quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Sessão Notívagos: Ferraro Trio + "SIMONAL – NINGUÉM SABE O DURO QUE DEI"

Próximo sábado, a partir das 23:59, no Cinemark do Shopping Jardins, em Aracaju, mais uma Sessão Notívagos, com a exibição do Filme "SIMONAL – NINGUÉM SABE O DURO QUE DEI" seguida de uma apresentação, no Hall do cinema, do grupo Ferraro Trio.

Ingressos à venda na bilheteria do cinema.

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Sobre o Ferraro Trio:

O Power trio instrumental sergipano foi concebido e pensado no início de 2008, mas posto em ação apenas no primeiro semestre de 2009, um ano depois da decisão coletiva de colocar em prática o gosto pela música negra, pelos grooves do funk e da soul music e pela música instrumental.

Formado por 3 músicos sergipanos que dividem os palcos e os estúdios com a Maria Scombona há alguns anos e cursam Licenciatura em Música na Universidade Federal de Sergipe, o Ferraro Trio é a consolidação de anos de amizade, trabalho coletivo e amadurecimento musical e pessoal, refletido no entrosamento do novo combo, que pretende tocar para um público amplo e variado, de jazzistas a rockers, além dos amantes da música negra em geral.

As principais influências são a soul music e os grooves funky das gravadoras Motown e Stax. Músicas próprias e temas desses artistas fazem parte do repertório do grupo, que tem a seguinte formação:

# Saulinho Ferreira: Guitarrista, compositor, arranjador, produtor e professor renomado em Aracaju há vários anos, ex-professor de Guitarra no Conservatório de Música de Sergipe. Toca na Maria Scombona desde 2005, trabalha com música instrumental e gospel, além de ter gravado diversos discos de artistas locais (Rubens Lisboa, Joésia Ramos, etc). Está preparando seu segundo disco solo e gravando o trabalho de estréia do grupo “Em 3”. É aluno de Música e professor de Percepção Musical no Curso de Extensão em Música (CEM) da UFS.

Prediletos: Robert Johnson, Ray Charles, John Scofield, Roben Ford, Jeff Beck, James Wheeler, Pat Metheny, Steve Ray Vaughan e Jimi Hendrix Experience.

# Robson Macaxeira: Baixista profissional há mais de 10 anos, estudou com Hugo Leonardo (Professor Doutor da Universidade Federal de Sergipe) e Emanuel Jorge (baixista e arranjador). Acompanhou diversos artistas sergipanos (Rubens Lisboa, Paulo Lobo, Ivan Reis, Alejandro Habib Quarteto, Banda Java, Alapada, etc), além de realizar gravações em estúdio e aulas particulares. Toca na Maria Scombona desde 2000 e com as bandas pop A Fábrica e Unique. É aluno de Música da UFS.

Prediletos: Marcus Miller, Jaco Pastorious, Larry Grahan/Sly, Jackson 5, Jamie Jamerson/Marvin Gaye, Rocco Prestia/Tower of Power, Jamiroquai e Jimi Hendrix Experience.

# Rafael Jr: Baterista há 15 anos e professor do instrumento há 10, foi aluno de Wallace Patriarca no Conservatório de Música de Sergipe de 1992 a 1995 e participou de diversos cursos e workshops com músicos renomados. Integrou a Orquestra Sinfônica de Sergipe de 1995 a 2002 e é membro da Banda do Corpo de Bombeiros desde 2003. Gravou diversos discos com a banda Snooze (rock) e acompanhou artistas locais como Nino Karva, Joésia Ramos, Alex Sant´anna, Patrícia Polayne, Ivan Reis e Alejandro Habib. Toca na Maria Scombona desde 1996 e atualmente integra a Orquestra Sinfônica da UFS (OSUFS) e a banda pop A Fábrica. É aluno de Música e professor de Teoria no Curso de Extensão em Música (CEM) da UFS.

Prediletos: Ringo/Beatles, Zigaboo Modeliste/The Meters, Steve Wonder, Maestro Moacir Santos, Clyde Stublefield/James Brown, Black Rio, Curtis Mayfield e Jimi Hendrix Experience.

Contatos: 8817-2488 (Rafael Jr.) ou 9995-8069 (Robson)

Download:

http://www.4shared.com/file/123589085/155542cc/Ferraro_Trio.html

http://www.ladonorte.net/netlabel/net-ferraro.html

Matéria no Jornal "O Dia":
http://spleencharutos.wordpress.com/

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Sobre o filme:

SIMONAL – NINGUÉM SABE O DURO QUE DEI

Um filme de CLAUDIO MANOEL, MICAEL LANGER E CALVITO LEAL

Festival do Rio 2008
Hors Concours

13º Festival É Tudo Verdade
Menção Honrosa

I Festival Paulínia de Cinema
Melhor Documentário – Juri Oficial e Juri Popular

Selecionado para os festivais:
Festival de Cinema do Amazonas
Cine BH
Mostra de Documentários de Maceió
Festival de Aruanda
Cinemúsica
V Panorama Internacional Coisa de Cinema
V Festival de Cinema de Arte de Salvador
V Festival de Verão

“Faz justiça ao artista sem fugir da polêmica que derrubou o homem.”
“Revelador para as gerações que só ouviram falar de seu sucesso.”
“Suas apresentações são provas convincentes de seu poder de mover as massas com enorme carisma.”
“Grandes atuações no palco em raras imagens de arquivo.”
- O Estado de S.Paulo
...

“É o primeiro olhar do cinema sobre esse homem.”
- Folha de S.Paulo
...

“Gente Boa não é o Bonequinho, mas viu o filme e aplaude de pé.”
- O Globo
...

“Montagem esperta e moderna, depoimentos contundentes.”
“Imagens de arquivo que mostram o contraste da grandiosidade do cantos nos anos 60 versus a decadência nos últimos dias.”
“Honesto e bem trabalhado tributo a um artista que experimentou tanto a doçura da fama como o amargo do ostracismo social.”
“Um filme essencial, atraente e contundente que resgata a memória de uma figura que não deveria ter sido esquecida.”
Cineclick


SINOPSE REDUZIDA

História da ascensão e queda de Wilson Simonal (1939-2000), cantor que conseguiu status de estrela numa época em que no Brasil isso era raridade para artistas negros

SINOPSE

Numa época de talentos eternos e revolucionários, Wilson Simonal brilhou como ninguém e inovou como poucos. Juntando qualidade, carisma, simpatia, suingue, charme, sensualidade e muito talento, ele se tornou a sensação do Brasil e ainda conquistou o público internacional. De repente tudo acabou. Boatos, acusações, mistérios, patrulhas e perseguições. O que aconteceu com Wilson Simonal?

“Simonal - Ninguém sabe o duro que dei” traça a trajetória impressionante do ex-cabo de exército, que reinou soberano e acabou condenado ao ostracismo por um delito que jurava inocência. Através de depoimentos de amigos, inimigos e, principalmente, de imagens das exuberantes performances do grande artista, o filme mostra também as respostas que nunca apareceram. Simonal era informante da ditadura? Era favorável aos militantes? Ou seu maior crime foi ser negro, milionário, símbolo sexual num país e numa época em que existia muito racismo?

ENTREVISTAS

Diretores

Claudio Manoel foi, em 1978, um dos fundadores do Casseta Popular, tablóide feito por estudantes universitários, que ajudou a renovar o humor brasileiro na década seguinte. Junto com os amigos da publicação e com integrantes do jornal O Planeta Diário, ele montou ainda nos anos 80 o Casseta & Planeta, grupo multimídia que, além de produzir um programa semanal de televisão com uma das maiores audiências no Brasil, gravou discos de sucesso, produziu programas de rádio, filmes, tele-piadas, jogos em CD-Rom, livros de humor, e editou várias revistas – inclusive em quadrinhos. Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei é sua estreia na direção cinematográfica.

Em que momento o Simonal apareceu em sua vida?

Foi quando eu era moleque. O Simonal estava no auge – era o fim dos anos 60, começo dos 70. Eu tinha por volta de 10 anos de idade e não ia a shows, mas via TV e conhecia os hits dele. Lembro da presença do Simonal como o artista mais popular da época – havia até aquele mito de que ele havia regido uma multidão no Maracanãzinho. Depois, teve todo aquele processo que ele sofreu, mas aí eu já estava entrando para a universidade e então perdi todo o contato – se o ambiente universitário daquela época não aceitava Nelson Rodrigues, que dirá Simonal! Ele não era o cara que tinha simplesmente caído no ostracismo, ele foi vitima de uma verdadeira sovietização – não apenas saiu de moda, mas foi retirado dos verbetes! Bom, mas aí os anos se passaram e um dia eu estava lendo o livro Noites Tropicais, do Nelson Motta, e havia um capítulo bem interessante sobre o Simonal. Ali, deu para ver bem como, ao longo dos anos, aquele troço todo havia sido mal contado pela História. A imagem era a de um cara que fazia um sucesso estrondoso e, que, nas horas vagas, era delator. Uma coisa muito doida.

E como foi que cresceu a idéia de fazer um documentário?

Bem, conversa vai, conversa vem, eu comecei a fazer uma pesquisa de reportagens e de imagens ajudado por um amigo – fiz visitas à Cinemateca de São Paulo e à TV Record e achei muita coisa impressionante. Depois que eu dei uma entrevista dizendo que pensava em talvez fazer um filme e logo em seguida fui procurado pela Sandra, a segunda mulher do Simonal, que era uma espécie de mantenedora da sua memória e que também me mostrou muito material. Daí em diante, fui equacionar os custos de produção – eu nunca tinha feito um filme –, montei uma demo e fui rodar bolsinha atrás de patrocínios. O que não deu em nada, já que os prováveis financiadores ou não conheciam o Simonal (e não se interessavam por ele) ou conheciam – e se interessavam menos ainda. Tentei uma, duas, três, 10, 15 vezes. Era mais difícil do que eu pensava – parecia que eu estava fazendo algo sobre o Comando Vermelho ou o PCC! Aí fiquei mordido em meus brios, tive uma conversa com a minha família, e resolvi gastar do meu mesmo para fazer o filme. Gravei alguns depoimentos nas férias, passei uns dois verões trabalhando, mas a coisa era bem difícil de prosseguir. Então apareceram o Calvito e o Micael.

E como foi daí em diante?

Como não tínhamos um texto base, resolvemos então ver o material para achar a escrita do filme. Rolou muita discussão entre os três até que todos se convencessem de um meio do caminho. Acho que isso deu ao filme algumas sutilezas e camadas. Conseguimos escapar das ciladas do dramalhão, da tomada de posição e do maniqueísmo. O filme ficou como o próprio Simonal – pop e na contramão. A gente conseguiu não dar uma opinião, a gente joga o espectador para lá e para cá. Tem a constatação de um cara que foi quase como um ser divinal, e depois tem a sua desconstrução. Isso foi para mostrar que todo mundo é humano, nem anjo nem demônio. E ainda tem o absurdo do castigo que o cara sofreu... A pena dada pela sociedade brasileira foi maior que a por homicídio. Tinha gente que dizia: “o facínora do Wilson Simonal ainda encontra lugares que o acolham”. A crueldade da punição foi exagerada. O tempo tem que passar por cima de todas as coisas, mas com o Simonal essa máxima não valeu.

E, para você, qual o Simonal que sai desse filme?

Acho que dele saiu o Simonal artista, o que eu acho justo, já que por aí tem muito artista canalha, mau caráter, que está sendo consumido. Saiu um Simonal mais humano, com falhas, com escolhas certas e erradas. E o filme também traz uma discussão sobre a intolerância da época da ditadura, aquela de que o Ziraldo [jornalista do Pasquim] fala que foi um produto das circunstâncias. Tem um pensamento falso, de que aquela era uma luta de democratas contra autoritários – só que os dois lados tinham projetos autoritários! O pluralismo era algo liberal, de direita, ou como algo dos frouxos que estavam dando mole pros comunistas. Quem viveu na universidade viu isso – esse tipo de Fla x Flu que torna a sociedade mais imbecil. Esse é um pano de fundo relevante do filme. Para mim, o Simonal é aquele cara que estava no meio do tiroteio, numa época em que não se poderia dar mole pra Kojak.

Micael Langer cursou Rádio e TV e já trabalhou como assistente de correspondente no The New York Times no Rio de Janeiro. Desde 2003, trabalha como produtor, roteirista, diretor e pesquisador em curtas-metragens, vídeos institucionais, filmes publicitários e DVDs.

Calvito Leal é formado em Publicidade e Criação na Universidade Mackenzie em São Paulo. Trabalhou como assistente de fotografia still, artista de composição digital para filmes publicitários e assistente de direção em diversos comerciais e longas-metragens nacionais e internacionais. Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei marca suaestréia na direção de filmes. Calvito hoje dirige programas de televisão para canais como Fashion TV e Multishow e é sócio-fundador da Barry Nice, produtora de conteúdo audiovisual.

Como foi que vocês dois entraram no filme?

Calvito – Eu fiquei conhecendo melhor a história do Simonal a partir de um especial de TV. E depois disse para mim mesmo: Não é possível que ninguém esteja contando essa história! Logo em seguida, conheci a Bárbara, mulher do Max de Castro [filho de Simonal] e ela me disse que o Claudio Manoel estava fazendo um filme sobre ele. Resolvi então ligar para o Claudio para saber qual era o foco do seu documentário. Marcamos uma reunião e ele disse que o projeto estava parado há um tempo e sugeriu que a gente unisse forças para retomá-lo. Nós resolvemos ali começar um novo projeto e fomos catar mais imagens de arquivo. Mas um ponto fundamental para a gente era ir atrás do contador [Raphael Viviani, a quem Simonal era acusado de mandar dar uma surra, episódio que deflagrou todo o processo de degradação de sua imagem pública].

Micael – Esse depoimento do contador era o que a gente achava que ia despertar o interesse de uma geração para ir ver o filme – elucidar o que realmente aconteceu com o Simonal e como a coisa chegou àquele ponto. Quando a gente olhava de fora para a história logo via que tinha um buraco. Você tinha um episódio policial, e daqui a pouco você via que a coisa tinha se tornado política – logo, tudo foi crescendo de uma forma descontrolada. E nunca ficou muito claro para a gente o que fez uma coisa virar a outra. A gente contratou um detetive para ir atrás de algumas pessoas-chave (o promotor do caso, os detetives do DOPS, o motorista do Simonal) e, por diversas razões, e o único que ele encontrou foi o contador – justamente aquele que a gente mais queria encontrar. Quando fomos a casa dele, o Calvito ficou dentro da van com a câmera e eu fui lá, bater à porta, com um microfone de lapela sem fio. O argumento que convenceu o Viviani a falar com a gente foi a de que ele poderia se defender da acusação de que estaria roubando dinheiro da firma. Nossa primeira impressão que a gente teve é de que não só a família do Simonal foi destruída por esse acontecimento – a do Viviani sofre muito até hoje.

Calvito – O Viviani mudou a história do Simonal assim como ele mudou a nossa história também. A gente estava indo com um filme na cabeça e, depois que encontrou ele, a gente teve que parar para conversar. A entrevista dele foi a última a ser feita. Na hora, deu aquela coisa: Peraí, gente, temos um furo! E aí a gente resolveu mexer no material para entender a história que estava contando. E uma surpresa muito agradável foi que, quando estávamos começando a editar o depoimento do Viviani, nós conseguimos achar o processo criminal do Simonal – e ele estava a uma semana de ser destruído. A gente chegou a entrar com um scanner dentro do tribunal para poder copiá-lo!

O filme recorre bastante à animação com fotos. Qual foi a intenção com isso?

Calvito – A ideia era tornar o filme o mais pop possível, deixá-lo agregador. O documentário já é, por si só, um formato cinematográfico complicado, o público já é naturalmente avesso a ele. A animação era muito importante para a gente, porque trazia o elemento pop e transportava um pouco para aquela época, os anos 60, aquela coisa psicodélica, além de funcionar como respiro. Porque você tinha que ter lugar para música no filme – e recorrer a uma animação bacana era bem melhor do que deixar o som rolar somente com uma foto estática de fundo.

Micael – A animação entrou porque nós três sempre tivemos a preocupação era fazer um filme para todo mundo, não um para um circuito fechado de cinéfilos. Nós viemos de televisão e da publicidade, tínhamos essa visão que é destoante daquela da parcela mais elitista do mercado cinematográfico.

Quais foram as descobertas na garimpagem de material de arquivo?

Micael – A gente conseguiu, por exemplo, um longa do Domingos de Oliveira que se chama É Simonal [de 1970]. É um filme que não fez nenhum sucesso, mas que para a gente tem uma importância fundamental porque, pra nossa sorte, é um filme biográfico. A grande maioria das imagens coloridas do filme a gente tirou dele. E houve surpresas como a cena do palhaço negro num programa de TV, algo sobre que ninguém tinha comentado – você nunca imaginaria que, em 1968, alguém faria um número com aquele teor racial, com aquela intensidade. A primeira vez em que a gente viu essas cenas, a gente caiu da cadeira. Muita coisa boa acabou ficando de fora do filme, mas deve entrar no DVD. Esse manancial das imagens de arquivo é maravilhoso, mesmo sendo restrito.

Qual era a visão que vocês tinham do Simonal antes de fazer o filme?

Micael – Pra mim, o Simonal era só um nome mesmo, a nossa geração não teve acesso a ele. Quando eu falei para o meu pai que ia fazer um filme sobre ele, a primeira reação que ele teve foi: Ah, o dedo-duro? Duas coisas nos surpreenderam. Uma foi a qualidade artística dele e o tamanho da carreira dele, o ponto a que ele chegou – ele foi o artista mais popular do Brasil, isso não é pouca coisa. E segundo, a complexidade de toda a questão política. Uma coisa é você saber que ele é um dedo-duro, outra é tentar descobrir uma história nesse emaranhado de acontecimentos e ficções. É um negócio kafkiano.

Calvito – Acho engraçado como a história do Simonal é um reflexo do Brasil, esse oba-oba e depois toma-toma, essa coisa de construção e destruição, a efemeridade da fama num país sem memória. Um cara com o potencial dele, a exposição que ele teve, e de repente ser apagado... Se você perguntar num bar, as pessoas não vão nem saber quem foi o Simonal. E, além disso, tem o fato de ele ter sido a personificação desse jeitinho brasileiro, desse elevador entre o andar de cima e o andar de baixo. Foi uma ascensão meio malandra. É lógico que com seu próprio talento, mas não só com o talento. É também com o papo. Isso é algo que provocava uma identificação bem maior com o brasileiro do que o discurso da galera engajada.

Micael – A gente tem uma esperança de que esse filme vá suscitar o debate. O Simonal se deu a própria rasteira. O problema é que as pessoas não estenderam a mão para ele levantar. O que se poderia esperar de uma apuração mais profunda não aconteceu. As pessoas não se preocuparam em saber se aquilo procedia ou não.

Qual a maior preocupação ao fazer um filme sobre uma figura tão singular quanto o Simonal?

Calvito – A gente sabia bem que o cara era uma simpatia, que tinha um carisma e tal, mas se a gente não conseguisse convencer disso a quem está ouvindo falar do cara pela primeira vez... perderíamos o jogo de cara! Era importante mostrar o máximo de imagens de arquivo. Não só do cara cantando, mas do cara atuando como performer. Aquela coisa da brincadeira... você começa a entender o cara por causa isso. Você pega uma simpatia por ele. E aí quando chega à história da Copa de 70, você entende que só aquele cara poderia ter feito aquilo! Se a gente não tivesse isso, aí a gente ia ter feito um filme de resgate para meia dúzia de pessoas. Entender o cara é fundamental para entender a dimensão da queda.

O SIMONAL MUSICAL

Em comum, havia o fato de terem começado carreira sob os auspícios do agitador Carlos Imperial e um passado de ligações com a bossa nova – de repente, quando se chega ao final dos anos 60, lá estão os dois, Wilson Simonal e Roberto Carlos, como os donos do pedaço, vendendo discos aos milhões e lotando estádios como nenhum outro artista da música brasileira. Mas se Roberto acabaria dando a semente para a formação de um movimento de rock, eminentemente branco, no país, Simonal foi o capítulo 1 de uma espécie de black music com sabor tropical. Tim Maia, Cassiano, Banda Black Rio, Sandra de Sá, Cláudio Zoli, Ed Motta, Paula Lima, todo mundo passou pela porta aberta do cantor de invejável inflexão jazzística (Sarah Vaughan que o diga!) e incomparável ginga. A série de LPs Alegria, Alegria, iniciada por Simonal em 1967, apresentou uma das criações de Imperial, a Pilantragem, que o cantor representou melhor do que ninguém. Um passo além do samba esquema novo de Jorge Ben, rumo às paradas de sucesso e às pistas quentes das boates. A dance music brazuca por excelência.

Basta ouvir a gravação de “Nem Vem que Não Tem” (composição de Carlos Imperial, que até Brigitte Bardot cantou depois, em francês) para entender porque Simonal era o cara: malandragem total na inflexão meio rap dos versos, suingando no balanço do piano de Cezar Mariano (o futuro César Camargo Mariano, então líder do grupo Som Três) e de uma base de baixo, bateria, guitarra e sopros bem próxima daquela soul music de sucesso da época, de Otis Redding e Aretha Franklin. Uma combinação tão matadora (ah, e não dá para esquecer das onipresentes palminhas, dando um clima de festa sem fim) que funcionou com uma gama de composições tão ampla que era capaz de abranger a folclórica “Escravos de Jô”, o “Sá Marina” (de Tibério Gaspar e Antônio Adolfo), o “País Tropical” (de Jorge Ben, à qual Simonal deu sua forma definitiva), o “Remelexo” (de Caetano Veloso) e a marchinha “Mamãe Eu Quero”. Tal era o talento e o carisma do cantor que, se quisesse, até a “Marcha Fúnebre” ele poderia tentar usar para levantar o povo no salão.

Os sucessos de Simonal na fase Pilantragem vieram aos montes: “Meu Limão, Meu Limoeiro”, “Vesti Azul” (de outro artífice do gênero, Nonato Buzar), “Mamãe Passou Açúcar Ni Mim” (outra de Imperial) e “Mustang Cor de Sangue” (dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle). E para quem o acusava de só saber fazer dançar, ele podia sacar do bolso o “Tributo a Martin Luther King”, uma pungente tomada de posição na luta contra a discriminação racial, cuja composição ele próprio assinou com Ronaldo Bôscoli. Mas saber fazer dançar, divertir a massa era algo que o cantor fazia como ninguém – não por acaso, hoje em dia quando os jovens DJs jogam na pista alguma das faixas acima citadas, não tem quem fique parado. Wilson Simonal é aquele tio cheio de suingue, que recentemente ganhou até um disco de remixes, Rewind, feitos por nomes acima de qualquer suspeita, como Instituto e os DJs Hum e Patife.

Mas... e se alguém vem perguntar pela bossa, pelo barquinho, pelo violão, pela sofisticação jazzística e pela música civilizada? Não tem problema: os LPs Tem Algo Mais (de estreia, em 1963) e A Nova Dimensão do Samba (1964) podem satisfazer os puristas, com muito Tom Jobim (“Inútil Paisagem”, “Samba do Avião”, “Ela é Carioca”, “Garota de Ipanema”), Menescal e Bôscoli (“Ela Vai, Ela Vem”, “Telefone”), Johnny Alf (“Rapaz de Bem”) e Baden Powell/Vinicius (“Consolação”). Todos servidos com um molho especial, cuja receita ninguém mais conseguiu reproduzir. É isso aí: os serviços prestados pelo soldado Wilson Simonal à música brasileira são grandes, agora sabemos bem – a hora, então, é de ir atrás dos seus discos e ouvir, ouvir, ouvir. E dançar.



PRODUTORA

A TvZERO é uma produtora fundada em 1991 com o objetivo de investir na renovação da linguagem audiovisual, levando ao grande público obras de relevância artística e cultural. Inicialmente focada na produção de documentários e videos musicais, ao longo dos anos a TvZERO incorporou diversos segmentos dentre suas atividades e hoje concentra-se exclusivamente na produção de conteúdo para cinema, tv e novas mídias. A produtora transformou-se em um núcleo de realização, integrando profissionais de múltiplas vertentes: cineastas, documentaristas, artistas gráficos, músicos e publicitários. Dentre suas principais produções recentes estão os documentários de longa-metragem A Pessoa é para o que nasce, de Roberto Berliner e LINGUA-Vidas em Português, de Victor Lopes. A TvZERO também produziu os premiados curta-metragens Bala Perdida, Onde a coruja dorme e A pessoa é para o que nasce, que deu origem ao longa homônimo lançado em 2005. A produtora se destaca ainda pela realização de programas para televisão como a série Som da rua, veiculada na TVE e na Rede Globo desde 1997, além de programas para canais como o History Channel, A&E Entertainment, Tv Cultura, SBT, dentre vários. No meio musical, realizou diversos vídeos para bandas como Paralamas do Sucesso, Los Hermanos, Skank, Lobão, Pedro Luis, Pato Fu, Ana Carolina, Leoni, Bezerra da Silva dentre outros.

FICHA TÉCNICA

Direção: Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal
Produtores Associados: Raul Schmidt e Roberto Berliner
Produção Executiva: Manfredo G. Barretto e Rodrigo Letier
Coordenadora de Produção: Lorena Bondarovsky
Direção de Fotografia: Gustavo Hadba
Direção de Arte: Eduardo Souza e Rodrigo Lima (Pavê – ex-Apavoramento)
Trilha sonora original: Berna Ceppas
Montagem: Pedro Duran e Karen Akerman
Produção: TvZERO e Zohar
Co-produção: Globo Filmes
Distribuição: MovieMobz

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Vendo 147 (BA) e Mamutes na Casa do Rock



Primeira banda brasileira a ter dois bateristas tocando em uma mesma bateria faz show em Aracaju no dia 5 de dezembro

Fonte: Divulgação

Depois de uma tour pelo Brasil, passando por São Paulo (SP), Campinas (SP), Recife (PE), João Pessoa (PB), Natal (RN) e Belo Horizonte (MG), a banda baiana Vendo 147 volta às terras sergipanas. A banda divide o palco com a banda de rock sergipana Mamutes. No dia 5 de dezembro, a partir das 22h, os dos grupos se apresentam na Casa do Rock.

A Vendo 147 é uma banda de rock instrumental formada pelos bateristas clones Dimmy “O Demolidor” e Glauco Neves, os guitarristas Duardo Costa e Pedro Itan e o baixista Caio Parish, a banda trouxe para o Brasil de forma pioneira o clone drum, uma inovação composta por dois bateristas dividindo uma única bateria, tocando no mesmo bumbo. O grupo já é conhecido no circuito independente de Aracaju, tendo participado do festival Nada Pode Parar o Rock II, em 2006, e de um show realizado no dia 18 de julho no Capitão Cook, com The Baggios. A banda, sucesso de crítica e público por onde passa, acaba de voltar de uma turnê que incluiu participação em importantes festivais de música do país.

Já a Mamutes já é bem conhecida no cenário rock sergipano. Composta por Karl di Lyon (vocal), Thiago Sandes (baixo), Marcos Odara (bateria) e Rick Maia (guitarra). Inspirado na sonoridade setentista do hard-rock, proto-punk e do blues, o grupo faz um som harmônico, original e ao mesmo tempo barulhento, nervoso. Os Mamutes avançam numa manada potente e destruidora com o simples instinto da sobrevivência. A sobrevivência do rock and roll!

O show da Mamutes e Vendo 147 acontece dia 5 de dezembro, a partir das 22h, na Casa do Rock. O ingresso custa R$ 10. O evento é uma realização da Maquinando Produções.


| Serviço |
Show: Vendo 147 (BA) e Mamutes
Local: Casa do Rock – Rodovia Airton Senna, 170, Praia de Aruana (em frente ao Oca Bar, logo após a AABB)
Data / horário: 5 de dezembro (sábado), a partir das 22h
Ingressos: R$ 10

I Contatos I
Elma Santos – 79 9994-0519
Maquinando Produções



Discarga em Aracaju



por Adelvan kenobi

Show marcado para as 22:00, cheguei quase meia noite e nenhuma banda ainda havia tocado. Normal. Nucleador passando o som, bate-papo na porta da Casa do Rock, que fica entocada atrás de um terreno baldio na praia de Aruana. Começa o show, entro. Som péssimo, falhando o tempo inteiro – o que parece ser praxe, foi assim em todos os eventos que fui por lá. Apesar dos pesares a banda segura a onda, apresentando um novo vocalista, ainda um pouco “verde”, mas com potencial, bastam mais ensaios para que haja um melhor entrosamento.

Banquinha de material no intervalo, bate-papo com os caras da Discarga, Juninho e Nino, muito gente-finas. Já conheço-os das outras vezes em que tocaram por aqui e de nos trombarmos por aí pelos rocks da vida. Nino é alagoano, ou pelo menos morou em Alagoas, e tocou em algumas bandas célebres de lá nos anos 90, como Leprosário e Gangrena Crucial, ou seja, muita historia pra contar. Das mais novas (histórias), especial destaque para os relatos de Juninho sobre a primeira ida do Ratos (ele é baixista do Ratos de Porão) à Finlândia, este ano – dentre outras coisas, para minha surpresa, me falou que passou calor por lá, pois era verão. A surpresa vai por conta de que eu pensei que lá fazia frio o ano inteiro, já que se trata de um dos países mais gelados do mundo. Me falou também da apresentação do Discarga no Obscene Extreme Fest da Republica Tcheca no ano passado, o mesmo festival que nosso amigo e correspondente informal Juliano cobriu para o nosso blog este ano. E me confirmou que o festival é realmente extremo e obsceno, com perfomances sadomasoquistas impressionantes. Enfim, amenidades madrugada adentro, conversinhas de comadre.

Demonkratzie no palco, com o som um pouco melhor equalizado. Pesado, rápido, barulhento, bom. Cruzo com Murilo da Nucleador no gargarejo e ele me explica que demoraram a começar porque a Nucleador é uma banda de bêbados irresponsáveis que só chegam atrasados e tocam de qualquer jeito, e que ele acha que as melhores bandas de rock são assim mesmo – então ta.

The Renegades of punk. Bem legal, como sempre. Vocal feminino gritado , musicas rapidinhas, guitarra “limpa”, sem (ou com pouca) distorção, com o volume no talo e castigada com palhetadas nervosas ecoado belos riffs. Bateria espancada com gosto por Ivo, grande figura. Baixista novo (não sabia que Luiz tinha saído), cover do Dead kennedys.

Discarga, enfim. Brutal, apesar do evidente e manifesto cansaço dos integrantes, que explicam no microfone que haviam chegado de ultima hora vindos de Salvador pois o ônibus havia quebrado e eles tiveram que esperar 1 hora e meia na estrada, sendo que tinham saído cedinho do aconchego de seus lares, em São Paulo. Mas é nenhuma, tome rock. Show dividido em blocos de várias “músicas” sem intervalo, sem pausa para respirar a não ser entre um bloco e outro. São pedradas lapidadas por anos e executadas com perfeição por um trio afiadíssimo. Levantou a galera, que estava meio morgada. Nino não existe, é um monstro na bateria. Extremamente foda e maravilhoso, quem não foi (foi fraco de publico), perdeu. A noite já avançava madrugada adentro e o sono bateu, assisti boa parte da apresentação literalmente cochilando em pé encostado num coqueiro, mas deu pra ver que foi muito bom, beirando a perfeição, apesar do som, que estava melhor do que no inicio mas ainda longe do ideal. Deram seu recado em cerca de 1 hora, ou 45 minutos, e convidaram a todos para estarem presentes na noite seguinte em Salvador, onde se apresentariam no aniversário de 10 anos do selo Estopim.

Fim de festa. Voltar pra casa com o dia amanhecendo, dar a tradicional carona aos amigos, deitar e dormir o sono dos justos, depois de mais uma revigorante noite de rock.

A vida é bela, ás vezes.






sexta-feira, 20 de novembro de 2009

# 128 - 20/11/2009

Fonte: http://www.kollision.biz/movies/mov_files/mov_vampiroslesbos.htm

Cult é somente uma das classificações (a mais famosa) que geralmente se dá a Vampyros Lesbos em qualquer círculo cinéfilo que se preze. Um dos mais conhecidos dos muitos filmes feitos pelo prolífico cineasta espanhol Jesus Franco, ele ainda carrega uma considerável aura de fascínio em torno da formosa figura de Soledad Miranda, creditada aqui com o pseudônimo Susann Korda por solicitação da própria, devido às cenas de nudez e lesbianismo que seriam inevitavelmente exibidas mundo afora. A trágica morte prematura desta atriz de magnética presença só fez aumentar sua legião de admiradores e, por conseguinte, também o grupo de fãs dos trabalhos de Jesus Franco, que foi iluminado o suficiente para adotá-la como sua musa pelo tempo que pôde.

Enquanto assiste a um show privado num clube ao lado do namorado (Andrés Monales), a advogada Linda (Ewa Strömberg) reconhece a moça no palco como sendo aquela que vem assombrando seus sonhos já há algum tempo. Bonita e insinuante, a estranha se torna o principal assunto das sessões de Linda com seu psicólogo, já que ela dá vazão a seus desejos sexuais reprimidos quando sonha. Ao visitar a condessa Nadine Carody (Soledad Miranda) em sua mansão, Linda se depara com a mesma moça, na realidade uma vampira que leva uma vida dupla e se alimenta do sangue de mulheres. Herdeira das posses do próprio conde Drácula, Nadine também se encontra sob a investigação cada vez mais próxima de um tal dr. Seward (Dennis Price), cujas pesquisas na área do vampirismo têm interesses nada ortodoxos relacionados à bela vampira que está seduzindo Linda.

O uso de pseudônimos é uma constante nos filmes dirigidos por Jesus Franco, que aqui é creditado como Franco Manera na cadeira de diretor e, como compositor, David Khune. Dá um trabalho danado saber quem usou o nome verdadeiro em seus filmes. No caso de Vampyros Lesbos, contudo, o que importa é saber que a morena de olhar penetrante e pernas maravilhosas respondia por Soledad Miranda, e sem sombra de dúvida por toda a fascinação relacionada ao filme. Sua personificação da vampira que odiava os homens e amava todas as mulheres, até se deparar com uma com a qual se apaixonou, casa perfeitamente com o erotismo subjacente da história e valoriza o estilo etéreo de Franco, que trilha uma linha bastante tênue entre um trabalho de visionário voyeurismo e uma viagem de ácido de execução amadora e relaxada.

Logo, é preciso dizer que Vampyros Lesbos pede por uma apreciação diferenciada por parte do espectador, por pertencer a nenhuma vertente marginal do gênero em sua época e, por isso mesmo, não poder ser calcado em nenhum molde de filme de vampiro amplamente conhecido. O vampirismo de Jesus Franco, para falar a verdade, é um mero detalhe e, muitas vezes, nada mais que uma desculpa para o desfile de mulheres nuas em cenas de lesbianismo soft. Mesmo com as menções diretas ao famigerado conde Drácula e com a presença de algum sangue derramado, a desconexão narrativa proposital não permite uma impressão completamente certa do que é ou não realidade dentro da história, e este é um desafio que muito provavelmente o diretor não idealizara para a sua platéia. O aspecto intrinsecamente onírico e a sensação de desnorteamento vêm em sua maior parte da edição difícil, um reflexo indireto dos parcos recursos de produção do filme.

Mesmo com suas óbvias limitações, movimentações de câmera tremidas, simbolismos baratos e uma visível carência de coesão narrativa, o filme pertence inegavelmente à categoria de obras que pedem uma segunda sessão para que possam ser assimiladas com mais justiça.

Título original: Vampiros Lesbos
Ano: 1971
País: Alemanha Ocidental, Espanha
Duração: 90 min.
Gênero: Terror
Diretor: Jesus Franco (Ela Matou em Êxtase, Drácula contra Frankenstein, La Maldición de Frankenstein)
Trilha Sonora: Jesus Franco, Manfred Hübler, Sigi Schwab
Elenco: Ewa Strömberg, Soledad Miranda, Andrés Monales, Dennis Price, Paul Muller, Heidrun Kussin, Michael Berling, José Martínez Blanco, Beni Cardosi, Jesus Franco



Vampyros Lesbos – Dedicated to Love
Air – Be a Bee

Nucleador – Inthrash
Demonkratzie – CAPTAlismo
The Renegades of Punk – é uma simples questão de usurpação
Discarga – Repressão subliminar
Discarga – Boicotar
Discarga – Explorar para esgotar
Discarga – O Agora
Discarga – Somente mais um número
Discarga - SPLIT COM HZERO:
- Desacelerar
- Atirar na cabeça
- Qual é a sua cor ?
- Sem causa
- Mar de lama
- Minha sina

Drop Loaded:

Detroit – Rock Pomona
Rinoceronte – o choque

Bloco produzido por Idalício:

Dark – The Car
Fuse – permanent resident
Tear Gas – I´m glad

Pata de Elefante – Dorothy
Lacertae – Santo de casa
Perdeu a Língua – Alto relevo

Dick Dale And his Del-Tones – Misirlou
Chuck Berry – you never can tell
Urge Overkill – girl, you´ll be a woman soon
The Statler brothers – flowers on the wall
Dusty Springfield – son of a preacher man
Samuel L. Jackson – Ezequiel 25:17
The Centurians – Bullwikle PT II
The Revels – Comanche
The Lively Ones – surf rider
The Tornadoes – Bustin´ surfboards

Play Fast or Don´t



Nosso correspondente informal no velho mundo ( esse mesmo, muito bem acompanhado na foto acima ) demorou mas postou em seu blog suas impressões sobre o Festival "Play Fast or Don´t". Devidamente autorizados, reproduzimos o texto abaixo:

Por Juliano Mattos
Fonte: http://errocrasso19.blogspot.com/

É Quinta-Feira, dia 3 de Setembro. Eu chegara a Praga há dois meses, e desde então já havia ido ao Karlovy Vary International Film Festival, ao Obscene Extreme Fest e acabara de chegar de uma viagem de três semanas entre Polônia, Lituânia, Letônia, Estônia e Finlândia. A sensação era a de que mais uma vez o Verão longe de Portugal fora gratificante em todos os sentidos, superando o do ano passado, até. Fisicamente, a exaustão remetia-me à cama ou, quanto muito, aos passeios virtuais na Internet. Mentalmente, havia a ideia de que a “preguicite” não poderia me impedir de desfrutar dos meus últimos dias de férias na capital checa.

Todavia, era a véspera do Play Fast Or Don’t (PFOD), um festival que não tem a logística e estrutura do Obscene Extreme, mas que musicalmente interessava-me mais. Sobretudo este ano, com um set list absolutamente avassalador. Parecia que os organizadores do festival haviam levado em conta o meu gosto pessoal para criarem o cartaz. Comparativamente ao ano passado, quando também tive a oportunidade de ir ao festival, o PFOD mostrava uma grande evolução. Creio que este ano ele firmou-se definitivamente como uma das principais referências da cena Crust europeia e até mundial.

Uma das coisas mais esperadas por mim para o Verão era o PFOD, de forma que o cansaço e o desgaste logo deram lugar à ansiedade e ao entusiasmo. À noite eu iria encontrar-me no centro de Praga com a Kate, o meu irmão Ivan e sua namorada, Andreia. A ida deles à Rep. Checa fora motivada única e exclusivamente pelo PFOD, dando sequência a uma tendência de turismo musical que nos últimos anos contagiou alguns amigos portugas. Não posso dizer que também seja o meu caso, porque as minhas idas à Rep. Checa não têm absolutamente nada a ver com festivais musicais. São apenas eventos simultâneos à minha estadia por lá, e eu não desperdiço as oportunidades.
A Martina, mais uma vez, decidira não ir ao festival. Eu sempre a convido, embora relutante devido ao risco que isso acarreta. Se ela estivesse inteirada acerca do meio musical em questão, para mim não haveria qualquer problema em leva-la, mas como não é o caso…Já a levei a vários shows de Crust no Klub 007 Strahov, mas creio que ela ainda não esteja preparada para um festival de dois dias. Enfim…

À noite, dirigi-me ao centro da cidade para encontrar os três turistas musicais. O combinado fora ajuda-los a encontrar um hostel barato para passarem a noite. O avião atrasara e só os encontrei duas horas após o combinado, junto ao Národní Divadlo (Teatro Nacional). Dali, ainda houve tempo para iniciar o meu irmão na cerveja checa (Pilsner Urquell) antes da despedida às portas do primeiro hostel encontrado, que por sorte era muito barato. Voltaríamos a nos encontrar às 11 horas da manhã seguinte e logo partiríamos, de trem, para Hradec Kralové.

Já no trêm, fizemos a viagem de cerca de uma hora e meia ao sabor de cerveja quente. De fato cerveja quente não é boa e lugar algum do mundo, mas como o objetivo era chegar ao festival já etilicamente alegres, ela serviu para o cumprir. O trêm não tinha cabines, tivemos o azar de não viajarmos no célebre comboio com cabines, autênticos quartos de hotel ambulante. Os vagões assemelhavam-se aos ônibus, com poltronas duplas em sequência. A Kate passou a viagem toda arrotando. Seus arrotos são brutais, e as pessoas olhavam-na enojadas. Até eu, de fato.

Chegando em Hradec Kralové, e depois de sermos ajudados por uma senhora checa que nos indicou o ônibus para o letiště (aeroporto), lá íamos em direção ao PFOD. No mesmo ônibus iam muitas pessoas com o mesmo destino, então em cerca de 20 minutos chegávamos ao destino e bastou segui-las. Era preciso caminhar ainda uns 15 minutos até ao recinto exato do festival. Eu já conhecia o local, afinal foi ali que vira Offspring no festival Rock For People de 2008. Sim, já sei! Offspring é uma merda comercial! Mas ver um show de Offspring não era mais do que mera curiosidade por tratar-se de uma banda referencial no período em que eu iniciava-me nestas andanças do Rock e do Punk. O Show foi uma perfeita merda…a nostalgia não bateu porque eles quase não tocaram músicas antigas.

Chegamos no local e logo montamos a nossa tenda. O espaço reservado para comportar o festival era enorme, muito maior do que o do ano passado. Havia um grande terreno do aeroporto aparentemente abandonado ou utilizado somente para eventos musicais, e uma cerca nos separava do aircraft show, que decorreria em simultâneo ao festival. Para quem não sabe, trata-se daqueles eventos de manobras de aviões militares. A própria organização do PFOD, em seu site, aconselhara que todas as pessoas chegassem na Sexta-Feira porque os acessos rodoviários circundantes ao aeroporto seriam cortados devido ao evento. A ideia de ter aviões fazendo manobras arriscadas sobre a minha cabeça não me soava nada bem, e por diversas vezes suei frio, abrindo sorrisos amarelos enquanto tremia de medo. O Ivo, um colega meu checo, crustie das antigas, quarentão, casado e pai de uma moça pouco mais nova que eu, não compareceu ao PFOD por medo dos tais aviões. Confesso que ponderei várias vezes o mesmo.

Nesse primeiro dia os pilotos treinavam para o evento do dia seguinte, e o faziam sobre nossas cabeças. Poucos minutos depois de chegarmos e montarmos a tenda, já estávamos sentados nas mesas no meio dos checos e bebendo cerveja. Sentamos ao lado de dois rapazes de Ostrava, cidade do Nordeste do país, junto à fronteira polonesa. Em poucos minutos já éramos amigos, embora nenhum deles falasse inglês. Não importa! Nesse tipo de festival há linguagens alternativas que superam a questão do idioma. Os nossos diálogos resumiam-se a pequenos monossílabos e uma mistura bizarra de inglês com checo. Mas a linguagem do álcool é universal, então nos entendíamos perfeitamente na partilha de cerveja, vinho checo e vinho do Porto, que a Kate trouxera com ela. Foi já aí que tive a primeira grande decepção com o festival. A cerveja escolhida para este ano parecia cerveja espanhola de tão ruim que era. Seu nome era Crakonos, oriunda de Trutnov e datada de 1582. Uma cerveja de quase 500 anos! É tempo suficiente para aprenderem a fazer uma cerveja boa, a Pilsner Urquell não tem nem 200 e é aquele suco de cevada cremoso e maravilhoso. Foi até difícil acreditar que a Crakonos era checa, de fato foi a primeira cerveja checa ruim que bebi. Era muito aguada, sem sabor, sem consistência, sem fervura…Falando assim até pareço especialista em cerveja, quando na verdade fui meio straight edge até 2006.

De qualquer forma, a cerveja não poderia estragar o ambiente, sobretudo quando nossos amigos de Ostrava começaram a nos pagar as rodadas. A Andreia já estava ceguinha. A coitada bebera um suposto vinho oferecido por um dos nossos amigos checos e apagou de vez. Isso em menos de uma hora! Eu ficava cada vez mais alegre, já atrevia-me a falar checo para além dos monossílabos e olhava para as manobras dos aviões com a esperança de caírem ou se chocarem. A cada vez que passavam por nossas cabeças, parecia que o efeito do álcool era cortado pelo do medo, mas quando eles passavam mais adiante, acompanhávamos as manobras implorando, aos gritos, que explodissem. O pior de tudo era o barulho que eles faziam. Era estremecedor, parecia os trovões das tempestades que tinham ocorrido em Praga no começo de Julho. Sempre que os aviões passavam, rasantes, emanavam um barulho ensurdecedor que transmitia a sensação de que estavam caindo. E caindo em minha direção. Eu gelava! Olhava à minha volta e via outras pessoas fingindo o gelo que também sentiam na barriga, enquanto outros desfaziam-se em gargalhadas. Mas a grande maioria ignorava totalmente.

Os shows já haviam começado, mas as primeiras bandas não nos despertavam interesse. Era melhor estar ali fora convivendo e bebendo. Nesses festivais o mais gratificante é o convívio com pessoas que nunca vimos na vida mas que parecem ser nossos melhores amigos. E para fazer amizade com os checos não há lugar melhor do que sentado numa mesa e bebendo aquilo que eles veneram: cerveja. Em Praga acontece o mesmo. Um bar lotado é uma comunhão, uma irmandade. Parece que durante o ritual etílico todos os tabus e comportamentos padrões da sociedade desfazem-se. Poderia ser sempre assim. A vida poderia ser uma festa…

Então, em meio aos copos, finalmente encontro a Petra, vocalista da banda grind Idiots Parade, da Eslováquia. A conhecera no PFOD de 2008, quando ela me espancava no meio do mosh durante o show de Unhole Grave. Trocáramos mensagens via Myspace e combináramos que desta vez iríamos beber e “moshar” juntos, já que no Obscene Extreme não nos havíamos cruzado, embora a banda dela tivesse tocado lá e eu estivera no mosh. Ela também parecia uma amiga de longa data, era a primeira vez que nos falávamos pessoalmente e já parecíamos os melhores amigos um do outro. A Petra é muito simpática, o problema é que ela também não falava inglês. Ela nem conseguia ter diálogos curtos, com frases simples. Eu já sabia, porque suas mensagens no Myspace sempre foram esquisitas, óbvias traduções automáticas grosseiras no tradutor do Google. Mais uma vez, apelei para o meu checo, que é até razoável quando estou “alegre”. O checo está para o eslovaco como o português para o castelhano, são similares.

O idioma (ou a falta dele) pode ser uma barreira em conversas formais, mas em festas ele não faz muita falta, afinal todos os diálogos tendem a acabar em goles, abraços e gargalhadas. E foi assim durante todo o festival, com a linguagem gestual e a linguagem etílica preenchendo a lacuna do poliglotismo.

A primeira banda que vi foi Social Chaos, do Brasil. É um crust/grind já bastante batido e sem nada de novo, como disse o meu amigo Adelvan do Programa de Rock de Aracaju. Mas não é preciso ser original para ser bom, certo? A banda tem um som potente e super veloz, gostei bastante, como já gostava nas gravações. Mas já ali, nas primeiras bandas, havia algo errado com o som, que estava uma grande porcaria. Pensei que isso seria resolvido ao longo do festival, mas não foi. Durante todo o festival o som esteve horrível, de forma que todas as bandas, por mais diferentes que fossem, soavam iguais. A única banda que conseguiu de certa forma esquivar-se um pouco disso foi Infame, banda barcelonesa com vocalista brasuca. Sua enorme quantidade de solinhos fez com que algo diferente saísse daquela aparelhagem que só emitia um ruído grave que impossibilitava distinguir os instrumentos. No fim do festival, fiquei com a sensação de que Infame fizera a melhor apresentação, porque foi a única, talvez ao lado de Guided Cradle, que conseguira soar um pouco diferente das demais.

Infelizmente a qualidade sonora do festival acabou por estragar um pouco o ambiente para quem estava muito interessado nas bandas. Eu fiquei super desiludido, porque não é qualquer dia que temos a oportunidade de desfrutar de um cartaz tão bem preenchido, repleto de grandes bandas da cena crust mundial. Mas olhando à minha volta, os checos pareciam não ligar muito para isso, e faziam a festa. Deve ser por estarem tão acostumados em ver grandes festivais repletos de grandes bandas que não dão o mesmo valor que dá alguém que não está acostumado com isso. Para nós, de Portugal, foi uma oportunidade única. Talvez para os checos tudo não passou de apenas mais um festival, sabendo que no próximo ano haverá mais, fora os que acontecerão até ao próximo PFOD.
Outro ponto negativo do festival foi o cancelamento de Iskra, banda canadense de anarco-crust/grind/blackmetal. Ao lado de Guided Cradle era a banda que eu mais queria ver. Eu soubera do cancelamento antes do festival, até escrevera ao pessoal da banda questionando acerca do cancelamento da atuação no PFOD, resposta que obtive do guitarrista Wolf, que me avisara acerca de alguns problemas que levaram a banda a cancelar não apenas a atuação no PFOD, mas toda a tour europeia, prometendo tentar fazer a tour no Inverno ou na Primavera.

No primeiro dia do festival, Social Chaos, Ruidosa Inmundicia e Infame foram as únicas bandas que vi com maior atenção, visto que a maior parte do tempo passei fora do bunker, babando nas bancas de distribuidoras. Mais uma vez o antro do consumismo de material musical underground estava montado e ninguém resistia, tão pouco eu, que não voltei para Praga sem levar umas “lembrancinhas” comigo.

Ruidosa Inmundicia não era novidade para mim. Eu já havia visto a banda austríaca em 2005 num festival anarco-punk na cidade de Évora, em Portugal. Trata-se de um hardcore ultra rápico e melódico com vocal feminino e letras em castelhano devido à proveniência da vocalista, que é chilena. As músicas da banda dificilmente ultrapassam 1 minuto. Fica um pouco a sensação de que as músicas acabam quando estamos começando a entrar no ritmo, mas particularmente gosto muito.

Já Infame é uma banda muito energética. Seu crust’n’roll cheio de passagens melódicas bem grudentas são típicas da cena crust de Barcelona. Alguns chamam de crust melódico, ou neo-crust, numa linha semelhante à cena de Portland, com bandas como Tragedy. Mas Infame tem uma base rock’n’roll muito forte, e além disso possui o Robertinho, cujo vocal não deixa dúvidas para ninguém acerca de sua proveniência. É o típico vocal do HC brasileiro. Infame caiu nas graças do público, que delirou com a apresentação da banda. Eu nunca a tinha visto ao vivo e me surpreendi pela positiva. Foi sem qualquer dúvida uma das duas melhores bandas do festival. A outra fica a critério pessoal de cada um. Para mim foi Guided Cradle.

Curiosidade: antes de Infame começar a tocar, quando já estavam no palco preparando o som, o vocalista Robertinho vira-se para mim e diz: “vai lá chamar o teu irmão para ver o nosso show, cara. Você sai do bunker e vira à esquerda, ele está ali sentado, sozinho, com um copo na mão”.

Lá vou eu à procura do irmão caçula, e encontro o desgraçado sentado no chão ao lado do trailer de cerveja, delirando, totalmente cego, e em frente dele há um checo enorme, em pé, olhando para ele com desdém e fazendo algumas perguntas em checo. Chego para leva-lo para dentro do bunker e ele diz-me que precisa beber água. Seus olhos não fixavam nada, parece que flutuavam dentro de suas órbitas oculares. Estava completamente cego, depois de passar o dia bebendo a horrorosa Crakonos. Tive de o levar meio que à força para ele não partir o coração do Robertinho.

Após Infame, houve o prometido baile dos anos 80, com um DJ passando clássicos daquela década. Foi engraçado ver os crusties todos se deliciando com A-Ha, Madonna, Michael Jackson, Cyndi Lauper e cia. Mas foi ainda mais engraçado quando o DJ passava clássicos locais, ou seja, pop checo dos anos 80. Aí só os checos entendiam, o resto ficava pensando “pô, eu não lembro dessa música”. Curti o baile apenas cerca de uma hora, e depois fui dormir. Eu não havia dormido nada na noite anterior e queria estar preparado para a grande sequência de grandes bandas do dia seguinte. A Kate madrugou com o pessoal de Social Chaos. Juntos, eles usaram e abusaram de LSD e outros “medicamentos”, de forma que na tarde do dia seguinte os caras de Social Chaos ainda estavam totalmente alucinados, e partiram, de carro, para Bratislava, onde tocariam à noite, completamente cegos. A melhor lembrança que tenho da banda é quando vejo seu carro se distanciar, com os braços do baterista de fora, se despedindo de…ninguém!

Voltando atrás, acordei com o barulho estrondoso dos aviões sobre a minha tenda. A cada vez que um deles passava, eu me cagava todo. Foi o que me fez acordar mais cedo e procurar abrigo dentro do bunker. O problema é que havia um vento tão forte que várias tendas já tinham sido arrancadas do chão e levadas por ele. A nossa não teve o mesmo destino porque eu peso 70 Kg. O solo onde estávamos era o que chamamos em Geografia de litossolos, ou solos esqueléticos, com pouca espessura de terra cobrindo rochas, As estacas não afundavam e as tendas ficavam soltas. Tivemos sorte por termos mochilas demasiado pesadas para não permitirem ao vento levar a tenda. Outra sorte foi não ter chovido, porque com um solo daqueles, qualquer chuvinha seria suficiente para o saturar e alagar tudo.

Durante a manhã e parte da tarde, tivemos de conviver ali com os aviões e suas manobras suicidas. As estradas estavam cortadas e a já referida cerca separava o recinto do festival do recinto dos aviões, que estava lotado de gente. Alguns crusties estavam junto à cerca observando os aviões. Mesmo dentro do bunker, durante os concertos, era possível ouvir o rasgo sonoro daquelas máquinas, que ofuscava as guitarras de qualquer banda, ainda mais com aquele som horrível.

A primeira banda que acompanhei foi Infekcja, da Polônia. Uma banda muito legal, como quase todas as bandas polonesas. Pessoalmente, a cena crust/grind/fastcore do leste europeu é a minha favorita. Polônia, rep. Checa e Eslováquia estão muito bem servidas. O problema era o som, que continuava horrível. As bandas sucederam-se e nada do som melhorar. A apresentação de Infekcja foi lamentável por causa disso, e eu já começava a desconfiar de que o som não iria melhorar.

Selfish (Finlândia), The Arson Project (Suécia), Stolen Lives (Rep. Checa), Instinct of Survival (Alemanha), Nuclear Death Terror (Dinamarca), Extinction of Mankind (Reino Unido), Hellkrusher (Reino Unido), Riistetyt (Finlândia), Morne (EUA) e Yacopsae (Alemanha) apresentam-se e soam iguais, com óbvia exceção de Morne, claro. Morne é morno, parece Amebix, super lento e dá vontade de dormir, mas é legal em certas circunstâncias. De resto, só se ouvia um ruído grave e mais nada. Eu olhava para o sujeito responsável pela mesa de som e o queria esganar, mas eu não sabia se era um problema técnico ou um problema da própria acústica do bunker.

Não poderei comentar a apresentação de nenhuma dessas bandas porque a minha memória não as consegue distinguir. Eu estive lá no mosh, mas não consigo recordar-me de uma única música. Só me recordo do ruído.

No entanto, presenciei algo fantástico, uma verdadeira aula de libertinagem e pouca vergonha que não deixa nada a dever ao Obscene Estreme Fest. Durante a apresentação de Hellkrusher, o vocalista de Riistetyt, um velhote com seus cinquenta e tantos anos, mostrou ser um grande conquistador. Ele estava na lateral direita do palco, numa conversa que imagino ter sido picante com uma mulher que não aparentava ser nem finlandesa, nem checa. De repente, e aos poucos, ele começa a tirar a roupa dela, lamber seus seios caídos e roçar em suas partes íntimas enquanto ela delirava. Então ele tira a sua própria camisa, ela entrelaça as pernas no corpo dele, e começam a fazer movimentos de pura excitação. Isso na frente de todo mundo e durante a apresentação de uma das mais emblemáticas bandas europeias. Eu e Ivan observávamos aquilo e nos divertíamos. Cheguei a pensar que eles iriam acasalar ali mesmo, na frente de todos, mas guardaram o coito para mais tarde, num local reservado. De qualquer forma, foi suficiente para eu e Ivan concluirmos que o velhote finlandês era O CARA. Como se não bastasse ser vocalista de uma das mais antigas e influentes bandas do hardcore europeu.

Voltando ao que importa (porque a situação acima referida é de interesse exclusivo do casal envolvido), foi frustrante não desfrutar do show de Hellkrusher! A cada música que passava, eu comentava com alguém se eles já haviam tocado essa ou aquela música. Não dava para saber, era tudo ruído grave e mais nada.

Até que vem Guided Cradle. Três dias antes eu enlouquecera no Klub 007 Strahov. A apresentação deles lá havia sido perfeita, absolutamente brutal! Era a volta deles a Praga depois de irem morar em Portland, EUA. O som estava limpinho, ouvia-se perfeitamente cada instrumento, cada acorde, e ao vivo eles conseguem ser ainda melhores do que nas gravações.

Foi no show que a banda deu no Klub 007 Strahov que eu convenci-me de que Guided Cradle é a melhor banda de crust da atualidade.

Voltando ao PFOD, eu sabia que o som continuaria a mesma merda. Se não havia melhorado até então, não melhoraria mais. Mas abstraí-me desse detalhe, dei a minha máquina fotográfica para meu irmão, e fui curtir. Corri logo para subir no palco e pular. Repeti o ritual quatro ou cinco vezes, até que quase quebrei a perna num salto direto para o chão. Fiquei mais moderado, mas voltei a subir e pular. Era uma loucura total! Dezenas de pessoas subiam no palco e saltavam ao mesmo tempo.

Guided Cradle é uma banda recente, possui apenas dois álbuns, o que é uma garantia de que toca sempre os seus clássicos. E por ter uma estrutura musical diferente, mais complexa e com passagens mais trabalhadas, solos, etc, até que deu para compreender alguma coisa no meio daquele ruído grave.

No final, gostei muito, mas ao mesmo tempo fiquei muito feliz por ter ido no concerto deles três dias atrás, porque naquele show eu pude curtir a música da banda, pude contempla-los enquanto músicos, pude ver a técnica e saborear o som. Eu pensei: “no show do Klub 007 eu não me mexi um único instante, sempre com os olhos colados nos caras tocando. Agora será a desforra”.

Após o show, eu estava exausto, todo sujo e dolorido. Ainda faltava Violent Headache (Espanha), Dirty Power Game (Itália) e Antimaster (México). Eu queria muito ver Dirty Power Game, afinal é a principal influência musical de Winston Smith, a minha banda (que anda adormecida há tempos). Só que o som me impediu de curtir. Eu estava lá com o meu irmão e não entendíamos nada. Olhávamos sempre um para o outro sem saber quais músicas eles estavam tocando. Para se ter uma ideia do estado do som, a apresentação da banda italiana acabou sem a gente saber se ela havia tocado o seu grande clássico, também intitulado Dirty Power Game. Frustrante! A qualidade sonora do festival apresentava-se ainda mais decadente no caso de bandas com sonoridade mais pesada, como é o caso do crust/grind de Dirty Power Game.

Assisti Violent Headache e Antimaster já totalmente acabado. A primeira banda até achei legal e curti um pouco, mas a segunda me fez dormir. Não culpo a banda, até porque já a conhecia e ouço com entusiasmo suas gravações. Culpo o som e o fato de eu já estar totalmente desfeito àquela altura do campeonato. Fazia um pouco de frio e começava a chuviscar. A Kate esteve cega o dia todo, não a vi em show nenhum, exceto no de Guided Cradle. Ivan também já acusava sinais de fraqueza e sua namorada já estava na tenda.

Fomos dormir, exaustos.

Chegando na tenda, encontramos as duas moças dormindo. A Kate sabia que só havia lugar para três pessoas, e havia garantido que algum de seus muitos admiradores arranjaria lugar para ela dormir. Tentei acorda-la, mas ela estava desmaiada. A enorme mistura de drogas leves e pesadas deixaram-na apagada. Tentei puxa-la para fora da tenda, sem piedade, mas não consegui. O jeito foi dormirmos todos juntos ali dentro, uns sobre os outros, com mochilas no meio e chão frio.

Até que aparece o Robertinho, vocalista de Infame, e a leva dali para fora. Para onde, não sei. Fiquei imensamente agradecido e adormeci, já mais confortável.
No dia seguinte, foi acordar, desmontar a tenda, e ir embora. E não houve nada de interessante na viagem de regresso para merecer alusão além do fato de termos viajado, finalmente, no célebre comboio de cabines, no qual passamos a viagem toda no corredor, com a janela aberta, sentindo o ar fresco na cara enquanto observávamos a paisagem rural checa.

Mas uma vez em Praga, a loucura continuou. Foram mais três dias de total boêmia, dias mergulhados em álcool, num exagero poucas vezes atingido por mim. Ivan, Andreia e Kate dormiram na casa da Martina, para meu desespero, que via-me obrigado a responsabilizar-me pela estadia daqueles três na casa da checa. No final, até deu tudo certo.

Durante esses três dias fomos certamente mais de 10 vezes ao Hany Bany, o meu bar favorito em Praga. Lá, conhecemos um estadunidense residente em Praga, que tratou de nos pagar lanches e bebidas. Durante os passeios por Praga, nos quais eu era guia turístico dos três, conhecemos dois finlandeses em Vyšehrad, um rapaz e uma moça. Também o levamos para o Hany Bany, e lá o rapaz, de nome Tofu, desafiou a Kate a tomarem absinto. O absinto original é de cor verde e proibido em Portugal e na maioria dos países da Europa devido à substância alucinógena Artemisia Absinthium. Creio que no Brasil o absinto também é proibido, pelo menos o absinto original. Já na Rep. Checa, ele é legal e bebido normalmente nos bares. A Kate, obviamente, aceitou o desafio.

No último dia da estadia dos três turistas portugas, chegamos a ir 4 vezes ao Hany Bany, e quando não estávamos lá, estávamos andando pela cidade sempre com garrafas de Pilsner ou Staropramen na mão. À noite, ainda fomos jogar bilhar com a Martina. Foram três dias surreais, para finalizar com chave de ouro as minhas férias longe de Portugal.

No dia 9 de Setembro os três portugas regressam ao Porto, numa viagem de avião com escala em Madrid. Eu só voltaria a Portugal duas semanas mais tarde, e ainda tive a oportunidade de ver um show aberto (gratuito), na Staroměstské Náměstí (a praça principal do centro histórico de Praga), do sérvio Goran Bregović.

Apesar da desilusão com o PFOD devido à qualidade sonora, valeu a pena e o convívio criado compensou o fato de não ter sido possível desfrutar das apresentações das bandas.

Ivan reconheceu que a cerveja checa é melhor (muito melhor) que a portuguesa, e escolheu Praga como sua cidade favorita.

No próximo ano, esperamos estar de volta a Praga, ao Play Fast Or Dont e inclusive ao Obscene Extreme.

Parece que o turismo musical entre Portugal e Rep. Checa veio para ficar.

PS: Quero fazer uma dedicatória a duas pessoas. Uma delas é o Ivo, o velhote crustie checo que não foi ao PFOD devido à sua fobia. Sei o quanto ele lamentou não ter ido, e espero encontra-lo lá no próximo ano. A outra pessoa é o Adelvan Kenobi, grande personagem e impulsionador da cena roqueira de Aracaju. Fica aqui reiterada a minha vontade de um dia partilharmos pessoalmente uma gig, seja aí na terra dos papagaios e dos cajus, seja aqui na “zoropa”.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

# 127 - 13/11/2009



The Beatles – Oh! Darling
The Beatles – Octopu´s garden
The Beatles – (naked) The long and winding Road
The Beatles – (naked) I Me Mine
The Beatles – (naked) Across the universe

Discarga – O porque da violência
Discarga – Sob influência

Drop Loaded:

O Melda (Claudão Pilha e sua Monobanda) - Cervejinha Papai
The Dead Rocks – Kalamanawa

Bloco produzido por Joelâne:

Soils of Fate – Bloody Money
Beheaded – Vaults of Ageless pain
Necrophagist – seven
Nile – Kafir !

Atari Teenage Riot – Sex Law penetration
Pitschifter – Second hand
KMFDM – superhero
Big Black – La Dopa

Snooze – FADO

Snooze & The Rubberman:
Pocket show
entrevista

+ DOSOL

Clique AQUI para ler uma resenha vagabunda escrita por Adelvan Kenobi, que viajou ao todo (ida e volta) + de 1500 km de Aracaju a Natal de carro com quatro amigos por uma BR 101 cheia de insuportáveis obras de duplicação inacabadas para ver, basicamente, 1 hora de show (ok, com um monte de bandas excelentes de bônus, mas a verdade é que o grande motivo da viagem foi mesmo ver o Exploited ) e voltou achando que valeu MUITO a pena.

Abaixo, fotos de Reinaldo Rodrigues.