death/Black metal dos anos 80, como deixa explícito o próprio nome da banda, obviamente retirado do título de um EP do Hellhammer. Bom show, empolgou o público, muito embora não tão barulhento e esporrento como imaginei. O único defeito foram os longos e, a meu ver, desnecessários intervalos entre uma música e outra – teria sido mais legal se tudo tivesse sido despejado num fluxo só, sem descanso.

Haveriam ainda duas bandas locais, Sign of Hate e Impact (Aliquid foi a primeira a se apresentar), mas o cansaço foi mais forte e fui embora. Que este evento se transforme num gancho para uma volta definitiva às atividades da Terrozone, produtora que eu respeito imensamente pelo profissionalismo e competência, nunca descuidando de detalhes importantes, como a divulgação. Vai depender muito da presença do público, e o próximo “teste” já está marcado para o próxima dia 01 de outubro, com a volta do Andralls às terras do cacique Serigy.

Nos vemos lá.

por Adelvan

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

# 159 - 03/09/2010


A Sessão Notívagos é não apenas a melhor coisa que surgiu na cena alternativa sergipana dos últimos anos como também um evento único em todo o Brasil - nem eu nem nenhuma das pessoas que já questionei sobre - e foram muitas - sabe de algo igual acontecendo por aí. Parecido pode até ter - há a Festa Loud! no Rio, que também acontece num cinema - mas neste formato, com a exibição de um filme seguido de apresentações musicais no saguão do cinema, e no interior de um shopping center, é algo realmente único e inusitado. Tanto que tem atraído a atenção e o interesse de diversos grupos consagrados Brasil afora. Neste mês de setembro a sessão se transformará num Festival, em três noites (ver post logo abaixo). Na primeira noite, além do Apanhador Só, do Rio Grande do Sul, contaremos com a presença do excelente grupo sergipano ROAD TO JOY, que nos deu a honra de sua presença na última edição do programa de rock.

Além deles, apareceram também por lá Fábio Andrade e Fúria, dois dos responsáveis pelo maior show de metal do ano na cidade, o VI NORDEXTREMO. O programa abriu com músicas novas do Apocalyptica, Muzzarelas, Damn Laser Vampires (o cover do Cramps que você pode baixar gratuitamente no link ao lado) e Doidivinas, banda feminina carioca capitaneada por Flavia Couri, atual baixista do Autoramas.

UM ESCLARECIMENTO: Por conta da obrigatoriedade da veiculação dos spots do Horário político por todo e qualquer veículo de comunicação aberto (e a Aperipê FM é um deles), algumas músicas poderão ter que ser cortadas, como aconteceu já neste programa de rock com as faixas do Aliquid e do O Garfo. Pedimos a compreensão de todos, mas ressaltamos que é uma situação transitória que será contornada com o fim do período de propaganda eleitoral obrigatória.

O "set" list:

Apocalyptica – At the Gates of Manala

Muzzarelas – 1991
Damn Laser Vampires – It thing hard on
Doidivinas – Envenenada

Herod Lane – Drug induced inertia
O Garfo – alpa tino (incompleta)
(Drop Loaded)

Entrevista com Fábio e Fúria, da Terrozone prod.

Dominus Praelii – Scent of death
Apocalyptic Raids – The World without danger
Impact – Social Blindness
Sign of Hate – Order of death
Aliquid – (...) (imcompleta)

Apanhador Só – Um rei e o Zé.

Entrevista com Roberto Nunes e Road to Joy

Blocos produzido por “Road to joy”:

The Brian Jonestown Massacre – Let´s go fucking mental
Charlotte Gainsbourgh – Tricky Ponny
Serge Gainsbourgh & Brigitte Bardot – Harley Davidson

Laura Marling – Cross your fingers
Françoise Hardy – (Une fille) Comme tant Dautres
road to joy – Flat Coke

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

FESTIVAL NOTÍVAGOS DE CINEMA E MÚSICA

PROGRAMAÇÃO DE QUALIDADE NO CINEMA EM ARACAJU

Fonte: Divulgação

Desde Janeiro de 2009 a Cine Vídeo e Educação Ações Culturais desenvolve em Aracaju a Sessão Notívagos, evento que reúne cinema e música da melhor qualidade. Primeiro é exibido um filme, às 23 horas. Por volta da 1 da manhã uma Banda local se apresenta, seguida por uma atração de fora do estado. Já passaram pelo palco a Pernambucana Eddie, o Cidadão Instigado, Retrofoguetes, Pata de Elefante e Autoramas.

Nesse mês de setembro, aproveitando a realização do Festival Coquetel Molotov, em Recife, a Cine Vídeo e Educação programou 3 edições da Notivagos.

A primeira será no próximo dia 11, com a exibição do documentário que é a atual sensação do cinema nacional, "Uma Noite em 67".

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Sinopse: No teatro: aplausos, vaias, um violão quebrado, guitarras estridentes. No palco: os jovens Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Edu Lobo e Sérgio Ricardo. As músicas: “Roda Viva”, “Ponteio”, “Alegria, Alegria”, “Domingo no Parque”. E só um deles sairia vencedor. Isso é Uma Noite em 67, um convite para viver a final do Festival da Record que mudou os rumos da MPB.
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Uma Noite em 67 está na sua quinta de semana de exibição no Brasil e já foi visto por cerca de 60 mil pessoas. Agora será a vez de Aracaju, numa sessão única. Após o filme a Banda Sergipana Road To Joy se apresenta. Segundo o release, se a Road to Joy fosse uma pessoa, ela seria o filho de um caipira que se mudou junto com seu violão e alguns livros para a cidade grande e lá encontrou amigos com guitarras elétricas, laptops com dezenas de gigabytes de mp3 e mais uma lista infinita de filmes e bandas prediletas. Formada por quatro amigos, a banda está em atividade desde o final de 2009, chamando a atenção da cena local ao tocar no Capitão Cook, Rock Sertão e Casa Do Rock (palcos tradicionais do cenário alternativo no estado). Têm dois singles online, "Couple Fighting Song" e "Flat Coke". Atualmente se prepara para o lançamento do novo EP

Já a banda Porto Alegrense Apanhador Só, que encerra a Notívagos do dia 11, é responsável por um dos melhores lançamentos fonográficos de 2010, segundo a imprensa especializada, o álbum de estréia 'Apanhador Só', lançado em abril e disponível para download gratuito em apanhadorso.com. Candidata ao prêmio 'Aposta MTV', do VMB, o quarteto tem feito shows em diversas cidades brasileiras e vem ganhando elogios por sua música popular com espírito aventureiro, que, com apuro técnico e sofisticação, cruza estilos e gêneros – reinventados ao ponto de eventuais influências se tornarem irreconhecíveis. No show, os jovens engenheiros musicais apresentam composições como "Um Rei e o Zé", "Prédio", "Maria Augusta", "Nescafé" e "Balão-de-Vira-Mundo", em que reverenciam o legado da canção brasileira e equilibram pop com experimentalismos – a bicicleta infantil, símbolo do grupo, utilizada como percussão, acompanha os gaúchos ao palco. Apanhador Só é Alexandre Kumpinski (voz e guitarra), Felipe Zancanaro (guitarra e bicicleta), Fernão Agra (baixo) e Martin Estevez (bateria).

No dia 18 o Festival Notívagos exibe o ultimo filme de Quentin Tarantino a ser lançado comercialmente no Brasil, "À Prova de morte" Os Shows ficarão por conta da Banda Sergipana Snooze, uma das mais importantes do cenário musical local, e de uma das novas promessas da musica pernambucana, a Banda de Joseph Tourton.

A SNOOZE foi formada no final de 1992 pelos irmãos Fabinho (baixo e vocal) e Rafael Jr. (bateria) com o amigo de infância Daniel Garcia, infelizmente já falecido, na guitarra e vocal. Passaram a ensaiar todos os finais de semana numa garagem, sem pretensões, tocando covers de bandas como R.E.M., Jesus & Mary Chain, Beatles, Hoodoo Gurus, Pixies e Hüsker Dü, dentre outras. Desde aquela época pela banda já passaram diversos integrantes, tendo como única constante a qualidade de suas composições e a prsença de Rafael Jr. no comando das baquetas. Hoje é um trio, com Luiz Oliva se integrando ao grupo. Vêm compondo material novo e atualmente conta com a colaboração do maestro James Bertisch nos teclados. Esse é o line-up apresentado nos shows em 2010, e que entrará em estúdio muito em breve.

A BANDA DE JOSEPH TOURTON é um dos mais novos e significativos nomes de uma nova geração do cenário musical pernambucano. Composta por músicos jovens e trafegando pelo som instrumental, não se apegam a ritmos pré-definidos ou estilos limitadores. Sua música é livre, sem limites e cadenciada de acordo com os andamentos e ritmos de cada momento. Seus integrantes se utilizam do improviso e da vontade de criar experimentações em cima de cada um dos instrumentos que utilizam: guitarra, baixo, escaleta, flauta transversal, bateria e percussão. O grupo fez sua grande estréia ao vivo no festival No Ar Coquetel Molotov, no Recife, em setembro de 2008, quando mostrou ao público sua música instrumental nada convencional, combinando guitarras pesadas e delays mirabolantes a samples eletrônicos e elementos suaves como flauta e escaleta, sintetizando uma verdadeira turbulência de sensações sonoras. Ouvem Dub Incorporation, Nação Zumbi, Radiohead, Asian Dub Foundation, RJD2 e Hurtmold, entre tantas coisas. Toda essa peculiaridade musical está presente em suas músicas, onde demonstram entrosamento e um vigor musical diferenciado, quebrando todos os paradigmas possíveis e tornando o céu cada vez mais distante do limite.

Por fim, para o dia 24, uma sexta-feira, o filme ainda está indefinido, havendo uma grande possibilidade de ser outro documentário, DZI CROQUETTES, que mostra a trajetória do irreverente grupo carioca de mesmo nome que marcou o cenário artístico brasileiro nos anos 70. O conjunto contestava a ditadura por meio do deboche e da ironia e defendia a quebra de tabus sociais e sexuais. Os Shows estarão a cargo da Banda Sergipana Cabedal e do carioca Do Amor.

A Cabedal é formada por seis jovens e é produto da banda larga e das novas tecnologias globais do séc. XXI aliada à vontade de se fazer música brasileira fincada no samba, no frevo e no baião misturada ao rock, ao pop ou qualquer outra manifestação músical que sensibilize órgãos auditivos. O nome cabedal adianta isso. Vem da idéia de querer sugar, unir, mesclar, deglutir, dialogar ritmos e melodias diversas – e outras novas e antigas idéias –, de forma anacrônica e sem a mínima vontade de delimitar qualquer barreira conceitual.

Do Amor, com quatro anos de formação, apresenta ao público Aracajuano seu primeiro cd independente, auto-intitulado. É Formada por Gustavo Benjão (guitarra e voz), Marcelo Callado (bateria e voz), Gabriel ‘Bubu’ (guitarra e voz) e Ricardo Dias Gomes (baixo e voz). Do Amor é uma banda parcialmente conhecida par muitos, já que Marcelo e Ricardo formam a Banda Cê, que vem acompanhando Caetano Veloso há 3 anos. Já Gabriel Bubu foi baixista do Los Hermanos. Faz já algum tempo que todos eles vêm tocando na cena alternativa nacional com certa freqüência, acompanhando artistas como Nina Becker, Jonas Sá, Rubinho Jacobina e Lucas Santtana, entre muitos outros. Segundo Pedro Sá, “Eles já mostraram que são músicos incríveis e, justamente por isso, geraram uma certa expectativa quanto ao lançamento de seu primeiro disco, já que se trata do trabalho autoral destes grandes instrumentistas. O disco de estréia supera qualquer prognóstico positivo. Há uma riqueza, uma exuberância criativa que raramente se vê numa banda. É um trabalho repleto de referências dos mais distintos e variados estilos que são depurados nas formas mais insólitas e divertidas. Mas não se trata de referências gratuitas. Vão do carimbó ao Manchester Rock, com a maior naturalidade... e com a maior verdade também. Não é uma mistura superficial. São universos super variados, que nos remetem a infinitos lugares, épocas e mundos, reunidos num trabalho absolutamente autoral. Há muita ironia e humor aqui. Digo, não são somente músicos virtuosos desempenhando uma excepcional performance. Não há frieza nem soberba. Tocam à música em si, no sentido mais genuíno da coisa. Desconstroem todos esses estilos para no final nos devolver em música!”

Maiores Informações: http://cinecultbr.blogspot.com/

Todas as Sessões Notívagos terão inicio as 23 Horas e os Ingressos estão a venda exclusivamente na Tools Company dos Shoppings Riomar e Jardins.

1 Show: R$ 20,00 c/ 3 bebidas
2 Shows: R$ 35,00 c/ 6 bebidas e
VIP: 3 Shows c/ 10 bebidas

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O Rock Sergipano, esse desconhecido

"Underground" é um termo em inglês que serve para designar aquilo que se encontra embaixo do solo. O metrô, por exemplo, em muitos lugares é chamado de underground. Com o tempo, os críticos musicais se apropriaram deste termo para designar a musica que era feita à margem do grande circuito da mídia. A mídia, em todo o mundo e, como não poderia deixar de ser, também em nosso país, se concentra onde está o dinheiro, literalmente, ou onde se encontram os centros de poder econômico e de decisão política, no nosso caso, sul e sudeste e eventualmente Brasília. Partindo-se desse ponto de vista, poderíamos dizer que qualquer manifestação artística nascida em nosso estado (com exceção, vá lá, da Calcinha Preta, que tem projeção nacional) é underground, porque está longe dos holofotes da mídia, num âmbito geral. Mas existem correntes artísticas que se desenvolveram ao largo mesmo aos olhos da mídia local. Este, poderíamos dizer, é o nosso submundo, o submundo do submundo. Nele se encontra o rock sergipano, esta entidade misteriosa que, a despeito de ser quase que completamente desconhecido, existe, produz e se reproduz, ao ponto de começar a ser, timidamente, notado e reconhecido.

O rock sergipano como um movimento, uma entidade oriunda da existência de várias bandas que tocam juntas e dão suporte umas às outras, começou a se formar no inicio dos anos 80, de carona na grande onda do rock nacional, que por sua vez surgiu na esteira da onda pos-punk/new wave que tomava conta do mundo. Por essa época começavam a se formar bandas de garagem que tinham na precariedade de recursos e na vontade de criar e se comunicar suas principais características. Capitaneadas pela figura de verdadeiros agitadores culturais dos subterrâneos, como Sylvio “Suburbano” e Vicente “Coda”, surgiram nomes como Sem Freio na Língua, Fome Africana e The Merdas. Esta ultima, por sinal, contava em suas fileiras, como baterista, com o hoje nacionalmente conhecido Hélder “Podre”, mais conhecido pelo nome artístico de DJ Dolores. Vicente promovia festivais conhecidos na época como rockadas - um deles, inusitadamente, realizado em sua própria casa - e Sylvio seguia a passos largos em direção a uma militância anarquista que o levou ao mundo do punk rock engajado. Juntos, os dois formaram a Karne Krua, a mais antiga das bandas sergipanas em atividade até o momento.

A partir dessas atitudes pioneiras outros grupos foram nascendo, e de diversas matrizes, como a new wave propriamente dita, com CROVE HORRORSHOW, LULU VIÇOSA, ALICE e a já citada FOME AFRICANA, o punk rock/hardcore, com KARNE KRUA, MANICÔMIO, FORCAS ARMADAS, CONDENADOS e LOGORRÉIA, entre outros, e correndo por fora, numa cena à parte, como sempre, o mundo do metal, que tinha como seu maior nome o lendário GUILHOTINA. Os espaços para apresentação eram precários, mas as tribos tinham seus pontos de encontro, notadamente as lojas especializadas DISTÚRBIOS SONOROS e LOKAOS e inclusive contaram, durante um certo período, com o apoio de um programa especializado na Rádio Atalaia FM. Chamava-se ROCK REVOLUTION, era produzido pela loja Distúrbios sonoros e costumava, sempre que a qualidade de gravação permitia, ceder espaço para as bandas locais.

Com o tempo a maioria dos grupos foi se dissolvendo e seus membros sendo absorvidos pelo “sistema”, mas alguns resistiram. A Karne Krua é o exemplo maior de persistência e fidelidade à cena, tanto local quanto nacional. Ao seu redor foi surgindo uma nova onda de hardcore sergipano, materializada principalmente nas bandas SUBLEVAÇÃO, CLEPTOMANIA, OLHO POR OLHO e LECKTOSPINOISE, além de um sem-número de grupos que seguiam uma tendência ainda mais rápida e barulhenta do estilo conhecida como grindcore, dentre elas REFUGOS DE BELSEN, CAMBOJA, e ANAL PUTREFACTION . Aos poucos, esta última foi se aproximando do Death Metal, enquanto o Camboja, capitaneado na figura de seu líder e multiinstrumentista Jamson Madureira, começa a sofrer influencias do rock industrial à la Ministry e Nine Inch Nails, tornando-se a mais inovadora e, talvez por isso mesmo, injustiçada banda da história do rock sergipano. Teve uma carreira curta mas deixou um belo legado de energia e criatividade para quem conheceu suas demos (GRIND TO GRIND, LIES ABOUT FREEDOM) e frequentou suas apresentações, sempre antológicas.

Já no front do metal, na primeira metade da década passada, despontava a DEUTERONÔMIO, fundada ainda nos anos 80 por Vicente Matheus, o Bruxo (de saudosa memória). A banda teve uma carreira sólida e constante até a metade dos anos 90 e influenciou toda uma cena, com nomes como MUCOUS SECRETION e a DEVILRY, de Itabaiana. No metal tradicional havia o WARLORD, e no thrash metal, AGONY SEASON, RUST MAKERS e METÁFORA (formada por um membro dissidente do Camboja).

Foi ainda no inicio dos anos 90, em parte como fruto da explosão alternativa causada pelo Nirvana, que surgiu o SNOOZE, hoje uma das bandas sergipanas mais conceituadas e conhecidas nacionalmente, ao lado do LACERTAE, de Lagarto. Ambas começaram a mesma época e fazendo covers, a primeira de medalhões do grunge e do rock alternativo, a segunda de Pantera e outros ícones do metal, mas foram aos poucos adquirindo sonoridade e personalidade própria, especialmente o Lacertae, que é reconhecido como um dos grupos mais inovadores do rock independente nacional. Foi por essa época que a Karne Krua conseguiu o feito de ser a primeira banda underground do estado a lançar um disco, ainda em vinil e totalmente independente.

Ficaram célebres os shows promovidos pelo pub MAHALO DISCO CLUB, simpático barzinho localizado no centro, em frente à UNIT, que começou a abrir espaço para as bandas de rock locais nos finais de se mana, e o fervilhante movimento de fanzines sergipanos, que já tinha uma certa tradição desde o CENTAURO SEM CABEÇA (de Macaô) e BURACAJU (de Sylvio, sempre pioneiro), nos anos 80, e se fortaleceu à época com os nacionalmente conhecidos ESCARRO NAPALM (editado por mim, Adelvan, depois vocalista do ETC) e CABRUNCO (que era editado por Adolfo sá e se tornou um verdadeiro marco).

Na cena grindcore/noise surgiu a banda ETC, que tinha uma proposta mais irreverente e ousada. Foi a primeira a ultilizar-se de influências regionalistas em sua musica (bem antes de alguém por aqui saber o que era Raimundos ou mangue Beat) e a usar e abusar de palavrões e de temas ligados ao sexo e a sacanagens em geral, conseguindo bater de frente com punks e puritanos de uma só vez. Sua proposta anárquica radical foi mal compreendida na época e segue incompreendida até hoje, nos shows esporádicos que promove com o único intuito de manter a lenda viva e provocar os que se entregam à apatia e aos modelos de comportamento, mesmo no mundo do rock, que a princípio deveria ser dinâmico e anárquico por natureza. Vale dizer que a grande figura por trás dessa e de outras bandas era, mais uma vez, a de Sylvio “Suburbano”, que depois do fim das atividades regulares do ETC seguiu sua saga em busca da renovação do harcore montando bandas como A CASCA GROSSA e WORDS GUERRILLA.

Por volta da segunda metade da década, a movimentação no underground diminuiu, mas começou a se vislumbrar um novo patamar para a cena como um todo. O marco dessa nova etapa foi a realização do Festival ROCK-SE, que trouxe pela primeira vez ao estado um evento nos moldes dos já consagrados Juntatribo e Abril pro Rock, com bandas nacionalmente reconhecidas tocando lado a lado com os representantes da cena local. O ROCK-SE não teve continuidade, mas lançou a semente para um novo paradigma no nível de organização e, especialmente, ousadia dos produtores de shows que o sucederam. Começaram a aparecer mais bandas de fora do estado dispostas a se apresentar aqui, o que deve ter influenciado o surgimento de uma nova geração do punk rock sergipano, dessa vez mais sintonizada com as tendências mundiais colocadas na vitrine por megacorporações como a MTV e, por isso mesmo, ideologicamente descompromissadas e com um apelo popular mais amplo.

Tendo como pano de fundo a verdadeira revolução das comunicações que se consolidava na virada do milênio, o que parecia impossível na década de 80 aconteceu na primeira metade dos anos 2000: o rock foi sendo aparentemente melhor assimilado e foi capaz de levar verdadeiras multidões a shows que antes eram freqüentados por, no máximo, 20 a 30 pessoas. E com um importante fator adicional: as mulheres comparecendo e aparecendo. Houve inclusive uma banda exclusivamente feminina, LILY JUNKIE, a primeira do estado a manter uma atividade regular, fazendo shows e lançando demos. Apesar de um posterior recrudescimento na freqüência do público, o que inviabilizou a continuidade de projetos importantes como o Festival PUNKA, novos nomes surgiram, como FLUSTER (HC melódico), TRISTE FIM DE ROSILENE, THE RENEGADES OF PUNK, MERDA DE MENDIGO e GEE-O-DIE (hc casca grossa curto e grosso, mais na tradição do que sempre foi feito cidade), SONNET (rock alternativo), PLÁSTICO LUNAR (psicodélico) NAURÊIA e MARIA SCOMBONA (regional) , THE BAGGIOS (Blues-rock), MAMUTES (Hard rock “setentista”), BAD SNAKE (Hard rock “oitentista”) e NANTES (folk rock), dentre outros.

O front do metal seguiu firme, com nomes egressos da década de 90 se mantendo em evidencia, como SCALET PEACE (doom metal), TCHANDALA, FINITUDE e ALIQUID (metal tradicional), BERZERKERS e IMPACT (Thrash), NUCLEADOR (Crossover), INRISÓRIO (Death/grind), SIGN OF HATE (Death Metal) e MYSTICAL FIRE (black metal), este ultimo com uma mise-em-scene de palco impressionante, com direito a cuspidas de fogo e cabeças de porco como cenário.

Não saberia dizer até onde as pessoas que estão ajudando a fazer o rock sergipano hoje em dia foram influenciadas ou, sequer, conhecem os esforços que foram empreendidos no passado para a construção desta pequena porém orgulhosa cena. O que importa é que a chama continua acesa e assim permanecerá. Mudará de forma, se adaptará à passagem do tempo, mas nunca se extinguirá.

Matéria originalmente publicada no site da extinta Revista [Zero]

por Adelvan Kenobi

Ratos de porão em Aracaju ...

"Recordar é viver" - Em 1994, Aracaju foi palco de um dos mais selvagens e turbulentos episódios envolvendo uma banda de rock, um produtor picareta & um público indignado de que se tem notícia. Seria o 1º show do Ratos de Porão na cidade, aconteceria num ginásio de esportes e foi promovido pelo dono de uma loja local, com direito a tarde de autógrafos em shopping – imagina o João Gordo no auge das drogas assinando discos e camisas da molecada... Mas rolou!
O que não rolou foi o show. Gordo & cia., escaldados de tomar “toco” de produças gatunos, exigiram cachê integral antes de entrar em cena, e o produtor local deu o perdido, deixando a banda sem a grana e os pagantes a ver navios. Geral fez barulho e a Choque apareceu pra cumprir seu papel: dar porrada em cidadão. O que você faria se gastasse seu real pra ver um show que não aconteceu e ainda tomasse porrada dos hômi? Procuraria o Procom?
Acontece que aqui no Nordeste punk tb é cangaceiro, e não ia deixar esse prejú barato. “As ruas foram tomadas por uma turba ensandecida sedenta de vingança”, relembra Adelvan Kenobi em seu blog Escarro Napalm:
“O tal ‘produtor’ já tinha aprontado algo parecido c/ a banda P.U.S., mas se deu bem, a banda acabou tocando de graça no dia seguinte em respeito a seu público e ficou tudo por isso mesmo. Só que nessa noite as coisas iriam ser diferentes. Ele tinha uma loja especializada em rock alternativo no centro da cidade, e foi pra lá que a turba se dirigiu. A loja foi completamente destruída e saqueada. O ‘produtor’ sumiu da cidade, reapareceu, p/ finalmente sumir de uma vez. Fugiu. Desapareceu. Escafedeu-se. E Ratos de Porão em Aracaju virou uma espécie de lenda urbana. Durante esses 13 anos a cidade ficou com o estigma de ser uma das únicas capitais brasileiras nas quais eles nunca se apresentaram.”
No último dia 08 esse estigma foi quebrado, e finalmente Buracacity viu um show do RxDxPx. Desta vez a produção foi mais pé-no-chão e promoveu o evento em um espaço menor e mais barato, a banda recebeu adiantado e a maior porrada que rolou foi a que saiu das caixas de som, c/ bandas como INRIsório, Sign of Hate e a lendária Karne Krua engrossando o caldo. Quem conta essa história é o não menos lendário Adelvan:
“INRIsório no palco tem uma grande qualidade e um grande defeito. A qualidade é a precisão e a potencia c/ as quais executam suas músicas – realmente impressionante, especialmente seus guitarristas, que trabalham numa sincronia perfeita em riffs matadores durante todo o tempo da apresentação, sem pausa para descanso. Death grind de primeira. Pecam, no entanto, na postura de palco, quase sempre muito estática e desleixada. O resultado é que, na maioria das vezes, o publico em seus shows é um tanto apático.
Na seqüência a já tradicional e sempre bem-vinda presença da Karne Krua, em mais uma formação, desta vez mais afeita às origens hardcore da banda, mas tendo sempre à frente a presença carismática de Sílvio, a esta altura já uma figura emblemática do rock sergipano, com sua longa cabeleira grisalha e suas gesticulações teatrais – basta dizer que numa dessas festas à fantasia da vida um indivíduo compareceu caracterizado de Sílvio, com uma peruca grisalha na cabeça e uma guitarra a tiracolo. A nova formação está cumprindo muito bem a tarefa de trazer de volta a Karne Krua às suas origens, produzindo um som urgente e pesado para os já tradicionais hinos de rebeldia entoados desde os confins dos anos 80. Grande show.
Mas a noite, evidentemente, era do Ratos de Porão. E eis que depois de uma longa espera, eles aparecem despejando uma barulheira ensurdecedora já na abertura do show: ‘Aê Aracaju, até que enfim!’, bradou João Gordo. E tome “Pedofilia Santa”, uma das faixas mais potentes de seu ultimo álbum, “Homem Inimigo do Homem” – e também um tapa na cara dos que se deixam levar pela fé cega. Terminado o primeiro som, o Gordo explica o que realmente aconteceu naquela fatídica noite do meio dos anos 90. Ele disse que foi tirar um cochilo antes do show no hotel e só acordou no dia seguinte pensando: ‘puta que pariu, fudeu, não teve show’. O ‘produtor’ simplesmente largou eles lá e não deu mais noticias. Mas que agora a banda iria tirar o atraso. E a partir daí começa um massacre impiedoso de músicas de todas as fases, desde o inicio tosco e punk de antes do “Crucificados pelo Sistema”, passando por “Cérebros Atômicos”, “Morte ao Rei”, “Crocodila”, “Beber até Morrer” e muitas, muitas outras. Uma hora e meia de show, aproximadamente, s/ grandes contratempos, a não ser a já tradicional rusga entre indivíduos mais exaltados da platéia e seguranças nervosos, o que fez a banda parar, meio a contragosto do Gordo, que fala no microfone já estar cansado dessa mesma história, sempre.
O som estava muito bom, o publico animado e a banda instigada – inclusive o Gordo, notoriamente sempre mal-humorado, hoje em dia parece mais desencanado – já tinha notado isso no ultimo Abril Pro Rock e senti isso também nesse show – ele até reserva alguns momentos para brincar com a platéia, perguntando se estão cansados e coisas do tipo. Foi uma noite de celebração de energia rock pra ficar na memória dos (infelizmente) poucos (na verdade nem tão poucos, mas claramente abaixo da expectativa de público) que compareceram.
A noite foi fechada com mais porrada no pé do ouvido por conta do death metal brutal a la Cannibal Corpse promovido pela Sign of Hate. O saldo seria amplamente positivo, não fosse os organizadores, mais uma vez, tomarem prejuízo e anunciarem uma possível e precoce ‘aposentadoria’ na promoção de shows deste tipo, o que confirma a máxima proclamada pelos Retrofoguetes num Punka passado, pois segundo eles, ‘como já dizia Irmã Dulce: Quem tá no rock é pra se fuder’. Especialmente quem tá no rock em Aracaju, que sempre teve um público muito volúvel e instável, às vezes comparecendo em massa, ás vezes sumindo sem nenhuma explicação aparente. É uma pena constatar que, no final das contas, as coisas realmente mudam para continuarem na mesma.”

por Adolfo Sá & Adelvan Kenobi

Fonte: VLB