quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

AC/DC: Trem Inabalável



por Marcos Bragatto
Fonte: Rock em Geral

Trem inabalável

O show mais esperado do ano traz ao Brasil uma velha banda de rock pesado que rivaliza com ídolos pop como Madonna. Dá para entender? Claro, afinal, trata-se do AC/DC! Matéria de capa da Revista Billboard número 2, de novembro de 2009, feita por Marcos Bragatto em parceria com Mário Martins.


O segundo álbum mais vendido nos EUA em toda a história é “Back In Black”, lançado pelo AC/DC em 1980, meses após a morte do insubstituível vocalista Bon Scott. Quando você correr os olhos por estas linhas, o disco já deve ter ultrapassado a marca das 50 milhões de cópias. Só “Thriller”, de Michael Jackson, tem desempenho melhor.

Na soma dos resultados de seus títulos em catálogo, considerando os números a partir de 1991 – ano em que a SoundScan passou a monitorar vendas nos EUA com métodos mais confiáveis –, a veterana banda australiana supera até mesmo o finado Rei do Pop. E também os Rolling Stones, Madonna, Led Zeppelin… Os Beatles são os únicos que apresentam um volume maior. No entanto, se considerados apenas os discos negociados no ano passado, o AC/DC ganha até do quarteto de Liverpool: foram nada menos que 12 milhões de cópias comercializadas em 2008 (veja o boxe “Aula de Marketing”, sobre as estratégicas de marketing usadas para vender o catálogo do AC/DC).

É, não são apenas glórias do passado, não. Nos EUA, a “Black Ice Tour”, do AC/DC, que para na estação Morumbi, em São Paulo, no dia 27 de novembro, briga com cachorro grande. Compete dólar a dólar com as excursões de Madonna, “Sticky & Sweet”, e a inovadora “360º”, do U2: são as top bilheterias da temporada. Os 67 mil ingressos para o show paulistano se esgotaram no primeiro dia, e outros três mil adicionais que a produtora Time For Fun disponibilizou depois também sumiram quase de imediato.

“Black Ice”, álbum que marcou o retorno do quinteto liderado pelo guitarrista Angus Young, saiu em outubro de 2008 e foi primeiro lugar em 29 países. Nos Estados Unidos, a estratégia foi singular, mas funcionou: o disco e o game “AC/DC: Rock Band” começaram sendo vendidos com exclusividade pela cadeia Wal-Mart ou pelo site da banda. Ainda assim, já na primeira semana, 1, 762 milhão de cópias foram comercializadas. Nada de faixas para download.

O trem gigantesco escolhido para decorar o palco da turnê é uma metáfora perfeita. O AC/DC não sai dos trilhos, leva de um lugar para outro sem solavancos, sem sustos, sem desvios, sem improvisos. Quando você entra, já sabe para onde vai. Taí uma banda que não pesquisa ritmos, não vai em busca de novas influências, não experimenta no estúdio, não chama um DJ, não tenta acompanhar os novos tempos, não muda sequer de visual! Como brinca o líder do grupo, Angus Young: “O Malcolm (seu irmão, responsável pela guitarra base) usa o mesmo jeans há anos, e o Brian, se bobear, jamais lavou o dele”. O renomado produtor Rick Rubin arrisca: “Eles são a maior banda de todos os tempos. Não escreveram letras emotivas. Não tocam canções emotivas. A emoção está toda no groove. E o groove é atemporal”.

Em um mundo frenético e neurotizado por atualizações tecnológicas, o AC/DC é aquele cara que se recusa a saber para que serve o botão F5 no teclado do computador. Não faltam explicações para tanto sucesso. Em outubro, o jornalista americano Anthony Bozza lançou nos EUA o livro “Why AC/DC Matters” (Por Que o AC/DC Importa) pela editora William Morrow, uma defesa da relevância da banda para a história do rock e tentativa de radiografar seu inegável apelo popular (leia entrevista com Bozza na pág 43). O autor leva a sério a tarefa, analisando letras sacanas escritas pelo vocalista Bon Scott do ponto de vista literário: “Shot Down In Flames”, por exemplo, que fala sobre tentativas de “pegar mulher” em bares, ganha comparação inusitada. “Bon retrata a si mesmo como anti-herói byroniano (alusão ao poeta romântico inglês Lord Byron,1788-1824)”, viaja.

No Brasil, a Companhia Editora Nacional planeja lançar até o fim de novembro “A história do AC/DC – Let There Be Rock”, escrito pela americana Susan Masino. Apesar de a autora ser jornalista, o texto se aproxima mais do registro de uma fã, com domínio rudimentar da narrativa e excesso de reminiscências pessoais. De qualquer forma, vale pela quantidade de informações (ainda que não muito bem organizadas) reunidas e também por algumas anedotas.

Exemplo de uma delas: certa ocasião, em Belfast, na Irlanda do Norte, Angus Young sofreu um imprevisto durante o tradicional strip-tease humorístico que faz em todos os shows. Geralmente ele termina só de cueca e exibe o traseiro após algum suspense. Daquela vez, porém a roupa de baixo estava furada e seu pênis ficou para fora, sem que o guitarrista percebesse. O irmão Malcolm o alertou, enquanto morria de rir, mas ninguém fotografou. Como o próprio Angus disse, brincando para a autora, após ler trechos do livro: faltou incluir mais bandalheira.

É tarefa inglória. Parece que a maior parte da lama foi sepultada junto com o vocalista Bon Scott, morto em 1980 (provavelmente sufocado pelo próprio vômito) e dono de vasto folclore envolvendo excessos – a maior parte das histórias, porém, é sobre sexo “convencional” e drogas legalizadas como o álcool. O AC/DC tem a reputação de ser uma das bandas mais “gente fina” no meio roqueiro. “Já trabalhei com Bon Jovi, U2, Bee Gees, Bruce Springsteen… Não tem banda que trabalhe mais duro. Eles são os caras mais legais do mundo. Bem-educados, centrados nas famílias…”, elogia Mike Andy, ex-diretor de turnê.

Todos que trabalham com o quinteto ressaltam esse caráter “trabalhador” e “familiar” dos integrantes. Angus, por exemplo, é casado desde 1980 com uma holandesa e, tirando o fato de que ela é 15 centímetros mais alta do que ele, pouco é exposto na mídia. O guitarrista se divide entre a casa em uma pequena cidade na Holanda, Aalten, e a Austrália. Angus e seu irmão Malcolm, que já teve problemas com o alcoolismo, fogem da bebida desde os anos 80. O baterista Phil Rudd se esconde pela Nova Zelândia assim que acabam as turnês. Brian Johnson mora em uma ilha paradisíaca em Sarasota, na Flórida, onde é vizinho do baixista Cliff Williams – e também de milionários que possuem casa por lá, como os apresentadores de TV Oprah Winfrey e Jerry Springer.

Brian Johnson está lançando, pela Penguin Books, um livro de memórias baseado em suas experiências com veículos. Piloto semi-amador e apaixonado por carros, ele desfia um repertório de histórias bem humoradas, como sempre demonstra nas entrevistas, e também aborda assuntos sérios, como a convivência com o pai, ex-soldado inglês durão, e o preconceito sofrido por ser filho de uma italiana no período pós-guerra. “Eu e meu irmão tivemos que sair na porrada com muita gente até provar que não éramos fascistas”, lembra.

Brian, 62 anos, é um dos pontos de urgência desta turnê. É o mais velho da banda, e o uso que faz da voz, emitindo notas incrivelmente altas sem apelar para o falsete, já deveria ter acabado com sua carreira a essa altura. Se os irmão Young são abstêmios, ele ainda bebe vinho e, ocasionalmente, uísque. Também não dispensa um cigarrinho de palha. No mês passado, uma úlcera obrigou a banda a adiar várias datas. Mas o cantor segue firme e forte: “Antes desta turnê, pedi ajuda ao Nick Harris, guru de preparação física da Fórmula 1. Tenho medo constante de que alguém veja o show e diga: ‘Pô, tinha que ver esse cara há vinte anos, quando estava no auge…’ Por isso acho que a gente tem que parar enquanto esta por cima”.

A maioria das críticas que a “Black Ice Tour” vem tendo concorda que o trem do AC/DC está a todo vapor. “Os dois minutos iniciais são provavelmente a mais excitante abertura de shows de todos os tempos”, proclama Brian. “Pegamos o cara que fez a abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. Custou mais de US$ 6 milhões!” O tal sujeito a que ele se refere é Mark Fisher. Um inglês formado em arquitetura no final dos anos 60, que se especializou, como designer de estruturas temporárias e infláveis, e que hoje é famoso no show biz internacional por criar cenários espetaculares. Todos os palcos do Rolling Stones desde 1989 e do U2 desde 1992 saíram de suas mãos – e também de algum de seus colegas no escritório da Stufish, empresa que mantém em King’s Cross, em Londres.

Seu primeiro trabalho no ramo é famosíssimo: os bichos gigantes usados pelo Pink Floyd na turnê de “Animals”, em 1977. Naquela época, quase ninguém no rock e na música pop usava grandes cenários ou elementos de palco mais complexos. O baixista e então ditador do Pink Floyd, Roger Waters, o chamou novamente para fazer nada menos do que o paredão da turnê de “The Wall”, em 1979. “Na verdade, eu comecei a desenhar esboços um ano antes, tentando convencer a banda de que era possível. Em setembro recebi sinal verde e os primeiros shows foram em fevereiro”, lembra Fisher. Suas recordações não são nada glamourosas: acumulando o trabalho de carpinteiro com o de designer, ele tinha de acionar os controles que faziam o muro desmoronar todos os dias. Ficava no backstage e jamais conseguiu ver o que o público via. Hoje, após o trabalho em “The Division Bell”, em 1994, ele é brigado com Waters, que qualifica como “maluco”.

O impressionante portfólio de Fisher não se resume ao universo musical, como bem referenciou o contratante Brian Johnson. Além de abertura e encerramento em Pequim, ele foi responsável por um inovador trabalho no espetáculo “KA”, do Cirque Du Soleil, que não usa palco convencional, apenas plataformas flutuantes e elevadores. Seu mais badalado trabalho atualmente é o palco da turnê “360º” do U2, tido como marco revolucionário e importante para o futuro do show business.

Com esse aspecto, a “Black Ice Tour” não pretende competir. O AC/DC tem uma longa tradição de usar aspectos cênicos. Nos primórdios, antes de optar pelo uniforme colegial, Angus usou roupa de Zorro, de Homem-Aranha e de Super-Angus… Os canhões de “For Those About To Rock” viraram marca registrada dos shows, bem como a boneca gigante Rosie que ilustra a canção “Whole Lotta Rosie”. “Isso é uma das coisas mais legais da banda. Eles sabem que poderiam subir no palco sem nada em volta e apenas tocar. As pessoas sairiam felizes. Mas eles querem sempre um visual novo, sem ser abertamente teatral, mas que reproduza ao menos a capa do álbum. Embora não precisem, fazem pelos fãs”, explica Pete Capadoccia, conhecido como Pyro Pete, no livro “The Story Of AC/DC – Let There Be Rock”. Ele é há mais de duas décadas o pirotécnico encarregado de administrar algumas dessas extravagâncias.

“Quando comecei, tínhamos dois canhões, que usamos em um par de turnês. Depois mudamos o palco e eles ganharam a aparência de canhões de um navio de guerra. A partir de 1991, na turnê Monsters Of Rock, já tínhamos 21 deles: sete de cada lado e sete no meio”, lembra. “O sino também passou pelo mesmo número de variações. A cada turnê alguém perguntava: ‘O que podemos fazer com o sino agora?’ Brian adora isso.”

Não faltam histórias de pequenos acidentes e desastres hilariantes. A cabeça de um Angus Young gigante quase esmagou Phil Rudd certa vez; em Portugal, a Rosie inflável já desabou sobre o kit de bateria, e o próprio Angus já se viu preso em uma estrutura elevadiça sem ter como descer… A corda do sino em que Brian Johnson se pendura já se rompeu. O cantor caiu de costas no chão e depois ainda despencaram 12 metros de corda em seu peito. “Ele imediatamente levantou e começou a agitar no palco. Tudo que disse foi: ‘Corda barata de merda!’ Não perdeu nem um compasso”, lembra Pete. “É muito divertido quando algo dá errado. Qualquer outro rock star iria pedir cabeças, saber quem foram os responsáveis”, brinca o técnico. Obviamente, esse bom humor só acontece porque quase nunca algo dá errado. O trem do AC/DC é infalível, assim como os riffs de Malcolm e Angus Young.

O ROTEIRO DO SHOW

“Rock N Roll Train”: O primeiro single de “Black Ice”, de 2008, lançado no fim do ano passado, e inspiração para o cenário da turnê. Impacto visual garantido.

“Hell Ain’t A Bad Place To Be”: Um clássico de “Let There Be Rock”, de 1977, típica letra de Bon Scott sobre uma musa bêbada e pouco confiável, porém desejada. A primeira com temática “infernal” da banda.

“Back In Black”: O riff de guitarra mais poderoso de todos os tempos chega logo para incendiar o estádio e introduz a faixa-título do álbum de 1980. Ao mesmo tempo homenagem a Bon Scott e profissão de fé na imortalidade do rock’n'roll.

“Big Jack”: No embalo, uma das melhores faixas do último disco, Black Ice, daquelas talhadas desde a origem para ecoar em grandes estádios.

“Dirty Deeds Done Dirt Cheap”: Clássica e politicamente incorreta faixa-título do álbum lançado em 1976, anunciando os serviços de um matador para eliminar pessoas inconvenientes.

“Shot Down In Flames”: Mais uma típica letra de Bon Scott, sobre um homem desesperado para pegar mulher, em momento priapismo desassistido. Do disco “Highway To Hell” (1979).

“Thunderstruck”: Do álbum “The Razor’s Edge” (1990), talvez seja o mais recente “clássico” do repertório da banda. Introduzida pelo solo que levanta a plateia, enquanto Angus acelera sua mãozinha esquerda. A inspiração foi uma experiência real vivida pelo guitarrista a bordo de um avião, sobrevoando a Alemanha.

“Black Ice”: A faixa que dá nome ao mais recente disco segue a linha temática dos cataclismas (dando uma mencionadinha no diabo) e mantém o pique do show com sua fórmula 100 % garantida.

“The Jack”: Mais que uma canção, trata-se um “número” criado por Bon Scott (registrado no álbum “T.N.T.”) em ritmo de shuffle blues, com letra que mistura carteado, doença venérea e ocasionais baixarias. Brian Johnson improvisa muito à vontade, mas quem aproveita para fazer o tradicional strip-tease é Angus Young.

“Hells Bells”: É a hora de outro velho ritual: Brian se pendura na corda para tocar o sino gigante. A música foi seu cartão de visitas, faixa 1 do álbum “Back In Black”, em 1980. Temática infernal e mais comparações com fenômenos naturais.

“Shoot To Thrill”: Mais uma de “Back In Black”, sempre dando espaço para Angus, a essa altura, sem camisa e carequinha à mostra, recriar um dos solos de guitarra mais explosivos da história do rock.

“War Machine”: No telão, um desenho animado mostra bombardeiros soltando guitarras e groupies paraquedistas sobre território inimigo. Boa ilustração para mais uma representante do disco “Black Ice”.

“Dog Eat Dog”: Um riff minimalista, porém clássico, diretamente de “Let There Be Rock”, de 1977. Com direito a uivos e ocasionais latidos de Brian Johnson.

“Anything Goes”: A quarta canção de “Black Ice” tem apelo dançante e é forte candidata a ganhar lugar cativo no repertório da banda. Ou, pelo menos, vaga em comerciais de vários produtos.

“You Shook Me All Night Long”: O clássico do AC/DC mais amado pelas mulheres (e favorito dos clubes de strip-tease em cinco continentes). Direto de “Back In Black”, uma obra-prima em ritmo, riff e letra sacana.

“T.N.T.”: Do álbum de mesmo nome, lançado em 1975, uma canção “prima” de “Dirty Deeds…”, que chama um coro de “ói, ói, ói” e entra em clímax com explosões e o trem literalmente em chamas.

“Whole Lotta Rosie”: Hora de mais uma tradição: a volumosa mulher imortalizada por Bon Scott (no disco “Let There Be Rock”, de 1977) é ilustrada por uma gigantesca boneca inflável de 15 metros. Agora ela monta no trem!!!!

“Let There Be Rock”: Clássico absoluto do que os antigos chamavam de “rock pauleira”, desembestado até o interlúdio que serve para Angus Young, do alto de uma estrutura, detonar alucinado solo.

No bis:
“Highway To Hell”: A introdução na guitarra faz estádios tremerem e milhares de celulares piscarem na plateia. A música que canta as agruras da estrada ironicamente brinda o quinteto com uma reação maravilhosa: espere 67 mil vozes no refrão.

“For Those About To Rock”: O obrigatório e apoteótico gran finale, um dos hinos informais do rock’n'roll. Os tiros de canhão do casamento real entre Charles e Diana deram uma grande ideia ao AC/DC quando a banda estava no estúdio gravando. Haja tímpano!

CRONOLOGIA

9/6/1946 - Nasce Ronald Belford Scott em Roods Kirriemuir, sul da Escócia, que conheceria a fama na Austrália como Bon Scott, vocalista do AC/DC.

5/10/1947 - Nasce Brian Johnson, também futuro cantor do AC/DC, em Newcastle-Upon-Tyne, nordeste da Inglaterra.

6/1/1953 - Nasce em Glasgow, na Escócia, Malcolm Mitchell Young, futuro guitarrista.

31/3/1959 - Nasce, também em Glasgow, Angus Mitchell Young, o sétimo filho homem de William e Margaret Young.

1963 - Desempregado e com oito filhos para criar, William Young resolve imigrar para Sydney, na Austrália.

1964 - Angus Young começa a tocar um banjo com algumas cordas faltando.

Janeiro de 1970 - Aos 14 anos e 9 meses de idade, Angus Young é expulso da escola. Só voltaria a usar uniforme colegial para subir no palco.

31/12/1973 - Noite de réveillon: o AC/DC faz seu primeiro show profissional, em um pequeno clube chamado Chequers, em Sydney. No repertório, Chuck Berry, Rolling Stones, Free e Beatles.

22/6/1974 - O AC/DC lança seu primeiro compacto, com as músicas “Can I Sit Next To You Girl” e “Rockin’ In The Parlour”. O vocalista era Dave Evans.

5/10/1974 - Depois de passar seis semanas fazendo o show de abertura para um travesti chamado Carlotta, na cidade de Perth, o AC/DC se apresenta em Sydney com um novo vocalista, Bon Scott.

Janeiro de 1975 - Os cinco integrantes do AC/DC se mudam para Melbourne, onde se estabelecem numa casa. O estilo de vida rock’n'roll incluía a partilha comunitária de bebida, groupies e alguns parasitas da região pubiana.

Fevereiro de 1975 - É lançado na Austrália o primeiro álbum do AC/DC, “High Voltage”. Pouco depois, o baterista Phillip Hugh Norman Witschke Rudzevecuis se juntaria à banda e ficaria famoso como Phil Rudd.

Dezembro de 1975 - Um segundo álbum, “T.N.T.”, chega às lojas, também somente na Austrália. O selo Atlantic Records oferece ao AC/DC um contrato mundial para lançar um disco.

Fevereiro de 1976 - Já com malas prontas para a Inglaterra, a banda começa a registrar “Dirty Deeds Done Dirt Cheap”, em Melbourne. O disco seria lançado somente em novembro, atingindo o mercado britânico. Nos EUA, sairia somente em 1981.

Março de 1976 - No show de despedida da Austrália, Angus Young faz strip-tease no palco e mostra o traseiro para a plateia. Nasce uma tradição.

8/4/1976 - O AC/DC desembarca de mudança na Inglaterra, justamente quando o movimento punk ganha as ruas de Londres. O primeiro show ocorre num pub chamado Red Cow, na capital britânica.

4/6/1976 - O AC/DC faz seu primeiro show como headliner, no histórico Marquee, em Londres. É o começo da “Lock Up Your Daughters Summer Tour”. A programação, moderna, incluía um DJ no aquecimento e projeção de videoclipes.

12/6/1976 - Angus Young aparece pela primeira vez na capa de uma publicação internacional: o semanário Sounds, que, na época, rivalizava com os tradicionais New Musical Express e Melody Maker.

28/9/1976 - É lançada uma edição internacional de “High Voltage”, que reúne faixas dos dois primeiros discos que haviam sido lançados apenas na Austrália. Nos EUA, a crítica destrói o LP. “Burrice me incomoda. Burrice calculada me ofende”, escreveu Billy Altman, na Rolling Stone.

21/3/1977 - Sai na Austrália o álbum “Let There Be Rock”, que ganharia uma versão internacional em junho.

Setembro de 1977 - Após uma turnê pelo Reino Unido, o baixista Mark Evans é demitido da banda por conflitos com Angus. Em seu lugar entraria o inglês Cliff Williams, que na infância tinha sido aluno de um vizinho chamado… Paul McCartney.

Maio de 1978 - Sai o quinto álbum, “Powerage”, seguido cinco meses depois por um disco ao vivo, “If You Want Blood You’ve Got It”.

Julho de 1979 - “Highway To Hell” tem lançamento mundial. Em pouco tempo, seria o primeiro disco do AC/DC a vender mais de um milhão de cópias. Aclamado atualmente como um dos melhores discos de rock de todos os tempos, foi o primeiro a ser produzido por Robert “Mutt” Lange, profissional de currículo modesto até então.

19/2/1980 - Bon Scott é encontrado morto dentro de um carro em Londres, provavelmente asfixiado após (mais) uma noite de bebedeira.

29/3/1980 - Brian Johnson, que Bon Scott certa vez havia descrito como “um grande cantor de rock’n'roll na linhagem de Little Richard”, ensaia com o AC/DC e é aprovado para o posto de vocalista do grupo. Na época, Brian, casado e pai de duas filhas, tinha desistido da carreira de cantor e tinha uma firma de tetos de vinil para carros.

23/8/1980 - O novo álbum “Back In Black” entra na parada da Billboard para permanecer durante 131 semanas seguidas.

10/12/1980 - Paris tem o privilégio de ver a estreia mundial do filme “Let There Be Rock”, que registra o show realizado na capital francesa durante a turnê de “Hells Bells”, em 9 de dezembro de 1979.

22/8/1981 - O AC/DC se apresenta como headliner do festival Monsters of Rock, em Donnington, na Inglaterra. O show rende um antológico DVD.

Novembro de 1981 - Sai “For Those About to Rock (We Salute You)”, o primeiro álbum do AC/DC a liderar a parada americana.

15/8/1983 - “Flick Of The Switch” é lançado e decepciona fãs no mundo todo. O baterista Phil Rudd é demitido no meio das sessões de gravação, mas completa o trabalho no álbum. Após audições, o jovem inglês Simon Wright, 20 anos, é escolhido para assumir as baquetas.

Outubro de 1984 - Para festejar o décimo aniversário da banda, é lançado “’74 Jailbreak”, mini álbum com raridades que só tinham saído na Austrália.

28/6/1985 - Sai o disco “Fly On The Wall”, o primeiro com Simon Wright. Um vídeo com o mesmo nome e cinco músicas também chega ao mercado.

Maio de 1986 - O álbum “Who Made Who”, reunindo faixas inéditas e material previamente lançado, serve como trilha sonora para o filme “Comboio do Terror” (“Maximum Overdrive”), única incursão do escritor Stephen King como diretor.

31/8/1986 - Richard Ramirez é preso na Califórnia após cometer 16 assassinatos. Ele diz que imagens satânicas do disco “Highway To Hell” e da música “Night Prowler” o incitaram. Um boné do AC/DC foi encontrado no local de um dos crimes. A banda sofre perseguição de conservadores e grupos religiosos.

Fevereiro de 1988 - O álbum “Blow Up Your Video” marca a reunião do AC/DC com os produtores George Young (irmão mais velho de Malcolm e Angus) e Harry Vanda.

Maio de 1988 - Malcolm Young pede um tempo pra ficar com a família e é temporariamente substituído por seu sobrinho Stevie Young. Na verdade, o problema do músico era alcoolismo.

8/12/1990 - “Moneytalks” se torna o maior sucesso do AC/DC nos EUA, atingindo o 23º lugar na parada de compactos. Durante os shows, a banda atira dinheiro falso para os fãs. O single foi extraído do álbum “The Razor’s Edge”, lançado em setembro.

18/1/1991 - Três adolescentes morrem esmagados antes de um show em Salt Lake City, nos EUA. Para evitar um cancelamento, os promotores não avisam à banda. O AC/DC sobe ao palco e depois é acusado por tablóides ingleses de ter se apresentado mesmo sabendo da tragédia.

28/11/91 - Nos arredores de Moscou, o AC/DC toca para um público estimado em um milhão de pessoas, em evento chamado Festa da Democracia e Liberdade. O governo mandou aviões “bombardearem” as nuvens para evitar chuva.

29/10/1992 - É lançado o disco duplo “AC/DC Live”. “Queríamos mais um registro antes que o cabelo e os dentes caíssem”, brincou Angus, na época.

Março de 1993 - Estreia na MTV americana o desenho “Beavis And Butthead”, que ajudou o AC/DC a conquistar novas gerações em plena era grunge.

Maio de 1994 - O baterista Phil Rudd volta a gravar com a banda, participando do álbum “Ballbreaker”, produzido por Rick Rubin. O lançamento acontece em agosto de 1995.

Março de 1997 - Angus e Malcolm se enfurnam em estúdio para ouvir e trabalhar em cima de gravações da fase com Bon Scott. Em novembro sai a caixa “Bonfire”, um tesouro com material inédito e faixas ao vivo.

29/2/2000 - É lançado “Stiff Upper Lip”, primeiro lugar nas paradas da Alemanha e da Argentina, entre outros países.

Fevereiro de 2001 - A venda total de discos do AC/DC alcança 70 milhões de unidades. A banda ocupa o nono lugar entre os maiores campeões da indústria fonográfica; dentro do rock, ainda era superada por Beatles, Led Zeppelin, Pink Floyd e Eagles.

Outubro de 2001 - É lançado um boneco de Angus Young em 40 centímetros. A piada que circulava: “É quase em tamanho natural”

Dezembro de 2002 - A banda assina com a Sony Music, que prepara uma série de relançamentos de seu catálogo.

10/3/2003 - O AC/DC é introduzido no Rock’n'Roll Hall of Fame. Malcolm descreve a noite com irreverência: “Foi como tocar para um bando de pinguins num restaurante. Os caras do Clash foram homenageados antes da gente, e The Edge fez um discurso de 40 minutos sobre o Joe Strummer (líder do Clash, morto meses antes). Foi o cara mais chato que já testemunhei falar”.

28/3/2005 - É lançada “Family Jewels”, coletânea dupla em DVD com clipes e vídeos ao vivo.

16/10/2007 - Chega ao mercado mais um festim de raridades para os fãs: “Plug Me In”, DVD em versões tripla e dupla

20/10/2008 - O álbum “Black Ice” é lançado nos EUA com venda exclusiva na rede Wal-Mart. O disco atinge o primeiro lugar nas paradas em 29 países.

10/11/2009 - “AC/DC Backtracks” é colocado à venda somente pelo site www.acdcbacktracks.com. Trata-se de um amplificadorzinho de 1 watt contendo três CDs, dois DVDS, um LP, livro de 164 páginas e memorabília diversa. Em edição limitada.

AULA DE MARKETING

Comédia Escola do Rock, estrelada por Jack Black, ajudou o AC/DC a conquistar novas gerações, coroando estratégia da Sony, que desde 2003 explora o catálogo da banda

As vendas do catálogo do AC/DC aumentaram substancialmente de 2003 para cá. Aquele ano marcou a estreia da comédia “Escola de Rock”, cujo roteiro mostra um roqueiro fracassado que se passa por professor substituto e decide montar uma banda com os alunos pré-adolescentes. Na trilha sonora, entre muitos clássicos do rock, o AC/DC comparece com “Back In Black”, “Highway To Hell” e It’s a Long Way To The Top (If You Wanna Rock’n’roll)”, que fecha o longa com os créditos já na tela, numa das cenas mais hilárias do filme. O tal professor, interpretado por Jack Black, sobe no palco com a clássica indumentária de colegial usada por Angus Young para tocar a faixa-título – não por acaso uma música bem no estilo AC/DC. Voltado para adolescentes, o filme colaborou para um improvável – a essa altura – interesse das novas gerações pelo grupo.

Na verdade, o ano de 2003 marca o começo da exploração dos direitos do catálogo da banda pela Sony (à exceção de “Ballbreaker” e “Stiff Upper Lip”, que depois também foram incorporados). Em fevereiro daquele ano, o selo Epic jogou no mercado americano edições especiais remasterizadas, com encartes de 16 páginas trazendo textos de críticos de renome como David Fricke, e uma estratégia especial para a internet. No endereço acdcrocks.com, os compradores dos CDs podiam navegar por uma área exclusiva, com vídeos, fotos e exclusivas versões ao vivo.

Em 2006, a Sony renovou o contrato com a banda para explorar o catálogo. Entre os passos seguintes, outra bela tacada: costurar um forte acordo com a MTV para promover o lançamento, em novembro do ano passado, do game “AC/DC Live – Rock Band”, já em apoio ao álbum “Black Ice”. Enquanto isso, Jack Black seguia rodando com “Escola do Rock” por canais a cabo e TVs abertas, sempre conquistando novos pupilos para o AC/DC.

OS SEGREDOS DO SUCESSO

Motivado pelo descaso da crítica e diante de números eloquentes, jornalista lança livro “Why AC/DC Matters” (Por Que O AC/DC Importa) que reivindica novo status para a banda

Anthony Bozza é um respeitado jornalista musical americano, autor de biografias de Slash e Eminem, entre outros livros. Durante o tempo em que trabalhou na revista americana “Rolling Stone”, ele cortava um dobrado para aprovar pautas sobre uma de suas bandas preferidas. Logo Bozza percebeu que o AC/DC, apesar de todo o sucesso, não recebia o devido reconhecimento da crítica especializada. Com o lançamento do álbum “Black Ice”, no ano passado, ele se deparou com números incontestáveis que expressavam a grandeza do grupo australiano. Assim nasceu o livro “Why AC/DC Matters”, recém-lançado nos EUA pela editora Harper Collins (e sem previsão para sair no Brasil).

Nesta entrevista feita por telefone, direto de seu escritório, em Nova York, o autor conta como foi a busca por explicações para o sucesso e a relevância de um grupo que faz um som simples, mas cativante. De quebra, Bozza explica como é o show da “Black Ice Tour” que o Morumbi verá em 27 de novembro – e que ele, como bom fã, conferiu quatro vezes.

Do que você trata no livro “Why AC/DC Matters”?

É uma explicação sobre a importância da banda. O AC/DC tem milhares de fãs pelo mundo, vendeu milhões de discos, só foi superado pelos Beatles, e o único álbum que vendeu mais que o “Back In Black” foi “Thriller”, do Michael Jackson. Mesmo com esses fatos, eles ainda são uma dessas bandas que nunca tiveram o mesmo tipo de tratamento da crítica que outras têm. São sempre tratados como o tipo de banda que faz muito sucesso, mas não merece qualquer apreciação da crítica. São tratados como bandas barulhentas, atrasadas, como bandas de metal que só compõem as mesmas músicas o tempo todo, os mesmos acordes e letras estúpidas. Eu trabalhei na “Rolling Stone” americana durante sete anos e participei de várias reuniões onde discutíamos edições com listas das maiores bandas de rock de todos os tempos ou os melhores discos dos anos 70, e toda a vez que eu trazia o nome do AC/DC à tona, os outros olhavam para mim como se dissessem: “Eu nem sei sobre o que você está falando”. Eu queria colocar isso à prova. Se você falar com qualquer músico, engenheiro de som ou produtores, qualquer um do mercado da música, todos falam que o AC/DC entende fundamentalmente o que é o rock’n’roll. Todos que atuam no mercado do rock compreendem, mas a crítica não.

Foi idéia sua ou a editora que te pediu?

Foi minha idéia. Eu e o meu editor estávamos conversando sobre como há muitos livros aqui nos Estados Unidos com o título “why something matters” (por que alguma coisa tem importância), esse tipo de coisa. E ele queria começar a lançar livros sobe bandas de rock e cultura pop, então havia a idéia do “Why The Beatles Matters”, mas é óbvia a razão pela qual eles têm importância e eu acho que não conseguiria escrever sobre uma banda que eu nunca vi ao vivo. A conversa começou por aí, eu sugeri AC/DC e eles abraçaram a idéia.

Com quem você falou para chegar a essas conclusões?

Eu falei com o Slash, Tommy Lee, o produtor Rick Rubin… Eu queria explicar porque essa fórmula tão simples funciona tão bem. Para isso fui conversar com professores de guitarra e de canto da Universidade de Música de Berkeley, uma das melhores no ensino de música, e foi muito interessante. O professor de voz explicou o que acontece na garganta do homem quando ele canta e foi muito interessante entender o quanto bons são Brian Johnson e Bon Scott como vocalistas. O professor de guitarra explicou o que acontece no diálogo entre Angus e Malcolm, e porque eles usam três ou quatro acordes para criar riffs incríveis.

Como você compararia esse palco com o palco de outras turnês?

Eu diria que dessa vez eles colocaram tudo que havia nos outros palcos em um palco só. Não é algo tão grande quanto o palco do U2, com telões gigantes e tal, porque não funcionaria. Mas eles têm muita fumaça e fogo no trem, que é realmente gigante, tem a “Rose” inflável, a mesma de sempre, tem o sino de “Hells Bells”, é um show muito bom, podem comprar o ingresso sem erro.

A maior crítica que recai sobre o AC/DC é a de o grupo fazer sempre a mesma música, mas eles nunca fizeram concessões ou mudaram essa fórmula matadora…

Eu acho que essa é outra razão de eles terem fãs tão dedicados. Eu falei com Kerry King, do Slayer, e ele disse que o Slayer sempre olha para o AC/DC como uma banda que nunca fez concessões, que fez tudo de um jeito próprio. E com o Slayer é a mesma coisa. Eu acho que isso é apenas o que eles são, decidiram fazer o rock’n’roll do jeito que eles fazem, não fazer nada que os digam para fazer e continuam fazendo isso. Eles poderiam seguir a moda, dar ouvidos a gente de gravadora para fazer coisas diferentes, mas talvez não desse em nada. A fórmula deles está totalmente correta.

Eles converteram o “defeito” de tocar sempre a mesma coisa em uma grande vantagem…

É, e esse foi outro motivo pelo qual eu decidi escrever o livro. Quando o “Black Ice” foi lançado, no ano passado, foi número um nas paradas em 29 países ao redor do mundo. E revistas de rock não colocaram a banda na capa. Na “Rolling Stone” americana, só aconteceu uma vez em 30 anos.

Falando dos problemas de saúde de Brian Johnson, você acha que ele teria condições de fazer uma nova turnê com a banda dentro de dois ou três anos?

Para ser honesto acho difícil. Independente de ele ter ficado doente, essa é provavelmente a última turnê deles. Brian está fazendo a parte mais difícil da performance do grupo, por causa da mecânica que acontece no corpo quando você canta. Angus pode tocar por anos a fio, assim como Malcolm, Cliff e Phil, mas Brian é o cara que tem uma inacreditável performance atlética a cada show. Eu tenho um sentimento de ele vai ser o primeiro a perceber a hora de parar, antes dos outros.

Você imagina o AC/DC com outro vocalista?

Não, acho que eles são muito do tipo “um por todos e todos por um”, sem Brian eles não saem mais em turnê. Eles não precisam fazer mais turnês, ao menos não por causa de grana.

Em poucas palavras, por que o AC/DC é importante?

Mas eu expliquei isso em 160 páginas! Vá lá: porque eles ainda fazem o que sempre se propuseram fazer.

NO ROCK IN RIO

Em momento de transição, o AC/DC foi uma das atrações da primeira edição do festival, em 1985. Angus Young chocou o Brasil em um dia histórico para o país – em vários sentidos

Pego de surpresa para se apresentar na primeira edição do Rock In Rio, em 1985, já que a turnê do álbum anterior, “Flick Of The Switch”, havia sido encerrada, o AC/DC acabou interrompendo as gravações do disco seguinte, “Fly on the Wall”, para vir ao Brasil. O grupo integrava uma escalação que reunia, entre outros pesos pesados do rock, Ozzy Osbourne, Iron Maiden, Scorpions e Whitesnake. Como as bandas tocavam em dois dias (exceto o Iron), o quinteto teve três dias de folga entre as apresentações e pôde curtir o calor, as praias cariocas e belezas locais como o Pão de Açúcar.

Na entrevista coletiva, o bem-humorado Angus Young brincou sobre tentar encontrar um lugar pra comer fish’n’chips (peixe com batata frita, popular refeição britânica) no Rio de Janeiro, mas os jornalistas não pescaram. Quando foi perguntado se o AC/DC iria fazer o rock’n’roll mais popular (usando a expressão “bigger”; em português, maior) no Brasil, o baixinho arriscou outra piada: “Bom, nós não somos muito altos, não podemos fazer o rock ficar maior”. Ninguém riu e, ele teve de continuar a resposta, meio sem graça. “Provavelmente, acho que vai ajudar, sim, ver pela primeira vez tanto rock’n’roll no mesmo lugar…”

O Brasil era visto pelos músicos como país exótico. Brian Johnson, que arriscou alguns “brigado” durante o show, falava sobre “troca cultural” também sem perder a piada. “Todo mundo pensa em conferir o samba e tal. Aqui os garotos recém descobriram o rock’n’roll. Uns 30 anos depois, né? Bem, antes tarde do que nunca…” A banda ficou hospedada no Hotel Nacional, projetado por Oscar Niemeyer e atualmente desativado. Angus & Cia. aproveitaram a praia de São Conrado, logo em frente, em trecho que hoje é impróprio para banho devido ao alto índice de coliformes fecais.

Embora na época os shows não tivessem tantos efeitos especiais como os de hoje, o AC/DC fez questão de trazer os canhões que disparam em “For Those About To Rock (We Salute You)” e o sino gigante usado em “Hells Bells”. Como a estrutura do palco não suportaria o peso, a alternativa foi substituir a trapizonga por um sino de gesso, mais leve. As cerca de 50 mil pessoas que compareceram ao show do dia 15 e as outras 200 mil que estiveram na Cidade do Rock no dia 19 nem perceberam a diferença.

O repertório era mais ou menos o da curta turnê anterior, que trazia apenas “Guns For Hire” entre as novas. Nessa época o AC/DC dependia mais de hits da época da fase com Bon Scott… Mas “Back In Black” tinha cinco músicas incluídas no repertório.

Como headliner, o grupo tinha mais tempo para se apresentar, mas o show do dia 19 teve duração menor que o do dia 15, provavelmente pelo número de atrações, naquela que ficou conhecida como “noite do metal”, com o público se divertindo em meio a um terrível lamaçal. Os que foram na terça, além de ter visto três músicas a mais (“Shot Down in Flames”, “The Jack” e “Jailbreak”), escaparam da tempestade que se abateu sobre a cidade. Mas, dentro da rigorosa predileção dos fãs de heavy metal, tiveram de encarar Kid Abelha, Eduardo Dusek e Barão Vermelho antes dos Scorpions, a outra atração gringa da noite, entrarem no palco. No dia 19, o show de Erasmo Carlos, vaiado na noite de estréia, foi transferido para o dia seguinte, restando Baby & Pepeu, Whitesnake, Ozzy Osbourne e Scorpions, antes do AC/DC.

Em referência à eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral, encerrando um período de 21 anos de regime autoritário, os jornais cariocas apelidaram a noite de 15 de outubro de “festa da democracia”. Mas o público headbanger demonstrou tolerância zero em relação a Kid Abelha e Eduardo Dusek, brindados com uma chuva de pedregulhos e copos de papel (vazios, dobrados, ou cheios de líquidos diversos).”As pessoas que estão jogando coisas no palco têm mais é que ser linchadas”, gritou Dusek divertindo ainda mais o povo de camisa preta. “Não está a fim de escutar música? Fica em casa e se suicida!” A rivalidade estabelecida entre atrações brasileiras e internacionais levou Herbert Vianna, dos Paralamas do Sucesso, a se manifestar, pouco depois, em uma entrevista à revista Veja: “Não tivemos muito o que aprender no Rock in Rio. O melhor guitarrista do festival foi o Armandinho, do Moraes Moreira. Angus Young eu acho um mão dura”.

O guitarrista monopolizou as atenções dos shows. O momento “ataque epilético”, em que parece estrebuchar no chão, girando o corpo sobre si próprio sem parar de tocar, foi apoteótico. Chocou o público de todo o Brasil, que acompanhava a cobertura pela TV. No Jornal Nacional do dia 16 de janeiro, o strip-tease de Angus Young foi noticiado – e elogiosamente!

Set list completo do dia 15/01/1985

1- Guns for Hire
2- Shoot to Thrill
3- Sin City
4- Shot Down In Flames
5- Back In Black
6- Have A Drink On Me
7- Bad Boy Boogie
8- Rock And Roll Ain’t Noise Pollution
9- Hells Bells
10- The Jack
11- Jailbreak
12- Dirty Deeds Done Dirt Cheap
13- Highway To Hell
14- Whole Lotta Rosie
15- Let There Be Rock
16- T.N.T.
17- For Those About to Rock (We Salute You)

A SEGUNDA VINDA

Em outubro de 1996, o AC/DC voltou ao Brasil para tocar em Curitiba e em São Paulo. Com o baterista original, Phil Rudd, e uma superprodução incrível

Não é sempre que um grupo cheio de sucessos no currículo inicia um show tocando justamente o maior deles, e foi exatamente o que o AC/DC fez no Pacaembu, no dia 12 de outubro de 1996. Era a turnê do álbum “Ballbreaker” e, quando uma bola gigante sustentada por um cabo de aço demoliu o paredão de tijolos, Angus Young surgiu correndo de uma lado a outro tirando os primeiros acordes de “Back In Black” para levar as cerca de 55 mil pessoas à loucura. A turnê marcou o retorno do baterista Phil Rudd ao grupo, completando a formação clássica, à exceção, claro, de Bon Scott. O grupo só voltaria à estrada quatro anos depois.

Desde a turnê de 1992 o AC/DC vinha fazendo dos shows superproduções que realçam a performance do grupo. No Pacaembu, apresentou uma série de efeitos de tirar o fôlego (como se a música, por si só, não fosse capaz disso). Rosie, a mulher inflável gigante alusiva à música “Whole Lotta Rosie”, fez sua primeira aparição no Brasil. Em “Highway To Hell”, no bis, Angus Young surgiu de dentro de uma jaula que emergia do piso como se realmente tivesse subido do inferno, com os clássicos chifrinhos da capa do álbum de mesmo nome. Antes, em “Boogie Man” o gaiato tinha feito seu obrigatório strip-tease, sempre mostrando a cueca samba-canção com a bandeira do país onde toca. Brian Johnson teve seu momento de brilho coadjuvante ao se dependurar na esfera de aço e depois carregar o nanico Angus nas costas.

O repertório incluiu quatro músicas de “Ballbreaker”, de 1995, reconhecidas e cantadas pelo público. Ao longo das mais de duas horas de show, o estádio todo parecia cantar tudo junto com a banda. Não faltaram o sino gigante gongado por Johnson em “Hells Bells” nem os tiros dos canhões medievais em “For Those About To Rock (We Salute You)”, que tradicionalmente encerram os shows. Angus ainda encontrou tempo para, após o solo, fazer sair faíscas de sua guitarra e da estruturas metálicas do palco, que reproduziam um canteiro de obras com grua e tudo. “Back In Black” continuou sendo o disco com maior número de músicas incluídas no set, dessa vez apresentando também “You Shook Me All Night Long”, a grande ausência nos shows do Rock In Rio. Outros clássicos, inclusive da fase Bon Scott, se mostraram vivíssimos, cada vez mais adaptados à voz singular de Brian Johnson. Entre eles, “Dirty Deeds Done Dirt Cheap” e “TNT” foram os que mais sacudiram o público. Além, é claro, de “Let There Be Rock”, que Angus usou para detonar seu número de guitarrista aloprado, com uma disposição de garoto – embora, na época, já contabilizasse mais de 40 primaveras.

Na véspera, coincidentemente o dia da morte de Renato Russo, o AC/DC tocara em Curitiba, na Pedreira Paulo Leminski, para outras 50 mil pessoas, público considerado recorde do local até hoje. A abertura foi feita pelo trio virtuose Dr. Sin, e em São Paulo, a honra coube ao Angra, ainda com a formação “clássica” e com dois álbuns lançados. O roteiro das duas apresentações foi idêntico, e a turnê está registrada no DVD “No Bull”, gravado na Plaza de Toros de Las ventas, em Madri. Lançado originalmente em 1996, o título ganhou no ano passado uma versão “director’s cut”. Em relação às músicas tocadas nos shows do Brasil, tem um bônus: “Dog Eat Dog”. Curiosamente, há poucas imagens desses shows brasileiros disponíveis no YouTube.

Set list completo do dia 12/10/1996

1- Back in Black
2- Shot Down in Flames
3- Thunderstruck
4- Girls Got Rhythm
5- Hard as a Rock
6- Shoot to Thrill
7- Boogie Man
8- Hail Caesar
9- Hells Bells
10- The Jack
11- Ballbreaker
12- Rock and Roll Ain’t Noise Pollution
13- Dirty Deeds Done Dirt Cheap
14- You Shook Me All Night Long
15- Whole Lotta Rosie
16- TNT
17- Let There Be Rock
18- Highway to Hell
19- For Those About to Rock

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Fazendo História



por Marcos Bragato

Fonte: Rock em Geral

Jon Spencer Blues Explosion: visceral como o rock

Cobertura do show da banda americana, que aconteceu dentro do Abril Pro Rock, em 2001. Já dava uma idéia do que viria a ser a coluna Rock é Rock Mesmo, criada em 2003. Matéria publicada na Revista Dynamite número 45, de junho de 2001.

por Marcos Bragatto

jonspencerEra ainda cedo no domingão do Abril Pro Rock, quando um trio esperado, sim meus amigos, esperado por boa parte do público, subiu ao palco. Subiu, não, invadiu, arrombou um espaço para impor uma catarse poucas vezes vista em toda a história do rock, quiçá por terras brasileiras e ainda mais num festival como o Abril Pro Rock. Explico: é que o show do grupo nova-iorquino não tem começo, meio ou fim, é um bloco simplesmente, um todo, uma avalanche de atitude, de esporro, de antibanalização, de revolução. E… De rock, enfim. Primeiro porque a banda, com dois guitarristas e um baterista, sem baixo ou outro instrumento que o substituísse, desafia os conceitos do próprio rock, sem porém fugir às suas características mais básicas: desafio, atitude, pé na porta, e, acima de tudo, comoção coletiva.

Todos vestem preto, a iluminação é caótica e fraquíssima. Jon Spencer, o homem que dá nome ao grupo, veste couro preto, usa uma barba e cabelos unidos, que lembram Jim Morrison, fase indecisa, totalmente from hell. Traz pendurada no pescoço uma guitarra mais surrada que mulher de malandro, e lhe dá o tratamento merecido, arrebentando-lhe, sem dó, várias cordas. Jon Spencer representa o protopunk, nos antigos anos 70, encarnando Iggy Pop fase Stooges, tocando como MC5 e até mesmo como Richard Hell. Mas também tem paralelo com o reaça Ted Nugent, com o Motörhead, que esteve no APR em espírito, e todo o crossover punk/metal pré heavy metal contemporâneo. É, sem exagero, a síntese do rock e da rebeldia, ou só do rock, sem rebeldia mesmo. É o rock em si, em estado bruto, impossível de ser lapidado. Grosso, direto, duro, inapelável, do qual não se pode escapar.

O show do Jon Spencer Blues Explosion joga por terra o nefasto conceito de “show para iniciados”, porque, independentemente de qualquer conhecimento que se tenha sobre o grupo, sua performance permanece impressionante e arrebatadora. Qualquer um que, desavisado, passasse pela frente do palco do APR naquele momento, um vendedor de cachorro quente, indo rumo ao banheiro, um outro transeunte, que trabalhava em uma das barracas de alimentação, num momento de folga, ou ainda o menino catador de latas para a reciclagem – todos eles ficariam perplexos com o que se passava com o trio Jon Spencer Blues Explosion.

Segundo consta, os moderninhos de plantão são fãs de Jon Spencer. E é fácil de se explicar. É um grupo indie e que, pela própria formação, pelos instrumentos que tocam, preenchem os requisitos necessários. É um grupo obscuro e conhecido por uma minoria, que já pode ser levado a altares. Com Jon Spencer, os moderninhos de planto podem voltar aos seminais anos 70 e, enfim, se converter ao bom e velho rock, que é, no fundo, o que move as emoções de toda a música pop. Inclusive as deles, os próprios moderninhos de plantão.

NOTA: Eu tava lá e assino embaixo.

Adelvan

Entrevista com The Renegades of punk



por Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Fonte: Spleen & Charutos

Foto do cabeçalho: Rafael Passos

O programa de rock agradece imensamente a Rian "Calango doido" por sempre ceder seus excelentes textos e entrevistas para o nosso blog.

Nas próximas semanas, o underground sergipano recebe visitas tão ilustres quanto diversas. Além da essência garageira, no entanto, as bandas possuem um anfitrião comum. A Renegades of Punk fará as honras da casa com uma energia punk que a simpatia da vocalista Daniela dificilmente deixa entrrever.

Jornal do Dia - Não é de hoje que eu saco o trabalho de vocês. Na época do saudoso Muquifo, no estacionamento do Riomar, já me impressionava o vigor com que uma guria encarava aquele bando de roqueiro podre, e fazia todo mundo bater cabeça com alguns poucos acordes. Mesmo com tanta “experiência”, no entanto, parece que o som de vocês continua relegado ao gueto. Como você encara isso? É assim mesmo? Existe uma carência no mercado local ou o som da Renegades não sobrevive fora do underground?

Daniela – É mais ou menos por aí mesmo. Desde que eu toco em banda eu toco rock n roll é asism. Sempre algo underground. A gente sempre habitou esse mundinho dos inferninhos e pequenas casas de show. Acho que existe uma carência no mercado local, porque o som que a gente faz – punk rock – e outros que são próximos dele têm muita dificuldade em conseguir fazer eventos e manter uma vida de banda, sabe? Tocar, mostrar seu som, vender seu material. Não sei se só sobreviveríamos no underground, mas é certo que nosso som não é comercial – no sentido de ser mais fácil de ser assimilado e vendido – e nem é feito com este intuito. Mas, por outro lado, não estamos de costas viradas para outros âmbitos ou para outras experiências, não. É só que parece que estilos diferentes têm um problema em se comunicar, ao menos aqui em Aracaju.

JD - Vocês tocaram recentemente em São Paulo. Como foi a experiência? Dá pra comparar as duas cenas?

Daniela – A experiência foi muito legal. Já tínhamos (eu e Ivo) tocado por lá com a Triste Fim de Rosielene, uma banda que tínhamos, e sabíamos mais ou menos do que se trata tocar lá. São contextos incomparáveis, ao menos quando se trata de uma cena Faça Você Mesmo. Lá, o underground, o punk, ou como você queira chamar, é algo estabelecido, tem público, têm lojas especializadas nisso. Existem muitos lugares para shows, muitos shows acontecendo e as bandas existem de fato. É muito diferente, chega a rolar um choque cultural mesmo.

JD - Não sei se a angústia é justificada, mas eu acho absurdo que uma capital com tanta banda legal como Aracaju não abrigue um festival de peso, a exemplo dos saudosos Punka e Rock-SE. Dá pra ensaiar a construção de uma cena num cenário como o nosso?

Daniela – Você tem razão. Festivais são muito importantes para a consolidação de uma cena local, para que as pessoas entendam o que é isso ou se não entendam, ao menos aceitem o rock n roll como uma forma de expressão musical. Fora que um festival colocaria Sergipe de volta ao circuito, faria com que o estado tivesse mais relevância no cenário nacional e se transformasse num ponto onde bandas tivessem mais interesse de vir tocar. Foi por ir nesses antigos festivais que você citou, por exemplo, que eu entendi o que era underground, que eu conheci bandas muito boas. É como se festivais assim tivessem um papel, social, político, didático, além do musical, óbvio.

JD - Embora estejamos longe demais das capitais, muita gente tem driblado a geografia e a ingerância do poder público com as ferramentas oferecidas pela tecnologia. Como é a relação da banda com essas ferramentas? A empolgação de algumas bandas é tamanha que nem parece que a internet serve mesmo é pra disseminar pornografia.

Daniela – A gente acaba se utilizando muito dessas ferramentas. Elas fazem a informação circular com muito mais rapidez, não é? Daí, principalmente para divulgação de eventos, a gente se utiliza de blogs, fotologs, várias modalidades de sites de redes sociais… Acho que essas ferramentas são muito importantes e têm resultados efetivos mesmo. Imagine como era difícil para uma banda independente marcar uma turnê a 20 anos atrás? Tudo via carta e telefone? Agora com email, msn e etc, você agiliza tudo muito mais rápido, e fora isso, pode ouvir e fazer contato com pessoas e bandas de várias partes do mundo – coisa que demoraria anos para ser feita se não houvesse internet, como a conhecemos hoje. É claro que não somos otimistas cegos dessas coisas, a gente tenta ser crítico e ver os aspectos negativos também. A internet nos abre algumas portas e fecha outras, mas é a dinâmica natural das novas possibilidades.

JD- E os planos da Renegades para 2010?

Daniela – Bom, a gente tem idéia de fazer um videoclip e de começar a preparar um álbum para o segundo semestre. Além disso, tem uns lançamentos pra sair: um 5-way – com Os Estudantes [RJ], Homem Elefante [RJ], Ornitorrincos [RS] e Velho de Câncer [RS] – e um re-lançamento do nosso primeiro ep em um vinil de 7’’ pelo selo alemão Thrashbastard.

The Renegades of punk tem shows marcadas para as seguintes datas:

Local (dos 2 eventos): Rua Francisco Rabelo Leite Neto, 566, Atalaia (2 ruas atrás do Bar Cariri)

27/02:

VELHO DE CÂNCER (RS)
Thee Swamp Beat Brothers
The Renegades of Punk
The Baggios

06/03:

EXPOSIÇÃO DE DESENHOS DE THIAGO NEUMANN

+

WARCRY (EUA)
THE RENEGADES OF PUNK
LUMPEN (BA)
DEMONKRÄTZIE
KARNE KRUA

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

# 136 - 19/02/2010



O programa de rock em sua edição de número 136 começou com uma dobradinha do Autoramas, a simpática banda de “rock para dançar” (como eles se auto-definem) do também simpático Gabriel Thomaz. Gabriel é “gente que faz” no mundo do rock desde o final dos anos 80. Na primeira metade dos anos 90 sua banda “little quail and the mad birds”, formada em Brasília, teve uma certa projeção no cenário independente. Em 1997 ele mudou-se para o Rio de Janeiro e montou os Autoramas, também calcado no rockabilly, como o Little Quail, mas com grandes influências da surf music dos anos 60 e da jovem guarda. As duas faixas que abriram o programa foram extraídas de seu novo disco, “Desplugado”, onde a banda faz versões acústicas de alguns de seus (relativamente) grandes sucessos. O disco está disponível para download gratuito de alta qualidade no site da TRAMA VIRTUAL. Clicando AQUI, você lê uma entrevista exclusiva com eles conduzida por Marcio Sno e publicada no Portal Rock Press. – No segundo bloco exploramos o lado mais experimental do metal. Abrindo o bloco, a faixa que abre o disco “spheres”, de 1993, do pestilence. Neste álbum a banda, que em sua formação, na Holanda, em 1986, fazia um som totalmente voltado ao death metal, começou a experimentar com elementos de jazz e fusion. Foi lançado em vinil no Brasil pela gravadora Roadrunner. Na sequencia temos os canadenses do Voi Vod com uma faixa do álbum Nothingface, de 1989, e o Kreator, um dos ícones do thrash metal alemão, com a faixa-título de seu disco de 1992, onde eles flertam com um som mais minimalista e inspirado no rock industrial. Fechando o bloco, mais uma banda holandesa, o The Gathering, que no princípio rezava pela cartilha do Doom Metal e, especialmente a partir de seu álbum “Mandylion”, de 1995, o primeiro com a vocalista Anneke Van Giersbergen, começa a flertar com o rock progressivo e o indie rock, fazendo uma musica mais etérea e atmosférica. Anneke deixou a banda em 2007. “The West Pole” é a faixa titulo do primeiro disco deles com a nova vocalista, Silje Wergerland. – O Drop Loaded é uma inserção semanal do PROGRAMA LOADED que traz sempre novidades ou algum resgate do que melhor existe no cenário independente nacional. – O quarto bloco abre com duas bandas de casais: The Kills, formada pela norte-americana Alison "VV" Mosshart (vocais e guitarra) e pelo britânico Jamie "Hotel" Hince (vocais, guitarra e bateria), e The Raveonnetes, duo dinamarquês de rock and roll formado por Sune Rose Wagner (guitarra, vocais) e Sharin Foo (baixo e vocais). Atualmente Alison Mosshart, do The Kills, participa também do supergrupo The Dead Weather, ao lado de Jack White, do White Stripes, Dean Fertita, do Queens of the Stone Age) e Jack Lawrence, do The Raconteurs e The Greenhornes. Prosseguimos com uma faixa clássica do primeiro disco dos irlandeses do My Bloody Valentine, “Isn´t anything”, de 1988, seguida de outra também do primeiro disco dos norte-americanos do Mercury Rev., “Yerself is stean”, de 1991. Fechando o bloco, uma música de um dos discos mais barulhentos (e ao mesmo tempo melódico, triste e climático) de todos os tempos, “psychocandy”, dos escoceses do The Jesus and Mary Chain. Foi lançado em 1985 e é uma espécie de pedra fundamental para praticamente todo o universo do rock alternativo nos 10 anos que se seguiram. – O quarto bloco foi de Hardcore. Curto, grosso e eficiente. – Fechando o programa, uma entrevista e um “pocket show” (duas musicas tocadas ao vivo com voz e violão) com Luiz Eduardo e Fabinho “snoozer”, do Crove Horrorshow, banda pioneira da chamada “new wave” em Aracaju. Formada em 1985, a banda teve uma trajetória um tanto quanto errática, e estava já há bastante tempo fora de atividade. Foi reformulada no ano passado e se apresentou no sábado no Cinemark, na Sessão Notívagos. Podem ser ouvidos e contactados através do site www.myspace.com/crovehorrorshow - Uma curiosidade: “Crove Horrorshow” é uma gíria usada pelos personagens do livro “A Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess, adaptado para o cinema por Stanley Kubrick.

por Adelvan



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Autoramas (Desplugado) – Rei da implicância
Autoramas (Desplugado) – Hotel Cervantes

Pestilence – Mind Reflections
Voi Vod – The Unknown knows
Kreator – Renewal
The Gathering – The West pole

Drop Loaded (Edição dupla):

Fusíveis ltda. – Seu último carnaval
Red Tomatoes – rock no carnaval
Jair Naves – De branquidão hospitalar
Pão de Hamburger – princesinha do tio

The Kills – Black Rooster
The Raveonettes – Hallucinations
My Bloody Valentine – Feed me with your Kiss
Mercury Rev. – Coney Island cyclone
The Jesus & Mary Chain – Taste the floor

Dead Milkmen – punk rock girl
Agnostic Front – Gotta go
Youth of today – Can´t close my eyes
Poison Idea – Desecrate

Entrevista e “Pocket show”:

Crove Horrorshow

sábado, 13 de fevereiro de 2010

20/02/2010 - Sessão Notívagos

CINEMA E MÚSICA DA MELHOR QUALIDADE PARA INICIAR 2010

Fonte: Divulgação

No Brasil há um ditado que fala que o ano só começa depois do carnaval, pensando nisso a Cine Vídeo e Educação preparou para o próximo dia 20/02 mais uma edição da Sessão Notívagos, reunindo o que há de melhor em termos de cinema e música.

A sessão que começará a meia noite exibirá o filme: A TETA ASSUSTADA, filme peruano que ganhou o Festival de Berlim de 2009 e que estará concorrendo ao Oscar de melhor filme Estrangeiro esse ano.

O filme dirigido por Claudia Llosa, tem 95 minutos e narra a história de Fausta que tem "a Teta Assustada", uma suposta doença que é transmitida pelo leite materno das mulheres que foram violadas ou maltratadas durante a guerra do terrorismo no Peru. A guerra acabou, mas Fausta vive para recordá-la porque "a doença do medo" lhe roubou a alma. Agora, a súbita morte de sua mãe a obrigará a enfrentar seus medos e o segredo que oculta em seu interior.

Após o filme Duas Bandas se apresentam ao público, a Crove Horrorshow que nasceu no segundo semestre de 1985, em Aracaju, após a dissolução do Perigo de Vida, um dos primeiros grupos de rock formados em Aracaju. Após muitas formações reúne hoje Luiz Eduardo, na guitarra e vocal, Marcos Odara na Bateria e Fabinho Snoozer no Baixo.

O nome da banda é uma explícita referência ao idioma fictício criado por Anthony Burgess em seu romance A laranja mecânica, transformado em filme por Stanley Kubrick

A outra Banda é Aneis de Vento, surgida em meados de 2006, formada por Lucas, vocal e baixo, Raul e Rodrigo, guitarras e Gabriel Perninha na bateria.

O grupo tem como base o blues,mas também sofrendo influências do rock psicodélico e progressivo dos anos 60 e 70 e um pouco do grunge dos anos 90.E é com a mistura de todas essas influências que a banda tem a proposta de fazer um som que se mostre diferente aos ouvidos.

Ai está uma mistura eclética, mas com ingredientes da melhor qualidade que promete novamente lotar a sessão notívagos.

Os Ingressos Custam R$ 15,00 a meia e R$ 30,00 a inteira, sendo que quem pagar meia recebe 4 tickte de bebida e quem pagar inteira recebe 6.

Estes tickets poderão ser trocados por cerveja, refrigerante ou agua.

A TETA ASSUSTADA

SINOPSE

Fausta tem "a Teta Assustada", uma doença que é transmitida pelo leite materno das mulheres que foram violadas ou maltratadas durante a guerra do terrorismo no Peru. A guerra acabou, mas Fausta vive para recordá-la porque "a doença do medo" lhe roubou a alma. Agora, a súbita morte de sua mãe a obrigará a enfrentar seus medos e o segredo que oculta em seu interior: ela introduziu uma batata na vagina, como escudo, como um protetor, e acredita que assim ninguém se atreverá a tocá-la.

CLAUDIA LLOSA

Diretora e podutora de apenas dois longas-metragens, Claudia Llosa, peruana de 32 anos, ganhou por ambas produçõs - Madeinusa (2006) e La Teta Asustada (2009) - o prêmio de melhor filme pela Federação Internacional de Crítica Cinematográfica. Através de "Madeinusa" foi nomeada pelo Sundance Festival; ganhou o prêmio Roberto Tato Miller no Festival de Cinema Mar del Plata, melhor filme do Festval Latino Americano de Lima e de Cartagena; além de, por fim, o Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2009 por sua última produção, La Teta Asustada.

COMENTÁRIOS DA DIRETORA

Como podemos nos comunicar com outra pessoa, em um país dividido? Como podemos nos fortalecer como uma nação, se vivemos individualmente e somos culturalmente tão diferentes? Como uma nação se recompõe após uma violenta ruptura e uma experiência traumática.
A TETA ASSUSTADA é uma metáfora da separação. Um país reprimido que só consegue se comunicar através do inconsciente, através de seus mitos, medos e traumas. O corpo de uma mulher sangrando representa um vazio que precisa ser preenchido, uma angústia que precisa ser confortada de um terror que pode levar à perda do controle.
Nós vivemos em um indeciso e reprimido país onde a principal fonte de informação é o próprio corpo. Mas a memória não é a única munição para a batalha.
Como viver no processo constante de lembrança de um doloroso passado. Quanto mais busca pela memória, maior chance de perdão e reconciliação? Um esforço de perdão é pedido, assim como a preservação da história e da cultura oral que foi reprimida por uma história oficialmente imposta.
Aristótoles uma vez disse que “a simples voz não é unicamente uma indicação de prazer ou dor”. Por isso, cantar, por exemplo, funciona como uma importante forma de nos expressarmos, para recriar nossa memória ou o que nós esquecemos.
Mas a insuficiência da memória escrita não destrói a prosperidade das histórias do povo. Nem elimina a amargura, nem contribui com seu desaparecimento. Mas ela aumenta a necessidade de expressão. O mundo dos Andes está buscando uma renovação por meio de festivais, rituais e músicas: um retorno constante de uma memória reprimida de forma alegórica.
Essa é a ingenuidade de uma moderna, emergente e criativa cultura que vem dos Andes, despedaçada pelo terrorismo, mostrando uma enorme capacidade de entrar em um mundo que não reconhece sua diversidade e o respeito ao outro.
A TETA ASSUSTADA é sobre memórias de um passado não resolvido, violento e pessoal. Imposto pelo ônus da repressão latente. Uma batata enterrada dentro de uma garota, em busca de uma forma de florescer. Uma cura.
Claudia Llosa

PREMIAÇÕES E FESTIVAIS

- Vencedor do Urso de Ouro no Festival Internacional de Berlim 2009;
- Vencedor dos prêmios de melhor atriz e melhor filme no Festival de Cinema de Guadalajara 2009;
- Vencedor do Kikito de melhor filme estrangeiro, melhor atriz e melhor diretora no Festival de Cinema de Gramado 2009;
- Filme de abertura do Festival de Cinema Latino-Americano 2009,

FICHA TÉCNICA

Duração_do_Filme: 95 MIN
Ano_de_Produção: 2009
País: Peru, Espanha
Cidade: Lima
Categoria: Drama / Ficção
Formato: 35MM
Produtora: Oberón Cinematográfica S.A.
Diretor: Claudia Llosa
Roteirista: Claudia Llosa
Produtor Executivo: Delia García
Elenco :
Magaly Solier
Susi Sánchez
Efraín Solís
Marino Ballón
Diretor de Fotografia: Natasha Braier
Diretor de Arte: Patricia Bueno e Susana Torres
Música: Selma Mutal
Montagem: Frank Gutiérrez
Trilha Sonora: Selma Mutal
Idioma original: Espanhol, Quechua

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

# 135 - 12/02/2010



O Lado Negro da força
por Alexis Peixoto
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Existem poucas ideias mais estúpidas do que querer gravar uma versão de The Dark Side of the Moon. Da Jamaica ao Pará, todo pé-rapado munido de guitarra, tambor de lata e aditivos químicos já fez a sua, transformando o clássico do Pink Floyd em dub, funk, guitarrada, bluegrass e o que mais mandar a falta de noção. E como falta de noção é justamente um dos combustíveis de Wayne Coyne e seu Flaming Lips, advinha como foi que o cidadão decidiu encerrar 2009? É, regravando Dark Side of the Moon. E para completar a suruba, ainda convenceu Henry Rollins, Peaches e os obscuros Stardeath and White Dwarfes (cuja maior credencial é empregar Danny Coyne, sobrinho do homem) a participar da brincadeira.
Confluência indigesta de protagonistas a parte, o projeto tinha tudo para dar errado. Além de ser uma idéia batida, o álbum do Pink Floyd está para o panteão do rock empoeirado assim como, digamos, os episódios antigos de Chaves estão para qualquer um que tenha tido contato com uma televisão nos últimos vinte anos. Assim como Chapolim, Kiko e Seu Madruga, Dark Side é uma entidade onipresente no cotidiano da cultura pop. Tendo vendido mais de 30 milhões de cópias no mundo desde a época de seu lançamento, é praticamente impossível que um minuto se passe sem que o álbum original toque em algum lugar do planeta.
Se a responsabilidade não afastou os predecessores menos gabaritados, que dirá os Flaming Lips, filhotes diretos de Syd Barret, sempre ávidos por uma tortice. Enquanto outros se preocuparam em adaptar os arranjos originais para suas respectivas searas musicais (acelerando, diminuindo, adicionado percussão, violões, etc), Coyne e seus asseclas preferiram primar pelo desrespeito total. Não fosse o auto-explicativo título oficial do álbum (The Flaming Lips and Stardeath and White Dwarfs with Henry Rollins e Peaches Doing the Dark Side of the Moon), um cidadão desavisado levaria alguns minutos para reconhecer aquela linha de baixo gorda embrulhada em microfonia e feedback que salta da faixa de abertura como sendo algo originalmente escrito pelo Pink Floyd. Leva quase três minutos para entrar a voz, suave e com ecio: “Breathe, breathe in the air…”
O desrespeito e o clima de jam session continuam no decorrer das faixas, que no geral demoram mais do que o convencional para de fato “começar”. Mas quando o fazem o resultado é sempre surpreendente. A tomar nota no caderninho de momentos memoráveis: Peaches se esgoelando e injetando groove e sujeira em “The Great Gig in the Sky”, os samples de relógios que abrem “Time” substituídos por uma tosse suspeita, vocoders infestando a letra de “Money”, “On the Run” despida da categoria de música abstrata e transformada numa faixa de verdade, de fazer o Rapture ter um ataque apoplético.
Infelizmente, só para comprometer o resultado, há uma freada brusca na reta final do álbum. “Us and Them”, a faixa que mais desesperadamente precisava de uma repaginada, perde o sax de motel, mas não faz muito progresso fora isso. No geral, conseguiu ficar ainda mais chata, só com teclados e a voz de taquara trincada de tio Coyne. O mesmo vale para “Brain Damage”, que afora um conjuntinho de ruídos e pedais estridentes, pouco difere do arranjo original – e se mudou alguma coisa, foi pra pior. Sorte que entre as duas há a instrumental “Any Colour That You Like”, aqui tocada com um peso nunca sonhado pelo finado Rick Wright (e com uma linha de baixo lembrando o interlúdio da não menos clássica “Echoes”), fechando com a apoteose de “Eclipse”, encharcada de wah-wah.
No fim das contas, a versão do Flaming Lips não deve ser levada tão sério. Afinal, é sempre difícil saber quando esses caras estão brincando ou não. O fato é que, independente das intenções reais por trás disso tudo, a versão dos Flaming Lips para Dark Side é a única a de fato respeitar o espírito original de ambição e grandiloqüência do álbum original. A diferença é que em vez de mudar o mundo por meio de uma discussão tediosa a respeito dos males que afligem a existência do homem, a ousadia do Flamings Lips se concentra em subverter e despir de seriedade um totem que todo mundo lambe os pés.
A conclusão a emergir desse quiproquó todo é mais simples do que a linha de baixo de “Money”: por trás da sombra clássica, restam as boas canções. E, como diz frase que encerra ambas as versões, não existe um lado negro da lua. Na verdade, é tudo escuro.

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Pink Floyd - The Dark Side of the Moon (1973)
Fonte: Revista Bizz - Sessão Discoteca Básica
Edição 21, Abril de 1987

Polêmico, este disco. Gravita entre a absoluta adoração de sues fiéis e a crítica não menos feroz dos seus detratores. É bom sinal. Será mesmo a Grande Obra de Roger Waters (baixo, vocal), Rick Wright (teclados), David Gilmour (guitarra, vocal) e Nick Mason (bateria)? Alguns poderão preferir "The Piper at the Gates of Dawn", de 1967, o primeiro LP da banda, quando seu líder era um louco iluminado e genial chamado Syd Barrett, ou ainda Ummagumma, de 1970, a soma definitiva do rock psicodélico. Quem sabe os mais de 20 milhões de cópias de "Dark Side..." vendidas no mundo inteiro e sua permanência por 630 semanas consecutivas nas listas dos mais vendidos da Bilboard - recorde absoluto - possam ratificar essa escolha. Mesmo que as más-línguas digam que muitos o adquiriram apenas para testar a estéreo-quadrifonia de seu equipamento de som - o que não deixa de ser um elogio, de certa forma.
Foram oito meses de gestação nos famosos estúdios Abbey Road de Londres, em clima geral de renovação. A palavra de ordem: a música deveria ser mais amarrada, mais próxima à urgência do rock. Ao final de 1972, o material está pronto. Para fazer a mixagem, Roger Waters chama Chris Thomas, que já havia participado da mixagem do duplo álbum "branco" dos Beatles e produzido os LPs "Grand Hotel", do Procol Harum, e "For Your Pleasure", do Roxy Music. "Cada um tinha uma idéia diferente do que devia ser feito. Precisavam fazer a síntese de tudo isso." Todos concordavam com pelo menos uma coisa - a ordem dos títulos deveria transmitir uma idéia de progressão e variação em torno de um mesmo tema: "São todas as pressões da vida moderna que podem nos levar à loucura. Essas pressões têm por nome dinheiro, viagens, planejamento, que nós músicos sentimos muito mais que o homem da rua. Quando tudo vacila, chega-se ao estado patológico do lunático" (David Gilmour). Pela primeira vez o Pink Floyd aderia ao concept album.
Todas as faixas foram concebidas como filmes sonoros, feitos de bandas magnéticas preparadas por Nick Mason. Batidas de coração, respiração, passos, relógios, risos histéricos, gritos, moedas caindo e caixas registradoras não somente servem de ilustração como se integram à própria estrutura rítmica da cada composição, em particular na seqüência "Speak With Me"/ "Breathe"/ "On The Run" e em "Money", hit entre os hits. Se a força da evocação desses sons é extraordinária, eles não interferem com os momentos mais líricos do álbum, como em "The Great Gig in the Sky", onde, sobre fundo de piano e órgão Hammond, Clare Torry edifica uma interpretação vocal que ficará entre as mais pungentes e líricas da década. Em "Brain Damage", Roger Waters tece uma vibrante homenagem a Syd Barrett, numa reconstituição poética atormentada do universo poético da alienação.
Se "Dark Side..." parece trazer uma certa pasteurização do som da banda, se os caleidoscópios de cores que dominavam as longas viagens lisérgicas dos LPs precedentes se transformaram num prisma de onde as cores surgem ordenadas e limpas (uma metáfora certeira para descrever a nova importância do estúdio, agora transformado em espaço central de criação, o que torna a música mais artificial e deixa seus autores mais distantes), em compensação, os avanços técnicos primorosos exibidos por este álbum - em particular a tomada de som, a cargo de um certo Alan Parsons... - ajudaram a banda a alcançar uma força de expressão cósmica capaz de unir o passado à modernidade, que só encontra paralelo num disco lançado por coincidência no mesmo ano, a trilha sonora de "Laranja Mecânica".
Levantando as barreiras que opunham até então as gerações musicais, Pink Floyd joga as bases para a criação de uma música ao mesmo tempo moderna e universal.

Jean-Yves de Neufville

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Da Wikipédia: (The) Dark Side of the Moon (ou pela abreviatura DSotM; O "The" inicial é incluído em algumas versões do título) é um álbum conceptual de 1973 do Pink Floyd que fala sobre as pressões da vida, como tempo, dinheiro, guerra, loucura e morte. É considerado por muitos críticos e fãs a obra prima da banda. Foi um marco do rock progressivo com músicas que eram ao mesmo tempo elaboradas e bem aceitas pelas rádios comerciais, tais como "Money", "Time" e "Us and them". O álbum é uma ponte entre o blues rock clássico e a nova (na época) música electrónica. No entanto, são os tons mais suaves e as nuances líricas e musicais que fazem com que este álbum seja uma obra à parte. The Dark Side of the Moon é o nono álbum mais vendido de todos os tempos no mundo inteiro.[carece de fontes?]Atingiu o primeiro lugar no Billboard 200 e também no Billboard Pop Catalog Chart, tendo o híbrido SACD editado em 2003 atingido o mesmo feito. Estima-se que 1 em cada 14 pessoas com menos de 50 anos, nos EUA tenha uma cópia deste álbum.
O tema de Dark Side of the Moon terá sido em parte precipitado pela saída de Syd Barrett, um dos membros fundadores dos Pink Floyd.
O álbum contém alguns dos mais complicados usos dos instrumentos e efeitos sonoros existentes à época, incluindo o som de alguém correndo à volta de um microfone e a gravação de múltiplos relógios a tocar ao mesmo tempo. Uma versão quadrifónica foi também editada com novas misturas. Durante as gravações o Pink Floyd desenvolveu novos efeitos tais como gravações em duas pistas das vozes e guitarras (permitindo a David Gilmour harmonizar consigo próprio impecavelmente), vozes dobradas e efeitos estranhos com ecos e separação dos sons entre os canais. Até hoje, Dark Side of the Moon é uma referência para os audiófilos que o usam para testar a fidelidade de seus equipamentos.
Outra característica do álbum são os trechos de diálogos entre as faixas. Eles entrevistaram várias pessoas, perguntando-lhes coisas relacionadas com os temas centrais do álbum, como a violência e a morte. O roadie "Roger The Hat" aparece em mais que uma ("giv'em a quick, short, sharp, shock...", "live for today, gone tomorrow, that's me..."). A frase no fim do álbum "there is no dark side of the moon really... matter of fact it is all dark" é do porteiro do estúdio Abbey Road, o irlandês Jerry Driscoll. Paul McCartney foi também entrevistado mas as suas respostas foram consideradas demasiadamente cautelosas para serem incluídas
Dark Side of the Moon é o o álbum que ficou por mais tempo na Billboard 200, tendo permanecido 741 semanas consecutivas, pouco mais de 14 anos.[1] O álbum chegou a Nº 1 nos EUA, Bélgica e França. Até 2002, 30 anos após o seu lançamento, foram vendidas nos EUA mais de 400.000 cópias, fazendo do álbum o 200º mais vendido desse ano. Em 2003 mais de 800.000 cópias do híbrido SACD de Dark Side of the Moon foram vendidas apenas nos EUA. “Time", "Money", e "Us and them" foram bastante tocadas nas rádios (sendo o single "Money" um grande sucesso de vendas ).
Dark Side of the Moon foi editado em "Super Audio Compact Disc" (SACD), com uma mistura de som surround 5.1 DSD a partir das fitas de estúdio de 16 faixas, por ocasião do 30º aniversário do seu lançamento. Tornou-se algo surpreendente o facto de James Guthrie ter sido chamado para fazer a mixagem do SACD em vez de Alan Parsons, engenheiro do LP original. Esta edição do 30º aniversário ganhou 4 prémios do "Surround Music Awards" de 2003.
Quando o álbum é tocado simultaneamente com o filme de 1939 The Wizard of Oz (O Mágico de Oz, no Brasil, O Feiticeiro de Oz, em Portugal) ocorrem algumas correspondências entre o filme e o álbum. Alguns momentos que indicam isso são:
• Quando Dorothy está na fazenda e ela olha para o alto, no audio surge barulho de avião.
• O som da caixa registradora no princípio de “Money” (dinheiro) aparece exatamente quando Dorothy pisa pela primeira vez a estrada dos tijolos amarelos; que é também o momento em que o filme passa de preto e branco para cores. Outra referência é a aparição da fada dourada;
• No momento em que a bruxa do Oeste aparece, é tocada a palavra "black" (preto);
• A cena em que Dorothy encontra o espantalho (personagem que alegava não ter cérebro) é acompanhada pela música "Brain Damage" (dano cerebral), e quando a letra da música começa a tocar: "the lunatic is in my head..." (o lunático está na minha cabeça), o espantalho inicia a dançar freneticamente como um lunático;
• O bater de coração no fim do álbum ocorre quando Dorothy tenta ouvir o coração do homem de lata;
• No momento em que a bruxa do oeste lança uma bola de fogo contra Dorothy e seus companheiros, a música grita "run!" (corra);
• No momento que Dorothy encontra Oz, entra a música "Us and Them", soando Us como Oz bem quando aparece a 1a imagem de Oz;
• Várias frases das letras contidas nas músicas coincidem com os mesmos atos sendo executados pelos atores no mesmo momento;
• A duração da maioria das músicas coincide precisamente com a duração das cenas no filme.
A banda insiste que isso são puras coincidências. Quando este facto começou a vir a público em 1997, despertou um enorme interesse no fenômeno. Uma pequena comunidade espalhou-se à volta de vários 'sites' para explorar melhor a idéia. Quer as correspondências sejam verdadeiras ou imaginadas, alguns fãs do álbum gostam de ver "Dark side of the rainbow", como é chamada muitas vezes esta combinação. A sincronização é conseguida fazendo pausa (de preferência a versão em CD) mesmo no principio e parando a pausa quando o leão da MGM ruge pela terceira vez.
Os membros dos Pink Floyd desmentem qualquer relação entre o álbum e o filme num MTV especial sobre o grupo em 2002. Eles afirmam que não poderia haver esta relação planejada por não poderem reproduzir o filme no estúdio, tendo em visto que na altura não existirem ainda os videogravadores.
LP original de 1973
Lado A
1. "Speak to Me/Breathe" (Nick Mason, David Gilmour, Roger Waters, Rick Wright) - 3:59
2. "On the Run" (Gilmour, Waters) - 3:35
3. "Time/Breathe (Reprise)" (Gilmour, Waters, Wright, Mason) - 7:04
4. "The Great Gig in the Sky" (Wright, Torry) - 4:48 (originalmente somente por Wright. Cedida parte da autoria a Claire Torry depois da mesma ter exigido parte dos direitos de autor por ter improvisado por cima do famoso instrumental)
Lado B
1. "Money" (Waters) - 6:24
2. "Us and Them" (Wright, Waters) - 7:49
3. "Any Colour You Like" (Gilmour, Wright, Mason) - 3:26
4. "Brain Damage" (Waters) - 3:50
5. "Eclipse" (Waters) - 2:04
Banda
• Roger Waters - baixo, guitarra, teclas, vocal, sintetizador VCS 3, efeitos gravados
• Nick Mason - percussão, bateria, efeitos gravados
• Richard Wright - teclas, vocal, sintetizador VCS 3
• David Gilmour - guitarra, teclas, vocal, sintetizador VCS 3
Participações
• Dick Parry - saxofone
• Lesley Duncan - vocal de apoio
• Doris Troy - vocal de apoio
• Barry St. John - vocal de apoio
• Liza Strike - vocal de apoio
• Clare Torry - vocal em "The Great Gig in the Sky"
Técnicos de Produção
• Pink Floyd - produtor
• Peter James - assistente de engenheiro de som
• Chris Thomas - mixagem
• Alan Parsons - engenheiro de som
Equipe de Produção Artística
• Hipgnosis - design, fotografia
• Storm Thorgerson - design das edições de 20º e 30º aniversário
• George Hardie - ilustrações, sleeve art
• Jill Furmanosky - fotografia
• David Sinclair - texto no relançamento do CD

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Nantes – à espera do sol
Smashing Pumpkins – Widow wake my mind
Smashing Pumpkins – A song for a son

The Flaming Lips (fet. Henry Rollins) – Speak to me/Breathe
The Flaming Lips (fet. Henry Rollins) – On the run
The Flaming Lips – Time/Breathe (reprise)
The Flaming Lips (fet. Peaches) – The Great Gig in the Sky

Drop Loaded:

Continental Combo – Retiro
Continental Combo – Na estrada cinza

7 Seconds – straight on
Murphy´s Law – shut up
Kraut – gateway
D. I. – Johnny´s got a problem

Johnny Suxx – Addicted
Superguidis – Não fosse o bom humor

Bloco produzido por Ronaldo de Souza Lima:

Asian Dub Foundation – Flyover
Skin Dred – Nobody
Def Com Dos – El Dia de La Bestia

Finitude – Way of wisdom
Aliquid – Pay the price
Warlord – God kill the king
The End – The Nightmare

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

VELHO DE CÂNCER (RS) EM ARACAJU

Fonte: Release - Sobre o Velho de Câncer: A gênese do grupo se dá com a convergência de diversas demandas e posições filosóficas de seus componentes. Nos idos de março, os então desconexos músicos, antes pretendentes de alguma forma de renuncia ou protesto artistico se decepcionam com tudo, cedem: certos aspectos de "sua arte" como sua impotência revolucionária na política, ou a falta de expressibilidade da cultura individual de um brasileiro na forma do rock, cultura anglo-norteamericana, coloca-os no que pode-se dizer origem dessa gravação: um buteco. Transtornados e rancorosos, bebem e chingam. Mas, confiantes de sua posição de revoltados, sofrem um embate da figura que é central dessa produção musical: Mestre Saddam da Figueira, um mendigo malandro, que lhes conta sua vida, sua ascenção de catador de lixo à burguês, e a constatação que a opulência fede a ócio consumista, e o status ridículo que o dinheiro traz, e como ter dinheiro só quer dizer que você é um filho-da-puta ... Encantados com o discurso rancoroso daquela figura, que também era mal músico, logo surge a idéia de fazerem um projeto músical, que se desenvolve ao longo de um mês no mesmo buteco, noitadas a dentro ... Mas apesar de não haver pretenção alguma além de diversão, dado um mês, Mestre Saddam descobre que tem um câncer em suas vísceras, e na semana seguinte morre. O projeto é uma homenagem a este personagem, que aí se encontra nessa gravação que não teve pretenção de fazer bonito ou de corrigir a precariedades cognitivas de seu fundador. - Há a outra versão da história que são simplesmente alguns desocupados fazendo um som ...

http://www.myspace.com/velhodecancer

Serviço:

Na "Casa de Doug" - Rua Francisco Rabelo Leite Neto, 566, Atalaia
(2 ruas atrás do Bar Amanda)
Dia 27/02
22 hrs
R$ 8,

VELHO DE CÂNCER [RS]
The Baggios
The Renegades of Punk
Thee Swamp Beat Brothers

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

ESCLARECIMENTO

Semana passada o programa de rock não foi ao ar porque a Aperipê FM transmitiu a Cerimônia de premiação do Prêmio de Música da ARPUB (Associação Brasileira de Rádios Públicas). Hoje o programa não irá ao ar devido à transmissão do Projeto Verão, direto da Orla de Atalaia. ACHO que semana que vem não tem nada para atrapalhar, então até próxima sexta feira, se Ele (o pai do rock) quiser. Estarei a postos para ocupar a trincheira ...

Adelvan

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Aperipê FM faz transmissão ao vivo do Projeto Verão 2010

Fonte: http://www.aperipe.se.gov.br

Após a cobertura do Verão Sergipe e do primeiro Festival de Música da Associação das Rádios Públicas de Sergipe (Arpub), a equipe da Aperipê FM 104,9 invade a praia de Atalaia para transmitir ao vivo o Projeto Verão 2010. A festa tem início nesta quinta, 4, e segue até o próximo domingo, 7, com apresentações musicais de artistas nacionais e sergipanos nos palcos principal e alternativo. A Aperipê FM transmitirá diariamente toda a animação a partir das 20h.

De acordo com o diretor da Aperipê FM, Léo Levi, os ouvintes poderão conferir entrevistas e reportagens com as atrações de renome nacional e local. “A transmissão será feita diretamente do palco alternativo, mas nos faremos presentes também no palco principal. Além dos artistas, personalidades que estiverem curtindo a festa também serão entrevistadas, assim como o próprio público que for participar do evento. A cobertura terá início às 20h e seguirá até à meia-noite”, destaca Léo Levi.

Para o diretor da Aperipê FM, a cobertura do Projeto Verão será uma boa oportunidade da população ficar ligada nas atrações que estão se apresentando e se empolgar para ir ao local da festa. “Para aqueles que ficarão em casa, a animação será grande também, pois estaremos transmitindo cada detalhe da festa. Além disso, vale destacar que os ouvintes poderão conhecer um pouco mais as bandas sergipanas através de entrevistas com os músicos e a transmissão do show”, ressalta Léo Levi.

Aliás, justamente dando uma prévia das atrações sergipanas que se apresentarão no palco alternativo, os programas Mural, Sonora e Acervo Aperipê trazem desde o início desta semana flashes com a participação dos artistas locais. “Neles são dadas informações sobre a formação da banda e também mostramos suas canções. Isso possibilita que as pessoas possam conhecer o que está sendo produzindo em Sergipe”, afirma o diretor da Aperipê FM.

05/02/2010 - Atrações do palco alternativo do Projeto Verão:

(a partir das 21h)

Daysleepers
Snooze
Mamutes
DJ Pango


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Under a Bad Sign

Vou começar esta resenha sendo bastante sincero: não sou a pessoa mais indicada para fazê-la. Não sou Headbanger, nem um especialista em Metal. Tive uma fase “chifrinhos em riste” bem no início da adolescência, quando comecei a ouvir rock, mas logo meu leque de influências se ampliou e meu interesse pelo metal ficou restrito apenas a algumas das principais bandas do estilo, como Slayer e Judas Priest, dos quais sou fã (quase que) incondicional. Mas curto metal, sim, especialmente em suas variações mais (ou menos) extremas (Black metal, em geral, acho bem chato).

Do Master, eu mal lembrava. Lembro que lá pela primeira metade dos anos 90 o vinil deles que saiu no Brasil, o primeiro disco, auto-intitulado e com apenas o logo na capa, vendia bastante na loja de Silvio na época, a Lokaos, e os mais aficcionados pelo Death Metal curtiam e sempre os citavam como influência, mas eu mesmo não me recordo de ter ouvido com atenção, ou se ouvi, não devo ter tido nenhum interesse especial. Não fazia a mínima idéia de que a banda ainda existia e estava na ativa, por isso fiquei surpreso ao saber que a primeira turnê deles pelo Brasil (e olha que a banda existe desde 1983!) passaria por Aracaju. Fui pesquisar (na internet, claro) e vi que eles têm uma carreira sólida, com vários álbuns lançados, e se tornaram uma espécie de lenda-viva do metal extremo. Baixei duas musicas disponíveis em mp3 no site oficial, gostei bastante, toquei no programa de rock e fiquei na expectativa pelo show ...

Um dia antes da grande noite, a bomba: Dois dos integrantes de uma das bandas de abertura, a inglesa After Death (da qual eu nunca tinha ouvido falar), morreram afogados na praia de Atalaia, aqui mesmo, na terra do Cacique Serigy (que, segundo uma lenda local, teria amaldiçoado os descendentes dos colonizadores que o derrotaram, ou seja, todos nós, sergipanos). Baixo astral total, repercussão impressionante, primeira página de todos os jornais locais, matérias em praticamente todos os telejornais de cadeia nacional do país, mais notícias na BBC de Londres, Daily Mail e o caralho a quatro. Dúvidas quanto ao show, que foi afinal confirmado, assim como foi confirmada a sequencia da turnê.

O evento foi numa sexta-feira de pré-caju (prévia carnavalesca local, aquela papagaiada baiana de sempre, Ivete, chiclete, Claudinha Leite, blocos fardados com aquela coisa ridícula com nome ridículo), e por isso mesmo aconteceu estrategicamente no centro da cidade, bem longe da festa, já que os engarrafamentos pelos lados de lá estavam quilométricos. Para tanto, foi alugado um estacionamento na Rua de Santo Amaro, próximo ao Calçadão da Laranjeiras. Grande, porém com um telhado de zinco que deixava o ambiente quente como o inferno e a acústica pra lá de sofrível.

Cheguei por volta da meia-noite. Pouca gente na porta porém uma quantidade razoável de seres tradicionalmente fardados de preto lá dentro. Sign Of Hate no palco. É uma banda muito boa no que se propõe, aquele Death Metal brutal na linha do Krisiun, Cannibal Corpse e afins. Mandam bem porém tenho com eles o mesmo problema que tenho com o Krisiun, acho o som “retão” demais, começa aquele cacete infernal e assim vai do inicio ao fim e acaba ficando chato – mas, como avisei no início, não sou exatamente o maior dos entusiastas do estilo, então talvez não seja a pessoa mais indicada para julgar. A esta altura do campeonato você deve estar se perguntando: porque esse cara tá fazendo essa resenha, afinal ? Simples: Porque, pelo menos que eu saiba, ninguém fez, e como eu considero esse show um marco importante na cena rock de Aracaju, acho importante que tenha algum registro.

Na sequencia Predator, do RS. Mesma linha do Sign of Hate, barulho infernal, som embolado, não entendi nada, só sei que foi violento e a galera curtiu e se esmurrou na frente do palco, especialmente quando eles executaram uma musica lá que eu não identifiquei qual era mas imagino que seja algum clássico de alguma banda clássica do estilo, pela histeria dos presentes na “linha de frente”. Na verdade já tinha visto o Predator aqui mesmo anteriormente, num show que eles fizeram numa segunda-feira na Rua da Cultura, com um som bem melhor. Lembro que achei legal, porém meio feijão com arroz. Aquele Death Metal de sempre.

Por fim, O Master. Em minhas pesquisas acabei simpatizando bastante com o líder e, que eu saiba, único membro original da banda, Paul Speckmann, um verdadeiro batalhador do underground. Afinal não é pra qualquer um, do alto de seus bem-vividos 46 anos, continuar na estrada mesmo num esquema tão tosco quanto este de fazer uma turnê tão extensa por um país de terceiro mundo com dimensões continentais . E ele estava lá, firme, com sua enorme barba grisalha, tomando conta da banquinha de merchandising e super solícito para dar autógrafos e tirar fotos com os fãs (algo que, por sinal, eles já tinham feito à tarde na Freedom, a loja de Silvio da Karne Krua, única especializada em rock na cidade, que fica na Rua Santa Luzia, 151, no centro, próximo à catedral). Simpatizei também com suas idéias, ao saber que ele hoje em dia mora na Republica Tcheca e é extremamente crítico quanto ao posicionamento político de seu país, os Estados Unidos, especialmente na malfadada “era Bush” (não sei o que ele acha de Obama). Chegou inclusive a lançar um disco chamado “Four more years of terror” em 2005, numa clara alusão à reeleição da Besta-Fera do apocalipse.

E o show foi muito bom, com cerca de uma hora de duração. Notaram que a acústica não ajudaria por isso baixaram o volume. É meio estranho ouvir um show de Death Metal num volume baixo, mas é melhor do que ficar com os ouvidos sendo inutilmente agredidos por uma massaroca sonora sem sentido. Seguem uma linha “old school” (não por acaso, já que são pioneiros do estilo, contemporâneos de bandas como Possessed e Morbid Angel), sem muitas firulas técnicas, na verdade se aproximando um pouco do crust, um som cru e pesado, muito pesado. Entre uma pancada sonora e outra Speckmann murmurava coisas incompreensíveis e mandava mais uma porrada no pé do ouvido. E o público respondeu à altura, agitando ao ponto de quase derrubar a torre de iluminação.

Haveria ainda a In The Shadows, banda de Doom Metal que foi formada em Anápolis, Goiás, pelo organizador do evento, conhecido como Júnior, um cara muito gente boa que vim a conhecer melhor uma semana depois, na Rua da Cultura, apresentado por Fellipe CDC, outro guerreiro do underground, no caso, de Brasilia, que estava de férias aqui na terra dos cajueiros dos papagaios. Já era avançado da madrugada e o show demorou a começar, então resolvi me retirar ao recesso de meu lar, mas fiquei feliz ao saber que, apesar do público abaixo do esperado (cerca de 250 pagantes, quando o ideal seriam 350), os produtores não tiveram prejuízo graças, principalmente, à venda de cerveja, que foi disputada a tapas e chegou inclusive a faltar. Na verdade o Junior me confidenciou, naquele já célebre encontro na Rua da Cultura, que teve um lucro de, tchan tchan tchan tchan, adivinhem !!! 60 Reais! E ele, acredite, não demonstrava nenhuma insatisfação com isso, muito pelo contrario, demonstrava orgulho pelo feito que conseguiu, apesar do estresse extremo c ausado, principalmente, pela tragédia com os garotos do After Death. Deixou sua marca na cena local mesmo morando aqui há apenas 10 meses. Isto, meus caros, é atitude de verdade, não aquela palavra vazia que costuma estampar roupas de grife compradas em shoppings. Isto é o combustível que move essa coisa misteriosa e teimosa que é o rock underground.

Texto: Adelvan Kenobi
Fotos: Reinaldo

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

"Bela cena, Aracaju"



É o que diz Adilson Pereira, ex-editor da revista Outracoisa (aquela, do Lobão, que vinha sempre com um Cd encartado) e fanzineiro das antigas. Ele esteve pela primeira vez na terra do Cacique Serigy para cobrir o Verão Sergipe e aproveitou para dar uma geral na cena alternativa local, além de rever e/ou conhecer pela primeira vez pessoalmente velhos amigos de correspondencia. Abaixo, um bate-bola que ele fez para o seu site, o Samba punk, comigo e mais 2 ilustres batalhadores do cenário independente sergipano, Rafael Jr. e Henrique Teles.

A.

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Por Adilson Pereira
Fonte: Samba punk

Há algo de “romântico”, na cena de Aracaju. As pessoas [do mundo da música (independente)] parecem conhecer-se “intimamente”. Não exatamente como numa cidade interiorana-padrão-de-novela, porque neguinho não parece estar na janela a fazer fofoca. As pessoas declaram estar tocando, tentando amadurecer (junto com) o trabalho que surge disso e - o que é melhor - elas estão pensando e discutindo, buscando alternativas. Com o jogo assim, algumas cabeças de Aracaju foram convidadas a falar sobre a cena que vivem: Rafael Jr, baterista de três bandas de Aracaju (Snooze, Ferraro Trio e Maria Scombona). Na Scombona, é colega de outro participante desse pingue-pongue, o Henrique Teles, vocal da banda. Completa o time Adelvan Kenobi, apresentador do “Programa de Rock”, da FM Aperipê (SE).

Como essa cena pode crescer ainda mais?

Rafael Jr: Bandas na garagem e fazendo som sempre existiram em todo canto do mundo (não é diferente por aqui), mas eu sempre acreditei que “cena” abrange não só jovens fazendo música, mas um conjunto de atividades que inclui selos, produtores, mídia especializada, casas de show e festivais… Aqui, sempre faltaram elos nessa corrente: nunca tivemos um selo atuante (nem na época do CD e nem agora, virtualmente), os bons festivais não tiveram continuidade, os produtores profissionais não atuam no mercado independente/autoral, os espaços para shows são escassos, entre outros problemas nessa cadeia. Pra mim, o que falta pra crescer é esta cadeia estar completa! Todas as conquistas partiram de atitudes das próprias bandas, muitas vezes correndo atrás tateando, no feeling, sem muito conhecimento de como as coisas funcionam no meio independente.

Adelvan Kenobi: Tornando-se mais visível, nacionalmente. Com relação à cena independente, especialmente do rock, acho que o caminho é se integrar a esse circuito de festivais que tá rolando por todo o Brasil. E isso, a meu ver, depende quase que exclusivamente da atitude das bandas, de meter as caras e sair fora, porque se se contentar em ficar tocando só por aqui mesmo, todo sábado no Capitão Cook, o desânimo vai bater, inevitavelmente. Algumas bandas estão se mobilizando neste sentido e pelo menos duas, a Plástico Lunar e a The Baggios, têm colhido frutos, sendo escaladas para eventos importantes, como o Festival DoSol, em Natal, as Feiras de Musica de Fortaleza e do Recife, o Festival Psicodália, em SC, e por aí vai. Um passo importante nesse sentido foi uma miniturnê chamada “Invasão Sergipana”, na qual três bandas - Baggios, Daysleepers e Elisa - fizeram pelo Nordeste, ano passado. Outras já têm mais sorte e são apadrinhadas pelo poder público, chegando ao requinte de fazer turnê na Europa, regularmente, mas as que não têm essa “sorte” precisam meter as caras mesmo, não se acomodar. “Pedras que rolam não criam limo.”

Henrique Teles: Pra mim, duas coisas: primeiro, uma melhor utilização da cadeia produtiva local, incluindo aí as mídias para repercussão do que é produzido. Segundo, uma participação mais útil e sutil do Estado no fomento à produção. Assim como a agricultura hoje pensa nos pequenos e médios produtores como grandes parceiros, o Estado não pode imaginar que vai salvar a fome de arte/cultura/entretenimento somente com grandes hortas sazonais. E no varejo? E o resto do ano? No dia-a-dia? Quanta ideia boa de pequenos festivais, pequenos projetos de livre iniciativa estão aí precisando apenas de um empurrãozinho para acontecer!? Música instrumental, forró, chorinho, hardcore e hip-hop se faz todo dia por todos os cantos, não é?

Como o poder público pode ajudar? Com festivais como o Verão Sergipe, por exemplo?

Rafael: Acho que apoiando festivais independentes. O problema é que não chegam projetos decentes dessa natureza aos gabinetes das secretarias. O papel do Estado não é financiar empreitadas individuais, e sim dar suporte macro no desenvolvimento da cadeia produtiva que falei antes. Pensar na coletividade da cena e suas particularidades, o que já é algo bem complexo e exige gente com conhecimento específico. O Verão Sergipe é para as massas, e com bandas consagradas, mas tem o palco menor onde artistas independentes locais, selecionados através de edital público, têm oportunidade de mostrar o trabalho para um público maior. Muito legal.

Adelvan: Festivais como o Verão Sergipe ajudariam muito mais se se preocupassem com uma maior variedade nas atrações locais. De uns tempos pra cá, o que vem acontecendo é que são sempre as mesmas três ou quatro bandas em todos os eventos do Governo, o que dá margem para as velhas acusações de “panelinha”, que nem sempre são infundadas. O Verão Sergipe é a versão estadual de um projeto da prefeitura de Aracaju, o Projeto Verão, que acontece agora em fevereiro e este ano se redimiu e fez uma escalação bem mais diversificada de atrações locais no palco principal. Acho isso muito bom, dá visibilidade às bandas, dá a elas a oportunidade de tocar para um público bem maior que, de outra forma, não as conheceria, já que nem todo mundo tem essa atitude de procurar saber o que anda rolando no circuito alternativo da cidade.

Henrique: Grandes eventos são grandes vitrines. Feliz de quem tem o reconhecimento - ou coiteiro - e é convidado. Este ano tivemos concurso prévio para ver quem faria shows nos palcos menores. Que ideia legal, não é? Um edital, uma comissão julgadora e os critérios criados. Já vejo diferente isto, pois se o Estado se aproximar mais das produções de livre iniciativa (aquelas do varejo!), já poderá definir daí quem vai para a vitrine dos grandes eventos. Outra coisa boa, que há um bom tempo eu já falo: aproveitar a passagem de bons técnicos aqui, e promover oficinas, capacitação técnica, troca de experiências… isto tudo faz parte da atuação do Estado, que é quem usa nosso dinheiro pra pagar cachês tão bons ao artistas e técnicos que vêm aos grandes eventos. Indiretamente, pagamos muito caro por isto.
Outra coisa: o Estado quando incentiva a livre inciativa de produção está ajudando a educar as pessoas a pagarem - diretamente - para assistir a um espetáculo; mesmo que seja baratinho, é bom que seja pago. É bom que as pessoas saibam que direta ou indiretamente estão pagando para ter aquilo, e que vale a pena pagar. Consciência.

De que tamanho é a cena musical independente, em Aracaju? Como é ela em relação ao restante do Nordeste? E em relação ao Brasil?

Rafael: É pequena e ainda tímida, mas nos últimos anos tem tomado corpo. A qualidade dos discos tem melhorado, as bandas têm tocado mais em festivais fora do estado e se preocupado com auto-produção independente. A galera tá preocupada em aprender como é que se faz a parada direitinho, sabe? Mas acho que ainda não fomos, por assim dizer, “descobertos”… Mas jornalistas mais antenados, que não esperam que os outros colegas todos falem primeiro, já nos enxergam, hehehe… O Nordeste nos conhece mais que o restante do país, pela própria proximidade das cidades e por conta de coletivos como a lista de discussão Nordeste Independente.

Adelvan: Cara, o tamanho varia. É como disse numa resposta anterior, o público é muito volúvel. Na primeira metade dos anos 2000, tivemos um crescimento impressionante, muita gente ia aos shows e festivais importantes surgiram e cresceram. Começou com o Rock-SE, em 1998, que deu prejuízo e só teve mais uma edição, no ano seguinte. Nos anos 2000, surgiu o Punka, um festival que começou como uma festa particular e cresceu de forma espantosa, tendo várias edições com atrações de peso nacional, como Autoramas, Jason, Torture Squad, Retrofoguetes, Brincando de Deus, Nitrominds e Los Hermanos. Mas parece que há um muro invisível, um pico, e daí não passa; as coisas crescem, mas não se consolidam, como um Abril Pro Rock ou um Goiânia Noise da vida. Com o metal, acontece a mesma coisa: picos de público seguidos de uma longa ressaca. No momento, estamos numa dessas ressacas, muito embora, mesmo de forma capenga e desestruturada, coisas surpreedentes ainda aconteçam, como o show do Master, banda de death metal histórica norte-americana. E especialmente a Sessão Notívagos, que vem acontecendo regularmente no Cinemark do Shopping Jardins e consiste na exibição de um filme seguida da apresentação de uma banda no saguão do cinema. Já aconteceram noites memoráveis nesta sessão, como as dobradinhas “Lóki”(documentário sobre Arnaldo Baptista) com apresentação da Plástico Lunar e “Guidable” (documentário sobre o Ratos de Porão) com um show da Karne Krua - que é, por sinal, a banda punk/hardcore mais antiga em atividade em todo o nordeste. O rock é teimoso.

Henrique: Descobri nesses anos todos que toda cena é dependente. Depende de dinheiro, depende de paixão, idealismo, know-how… A cena aqui em Aracaju vai surpreender muita gente do eixão quando resolverem contabilizar o que temos realizado. Tem muita gente boa, rapaz; muita gente boa. Precisamos somente formar público para estes talentos, sermos nossos principais consumidores. Não somos melhores que ninguém, nem maiores. Apenas somos mais sergipanos que qualquer outro, né?! The Baggios, Karne Krua, Snooze, Ivan Reis, Patrícia Polayne, Maria Scombona, Naurêa, Plástico Lunar, Thiago Ribeiro, estamos aí pra dar conteúdo a qualquer iniciativa de produção.

É possível um cidadão sobreviver em Aracaju como músico independente? Você atua em várias bandas. Como é possível conciliar tudo isso?

Rafael: Eu vivo só de música, mas acho que sou uma exceção à regra geral (há outras exceções, claro). Dedicar-se a apenas uma banda independente aqui não dá, definitivamente! Acompanho vários artistas, gravo em estúdio, dou aula, alugo bateria, me viro. A vantagem é que sou da Banda do Corpo de Bombeiros, há 7 anos (antes tinha sido da Orquestra Sinfônica, durante 8 anos), então isso dá tranquilidade pra trabalhar com o que gosto e fazendo o tipo de música que me dá prazer.

Adelvan: Sobreviver EXCLUSIVAMENTE com música independente acho impossível. Cronicamente inviável, pra citar um filme sensacional. Não conheço nenhum caso… sei de gente que vive de música, mas se desdobrando em mil, como o incansável Rafael, baterista da Snooze, mas ele não vive de música independente exclusivamente, não, toca até na banda do Corpo de Bombeiros.

Henrique: É possível, sim, mas como em qualquer profissão há um mercado e uma disputa por espaço. Sou o único na Maria Scombona que não vive exclusivamente de música.

No que diz respeito à atividade de músico (ou à sua relação com a música), o que ela significa para você? É trabalho? É hobby? É paixão?

Rafael: É tudo isso junto, vivo música intensamente, 24 horas por dia, há pelo menos 15 anos. A Snooze não me dá retorno financeiro, a banda apenas se paga (não desembolsamos mais pra gravar os discos), mas não abro mão de desenvolver esse trampo. É como uma válvula de escape. Trabalhar com Fabinho é ótimo, ele é tranquilo e um ótimo músico. Na Snooze, temos afinidade e sintonia, já pra outros trabalhos não sei se daria tão certo.

Adelvan: É hobby e é paixão, única e exclusivamente. Só resvalou no trabalho quando assumi a loja que foi fundada ainda nos anos 80 por Silvio da Karne Krua, a Lókaos, que ficou sob minha administração de junho de 1995 a fevereiro de 1997 (a primeira falência a gente nunca esquece). Foi uma experiência bonita e intensa, mas infelizmente não deu certo. Também ajudei a produzir muito show, mas invariavelmente tomava prejuízo. Fazia por amor mesmo, mas ninguém aguenta ficar perdendo dinheiro a vida inteira, né!? Hoje, estou bem relax, faço o que posso sem me preocupar em ser o “salvador da pátria”. “O Programa de Rock” mesmo faço sem nenhum estresse, de forma voluntária, não ganho nada mas também não gasto (praticamente) nada. É divertido de fazer. Se não fosse, não faria, nem a pau. Diversão levada a sério. Descobri que, como disse, o rock é teimoso, e por mais que você ache que se você não fizer nada ninguém mais vai fazer (houve um tempo que eu achava isso, sério), sempre tem algum maluco disposto a meter as caras. Pra ficar bem chique, vou citar uma frase de Nietsche: “Sem música, a vida seria um erro.”

Henrique: A minha atividade de músico é essencial. Sou compositor. Leio minha realidade, e disso faço música. Sem ela, teria que encontrar um outro grande motivo para existir.

Como, na sua opinião, Aracaju dialoga - musicalmente - com o restante do país? Música, para vocês, é produto de exportação? Ou de importação?

Rafael: Música não tem fronteira ou língua, e pra uma banda se expandir, evoluir e criar mercado, tem que sair da sua área. Mas também não acredito muito numa banda que não tem público e respeito localmente e quer conquistar o resto do país… Nêgo fica reclamando de Aracaju ao invés de fazer sua parte para as coisas melhorarem por aqui, sabe, acho isso bobagem porque é difícil desenvolver uma carreira em qualquer lugar. Eu me amarro nessa cidade, amo mesmo, mas também não fecho os olhos para os problemas locais. Só que tento fazer algo pra melhorar a cena em que eu mesmo atuo. É algo meio lógico, né? Só quero condições melhores de trabalho, pô!

Adelvan: Música aqui ainda não é produto de exportação não, mas pode vir a ser. Algumas bandas têm muito potencial para isso, como a Plástico Lunar e a The Baggios, e outras em nichos bem específicos do punk/hardcore e do metal. A Karne Krua mesmo, por sua historia, é bastante conhecida, nacionalmente. Mas acho que Aracaju, lamentavelmente, dialoga pouco com o restante do país. Estamos fora até do circuito Fora do Eixo, veja só. Mas esta situação tende a mudar. Quem viver verá.

Henrique: Importamos muito, mas somos muito diferentes, até mesmo dos outros nordestinos. Portanto, temos perfil para exportação, sim. O desafio diante de tanta importação é manter uma identidade coerente com a história do nosso povo, com uma influência linda, por exemplo, da língua falada no norte de Portugal e na Galícia (Espanha), que deixa nossa fala com tantos traços marcantes, como o otcho, mutcho, primero, cantero, bassoura. Isso é bonito, rapaz! E o produto? (risos) Estamos o tempo inteiro recebendo, e se produzimos algo com isto da nossa maneira, melhor ainda. Eu falo num produto reprocessado, antropociclado (?) mesmo. Vem de fora, cai no nosso moedor e sai de outro jeito. Assim se dá…

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

16/01/2010 - no Capitão cook




O Verão Sergipe, projeto do governo do estado, estava a todo vapor na praia de Atalaia Nova, Barra dos Coqueiros, e sua megaestrutura podia ser vista da Coroa do Meio, onde acontecia mais uma noite de rock no bom e velho refugio dos amantes da musica independente, o Capitão Cook. Lado A/Lado B. Entrei com a Renegades of punk executando “coração de pedra”, faixa que eu havia tocado na noite anterior no programa de rock e que faz parte do split que eles lançaram com o Mahatma Gangue, de Mossoró (RN). Bom show, mas com um publico ainda pequeno e meio frio, circulando pela área externa ou amontoado no bar. De frente para a banda, mesmo, apenas as garotas do Biggs. Para minha surpresa, Adilson Pereira, ex-editor da OUTRACOISA, aquela revista do Lobão que sempre vinha com um Cd encartado e fanzineiro carioca “das antigas”, estava de passagem por Aracaju como convidado do governo do estado para cobrir o Verão Sergipe para seu site Samba Punk. Começamos a trocar correspondência há mais de 15 anos, quando ele ainda publicava o “Porco Espinho”, e foi um prazer poder finalmente conhecê-lo pessoalmente.

A segunda banda a se apresentar foi a Snooze, com uma novidade: a adição de teclados, que dividiu opiniões – alguns detestaram, alegando que suavizou demais o som da banda, outros, como eu, acharam uma experiência interessante, pois deixou os arranjos mais climáticos e elaborados, com novas texturas. Nos trechos mais “viajantes” e improvisados, deu um toque de psicodelia, uma nova cara ao som deles. Creio que foi uma renovação bem-vinda. Não sei se seria o caso de se incorporar o teclado definitivamente ao som da banda, talvez sim, com alguns ajustes para que ele não soe tão onipresente, mas como experiência achei bastante válida e positiva. De qualquer forma foi um grande show, excelente perfomance da banda, que estava inspirada, e contou com a participação do ex-integrante Clínio Jr., atualmente morando no Rio e tocando no Pelvs.

Por fim, o Biggs, trio de punk rock sorocabano capitaneado por Flavia e Mayra, ex-integrantes da Dominatrix, no baixo, guitarra e vocal, e Brown, que já colaborou com grupos seminais como o Pin ups e Wry, na bateria. Fazem um rock and roll visceral e furioso, berrado e tocado com um entusiasmo impressionante. Baquetas foram quebradas, microfones caíram ao chão e o publico foi ao delírio numa apresentação de cerca de uma hora mais do que suficiente para saciar a ânsia dos roqueiros presentes. Missão cumprida.

No mais, é voltar pra casa saciado de corpo e espírito (cortesia da velha passada numa lanchonete para matar a fome), não sem antes assistir ao belo nascer do sol na praia de Atalaia, “mirando as ondas do mar”.

por Adelvan Kenobi

sábado, 23 de janeiro de 2010

# 134 - 22/10/2010




Master – Betrayal
Master – In Control

Free – All right now
Thin Lizzy – Bad Reputation
Blue Cheer – Summertime Blues

Os Mutantes – Desculpe baby
Mopho – O amor é feito de plástico
Plástico Lunar – Fungos

Anéis de vento – Do início ao fim
Entrevista com a banda Anéis de vento

Libertines – Don´t be shy
Pixies – Bone Machine
Sonic Youth – Little trouble girl
The Jesus & Mary Chain – Taste of Cindy (acoustic)
The Smashing Pumpkins – tonight tonight

Lançamento do LP (em vinil) “SOMA”
Sons das bandas:
O Vento Azul do som
Psychedelic Down
Olho por olho
Entrevista com:
Alessandro “Cabelo”
Cícero “Mago”
Marcelo Prata
Marcio Prata

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Morte no mar

A esta altura já é do conhecimento de todos a morte de dois integrantes da banda inglesa After Death no mar da praia de Atalaia, aqui em Aracaju. A noticia se espalhou rapidamente e atingiu inclusive grandes veículos de comunicação, como a primeira página da globo.com e da BBC de Londres, além do Daily Mail e de todos os telejornais da Rede Globo. O Programa de Rock se solidariza com os promotores do evento, amigos e familiares das vítimas e deseja sorte na empreitada de continuar a turnê mesmo depois de um acontecimento tão triste.

Abaixo, o comunicado da produção da tour sobre o ocorrido:

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Apesar do falecimento dos membros Leon Villalba e Timothy Kennelly (corpo ainda não encontrado) do grupo londrino AFTER DEATH em um afogamento em Aracaju, a "Master of Hate Tour 2010" terá continuidade em respeito, principalmente, ao público. Em conversa com os membros do AFTER DEATH eles afirmaram "Estamos todos enlutados e ainda chocados com tudo o que aconteceu, mas temos certezas que eles gostariam que os shows fossem realizados. Façam isso em homenagem a eles!".

Foi criado um blog de divulgação onde, além de notícias oficiais da turnê, os fãs poderão ver fotos e vídeos dos shows. Acessem: http://mastersofhatetour.blogspot.com

O show em Aracaju aconteceu com sucesso na noite de 22 de janeiro e a turnê prossegue neste final de semana com datas em Maceió e Recife, pssando ainda por Natal, Campina Grande, Fortaleza, Picos, Teresina, Imperatriz do Maranhão, Belém do Pará, Palmas, Goiânia, Brasilia, Catanduva, Campinas, São Paulo e Otacilio Costa, em Santa Catarina.




Uma manada "fora de controle"

Rian Santos

riansantos@jornaldodiase.com.br

Fonte: Spleen e Charutos

Parece absurdo, mas ainda há quem acredite no espírito viciado do Rock’n Roll. Aqui mesmo em Aracaju, meia dúzia de malucos, românticos degenerados e extemporâneos, cultivam acordes envenenados como se entregassem suas vidas a uma nova religião. Sob o pretexto de cobrar um trabalho prometido em nossa última entrevista, eu conversei mais uma vez com os caras da Mamutes. Foi a maneira que encontrei de me aproximar da energia mencionada. Por algum motivo obscuro, ela já não pode ser encontrada com facilidade nas ranhuras cada vez mais rasas dos discos.

Jornal do Dia – Ano passado, no distante 2009, vocês prometeram que colocariam um novo trabalho no mercado. Como é que anda esse projeto? Além da ausência de uma guitarra (que, dada a competência de Rick Maia, não é nem tão sentida quanto deveria), quais as principais diferenças desse trabalho em relação à estréia da banda?

Karl de Lyon – Então, meu chapa, nós teremos que adiar o lançamento um pouquinho. Já estamos trabalhando na pré-produção de algumas músicas e ficvamos satisfeitos com os primeiros resultados. Com a pré-produção conseguimos nos entender melhor musicalmente. Nem só da efervescência do palco vive uma banda de rock’n roll. O que queremos é justamente surpreender também dentro do estúdio, e sabemos que chegaremos lá.

Quanto à ausência de guitarra, não é a primeira vez que passamos por isso. Outros guitarristas resolveram partir em novas direções no momento exato da decolada. Como você já deve saber, o Julio Dodge, que gravou as guita em nosso primeiro EP, saiu da banda logo depois da gravação e botou para frente um projeto extraordinário na The Baggios, além da fazer as guita na Plástico Lunar (os caras são menos peludos que a gente). Logo depois veio o Marcio Navas, Ex-Pupilas de Quartzo, que foi o auge para as guitarras da banda. O Navas e o Maia se completavam cosmicamente, mas chegou a hora de seguir a sua nova caminhada e tínhamos que respeitar o ciclo natural das coisas. A gente espera que a nave espacial que levou Navas possa trazer ele de volta, qualquer dia destes, mas sempre direi que a participação deles em nossa trajetória foi grandiosa. Só nos resta a felicidade de ter revelado os melhores guitarrista da city, e saber que temos um guitarrista que vale por mil. Então, partindo deste princípio, estamos no crédito, totalmente seguros do que fazemos.

O instinto é o mesmo desde a nossa estréia. O som que fazemos tende a ficar cada vez melhor. O rock que fazemos é literalmente valvulado: À proporção que vai esquentando, vai ficando mais encorpado, e é aí que o pau quebra.

JD – Às vezes, dadas as condições adversas do mercado local – a ausência de uma indústria e de uma política cultural maltrata os que mais se preocupam com o amadurecimento do meio – parece que montar uma banda é uma empresa para loucos. Apesar disso, a Mamutes vem crescendo a olhos vistos, e pelo que já conversamos, alimenta pretensões bem ousadas. Como foi que vocês se meteram nessa labuta ingrata? Já bateu alguma espécie de descontentamento?

Rick Maia – Hoje em dia, infelizmente, não dá pra ter uma banda e se preocupar somente com a música em si. O profissional atual tem que ser músico, produtor e empreendedor porque existem inúmeras bandas e muitas delas são realmente boas, contudo, organização demais no rock às vezes acaba fazendo com que as bandas percam a “magia” da coisa toda. Atualmente as gravadoras só trabalham com bandas já prontas para o mercado com disco lançado, DVD e alguns anos de estrada. Acredito que quem irá se destacar será aquele que tiver um bom disco, uma boa apresentação ao vivo, conhecer melhor o seu nicho e o que melhor trabalhar bem nos bastidores, enfim, quem conseguir achar um meio termo entre a organização de uma empresa e a anarquia do rock’n roll.

Nós entramos nessa com o simples intuito de se divertir e tocar, porém, desde a primeira apresentação percebemos que poderíamos fazer a diferença porque é muito fácil tocar junto quando as peças realmente se encaixam.

Com relação ao descontentamento, é normal bater sim. Uma banda é como um casamento ou uma família, às vezes está tudo lindo, às vezes ficamos desapontados uns com os outros ou com fatores externos e com as dificuldades de ser um rocker em Sergipe, mas no final sempre seguimos em frente porque ao contrário de alguns roqueiros brasileiros que vão ficando mais “mansos” com os anos, nós da Mamutes vamos ficando mais selvagens. Quanto mais difícil fica, mais aumenta o nosso tesão em mostrar pra todo o mundo a nossa paudurecência.

JD – Outro dia, conversando com um amigo músico, ele fez uma observação interessante. Para ele, ao contrário das influências declaradas da banda, o timbre da Mamutes remete diretamente aos 80’s. A observação faz sentido? Até que ponto isso é importante para a identidade da banda?

Karl de Lyon – Não, a Mamutes não tem nada a ver com os anos 80. Temos total noção da influência que determinadas bandas dos anos 80 possui sobre a gente, mas o som da Mamutes sempre foi elaborado olhando para os anos 70. A identidade da banda está toda no hard rock 70. O resto a gente vai deixar para a turma da Armação Ilimitada, do Evandro Mesquita, e para as bandas que se afinam com este som.

JD – Eu não sei como vocês acompanham a discussão, mas algumas vacas sagradas da música sergipana vêm se mobilizando num levante reacionário, exigindo na cara dura o retorno a um estado de coisas que, aparentemente, não foi capaz de criar uma cadeia produtiva para a música sergipana. Na opinião de vocês, o Estado tem que atuar como um mecenas, como querem alguns, ou é preciso construir uma indústria, capaz de proporcionar ao artista que ele caminhe com as próprias pernas?

Rick Maia – Estou participando do Fórum de Música e fui a quase todas as reuniões até agora. Pelo que posso sentir, existe uma maior organização e respeito entre os músicos hoje em dia e isso, antes de tudo, é fator fundamental para que se possa construir uma cadeia produtiva. No entanto, acho que o poder público deve ter um papel fundamental na construção dessa cadeia, atuando como articulador entre os profissionais da música e os meios de comunicação locais, entidades que ofereçam cursos de capacitação ou linhas de crédito e criando canais de divulgação de fácil acesso para o público local que é o principal combustível para o funcionamento sustentável dessa cadeia.

JD – Pra encerrar, já que o pretexto é o disco novo. Ele tem data de lançamento? Qual o nome da criança? O que agente pode esperar desse novo trabalho e o que a Mamutes espera conquistar em 2010?

Rick Maia – O bebê está programado para ser lançado agora em meados do primeiro semestre e vai se chamar Fora de Controle. O disco vai contar com duas ou três músicas do EP Demo e as demais são faixas ainda não gravadas, totalizando onze músicas.
Ao contrário de 2009, quando a estratégia foi se tornar bem conhecido localmente, este ano investiremos no mercado nacional. Para isso, já estamos agendando as datas para a turnê que terá o mesmo nome do disco. O que podemos adiantar é que provavelmente iremos aproveitar a época dos festejos juninos e em junho e julho faremos apresentações no Sul e Sudeste.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

# 133 - 15/01/2010



BAIXE AQUI

Master – In Control

The Biggs – Bullet proof jacket
The Renegades of punk – Coração de pedra
Flauer – Antes do mistério
Snooze – Words for you

Drop Loaded:

Dinartes – Capital do rock
Dinartes – Minha amiga

Dorsal Atlântica – Império de Satã
Mustang – Amor

Bloco produzido por Carlos Lopes (Mustang):

The Jam – The Modern world
Ottis Redding – Try a little tenderness
The Bellrays – Screwdriver
The Beatles – Pepperland
Baby Woodrose – Dark twin

Pastel de Miolos – Nova utopia

Entrevista com Wilson da Pastel de Miolos

Bloco produzido por Michael Menezes:

Repúdio – pra que entender
Karne Krua – Dois gumes
Nucleador – Municipal Wasted
Plástico Lunar – (...)

Entrevista com Carlos Lopes